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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.
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12 junho 2012

Preocupados com a Vida Eterna, os Cristãos Desprezam a Vida na Terra




Acho curioso como, tão escandalosamente, a religião se contrapõe à proposta de Jesus. Enquanto o Evangelho se propõe a pacificar o coração dos homens, a religião promove o seu distanciamento; um sugere a transformação da consciência, a outra uma mudança comportamental; um trata do perdão dos pecados, a outra da realização de obras meritórias; um chama as pessoas a reconciliação com o Criador, a outra tenta convencer o Criador a aceitar as criaturas.

Não é a toa que muitos filósofos e pensadores, olhando para a história da civilização humana, mantiveram diante da religião um olhar crítico, cético e por vezes, cínico. Heinrich Heine, escritor e poeta alemão, num tom sarcástico, afirmou certa vez: “bem-vinda seja uma religião que derrama no amargo cálice da sofredora espécie humana algumas doces, soníferas gotas de ópio espiritual...” Marx, pai do socialismo científico, não economizou “tinta”, e vociferou à seu tempo: “a religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração. É o ópio do povo”. Hegel, um dos mais respeitados filósofos, pai do idealismo absoluto, apesar de ter estudado no seminário protestante de Württemberg, era outro que via a religião como alienação da essência humana.

Friedrich Engels, um dos criadores da teoria do materialismo histórico e dialético, no século XIX, fez uma avaliação bastante lúcida sobre a religião cristã ao longo do tempo. Ele afirmava que, primeiramente, a cristandade foi uma religião dos pobres, dos desterrados, dos condenados e oprimidos. Todavia, não demorou muito para, no século III, se estabelecer como ideologia estatal do Império Romano. Em seguida, já na idade média, alinhou-se perfeitamente com a hierarquia feudal européia e, logo depois, a partir da revolução industrial, já na modernidade, amalgamou-se a sociedade burguesa.

Eu penso que uma das coisas mais imprescindíveis nestes tempos difíceis que vivemos é manter um olhar analítico e crítico a respeito de nossa própria história. Nosso objetivo deve ser repensar que papel nos cabe no mundo que vivemos, na sociedade na qual estamos inseridos, com vistas a materializarmos, com ações concretas, as propostas que possam vir a ressignificar o que afirmamos ser a fé em Jesus Cristo.

Contudo e, tristemente, o que tenho visto, cada vez mais, é o entorpecimento, a alienação, a “massa manipulada”, a “teologia” do comodismo que sacrifica sobre o altar da conveniência, a substituição da singularidade da unidade pela burrificação da unanimidade. Vejo os cristãos preocupados com a vida eterna, “labutando” em busca de garantir o futuro, sonhando com o galardão prometido, enquanto a humanidade se esvazia por completo de qualquer possibilidade de encontrar na existência significados, e a Terra agoniza pela exploração de seus recursos cada vez mais escassos.

Olho as igrejas lotadas de gente, não raro, vazia, egoísta, vivendo uma espiritualidade adoecida, que olha para si mesmo, mas não é capaz de perceber o próximo. Os cristãos estão enredados com movimentos, programas, seminários, shows, cultos, atividades que são justificadas pela velha máxima: evangelizar os perdidos! Você dificilmente encontrará essa gente em passeatas que reivindiquem questões sociais importantes, ou engajadas em ONG´s e outras organizações que lutem por direitos dos menos favorecidos, ou participando de projetos que viabilizem o desenvolvimento sustentável do planeta. Não, o “negócio” dos “crentes” é buscar o sobrenatural! Deixa que o natural se acabe, se desmantele, se extinga...    

Eu cresci ouvindo chavões do tipo: “crente não se envolve com política”; “a Terra está sendo “entesourada” para o fogo eterno”; “temos de cuidar dos da família da fé”. Por isso os políticos evangélicos são os mais corruptos do Congresso Nacional, a Terra está sofrendo com "dores de parto", levada a superar todos os seus limites, e os que não fazem parte de nossa “confraria” agonizam pelas ruas, nas cracolândias da vida, nas sarjetas da existência, nos hospitais, nos presídios, nas favelas. Só de pensar tenho calafrios... "Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos; Porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; Sendo estrangeiro, não me recolhestes; estando nu, não me vestistes; e enfermo, e na prisão, não me visitastes". Mt. 25:41-43

Nossa religião é “espiritualidade” de ocasião, com choro de encenação e contrição de momento. Tiago, em sua epístola, escrevendo para os judeus da dispersão, gente ainda impregnada pela “religião de Israel”, afirmou que essa religiosidade calcada sobre a fé, mas que não possui boas obras, para nada aproveita. Parafraseando o apóstolo, poderia perguntar: “mostra-me onde estais, com a tua fé, e eu, com o meu engajamento em questões prementes da humanidade, te mostrarei a minha!”. 

Gramsci, filósofo e cientista político italiano do século XIX, analisando na sociedade contemporânea a cultura religiosa, concluiu que ela é “a utopia mais gigante, a mais metafísica que a história jamais conheceu, desde que é a tentativa mais grandiosa de reconciliar, em forma mitológica, as reais contradições da vida histórica”. Em outras palavras, a religião é artigo de luxo, serve apenas para “anestesiar a alma”, mas tem pouca ou nenhuma utilidade para o espírito dos homens.

Enquanto a “igreja” continuar alienada entre quatro paredes, embevecida com suas próprias obras, pensando na vida no além, o mundo padecerá com “cólicas” sociais, milhões morrerão de fome, de frio, de sede, de maus tratos, gente que não poderá ser “evangelizada” porque estará enterrada numa cova rasa! Sim, enquanto ficamos apenas “orando” e “louvando” ao “senhor”, os rios estão sendo poluídos, as matas devastadas, o ar contaminado, os animais extintos, a camada de ozônio destruída. “Aleluia irmãos!”...

Com a ajuda que estamos dando ao “diabo”, ele nem precisa se ocupar em fazer o que Jesus afirmou: “matar, roubar e destruir”. Pode tirar férias e ir para Boca Raton! Minha oração nestes dias é ver menos gente “entulhada” dentro da “igreja”, ou seja, aqueles que não fazem nada, não tem compromisso com nada, e mais gente em sindicatos, OSCIP´s, organizações de direitos humanos, gente que se interesse pelo que seu candidato evangélico está fazendo, gente que vá as ruas, que proteste contra tudo o que ferir a dignidade humana, que seja “Elias” em nosso tempo, profetas que denunciem a injustiça e a maldade, e não aspirantes de feiticeiros, adivinhando o futuro dos outros. 

Se eu creio na vida eterna? Claro que sim! Se eu a espero? De todo o coração! Se estou na expectativa da volta de Jesus? Oxalá fosse hoje! Mas até que tudo isso se torne realidade para mim, tenho muito o que fazer aqui na Terra pois, parafraseando Paulo, ainda não completei a carreira para poder guardar a fé e receber a minha coroa, a qual o Justo Juiz me dará naquele dia! Sim, afirmo com toda autoridade: quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz a Igreja! 

Carlos Moreira

 

29 junho 2011

Afinal: Você Confia ou não Confia?


Ontem à noite eu me vi diante de uma cena inusitada... Minha filha Gabi colocou na orelha um brinco e ele entrou na pele, o que fez com que a região inflamasse e sua retirada se tornasse algo extremamente doloroso.

Sei que Gabriela ama a mãe loucamente, confia nela cegamente, mas aquela situação a fez agir de forma inusitada. Ela corria de um canto para outro e não deixava a gente, sequer, se aproximar para ver o que precisava ser feito. Em certo momento, senti a angústia nos olhos de Fabiana, algo do tipo: “milha filha, ou você confia ou não confia!”.

