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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.
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01 fevereiro 2014

Sobre a Questão do "Não Julgueis".



O mundo religioso é curioso: por um lado, desenvolve nas pessoas comportamentos jactantes, ao mesmo tempo que é capaz de produzir, no mesmo indivíduo, uma pseudo-piedade. 


Tenho visto muito isto no quesito do julgamento. Há um excessivo pudor quanto ao tema. Qualquer opinião ou avaliação que se faça de fatos ou pessoas, já expõe aquele que emite o comentário ao famoso jargão: “não julgueis!”. 

Ora, a Escritura não pode ser interpreta para satisfazer os meus fins, e nunca, fora do contexto do texto, pois isso traz um enorme prejuízo à aplicação de seus conteúdos. Como pode uma passagem da bíblia afirmar: “não julgueis”, e outra vaticinar: “julgue”?

Você mesmo pode comprovar isso que estou afirmando usando uma chave bíblica, pesquisando a palavra: “julgar”. Esse processo também pode ser executado aqui na internet, em algum site de bíblia on-line. 

Portanto, para os que não compreendem esta aparente contradição, afirmo que o texto tem de ser analisado em função de suas circunstâncias, tais como: o livro, o autor, a datação, a cultura, o contexto imediato, o capítulo anterior, ou posterior, o tema da perícope, e por aí vai... 

Assim, sugiro a quem não tem experiência com o tema, tomar cuidado ao postar sua opinião pessoal usando o texto sagrado, pois suas citações correm sério risco de afirmar uma grande bobagem e, pior do que isso, sua bobagem pode acabar ganhando “eco”... 

Para concluir, vou dar um exemplo prático sobre esta questão utilizando um texto de Paulo em 1ª. Co. capítulo 5. O contexto de Paulo nesta carta é exortar a igreja de Corinto que enfrentava diversos problemas de ordem ética, moral e espiritual. 

Neste capítulo, em particular, ele fala de desvios de conduta e analisa aqueles que estão “do lado de dentro”, ou seja, na igreja. 

Observe que fazer qualquer análise sem levar em consideração este contexto mínimo pode me levar a cometer um grave equívoco na exegese. Pois bem, analise o verso 12 desta passagem, onde está dito: “Pois, como haveria eu de julgar os de fora da igreja? Não devem vocês julgar os que estão dentro?”. 

O que quer dizer o apóstolo com esta afirmação? Que se pode, e mais, que se deve fazer juízo sempre que a conduta for imprópria, com vistas a que, não só aquele que está se desviando da verdade seja alertado, como também, aqueles que são participantes da comunhão estejam sendo exortados e ensinados. 

Contudo, é mister compreender que o princípio que me autoriza a fazer esse juízo está sempre associado a um desejo sincero, uma fé sem hipocrisia e, sobretudo, visando o bem maior, que é a coletividade, utilizando sempre o Evangelho como parâmetro. É isso que me ensina Jo. 7:24 “Não julguem apenas pela aparência, mas façam julgamentos justos". 


É função de todo aquele que ama a Jesus, guardar a fé que foi entregue aos santos, conforme explicita o livro de Judas e, para tal, utilizar sempre a exortação e o ensino. A profecia é, sobretudo, a denúncia dos desvios dos valores do Reino de Deus, seja em relação aos da própria igreja, seja com os que estão na sociedade como um todo.


Carlos Moreira

08 janeiro 2011

"O Simples é o Contrário do Fácil"



Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz, e siga-me” Mt. 16:24

“Se Alguém...”. O convite de Jesus estabelece uma condição.
"Para este mundo Deus tem planos, não problemas...” W. Ian Thomas.

“...Quer Vir...”. O convite de Jesus exige uma decisão.
"Cristo levou nossa natureza para o céu para nos representar, e deixou-nos na terra com sua natureza para representá-lo." John Newton.

“...Após mim...”. O convite de Jesus nos fornece uma referência.
"Aprouve ao Pai que toda plenitude habitasse em Cristo; portanto, não há outra coisa senão o vazio em qualquer outra parte." W. Gadsby.

“...A si mesmo se negue...”. O convite de Jesus nos expõe a um “custo”.
"Deus tem uma obra a realizar neste mundo; fugir dessa obra por causa das dificuldades e obstáculos é rejeitar sua autoridade." John Owen.

“...Tome a sua cruz...”. O convite de Jesus está associado a um propósito.
"Deus não faz nada dentro do tempo que não tenha decidido fazer desde a eternidade." William Jay.

“...E siga-me.”. O convite de Jesus tem um objetivo.
"O futuro pertence aos que pertencem a Deus. Isto é esperança." W.T.Purkiser.

