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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.
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19 abril 2019

O Dinheiro na Igreja




Dízimo é uma realidade para o judeu no Velho Testamento, no Templo-Estado, uma ordenança que, no Evangelho, caducou.

Lendo a Escritura com um pouco de atenção, logo perceberemos que o Espírito do Novo Testamento é a oferta desprendida, solidária, responsável e justa, onde cada um dá o quanto pode e o quanto quer, sem constrangimentos, sem maldições, sem chantagens.

É também no Novo Testamento que Paulo ensina que os que pregam o Evangelho, vivam do Evangelho, mas isso só é possível em meio a gente que possui uma consciência aguçada, fruto da maturidade espiritual, não é uma obrigação salarial, não é para entrar na “folha de pagamento” do templo, não tem nada a ver com um trabalho secular, pastores e bispos são funções vocacionais, não profissionais.

É por isso que o apóstolo, quando não recebia ofertas, costurava tendas para manter, não só a si mesmo, mas também aos que com ele estavam. Na carta aos Gálatas, capítulo 6, Paulo estimula que aquele que recebe benefícios espirituais abençoe, materialmente, àquele que lhe instruiu, mas isso é uma recomendação, não uma imposição, e mais uma vez só se aplica a gente madura na fé.

Jesus, em todo seu ministério, jamais recolheu dízimos, vivia da oferta espontânea de gente que se sentia abençoada pela sua vida.

De minha parte, acho que pastores devem ter profissões seculares, e no caso de viverem da igreja, que não sejam pesados, pois, não raro, 70, 80% da arrecadação de muitas comunidades são destinadas a pagamento de pastores, algo totalmente desmedido.

No meu modo de ver, a igreja não pode existir para manter o pastor, isso faria com que ela perdesse o seu propósito e significado, ela existe, sim, para, como um Corpo, ou seja, através de todos juntos, anunciar e vivenciar a salvação.

Também, para mim, construir templos é coisa impensável, é dinheiro gasto com tijolo e cimento que poderia ser destinado para abençoar a carência de famílias da comunidade, trata-se de um contrassenso dizermos que somos peregrinos na Terra, que aqui não é nossa morada, e termos um templo plantado no chão.

Despesas com lugares, ao meu ver, deveriam ser mínimas, a estrutura está a serviço da igreja, não a igreja a serviços da estrutura. Um local alugado atende muito bem as pessoas, e isso dentro das possibilidades de cada grupo.

Assim, quem não pode alugar um local, que se reúna nas casas, ou nas praças, empregar dinheiro em construções, só se for de corações e consciências. Jesus não disse aos discípulos: “Ide por todo mundo, ergam catedrais e construam templos para mim, lugares “santificados” para a adoração e a pregação”, antes, estimulou os discípulos a serem andantes, a terem o espírito do verdadeiro Hebreu, um errante, alguém que é livre para ir e vir, assim como também é o Espírito do Evangelho.

A verdade é que, quanto mais estrutura, mais dinheiro, mais manutenção, mas gente para cuidar. Por outro lado, quanto mais simples for o lugar, mais recursos poderão ser usados em obras sociais no entorno da comunidade, e também dentro dela, gente é sempre mais importante que pedra.

Eu sei que esse é um tema nevrálgico, atinge, por um lado, a “casta sacerdotal”, que quer viver dos recursos do templo, e por outro, no extremo oposto, quando você liberta as pessoas da tradição e do dogma, acaba, tristemente, gerando um cinismo e um relaxamento dos membros, o pensamento dominante é aquele que afirma: “já que não serei amaldiçoado por não dizimar, então, não dou mais nada, ou, se der, dou apenas o mínimo possível”.

Eu Teria muito a falar sobre esse tema, mas você pode ir ao meu canal no Youtube e lá ouvir mensagens sobre finanças, um tema riquíssimo, mas, via de regra, muito mal abordado dos púlpitos.


Carlos Moreira



Menos Sempre foi Mais



Paulo entendeu que era melhor, 20 igrejas na Ásia menor, que 1 Jerusalém em Israel. Sim, 20 igrejas de 100 pessoas é muito melhor que uma igreja com 2.000 membros. As razões, ao meu ver, são de uma obviedade inquietante.

1- Igrejas menores, espalhadas pela cidade, alcançam mais pessoas, pois a geografia acaba comprometendo o deslocamento das mesmas. Assim, congregações menores, em vários bairros, alcançam muito mais gente, de todas as classes, e cumprem melhor a tarefa da evangelização

2- Igreja menores possuem mais oportunidades, pois as
funções necessárias ao seu funcionamento não foram ocupadas por meia dúzia de indivíduos. Quando a estrutura é muito grande, as principais tarefas já estão distribuídas, o que faz com que uma enormidade de pessoas viva eternamente no banco.

3- Igrejas menores são mais relacionais, pois quanto mais gente, menos comunhão, menos encontro humano, menos interação. Ora, não há coisa pior numa igreja do que você se sentir apenas um número, alguém que olha para o lado, no encontro, e não tem a mínima ideia de quem seja a pessoa ao seu lado.

4- Igrejas menores são melhor pastoreadas, pois um pastor, para atender com qualidade sua membresia, precisa cuidar de um número limitado de pessoas. É triste constatarmos que a agenda pastoral está sempre lotada, até para aconselhamentos simples, as pessoas tem de esperar semanas, e não raro, elas só dispõem de horas para tomarem certas decisões.

5- Igrejas menores são mais sensíveis, pois quando há menos gente fica mais fácil identificar necessidades e necessitados. Sim, é uma profunda contradição, para mim, a igreja que faz missões e deixa seus membros passarem privações, primeiro você acolhe os de casa, depois os de fora.

6- Igrejas menores tem custos menores, grandes estruturas são, cada vez mais, onerosas, desprendem muita manutenção, demandam funcionários, “roubam” recursos escassos que poderiam ser empregados no cuidado das pessoas.

7- Igrejas menores, espalhadas na malha urbana, podem realizar um trabalho maravilhoso do ponto de vista social, pois a igreja é responsável por aquilo que acontece em seu entorno, sua estrutura pode, e deve, estar a serviço da comunidade, na prestação de serviços de saúde, educação e cidadania.

8- Igrejas menores podem acomodar mais pessoas, pois quando tudo está centralizado numa única estrutura, não raro, existe um esgotamento do espaço –menos salas disponíveis, menos estacionamento, menos cadeiras para visitantes, etc.

9- Igrejas menores crescem mais espiritualmente pois, menos programas, contudo mais adensados, desenvolvem mais pessoas. Quando a igreja é muito grande, ela precisa de muitos movimentos para atender às diversas demandas internas, o que inviabiliza um padrão e uma uniformidade na oferta de conteúdos mais profundos, daí ser tão comum a rotatividade de gente nestes meios.

10- Igrejas menores são mais ágeis para cumprir desafios e buscar novas tarefas, pois sabemos que mover grandes estruturas é tarefa quase impensável. Por outro lado, congregações pequenas são mais flexíveis, se adaptam melhor à mudanças, suportam novas circunstâncias, possuem um maior grau de inovação.

Igrejas menores são maravilhosas, mas as pessoas, desgraçadamente, preferem igrejas maiores...


Carlos Moreira



14 janeiro 2019

Sua Igreja se Parece com o Quê?







Com uma Boate, onde as pessoas vão por causa do network social, para fazer azaração e, quem sabe, descolar alguém para sair?

Com a Maçonaria, uma sociedade fechada, elitizada, que tem por objetivo a ajuda mútua a quem faz parte do “clube”, um lugar que pode gerar oportunidades profissionais?

Com uma Universidade, um centro de ensino teológico e doutrinário de alta qualidade preparando escribas versados na letra da Escritura, mas distantes do Espírito do Evangelho?

Com uma Academia de Ginástica, promotora de eventos de descontração tipo sarau, luau, rave gospel, trilhas, acampamentos, uma agenda aeróbica de programas para entretenimento?

Com uma Laboratório, onde existe a “experimentação” de “dons” sobrenaturais, gente tendo visões de anjos, gargalhando, falando línguas estranhas e profecias de adivinhação?

Com um Banco, um local para resolver problemas, onde a divindade é um gerente a seu serviço tentando cobrir os gastos que você promoveu na vida com escolhas desastrosas?

Com um Ponto Turístico, aquele lugar que você gosta de ir vez por outra para olhar a “paisagem”, mas com o qual você não tem compromisso nem assumiu qualquer responsabilidade?

Com uma Creche, que você adora por conta da programação para seus filhos, um espaço para livrar você da árdua tarefa de criar a criança e o adolescente segundo os preceitos das Escrituras?

Com uma Empresa, que tem que medir a produtividade dos membros, as metas do planejamento estratégico, a “colheita” de almas, a gestão das células, o desenvolvimento dos líderes?

Com um Circo, onde pirilampos aloprados fazem coisas estrambólicas, malabarismos e pirotecnias, tudo para entreter um público inocente e displicente?

Com uma Quadra de Tênis, um lugar para você exercitar seu “hobby”, um espaço de realização pessoal, com plano de carreira, reverência ao cargo, tempo de “serviço” e premiação por honra ao mérito?

Com um Quartel, com subordinação hierárquica, disciplina rígida, controle da individualidade, invasão de privacidade, código de conduta e cartilha comportamental?

Com um Edifício, onde cultua-se o patrimônio, a construção, as paredes do “templo”, as instalações confortáveis, o auditório, as salas de ensino, o pátio de lazer, mas para além das pedras não há alma nem vida?

Com um Hospício, que mas se parece com um “trem fantasma”, com gente com esquisitices, caindo no “poder do espírito”, manifestando “demônios”, com “milagres” produzidos em série?

Com uma Sala de Aula de Filosofia, onde existe solução para tudo, mas sem qualquer ação concreta no chão da vida, um lugar de teóricos contemplativos que não levantam a bunda da cadeira para fazer nada?

Com um Mercado de Pulgas, onde tudo é feito na base da troca, do toma lá, da cá, onde Deus atende quem lhe oferece grana, multiplicando a aplicação em forma de benesses e empoderamento?

Com um Tribunal, onde se faz juízo de tudo e de todos, onde a régua de medir é sempre generosa com os de dentro e perversa com os de fora, um espaço de sentenciamento do mundo e da vida?

Com um Teatro Mambembe, onde todo mundo representa um personagem, a vida é arte, mas não é realidade, cada um veste sua máscara antes do culto e assume ser quem não é?