É fácil manter a confiança quando o contexto é favorável, quanto o problema é contornável, quando os envolvidos são confiáveis, quando as medidas a serem tomadas são palpáveis. Mas, e quando não?...

Aqui surge uma questão: como confiar quando os fatos são contrários, quando Deus se torna “indisponível”, ou o céu mostra-se impermeável, quando o “telefone” do Altíssimo fica dando “caixa postal”? O que fazer no momento em que as coisas, aparentemente, não possuem sentido ou lógica, e o caos aproxima-se de nós com um apetite voraz? 

Como todos sabem, gosto muito do profeta Habacuque. Trata-se de um homem suigeneris, pois, ao invés de começar seu ministério confrontando aos homens, ele parte para questionar o próprio Deus. Por isso, de cara, me apaixonei por ele, pois em Habacuque não existem “salamaleques” para com o sagrado, ele é um ser perplexo em busca de respostas, assim como eu.

A questão central no livro de Habacuque é o afastamento de Israel da comunhão e intimidade com Deus. Profeta do período pré-exílico, ele constatou que o bem se afastara da vida dos seres humanos, assistiu ao desvirtuamento das relações, viu o poder sendo usado para esmagar o próximo, o estabelecimento da corrupção, da volúpia por sangue, da ganância, do desamor como praxis, ou seja, a inexistência de todos os matizes dos quais é constituída a matriz de valores do Evangelho.

Depois de insistentes questionamentos sobre o fato de Deus está, aparentemente, inerte a toda aquela situação, Habacuque recebe, então, a sua resposta. Foi impossível não lembrar de Guimarães Rosa “esperar é reconhecer-se incompleto”. Ah, coisa difícil é esperar... sobretudo, esperar por Deus... Ele parece sempre estar indisponível no dia da calamidade, da dor, da solidão, da tragédia.

Todavia, a resposta que Deus deu ao profeta não lhe agradou. Ele estava preparando, como “vara de juízo” sobre o Seu povo, uma nação ainda mais perversa, corrupta e dura: os Assírios. Aí o profeta foi à loucura! “Como assim Deus?! Você vai nos disciplinar usando gente mais corrompida do que nós mesmos?!”.

Sei que não está escrito no livro de Habacuque, mas, neste ponto, penso que Deus questionou o profeta: “afinal, você confia ou não confia?”. E é justamente aí, em meio à perplexidade, ao inexplicável, ao ilógico, ao contraditório, ao irracional, ao desconexo, que surge um homem resignado a obedecer e aceitar os desígnios do amor de Deus, pois, mesmo quem ama, tem de ser firme.

Ouvi isso, e o meu íntimo estremeceu, meus lábios tremeram; os meus ossos desfaleceram; minhas pernas vacilavam. Tranqüilo esperarei o dia da desgraça que virá sobre o povo...”. 


A lição que tiramos da vida deste homem é que confiar não é uma ação que nasce na consciência, mas no coração. Confiar é lançar-se no absurdo, no insondável, é abrir mão de racionalizações, de conjecturas. Confiar é resignar-se, aquietar-se, render-se, sublimar-se, é ir na contra-mão, no contra-fluxo, esperar o inexplicável, aguardar o improvável, ter a certeza de que, ainda que contra todas as evidências, Deus nos fará bem e nos trará a paz.

Habacuque nos ensina que ainda que o fluxo natural da existência  – “mesmo não florescendo a figueira, não havendo uvas nas videiras; mesmo falhando a safra de azeitonas, não havendo produção de alimento nas lavouras, nem ovelhas no curral nem bois nos estábulos”, seja, por algum motivo, alterado, ainda assim ele confiará no Senhor, pois diz: “exultarei no Senhor e me alegrarei no Deus da minha salvação”.

O nome Habacuque significa “abraçado por Deus”. Não sei o que se passa em sua vida, mas eu, particularmente, tenho vivido dias muito difíceis... Algo, entretanto, me fala ao coração: “filho muito amado, foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei, recebe o abraço do teu Pai”. E eu lhe pergunto: “do que mais precisarei?”. 

Carlos Moreira

25 junho 2011

O "Ciclo do Buraco"


Recife é uma cidade cortada por rios e cercada de manguezais. Como está abaixo do nível do mar, quando chove é uma tragédia, pois, com galerias entupidas e lixo nos canais a água não tem por onde escoar e, assim, tudo fica inundado.

Eu viajo por todo o Brasil, mas acho que minha cidade é a recordista em buracos no asfalto. Quando chove, isto se transforma numa verdadeira desgraça, pois, sem ver o dito cujo, que está coberto pela água, pessoas, motos e carros acabam acidentando-se.

É curioso, mas aqui existe uma coisa que eu chamo de “o ciclo do buraco”. Funciona da seguinte forma: em vez da prefeitura fazer o recapeamento das ruas antes do período de inverno, ela faz depois, e isto segue uma lógica...

No inverno, as ruas ficam todas esburacadas, não só por causa da chuva, mas porque o asfalto é de má qualidade. Esse evento faz com que toda uma “cadeia alimentar” funcione: lojas de autopeças, oficinas mecânicas, empresas de reboque, e até mesmo a “molecada”, que fica de plantão para desatolar os carros enguiçados e descolar “algum”. 

Depois que a época das chuvas termina, a prefeitura, então, faz uma licitação para concertar as ruas. A empresa ganhadora vai fazer um serviço de quinta categoria, e isto com vistas a que, no ano que vem, o ciclo recomece novamente. Prevenir, de forma séria, seria o correto, mas em nosso país, o correto quase nunca se torna concreto.

Pois bem, de tanto aconselhar pessoas, descobri que muitas delas vivem um certo tipo de “ciclo do buraco”. Grande parte de seus problemas são questões que, facilmente se revolveriam e a maioria sabe, inclusive, o que tem de ser feito para resolver. Contudo e contraditoriamente, elas preferem enfrentar as conseqüências de “cair no buraco” ao invés de trabalhar preventivamente – tomar decisões, afastar-se do mau e cindir com situações que esgotam a alma, machucam o coração e convulsionam a consciência.

Outra coisa que eu observei é que “o ciclo do buraco” na vida das pessoas possui também sua própria “cadeia alimentar”. Ela é formada de psicoterapeutas, ansiolíticos, cd’s de “dor de cotovelo”, amigos de bar, livros de auto-ajuda, lenços de papel, garrafas de vinho e muita, muita autocomiseração. Como diria o Tom, “é o fundo do poço, é o fim do caminho, no rosto o desgosto, é um pouco sozinho...”.

Analisando tudo isto, lembrei de algo curioso. Nos últimos anos, a igreja tem convivido com uma prática chamada: “descansar no Espírito”. Trata-se do fato das pessoas caírem ao receber orações através da imposição de mãos. Eu não tenho nada contra isso. De fato, não vejo a prática nas Escrituras, mas não condeno quem faz. Acho, todavia, que é melhor “andar no Espírito”, conforme nos ensina o apóstolo Paulo e, de preferência, sem cair em “buracos”.

“Andar no Espírito” significa deixar-se guiar pelas Escrituras, fugindo assim de fábulas, modismos e ventos de doutrina, ter uma consciência sensível a “voz de Deus”, o que nos leva a desviar daquilo que não nos trará paz ou fará bem e, sobretudo, estar sempre em oração, pois eu e você somos tentados pelas nossas ambições e cobiças.   

