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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.
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10 março 2018

A Cartilha dos Crentes: Orar, Jejuar e Ler a Bíblia



Nos dias de Abraão não existia bíblia, a tradição para se ensinar algo era oral, o pai repassava para o filho as verdades da fé enquanto caminhava com ele no chão dos dias e aquilo ia sendo introjetado como verdade e bem.

Mas quando Jesus fala de Abraão para os Fariseus, diz que ele viu o “Seu Dia” e se alegrou, ou seja, o Patriarca não leu nada sobre isso em um livro, mas fez uma leitura da vida da perspectiva do Espírito, ele não discerniu a partir da letra, mas leu espiritualmente o que estava por vir e isso era para ele mais real do que qualquer texto, "... As palavras que eu lhes digo são espírito e vida". João 6:63, lembram?

É muito comum, no meio evangélico, existir uma certa neurose compulsiva pela leitura da bíblia. Aliás, o trinômio “orar, jejuar e ler a palavra” é quase um mantra na boca dos crentes, revela um sinal de saúde espiritual e quem segue essa “disciplina” está em paz com Deus.

Ora, eu sei que quando se afirma isso ainda se está olhando para a religião judaica, para a oração do templo, que foi substituída por vigílias e cultos, para o jejum meritório, onde se tencionava mover a divindade na direção daquilo que se desejava, e para a leitura do texto sagrado, com o livro nas mãos, hora e local definidos.

Mas em Jesus, todas essas coisas foram extintas, não há mais geografia para o culto, uma vez que ele se faz em todo lugar e a qualquer hora, a oração é em Espírito e em Verdade, interage com as dinâmicas dos fatos, o jejum é aquele ensinado por Isaías, que quebra o jugo da injustiça e me torna solidário a dor do meu próximo, e a leitura da palavra passa a ser a encarnação da Palavra, que é Jesus, em mim, ou seja, eu passo a ler a bíblia a partir daquilo que eu encarno conforme o Evangelho que está em mim, não é mais um fetiche pelo texto, é um chamado a tornar o texto realidade existencial.

Ora, com isso não estou dizendo que não se possa pegar o livro e ler, ainda que eu entenda que o livro já está em mim, na minha consciência, mas que praticar o que se leu é melhor do que ler e não tornar esse saber em nada que não seja “carne e sangue”, não materializar as Verdades das escrituras como concretude no passadiço do quotidiano. Você gosta de ler a bíblia? Fazes bem, até os demônios a leem. Mas você faz a bíblia ser lida em você?


Carlos Moreira



25 maio 2017

Os Pecadores que Amam



Eu não acredito que ninguém possa conhecer a Deus, através de Jesus e do Evangelho, e ainda assim se tornar uma figura retórica, apática, expressando uma espiritualidade tão etérea que não dura para além do culto de domingo.

Conversão, para mim, é visceralidade, é uma experiência de uma violência tal, que as marcas ficam tatuadas na alma, há uma mudança no olhar, no falar e no sentir, o indivíduo nunca mais será o mesmo, algo avassalador lhe revolve as entranhas, um outro ser, cresce dentro de si, pede licença para vir a superfície dos dias, esmaga e consome a velha natureza.

Eu olho para esta geração, para as catedrais lotadas, para os 60 milhões de evangélicos e os 140 milhões de católicos no Brasil, e o que vejo é apatia, é superficialidade, é gente que não tem um centro de gravidade espiritual, nem um caráter modificado, nem gestos largos, nem cicatrizes que marcam a vida.

Na verdade, somos a geração dos crentes de plástico, gente sem alma, sem emoção, sem paixão ou zelo pelas coisas do Reino, sem espírito sacrificial ou compaixão, sem solidariedade. Amontoamos saber teológico, e carecemos de ações de misericórdia, decoramos catecismos e confissões, e nada sabemos da prática da fé expressa na troca com o outro, decoramos versículos bíblicos, e esquecemos as lições elementares de Jesus no Sermão do Monte, somos os reis da retórica e da falácia, mas estamos esvaziados de obras que referenciem a experiência de fé.

Lucas, em seu evangelho, nos fala de Jesus visitando a casa de um fariseu chamado Simão. Na narrativa do cronista, o anfitrião, devidamente acomodado, foi surpreendido pela entrada em cena de uma “Mulher da Vida”. Ela não havia sido convidada, jamais poderia estar ali, mas quebrou todo o protocolo e correu todos os riscos para estar com Jesus.

Diz o texto: “Em seguida, virou-se para a mulher e disse a Simão: "Vê esta mulher? Entrei em sua casa, mas você não me deu água para lavar os pés; ela, porém, molhou os meus pés com as suas lágrimas e os enxugou com os seus cabelos. Você não me saudou com um beijo, mas esta mulher, desde que entrei aqui, não parou de beijar os meus pés. Você não ungiu a minha cabeça com óleo, mas ela derramou perfume nos meus pés. Portanto, eu lhe digo, os muitos pecados dela lhe foram perdoados, pelo que ela amou muito. Mas aquele a quem pouco foi perdoado, pouco ama". Lucas 7:44-47.

A conclusão é de uma obviedade flagrante: quem foi perdoado, quem nasceu de novo, quem foi regenerado pelo Espírito, quem teve a consciência ressignificada, quem sofreu a violência gentil da mudança de natureza, quem experimentou ter o coração de pedra transformado em carne, ama, e o amor cancela todos os pecados cometidos no chão da vida. O resto é etiqueta religiosa, é receber a Jesus sem dar-lhe a importância devida, é seguir prescrições, mas sendo esvaziado de todos os significados mais profundos da fé.

Sim, a lição de Jesus é tão clara, mas apenas aqueles que são como crianças é que poderão entender. O Nazareno não disse que era preciso frequentar templos, nem decorar textos, nem dar dízimos e cumprir liturgias, ele não fala de sacrifícios, de manuais comportamentais, nem de lutas frenéticas contra o diabo, apenas disse que quem ama, está perdoado, e João complementa: “Quem ama, conhece a Deus!”.

Eu não quero andar com “teólogos”, nem com “apóstolos”, nem com os big shots da religião, não quero mais me ocupar de discussões doutrinárias, ou de projetos eclesiais, mega-eventos, marchas ou coisas semelhantes, eu estou em busca de encontrar pecadores que amam, gente que chora e se compadece das dores dos homens e da Terra, gente que me inspire a viver a fé e seguir, a suportar estes dias que são tão difíceis...


Carlos Moreira


09 julho 2015

O Texto e a Palavra




Durante muitos anos eu investi numa leitura científica da bíblia. Digo isso, pois a leitura era baseada no método, no olhar sistêmico, no trato plurifacetado do ponto de vista da epistemologia.

O fato é que, quanto mais lia, mais "sabido" ficava, ao mesmo tempo que ficava, também, mais vazio. 

Eu sempre fui rigoroso com todos os passos da hermenêutica clássica, realizava uma boa exegese, ia ao original grego, ou ao hebraico, usava dicionários, fazia transposições interlineares, usava versões em mais de um idioma, tanto protestantes quanto católicas.

E lá ia eu, tentando me tornar um doutor em bíblia, conhecedor de passagens, dos contextos históricos, sociais, culturais, religiosos e políticos. Cada personagem era tratado com os rigores de seu tempo, cada texto com seu contexto, e ainda existia a possibilidade de criar links com o passado, com o presente e com o futuro. 

Sim, eu acumulei certo conhecimento, mas ainda não havia chegado a Palavra, estava apenas lendo o texto. A Palavra está dentro do texto, mas não é preciso ciência para entendê-la, é preciso iluminação do Espírito! É a Palavra que faz o texto ganhar significados, e não o contrário. 