Com um Centro de Pesquisa, que tem explicação para todas as coisas, que faz da teologia o único saber do universo, que acha que a sua ideologia é a única verdadeira debaixo do sol?

Com uma Fábrica, que produz bonecos em escala industrial, gente normatizada, padronizada, robotizada, sem cérebro, sem alma, todos pensando e falando as mesmas coisas?

Com uma Prisão, que encarcera a alegria, que pune a liberdade, que sufoca a consciência, que algema a beleza, que priva a esperança e castra tudo que não for religião?

Igreja, conforme o Evangelho, não é um espaço físico, é uma consciência, é um Corpo imaterial, ligado ao Cabeça, que é Cristo, não é uma organização, é um organismo, não é uma instituição, é uma família. A igreja pode se reunir num prédio, mas ela não se preocupa em aparelhar edifícios, mas em construir mentes e restaurar corações. Igreja é todo ajuntamento de “dois ou três” com ênfase na comunhão, no partir do pão, nas orações e tudo o mais que ganhe significado e singularidade como expressão de fé e amor que se manifesta na troca com o outro e na adoração ao Pai. Igreja é um espaço de misericórdia, de acolhimento de feridos, de cuidados com os perseguidos, de abrigo para os descriminados e marginalizados. O mais? Bem, o mais é isso que está aí em cima...


Carlos Moreira






18 agosto 2018

Afinal, o que Desejava Jesus?




A LITURGIA de Jesus era o Caminho de cada manhã e os SACRAMENTOS todo encontro humano travado no chão dos dias. Em Jesus, CULTO é celebração da vida, em todo canto possível, a qualquer hora, e ADORAÇÃO a Deus é, antes de tudo, reverência solidária para com o próximo. 

O TEMPLO de Jesus foram os descampados da Galiléia e a PREGAÇÃO a encarnação da Palavra que só existia em forma de texto. Os OFICIAIS de Jesus eram homens simples, que sabiam que entre eles não havia hierarquias ou distinções, o maior lavava os pés de todos, não se chamavam por títulos, eram apenas amigos e irmãos. 

MISSÃO para Jesus era carregar a boa nova nas trilhas do cotidiano, e assim, indo pelas esquinas da vida, fazer o bem e buscar a justiça. DÍZIMO para Jesus era a oferta dadivosa espontânea, dada por aqueles que se sentiam abençoados para ajudar na implantação do Reino, sem apelos, sem constrangimentos, se manipulações. 

Portanto, IGREJA, para Jesus, tem a ver com estas perspectivas, foi isso que ele disse a Pedro que edificaria. Depois disso veio a necessidade de aditar a mensagem o método grego-aristotélico, para produzir a apologética do século II, em seguida a disposição organizacional de bispados com suas geografias mandatárias, e no século IV a invenção do cristianismo como ideologia político-religiosa para promover o novo desenho arquitetônico do poder de Constantino sob o Império Romano. 

Daí vieram catedrais e cátedras, projetos expansionistas e poder terreno, posse de latifúndios territoriais e influência política, normatizações doutrinárias, dogmas e confissões. Quem conhece a história sabe que não estou mentindo, a adulteração do que propôs o Galileu é grotesca. 

Mas desmontar a engrenagem criada é quase impossível, porque junto com a queda de todo aparato vem também a destruição do poder de homens que se tornaram donos da marca “Jesus” e proprietários da holding “Igreja”. Se você, todavia, desejar voltar a simplicidade da fé e a pureza do Evangelho, é só viver na dimensão do que ele encarnou e ensinou, obviamente serás tachado de herege e desviante, de louco e blasfemo, mas, que importa, como bem disse Jiddu Krishnamurti, filósofo e educador indiano, “Não é sinal de saúde estar ajustado a uma sociedade doente”. 

Mas o chocante mesmo é perceber que o que nós chamamos de igreja não faria qualquer sentido para Jesus se ele estivesse vivendo encarnado entre nós... 

Carlos Moreira


03 fevereiro 2018

Cristianismo sem Cristo



O modelo do cristianismo nunca foi se espelhar em Jesus. Sim, o modelo não é a manjedoura, mas as catedrais góticas, não são as vestes de louvor, mas as capas dos reis medievais, não são as línguas de fogo do Espírito, mas as mitras que se assemelham as coroas dos monarcas europeus, não é lavar os pés dos irmãos, com bacia e toalha, mas ser servido e reverenciado, ser tratado como ungido e receber uma titulação.

O modelo do cristianismo não é o da comunhão, mas o da gestão hierarquizada, não é a oferta generosa e responsável, mas o imposto do dízimo associado a maldições aos infratores, não é a liberdade de consciência, mas a mordaça doutrinária comportamental, não é o ajuntamento simples de dois ou três, mas as mega-construções apinhadas de gente que, sequer, sabe o nome de quem está ao lado. 


O modelo do cristianismo não é o discipulado, é a marcha pra “Jesus”, não é a adoração comunitária, é o show gospel, não é a sã doutrina, é o catecismo da denominação, não é evangelizar demonstrando uma transformação, é jogar pérolas a porcos transmitindo uma informação.

O modelo do cristianismo não é ocupar mentes, é ocupar prédios, não é fazer da Cruz um sinal, é fazer o sinal da cruz, não é buscar uma nova forma, mas fazer apologia a Reforma, não é transformar a Santa Ceia em concretude existencial, repartindo o pão com o faminto e o vinho da alegria com o quebrado de alma, mas transformá-la num memorial oco, egoísta e despropositado. 

Sejamos honestos, o cristianismo não tem nada a ver com Jesus, os símbolos nos altares foram copiados das pratarias da nobreza, os púlpitos vieram das tribunas das academias, as imagens dos santos dos panteões grego e romano, as procissões dos desfiles triunfalistas dos generais com seus exércitos, tudo tem a ver com Constantino, com império, com poder, com riqueza, com institucionalização, com controle.

A igreja que o Galileu propôs não tem paredes, pois o templo se faz no coração, não tem altar, pois o lugar do serviço é a vida do meu semelhante, não tem cargos, pois o maior é o que serve, não tem púlpito, pois a tribuna é a tapeçaria da vida, não tem riqueza, pois a arrecadação é destinada ao pobre, a viúva, ao órfão e ao estrangeiro.

Parem com esta panaceia, desçam de seus castelos, coloquem a cara no pó, rasguem suas vestes pomposas, chorem um choro de contrição, coloquem a mão na face ruborizada de vergonha, curvem-se a autoridade da Palavra, arrependam-se e talvez ainda haja esperança!

Desperta Igreja! Nem no Vaticano nem em Westminster adorareis, os verdadeiros adoradores fizeram um templo para Deus em suas consciências, despiram-se de toda vaidade, abraçaram a fé com todas as implicações, pois importa se parecer com Jesus e não com uma potestade humana qualquer, importa adorar a Jesus, não as pedras de uma construção, importa seguir a Jesus, não a catecismos e confissões, importa obedecer a Jesus, não a tribunais religiosos, importa andar como ele andou, e não na soberba opulenta desta igreja que, diante dos homens, é gloriosa, mas, diante de Deus, é pobre, cega e está nua...



Carlos Moreira









18 julho 2017

A Quem você Segue: a Jesus ou a Igreja?



Jesus destruiu as burocracias do judaísmo e a igreja reeditou-as no cristianismo. Sim, Jesus não usava vestes diferenciadas, nem a túnica dos fariseus, nem a elaborada veste sacerdotal, mas a igreja fez suas capas, suas togas, suas alvas para se comparar aos reis medievais, para produzir opulência ao invés de consciência.

Jesus não criou hierarquias entre os discípulos, disse que todos eram amigos e irmãos, e que o maior serviria os demais, mas a igreja elitizou o clero, hierarquizou a fé em cargos eclesiais, politizou a relação entre os “ordenados”, fez diferenciação entre os iguais.

Jesus era um homem das ruas, dos encontros humanos, das paragens nas casas dos amigos, das preleções na beira do mar ou ao pé da montanha, mas a igreja “converteu” as catedrais pagãs do império romano em “casas de oração” e não parou mais de fazer edificações portentosas e lúgubres, que demandam uma soma infindável de dinheiro para serem mantidas, muitas das quais mais parecem cemitérios, vazias e escuras.

Jesus proveu tudo o que precisava para o seu ministério através de ofertas espontâneas, porque vivia em simplicidade, mas a igreja precisa que o carnê dos dízimos seja pago regularmente para que a engrenagem funcione e os custos vultosos da estrutura sejam arcados pelos fiéis.

Jesus enfatizou, em todo tempo na sua mensagem, que os pobres fossem cuidados, como foi no caso da multiplicação dos pães em Betsaida, mas a igreja criou um ministério de ação social para que meia dúzia de visionários faça um sopão uma vez por mês ou visitas esporádicas a presídios e hospitais, a estrutura fica a semana inteira fechada ao invés de servir a circunvizinhança com serviços sociais e voluntariado.

Jesus usou o discipulado como ferramenta fundamental de ensino, não apenas esclarecendo textos das Escrituras, mas usando a sua própria vida como referência, mas a igreja criou programas de massa para entreter as pessoas, uma agenda de atividades que faz o indivíduo permanecer anos na comunidade sem saber, sequer, o que é arrependimento de obras mortas.

Jesus agiu profeticamente denunciando a exclusão, a injustiça, a opressão, quando visitou as aldeias miseráveis da galileia curando enfermos, expulsando demônios e dando de comer aos famintos, mas a igreja se alia ao poder estatal para obter vantagens e benesses, cria bancadas no Congresso para defender os interesses de denominações poderosas, não os da população.

Jesus reprovou, veementemente, o comércio do sagrado quando foi ao templo de Jerusalém, aquele shopping da religião de Israel onde tudo era feito por dinheiro, com glacê de espiritualidade, mas a igreja faz culto a Mamon, vive de realizar campanhas e congressos para arrecadar fundos para pastores morarem em mansões e viajarem de jatinho, ela transformou o Evangelho num negócio, e Jesus num produto comercializável, o templo virou um cassino-caça-níquel, onde todo tipo de bizarrice é feita para se levantar grana.

Jesus se misturou com as pessoas, visitou aldeias de samaritanos execrados pelos judeus, comeu com pecadores, bebeu com publicanos, permitiu que prostitutas o seguissem, fez amigos entre os imprestáveis, mas a igreja prega que os crentes devem sair do mundo, devem viver num universo paralelo, uma vida entre as paredes do templo, evitando lugares públicos onde a existência acontece, fugindo dos incrédulos, apartando-se dos perdidos, platonizando a fé, que vira apenas um discurso verborrágico.