Carlos Moreira



23 dezembro 2010

O Deus que Queria ser Homem


Há homens que querem ser Rei; sobrepujar-se, engrandecer-se, ter poder e riquezas. Eles possuem esse desejo incontido de chegar ao topo, de ir além das fronteiras, acima do último limite. Desejam ser servidos, reconhecidos, ser, inclusive, reverenciados. Um Rei pode fazer qualquer coisa! Ele não precisa perguntar nada a ninguém. É ele quem manda e, no final das contas, quem decide. Um Rei senta-se no trono, coloca sobre a cabeça sua coroa, na mão um cetro de ouro e no dedo o anel de majestade.

Há homens que querem ser Deus. Para estes, ser Rei não é o bastante, é preciso ir além, na direção do inalcançável, quem sabe, transcender! Isto foi muito comum na história dos povos, onde a deificação de homens comuns os transformou em deuses. Assim foi entre os egípcios, com seus Faraós, entre os gregos, com seus deuses do Olimpo e também entre os romanos, com seus Césars. Entre os Hebreus, conforme o relato da Torre de Babel, vemos homens comuns que alimentaram o desejo de chegar aos céus, ultrapassar a última fronteira, ser como Deus.

A verdade é que há no espírito humano este desejo de tornar-se divindade, de não ser contido por qualquer limite, de inventar, moldar coisas novas. Criamos a imprensa, o telefone, a energia, máquinas das mais diversas, carros, navios e, por fim, quisemos voar. Em pouco tempo, o globo tornou-se pequeno, com aviões indo e vindo de um lado para o outro. Aí pensamos: “por que não sair dele?”. Então, fomos à Lua! Hoje, nossos foguetes vão ainda mais longe. Um dia, quem sabe, poderemos viajar por todo o universo.

Mas não ficamos por aí. Manipulando a natureza criamos combustíveis, aproveitamos o ar, o sol e o curso dos rios para produzir energia, extraímos das plantas medicamentos e desenvolvemos a tal nível a medicina que já podemos curar doenças e transplantar órgãos. Desenvolvemos os computadores, inventamos o celular, criamos satélites, estamos desvendando os segredos do DNA e avançamos no mapeamento do Genoma. Fosse tudo isto pouco, agora queremos clonar a nós mesmos! O homem criando o homem e dando-lhe vida. Chegamos a ser como Deus?

"Todo homem quer ser rei; todo rei quer ser deus; mas só Deus quis ser homem”. Galilleu Gallilei. Frase intrigante... Mas Deus não quis só ser homem, quis ser homem comum, sem beleza, sem realeza, homem de carne e osso, com sangue e suor. Questiono-me: por que Ele fez isto? Para que? Se já era Deus, por que tornar-se homem? Já não tinha tudo! Faltava-lhe algo? Onipotente, onipresente, onisciente! Por que Deus quis ser homem?

Eu lhes digo, utilizando Isaías capítulo 9 que, em primeiro lugar, Deus quis ser homem para poder identificar-se comigo e com você. “povo que andava em trevas viu grande luz, e aos que viviam na região da sombra da morte resplandeceu-lhes a luz”. v.2.

O Deus que encarna é o Filho. Ele veio para mostrar-nos como é o Pai. Havia entre nós profunda separação, enorme abismo, mas Ele, por Sua morte e ressurreição, pacificou nossos corações e nos abriu um caminho para nos reconciliar com o Criador.

Deus quis ser homem para experimentar nossas dores, limitações, medos, contradições, angústias e dilemas. Esvaziou-se a Si mesmo, perdeu Sua divindade, sofreu como homem, morreu como Deus! Era desprezado e dEle fizeram caso. Foi ultrajado, amaldiçoado, caluniado, incompreendido. Sua existência foi dedicada a compadecer-se dos caídos, salvar os oprimidos, libertar os cativos, “apregoar o ano aceitável do Senhor”. Não sei você, mas eu jamais poderia acreditar num Deus que não sangra... O meu, sangrou até a morte, e morte de cruz.  

Em segundo lugar, Deus quis ser homem para que fosse possível realizar-se o Plano da Salvação. “porque um menino nos nasceu, um filho se nos deus; o governo está sob os seus ombros e o seu nome será: maravilhoso, conselheiro, Deus forte, pai da eternidade, príncipe da paz”. v.6.

Há algo extraordinário no Plano da Salvação: “o Cordeiro foi sacrificado antes da criação do mundo”. A salvação não é um remendo que Deus fez para recuperar as rédeas do jogo, para colocar o homem de volta no trilho original. Não! O Plano de Salvação não foi uma estratégia corretiva traçada por um ser absorto que, despercebido de sua criação, foi surpreendido pela sua queda. Nunca! O Filho sacrificou-se na “eternidade anterior’, antes de haver mundo e homens sobre a Terra e, só depois disto, Deus o criou, homem livre, leve, solto. Deu-Lhe ainda o poder de fazer suas próprias escolhas, mesmo que elas fossem às piores possíveis.    