Por isso, se você está vivendo num período de “inverno” em sua vida – solidão, depressão, ansiedade ou medo – preste atenção ao que vou lhe dizer agora: se você não está vendo o “buraco”, ande com cautela; se o está vendo, desvie; se caiu dentro dele, procure sair; se saiu, não volte mais; se voltar, não pense que é o fim do mundo, pois você já saiu uma vez. Faça isso, desta forma simples como estou lhe falando, e você verá que boa parte dos seus problemas irá desaparecer, e “a paz de Deus, que excede todo entendimento, guardará a vossa mente e o vosso coração em Jesus”.

Agora, se tudo isto não funcionar, ligue para mim, escreva-me ou marque um aconselhamento pastoral. Você, provavelmente, está entre os 10% que, de fato, necessitam de uma orientação espiritual. E lembre-se do que disse o "sábio": “tudo ao redor de um buraco é beira”. Portanto, não chegue muito perto, você pode cair!

Carlos Moreira

06 abril 2011

Envelheça Enquanto Ainda há Tempo


Muitas pessoas não chegam aos oitenta porque perdem muito tempo tentando ficar nos quarenta”. Albert Camus.


A imortalidade e a eterna juventude são sonhos míticos da espécie humana. A procura da fonte da juventude é assunto desde os mais antigos escritos. Por outro lado, o fenômeno da velhice, estudado e constatado de forma sócio-histórica e psicológica, está presente em todas as épocas e lugares, fazendo parte da evolução das civilizações.


A velhice, já está mais do que provado, possui associada a si o componente preconceituoso e estereotipado de uma fase do desenvolvimento humano marcada por acontecimentos negativos e fatos indesejados. A verdade é que ninguém quer envelhecer. Mas, felizmente, ou infelizmente, envelhecer não é uma opção, mas um destino. Como escreveu Goethe: "A idade apodera-se de nós de surpresa".


Tenho ficado impressiona ao ver o que muitos tem feito para evitar a velhice. Algumas destas coisas, inclusive, beiram o absurdo. Estamos na era da imagem. Ela está na TV, no computador, no celular, no cartaz, na revista, no letreiro... Em todo canto, para onde nos viramos, tem uma imagem. Você já ouviu a expressão “sair bem na foto”? É a tônica dos nossos dias. Não importa quem você é, o que você faz ou como você vive, o importante mesmo é “aparecer bem na foto”. O resto disfarça-se, pois é melhor parecer ser, do que ser de verdade.


Mas o tempo é inexorável, ou como disse Ovídeo, é o “devorador das coisas”. De que então ele nos serve? Qual o seu propósito na existência? Terá ele apenas esse mórbido prazer de nos mostrar que já não somos mais o que um dia fomos? Talvez... O tempo faz destas coisas, pois “o que o ele trás de experiências não vale o que leva de ilusões”. Jules Petit-Sen.


Pois bem, tratando desta questão, acabo me lembrando de dois textos das Escrituras que me servem muito bem como exemplo. O primeiro é Atos 7:58, que diz: “E, lançando-o fora da cidade, o apedrejaram. As testemunhas deixaram suas vestes aos pés de um jovem chamado Saulo”; e o segundo é Filemom 1:9: “prefiro, todavia, solicitar em nome do amor, sendo o que sou, Paulo, o velho e, agora, até prisioneiro de Cristo Jesus”. Entre o “jovem Saulo” e o “velho Paulo”, uma história de vida surpreendente e, em cada pedacinho dela, a força irresistível e inexorável do tempo.


Paulo sempre me fascinou. O “jovem Saulo” me assusta, mas o “velho Paulo” me inspira. Entre um e outro a maravilhosa obra que o Espírito Santo realiza na existência daqueles que desejam se parecer com Jesus, cumprindo assim o propósito de Deus em suas vidas.  


Saulo de Tarso era um jovem judeu, fariseu, zeloso e guardador dos mandamentos. Homem letrado, culto e poliglota, foi aluno de um dos maiores filósofos do seu tempo, o extraordinário Gamaliel, doutor da Lei e membro Sinédrio. Por ter nascido em Tarso, ganhou o direito de ser um cidadão Romano, o que no mundo antigo era algo importantíssimo.


Saulo era notável! Sem dúvida alguma, foi o homem mais influente do primeiro século depois de Jesus Cristo. Inteligente, impetuoso e estrategista, via no Evangelho uma grande ameaça a religião judaica e, por conta disso, encampou como desafio pessoal perseguir os cristãos com o objetivo de encarcerá-los. Ao depois, quando do julgamento, retornava para dar o seu parecer. Foi desta forma que se tornou peça fundamental na morte do diácono Estevão, o primeiro mártir do cristianismo.


Mas Deus tinha outros planos para este homem... E assim, numa viagem a cidade de Damasco, ele vê uma luz brilhante vinda do céu e ouve uma voz que lhe diz: “Saulo, por que me persegues?”. Cego, desnorteado, sem compreender o que lhe acontecera, foi orientado a ir até a casa de um discípulo chamado Ananias, onde foi batizado e recuperou a visão. Daí em diante, Saulo sai de cena e dá lugar a Paulo, o homem que “transtornou o mundo” de seu tempo com a pregação do Evangelho e a abertura de Igrejas. O apóstolo dos gentios, como era chamado, escreveu mais da metade do Novo Testamento e tornou-se o grande sistematizador das doutrinas de Cristo nos primeiros anos da era cristã.


Ser Saulo era uma coisa; ser Paulo era outra. Mas o apóstolo só descobriu isto caminhando no Caminho. Apesar de sua conversão, ele não era um homem fácil, pois possuía como grande adversário seu próprio temperamento. Essa característica pessoal lhe custou diversos desentendimentos e a perda de muitos companheiros e amigos, além, é claro, da conquista de poderosos inimigos.


Na ficha corrida de Paulo estão acontecimentos dos mais diversos. Ele se desentendeu com Barnabé por causa de João Marcos, discutiu com Pedro e Tiago, amaldiçoou Alexandre o latoeiro e lançou sobre Elimas, o mágico, uma cegueira temporária. Ao final da vida, parece que apenas Lucas o suportava, pois afirmou certa vez: “todos me abandonaram”.  Na Igreja de Corinto, por causa da impureza, sugeriu que se entregasse a alma dos que tais coisas praticavam a Satanás e enfrentou em toda a Ásia a fúria dos judaizantes. Esteve em perigo de morte várias vezes; foi 2 vezes açoitado, fustigado com vara, apedrejado, 3 vezes vítima de naufrágios, além de ter andado em fome, nudez e solidão. Tantas foram as suas agruras que na carta aos Gálatas disse “ninguém mais me moleste, pois já trago no meu próprio corpo as marcas de Cristo”.


Mas como diz o ditado, “numa maratona o importante não é como você começa, e sim como você termina”. Paulo, o velho, termina os seus dias de forma bem diferente de Saulo, o jovem. Lembrei de Eclesiastes: “melhor é o fim das coisas do que o seu princípio”. No fim de sua vida, Paulo era um homem manso, humilde, quebrantado, totalmente transformado pelo Espírito de Deus. Dizia “tanto sei ser humilhado como também ser honrado... tenho experiência de fartura e de fome, de abundância e de escassez. Sua morte trágica – decapitado pelo imperador Nero em Roma – não determina o fim de seus dias, mas apenas o extraordinário início de sua verdadeira vida, de sua existência na eternidade, o encontro com o propósito eterno para o qual ele foi criado. 


Saulo, o jovem, Paulo o velho. Entre estas duas personagens, vividas pelo mesmo homem, o tempo. Os anos se passaram e acabaram por produzir nele uma transformação maravilhosa. Paulo aproveitou a dádiva de envelhecer permitindo que Deus esculpisse nele um caráter inquebrantável, pois sua vida foi moldada como o oleiro molda o vaso.