Jesus quebrou as tradições da religião de seus dias, como a guarda do sábado, as etiquetas comportamentais, as dietas de alimentos, os rigores com a higiene, mas a igreja reeditou tudo com a exigência de usos e costumes “sagrados”, roupa adequada ao manequim religioso, castração de alimentos, bebidas, reprimendas quanto à maquiagem, ou fazer uma tatoo, ou cortes de cabelo, todo tipo de controle plástico, mesmo que não exista qualquer preocupação com a postura ética.

Jesus afirmou: “Ouvistes o que foi dito...” e, na sequência: “Eu porém vos digo...”, e ressignificou a Lei de tal forma a manifestar a Graça de Deus, mas a igreja pegou o código de Moisés e fez edições seletivas, ressuscitou prescrições, fez adição de etiquetas, republicou códigos vexatórios, costurou o véu do templo e profanou a Cruz e o Sangue do Cordeiro.

Eu poderia passar o dia todo escrevendo o que Jesus fez, e a igreja desfez, e o que Jesus desfez, e a igreja refez. E aqui cabe a pergunta: você segue a Jesus ou a igreja? Sim, pois a igreja de Jesus não é isto que aí está, a igreja de Jesus, que não tem placa, nem endereço, nem estatuto, nem templo, segue como deve ser, vencendo as portas do inferno e anunciando a Salvação, mas a instituição é tudo isso que eu disse acima, de forma simplista, e ainda muito mais!

Portanto, posso entender se você hoje for um refém deste sistema pelo fato de não compreender estas questões que expus palidamente, mas não consigo entender você, que sabe de tudo isso, continuar colaborando para que o câncer se prolifere e mate gente que ainda não discerniu nem o que é salvação.

Paulo teve coragem de largar o judaísmo, mesmo com o alto cargo de fariseu que possuía, uma vez que percebeu que era cego, mas que havia visto a Luz de Jesus e do Evangelho. Ele passou a andar na contramão e a ser chamado de herege e desviante, mas não negociou a revelação que havia recebido. Você tem coragem também?


Carlos Moreira



28 junho 2017

O Diabo Mora ao Lado



Judas foi “ordenado” por Jesus, ele andou no grupo dos 12 apóstolos, orou pelos enfermos, expulsou demônios, ajudou a distribuir pão para os pobres, fez missões nas aldeias miseráveis da galileia, participou de muitas vigílias de oração, visitou incontáveis sinagogas e foi ao templo de Jerusalém escutar a Palavra. Judas foi ministrado intimamente, ouviu revelações direto da boca do próprio Deus, viu milagres surpreendentes, cantou canções de louvor a Deus, quem sabe deu testemunho e participou da Santa Ceia, ele fez tudo o que um crente faz, mas era um diabo!

Ora, como pode? Ele não rosnava, não girava a cabeça ao contrário, não entronchava as mãos, nem se arrastava pelo chão, Judas não tinha nenhum estereótipo de quem está possesso, mas era um diabo! As pessoas que ouviam a Judas não sabiam, nem mesmo seus companheiros de ministério sabiam, mas Jesus sabia, ele era um diabo!

De fato, Judas tinha cara de crente, tinha voz de crente, tinha atitudes de crente, seguia o script dos crentes, pregava como um crente, orava como crente, mas era diabo! Sim, Judas estava possesso de ira, de inveja, de maledicência, ele conspirava contra o bem, seus olhos eram maus, seu coração era duro, sua consciência era leprosa, insensível.

A verdade é que ele andava com Jesus, mas Jesus não se fez um com ele, ele comia com Jesus, mas a Palavra que sacia a fome da alma não alimentava ele, ele cantava com Jesus, mas as canções na mudavam ele, ele orava com Jesus, mas a oração não penetrava nele! E quanto mais Judas ficava com Jesus, tanto mais diabo se tornava, pois “Ao que tem, tudo lhe será dado, e ao que não tem, até o que tem, lhe será tirado”.

Sufocado por seu desejo homicida, enredado com seus próprios planos, escravo de suas emoções, prisioneiro de sua mente perversa, Judas traiu o Senhor e, em seguida, enforcou-se, e fez tudo isso por que ele era um diabo!

Há muitos “diabos” na igreja, muita gente que ora, prega, jejua, adora, faz missões, expulsa demônios, mas é diabo, porque nunca se rendeu a Graça, nem jamais experimentou o perdão que pacifica o ser. Esses, dos quais falo, são os mesmos sobre os quais Jesus afirmou: “Em meu nome, muitos farão sinais, curas e expulsarão espíritos malignos. Mas eu lhes direi, explicitamente, jamais os conheci!”.

Você está preocupado com satanás, vive a caça de fantasmas, em batalhas espirituais, exumando cemitérios na alma dos homens, vasculhando o passado, especulando sobre o futuro? Não procure o diabo no terreiro, nem na encruzilhada, o diabo está mais perto de você do que você imagina, quem sabe, como aconteceu com Jesus, ele está no grupo íntimo, na liderança de algum “ministério”, cantando no louvor, ou pregando no púlpito, pois, “nem todo o que me diz: “Senhor, Senhor!”, entrará no Reino de Deus, mas aquele que faz a vontade do Pai”.

A pior encarnação do diabo é aquela que o traveste de ser de luz, que faz da piedade a maldade sofisticada, o diabo é mais inteligente do que você imagina, mais sutil do que você possa conceber. Saiba: homens não podem virar deuses, nem anjos, mas podem virar diabos! Eu não tenho medo de encontrar assombrações entre túmulos, nas esquinas sombrias da vida, ou no escuro do meu quarto. Mas sempre estou atento para não estar comendo com o diabo a mesa...



Carlos Moreira



27 junho 2017

Possessões e Possuídos



A igreja tem uma preocupação exacerbada com pessoas possuídas por demônios, mas dá pouca, ou quase nenhuma atenção, aos variados tipos de possessão.

Sim, possuídos tem notoriedade garantida no show bis evangélico e, mais recentemente, até no catolicismo romano. Endemoninhados aparecem em horário nobre na TV, possuem culto só para eles (Desencapetamento Total), tem liturgia própria (rituais de exorcismo), e papel de destaque entre o povo, que se lambuza garantindo mídia ao espetáculo bizarro.

Entretanto, para quem conhece a fenomenologia por trás destes eventos, não há com o que se preocupar, pois a esmagadora maioria dos casos de possessão demoníaca não passam de manipulação emocional, baixa autoestima, sugestionamento inconsciente, histeria e fraude comportamental.

Na verdade, demônio que faz entrevista, responde a perguntas e espera o comercial da TV, só engana crente assombrado, pois nem criancinhas se prestam a dar atenção a tais performances.

Ser possuído fisicamente pelo diabo é o estágio último de um processo longo, que começa na mente, passa pelas emoções e chega à dimensão do físico. E é daí que surge toda minha preocupação.

Ora, o que mais percebo na igreja é gente sendo possuída, mesmo que essa possessão não tenha, ainda, chegado ao estágio da perda do controle das faculdades mentais e do domínio do corpo físico.

Há pessoas possuídas pelo “espírito dos pais”, pela ambiência familiar perversa, por abusos, humilhações, violências, inclusive sexual.

Há pessoas possuídas pelo “espírito do cônjuge”, gente que se tornou vítima de relações persecutórias, esmagadoras, manipulativas. Há mulheres, por exemplo, que sofrem violência sexual mesmo estando casadas, são expostas a pornografia, obrigadas a prática de swing, ou chantageadas por não possuir autonomia financeira.

Há gente possuída “pelo espírito da religião”, crentes que estão possessos de seus pastores sedutores, temendo tocar no “ungido”, submetendo-se a determinações absurdas, aceitando revelações enfatuadas, profecias fatalistas, maldições encomendadas. Outros tantos ficaram possessos do “espírito da denominação”, são os que abriram mão de sua autonomia, de suas agendas, tornaram-se funcionários do templo, servidores do altar, deixaram para trás profissão, estudos, família e amigos para servir a “obra”.

Tem gente na igreja possessa da luxúria, viciada em pornografia digital, gente presa ao “espírito do consumo”, endividada, fazendo transfusão de dinheiro entre contas com o agiota, sendo esmagada pelo cartão de crédito. Imaginar que as manifestações visíveis do diabo são as únicas que estão ocorrendo é de um reducionismo e de uma ingenuidade sem precedentes.

Assim, o diabo agradece toda a atenção dispensada e toda a mídia dedicada para os pseudo-possuídos, enquanto ele se banqueteia distribuindo, no varejo, possessões das mais diversas sobre as pessoas. Como tenho dito, e aqui reitero, o pior diabo é aquele que está sendo gestado dentro de você sem você, sequer, perceber.



Carlos Moreira


29 março 2017

Me Engana que Eu Gosto!



“Por isso, como é o povo, assim será o sacerdote; e castigá-lo-ei segundo os seus caminhos, e dar-lhe-ei a recompensa das suas obras”. Os. 4:9.

A fenomenologia congregacional nos ensina que o povo é um reflexo do seu pastor, eles possuem, portanto, o pastor que lhes cai bem, assim como, da mesma forma, o filósofo francês Joseph-Marie Maistre afirma que “cada povo possuí o governo que merece”.

Sim, eu diria ainda mais, a congregação é capaz de produzir um tipo de pastor que nada mais é do que o reflexo de sua própria face, ele é a expressão visível de aspirações e frustrações invisíveis, a propagação material das imaterialidades e latências da alma, das vaidades e taras, dos medos e opressões, da malícia e dos juízos, o produto consciente do inconsciente coletivo.

Assim, quanto mais doente é o povo, tanto mais será o pastor, quanto mais ambiciosa seja a congregação, mais volúpia por dinheiro terá o seu líder, quanto mais fetiche tenham os membros na magia espiritual, mais manipulador do sagrado será aquele que os conduz.

Ao final, o que se vê nestas igrejas é um grande engodo, todo mundo traindo e sendo traído, os encontros não passam de teatro a céu aberto, o baile de máscaras do qual falou Soren Kierkegaard.

Fuja disso! Busque quem reflete a face de Cristo, não a sua própria, muito menos a daqueles que o ouvem, saia de perto de todo ajuntamento onde o pastor se apresente como homem poderoso, capaz de fazer a agenda de Deus na Terra, ou de produzir milagres com dia e hora marcada. Saia daí! Isso lhe fará um mal sem precedentes! Corra para longe de todo aquele que se auto-promove, dos que falam com a boca e destroem o discurso com atos perversos, dos que esbravejam e praguejam para amedrontar incautos e neófitos.