É certo, todavia, que eu estou tratando da essência de tudo, do Verbo, da Palavra que sempre existiu, mesmo antes do texto, e que se materializa em Jesus e passa a habitar entre nós. Você precisa ter alma para ler a Escritura, e não apenas, mente. Quando assim for, sua leitura será incomparável e, provavelmente, você lerá muito menos do que lia antes. 

A bíblia é para ser degustada, não devorada, é um livro para leitores pacientes, para se ater aos detalhes, em cada versículo pode haver um tesouro escondido! Quem lê a bíblia com essa paixão, com este tipo de olhar, verá a profecia se utilizar da poesia para cumprir seus propósitos, em tudo se perceberá uma beleza singela, capaz de afagar-nos a cabeça e entumecer-nos o coração de esperança e fé. 

Sei que os instrumentos que aprendi tem sua aplicação, mas já há muito que minha leitura é feita apenas de devoção e reverência e os resultados, acredite, são extraordinários. 

Há cerca de 10 anos minha leitura mudou... 

Hoje eu leio a bíblia enquanto a bíblia me lê, e o texto, antes restrito as páginas, salta livre do livro, anda pela sala, pelo quarto, pelo caminho de cada dia, me convida a viver a experiência de sentir como a Palavra encarna verdadeiramente na vida, pois, se não for assim, para o quê ela servirá?


Carlos Moreira

14 maio 2015

Uma Geração que não Sabe Sorrir



Confesso que fiquei surpreso com uma crítica dura que recebi em um post que coloquei na minha time line numa rede social. Como se pode ver na imagem deste artigo, trata-se de um cartoon que se utiliza do bom humor para fazer uma denúncia. As figuras que aparecem no mesmo, como se sabe, não carecem de apresentação nem comentários...
Pois bem, por causa deste dito cujo, recebi a reprimenda de que estava fazendo pilhéria, algo de mau gosto, debochando, ridicularizando os pastores em destaque, que os profetas, ou os apóstolos – Paulo e Pedro – jamais fariam isto, que a denúncia era desmedida, etc., etc.

Ora, não é de hoje que sei que a mente religiosa, além de limitada, é violentamente condicionada pela moral de ocasião, um subproduto da cultura bíblica que, na esmagadora maioria dos casos, é irremediavelmente mal aplicada a contextos diversos da vida. Sim, a igreja neste tempo sofre, dentre outros, de dois males terríveis: ignorância doutrinária e analfabetismo histórico.

O grande mal da alienação que a religião produz é a amputação do indivíduo para a vida. A religião não suporta nada que não seja ligado a “fé”, que não se atenha as suas rotinas, credos e confissões. Para o religioso, arte, cultura, ciência, política, são temas exilados da existência, para nada aproveitam ao “homem-de-Deus”, são manifestações e conhecimentos inúteis que cabem, apenas, ao mundo caído e as suas dinâmicas próprias.

Este confinamento do saber às mídias de cunho espiritual, além de limitar o pensar do indivíduo, bitola-o de tal forma em sua consciência que ele se torna alguém impossibilitado de fazer abstrações, desenvolver um senso crítico, questionar algo ou mesmo se posicionar na contramão do sistema. O resultado é o que chamo de “crente em série”, um produto da igreja-fábrica que oferece a sociedade um sujeito obtuso, do ponto de vista da cultura, e intolerante, da perspectiva da fé.

A trágica realidade é que, a grande maioria das pessoas ligadas à religião, perdeu a capacidade de sorrir. Sim, é um contrassenso uma espiritualidade que, ao invés de tornar o indivíduo um ser melhor, faz dele uma aberração! Esta é uma geração que não consegue se alegrar com nada que não seja pregação ou culto do sagrado. Eles não conseguem rir de uma piada, nem admirar o nu de uma obra de arte, não podem assistir a uma dança popular ou falar sobre economia e política sem o viés da religião.

Eu usei o cartoon para fazer a denúncia – lembrando que este tipo de arte consegue alcançar uma enorme quantidade de pessoas – como poderia ter utilizado uma música do Ivan Lins, criticando o cerceamento da liberdade, ou uma obra de arte de Edvard Munch – como “O Grito” – para falar do desespero humano, ou uma poesia de Pier Paolo Pasolini, denunciando práticas sociais perversas. Eu não vivo numa gaiola, vivo numa sociedade plural!

Portanto, é bom lembrar que a bíblia não é o único canal da manifestação de Deus na história humana, pois a Graça Comum nos revela um Pai que faz com que seu amor alcance pessoas através de meios, não raro, totalmente inusitados e imponderáveis.

Sou um homem do mundo contemporâneo, não posso viver minha fé da mesma forma que Jeremias viveu. Os princípios de Deus são imutáveis, mas as dinâmicas da vida estão marcadas pelas características de cada tempo e da própria história humana debaixo do sol.

Os heróis da fé sempre serão, para nós, uma referência, mas eu preciso encontrar a forma certa para comunicar o Reino de Deus e a Salvação em Jesus para este tempo! Se assim não for, estou correndo o sério risco de afirmar que “Jesus Cristo é a solução”, mas sem saber quais são os problemas que afetam as pessoas neste dia chamado hoje.

© 2015 Carlos Moreira

16 janeiro 2015

A Religião e suas Gaiolas




Eu acho curioso quando pessoas ligadas à religião tentam patentear Deus. Sim, eles querem um deus domesticado, alguém que siga conceitos teológicos pasteurizados, costumes dietéticos, um deus que se submeta a convenções, que siga liturgias, que cumpra agendas, que consiga ser explicado, ainda que não possa ser compreendido.

Olhando esta geração, e conhecendo a história do cristianismo, penso que chegamos à última fronteira, não posso conceber algo pior. A igreja contemporânea tornou a idade das trevas medievais um parque de diversões. O que se faz hoje, em nome de Deus, reduziu a inquisição e as cruzadas a histórias de jardim da infância.     

No Brasil, o fenômeno religioso-cristão é passível de estudo. Ainda que templos e catedrais estejam lotados, as manifestações de fé são cada vez mais patológicas. A quantidade de gente adoecida por causa de crenças perversas e infundadas é alarmante. A religião tem esse poder: quando não sara a consciência, adoece todo o resto. Se Marx fosse vivo, diria que esse tipo de prática é o “Rivotril do povo”.  

O cristianismo brasileiro é, na verdade, uma hidra com muitas cabeças. A igreja de Roma tenta sobreviver à secularização, busca de todas as formas preservar heranças moribundas das práticas ibéricas que submergiram no Velho Continente. A igreja Protestante, por outro lado, é a expressão da perversão, resultado da alquimia que simbiotizou doutrinas judaizantes, positivismo filosófico, costumes das religiões Afro e o pentecostalismo americano do início do século XX. Exceções? Sim, existem, mas pouquíssimas!

Diante deste cenário, resta-nos perguntar: o que nós podemos fazer? Bem, penso eu, nada. Não creio que ação de homem algum, ou de instituição, doutrina, ideologia, métodos ou qualquer outra coisa seja capaz de alterar a situação. A solução não está no que se pode fazer, a partir da Terra, mas do que já está sendo feito, a partir dos Céus! Sim, Deus está se movendo há tempos, nós é que, talvez, ainda não tenhamos discernido. 

Um bom observador, contudo, vai perceber que estamos diante de algo muito próximo ao que aconteceu nos dias de Jesus. Naquele tempo, a religião de Israel adoecera de morte. As práticas eram lesivas, o sacerdócio havia se transformado em exercício político, a interpretação da Lei era tendenciosa, o Sinédrio estava corrompido, a fé havia se dessignifcado. A corrupção era tal que o lugar da adoração transformou-se em centro de comércio, impulsionava a Nação. Nada do que se fazia ali tinha significados para Deus, até o perdão tornara-se negócio, era vendido e comprado por preço. Tudo tão semelhantes aos nossos dias...