Mas, no “tempo oportuno”, no momento em que houve a convergência do propósito eterno, Deus encarnou e materializou-se historicamente na figura de Jesus de Nazaré para cumprir o que, antes de todas as coisas já havia sido feito, o sacrifício pelo pecado. A cruz não foi apenas fincada em Jerusalém, na Palestina, mas continua fincada na eternidade, no cosmos, e, por meio dela, reconcilia-se com Deus toda criatura vivente em todos os universos possíveis. “O castigo que nos trás a paz estava sobre Ele e por suas pisaduras fomos sarados”. O grito que ecoou na crucificação, ainda ecoa hoje, em todo o coração que se rende a graça de Deus: “Tetelestai” – Está pago! Está consumado! 

Em terceiro e último lugar, Deus quis ser homem para que o homem acreditasse que ele é Deus. “... o zêlo do Senhor dos exércitos fará isto”. v.7. Disse Jesus: “ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos”. Tudo começou com amor, e tudo terminará com o amor. Deus é amor! Aquele que ama discerne a Deus, é nascido de Deus, Deus está nele e ele está em Deus.

Reconheço que na humanidade tivemos muitos homens sábios, que se sobrepujaram em sua espiritualidade, que se doaram em prol da humanidade, que fizeram sacrifícios extremos e foram exemplo de vida e de perseverança. Mas, tenho também de admitir, ainda que devotando-lhes respeito e admiração, que nenhum deles é o Filho unigênito de Deus! Nenhum deles veio dos Céus a Terra! Nenhum deles encarnou, sendo antes de todas as coisas, Deus! Nenhum disse que era um com o Pai, nem afirmou ser o caminho, a verdade e a vida! Nenhum deles ressuscitou dentre os mortos, e sentou-se a destra de Deus, donde há de vir a julgar vivos e mortos! Nenhum tem poder para perdoar pecados e salvar o pecador. Estou convencido, só mesmo Deus para querer ser homem...

Eu quero lhe desejar um Feliz Natal! Um Natal que te projete para além do Papai Noel, da árvore enfeitada, dos presentes e do peru. Um Natal com consciência, com entendimento e que, sobretudo, produza desdobramentos em sua vida e na vida de todos que te cercam. Eu quero lhe desejar Feliz Natal porque Jesus quis estar entre nós, identificar-se conosco. Quero lhe desejar Feliz Natal porque o nosso Senhor nasceu em Belém, não como Rei, mas como servo, não no palácio, mas na manjedoura. Ele não tinha anel no dedo, mas tinha autoridade nas mãos, não tinha um cetro de ouro, mas um cajado para nos trazer paz, saúde e bem. 

Eu quero lhe desejar Feliz Natal porque tenho a convicção de que você, mais do que nunca, compreende que toda festa só faz sentido porque houve cruz, que toda alegria só tem significado porque houve morte, que a vida de todos nós está compreendida entre a manjedoura e o Gólgota, pois todo presente recebido é nada junto do que o Pai nos enviou, e, porque Ele vive, podemos crer no amanhã... Feliz Natal!

Carlos Moreira


07 dezembro 2010

10 Homens e 1 Destino


... E, entrando numa certa aldeia, saíram-lhe ao encontro dez homens leprosos...”. Lc. 17: 12

Não escolhemos a forma do nosso destino, mas podemos dar-lhe conteúdo”. A frase de Dag Hammarkskjod me fez lembrar deste texto de Lucas citado acima.
Trata-se da história dos 10 leprosos que foram purificados por Jesus. Um texto curto, simples, que pode passar despercebido numa leitura rápida sem que se percebam os “tesouros” nele escondidos.

Nestes últimos dias tenho pensado muito sobre o destino... Teologicamente falando, nem sou calvinista nem arminiano. Sirvo-me de algumas idéias de ambos, mas acho-me totalmente livre para interpretar os textos conforme a leveza e a simplicidade do Espírito, pois não gosto de nada commoditizado. E é olhando desta forma que encontro neste texto de Lucas 2 lições preciosas para a vida, sobretudo para aqueles que estão a caminho, no caminho, caminhando. Por isso, gostaria de compartilhá-las com você.

E aconteceu que, indo ele a Jerusalém, passou pelo meio de Samaria e da Galiléia” v. 11. A primeira vista, parece uma citação de caráter geográfico, que tem como objetivo único situar o leitor no tempo e espaço. Minha percepção, todavia, é que a passagem oferece conteúdo fenomenológico, aquele abordado na teoria do filósofo Husserl. Na prática, a fenomenologia é uma investigação sobre a consciência geral, comum a todos os sujeitos cognitivos e que chega, através da redução fenomenológica, a essência de um determinado fenômeno.

Para mim, é característico que, no caminho do sagrado – “Jerusalém” – sempre se tenha que passar entre Samaria e a Galiléia. Historicamente e culturalmente, estas províncias têm significados que se projetam para além de suas realidades materiais, e, desta forma, acabam por representar arquétipos existenciais.