Busque, de alguma forma, os que andam com bacias e toalhas para lavar os pés dos irmãos, os que trabalham incansavelmente sem buscar a recompensa financeira, os que não querem honra nem desejam bajulações. Busque pastores que se pareçam com Jesus, que sejam mansos, que tratem da dor humana com misericórdia, que acolham os necessitados e protejam os indefesos e diferentes.

Faça isso e sua alma viverá, você jamais será confundido, nem terá seu coração esmagado pela dor. Isso lhe diz quem sabe o que é andar no chão dos dias, quem já viveu o bastante para discernir que não há bem maior do que a paz e a alegria de ser conforme a imagem do Filho Unigênito de Deus, e não o reflexo tosco de qualquer outro homem debaixo de sol.


Carlos Moreira




24 março 2017

O "Missionário" e o Visionário



Então alguém me falou: “Eu sou missionário, vivo de abrir igrejas”. Conversando mais apuradamente, contudo, compreendi melhor o que ele dizia...

Sim, o que ele estava falando era de alugar um prédio, comprar bancos, um púlpito e equipamentos eletrônicos, colocar uma placa e juntar pessoas para ouvir sermões.

Na visão dele igreja parece ser um lugar que prescinde de uma agenda de eventos, grupos de música, teatro, ensino, evangelismo, uma hierarquia piramidal de cargos e dízimos para custear os salários dos empregados e dos sacerdotes.

Depois de certo tempo, ele percebeu que eu não estava empolgado com as coisas que me dizia, então, perguntou-me enfaticamente: “E você? O que você faz no Reino?”. Um pouco resoluto, com certa melancolia, respondi, “Eu sou visionário, vivo de ensinar as pessoas o que não é igreja”.

E na sequência, concluí: “Esse é um tempo onde se abrem igrejas como se abrem empresas, elas possuem muita estrutura e pouca humanidade, muitos recursos, mas são pobres de coração, estão abarrotadas de programas e esvaziadas de significados.

Triste é esse lugar que vocês chamam de igreja, onde a diferença está na roupa que se usa, mas o diferente não pode sentar para ouvir a mensagem, onde acontecem “milagres” e “curas”, mas a grande enfermidade que é a lepra de coração permanece, onde há "fogo" nas orações e cauterização de consciência.

Ah, como é triste essa igreja, meu amigo, que arrecada dízimos para custear reformas e ampliações, ao mesmo tempo que negligencia os miseráveis que estão no mesmo quarteirão do templo, onde reverencia-se a bíblia como regra de “prática e fé”, no mesmo instante em que se pratica estelionato contra a Verdade, onde a Ceia é tomada com pão e vinho, e o mendigo, sentado na entrada do estacionamento, carece de pão e misericórdia".

Ai de ti, igreja, que te vestes de pompas e esqueces das vestes de justiça, que adoras a Deus e desprezas teu semelhante, que proclamas a santificação e te cobres de imoralidades, basta a ti a tua própria vergonha, arrepende-te e busca o concerto, vê onde caístes e volta ao primeiro amor, faze isso antes que seja tarde, antes que o Senhor te visite e te despedace com um sopro da sua boca, antes que ele mova de ti o teu candeeiro e entregue a outro o teu chamado...

Carlos Moreira





15 março 2017

Você é um Parasita?



Só existe sentido em participar de um ajuntamento de fé se lá você puder servir e ser servido. A comunidade é o espaço da troca, da interação, da comunhão, da experienciação das dinâmicas do Evangelho.

Paulo usa a metáfora de um Corpo Humano quando trata desta questão. Ele ensina que nesta maravilhosa máquina, que é o nosso corpo, todos os membros interagem entre si e todos tem uma função, independente de sua importância na execução de questões específicas.

Assim, ninguém pode prescindir de qualquer membro desse corpo, pois as habilidades de cada membro são limitadas ao seu próprio propósito, portanto, o que falta em um, é suprido pelo que há no outro.

Se você faz parte de uma comunidade e não tem uma função, você se torna um parasita, alguém estranho ao corpo, que dele se alimenta pela via da intrusão. Um parasita consegue se misturar ao corpo, não raras vezes camuflado, para obter os benefícios que precisa sem, contudo, ter o compromisso e a responsabilidade de lidar com todas as questões deste complexo organismo.

Desta forma, creiam, eles podem viver por muito, às vezes, trocando de corpo, saindo daqui para ali, visitando um lugar e outro, pulando de galho em galho, sempre com a intensão de receber, nunca de dar ou se comprometer.

O parasita é um egoísta que só pensa em si, recebe todos os benefícios possíveis sem, necessariamente, ter que dar nada em contra partida. Ele não tem preocupação com as questões do corpo, não se importa se um membro está doente ou sofrendo, não sabe o que a Cabeça está apontando nem para onde as pernas estão indo, muito menos o que mãos e braços fazem. A questão dele é se alimentar e gozar de todos os privilégios, e isso pelo maior tempo possível.

Ora, você não é obrigado a congregar, pode viver sua fé isoladamente, o ajuntamento é um privilégio cada vez mais declinado, pois há feridos aos milhares entre nós e muita gente frustrada com um modelo de igreja falido.

A cada dia, aumenta mais o número dos discípulos de Jesus que foram expurgados de comunidades de fé em função de sua flagrante convalescença, por vezes, reconheço, a igreja atrapalha mais do que ajuda.

Mas eu penso que você deve evitar a todo custo o risco de se tornar um parasita, trocando de corpo quando lhe convém e desenvolvendo um espírito utilitarista e predatório nas relações que desenvolve.

Se deseja congregar, encontre um lugar e fique lá, sendo útil no que for possível, igreja perfeita será algo viável apenas na Nova Jerusalém. Se esse lugar legal não existe aonde você se encontra, abra sua casa e comece um grupo, você poderá provar que é tão bom executando as tarefas de uma pequena comunidade quanto é em criticar as que já existem.



Carlos Moreira








13 março 2017

A "Cura Gay" e a Danação da Alma Humana





Em 34 anos caminhando com Jesus, tenho ouvido e convivido com centenas de pessoas homossexuais. Os dramas são inimagináveis e o que a igreja diz fazer por eles, “em nome de Deus”, é algo da mais grotesca intenção.

Eu creio firmemente que, se estivéssemos na idade média, com todo o poder que a instituição tinha, os gays seriam dizimados pelos senhores da ortodoxia, pelos perseguidores das diferenças, pelos exterminadores do amor, pelos executores da “moral e dos bons costumes”. Sim, em nome de Deus já se matou e torturou muita gente, e os gays comporiam essa lista, seriam queimados em fogueiras, arrancados de suas casas e torturados, pressionados a confessar estar possessos de demônios.

Eu não quero essa religião para mim, nem quero crer num Deus que não aceite alguém numa condição existencial diferenciada. E aí me falam: “Mas Deus cura!”. Sim, Deus é Deus, ele faz o que quiser sem dar satisfações, mas olhando a existência como ela é, e não como eu gostaria, as coisas não sucedem dessa forma.

Todos sabemos, o mundo é caído, a Terra passou a produzir “cardos e abrolhos”, a linguagem figurada do Gênesis, cheia de simbolismos, não pode ser entendida pelos escribas deste tempo, examinadores de códigos sem nenhuma competência hermenêutica, gente que estupra a Escritura em nome da sua fé.

Os impactos da queda são profundos e se movem em todas as direções, no físico e no emocional, no mundo animal, vegetal e mineral, na natureza e na substância das coisas, por isso Paulo fala que a criação geme e aguarda sua redenção, o estrago foi aterrador!

No entanto, a Graça redime, o amor cura, Deus fez a sua parte, a Cruz destruiu quem eu sou, o Sangue o que eu faço, toda a dívida foi exterminada, mas os homens costuram o véu novamente, e trazem Levítico para substituir Mateus, eles preferem Moisés a Jesus, são os que fazem gestão da misericórdia, os porteiros do céu que nem entram e nem deixam quem quer se salvar entrar.

Eu lido com centenas de homossexuais, alguns são amigos íntimos, outros estão na comunidade, são gente boa, pessoas amigas, leais, generosas, eles fazem o trabalho do Reino com devoção e responsabilidade. Não poderia estar mais honrado pela presença dos tais entre nós, estou agradecido a Deus por poder tê-los conhecido. Eles me confessam que tentaram de tudo, o imponderável para serem “curados” da maldição que a igreja lhes impõe, a dor é dilacerante.

Cura gay? De um gay que nasceu gay? De alguém que aos 3 anos de idade se percebe disforme dos seus iguais? De alguém que os pais já identificaram, ainda usando fraldas, que é diferente dos outros? Creio nessa cura como creio que a mangueira possa dar laranjas. Creio nessa cura como creio que Deus pode dar visão a um cego de nascença, em condições especiais, mas não como obra do catecismo dos crentes, nem de correntes de oração ou cultos catárticos de milagres, nem de processos de invasão de mente e alma com um doutrinamento perverso e violento.

Eu não prego a “Cura Gay”, eu prego o Evangelho que salva gays e todos os outros pecadores. O resto é com Deus, e você que não gosta que se entenda com ele. Se ao ser julgado, no último dia, o Senhor me imputar essa culpa, eu direi: “Perdoa-me, Pai, eu queria que todos os gays fossem salvos pelo teu amor. Se agi errado, tira, então, a minha porção da árvore da vida”. Serei honesto com Deus, direi isso de cara limpa e coração puro, ele sabe que aqui não minto nem faço jogo de cena, pago um preço muito alto para ser quem sou e fazer o que faço, não há nenhuma vantagem nisso.

Portanto, prefiro ver um gay curado pelo amor, sendo quem é e vivendo com reverência e discrição, do que “curado pela igreja”, negando sua natureza, introjetando ser o que não é, fazendo uma mutilação na sua alma, casado com uma irmãzinha e tendo pulsões pelos irmãozinhos, se escondendo atrás de ministérios e gemendo na solidão da cama, dando testemunho de libertação e chorando horrores por viver um simulacro. Sim, é isso o que acontece, e quem é gay e passou por esse processo não me deixará mentir. A cura para o gay é o amor, e a igreja que aí está dificilmente entenderá isso...