Mas Deus tinha seus próprios planos. Ele irrompeu as tradições, desprezou geografias pseudo-sagradas, ignorou hierarquias, sublevou interesses e enviou João, o batista, para o deserto. Lá, ele pregava o arrependimento e conclamava o povo a mudança de vida, afirmava que o Reino de Deus estava próximo, Reino de consciência e fé, não de aparência e opulência.

Na verdade, o Senhor sabia que Anás e Caifás não se converteriam, que Herodes não se renderia a Graça, nem tão pouco o Sinédrio se sensibilizaria ao Evangelho. Por isso João foi enviado ao deserto, sem Templo, sem utensílios sagrados, sem os rolos da Torá, sem lugar para sacrifícios, sem liturgias, sem levitas, sem nada que não fosse o Espírito Santo, a Voz do que clamava no deserto! Nós sempre imaginamos que a solução para tudo está do “lado de dentro” da igreja, mas Deus, não raro, começa agindo no deserto, do “lado de fora”!

Dali por diante, quebrados os paradigmas, o Galileu foi “destruindo” o que encontrou pela frente, mitos foram caindo, um por um. Ele afirmava as multidões: “Ouvistes o que foi dito aos antigos...” e expunha os preceitos caducos da Lei. Em seguida, todavia, afirmava com autoridade: “Eu, porém, vos digo...”, e dava novo significado a tudo. Com leveza, o Evangelho foi sendo fecundado no coração das pessoas e os simples de coração puderam entendê-lo.

A igreja cristã brasileira pensa ser proprietária da fé em Jesus. Católicos e Protestantes se arvoram como legitimadores do Evangelho. Trancafiados em suas “gaiolas”, imaginam que o Senhor juntou-se a eles. Engano. Deus é claustrofóbico! Saiu da “arapuca” faz tempo. Aqueles que ainda enxergam e são honestos sabem que o “sistema” está condenado! Sim, há muita gente boa na Instituição-Igreja, gente de Deus, mas a luta deles é inglória, não há como salvar aquilo que já nasceu condenado. A igreja de Jesus triunfará! A dos homens, não...  

É tempo de perceber o que o está acontecendo! Milhares começam a surgir, de todos os lugares, filhos da Esperança e da Graça, e esses não estão vinculados a nada, são apenas pessoinhas do bem, gente de coração singelo e boa consciência, sem tradições, sem liturgias, credos ou dogmas. Eles vão por aí, estão em pequenos grupos, em ajuntamentos informais, comunidades livres, partem o pão, falam com Salmos, sensibilizam-se com as dores das pessoas, comprometem-se com ações que promovam a dignidade humana e a preservação do Planeta.   

O que posso lhe dizer, depois destes mais de 30 anos caminhando com Jesus, é que “O vento sopra onde quer. Você o escuta, mas não pode dizer de onde vem nem para onde vai”. Há, novamente, muitas vozes que clamam no “deserto” e elas estão anunciando o arrependimento e a Salvação. Algo está se movendo, cada vez mais veloz, o Vento está soprando, livre e leve, portanto, discirna para onde está indo e siga junto com ele.

© 2015 Carlos Moreira

Outros textos podem ser lidos em http://anovacristandade.blogspot.com

09 janeiro 2015

Tiete da Religião ou Filho do Evangelho?



A religião muda rotinas. 
O Evangelho muda pessoas...
A religião se propõe a ocupar prédios.
O Evangelho se dispõe a ocupar mentes...
A religião molda as pessoas. 
O Evangelho muda as pessoas...
A religião consegue transformar pessoas boas em más.
O Evangelho é capaz de transformar pessoas más em boas...
Na religião, a Verdade é uma ideologia.
No Evangelho, a Verdade é uma pessoa...
A religião anestesia o pensamento.
O Evangelho reconstrói a consciência...
A religião se ocupa em edificar impérios.
O Evangelho se compromete a edificar pessoas...
A religião desafia você a ler as Escrituras.
O Evangelho instiga você a encarná-las...
Na religião, a confissão é uma liturgia do culto.
No Evangelho, a confissão é uma liturgia da vida...
Na Religião:
“Sem dízimos, nada podeis fazer.
No Evangelho:
"sem Mim, nada podeis fazer"...
Na religião, arrependimento é um pesar por aquilo que eu faço.
No Evangelho, arrependimento é a consciência sobre quem eu sou...
A religião põe a bíblia em suas mãos.
O Evangelho a põe em seu coração...
A religião propõe uma Reforma.
O Evangelho, uma nova forma...
Na religião, há muitos culpados e muita culpa.
No Evangelho, há muitos culpados e nenhuma culpa...
A religião raciocina com a categoria do "todos por Um". 
O Evangelho, com a factualidade do "Um por todos"...
A Religião muda à forma.
O Evangelho muda a "fôrma"...
Vem e segue-me, propõe o Evangelho. 
Vem e senta-te, propõe a religião...
O Evangelho lhe desafia a seguir a Jesus.
A Religião lhe propõe seguir-se a si mesmo...
A religião nos leva a buscar coisas.
O Evangelho nos desafia a abraças causas...
O Evangelho propõe: "Negue a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me".
A Religião propõe: "Negue a sua cruz, tome a si mesmo e siga-se"...


Agora, a pergunta que não quer calar: você é religioso ou é gente do Evangelho?