A Galiléia do tempo de Jesus era a terra da aflição, do paganismo, do esvaziamento do ser, da vida dessignificada, do povo que “jazia em trevas”, da existência que ainda não encontrara um propósito. Historicamente era menosprezada porque esteve durante aproximadamente 50 anos sob o governo da Fenícia. Com isso, acabou por desenvolver uma diversidade cultural e religiosa que apresentava costumes pagãos. Era a terra dos “gentios”, daqueles considerados estranhos e alheios as leis e preceitos dos judeus.

Samaria, por sua vez, tinha outra significação histórica. Sua população representava cerca de 15% dos habitantes da Palestina e eles eram descendentes diretos da nação que se estabeleceu no norte da região, após a deportação das dez tribos de Israel. Apesar desses gentios terem aceitado a religião judaica, na prática, criaram uma nova religião, inclusive com um templo próprio e, assim, sincretizaram elementos hebraicos com costumes pagãos. Por esse motivo, os judeus os consideravam um povo impuro.

Pois bem, eis aí a representação histórico-arquetípica para todo aquele que quer andar na dimensão do sagrado: harmonizar a convivência entre os que estão na região da sombra da morte, sem entendimento da vida, sem propósito ou significação existencial – tal qual os da Galiléia – e também com os que simbiotizaram uma religião e um deus feito para suas conveniências, misturando no mesmo “caldo sócio-religioso” elementos do zeitgeist (espírito do tempo) – assim como os samaritanos. Ser luz em meio a estas “trevas” é o desafio que nos cabe, acolhendo o diferente, amando o excluído, aceitando aquele que não pensa igual a nós, não tem o nosso “pedigree”, mas que precisa transcender, encontrar-se com o “totalmente outro”.

Nossa desgraça é a nossa alienação. É a falta de percepção destes dois pólos, destes dois “mundos”, destes dois “povos”. Nós vivemos como se o “outro” não existisse, pois nossa fé tornou-se religião de gueto, nossos credos e dogmas só afastam as pessoas, nossos encontros são para gente igual à gente, nunca para o diferente. Mas Jesus ensina que é preciso “trafegar” entre Samaria e a Galiléia, pois é lá aonde estão os famintos de Deus, os miseráveis de alma, os quebrantados de coração, os desejosos de justiça, os sedentos de esperança.

E Jesus, vendo-os, disse-lhes: Ide, e mostrai-vos aos sacerdotes. E aconteceu que, indo eles, ficaram limpos. E um deles, vendo que estava são, voltou glorificando a Deus em alta voz; E caiu aos seus pés, com o rosto em terra, dando-lhe graças; e este era samaritano”.

De fato, “o caminho se faz caminhando”. Lembro de Isaías: “então, romperá a tua luz como a alva, a tua cura brotará sem detença, a tua justiça irá adiante de ti...”. Ele fala da espiritualidade que agrada a Deus. 10 homens leprosos receberam uma ordem de Jesus: “vão se apresentar ao sacerdote”. Era o que mandava a Lei de Moisés. Mas Jesus era maior do que a Lei, do que Moisés e de que o sacerdote, pois seu sacerdócio era segundo a ordem de Melquisedeque – sem princípio e sem fim. E assim, de repente, no meio da jornada, a cura se estabelece e a lepra, simplesmente, desaparece.

Quero lhe dizer algo: a “cura” sempre se materializa no caminho, pois é no pó da estrada que a existência ganha significado. Por isso o salmista diz que os que semeiam em meio a lágrimas colheram com alegria, pois a dor, a perda, o medo, a angústia, estes matizes que se manifestam nas estações próprias de cada existência é que fazem em nós aquilo que pode nos tornar pessoas melhores. A dor é o adubo por excelência para a alma, pois ela é capaz de tornar triste o rosto, mas fazer melhor o coração.

10 homens caminhavam no caminho. Todos iam na direção do sacerdote, da Lei. Ao se apresentarem tinham de ser examinados, perscrutados, interrogados. Depois vinham as “prescrições legais”; o afastamento e o isolamento por uma semana para que pudessem retornar e ser reavaliados. Era a segregação, a discriminação, o banimento, a acepção, coisas da velha religião. Só cumprido os “requerimentos litúrgicos”, era que a pessoa poderia ser decretada “limpa”. Mas a cura de Jesus se deu no caminho, sem prescrições, sem liturgias, sem intermediações, sem leis ou ditames, tudo de forma simples, como simples é o caminhar daqueles que, com coração pacificado pela graça, andam em paz com Deus e com seus semelhantes.

9 homens seguiram para os enquadramentos da Lei, para as bulas sacerdotais, para as fórmulas do sagrado. Mas apenas 1 homem notou que sua cura não dependia de nada mais daquilo, apenas do fato dele crer que aquEle que lhe dera a Palavra era poderoso para garantir-lhe a salvação. Voltou sem detença. Abandonou os ditames, as convenções, as crendices, correu de volta ao lugar onde encontrara o Nazareno e, vendo-o novamente, lançou-se aos seus pés. Curioso, entre tudo, é que este homem era o expurgado, o rejeitado, o discriminado, aquele de quem nada se espera, pois além de leproso, era samaritano. E Jesus o abraçou e o recebeu com reverência pela sua vida e com respeito pela sua alma:  “Apenas este estrangeiro voltou para dar glória a Deus”. 