Carlos Moreira










10 março 2017

A Tirania de Deus foi nos dar a Liberdade de Ser



A tirania de Deus foi nos dar a liberdade de ser. Sim, toda tentativa de aprisionar a alma humana não vem de Deus, fosse esse seu desejo, nos teria feito anjos, sujeitos a sua vontade, e não humanos livres, capazes de fazer nossas próprias escolhas.

Ora, Jesus nos ensina que a proposta do Evangelho mantém esta premissa quando afirma: “Eu Sou a porta. Qualquer pessoa que entrar por mim, será salva. Entrará e sairá; e encontrará pastagem”. Jo. 10:9.

Mas a religião não suporta a liberdade, precisa de controles e regras, precisa supervisionar o que sucede na vida, esquadrinhar o pensamento, cercear impulsos, castrar o inusitado, amputar a inspiração. Sim, a religião é como uma máquina industrial produzindo pessoas em série, todas com suas mentes padronizadas, Robocops da fé, gente que perdeu a singularidade porque perdeu a identidade.

Quem pode dizer ser livre no meio religioso? Se o indivíduo precisa, logo de cara, aceitar uma cartilha inteira de regras ligadas aos usos e costumes da denominação? Se são livres, porque me perguntam se podem beber, fumar, jogar, dançar, transar, frequentar determinados ambientes, fazer piercing, tatoo, pintar o cabelo, usar essa ou aquela roupa, namorar com alguém de outra crença, comer certo tipo de comida, assistir um filme “censurado”, ir a motel, só para descrever algumas das questões que, para seres humanos normais, não são questões, uma vez que todas essas coisas fazem parte do cotidiano e deveriam ser tratadas como escolhas simples do modo de viver. Quem pode ser livre numa igreja que recrimina a opção sexual? Quem pode ser livre sofrendo bulling por não se adaptar a alta costura religiosa, que determina o padrão do que pode ou não ser usado como vestuário? Quem pode ser livre não tendo a opção de frequentar um ambiente qualquer por que ele está repleto de “pecadores”? Quem pode ser livre sem ter a prerrogativa de fazer o que bem entender com seu corpo, ainda que isso seja para o seu próprio mal?

Nessa perspectivas, quanto Paulo escreve sua carta aos Coríntios, ele cita: “O Senhor é o Espírito; e onde quer que o Espírito esteja, ali há liberdade”. 2ª. Co. 3:17. Esta frase está num contexto onde o apóstolo faz uma comparação entre o ministério da Lei de Moisés e o ministério da Lei do Espírito da Vida, conforme o Evangelho. É nesse mesmo capítulo onde ele diz que o “código” – a letra – mata, mas o “Espírito” – a liberdade – vivifica.

Ora, Corinto era a cidade mais promíscua e com as maiores manifestações de devassidão dos dias de Paulo. E foi justamente nesse contexto, que aparentemente poderia demandar "controles", que o apóstolo trata da necessidade de sermos livres. Mas que tipo de liberdade pode promover isso sem ser libertinagem? A liberdade do Evangelho, aquela que me permite ser livre para poder dizer sim ou não sem a obrigação de ter que cumprir códigos humanos e etiquetas religiosas!

No texto que citei acima, a palavra grega que designa liberdade é ἐλευθερία – eleutheria. Ela também é encontrada em outra passagem, na carta aos Gálatas 5:1, como segue: “Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Portanto, permaneçam firmes e não se deixem submeter novamente a um jugo de escravidão”. Ora, de que jugo Paulo estava falando? Das leis do judaísmo, dos códigos acéticos, das liturgias sagradas, das tradições dos fariseus, das regras comportamentais, das prescrições sociais, e de tudo que tornasse a vida uma prisão.

Portanto, afirmo, não pode haver fé sadia em um ambiente de punição e medo, de controle e cerceamento. Por isso muitas igrejas se tornaram usinas de neuróticos, sanatórios religiosos, casas de entorpecimento da mente e do coração. Assim, não se esqueça jamais: O Evangelho te dá identidade; a religião, dupla personalidade. Um te faz ser normal, o outro, um ser patológico...


Carlos Moreira







21 fevereiro 2017

SAI CAPETA!!



Essa foi uma conversa com alguém que me chamou pelo "in box" do Facebook.


- Pastor, boa noite.
- Oi mana!
- Essa agora eu quero ver... O que o sr. acha de um crente sair fantasiado de DIABO no carnaval?
- kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk! Acho interessante!! É aquele diabo com chifre, tridente, rabo em forma de seta e roupa vermelha?
- Esse mesmo, um que a bíblia chama de SATANÁS!!!!
- Vai ser uma zueira... kkkk. Se ele for esperto, manda um amigo sair de pastor pentecostal – paletó preto, gravata e cabelo engomado... Aí fica um tirando onda com o outro...
- Eu não acredito que estou ouvindo isso!!
- Eu também não!! Kkkkkkkkkkkkkkk
- O sr. concorda com isso?
- Mana, não sou eu que vou sair de diabo, é esse mano que você citou...
- E o sr. não acha nada demais?
- Não. Esse diabo que os crentes criaram, essa caricatura que citei, com rabo, chifre e tridente, é uma projeção do diabo medieval de Dante Alighieri, nada tem a ver com o ser ardiloso, inteligente e sofisticado revelado nas Escrituras. Esse “diabo de igreja”, que produz endemoninhados rosnando e rodopiando, não põe medo nem em criança de dois anos de idade.
- E como é esse seu DIABO???
- Ah... Jesus falou dele como “inimigo das nossas almas”, ou seja, ele age nas subjetividades, estimulando vaidades estilosas, ciúmes doentios, maldades calculadas, mentiras disfarçadas de bondade, desfaçatez ingênua, cobiças perniciosas. Paulo, por sua vez, nos diz que ele se disfarça de “anjo de luz”, travestido de boas obras, promovendo no coração das pessoas aquela piedade perversa, um tipo de ascetismo judaizante, ou uma espiritualidade meritória, ou ainda as barganhas tradicionais com o sagrado. Sim, o diabo se esconde onde crente nem imagina, pois o diabo dos crentes está no barzinho, na boate e no carnaval. O diabo mesmo está sentado no banco da igreja e não raras vezes ajuda o pastor com a “inspiração” para o sermão do domingo...
- Eu fico imaginando o que há na cabeça de um servo de Jesus para sair de diabo no carnaval!
- Eu sei... Ele está fazendo uma crítica bem humorada a safadeza que aí está, uma crítica sofisticada, admito, mas que não poderá ser percebida pela esmagadora maioria das pessoas. Ele tenta fazer o que Nietzsche fez, no século XIX, dizendo que Deus estava morto, pois o cristianismo que ele via praticado pelo clero da igreja protestante e pelos que se diziam cristãos só podia levar a essa conclusão.
- Quem é Nietzsche?
- Um filósofo.
- E o sr. lê essas coisas?
- Claro, eu sou filósofo por formação, mas eu sei que você vai dizer que isso é coisa do diabo! kkkkkkkk
- O mundo está mesmo perdido...
- Olha, mana, se fantasiar de diabo no carnaval é a menor de todas as questões... O problema é se vestir de diabo na igreja, todo domingo, oprimindo a mentezinha de gente sofrida, enganando com sofismas evangelicais os fracos de consciência, proibindo a bebida e bebendo a alma dos angustiados, cerceado o fumo e tragando o desespero dos famintos de esperança, proibindo o sexo e se amancebando com o dinheiro e a cobiça. Sim, tem mais diabo dentro da igreja que no carnaval, pois no carnaval ninguém está enganado de sua condição, quem está perdido sabe de si mesmo, mas na igreja o diabo ajuda a manter mentes entorpecidas, gente anestesiada de coração, que se esconde atrás de regrinhas bobas e de uma agenda pirotécnica, são seres de performance, mas sem conteúdo de vida, nada sabem do amor, da justiça ou da misericórdia.
- O sr. deixaria um crente de sua igreja sair de diabo?
- Não faço blitz na comunidade, não sei quem vai brincar ou não, todo mundo é maduro para fazer suas escolhas, eu não trato a alma das pessoas como latifúndio da religião, nem exerço sobre elas um magnetismo hipnótico em nome de Deus, quem vai lá é livre para entrar, sair e voltar, essa é a única regra, que todo homem seja livre para viver conforme a sua consciência em Jesus e no Evangelho.
- Pois eu nunca irei em sua igreja!
- Eu sei, mana, você prefere ir aonde o diabo fala com voz impostada, paletó engomado, bíblia na mão e cheiro de enxofre...


Carlos Moreira


13 fevereiro 2017

Me Proíbe que Eu Gosto!



A Assembleia de Deus de Pernambuco, que recentemente proibiu seus membros de lerem livros de teologia reformada, baixou agora uma portaria onde impede que os adolescentes (10 a 13 anos) que frequentem suas igrejas, namorem.

Quando eu tinha essa idade, ouvia relatos dos amigos que possuíam carro que as mulheres mais loucas com as quais eles haviam transado eram da “Bréia”, pois o recalque sexual, o tesão reprimido, as castrações comportamentais, os pudores de ocasião, a santidade construída a fórceps, tudo conspirava para que o fetiche crescesse na mente e os excessos viessem a tona como larvas de vulcão.

Obviamente, estas mulheres não eram adolescentes de 13 anos, mas um pouco mais velhas, acima dos 18, contudo, eram subproduto do mesmo meio, haviam crescido dentro desta ambiência de pudores e pruridos sexuais.

Pois bem, 37 anos se passaram e a gente fica com a expectativa que a cabecinha desta gente tenha se aberto, evoluído, comece, enfim, a pensar. Mais que nada... Na sociedade da internet, do sexo virtual, da “ficada”, do preconceito com quem é “BV”, da pílula do dia seguinte, das uniões sexuais heterodoxas, dos “50 Tons de Cinza”, da Miley Cyrus, os crentes imaginam que proibindo a garotada de dar selinho, ir no cinema, usar biquíni e sentar no banco da praça da igreja de mãos dadas vai ajudar em alguma coisa.

Ao invés de lerem Levítico, para se apropriar dos ditames da Lei, das regras comportamentais e dos ascetismos, tudo extinto em Jesus, esses pastores deveriam ler “Totem e Tabu”, de Sigmund Freud, escrito em 1913, que trata dos mecanismos de castração sexual com seus desdobramentos na psique dos indivíduos.