Carlos Moreira


11 dezembro 2014

O Paraíso é Aqui



Sem dúvida alguma, um dos maiores fenômenos da tecnologia nos últimos anos são as chamadas redes sociais. Elas nos oferecem interação em tempo real com uma comunidade de pessoas, muitas das quais conhecemos intimamente, outras nem tanto, além de permitir que fatos e circunstâncias de nossas vidas possam ser vistos e comentados por terceiros.
Uma dessas redes sociais, que tem por objetivo promover diversão, criou um produto que permite que residentes do universo online possam viver uma vida paralela. Nele é possível trabalhar, estudar, passear, namorar, fazer compras, vender, ter novos amigos, viajar, ou seja, experimentar quase todas as dinâmicas de uma vida real.
Contudo, para os usuários do programa, a maior vantagem do metaverso tridimensional é que você pode ser quem quiser, ter uma outra vida, um alter ego, ser totalmente diferente de quem na verdade é! Nele você pode ser famoso, rico, bonito, saudável, bem empregado, ou seja, ter ou ser tudo o que você sempre quis, mas que, talvez, nunca tenha conseguido.
Sociologicamente falando, é curioso perceber esse fenômeno da contemporaneidade que está presente nas redes sociais. Nelas é mesmo possível ter uma vida dentro da própria vida, pois o ambiente virtual permite que qualquer um seja e se apresente da forma como bem desejar! Na verdade, a grande maioria das pessoas está ali se relacionando com outras tantas que nem sequer lhe conhecem bem, ou mesmo que nunca lhe viram pessoalmente.
Eu sou usuário de uma dessas redes. Entro lá para divulgar mensagens, artigos, reflexões, frases e pensamentos. Como não tenho tempo para ficar analisando o que se posta, às vezes dou uma olhada rápida no feed de notícias para ver o que aparece por lá... É como se você ficasse diante de um grande mural onde as pessoas postam as mais diversas informações: textos, músicas, imagens, vídeos, piadas, e tudo o que, eventualmente, lhes chama a atenção.
Obviamente, o material publicado pelas pessoas muda de acordo com os conteúdos interiores que em cada um existe, com sua matriz de valores. Como somos uma geração com muita aparência e pouca consciência, tenho percebido que, cada vez mais, encontro coisas inapropriadas e desagradáveis. Recentemente, inclusive, cheguei a afirmar que esse “ambiente” estava parecendo um grande lixão, onde é preciso um esforço hercúleo para encontrar algo que se aproveite.
Mas o que mais me impressiona nas redes sociais é o fato de que boa parte das pessoas vive, na grande maioria do tempo, uma enorme mentira, pois estão mergulhadas numa vida que não lhes pertence. É gente que está despedaçada fazendo piada, casais em crise postando fotos de amor, profissionais frustrados contando vantagens, pessoas solitárias compartilhando experiências maravilhosas, pais descuidados em fotos belíssimas com os filhos, gente flertando e contando lorota, etc.
Em resumo, é muita encenação e pouca verdade! O grande perigo de tudo isso é descuidar nos exageros e cair no que bem citou o escritor Millôr Fernandes: “Jamais diga uma mentira que não possa provar”.
Triste geração esta, onde ser o que se é tornou-se algo insuportável. Por isso, precisamos tanto do disfarce, de algo que nos projete da falsidade real para a realidade virtual. Tem toda a razão Erich Fromm, psicanalista alemão, quando afirmou: “Somos uma sociedade de pessoas com notória infelicidade: solidão, ansiedade, depressão, dependência; pessoas que ficam felizes quando matam o tempo que foi tão difícil conquistar”. E me responda, com total isenção e honestidade, em que lugar se “mata” mais o tempo do que nas redes sociais?
Diante de tudo isso, alguém pode afirmar que sou contra a tecnologia. Não, não sou. Mas, confesso: sou totalmente cético quanto ao fato de que a tecnologia pode nos tornar pessoas melhores e dar à humanidade um futuro mais tranquilo. E aqui lembro de George Carlim, escritor norte-americano, que afirma: “Construímos mais computadores para armazenar mais informação, produzir mais cópias do que nunca, mas nos comunicamos menos”.
Escrevi esse texto porque estive conversando com uma pessoa que conheço há bastante tempo – alguém que não pode me esconder os contornos de sua vida – e percebi que seu estado era preocupante. Sim, senti suas dores, discerni sua angústia, “inalei” sua tristeza, “sorvi” sua solidão, “degustei” sua ansiedade, seus medos, sua aflição . Foi um diálogo longo e difícil...
Todavia, na manhã posterior a essa nossa conversa, quando fui divulgar algo nas tais redes sociais, percebi que o dito cujo havia postado piadas e fotos engraçadas, contando vantagens e falando bobagens, como se nada do que está “depositado” nas gavetas do armário de sua alma fosse real.
Diante do ridículo da situação, e com certo ar de decepção, não me restou outra alternativa a não ser relacionar tudo aquilo com a velha canção do Bee Gees – “ Jive Talking ” – cujo título, numa tradução livre, pode ser compreendido como: “Papo Furado”. Sim, meu “mano”, tudo aquilo que foi publicado não passou de conversa mole, dissimulação e mentira.
Por isso, tenha muito cuidado ao navegar pelas redes sociais, pois, do outro lado da linha, tem gente de carne e osso – e não estátuas! Certo mesmo estava cantor e compositor Renato Russo ao afirmar: “Mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira”. E viva o ciberespaço!

Carlos Moreira


30 dezembro 2013

Feliz 2014!



Com esta adaptação de "Águas de Março", de Tom Jobim, me despeço de 2013. Em 2014, vamos trabalhar para reverter tudo isso!

É voto, oferta, é o fim do caminho
É um bando de loucos, é um crente tolinho
É pastor que é bandido, é mentira sem dó
Distorção da Escritura, é o laço sem nó

Oração que é encanto, é unção financeira
É o mergulho no manto, culto da sexta-feira
É unção do pulinho, é joelho no chão
É o mistério profundo, é uma revelação

É o líder caindo, é promessa em ladeira
É fofoca, é inveja, é um queira ou não queira
É a chuva chovendo, é conversa fiada
É profeta que mente, é oração enguiçada

É na fé, é na unção, evangelismo na feira
Livramento na rua, é a marcha estradeira
É um anjo no céu, uma arca no chão
Um shofar, uma bíblia, e óleo pra unção

Isso é o fundo do poço, isso é o fim do caminho
É o vinho sem mosto, é um povo fraquinho
Vai tu hoje, eu que prego, é exegese sem ponto
Púlpito amordaçado, a mensagem é um conto

É o povo, constrangido, é a prata brilhando
É o dízimo com medo, devorador chegando
Lenga-lenga, euforia, mente cauterizada
É catarse, é doidice, é o fim da picada

É o projeto do templo, é campanha, é um drama
Pra sair do atoleiro, é a lama, é a lama
É a rosa, é o lenço, a chave do amanhã
É demônio caindo, tá amarrado satã

Com o Evangelho é possível mudar tal situação
Pois tem promessas de vida pro teu coração

Me contaram de um tal, crente que é mané
Deu de oferta a casa, quase perdeu a mulher

Com o Evangelho é possível mudar tal situação
Pois tem promessas de vida pro teu coração

Mau, queda, fim, caminho
Rezo, pouco, mas não tô sozinho
Creio, faço, vida, sol, noite, morte, luz, suor  

Com o Evangelho é possível mudar tal situação
Pois tem promessas de vida pro teu coração


Carlos Moreira

26 dezembro 2013

Quando o Amor não é o Bastante



Em Recife, o tradicional Quartel do Derby, sede do comando da Polícia Militar, foi palco de duas grandes celebrações nestes dias natalinos: uma no dia 24 de dezembro, que reuniu os católicos na tradicional “Missa do Galo”, e a outra, no dia 25, que reuniu os evangélicos para o culto: “Que Haja Paz na Terra”. 

As celebrações reuniram milhares de pessoas e tiveram momentos de fé, alegria, e gratidão a Deus. Também foi possível apreciar, em ambos os encontros, as belíssimas apresentações de grupos musicais, além das homilias que lembraram o nascimento de Jesus. A mensagem dos católicos foi proferida pelo arcebispo de Recife e Olinda, Dom Fernando Saburido e a dos evangélicos, pelo presidente da Assembléia de Deus local, Pr. Ailton José Alves 

Tudo foi muito bonito! Só uma coisa, todavia, não foi possível de se ver: os dois grupos celebrarem este momento de gratidão a Deus juntos! Sim, para tristeza dos que percebem o que acontece nos bastidores da religião, ambas as confissões não puderam, com suas ações, anunciar a maior de todas as mensagens: a Boa Nova do Evangelho que afirma que Deus encarnou entre os homens para dar-lhes a esperança da Salvação. 

Não foi possível para os católicos, ter os evangélicos em sua celebração, assim como não foi possível para os evangélicos, ter os católicos na sua. É que este encontro poderia ser explosivo! A inimizade é histórica, e desperta os mais hostis sentimentos. Ambos os grupos, inclusive, atrevem-se a se considerar a única e verdadeira igreja de Jesus Cristo sobre a Terra. Também é fato que os dois reivindicam para si a chancela dos céus e o direito de propriedade ao uso do nome de Deus. 

É um contra-senso, mas é real! A posição assumida por estas duas igrejas, contudo, vai violentamente de encontro ao ensino de Jesus. Em sua oração sacerdotal, em João capítulo 17, o Galileu afirmou: “Pai, eu oro para que eles sejam um, assim como Tu ó Pai e Eu somos um... Faço isso para que o mundo creia que Tu me enviastes”. Para o Cristo de Deus, o amor bastava. Mas, para os cristãos...

De fato, uma celebração conjunta não seria mesmo viável. O bispo católico, por exemplo, iria ser criticado por suas vestes sacerdotais e, ao mesmo tempo, o pastor evangélico, por sua homilética mais exaltada. Não seria possível também realizar a eucaristia, pois um grupo crê na transubstanciação e o outro se divide em posições teológicas distintas, tais como: um memorial, a consubstanciação e a presença mística. Em resumo, no altar que celebra a Deus, se um grupo se fizesse presente, o outro seria excluído. 