Que bom seria se a velhice de todos os homens pudesse produzir o que produziu em Paulo: sabedoria, quietude, generosidade, pacificação interior, graça, poder de Deus, unção do alto. Como tudo na vida tem seu tempo próprio, há também o tempo de envelhecer. Por isso, digo sem temor: “estou envelhecendo enquanto ainda há tempo!”. É que nos nossos dias a grande maioria das pessoas fica velha e não amadurece, tornam-se idosos infantis.


Affonso Romano diz que a “gente tem a leviandade de achar que os velhos nasceram velhos, que estão ali apenas para assistir ao nosso crescimento”. Simone de Beauvoir, em seu livro clássico sobre a velhice, mostra, entre outras coisas, que “o inconsciente não tem idade e que temos forte tendência a nos comportar, na velhice, como se jamais fôssemos velhos”. E finalmente Cícero, no seu famoso tratado falando da velhice, diz: "Torna-te velho cedo, se quiseres ser velho por muito tempo". 

Já me disseram, talvez como consolo, que a vida começa aos 40. Mas eu discordo! A vida começa a partir do momento em que Jesus 
Cristo, o Senhor, entra na nossa “estrada de Damasco”. Ela começa quando vemos resplandecer em nós a Sua luz e ouvimos a Sua voz em nossos corações! A vida começa quando estamos dispostos a ser discípulos, quando estamos disponíveis para fazer a Sua vontade e andar nos Seus caminhos. 

É um grande engodo achar que a vida começa aos 40. Que nada! Nem aos 40, nem aos 50, ou 60, mas apenas quando Ele, que é o caminho, a verdade e a vida, passa a ser o motivo pelo qual andamos, respiramos, sorrimos, choramos e nos movemos. É certo que caímos, erramos e sofremos, mas, nEle, sabemos, que somos mais do que vencedores!  

Diz Albert Camus, “Os jovens andam em grupo, os adultos em pares e os velhos andam sós”. É a dura realidade de existir. Mas com você não tem que ser assim. Se és jovem, anda em grupos, mas saiba que o tempo de envelhecer já começou. Se és adulto, anda em pares, mas saiba que a velhice está a porta. Se és velho, saiba, este é o melhor tempo da tua existência. Este é o tempo onde Deus pode ser experimentado em “profundidade”, pois o melhor ainda está por vir. Ele começa neste dia, o dia chamado hoje, o dia que o Senhor fez. Por isso você não precisa andar só, pois Jesus disse que estaria conosco todos os dias até o fim dos séculos.


Desta forma, aproveite o que ainda pode ser experienciado, e deixe de chorar por aquilo que você não fez. Este é um dos maiores desperdícios da existência humana: sofrer pelo que não se foi e ansiar pelo que não se pode ser. Viva este dia! Carpie Diem! Deus tem o melhor para você e este melhor começa justamente hoje, agora!

Carlos Moreira

02 fevereiro 2011

Sexo Entre Jovens: Coando o Mosquito e Engolindo o Tiranossauro



Pastor, sexo antes do casamento é pecado?”. Se você é um clérigo ou um líder, esta é uma das perguntas que você mais ouve quando está no meio de jovens. Obviamente, a grande maioria responde: “sim, é pecado”. E eu, o que penso sobre o tema? Bem...

Eu penso que a igreja trata a questão como se ela não existisse, quase com desdém. O “problema” só se materializa quando aquele casalzinho que senta lá no canto, acompanhado ou não da família, nos procura no gabinete pastoral para informar-nos que, em 9 meses, teremos mais um membro para ser batizado na família de Deus! Aleluia!...

A verdade é que a igreja, normalmente, faz vista grossa para essa questão. O casal está ali, juntinho, namorando e, se não der bobeira, se transar com camisinha, se fizer tudo direitinho, não vai ser muito incomodado pela ortodoxia doutrinária vigente. Aqui, ali, terá de ouvir coisas do tipo: “fornicação é pecado”; “quem transar antes de casar perde a benção de Deus”; “masturbação entristece o Espírito”; e por aí vai... Ora, isso tudo, com um pouco de cinismo e cara de pau, dá para ir levando. Dá?...

Agora, quando a “bomba” explode, e o bebê está a caminho, aí a coisa muda de figura, pois todo mundo fica furioso, sobretudo a “fariseada”. Engravidou, tem que casar! Será?... O casalzinho, coitado, será exposto aos extremos, execrado, em alguns casos, ficará afastado temporariamente da Ceia, ou, em outros, submetido a uma “disciplina” maluca qualquer. Quase certamente, sofrerá muito mais do que seria preciso, contudo se tornará um “exemplo” para todos!

Ora, em tais situações, as conseqüências, obviamente, virão em curtíssimo prazo, pois, sem apoio da comunidade, sem orientação e, em muitas situações, sem a ajuda da própria família, o jovem casal, sem qualquer preparo para a vida conjugal, estará separado em 1 ou 2 anos no máximo. Estou, neste momento, com um caso deste na igreja, herdado de outra “comunidade”...

Quer falar sério sobre o tema? Quer tratar a situação com coragem? Então vamos às Escrituras. Qual o padrão bíblico para casamento? Vou simplificar: deixar pai e mãe, ou seja, possuir capacidade de romper os vínculos emocionais e financeiros com a família; voto público, que é assumir para a sociedade, seja pela via do casamento civil ou do religioso, que os dois passam a constituir uma família, com todas as implicações vigentes; e, finamente, manter relação sexual.

Nos dias de Isaque e Rebeca a coisa era assim, muito simples. O garoto começava a se coçar demais, olhava as cabras de forma estranha, e aí o Pai, macaco-velho, dizia: “este menino está precisando casar”. Arrumava-se uma noiva, da parentela mesmo ou da vizinhança, desde que fosse da mesma fé, o pai doava ao filho um pedaço de terra, meia dúzia de cabras, uma vaca leiteira e pronto! O sujeito entrava na cabana com sua “gazela” e estava tudo consumado. Que benção!

E como é hoje? O menino e a menina chegam aos 15, 16, 17 anos e começam a namorar.  Estão terminando o ensino médio e ainda terão pela frente o vestibular e 4 ou 5 anos de faculdade.  Vencida esta etapa precisarão trabalhar, conseguir um bom emprego. Em seguida, vão comprar um carro legal, depois o apartamento financiado e, só então, poderão pensar em se casar. E olha que eu estou falando de jovens cristãos sérios, que começaram a namorar com o propósito de, um dia, se casarem. Mas, convenhamos, eles são à exceção da exceção da exceção!

Ora, eu sei, por experiência, que a grande maioria da meninada quer é curtir a vida, “ficar” bem muito ao invés de namorar, que dá muito mais trabalho, transar o tanto que puder, pois muitas relações darão mais experiência – trágico equívoco – e, só quando se estiver chegando na casa dos 30 é que começarão a desacelerar o “motor” para pensar em constituir algo sério, ou seja, casar.

Agora, uma questão: pensando no primeiro exemplo, o do jovem casal cristão sério, que começou a namorar cedinho, o que eles farão para segurar os hormônios nesta sociedade erotizada na qual vivemos, onde propaganda de pneu tem mulher pelada? Me responda mesmo: dos 15 até chegarem aos 30 anos, quando estarão em condições, dentro dos padrões estabelecidos em nossa cultura, para se casar, como eles lidarão com estas questões? Vão jejuar e orar? Ora meu mano, faça-me o favor... Você fez isso?