Ora, não é possível que a esta altura do desenvolvimento humano ainda não se tenha entendido que, quanto mais impomos controles, mais estimulamos a contravenção, quando mais mordaça, mas compulsão, quanto mais lei, mais pecado! Isso deveria estar claro lendo-se a carta de Paulo aos Romanos, capítulo 7, onde o apóstolo ensina que a Lei foi dada apenas para aviltar a transgressão, para que todo mundo fosse culpado diante de Deus, tendo na Graça, no Sangue e na Cruz a única alternativa de Salvação.

Vocês não tem ideia da quantidade de tara que se desenvolve nestes lugares opressores. Aconselho gente, inclusive pastores, que desgraçaram a vida por conta de compulsões sexuais que afloraram em meio as cercas de arame farpado imposta pela doutrina denominacional.

A igreja, neste tempo, transformou-se numa espécie de estatal imperial do Reino de Deus, legisla com mão de ferro e dita como deve ser a vida das pessoas. É uma invasão de privacidade, uma vez que a Escritura nos ensina que cada um deve fazer o seu próprio caminho com Deus, com boa consciência e fé, pois quem é maduro em Cristo não precisa nem de policiamento, nem de repressão.

Portanto, esse tema dos adolescentes está sob o domínio dos pais, não da secretaria da igreja, nem pastor nem bispo deve interferir nestas questões.

Ora, a AD não é a única instituição a proibir o namoro entre seus jovens e adolescentes, outras tantas denominações o fazem sob o manto do “Eu Resolvi Esperar”, que é outra maluquice destes dias. O que a AD fez foi normatizar oficialmente a questão publicando a determinação em reunião do “alto clero” e mandando que, quem tem juízo, siga a legislação eclesial.

E assim, mordaça posta no corpo, tampão nos olhos, fones nos ouvidos, bucha na boca e grades na mente, segue a vida como se nada fosse acontecer... Quanta ilusão! Só Deus sabe como essa meninada, que vive numa sociedade erotizada, onde propaganda de pneu de carro tem mulher pelada, vai lidar com a proibição. Acredite, se masturbação gerasse pontos para o ENEM, vestibulando da AD, e destas outras denominações que promovem castrações sexuais, bateriam todos os recordes de aprovação. E assim, diante de tanta doença, só nos resta dizer: “Me proíbe que eu gosto!”...


Carlos Moreira


* O Documento que está na foto acima é uma circular interna da ADPE com decisões tomadas no final do ano de 2016 e que começam agora a entrar em vigor. Perceba que o tema da proibição consta de uma das últimas postulações. Consultei uma pessoa de dentro da instituição, que ocupa cargo na igreja, e tive a informação confirmada. A fonte pediu para não ser identificada.



22 fevereiro 2016

Igreja: Um Ajuntamento Regular, Localizável e Organizado


Deus não habita nem em prédios de tijolo nem em corações de pedra. Então, cabe perguntar, o que é uma igreja? Bem, igreja, conforme o Novo Testamento é um ajuntamento regular, localizável e organizado. O próprio nome grego (Εκκλησία – Eclésia – Assembleia) já demanda, por si só, estas características.

Assim, não é possível estabelecer um conceito sobre igreja a partir de um modelo anárquico, ou seja, algo que acontece a revelia de todos os padrões mínimos que caracterizam a formação e o estabelecimento de grupos sociais com objetivos comuns.

É impossível pensar em igreja sem regularidade, pois, se não há um propósito para o ajuntamento, o que existe é a informalidade do encontro e tal característica, dificilmente, viabiliza a perenidade de um grupo humano. O que faz com que laços se constituam e se mantenham é a regularidade do convívio, pois, como é possível a comunidade de fé ser um Corpo se cada membro tem sua própria agenda e, sendo assim, não prioriza o encontro que atende a objetivos comuns?

Também não é possível ser igreja sem que haja um lugar para o culto, o partir do pão, a adoração, a coleta para os necessitados, o serviço solidário, o exercício dos dons, as missões, o ensino e tantas outras características que vemos no livro dos Atos e nas epístolas.

A igreja é Universal, no sentido de sua constituição atemporal, não espacial e mística, como Corpo de Cristo e Família de Deus, mas ela também é local, no sentido de seu ajuntamento geográfico formal! Todas as comunidades neotestamentárias possuíam um lugar próprio de encontro e culto, mesmo que ele fosse uma casa, um salão, ou até mesmo o cemitério! As cartas do Apocalipse, enviadas pelo próprio Senhor, bem como as cartas de Paulo, foram endereçadas a igrejas localizáveis e não apenas aos errantes espalhados pelo mundo anunciando a Salvação.

A existência de um lugar promove não só o acolhimento, mas até mesmo o desenvolvimento das pessoas, com estruturas adequadas para as ministrações, para a comunhão e o serviço. Desconstruir isso é investir na impessoalização da fé, num mundo onde tudo já está impregnado pelo virtual e pelo individual.

Por último, a igreja é organizada, uma vez que existem pessoas exercendo funções específicas e serviços sendo ministrados: assistência aos pobres, ensino das Escrituras, preparação e envio de missionários, atendimentos pastorais, atividades ligadas à oração, a adoração, dentre outros tantos. Sem uma organização, mínima que seja, não é possível uma estrutura funcionar. Não há pecado em formalizar as coisas, o pecado está no culto que se faz à forma!

Portanto, você pode ser de Deus e ser discípulo de Jesus mesmo escolhendo não se ajuntar, mas é impossível imaginar que uma igreja se estabeleça como algo casual, que acontece a qualquer hora, em qualquer lugar, ou informal, que promove encontros descompromissados. Não devemos confundir a vida dos que estão na igreja com a igreja em si.

No encontro de dois ou três, sem agenda, espaço ou propósito fixo, Jesus se faz presente, se ele for buscado e, como sabemos, Deus não se prende a templos e aboliu toda a geografia que diz respeito ao sagrado. Mas o encontro ocasional e fortuito, em absoluto, se constitui igreja e isso conforme o que nos está dito no livro dos Atos dos Apóstolos, nas Epístolas e no Apocalipse de João.

Assim, “Desigrejado”, para mim, não é o sujeito sem igreja, mas o que escolheu não ser igreja!


Carlos Moreira

10 novembro 2015

Fábrica de Neuroses







Como estamos nos distanciando, a cada dia, dos ensinos de Jesus e passamos a seguir sofismas ardilosos. No Evangelho não há qualquer menção de caráter ufanista, super-egóico ou pseudo ligado ao insuflamento da autoestima.

A saúde do ser, como se sabe, não está em levantar a moral do indivíduo, mas em pacificá-lo de dentro para fora, restituindo a paz em sua consciência e estabelecendo o bem em seu coração.

Mas a igreja, nestes tempo, precisa afirmar que você é uma “princesa”, que você é “cabeça e não cauda”, que você é “filho do Rei”, que você tem “poder”, que você pode “decretar a bênção”, que você é “ungido”, que você é “autoridade”, que você é “escolhido”, é uma overdose de veneno para a psique humana. São tantas as denominações de caráter preconceituoso e exacerbatório que, obviamente, é impossível viver carregando tudo isso sem passar a se achar melhor do que os outros ou, exclusivamente separado para experimentar “o melhor desta Terra”.

A questão concreta na vida real, todavia, é que só os “pastores” vivem nesta perspectiva, engordados em sua vaidade pelos dízimos de gente simples e fraca de mente, obesos de consciência e engordurados de coração. Sim, são estes que andam de jatinho, que possuem casas suntuosas, contas milionárias, templos faraônicos, que saem em capas de revistas e estão na mídia, todos os dias, pois, que importa que falem de mim, desde que eles falem?

Em Jesus, todavia, nós somos chamados para dar a vida pelos irmãos, pois o maior é o que serve e lava os pés dos cansados e aflitos. Em Jesus não temos espadas nas mãos, nem cetros de poder, mas bacias e toalhas, lavamos a imundice dos homens pela Palavra da Verdade e calçamos-lhes os pés com a preparação do Evangelho da Paz. Está tudo errado!

Minha tristeza é que, talvez, e desgraçadamente, você seja cúmplice disso! Imagine o nível de doença que é produzido num sujeito que sai de casa pela manhã achando que recitar meia dúzia de “mantras” fará com que o demônio se ajoelhe aos seus pés?

Imagine também a frustração de alguém que segue esta cartilha de maldades requintadas, que vive em campanhas, que paga o pedágio da fazenda celestial, que vive reprimindo a carne e negando sua própria humanidade, em almejar ser o que os pastores-lobos dizem que ele tem que ser e, ainda assim, nada está acontece em sua vida?

Imagine, ainda, o grau de ansiedade, de amargura, de conflito interior e desarranjo mental que esta pessoa passa a enfrentar achando que essas coisas não acontecem por que ele não tem fé, ou por que não fez direito a mandinga espiritual receitada como bula de enriquecimento e promoção da felicidade?

Creia, o Evangelho produz saúde e pacificação de alma, mas a religião é capaz de se fazer a igreja se tornar um viveiro de doenças, um lugar tão insalubre que mesmo quem só frequente, sem maiores compromissos, corre o risco de adoecer pela simples contaminação do que está escutando.

Carlos Moreira

15 julho 2015

Será Eterno o Inferno?




Sobretudo no ocidente, a ideia de inferno povoa a mente da grande maioria das pessoas. Talvez esta seja, inclusive, uma das grandes inquietações do ser humano em todos os tempos: qual será o seu destino após a morte?

Céu e inferno são conceitos que estão intrinsecamente associados à religião. A Bíblia está repleta de citações onde ambos aparecem, o primeiro como sendo o destino dos bons e justos, o segundo como lugar de castigo eterno para os maus.

No que diz respeito ao cristianismo, foi na Idade Média em que as ideias sobre o inferno mais se popularizaram. Ao observarmos as pinturas daquele período, constatamos produções realmente bizarras, como o Diabo e seus anjos cozinhando pessoas em caldeirões de óleo fervente, por exemplo. Imagens como esta são símbolos que servem para criar conceitos e propagar valores. Sem dúvida, esse era o objetivo já naquela época.

Mas o que realmente é o inferno? Um lugar? Um sentir? Perguntas como essas só podem ser respondidas do ponto de vista da teologia ou da filosofia, pois ninguém jamais foi até ele ou de lá voltou para nos dar qualquer depoimento.

Por outro lado, há quem afirme que as Escrituras são muito claras com relação ao inferno. Ora, isso depende de quem as interpreta. Os textos que falam sobre inferno usam uma linguagem recheada de metáforas, alegorias e arquetipias — presentes na apocalíptica judaica e, por conseguinte, na escatologia cristã.

