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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.

26 novembro 2010

Enterrado Vivo


“Deus está morto, e o seu túmulo é a igreja”. A frase famosa de Friedrich Nietzsche, filósofo alemão do século XIX, filho de uma família luterana, homem que pensou em seguir o sacerdócio, mas que “rejeitou a fé” durante a adolescência para dedicar-se a filosofia, é de chocar, a primeira vista. Mas para entender o pensamento de Nietzsche, primeiramente, você deve lê-lo. Criticá-lo utilizando-se de frases feitas por fundamentalistas é por demais clichê. A leitura de um filósofo é como a leitura de um profeta, nunca deve ser feita fora de sua matriz existencial, de seu tempo, sua cultura e sociedade. São estes matizes históricos que constroem o mosaico sobre o qual o pensamento e as palavras de alguém ganham significado.

As críticas de Nietzsche ao cristianismo e as suas asseverações sobre a “morte de Deus”, sobretudo aquelas encontradas no livro “Assim Falou Zaratustra”, precisam levar em consideração a herança medieval que a igreja de seu tempo trazia consigo. O “Deus” que o filósofo afirma que está morto é o ídolo que entorpece os sentidos e percepções humanas, o ser castrador, manipulador e egocêntrico criado pela Instituição, o “Deus” do dogma, da repressão, do medo e da punição.

Se Nietzsche vivesse em nossos dias, observando as aberrações praticadas em nossas igrejas, seus escritos seriam transmutados de profanos para proféticos! O que se faz hoje, comparado com o que se fez na Idade Média, transforma os monstros da santa inquisição em criancinhas dóceis de escola dominical.

Creia-me, em termos de bizarrice, deformidade, estelionato e manipulação, nada se compara ao que estamos assistindo ao vivo e em cores nos cultos de algumas denominações, nos shows gospel de astros evangélicos, nas campanhas e correntes de fé, onde o sincretismo associa práticas judaizantes, religiões de mistérios, macumba, feitiçaria e espiritismo, tudo em nome de Deus!

Essa afirmação de Nietzsche de que o túmulo de Deus é a igreja não é despropositada. No passado, era prática comum enterrar as pessoas dentro de igrejas, sobretudo aquelas que possuíam maiores posses. Famílias influentes, ricas e poderosas, tinham seus próprios jazigos nos corredores e assoalhos das catedrais e igrejas. Sacerdotes também eram enterrados no “solo sagrado”, sobretudo em locais próximos ao altar ou mesmo abaixo dele.

Com a pandemia da peste negra na Europa do século XIV, que dizimou aproximadamente 75 milhões de pessoas, o sepultamento em igrejas tornou-se algo inviável.

Nessa época, sobretudo por questões de saúde pública, os cemitérios começam a ser implantados nos grandes centros. Assim, os sepulcros sacros, tanto do lado de dentro quanto do lado de fora das igrejas, foram totalmente abandonados, ficando a prática restrita apenas ao clero que, em determinados lugares, ainda mantinha o ritual.

Tudo isso me veio à mente porque eu tenho considerado a igreja dos nossos dias como cemitério de gente, com uma distinção fundamental em relação ao passado: hoje as pessoas estão sendo enterradas vivas! Desgraçadamente, elas vão sendo sepultadas paulatinamente, em doses homeopáticas. A afirmação é terrível, mas a explicação é lógica e simples.

O sujeito existe no mundo sem Deus, sem qualquer tipo de espiritualidade ou de relação com o sagrado. Não raro, sua vida está arrebentada, ele vive desacreditado de tudo, desencontrado de quem de fato é, de sua própria alma, cético e, por vezes, cínico.       

Em muitas situações, sua família está esfacelada, isso quando ele já não vem separado. Os filhos, em muitos casos, são outro grande problema, pois ou cresceram com péssimas referências, ou estão sendo criados pela TV e pelas babás.

Sexo é outra dificuldade. A grande maioria vem de relacionamentos reciclados, com parceiros dos mais diversos com os quais trocaram não apenas fluidos, mas, sem perceber, simbiotizaram suas próprias almas e espíritos com gente de todo tipo. Isso dilui o ser, torna a substância interior uma pasta, muda referências e até padrões comportamentais e psicológicos.

Não bastasse tudo isso, há questões periféricas, mas que também são importantes. Por exemplo: a vida financeira quase sempre está desarrumada. Movidas pela concupiscência dos olhos e pela necessidade de manter aparências, as pessoas de nossa sociedade fazem do cartão de crédito uma arma apontada para suas próprias cabeças! 