Aí vem a igreja, e seus ilustres representantes, naquela santidade medieval, e diz para o casalzinho: “olha, vocês devem se guardar um para o outro. Sexo antes do casamento é pecado, viu?”. E fica a meninada com a pulha na cabeça: transar ou não transar, eis a questão! E ainda tem umas almas sebosas que dizem: “quem estiver abrasado, então que se case”. Ótima solução! Quero eu lhe dizer que o sujeito não está abrasado não, ele está em chamas já há muito tempo! Isso é que é fogo!

Na verdade, em determinadas circunstâncias, só existem dois caminhos: como pastor, sei o que estou afirmando: ou o cara deixa a namorada “em paz” e vai para a internet ver sacanagem de todo tipo e, como o pecado só se aprofunda, pois “um abismo chama outro abismo”, mas cedo ou mais tarde ele estará com prostitutas em sua cama, ou vai transar com a “irmãzinha” e ficarão os dois num complexo de culpa sem fim, pois recairá sobre eles toda a ortodoxia protestante dogmática e fundamentalista pregada e inoculada em suas mentes durante anos. Estou exagerando?!

Alegre-se, jovem, na sua mocidade! Seja feliz o seu coração nos dias da sua juventude! Siga por onde seu coração mandar, até onde a sua vista alcançar; mas saiba que por todas essas coisas Deus o trará a julgamento”. Ec. 11:9.

Estou eu aqui aconselhando os casais de namorados a transar? Não coloquem palavras em minha boca! Sou defensor de uma teologia liberal e por isso não levo em consideração os preceitos de santidade das Escrituras? Vocês não me conhecem para afirmar isto. Então, o que estou querendo dizer, afinal? Duas coisas: discernirmos o tempo em que vivemos, com todas as suas idiossincrasias, e investirmos na formação de uma geração que tenha uma consciência compatível com o Espírito do Evangelho. O mais, queira me desculpar, é tapar o sol com a peneira, é tratar da conseqüência, e não da causa, é jogar o “lixo” para debaixo do tapete.
 
O texto de Eclesiastes nos dá uma dica do que podemos fazer! Ensinar os jovens! Podemos dizer-lhes “façam suas escolhas, tracem seus caminhos, sigam suas rotas, construam seus mapas, aproveitem a vida! Mas saibam: tudo na existência humana tem conseqüência, pois há um princípio bíblico que afirma que aquilo que o homem semear, isto também ceifará”. Fato é que Deus criou o sexo e o casamento com um propósito e, só imersos em Sua vontade, nos realizaremos em nossa sexualidade e conjugalidade.

Olha moçada, namorar com 10, 20, 30 pessoas diluirá sua alma, banalizará em seu coração o significado de relacionamento, tornará o sexo coisa trivial e não aquilo para o qual ele foi concebido. Você perderá todas as referências sobre lealdade, amizade, cumplicidade e, dificilmente, será capaz de construir uma família sadia, um casamento bem sucedido, uma relação para toda a vida, pois a frase “que seja eterno enquanto dure”, fica linda do ponto de vista da poesia, mas, existencialmente falando, é um desastre sem precedentes. 

Sei que este é um tema que ninguém quer tratar, ou escrever, pois é “nitroglicerina” pura! Almocei hoje com um amigo que me disse: “tu vais mexer nisso?”. Eis aí um de nossos problemas: evitar lidar com o que está diante de nossos olhos! A igreja, no que diz respeito a estas questões sexuais, e olha que eu estou só levantando a ponta do iceberg, prefere coar o mosquito e engolir o tiranossauro rex, é viver no “faz de conta”.

Se eu tenho a solução? Ora, isso é um problema que cada um deve lidar, pois cada um construirá na terra seu caminho com Deus e isso conforme sua própria consciência. Fico impressionado como crente gosta de fórmulas feitas para resolver suas questiúnculas. Agora, quanto a mim, perdoem-me a sinceridade, prefiro engolir o mosquito e, de preferência, com Coca-Cola.


Carlos Moreira

24 janeiro 2011

Uma Janela para a Vida



A porta abriu-se e eu dei de cara com aquela quitinete toda pintada de amarelo ovo. Achei estranho, mas a casa tinha vida própria: braços, pernas, olhos e ouvidos. Nela mora “a menina das palavras”, uma escritora e poetisa que fez de São Paulo o seu mundo, o seu lugar. 

Ela me mostrou seu cantinho com especial deferência, mas deu destaque àquela janela, uma que dá para a rua onde mora. Debruçada sobre ela, vê a cidade de um ângulo privilegiado, observa sem ser observada, espreita a vida que se arrasta preguiçosa bem abaixo do seu nariz. Incólume, assisti a tudo o que se passa: pessoas correndo, carros buzinando, motos barulhentas, ônibus fumacentos, o fluxo da vida que vem e vai. Às vezes chove, às vezes faz calor. Há dias de “trevas”, mas ela me disse que o sol sempre dá as caras...

Enquanto conversávamos, percebi que daquela janela não se vê apenas a rua, a cidade, mas o mundo. Sim, tudo pode ser observado dali, a grande passarela por onde a vida desfila, a vida como ela é – dramas e dores, medos e temores –, tudo do que gente é feito. 

Diante daquele cenário, ocorreu-me: no que pensam essas pessoas que, tão apressadamente, correm de um lado para outro? Quem são elas? Onde moram? Como vivem? Quais são seus sonhos, inquietações? Difícil decifrar... O tempo nos permite apenas um relance de olhar.

Lembrei, então, de uma citação de Jesus: “Os olhos são a candeia do corpo. Quando os seus olhos forem bons, igualmente todo o seu corpo estará cheio de luz. Mas quando forem maus, igualmente o seu corpo estará cheio de trevas”. Lc. 11:34.

O texto solto pode não nos dizer grandes coisas. Dentro de seu contexto imediato, todavia, ganha novos significados. Jesus acabara de dizer aos seus ouvintes, que lhe pediam insistentemente um “sinal”, que eles precisavam atentar para o que acontecera ao profeta Jonas.

A história de Jonas nos revela um homem acometido de uma terrível enfermidade, uma doença que lhe atacara os olhos, pois sua visão havia se tornado embotada, seu aparelho visual estava daltônico, incapaz de ver as cores, a beleza, o brilho da luz.

Jonas olhava, mas não enxergava. Sua consciência havia se cauterizado pela dureza e perversidade da sociedade na qual vivia. Era assim que ele percebia a grande metrópole de Nínive, 100 mil pessoas indo e vindo, desencontradas de si mesmas, de um propósito maior para existir..

Na “janela” de Jonas, a vida perdera a sensibilidade, a magia, a singularidade. Sobrara-lhe apenas a realidade. Ele já não possuía mais a capacidade de sonhar, de acreditar, de alçar voos e adentrar mares.

Mas algo inusitado o esperava... Ao tentar fugir de Deus e de seu destino, foi parar num dos “antros da terra”, no lugar mais improvável da existência: o interior de um grande peixe. Espero que entenda a alegoria...

Sozinho, amedrontado, desprovido de tudo, sem controle de nada, rendeu-se a si mesmo e à soberania de Deus. “Os olhos do espírito só começam a ser penetrantes quando os do corpo principiam a enfraquecer”. Platão, filósofo grego.

Ao sair dali, rumou de volta para Nínive. Seus olhos, entretanto, já não eram mais os mesmos... A escuridão na qual havia ficado lhe abrira novamente as percepções e sentidos. Agora, mesmo vendado, seria capaz de enxergar. Num relance, discerniu toda aquela miséria que o cercava, a futilidade das almas que naquela sociedade viviam, a banalidade de suas vidas, a inutilidade de seus dias.