O conceito de inferno, como nós o entendemos hoje, foi sendo desenvolvido nas Escrituras. No Velho Testamento, ele simplesmente inexiste. Já no Novo, o que encontramos é uma construção cultural-religiosa que é consequência da história do povo Hebreu pós-cativeiro babilônico.

No que diz respeito ao Velho Testamento, o pensamento sobre o pós-morte e o inferno pode ser compreendido na leitura de Eclesiastes capítulo 9. Lá está dito: “Pois os vivos sabem que morrerão, mas os mor-tos nada sabem; para eles não haverá mais recompensa, e já não se tem lembrança deles”, (v.5). Em seguida encontramos: “O que as suas mãos tiverem que fazer, que o façam com toda a sua força, pois na sepultura, para onde você vai, não há atividade nem planejamento, não há conhecimento nem sabedoria”, (v.10).

O que vemos nesse texto é algo que denota uma espécie de apagão. Para os hebreus antigos, quando a vida terrena findava, se alguém morresse sem a consciência de Deus e de sua Graça, restava apenas ser semeado na terra. Em sombra e silêncio, a alma deveria aguardar o juízo final. Tais indivíduos passavam então a habitar o Sheol, termo hebraico que significa túmulo. Portanto, neste período, não existia a ideia de inferno.

Para entendermos como esta concepção mudou, precisamos voltar à época da destruição de Jerusalém pelo rei Nabucodonosor e o inevitável exílio ao qual o povo hebreu foi submetido. Naqueles 70 anos de escravidão, os israelitas tiveram contato com os persas e depois com outros povos. Eles já traziam em suas religiões as crenças a respeito de anjos, céu e inferno. Isso pode ser constatado tanto no zoroastrismo como no confucionismo.

A partir de então, rabinos judeus “simbiotizaram” esses saberes universais sobre o mundo invisível com as doutrinas vétero-testamentárias, o que culminou numa nova consciência: a imaterialidade escatológica. Ela pode, inclusive, ser percebida na literatura apócrifa do período intertestamentário.

Por isso, quando começamos a ler o Novo Testamento, logo percebemos a mudança, pois nos deparamos repetidas vezes com o nome grego “hades”, o qual, na cultura helênica, predominante naquele mundo, representava o deus das camadas inferiores e dos mortos.

Na verdade, aquele “novo pensamento” era, em síntese, o resultado de séculos de tradição rabínica inculcada na mente e no coração do povo. Essa foi à fenomenologia que produziu as representações que passaram a conceituar o pós-morte e o inferno.

Curiosamente, todavia, é “lendo” Jesus que melhor compreendemos o que é o inferno. O Galileu nos revela com clareza que há, pelo menos, dois tipos dele: um existencial e o outro escatológico.

O inferno existencial trata de uma ambiência onde a alma humana, não raras vezes, sucumbe. Podemos encontrá-lo em duas alegorias expostas no Evangelho de Mateus. A primeira está no capítulo 5 e fala daquele que mata o seu irmão com a língua, que reduz o outro ao desprezo absoluto e o segrega ao estado do não-ser.

A segunda está em Mateus 18 e trata do “credor incompassivo” que, mesmo após ter sua dívida impagável perdoada, age com inclemência contra aquele que lhe devia uns trocados. Em ambos os textos está dito que o indivíduo culpado será remetido à “prisão” e “dali não sairá até que pague o último centavo”.

Portanto, este é um tipo de inferno de onde se pode “entrar” e “sair”. Eu já estive neste “lugar” algumas vezes, em agonia de alma, solidão, sofrendo dores lancinantes em meu ser. Sim, este sentir pode também ser percebido na fala do salmista quando afirma: “laços de morte me cercaram e angústias do inferno, se apoderaram de mim; caí em tribulação e tristeza...”. Sl. 116.

Esse tipo de inferno existencial nós provamos em vida. Ele não é habitado, ao contrário, instala-se no coração de todo aquele que se deixa persuadir pelo mal. Sentimentos e ações que manifestam ódio, medo, julgamento, egoísmo ou inveja, dentre tantos outros, acabam enraizados no ser e, por conseguinte, transformam nossos “ambientes interiores” em masmorras escuras e frias.

O segundo tipo de inferno, o escatológico, nos revela que aqueles que se negarem a aceitar a Graça de Deus ficarão numa espécie de lapso de memória/tempo. Jesus se refere a ele afirmando que se trata de um “lugar” onde “o verme não morre e o fogo não se apaga”.

Essa expressão, na verdade, é uma alegoria que aponta para o vale de Hinom. Este local, nos arredores de Jerusalém, ficou conhecido como um lugar de morte e perversidade. Foi lá que o rei Manassés sacrificou seus filhos a moloque, um deus pagão. A prática passou então a ser feita pelos filhos de Israel, o que veio a se constituir abominação ao Senhor.

Nos dias de Jesus, o vale de Hinom chamava-se Geena e havia se transformado no lixão de Jerusalém, onde o fogo não se apagava, em decorrência dos incêndios que visavam incinerar os dejetos ali colocados. Era também um lugar fétido e pútrido, pois havia degeneração de restos alimentares e humanos, o que favorecia a ambiência para a proliferação de vermes.

Quando Jesus falou de inferno, usando o nome Geena, todos os que pertenciam àquela cultura imediatamente fizeram a associação ao local e compreenderam que se tratava de uma comparação.

Todavia, ao longo dos tempos, a interpretação da igreja acabou tornando literal o que era apenas alegórico, transformando assim o inferno num lugar de fogo e enxofre, de demônios e vermes, sofrimento e miséria. Em Jesus, está mais do que claro que o inferno não é localizável, pois não se enquadra em categorias espaço-temporal. Não se trata de um local, mas de algo de natureza dimensional.

E aqui cabe perguntar: será eterno este inferno? Será. Mas isto do ponto de vista da eternidade, onde o khronos (tempo) não é algo como em nossa dimensão. Na eternidade, a “medida” que vale é o Aeon, um tempo sagrado, desprovido de uma medida precisa, um tempo onde as horas não passam cronologicamente, o tempo de Deus.

Caio Fábio afirma: “o inferno durará uma eternidade, mas a misericórdia de Deus vai de eternidade a eternidade”. Assim, o que se pode deduzir, e isso com fundamentação bíblica, é que até mesmo o inferno terá o seu fim, pois, como sabemos, “a misericórdia triunfa sobre o juízo”. Sim, a Graça já proveu todas as coisas!

Eu penso que a grande questão a ser entendida é que o inferno não foi criado para homens e sim para o Diabo e seus anjos! Quem pode acreditar num Deus de amor que, uma vez tendo concluído o seu plano, julgados os pecados de sua criação, irá enviar para um lugar de trevas, fogo e dor eterna as almas dos que não corresponderam às suas expectativas? Quem quiser que creia nesse deus! Menos eu!

O apóstolo Pedro pode nos levar a entender melhor este inferno escatológico. Em 1ª. Pe. 3:19, lemos: “no qual também foi e pregou aos espíritos em prisão que há muito tempo desobedeceram, quando Deus esperava pacientemente nos dias de Noé”.

Neste texto, Pedro usa a expressão “tártaro”, a qual estava associada à cultura helênica e representava uma subdivisão do hades. No tártaro ficavam todos os que haviam pecado deliberadamente contra Deus, ou seja, os homens maus.

Pois foi justamente a este “lugar” dimensional que Jesus se dirigiu quando morreu fisicamente. Ele entrou lá e anunciou: “Vencida foi a morte! Quem deseja aceitar a Graça de Deus?”. E assim, toda aquela geração teve uma nova oportunidade, pois, onde quer que uma consciência se acenda para a Boa Nova do Evangelho, dali sairá imediatamente para entrar na festa do perdão e da misericórdia.

Por outro lado, não é absurdo supor que alguém que chegou um dia a “habitar” o inferno, ainda que por um instante/momento, acabe por se tornar “diabo”. Assim, imagino que haverá aqueles que, deliberadamente, se recusarão a aceitar o Cordeiro e, sendo assim, perecerão. Sim, há um tipo de sentimento que se instala no coração para a morte, pois impermeabiliza o ser para o amor e, desta forma, quem o carrega, receberá justa punição.

Para esses que transgredirem e não aceitarem, em hipótese alguma o amor de Deus, haverá apenas juízo, pois eles serão lançados neste “lugar” e lá ficarão, “até que paguem o último centavo”, usando aqui a alegoria já exemplificada.

Ao final, o que teremos, após o juízo, está revelado no texto de Apocalipse 20:14, que nos afirma que: “A morte e o inferno foram lançados no lago de fogo...”. Nesta ocasião, quem estiver lá “dentro”, tendo rejeitado em todas as instâncias o perdão de Deus mediante sua Graça, estará sendo destruído para sempre.

Tanto o Diabo e os seus anjos, quanto os homens, deixarão de existir. Os homens perderão a consciência de si mesmos, sendo transformados em não-ser e, por fim, se nadificarão.

Eu sei que estou tocando numa questão paradigmática. Há gente, inclusive, que se soubesse que o inferno — tendo como referência este lugar que habita o inconsciente coletivo da cristandade — não existe de fato, talvez deixasse de amar a Deus e caminhar com Jesus.

O que percebo, no epílogo da existência humana, é que tudo é Graça e Misericórdia, pois apenas o que diz respeito ao amor se eternizará. O mais, tudo o mais, será extinto, passará o céu e a terra, mas o amor sobreviverá!

É minha convicção que na eternidade com Deus não haverá paraíso e inferno, ambos coexistindo paralelamente, simultaneamente. O que nos aguarda quando tudo estiver reconciliado com o criador, será aquilo que “nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano...”, pois Deus assim o quis.

Para mim, inferno sempre remeteu a algo que trata da separação de Deus. Viver sem Deus é existir no absurdo, entregue à própria sorte, e isso, nem mesmo o Eterno permitirá. Como se diz no jargão popular: “quem viver verá!”.

Carlos Moreira


05 novembro 2014

A Parábola do Pastor Rico




A PARÁBOLA DO PASTOR RICO

Crentonildo, 45 anos, pastor “bem sucedido”, casado, pai de 4 filhos, com curso de Formação Teológica, versado em inglês, pós-graduado em igreja de renome nos EUA, estava de férias em Israel.