Outro problema que precisaria ser enfrentado diria respeito às canções a serem entoadas. É que os evangélicos rechaçam a adoração a figura de Maria, mãe de Jesus, e se recusariam a cantar algo que fizesse alusão a ela. Ao mesmo tempo, os católicos possuem aversão aos líderes da Reforma do século XVI, que compuseram alguns dos belíssimos hinos que estão presentes no hinário protestante. 

E assim, por total impossibilidade de celebrarem conjuntamente o nascimento do Deus que se fez homem, em Recife, católicos e evangélicos tiveram duas celebrações. Mas é importante que se diga que Jesus encarnou para salvar a humanidade, da qual fazem parte católicos, evangélicos, espíritas, budistas, islâmicos, judeus, pois, conforme a Escritura, a única religião de Deus é o amor. 

Portanto, na celebração do Natal, os cristãos podem até dizer uma parte da passagem do Evangelho que afirma: “Glória a Deus nas alturas!”, mas, em definitivo, não podem dizer a conclusão da citação que expressa: “E paz na Terra aos homens de boa vontade.”.

Carlos Moreira

10 julho 2013

A Última Impressão é a que Fica



Na sociedade da imagem, o que importa é causar impacto logo na partida, pois o senso comum afirma que “a primeira impressão é a que fica”. Mesmo que tudo seja uma farsa, é melhor parecer sem ser do que ser e não aparecer.

Esse também é um tempo de busca por resultados: acionistas esperam resultados, clientes desejam resultados, o mercado projeta resultados. As pessoas não pensam, apenas executam. Ninguém se pergunta: “por que isso está sendo feito?”. Ao contrário, afirmam: “tem que ser feito, está na programação!”.

Essa dinâmica produziu um fenômeno ligado à fé: o evangelho burocrático. Ele transformou a igreja numa fábrica e os discípulos em trabalhadores. No evangelho burocrático a mudança da vida não é algo imprescindível, pois é possível viver apenas uma projeção. O que se requer é tão somente o engajamento do indivíduo na linha de produção da igreja-fábrica, de tal forma que ele siga as rotinas da religião, e isso sem questionar nada. É o “fordismo” cristão!

Esse “trabalhador”, então, passa a se envolver em campanhas, obras sociais, ministérios para-eclesiásticos e na evangelização, todas tarefas que movem a “engrenagem”. A grande maioria, todavia, produz ações inócuas, pois as realizam sem as motivações corretas para fazê-las. É que mudar a agenda não implica em mudar a consciência! De que adianta cumprir a grade da programação e, fora dela, a vida continuar seguindo insólita?   

Essa neurose obsessiva em realizar se faz acompanhar por aquilo que chamo de “síndrome do camaleão”. Trata-se de uma metamorfose epidérmica, calcada na imagem. As mudanças são condicionadas, estão associadas a contextos, ambientes, etc. É a fé teatralizada, que se adéqua as demandas sociais, que “posa para a foto”, porém, fora dessa ambiência, a vida agoniza em meio a desencontros pessoais, desarranjos familiares e desvios profissionais. 

Ora, a proposta do Evangelho tem a ver com a ressignificação da vida, não com a realização de um trabalho! Deus não está atrás de trabalhadores, mas de adoradores. E adoração não é algo associado a nenhuma arquetipia estética, ou a geografias do sagrado – “nem neste monte nem em Jerusalém” – mas ao que acontece “em espírito e em verdade”, no chão da Terra, em qualquer lugar e em todo tempo, pois o altar é o coração e o culto é a vida! Além disso, tem que ser expressa em absoluta verdade, pois toda performance que se constitui estelionato do ser é abominação a Deus.   

Alguém já afirmou que o caminho de todo discípulo é uma maratona, não uma corrida de cem metros. Mais importante do que começar bem, é terminar bem. Muitos começam bem, mas terminam mal! Talvez por isso o sábio do Eclesiastes afirme: “o fim das coisas é melhor do que o seu início...”. Ec. 7:8. Nas palavras de Paulo, seria como dizer: “combati o bom combate, completei a carreira e guardei a fé”. Assim, mais importante do que contabilizar “o que você fez”, é saber “por que você fez”.

“O que vale na vida não é o ponto de partida e sim a caminhada. Caminhando e semeando, no fim terás o que colher...”. Cora Coralina. Estou certo de que, ao final da jornada, quando o Senhor me chamar, tudo o que me tornei será registrado em uma “lousa de bronze”. Nela constará aquilo que, em Deus, eu conquistei, o que o Espírito produziu em mim. Essa será a minha glória, representará o mais perto que eu consegui chegar da estatura de Jesus, o meu Senhor.

E assim, olhando desta perspectiva e pensando na eternidade como a fronteira mais avançada, a última impressão é a que fica, e não a primeira, pois o mais relevante na soma das ambiguidades da vida é quem você se tornou e não o que você fez.   

Carlos Moreira

17 maio 2013

Nota de Falecimento




Hoje tomei conhecimento de algo que já era aguardado por muitos: a notícia de que o cristianismo faleceu. Ao contrário do que talvez se pense, não foi uma morte repentina, uma vez que sua falência múltipla já se arrastava por, pelo menos, meio século. Morreu de infecção generalizada!

Na verdade, a saúde do cristianismo nunca foi boa. Isso podia ser percebido já em seus primeiros anos. Sua origem está associada ao movimento chamado “os do Caminho”, que remonta aos primeiros discípulos de Jesus, o Cristo. No segundo século, este grupo havia crescido assustadoramente, tinha seguidores em todas as camadas da sociedade e na maior parte do mundo habitado.

No terceiro século, todavia, o “movimento do Caminho” sofreu um duro golpe: foi transformado pelo imperador romano Constantino na religião oficial do império. Essa institucionalização, que se deu em 325 d.C., numa reunião denominada de Concílio de Nicéia, estabeleceu a ruptura definitiva entre os antigos seguidores de Jesus e os que passaram a organizar e normatizar essa nova fé.

A idade média foi muito dura com o cristianismo. Já como religião dominante do ocidente, ele viu-se em voltas com inúmeros problemas. Teve de lidar, dentre outros, com a infiltração e o crescimento de falsas doutrinas, além da grave corrupção do clero. Apesar de ter se estabelecido como um poder terreno, tanto político quanto religioso, começava a apresentar os primeiros sinais de doença grave.

O auge dessa crise, contanto, se deu na idade moderna, no século XVI. Foi nesse período que o cristianismo enfrentou mais um sério problema: o seu mais contundente cisma. Denominado de Reforma Protestante, foi liderado por um monge alemão de nome Martinho Lutero, e refletiu o desejo de mudança que já se podia sentir pelo menos 200 anos antes.   

As intenções da Reforma eram boas, mas seus desdobramentos mostraram que ela não se constituiu no remédio definitivo para a “cura do mal”. Polarizado, tendo de um lado a igreja de Roma e do outro as centenas de denominações Protestantes, o cristianismo começou a agonizar. Na idade contemporânea, estava infectado por politicagem, corrupção, desvios, fragmentações, o que acelerou o agravamento de sua situação.

O século XXI iniciou com o cristianismo já em estado de coma. Os últimos anos do século XX foram decisivos para sua decadência final. Os problemas generalizaram-se, em todas as esferas, e atingiram duramente seus líderes. Escândalos sem precedentes marcaram sua derrocada. Entre os mais graves, casos de pedofilia, de enriquecimento ilícito, prostituição no clero, lavagem de dinheiro e os sucessivos e agora insustentáveis desvios doutrinários. A morte era só uma questão de tempo. Enfim, chegou.