Mas Jonas agora podia ver aquilo que antes lhe era impossível. Onde havia trevas ele viu luz; onde havia morte ele viu vida; onde havia desesperança ele viu oportunidades; onde havia dor ele viu alegria; onde havia enfermidade ele viu a cura. Sua mensagem de amor e graça deu à cidade a chance de reescrever uma nova história.


Quero lhe dizer algo: a vida nem é boa nem é má – ela é como é. São os teus olhos que lhe dão sentido e significação. A maneira como você percebe as situações, os acontecimentos, é o que dará a cada fato a sua “tonalidade” própria – cinza chumbo ou azul-turquesa.


Se os teus olhos forem bons, capazes de olhar para o outro com reverência, para a dor com solidariedade, para a perda com gratidão, para o lamento com alegria, para a amargura com contentamento, para a injustiça com esperança, todo o teu corpo usufruirá disso, e você terá saúde física, emocional e espiritual, será como uma candeia em meio à escuridão.


Do contrário, tudo o que se poderá perceber através de teu olhar será um grande amontoado de fatos desconexos, uma realidade caótica, um mundo perverso, um Deus bizarro, sadista, que trata seres humanos como marionetes circenses.


Sim, você enxergará as pessoas como uma multidão de gente louca, indo do nada para lugar algum, pois, certamente, se os seus olhos forem maus, que grandes trevas habitarão o interior do seu ser. Por isso, nunca se esqueça do que disse o escritor Saint-Exupéry: “Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível para os olhos”.


Deixei o apartamento naquela tarde carregando em mim lições preciosas que a vida, por vezes, nos traz de forma simples... Aquela janela, compreendi, não dá para a rua... Na verdade, abre-se para mundos.



Carlos Moreira

05 janeiro 2011

Um Certo Dia Chamado Hoje



"Há quatro coisas que não voltam atrás: a pedra, depois de solta da mão; a palavra, depois de proferida; a ocasião, depois de perdida; e o tempo, depois de desperdiçado". Não tenho dúvida, a frase de Riminaldo é a mais pura verdade.


Eis aí um tema que sempre atraiu a atenção do ser dito racional: o tempo. Queremos conhecê-lo e diagnosticá-lo para podermos dar dimensões mais amplas ao desenvolvimento da nossa existência. A Filosofia ensina-nos que ele é um fluir constante, uma sucessão ininterrupta na qual todas as coisas nascem, existem e morrem. Ele é fatalmente irreversível; nenhum esforço humano o pode deter, retardar ou acelerar. Tudo, com movimento perpétuo, passa e vai passando.


Que mundo este em que nós vivemos... Dias curtos demais, horas curtas demais. Falta-nos tempo. As pessoas correm de um lado para outro, precisam aproveitar o tempo. Todas estão sempre atrasadas, é um problema esta falta de tempo. “Desculpe, mas se não for agora posso perder um negócio, não tenho tempo. Ah, talvez amanhã, hoje estou indo para a aula, não tenho tempo. Filho, mais tarde, agora o papai está sem tempo. Ligue outro dia, agora ela está ocupada, está sem tempo. Estou quase chegando, fiquei presa no trânsito, ainda tenho tempo?”. Por isso, já dizia Nicolas Boileau: “depressa: o tempo foge e arrasta-nos consigo: o momento em que falo já está longe de mim”. 


E o poeta afirma “hoje o tempo voa amor, escorre pelas mãos, mesmo sem se sentir, e não há tempo que volte amor, vamos viver tudo que há pra viver, vamos nos permitir”. Se não podemos conter o tempo, então o que fazer para se aproveitar a vida? Ouso afirmar algo: a coisa mais importante que possuímos é o dia de hoje. O dia de hoje, mesmo estando entre o ontem e o amanhã, deve merecer nossa total prioridade. Só hoje podemos ser felizes; o amanhã ainda não chegou e já é muito tarde para ser feliz ontem. A grande maioria das dores humanas é fruto dos restos do ontem ou dos medos do amanhã. Vivamos o dia de hoje, com sabedoria e prudência. Decidamos agora como gastaremos cada minuto.


Por isso, Carpe Diem – aproveite o dia, curta a vida, aproveite o momento. A frase famosa de Horácio, filósofo que viveu entre 688 a.C, conhecido como o poeta da festa, uma das colunas da Literatura Ocidental e um dos maiores poetas líricos de todos os tempos, parece querer nos ensinar a viver de modo diferente.


Gosto do sábio do Eclesiastes. Ele nos ensina, no capítulo 3, que há tempo para tudo. Será mesmo? Poderia ele fazer a mesma afirmação nos dias em que vivemos? Entenderia ele o caos ao qual estamos submetidos? Suportaria os sinais de trânsito, carros buzinando, motos correndo, engarrafamentos, asfalto fumegante, arranha-céus, concreto, viadutos, metrô, ônibus lotado, fumaça, luzes piscando, gente correndo, e haja compromissos, agendas intermináveis... Quem pode sobreviver a tudo isso?


Transportei os dizeres do sábio para tentar nos aquietar o coração. “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou; Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar; Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar; Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar; Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lançar fora; Tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar; Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz”. Ec. 3:1-8


Voa tempo, voa. Vai devorando tudo o que encontras pela frente, rouba nossos sonhos, desconstrói nossos planos, traze-nos de volta a realidade dura, fria, crua da vida. Voa tempo, leva nosso sorriso, o brilho de nosso olhar, o dia alegre que durou tão pouco, o passeio no parque, a tarde junto ao lago, o beijo eternizado, o olhar trocado, o abraço apertado, a mão que afaga. Voa tempo, leva nossas memórias, as poucas lembranças que ainda restaram, apaga tudo, transforma a festa em cinzas e a luz em escruidade. Voa tempo, voa...


E assim se vai mais um dia, pois assim se foi mais um ano... O tempo passou, nada voltará atrás, nem tornará a ser como antes... Ai de quem vive de lembranças, vagará pela vida com sonhos que jamais se materializarão novamente. Ai de quem sente saudades de um tempo que não voltará nunca mais, está sentenciado a existir baseado em sentimentos e fragmentos. Bem disse Caetano Veloso, “e o meu coração embora finja fazer mil viagens, fica batendo parado naquela estação”. 

Agora compreendo que não é a toa que Paulo nos ensina: "hoje é o dia sobremodo oportuno, hoje é o dia da salvação". É que o apóstolo entendia sobre esse apetite do tempo em querer devorar todas as coisas...

Carlos Moreira

03 janeiro 2011

A Dança da Vida


A principal lição que aprendi no que ano que passou foi que, gostemos ou não, todas as coisas estão em movimento, tudo na vida “dança” e passa como fazem os componentes de um grande e expressivo balé. A dança da vida, porém, deixa desnorteado e tonto o homem que procura algo firme em que se segurar.


O que era ontem não é mais hoje, o que é hoje não será amanhã. Tudo é efêmero na existência humana, das riquezas aos prazeres, dos amores aos ódios. A vida é enxurrada descendo ladeira abaixo: destrói tudo que encontra pelo caminho e segue inexorável o seu trajeto!


Vida e morte, construção e destruição, começo e fim, marcam o passo e o ritmo desse imenso e cruel balé existencial. No palco, desprotegidos e vulneráveis, estamos nós, frágeis e românticos seres humanos. É melhor aprender logo o movimento das coisas.


Os amores “perfeitos” de hoje não existirão amanhã, o desejo ardente e as paixões loucas e oníricas também sumirão. Em nada devemos pôr a totalidade do nosso eu, pois tudo se move distanciando-se tristemente de nós. Só há segurança na insegurança; só há certeza na dúvida!


Devemos ter as coisas como se não a possuíssemos, usufruí-las sem julgá-las perpetuamente nossas. Só os tolos e insensatos julgam ser donos de qualquer coisa, por ínfima que seja.