Sentado no local onde, acredita-se, seja o Tanque de Betesda, meditava tranquilamente naquela tarde fria, pôr do sol em Jerusalém, quando, de repente, Jesus apareceu e sentou-se ao seu lado. A partir daí, iniciou-se a conversa que passo a narrar a seguir...

- Crentonildo – Bom Mestre, que posso eu fazer para que minha congregação herde a vida eterna?

- Jesus – Ora, tu não sabes o que propõe o Evangelho? Ama os abatidos, acolhe os caídos, sê solidário com os pobres, abraça o diferente, ensina a Verdade, faz discípulos e tua comunidade será salva!

 - Crentonildo – Bem... É... Deixa eu ver... Mas... Tudo isso tenho feito, Mestre, desde a minha juventude!

 - Jesus – Então, só uma coisa te falta: vende teu templo e tudo o que nele há e dá aos pobres. Faze isso e depois vem e segue-me

 - Crentonildo – Mas Senhor, como bem sabes, tenho uma mega-igreja na minha cidade... E não poderia ser diferente! Para abrigar nossos dez mil membros, é necessário manter aquela enorme estrutura! 

 - Jesus – Por quê?

 - Crentonildo – Ora, como vamos acolher mais de duas mil pessoas em cada um de nossos 4 cultos?

 - Jesus – Para que tanta gente junta?

 - Crentonildo – Como assim?

 - Jesus – Ao invés de uma igreja com dez mil membros, você poderia ter dez com mil membros...

 - Crentonildo – Mais assim eu enfraqueceria a estrutura e fragilizaria o planejamento!

 - Jesus – Pelo contrário! Fazendo desta nova forma, você estaria em mais lugares, alcançando mais pessoas! Assim, fortaleceria a estrutura, pois haveria mais espaços para novos líderes, novos grupos ministeriais, mais gente envolvida, compromissada... A cidade inteira seria beneficiada por esta ação!

 - Crentonildo – Olha Jesus, você não conhece aquela gente... Eles precisam de estacionamento, de vários banheiros, de fraldário, estúdio de gravação, quadra poliesportiva, salas, auditórios, é muita coisa!

 - Jesus – Você é pastor de um igreja ou administrador de um shopping center?

 - Crentonildo – Precisamos de tudo isso se não, não funciona!

 - Jesus – Por que não se reúnem nas casas? Algo mais simples, mas intimista?

 - Crentonildo – São poucos os que estão dispostos a abrir suas casas. Por que você acha que a igreja precisa ser tão grande?

 - Jesus – Porque as casas deles são deles mesmos,  não são minhas, não estão a minha disposição...

 - Crentonildo – E minha equipe pastoral? Como vamos mantê-la? Como poderei pagar os ministros se fragmentar a frequência e distribuir as pessoas em várias comunidades?

 - Jesus – Seus pastores não trabalham?

 - Crentonildo – Meu Deus! Em que mundo você está? Pastor de igreja grande trabalha muito e tem que ganhar bem! É tempo integral!

 - Jesus – Eles poderiam ter trabalhos seculares e exercer o ministério. Espalhados em diversas empresas, seriam oásis de misericórdia e graça em meio a tanto sofrimento. O Paulo, que foi meu apóstolo, tinha seu próprio trabalho, não dependia de igreja para viver. Em alguns casos, talvez fosse bom à dedicação exclusiva, mas isso deveria ser exceção, não a regra. 

 - Crentonildo – Mas Paulo não precisava batizar, casar, enterrar, fazer 15 anos, aconselhamento, bodas de prata, aniversário da sociedade feminina, visitar hospital, ter reunião com os jovens, com os casais, fazer palestras em movimentos...

 - Jesus – E por que você não deixa que o povo realize estas coisas? Em meu Nome, eles podem e devem fazer tudo isso! Se você não os deixa fazer, eles ficam obesos espiritualmente, acomodados, confortavelmente anestesiados.

 - Crentonildo – Você tá de brincadeira! Fazer tudo isso sem ir ao Seminário Teológico? Sem ordenação? 

 - Jesus – Mas eu  já os ordenei quando disse: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura”!

 - Crentonildo – Sim, mas isso foi há muito tempo, e foi muito genérico. Ali tudo era muito frouxo, sem organização, sem institucionalização. Agora as coisas são diferentes, ninguém pode ir fazendo o que quer sem ter nosso aval antes.

 - Jesus – Quando criei a igreja, estava criando um organismo vivo, não uma organização morta. Era para todos estarem envolvidos, todos serem usados, pois todos são sacerdotes!

 - Crentonildo – Olha, voltando a questão dos custos, você não tem ideia do quanto pagamos para manter tudo aquilo funcionando? É taxa de energia, bombeiro, água, internet, são os funcionários, o jardim, a manutenção, os impostos sobre tudo isso, é muito gasto!

 - Jesus – Se a estrutura fosse mais simples, com menos despesas, este dinheiro poderia estar sendo utilizado para ajudar os necessitados, da própria comunidade, e outros, de bolsões de pobreza próximos.

 - Crentonildo – Mas nós já damos 20 cestas básicas por mês! E tem o pessoal que faz um sopão nas quintas feiras.

 - Jesus – Estas são ações marginais, apenas pontuais. Vocês poderiam fazer coisas mais relevantes. Ao invés de usar o que vocês chamam de dízimo para cobrir tantos custos, além de manter certos luxos, poderiam adotar uma favela e fazer casas simples para as pessoas. Vocês poderiam ajudar creches nestes lugares, ou solidarizar-se com ações de ONG´s e outros institutos que promovem cursos e tentam viabilizar um tipo de ajuda que promove socialização e dignidade. Lembre-se que Deus deseja ser amado no outro!

 - Crentonildo – Olha Jesus, me desculpe, mas isto está me cheirando a Espiritismo. Esse negócio de ação social, que se preocupa com o material e não traz salvação ao espírito, não serve para nada.

 - Jesus – A sua fé sem obras é morta, já dizia Tiago. Vocês são teóricos da religião, platonistas modernos, desenvolveram uma espiritualidade que se ocupa das coisas do céu e se esquece das demandas da Terra.

 - Crentonildo – Além disso, mesmo que eu quisesse fazer assim, não poderia, pois temos nossas regras internas, nossos cânones, e eles determinam como o dinheiro deve ser gasto. Você sabia que 70% do que arrecadamos vai para pagar a folha da igreja: pastores, músicos, professores, etc.?

 - Jesus – Então a igreja existe para viabilizar o ministério de vocês! Se fizessem uma auditoria, e expuzessem aos membros estes números, eles diriam que nenhuma empresa pode gastar mais do que 40% de suas receitas com folha de pagamento. Como, então, uma igreja pode se dar ao luxo de fazer um despautério destes?

 - Crentonildo – Você pensa que tem muito membro contribuinte? Hoje em dia, só 30% da comunidade oferta regularmente, dá, de fato, 10% de dízimo. O resto fica só olhando... É dureza!

 - Jesus – Eles não dão porque não acreditam no que vocês pregam, nem muito menos no que vocês fazem! Se vissem a aplicação justa dos recursos, todos estariam contribuindo de alguma forma, uns com mais, outros com menos, de acordo com as possibilidades de cada um, conforme Paulo escreveu na carta aos Coríntios, que é o Espírito do meu Evangelho. 

 - Crentonildo – Olha Jesus, nós não somos daqueles que pregam prosperidade não! Nosso dinheiro é mirrado!

 - Jesus – No meu Reino não há acúmulo, mas distribuição. Quanto mais se distribui, mais Eu dou, quanto mais se acolhe ao caído, ao necessitado, mas Eu derramo bênçãos sem medida, de todos os tipos... 

 - Crentonildo – Olha Senhor, queria que você ficasse lá com a gente só um mês, para você ver como aquilo lá funciona. Tenho certeza de que só este tempinho já mudaria sua opinião.

 - Jesus – Olha Crentonildo, eu conheço a sua comunidade. Digo sua, porque ela nunca foi minha. E sei bem o que vocês fazem lá, por isso lhe dei todos estes conselhos. Agora tenho de ir. Mas digo-lhe uma última coisa: o que tens de fazer, faze-o depressa, para que Eu não venha e mova de ti o teu candeeiro e para que tu não te tornes cego, pobre e nu. 

 E assim Jesus levantou-se e saiu, lentamente. O texto, como se pode perceber, é fictício, mas os fatos descritos, são reais. Sim, e quem é pastor, quem é líder, quem sabe como a “engrenagem” funciona, perceberá que fui simplista e exageradamente misericordioso, não expondo coisas que aqui não precisam ser ditas. 

É tempo de repensar a igreja! Não sou contra a estrutura, mas contra toda a estrutura custosa, megalomaníaca, inchada, portentosa. Bom seria que nos reuníssemos em lugares mais simples, quem sabe até alugados, para que não se investisse tanto na aquisição e construção de templos, não raro, asfixiando as pessoas para viabilizá-los. Nós pregamos o desalojamento, dizemos que esta não é nossa casa, que somos peregrinos, e colocamos prata e ouro enterrados no chão, reduzimos a igreja a tijolo e concreto, esquecemos do essencial, que são as pessoas! 

Mas é bom lembrar que, muito em breve, aquele que é o Cabeça da Igreja voltará para buscar a Sua Noiva. Neste dia, não caberão disfarces, encenações ou desculpas, tudo ficará patente diante de nossos próprios olhos. Portanto, quem tem ouvidos para ouvir, ouça, o que o Espírito Santo está dizendo a igreja.

Carlos Moreira

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É importante esclarecer que este BLOG, em plena vigência do Estado Democrático de Direito, exercita-se das prerrogativas constantes dos incisos IV e IX, do artigo 5º, da Constituição Federal. Relembrando os referidos textos constitucionais, verifica-se: “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato" (inciso IV) e "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença" (inciso IX). Além disso, cabe salientar que a proteção legal de nosso trabalho também se constata na análise mais acurada do inciso VI, do mesmo artigo em comento, quando sentencia que "é inviolável a liberdade de consciência e de crença". Tendo sido explicitada, faz-se necessário, ainda, esclarecer que as menções, aferições, ou até mesmo as aparentes críticas que, porventura, se façam a respeito de doutrinas das mais diversas crenças, situam-se e estão adstritas tão somente ao campo da "argumentação", ou seja, são abordagens que se limitam puramente às questões teológicas e doutrinárias. Assim sendo, não há que se falar em difamação, crime contra a honra de quem quer que seja, ressaltando-se, inclusive, que tais discussões não estão voltadas para a pessoa, mas para idéias e doutrinas.

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