Quero aqui me solidarizar com mais de dois bilhões de fiéis que ficaram órfãos de sua religião. Sinto a dor dos que foram manipulados, espoliados, dos que foram iludidos com falsas esperanças. Sim, choro com você que acreditou num deus feito pelos homens, numa fé calcada em magia, numa proposta de mudanças epidérmicas, que alteram a aparência, mas que jamais chegam aos escaninhos da alma e as câmaras do coração.

Querido amigo, sou reverente com sua dor. Sinto pelo engano do qual você se tornou vítima. Apesar de sua mente ter passado por uma “lavagem”, sua consciência nunca foi ressignifcada. Suas práticas não lhe levaram a nada porque eram apenas ritos ocos, regras tolas, nunca se constituíram em mudança profunda no caráter que produzisse furtos de justiça.

Estou certo que suas intenções eram boas. Mas, convenhamos, é impossível que doutrinas judaizantes, simbiotizadas com religiões de mistérios antigas e filosofias gregas, sobretudo a lógica aristotélica, pudesse fazer alguém transcender e chegar ao Deus Eterno. Isso, creia-me, só é possível por meio do Sangue de Jesus de Nazaré, uma vez quebrantado o coração por causa da Graça e acesa a consciência para o arrependimento por meio da fé.

Notícias que chegam a todo instante dão conta de que o sepultamento do cristianismo ainda não tem data certa. Neste momento, há intensa discussão sobre o local, que poderá ser a Basílica de São Pedro, a catedral de Westiminster ou a catedral de Canterbury, e também sobre quem deverá ser o oficiante da cerimônia.

Em todo o mundo, grupos religiosos se preparam para receber o “espólio” dos cristãos, não só os bens da igreja, que são numerosos, mas, sobretudo, as pessoas. Acredita-se que a migração será fragmentada, com grupos aderindo ao islamismo, outros retornando ao judaísmo, e ainda os que buscarão religiões espiritualistas orientais.

A boa notícia, em meio a toda essa tragédia, é que ainda sobrevive um pequeno remanescente dos que acreditam em Jesus de Nazaré. Em todo o mundo, discípulos do profeta da Galiléia continuam a reunir-se em casas, escolas, pequenos auditórios e igrejas para celebrar ao Deus Verdadeiro. Eles se dizem oriundos do “movimento do Caminho”, o qual está associado aos primeiros apóstolos e pais da igreja dos dois primeiros séculos.  

Esse grupo permanece, até hoje, fiel a Escritura Sagrada, amando a Deus sobre todas as coisas e sendo solidário com o próximo. Curiosamente, eles sempre se fizeram presentes na história, ora coexistindo dentro do próprio cristianismo, ora correndo paralelo a ele. Surpreendentemente, a fé destes discípulos de Jesus sobreviveu há séculos de crendices e hoje parece ter se tornado madura e consistente.

Trata-se de gente carregada de uma singeleza no olhar, pois eles são mansos, humildes, cheios de compaixão e misericórdia. Não será difícil reconhecê-los. Estão sempre dispostos a ajudar, são coerentes com aquilo que pregam e vivem, falam de esperança, amam com sinceridade, são desapegados.

Quais errantes, eles estão em todo lugar, e sempre anunciam o que chamam de Evangelho. Essa mensagem milenar, que parecia totalmente esquecida, apregoa que Deus se reconciliou com os homens por intermédio de Jesus, não mais imputando aos mesmos os seus pecados, mas assegurando a todo o que crê a vida eterna.

Quem desejar conferir que fique atento! Pode existir um grupo destes bem próximo a você. Vale a pena visitá-los e conhecer a extraordinária mensagem que eles carregam encarnada em si mesmos.

Carlos Moreira 


13 maio 2013

Eu Porém vos Digo...



Quando Jesus começou a anunciar o Reino de Deus, sua proposta não se referia a mudanças na religião de Israel, mas tratava da transformação da consciência dos indivíduos. Estava claro que seu objetivo não era fazer remendos na debilitada lei judaica, mas instaurar um novo proceder que fosse para além das questões relativas à norma.

“Ouvistes o que foi dito...”, afirmava o Galileu. Sua fala referia-se aos velhos ditames da Torá. Ele estava confrontando àquilo que era discernido como espiritualidade, mas que, na verdade, envenenava a alma. Aquela geração vivia calcada em regras estéreis, baseadas na estética comportamental, que valorizavam a performance. Jesus, todavia, oferecia conteúdos éticos, que transformavam interiores e regeneravam o ser.

“Eu porém vos digo...”, insistia Ele. Era uma proposição que visava ressignificar práticas existenciais. A lei havia caducado, transformara-se num conjunto de doutrinas perversas e tradições histórico-culturais. Chegara a um ponto em que era melhor deixar alguém sofrendo com um aleijão do que curá-lo em dia de sábado. Instaurara-se no coração dos homens a condescendência com a hipocrisia.

Estou certo de que um dos maiores perigos da religião é quando ela vira ideologia. Se perguntarmos a alguém em uma comunidade se ele já aceitou a Cristo, ouviremos: “sim, eu tomei essa decisão. Certo dia levantei minha mão e dei um passo à frente”. Esse ato, todavia, raramente é seguido de qualquer mudança interior, pois o que o sujeito fez foi dizer que concorda com as regras seguidas pela coletividade.

É um tipo de “decisão” que não possuiu qualquer desdobramento para dentro, restringiu-se ao que se pode perceber do lado de fora. Ela fez com que o sujeito incorporasse trejeitos, mudasse o tom da fala, alterasse a agenda. Tudo isso, contudo, jamais se projetou para o ser. Conversão, de fato, diz respeito a mudar a consciência, com vistas a que se possa materializar no caminho “frutos dignos do arrependimento”.

Quando isso acontece, a pessoa é capaz de perceber o outro, solidarizar-se com os caídos, tornar-se reverente com a dor do que sofre, aceitar o diferente, buscar a justiça, falar a verdade, amar sem ser amado. Não existe fé que não se desdobre! Uma espiritualidade voltada para si mesmo adoece todo aquele que dela se torne refém.

“Se a justiça de vocês não for muito superior à dos fariseus e mestres da lei, de modo nenhum entrarão no Reino dos céus”. Essa é a difícil constatação de Jesus. Tenho percebido que há mais gente de bem fora das igrejas do que dentro delas. Vejo cristãos se esforçando para tentar chegar à média comportamental da sociedade. Triste ver que somos um povo cheio de carismas, mas totalmente esvaziados de caráter.      

Em tempos de prosperidade, falsificação doutrinária, barganhas com o sagrado, querer viver o bom e simples Evangelho coloca a pessoa na contra-mão do fluxo. Fazer o quê? Talvez, lembrar de Isaías: “Senhor, quem deu ouvidos a nossa pregação?”.

Carlos Moreira

18 janeiro 2013

Eu, Dublê de Deus?



“Chegando Jesus à região de Cesaréia de Filipe, perguntou aos seus discípulos: “Quem os outros dizem que o Filho do homem é?”. MT. 16:13


Curioso Jesus fazer esta pergunta? Não parece coisa de gente insegura, que está preocupada com a opinião pública? Para mim, todavia, Jesus estava interessado em saber o que os discípulos pensavam, e não a multidão, pois, logo em seguida, questionou: “e vocês? Quem vocês dizem que Eu sou?”. Pedro, impetuoso como sempre, foi quem declarou: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!”. 

Entretanto, o mesmo Pedro, que fez a “confissão bombástica”, não muito depois, foi duramente repreendido pelo Senhor: “arreda daqui satanás, pois és para mim uma pedra de tropeço”. Como pode, num momento alguém ser usado por Deus e, no outro, pelo diabo? Por que isto acontece? 