“Nu saí do ventre de minha mãe, nu voltarei”, disse o lendário e bíblico Jó, depois de ser massacrado pelas circunstâncias desfavoráveis e despojado da riqueza que julgava lhe pertencer. As plantas murcham, o verde perde a cor, a moeda o seu valor, o galã a sua beleza, a vida o fôlego que a mantém.


Tudo e todos estão de passagem, a caminho. Nada na paisagem da estrada nos pertence, a não ser no exato momento em que se deixa contemplar pelos viajantes. O cenário é fugidio, por isso “é infinito apenas enquanto dura!”.


Ontem as comidas, os fogos, a música, a festa. Hoje a desolação, a sujeira nas ruas, as garrafas vazias e o bêbado no chão, esse triste monumento ao transitório e ao efêmero.


Dance, cante, beije, ame, mas nunca esqueça: tudo está em movimento, se distanciando paulatinamente de uns e se aproximando vagarosamente de outros. Assim é a vida, fugidia, escorrendo por entre os dedos como a água que mata a sede, mas que também afoga!


“Tudo na terra está em fluxo contínuo: nada mantém uma forma constante e fixa. Não existe nada sólido a que o coração possa se apegar”, disse Rousseau depois de provar todos os prazeres e vaidades que a vida lhe pôde oferecer.

André Pessoa via Século XXI

31 dezembro 2010

Fechado para Balanço!


Hoje é o último dia do ano, 31 de dezembro. Como de costume, estou na empresa, trabalhando. Às 12:00h., os funcionários serão liberados, pois precisam de tempo para chegar em suas casas e se preparar para as festividades da passagem do ano. Mas eu virei à tarde... Cumprirei um antigo ritual...

No último dia do ano tenho o costume de fazer um balanço de tudo. Sento-me no sofá que há no meu gabinete e fico meditando sobre as coisas boas e ruins que aconteceram. Enquanto isso, no player do computador, uma seqüência especial de músicas embala os meus devaneios...

Sozinho na sala começo a me sentir entorpecido, lentamente. Fico absorto, vou me desconectando do mundo. Para um executivo de tecnologia, trata-se de coisa difícil, pois minha rotina é outra. Acostumado às demandas do mercado, tenho sempre de tomar decisões, estar conectado o tempo inteiro. Mas, neste dito momento, pode tocar o telefone, pode bater a porta, pode soar o skype ou apitar o e-mail, pois nada, absolutamente nada vai me remover daquele sofá. Parei! Estou fechado para balanço.

 No meio empresarial, como se sabe, esta prática é muito comum. As empresas fecham,  mesmo que internamente ainda haja trabalho, pessoas contando estoques, outras liberando produtos para queima de saldo, uns lendo relatórios da contabilidade, outros do patrimônio, acionistas analisando gráficos, distribuição de lucros, ou de prejuízos – quem sabe – fato é que, para tudo, tudo mesmo, e fecha.

Quero lhe afirmar algo: você também precisa parar! Entorpecido pela festa, absolvido por comemorações, abraços, canapés e champagne, você perderá a grande oportunidade de fazer uma reflexão. Nela poderá observar seus equívocos, a forma grosseira como, por vezes agiu, algumas injustiças que cometeu, mentiras, falsidades. Creia-me, um pouco de tempo será suficiente para trazer a tona sua insensatez, dissimulações, sua falta de prioridade com situações graves, sua frieza com pessoas queridas, seu descaso com a dor alheia, sua distância, até mesmo de Deus. Sim, meu amigo, preciso lhe dizer, nem que seja por um pouco de tempo, no último dia do ano, você precisa parar!

Examinemos e submetamos à prova os nossos caminhos, e depois voltemos ao Senhor”. Lm. 3:40. A frase solta não tem grandes significações... Não fosse a referência bíblica, poderia passar como conselho de auto-ajuda. Mais está envolta num contexto complexo, e foi proferida por um profeta, homem de dores, em meio a um canto fúnebre, uma lamentação, diante do desaguar das mágoas de sua alma que foi alcançada pela tragédia.

O livro de Lamentações, de onde a frase foi retirada, é atribuído ao profeta Jeremias. Ele tem como pano de fundo a destruição da cidade de Jerusalém pelo rei babilônico Nabucodonosor, cerca de 589 a.C. Seu texto, quase que exclusivamente, é um texto reflexivo, não obstante poético, que expressa uma dor visceral, o sofrimento de um homem que vê “sua” profecia se cumprir cabalmente.  

O escritor do livro de Lamentações descreve, em detalhes, os acontecimentos que se sucederam a catástrofe da queda da Cidade Santa: a fome, a sede, as matanças indiscriminadas, os incêndios, saques, além do exílio forçado do remanescente vivo para uma terra estrangeira. É o retrato da humilhação, do desespero e da angústia. Mas também do arrependimento, da súplica por perdão, de um sincero sentimento, ante a perda de todas as coisas, de fé e restauração.   

É diante deste cenário que o profeta adverte: “examinemos e submetamos à prova os nossos caminhos...”. Sim, façamos o que nos diz o profeta: examinemos os nossos caminhos! O que você fez este ano? O que deixou de fazer? Como ocupou o seu tempo? Em que envolveu o seu coração? São perguntas pertinentes, ainda que inquietantes, “pois onde estiver o teu tesouro, ali também estará o teu coração”.

Comparado a 2009, você saiu-se melhor? Tornou-se alguém melhor? Seu caráter foi aperfeiçoado? Seu coração dilatado? Sua consciência expandida? Sua alma está pacificada? Ou você deixou que as trevas invadissem teu interior, que crostas de ódio e rancor se alojassem nos recônditos do teu ser, que raízes de amargura crescessem para dentro de ti e, entrelaçadas a tua alma, produzissem dor e medo, ansiedade e solidão?

É tempo de examinarmos essas coisas e “voltarmos ao Senhor”. Nada está perdido. Mesmo o mais grave erro ainda pode ser concertado. Sim, talvez leve tempo, quem sabe anos, mas há esperança! É provável que você precise pedir perdão a algumas pessoas... Faça isso! Talvez, pensando numa nova perspectiva, tenha de tomar decisões difíceis... Tome-as! Não sei se será preciso rever alguns planos, ou construir novos caminhos... Mas ouse, tente, faça diferente! 

A existencialista Simone de Beauvoir afirmou “Se vivermos durante muito tempo, descobriremos que todas as vitórias, um dia, se transformam em derrotas”. Quero lhes confessar algo: não gostaria de viver o bastante para ver toda a minha vida como um grande equívoco! Seria insuportável, para mim, perceber, ao fim da caminhada, que meus dias foram gastos inutilmente, que tive uma vida fútil e frívola, seca e oca, desprovida de propósitos e significações.

Pelo contrário, minha esperança está em viver o que diz o salmista: “ensina-me a contar os meus dias de tal maneira que alcance um coração sábio”. Você sabe por que ele não pede para aprender a contar os anos? Porque o tempo, conforme Ovídeo, é o devorador de todas as coisas. Contar anos pode nos levar a perder de vista a possibilidade de, a qualquer tempo, mudar as velas do barco em direção a novos ventos.

Por isso, é melhor aprender a contar os dias, pois, assim sendo, será mais fácil e mais simples fazer as devidas correções nas rotas, nos mapas, mudar o rumo da nau, buscar outros oceanos, velejar por outros mares. Termino, pois, com Ivan Lins e sua belíssima poesia: “cortaram as amarras e os nós, deixando pra trás o porto e o cais, berrando até perder a voz, em busca do imenso, do silêncio, mais intenso, que está, depois dos temporais”. Feliz Ano Novo!