10 homens e 1 destino. 9 seguiram no curso da religião, das prescrições, das “correntes”, das “mandingas” do sagrado, das doutrinas humanas, dos preceitos caducos da letra morta, da intermediação dos “feiticeiros sacerdotais”. Mas um homem mudou o seu destino porque entendeu que o justo vive pela sua fé. E foi isso que Jesus lhe disse: “vai, a tua fé te salvou”. Vai, anda pela vida, livre, leve, solto, semeando o bem, colhendo a paz, amando o teu semelhante, acolhendo ao necessitado, adorando a Deus.

E você, o que deseja? Quer também mudar o seu destino? 


Carlos Moreira

06 dezembro 2010

Bolso Furado


“Jesus sentou-se em frente do lugar onde eram colocadas as contribuições, e observava a multidão colocando o dinheiro nas caixas de ofertas. Muitos ricos lançavam ali grandes quantias. Então, uma viúva pobre chegou-se e colocou duas pequeninas moedas de cobre, de muito pouco valor. Chamando a si os seus discípulos, Jesus declarou: Afirmo-lhes que esta viúva pobre colocou na caixa de ofertas mais do que todos os outros. Todos deram do que lhes sobrava; mas ela, da sua pobreza, deu tudo o que possuía para viver.”
Mc. 12:41-44

Para Jesus, diferentemente do que acontece conosco, a maior oferta foi aquela que teve a menor significação monetária, pois foi a que carregou em si as implicações da fé e do amor. E a razão é simples: para Deus, o que mais importa na vida é a motivação.

Curioso, todavia, é imaginar o Senhor sentado em frente ao gazofilácio, no átrio externo do Templo, observando o movimento... Passava por ali a moçada da religião, fariseus e escribas, todos cheios de jactância, de autoindulgência. Também ali estavam os ricos, revestidos de pompas, com suas ofertas vultosas, despejando no receptório aquilo que lhes sobejava da soberba da vida. Então veio a viúva...


Aquele era um mês especialmente difícil. As economias já haviam se acabado. A feira não tinha sido feita. Várias das contas a serem pagas estavam sob a mesa da sala. Tudo o que restava eram duas pequeninas moedas. O coração compungiu-se: “Como entregar aquilo que se tem para viver?”. A consciência, por outro lado, argumentava: “Como viver sem entregar tudo o que se tem e o que se é?”. Santo dilema! Quem me dera fosse o meu...


Dinheiro ali nunca foi a questão. A oferta da viúva era a oferta de si mesma, a única que interessa a Deus. Não se tratava de algo com significação econômica, pois, financeiramente, aquilo que ela deu não possuía valor.


Sua oferta, todavia, era fruto de uma consciência desenvolvida para a obediência e de um coração dilatado para a generosidade. Por isso, em fé, entregou “tudo o que possuía para viver”. Saiu com o bolso vazio e o coração cheio. Sua alma foi alimentada de esperança e seu espírito fortalecido em fé. Seu ato discreto chamou a atenção de Jesus, pois o Senhor percebe o íntimo, mas despreza as aparências.


Deus não precisa de dinheiro para Sua obra; eu e você é que precisamos! Portanto, se a obra for Dele, se Ele estiver interessado em que ela se viabilize, se estiver sendo glorificado com o que está sendo feito e se os Seus planos estão em sintonia com os nossos, creia-me, dinheiro nunca será um problema.


Ainda assim, toda moeda tem dois lados, mesmo a da viúva. Temos o lado dos que vivem dos despojos do povo, mas também o dos que querem apenas, como disse o profeta Ageu, “apainelar” as suas vidas e as suas casas, gente incapaz de fazer qualquer sacrifício ou investimento na obra de Deus porque está totalmente focada no seu projeto de enriquecimento pessoal.


Conheço homens de Deus sérios, bem-intencionados, apaixonados pelo que fazem, com boas ideias, que não conseguem realizar empreendimentos para o Reino por causa da avareza e do egoísmo que se instalaram no coração dos que se dizem “povo de Deus”.


Talvez esse cenário seja uma reação de autodefesa, ainda que inconsciente, a tanto escândalo e manipulação. Mas, talvez, não. O fato é que é dificílimo encontrarmos pessoas que invistam os seus talentos e recursos na obra de Deus.


Tenho visto muitos prosperarem na vida. Como empresário, vejo companhias alcançando níveis de faturamento extraordinários, com ganhos expressivos para seus acionistas. Alguns deles são cristãos. Compram novos carros, apartamentos maravilhosos, fazem viagens para outros países, adquirem casas na praia, no campo, mas são insensíveis e incapazes de se envolver com qualquer desafio que possa levá-los a investir algum dinheiro no Reino de Deus.