A questão gira em torno de dois eixos importantes para a nossa espiritualidade: a confissão e o testemunho. Confessar é algo fundamental, pois, conforme as Escrituras, se cremos com o coração precisamos declarar com a boca aquilo que foi introjetado na consciência por meio da fé. Mas o processo não para por aí... Quem confessa algo, deve materializar na prática aquilo que exprime crer como reflexo do ser. A confissão em si mesma é como uma lata vazia, que apenas ressoa os sons que dentro dela são produzidos. 

Para nossa tristeza, assim tem sido o cristianismo, muito parecido com a confissão de Pedro, retórica pura. Muita falação, mas pouco testemunho. É uma religião de garganta, verborrágica, contudo sem respaldo da vida, sem ações e desdobramentos que transformem os conteúdos em prática existencial. A pergunta de Jesus, todavia, não vai calar: “E vocês? Quem vocês dizem que eu sou?”. Quem é Jesus para você? Melhor ainda: como você transmite isto às pessoas?

Perceba, se sua resposta é apenas um discurso teológico, sem respaldo das ações práticas, você pode ter se tornado um teórico da religião, que confessa algo com a boca, mas que não materializa com a vida. A melhor forma que há para se dizer as pessoas quem é Jesus é a partir de sua própria encarnação dEle – “já não sou eu que vivo, mas Cristo vive em mim” – como se você fosse um dublê, alguém que assumiu o papel do outro. Isso, de forma alguma lhe descaracterizará, pelo contrário, você será mais você tanto mais a vida dEle esteja simbiotizada com a sua, pois o propósito eterno de Deus é ser o Pai de uma grande família de muitos filhos semelhantes a Jesus! 

Finalizo com as palavras sábias de São Francisco de Assis: “viva o Evangelho. Se necessário, fale sobre ele”. 

04 janeiro 2012

Álbum de Retratos




Desde pequeno sempre gostei de fotografia. Lembro que ganhei minha primeira máquina quando viajei de férias para o Rio de Janeiro, em 1981. Era uma Kodak, pequena, e tinha muito menos recursos do que a que tenho agora no meu telefone celular.

Quem viveu essa época lembra-se que era muito comum a gente ter vários álbuns de retratos, quase todos confeccionados de forma temática, ou seja, as fotos de uma viagem, de uma festa de aniversário ou de um jogo de futebol. Hoje, com os avanços da tecnologia, o hábito de confeccionar álbuns de retratos vem diminuindo sucessivamente. As pessoas mantêm suas fotos no celular, no iPad, no computador, e até em porta-retratos eletrônicos que passam as imagens digitais como um letreiro em miniatura.

Recentemente estive olhando alguns álbuns de retratos antigos dos meus pais. Impressionante como eles têm o poder de eternizar momentos, cristalizar emoções e sentimentos que se projetam para muito além do papel. Foi inevitável que as lágrimas me banhassem a face e o coração se enchesse de saudades...

Não sei se você já se deu conta, mas em todo álbum de retratos só existem fotos que revelam alegria, felicidade, ternura, instantes mágicos! Nenhum álbum registra as dores da vida, as perdas, os fracassos e a solidão. É que os álbuns parecem ter sido feitos para guardar apenas coisas boas, jamais as ruins.

Enquanto fitava as fotos dos meus pais, em circunstâncias diferentes de suas vidas, fui lembrando de suas lutas e dificuldades. Quem olhar para aquele álbum sem conhecer a história, terá a impressão de que tudo na vida deles foi maravilhoso. Mas eu sei que não foi bem assim...

Na verdade, a mágica que há por trás de todo álbum de retratos é que, apesar de nele só estarem contidas as cenas mais belas de nossas vidas, entre uma foto e outra, entre um evento e outro, há muita estrada, não raro sofrimentos contidos, ainda que ali não esteja revelado. Sim, entre duas poses, dois sorrisos, dois beijos, dois olhares, existe muita tristeza e todos os matizes dos quais a vida é feita. São esses momentos que acabam por criar a “ponte” que permite que uma foto se una a outra.

Na vida cristã também é assim. Todas as semanas escuto pessoas me dizendo o quanto é difícil viver o Evangelho, na perspectiva do que Jesus propõe. Elas normalmente vêm de uma experiência de conversão daquelas que prometem o céu na terra, acabaram comprando ilusões, foram enganadas por falsas promessas de prosperidade, saúde e bem-estar. Elas queriam um Deus para servi-las, não um Deus para amá-las.

Se eu fosse publicar, com todas as “cores”, o meu álbum de retratos, como discípulo de Jesus, certamente apareceriam mais perdas do que ganhos, mais dores do que alegrias. É que sem sofrimento eu e você jamais nos tornaremos singulares, pois, como disse certa vez o escritor Goethe: “Quanto mais um homem se aproxima de suas metas, tanto mais crescem as dificuldades”.

É dentro dessa perspectiva que o autor do livro do Eclesiastes, no capítulo 3, nos traz uma afirmação difícil de interpretar: “Tempo de atirar pedras e tempo de ajuntá-las.”. Eu creio que isto tem a ver com o caminho que trilhamos em nossas vidas. Há um tempo na vida onde nós “espalhamos pedras” – agimos no impulso, de forma despudorada, sem medirmos as consequências de nossos atos.

Mas, quando chega a idade adulta, quando já estamos talhados pelo cutelo da vida, muitas daquelas “pedras” espalhadas precisam ser novamente recolhidas, uma a uma, pacientemente. Eu já estou vivendo esse tempo, pois, durante muitos anos, espalhei pedras pelas estradas que trilhei...

Hoje, todavia, entendo que essas pedras que diante de mim estão não são meros obstáculos, mas sim grandes oportunidades, ou, como diz o escritor Fernando Pessoa: “Pedras no caminho? Guardo-as to-das; um dia vou construir com elas um castelo...”.

Ah, e quando fizer isso, certamente não esquecerei de bater umas fotos. É para colocar no meu álbum de retratos da vida!

Carlos Moreira


*Na foto acima, Augusto Moreira, Eunice Moreira e Carlos Moreira em 1980

12 setembro 2011

A Diferença entre Conhecer o Caminho e Caminhar por Ele





Assista a mensagem "A Diferença que Há Entre Conhecer o Caminho e Caminhar por Ele". "Nunca ande pelo caminho traçado, pois ele conduz somente até onde os outros já foram". Graham Bell. Aprendi na vida que há uma grande diferença entre você conhecer o caminho e caminhar por ele. Você está pronto para fazer o caminho de Deus na Terra? Você está disposto a abrir mão do seu caminho para tirlhar o dele? Aprenda nesta mensagem o que significa caminhar no caminho. Clique no link acima "Mens. em Vídeo" e veja a mensagem completa.


30 junho 2011

Alterar a Agenda não Significa Transformar a Consciência


Quando alguém aceita a Cristo como seu Senhor e Salvador, não percebe, de imediato, o milagre que se realizou silenciosamente em seu ser, o desencadeamento de todo um processo interior e espiritual em proporções inimagináveis.

Através da iluminação do Espírito Santo, que produz a consciência de pecados, nascemos de novo, recebemos o próprio Espírito em nossas vidas, apropriamo-nos da remissão de pecados – mediante o sangue do Cordeiro – somos justificados pela fé, pois cremos com o coração e confessamos com a boca a Jesus, e, a partir de então, começamos a viver os prenúncios da eternidade, pois nossa consciência começa a ser reelaborada a partir da matriz de valores do Evangelho, o que nos leva a praticar atos de justiça.

O processo de santificação, que é este desafio de, no caminho encarnarmos “O Caminho”, é algo que vai sendo gestado de dentro para fora, das percepções para as ações, dos conteúdos para a prática, algo que permite com que carisma e caráter caminhem lado a lado, harmonizem-se com a finalidade de construção de um novo ser, pois, como disse Proudhon, “a revolução sucede à revelação.