Carlos Moreira

28 dezembro 2010

Feliz Ano Velho!


Não sei se você já leu “Feliz Ano Velho” de Marcelo Rubens Paiva, publicado em 1982. O livro é um relato verídico do acidente que o deixou tetraplégico a poucos dias do Natal de 1979.

Garotão Paulista, 26 anos, estudante de engenharia, bon vivant, Marcelo decide, após uma farra, dar um mergulho num lago com meio metro de profundidade. Fatal. A quebra de uma vértebra da coluna o levou a ficar em recuperação na UTI por 12 meses; uma luta lenta e dolorosa. Em seguida veio o colete de ferro, a cadeira de rodas, os momentos de desespero e os pensamentos em suicídio.

Mas Marcelo, a partir de sua nova realidade, dá a volta por cima, aprende a lidar com suas limitações, “degusta” cada dia como se fosse o último, recebe o carinho dos amigos, da família, e narra com um humor próprio às venturas da velha e da nova vida.

Mais um ano está terminando. Para muitos, 2010 não foi um ano bom e isso inclui a mim. É difícil chegar ao fim, principalmente quando não foi o que esperávamos. Acostumado a lidar com números, projeções, resultados, quero estender a prática de usar a métrica e os méritos para avaliar a vida. Impossível... A vida de um homem, conforme Jesus, não consiste nos bens que ele possui, mas em quem ele se tornou. Utopia? Resignação? Filosofia? Não. Nada disso. Propósito.

Não sei como foi o seu ano... Talvez você tenha falido, ou perdido um grande amor, talvez tenha descoberto um câncer, ou sepultado seu pai, sua mãe, um irmão, um amigo... Olhando pelo “retrovisor”, o que você vê de 2010? Perdas, danos, medos, desencontros, decepções? Qual é o saldo do seu ano? Negativo?

Saiba, você não é o único, eu também estou me sentindo assim. Aos 43 anos, contudo, já aprendi a não basear minha vida em sentimentos e, o mais importante, que todos os acontecimentos que me sobrevieram acabaram por forjar em mim um ser melhor, me ensinaram que a vida não é feita só de alegria e felicidade.

Usando o livro de Eclesiastes, capítulo 7, quero compartilhar com você 7 coisas que podem lhe ajudar a mudar sua análise de 2010. Sim, o filósofo que escreve o texto, aparentemente pessimista e desencantado da vida, nos dá uma enorme lição de que coisas maravilhosas se escondem, não raro, por detrás de fatos e situações difíceis, dores e dramas.  

Melhor é um bom nome do que um perfume finíssimo”. De fato, não há nada melhor do que ser honrado, entrar nos lugares de cabeça erguida, saber que agi de boa fé, que não defraudei, não soneguei, não corrompi e que, mesmo com dificuldades, honrei os compromissos. Sim, isso é melhor do que o “perfume fino”, aquele que serve para suavizar a podridão da vida, a falsidade do ser, o disfarce da alma, o embuste existencial, o estelionato da consciência, a dureza do coração.  

Melhor é o dia da morte do que o dia do nascimento”. Ao nascermos estamos cheios de “deformidades”, de inconsistências e contradições, a vida toda está pela frente e não sabemos como ela será. Na morte é diferente, pois a existência inteira está atrás de nós. Com ela saberemos, exatamente, quem nos tornamos, o que realizamos, o que tatuou-se em nossa alma, o que alojou-se em nosso coração, pois nossos pés já pisaram o chão da vida e nosso sangue e suor, quais sementes de esperança, foram plantados em solo sagrado e aguardam a revelação da eternidade para desabrochar flores e frutos.

Melhor é ir a uma casa onde há luto do que a uma casa em festa”. Se você sepultou alguém este ano este versículo lhe fará todo sentido... Sim, porque na casa do luto há dimensões da vida que não se encontram em nenhum outro lugar. Só na casa onde há morte é que as mais belas manifestações da vida desabrocham; solidariedade, amor, a dor partilhada, misericórdia, amizade, contrição, carinho, afago e afeto. 

Melhor é a tristeza do que o riso, porque o rosto triste melhora o coração”. É na perda que as pessoas tornam-se grandes, crescem, sobrepujam-se. Um rosto abatido é sinal de uma alma que experimentou dias cinzentos, mares revoltos, ventos tempestuosos. Mas é certo que depois de todo aguaceiro vem à bonança e o sol sempre volta a brilhar. O choro dura uma noite, diz o salmista, mas a alegria vem pela manhã.

Melhor é ouvir a repreensão de um sábio do que a canção dos tolos”. Somos movidos a elogios, pois eles alimentam nossas vaidades; na sociedade da imagem, é melhor parecer do que ser. Detestamos a correção, o amigo que nos diz a verdade na face, a mensagem que nos sacode a consciência, a voz que nos questiona no íntimo. Aprendi a amar o confronto e a ter cuidado com os aplausos...  

Melhor é o fim das coisas do que o seu início”. Há uma frase que diz: “numa maratona, o importante não é como você começa, mas como você termina”. Sim, no final tudo está exposto, tudo está claro, tudo está consumado. Será no final da sua vida que você estará mais próximo de ser aquilo para o qual foi predestinado, pois seu caráter, tendo sido disciplinado por toda uma a vida, revelará um ser parecido com Jesus.

Melhor é o paciente do que o orgulhoso”. O orgulho leva-nos a impetuosidade, e esta, por sua vez, a fazermos escolhas desastrosas, tomarmos decisões duvidosas, andarmos por caminhos de morte. Já o paciente é aquele que, com coração humilde e quebrantado, aprendeu a discernir que o silêncio leva um tolo a passar por sábio, que a arrogância é um veneno para a alma e a pressa inimiga da perfeição.

Por tudo isso que lhe relatei, pelo que está dito no Eclesiastes, quero lhe desejar um Feliz Ano Velho! Que tudo que você viveu possa transformar-se em paz e bem para sua vida. Que o fracasso, a perda, a dor, e até a morte possam produzir em você coisas boas, um coração pacificado e uma consciência elevada.

No mais, a despeito de todas as coisas, Deus continua sendo Deus, Sua autoridade e justiça dominam sobre todas as coisas e o melhor: Seu amor por mim e por você não mudou. Sim, tenho total consciência que não há nada que possamos fazer que O leve a amar-nos mais, ou a amar-nos menos.

Por isso, só tenho a lhe desejar um Feliz 2010! Salve, salve! Ah, sobre 2011? Não sei... Não sei mesmo... Espero que seja um ano bom, mesmo sendo ruim...

Carlos Moreira

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É importante esclarecer que este BLOG, em plena vigência do Estado Democrático de Direito, exercita-se das prerrogativas constantes dos incisos IV e IX, do artigo 5º, da Constituição Federal. Relembrando os referidos textos constitucionais, verifica-se: “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato" (inciso IV) e "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença" (inciso IX). Além disso, cabe salientar que a proteção legal de nosso trabalho também se constata na análise mais acurada do inciso VI, do mesmo artigo em comento, quando sentencia que "é inviolável a liberdade de consciência e de crença". Tendo sido explicitada, faz-se necessário, ainda, esclarecer que as menções, aferições, ou até mesmo as aparentes críticas que, porventura, se façam a respeito de doutrinas das mais diversas crenças, situam-se e estão adstritas tão somente ao campo da "argumentação", ou seja, são abordagens que se limitam puramente às questões teológicas e doutrinárias. Assim sendo, não há que se falar em difamação, crime contra a honra de quem quer que seja, ressaltando-se, inclusive, que tais discussões não estão voltadas para a pessoa, mas para idéias e doutrinas.

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