Olho para isso e creio que esses jamais entenderam o princípio que diz: “Dai e dar-se-vos-á”, pois Deus dá, de forma abundante, com o objetivo de desenvolver em nós a generosidade para com os outros e para com o Evangelho.


Sim, creio que Deus não tem nenhuma intenção de fazer ninguém milionário, protagonista de uma vida egoísta e centrada em si mesmo, mas em enriquecer alguns para torná-los capazes de distribuir, de investir, de canalizar recursos para Seus propósitos. Creio que o Senhor deu talentos há alguns homens e mulheres para que eles pudessem usá-los para a Sua glória, mas eles acabaram usando apenas para usufruto próprio.


Tenho com frequência sempre aconselhado pessoas em crises financeiras. O “ralo” é sempre o mesmo: cartão de crédito, cheque especial, despesas feitas sem provisão, vaidade, desorganização, futilidades.


Nesses momentos, o profeta Ageu sempre me volta à mente: “Vocês têm plantado muito, e colhido pouco. Vocês comem, mas não se fartam. Bebem, mas não se satisfazem. Vestem-se, mas não se aquecem. Aquele que recebe salário, recebe-o para colocá-lo numa bolsa furada”. Como alguns me dizem, é muito mês para pouco provento. Aí, o dízimo já era...


Jesus nunca se preocupou com dinheiro. Mesmo sabendo que existiam pessoas que “bancavam” Seu ministério, sobretudo as mulheres, nunca o vi “passando a sacola” ao final de um sermão ou depois da realização de um milagre.


Ele apenas pregava a Boa Nova, amava as pessoas, curava, libertava, apaziguava os corações, e o mais Deus provia. Nunca deixou de fazer nada porque não havia recursos disponíveis. Não se hospedava em hotel cinco estrelas, não andava de Audi, não jantava nas boas casas de massa e não dispunha de nenhum aparato logístico, mas Sua mensagem era capaz de impactar milhares de pessoas e de transformá-las de dentro para fora. Por que será que isto não acontece com a nossa?

Gosto muito das músicas do Almir Sater. Em uma delas, de título “Peão”, o compositor afirma: “Para um bom companheiro não conto dinheiro”. Fiquei imaginando como seria bom se o verso se aplicasse à nossa relação com Jesus, no que diz respeito à generosidade e ao desprendimento.

É que não raro dizemos que o Senhor é o nosso companheiro, contudo, na hora de metermos a mão no bolso, materializando assim a amizade, de tal forma a permitir que coisas concretas possam ser realizadas, o bolso quase sempre está furado. Nessas circunstâncias, você poderá ouvi-lo dizer o seguinte: “Não se apoquente não, bichinho; Eu já paguei a conta!”.

Carlos Moreira

27 outubro 2010

Igreja Playmobil


“Como é terrível conhecer, quando o conhecimento não favorece quem o possui!”
Sófocles, dramaturgo grego.

Se você já assistiu ao filme “The Wall”, produzido em 1982, pelo diretor Alan Parker, o qual é baseado no álbum de mesmo título da banda Pink Floyd, talvez se lembre de uma de suas cenas mais marcantes. Nela, vemos a imagem dos alunos, com máscaras de bonecos presas ao rosto, sendo empurrados numa esteira rolante em direção a uma máquina de trituração que os transformava em linguiças.

Era a dura crítica de que os alunos haviam se tornado manequins serializados, e não seres pensantes. A própria música “Another Brick in The Wall” – Um tijolo a mais na parede – tem em sua letra comentários mordazes quanto ao sistema de ensino inglês e aos professores. Em uma das estrofes, afirma de forma categórica: “Professores, deixem os alunos em paz!”.

Durante muito tempo, as escolas estiveram sob o domínio da Igreja, mas acabaram sofrendo profundas mudanças desencadeadas pelas novas necessidades dos processos de produção advindos da Revolução Industrial. Elas abandonaram o modelo ideológico religioso e se transformaram num local de disciplinamento e ordenação do saber.

Segundo Maria da Glória Silva, mestre em psicologia, “a partir do século XVIII, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos, os ambientes escolares pareciam-se mais com quartéis, pois a instrução ficava em segundo plano, atrás da obsessão pela ordem e compostura”.

Ora, é justamente isso que acontece hoje com o nosso sistema de ensino na Igreja. Ele está profundamente equivocado! Reproduz muito do que se viveu nos séculos XVIII, XIX e XX no mundo fabril. Estamos serializando as pessoas, transformando-as em commodities religiosas.

O problema já começa nos seminários teológicos, muitos dos quais lembram apenas uma “sociedade de profetas mortos”. Ali, jovens enviados sem qualquer critério de seleção pelas Igrejas, sem a mínima experiência com Deus e nenhum conhecimento das Escrituras, são expostos a conteúdos profundos de autores diversos que os fazem, não raro, entrar em crise e perder a fé. Dali muitos sairão como “profissionais da religião”, mas jamais como pastores de ovelhas. Há exceções, mas elas estão cada vez mais escassas. 