Ética é também outro tema confuso. Isso aparece mais claramente quando estamos tratando de práticas profissionais. Percebo que em muitas situações, para manter privilégios ou garantir oportunidades, pessoas estão dispostas a relativizar o absoluto e absolutizar o relativo, negociam tudo, até suas próprias almas, se preciso for.
 
Quando uma pessoa chega a uma comunidade de fé com toda essa bagagem, naturalmente espera que ali possa encontrar pacificação e alívio. Mas a ilusão dura pouco, apenas o tempo necessário para ela constatar como as coisas, de fato, funcionam...

A máquina institucional-religiosa é cruel e não poupa ninguém. Não há fé que resista, não há paixão que suporte. A morte compulsória começa justamente aí, é o enterro antecipado, o sepultamento desdobrado em módicas parcelas.

Massacrado por práticas perversas, dogmas irrefutáveis, liturgias alucinógenas, ritos, mitos, medos e modos, além de um compêndio de doutrinas bizarras, que vão dos absurdos “usos e costumes” até o pagamento do imposto-dízimo, o fiel vai tendo a sua consciência cauterizada, suas emoções anestesiadas. Suas inquietações vão aumentando ao invés de diminuírem, e suas contradições vão se tornando ainda mais realçadas. Em resumo, o indivíduo passa a viver na igreja em situação pior do que vivia fora dela. Pode?!

De fato, creio que a igreja tornou-se novamente um cemitério, um lugar onde a morte é mais propagada que a vida. Ela vem embalada de várias maneiras: nas leis eclesiais, nas proibições, nas castrações, na propagação do medo – medo do inferno, do diabo, do castigo, da alegria, da diversão, da cultura, do saber, e até medo de Deus!

A cada domingo, a cada culto, a cada pregação, o sujeito vai perdendo a vida, não da forma como Je -sus falou, que é a perda que produz ganho, mas da pior forma possível, a perda que produz frustração e angústia existencial.

Há muitos anos, aprendi algo importante: o lugar mais rico da terra é o cemitério. Sim, o cemitério é o lugar onde muitos sonhos foram enterrados. Nele há livros que nunca foram escritos, canções que nunca foram compostas, ideias que nunca se materializaram, negócios que jamais se realizaram e relações que nunca foram a lugar algum. Tudo, absolutamente tudo ali foi tragado pela morte. É um tesouro incontável, mas que não tem qualquer proveito.

Como é triste ver igrejas se transformarem em cemitérios. Como é de estarrecer ver pessoas sendo enterradas vivas! Não morra desta forma! Não perca sua alegria, não permita que sua esperança sucumba, não consinta com o sepultamento de sua consciência, de sua razão, de sua autocrítica, sua sensibilidade, seu gosto pelo belo, pela arte, pela música, pela dança, pelo amor!

Fuja de todo radicalismo, de toda ortodoxia neurótica, de todo fundamentalismo insano, de toda dog-matização presunçosa. Nada disso tem a ver com o Evangelho ou com Jesus de Nazaré, pois seu convite é para que experimentemos a vida, nunca a morte!

Georges Clemenceau, jornalista francês, escreveu: “Os cemitérios estão cheios de pessoas insubstituí-veis”. Tenho convicção de que para Deus você é irrepetitível e insubstituível! Ele não lhe vê como mais um, pois você não é um número nem um rosto na multidão. Não é apenas um dizimista, ou alguém que executa funções na igreja. Para Deus, você é singular!

Muito em breve chegará o dia em que serei sepultado. Não sei quem fará o ofício, mas espero um funeral de categoria, com muita música e alegria.


Quero que celebrem a minha vida, nunca a minha morte, pois, naquele momento, estarei indo de en-contro para aquilo a que fui predestinado, para ser integral, conhecer como sou conhecido, para não mais ver por espelho, mas face a face, existir em es-sência, com corpo ressurreto e vida eterna.

Apesar de tudo isso, não estou com nenhuma pressa de morrer e muito menos de ser sepultado antes da hora, principalmente, porque ainda estou vivo! E mais: Deus não está morto, mas vive, não pode, todavia, ser algemado a uma religião, pois, por sofrer de claustrofobia, não é possível ser contido ou enclausurado. Quem puder entender que entenda...



Carlos Moreira

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