Isso fica bonito num texto religioso-filosófico, mas, na prática, a realidade é outra. O que tenho visto, nas últimas décadas, é que o “evangelho” não produz mais aquilo que deveria produzir, ou seja, ou ele perdeu a sua eficácia com os anos, ou o que estamos pregando é um outro “evangelho”!

Sinto uma alegria indescritível quando encontro alguém que me relata ter tido recentemente uma experiência com Deus através de Jesus Cristo. Por outro lado, minha alma é invadida por uma imensa tristeza, pois sei que há grandes chances desta pessoa se tornar uma vítima da engrenagem  das instituições religiosas, pois, como disse Nietzsche, “Deus está morto e o seu túmulo é a Igreja".

Quando o filósofo escreveu esta sentença, estava diante de uma religião perversa, a qual havia criado um “deus” caricaturado, um ser absoluto e indiferente. “Matar” Deus, significava extinguir o dogma, o conformismo, a superstição e o medo, era a proposta da não imposição de “regras”, as quais impediam a transcendência do ser, sua auto-afirmação, sua busca por elevação em sua saga existencializada.

O que vejo em nossos dias é que as pessoas “desembarcam” nas comunidades, às vezes oriundas de movimentos, outras após aceitarem o convite de amigos ou parentes, em algumas situações após terem levantado a mão num “apelo”, seja como for, e, a partir daí, iludidas pelo "sistema", começam a imaginar que a vida cristã significa apenas uma mudança na agenda, e não uma transformação na consciência!

O “novo convertido” inclui em sua programação semanal um culto dominical, uma reunião de oração, a participação em um pequeno grupo, ou mesmo num movimento, e pronto, toda a sua vida está rearrumada! Agenda refeita, lá vai o novo “crente” “mundo a fora”, ano após ano, e nada do que ele faz é capaz de produzir transformações significativas em seu ser – reestruturação emocional, ressiginficação conjugal, reelaboração familiar, renascimento espiritual, redirecionamento profissional.

É que o sujeito, não raro, apenas trocou o bar pelo pequeno grupo, o cinema pelo culto, a praia pelo movimento e a palestra pela reunião de oração. Ele mudou a agenda, mas não mudou o coração. Em alguns anos, irá sentir-se totalmente esvaziado de propósitos e significados, viverá uma fé epidérmica, uma espiritualidade não-sustentável, se decepcionará com a Igreja, ou, talvez, até com o próprio Deus, irá tornar-se um “esquentador de banco”, freqüentador de reuniões que possuem, como único objetivo, purgar de sua consciência um sentimento de culpa por ter se tornado um ser sem emoção, sem reverência, sem devoção. 

Termino com Karl Jaspers, filósofo e psiquiatra alemão: “a verdadeira existência é a possibilidade de transcender a situação na qual nos encontramos”. E eu, na minha insignificância, fico pensando: e se não for isso, então, o que será? 

Carlos Moreira

28 junho 2011

Não Escuto o que Você Fala, Porque Vejo o que Você Faz


Houve um tempo, na Grécia antiga, em que um grupo de professores viajantes obteve destaque e relevância. Eles eram chamados de sofistas, mestres que, por determinado preço, vendiam ensinamentos de filosofia. 

Etimologicamente, o termo sofista significa sábio, mas, historicamente, eles ficaram marcados, sobretudo pelas críticas de Platão, como impostores. Para um sofista, não importava se um conhecimento era verdadeiro ou falso, mas apenas a capacidade de argumentação. O discurso de um sofista, apesar de primoroso, era esvaziado de conteúdos e significados, suas vidas restringiam-se a transmissão do conhecimento, jamais a sua encarnação.    

Conta-se que, de certa feita, Sócrates, argumentando sobre o embuste dos sofistas, afirmou: “os Sofistas buscam o sucesso e ensinam as pessoas como conseguí-lo; Sócrates busca a verdade e incita seus discípulos a descobri-la”.

Você consegue ver semelhanças entre o discurso dos sofistas e a pregação dos pós-pentecostais? Estou usando o termo pós-pentecostais para acabar, definitivamente, com o uso do termo, ao meu ver equivocado, neopentecostais.

O pentecostalismo é um ramo sério da Igreja, que prega as verdades das Escrituras, os dons do Espírito Santo, a vida simples e a propagação do Evangelho através de ações de misericórdia. Isto não tem nada a ver com os pós-pentecostais, que enganam pessoas, falsificam doutrinas, extorquem dinheiro do povo, vivem em busca do sucesso, da prosperidade e da “benção”.

Pensando bem, o nome que melhor se aplicaria a este grupo seria o de “sofistas modernos”. Para eles, não importa se o que pregam é verdade ou não, mas apenas o fato de conseguirem, com argumentações supostamente lógicas, ancorados numa hermenêutica fraudulenta, convencer o povo a obedecer doutrinas de demônios. E a “massa”, muito mais interessada nas “promessas” de Deus do que no caráter de Deus, naquilo que Ele pode fazer, e não em quem Ele é, vai sendo espoliada, “depenada” como ave que vai para o abatedouro.

Quando Paulo escreve sua carta aos Romanos, faz uma citação de Isaías no capítulo 10 verso 14 “...como são belos os pés dos que anunciam boas novas”. Ora, eu sempre pensei, em se tratando da proclamação do Evangelho, que o apóstolo deveria afirmar “como é belo o discurso dos que anunciam a salvação”. Mas ele é que estava certo...

A questão é que o discurso vazio, desprovido de sentido, desacompanhado de boas obras, de nada aproveita para a vida. É por isso que a fala precisa ser seguida de ações, ou seja, de pés que se movam na direção do outro, pés que abandonem a zona de conforto, pés que representem este estado de movimento, de não-fixidez, que simbolizem o “espírito” do hebreu, na melhor acepção da palavra, um ser errante, desenraizado, habitante de tendas, peregrino em terra estrangeira.

A pregação do Evangelho, em nossos dias, precisa ser ressignificada. Ao invés de usarmos a boca, para a divulgação das verdades do Reino – o discurso, os recursos homiléticos, a oratória – vamos passar a usar os pés, membros do corpo que não possuem tanta beleza, que talvez não recebam de nós tanto decoro, mas que podem nos levar pelo caminho da justiça e da verdade revelando que, em nós, Cristo se constitui ação, e não meras palavras, que os que nos vêem podem seguir-nos, pois fazemos o que falamos, a nossa fé tem se materializado através de atos de bondade e amor.

Desta forma, nunca se esqueça: a Palavra só se tornou verbo porque, um dia, o Verbo se fez carne, e habitou entre nós.    

Carlos Moreira

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É importante esclarecer que este BLOG, em plena vigência do Estado Democrático de Direito, exercita-se das prerrogativas constantes dos incisos IV e IX, do artigo 5º, da Constituição Federal. Relembrando os referidos textos constitucionais, verifica-se: “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato" (inciso IV) e "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença" (inciso IX). Além disso, cabe salientar que a proteção legal de nosso trabalho também se constata na análise mais acurada do inciso VI, do mesmo artigo em comento, quando sentencia que "é inviolável a liberdade de consciência e de crença". Tendo sido explicitada, faz-se necessário, ainda, esclarecer que as menções, aferições, ou até mesmo as aparentes críticas que, porventura, se façam a respeito de doutrinas das mais diversas crenças, situam-se e estão adstritas tão somente ao campo da "argumentação", ou seja, são abordagens que se limitam puramente às questões teológicas e doutrinárias. Assim sendo, não há que se falar em difamação, crime contra a honra de quem quer que seja, ressaltando-se, inclusive, que tais discussões não estão voltadas para a pessoa, mas para idéias e doutrinas.

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