Lembro-me do profeta Oséias: “O meu povo está sendo destruído porque lhe falta conhecimento”. O mais trágico, contudo, ainda está por vir. Baseados em rotinas didáticas superadas – por vezes demasiadamente ortodoxas, em outros casos profundamente liberais –, numa hermenêutica descentrada de nosso tempo e de nossa cultura, que insiste em fazer exumação da letra morta em vez de ressignificar os conteúdos para expansão e construção de uma nova consciência, a Igreja acaba criando, seja do púlpito, na EBD (Escola Bíblica Dominical), no ensino dos pequenos grupos ou nas reuniões de doutrina, um modelo fabril. É o triunfo de uma práxis religiosa que apenas constrói gente robotizada, autômatos “espirituais”, bonecos com máscaras no rosto, vendas nos olhos e tampões na boca e nos ouvidos.

Não é sem motivos que grande parte da sociedade nos considera alienados! Isso se dá não porque temos os ideais e os princípios do Reino, mas porque nossas ações são bizarras, caducas e, por vezes, perversas. Tornamo-nos “discípulos” que decoramos meia dúzia de doutrinas, muitas das quais sincretizadas pelos vários tipos de denominações diferentes pelas quais passamos, e agora arrotamos um tipo de conhecimento bíblico que não tem nada a ver com o Espírito do Evangelho de Jesus. Como disse Charles Dickens, romancista inglês, temos “uma vaga noção de tudo, e um conhecimento de nada”.

Olho para a Igreja e sinto que ela se parece com um exército de Playmobil. Sabe, aqueles bonequinhos feitos na década de 1980, todos iguaizinhos, mas com roupinhas diferentes? Somos nós!

Crentes de mente cauterizada, falando e pensando as mesmas coisas, incapazes de nos conectarmos ao mundo que nos rodeia, com o coração petrificado e os nervos enferrujados. Somos a geração do “crente em série”, gente que engole o tiranossauro e colhe o mosquito, que se escandaliza com tudo, cheia de fricotes e de frescuras, de condicionamentos comportamentais, de julgamentos sociais, de restrições sacramentais, e por aí vamos.

Tornamo-nos bonequinhos forjados na Igreja-Fábrica, gente neurotizada, infeliz e incompleta, mas querendo mudar o mundo. Ah, quanta utopia!

E há solução pra isso? Sei lá! Talvez jogando uma bomba e destruindo este mar de hipocrisia e insensatez resolva... O que nos falta é paixão, é vida com Deus, é singularidade, é percepção do eu, das incompletudes do ser, das idiossincrasias, das falácias humanas, da trave nos olhos, de nos vermos do tamanho que somos.

Impossível não lembrar de Da Vinci: “Todo conhecimento se inicia com sentimento”.

É verdade: sem amor, o que poderá ser aproveitado?


Carlos Moreira

02 setembro 2010

Vidas Secas




Ouvir pessoas tem sido um de meus “ofícios”. Abrindo o coração, elas dão a volta ao mundo sem sair do lugar, falam de seus dramas. De repente, embarco em “cenários”, torno-me parte de histórias, Sinto “dores de parto”; sofro...

Os dias são difíceis, nós já sabemos. Há um “espírito” pairando sobre nós – zeitgeist. Somos todos e não somos ninguém, nos commoditizamos, estamos em processo de desconstrução, pois tudo ao nosso redor é impermanente. Desumanizados, sem essência, sem substância, existimos sem a porção que nos torna gente.

Lembro de Graciliano Ramos, no seu livro “Vidas Secas”. É a história da mudança e da fuga. Produzido na década de 1930, “Vidas Secas” poderia ser a crônica de um jornal de hoje. Pessoas em fuga! De si mesmas, de lugares, de histórias, de “miséria” em “miséria”. Não se trata mais, como no romance, da busca pela subsistência, mas das premissas mínimas para a existência.   

Ezequiel nos expõe esta mesma realidade no capítulo 37 quando fala do “Vale de Ossos Secos”. Ali ele é levado a um local ermo aonde Deus lhe faz uma surpreendente revelação. O cenário ganha contornos de uma “sala de cinema” e o profeta, transformado em “mídia”, torna-se o “projetor” do inconsciente coletivo – Jung – da nação de Israel. Diante dele está o holograma imaterial do que estava acontecendo no mundo da matéria, das coisas visíveis. 

A “visão” de Ezequiel é fenomenológica, conforme Kant, pois está acontecendo no tempo e no espaço, mas também é consciência geral, comum a todos os sujeitos cognitivos, conforme Husserl. Neste cenário “ficcional”, ele vê diante de si um cemitério, um lugar onde a vida se extinguiu por completo. É o “mosaico” de “Vidas Secas” sob a pintura expressionista de Portinari.

De fato, aqueles eram dias difíceis... Israel, exilado na Babilônia, estava diante de uma cultura muito diferente da sua. Havia um forte sentimento de perda, pois Jeová os havia abandonado, e isso criara uma amargura incrustada na alma, um sentimento de revolta, de desespero e solidão. Foi à soma de toda esta energia psíquica que “produziu” a “visão” que Ezequiel, pelo Espírito, contemplou.

Ler o texto de forma consecutiva nos dá a impressão de que a “visão” do profeta não é “visão”, mas realidade, aquilo que está acontecendo naquele momento. Mas, na verdade, não é assim... Há algo no texto, ainda que sutil, que muda esse eixo de interpretação. Está no verso 11. Nele o autor faz a guinada na narrativa e, deixando o mundo espiritual “para trás”, retorna ao concreto, ao real. E é só a partir daí que Deus começa a esclarecer ao profeta o que ele havia visto: “11- Então ele me disse: “Filho do homem, estes ossos são toda a nação de Israel. Eles dizem: ‘Nossos ossos se secaram e nossa esperança desvaneceu-se; fomos exterminados”.

Naquele momento, a “visão” já havia cumprido o seu propósito: construir no coração de Ezequiel as percepções necessárias para o desenvolvimento de sua missão. Dali por diante, não era mais preciso “olhar” para o “Vale de Ossos Secos”, pois ele representava apenas “EFEITOS”. O grande desafio era voltar-se para as pessoas, para o mundo cotidiano, pois ali estava as “CAUSAS”, o nascedouro dos fenômenos capaz de transformar Vidas Singulares em “Vidas Secas”.

E tudo começa com o que está dito no verso 11: “nossos ossos secaram”. Não é uma frase solta, um lamento despretensioso. É o gemido que sai do íntimo do ser, pois a sequidão da alma havia chegado até aos ossos. Aqui está uma das causas para a desconstrução de vidas: “ALIMENTAR” O MUNDO IMATERIAL COM AS PRODUÇÕES DO MUNDO REAL. Principados e potestades “comem” tudo aquilo que nós produzimos! Por isso nossa luta não é contra pessoas, mas contra seres do mundo espiritual. “A serpente se alimenta do pó da Terra”; demônios se banqueteiam com sentimentos como iras, ódio, inveja, amargura, rejeição, e constrói em torno de nós uma “engrenagem” que se retroalimenta de tudo isto. 

A cura só se processa quando a alma é sarada pelo Espírito de Deus, através da pacificação interior, do perdão que é dispensado pela graça Divina. Isto fica perceptível no texto, pois a “reconstrução” do cenário de morte começa de dentro para fora; os ossos ganham nervos, tendões, carne e pele. A estrutura se ergue, fica de pé, mas ainda não tem fôlego, são autômatos, zumbis! Ainda se está diante de um cemitério. Só quando o Espírito é “soprado” sobre aquelas “carcaças” é que a vida recomeça e elas se tornam humanos.

O segundo ponto que percebo no texto, e que gera demolição em vidas, é a perda da esperança. Veja novamente o verso 11: “nossa esperança desvaneceu-se”. Trata-se do aprofundamento do estágio anterior; é A PAVIMENTAÇÃO DO CAMINHO PARA A DESARTICULAÇÃO DAS ESTRUTURAS DO PSIQUISMO. Quando a esperança se vai, a pessoa não acredita mais em nada. É o “esquematismo da miséria”. É Neste estágio que se instalam em nós doenças como a depressão, os distúrbios psicossomáticos e as síndromes – do pânico, por exemplo. A vida perde o apetite, o significado, a razão de ser.

Thomas Quincey diz que “as pegadas feitas na alma são indestrutíveis”. Ali estava um povo ferido, sem esperanças. Suas almas eram como masmorras sombrias, “esgotos” de desespero e agonia. Trancadas em si mesmas elas se revolviam em meio à dor e assim drenavam toda energia vital, toda alegria, tudo o que produz paz e bem. Tire os sonhos de um ser humano e você verá que ele não terá mais horizontes. Os Israelitas já não acreditavam que era possível sair daquela girândola da morte.

Aí entra Deus no descaminho humano! O verso 12 diz: “abrirei os seus túmulos e fá-los-ei sair”. Sim, há pessoas cujo interior tornou-se cova, lugar de morte. Ali está todo acúmulo de negatividade que a vida deixou. É como o sargaço trazido pela maré que fica na praia e apodrece. Mas Deu derrama luz nas nossas trevas! É a luz da confissão e do arrependimento que faz com que a poeira dos porões do ser saia pelas janelas da alma! É o resgate da vida! O choro dura uma noite, mas a alegria vem pela manhã!

Finalmente, ainda percebo um último “fenômeno” que destrói pessoas. Observe a fala final do verso 11: “fomos exterminados”. É uma afirmação conclusiva, definitiva, última. Viver agora é mero cumprimento de obrigação, é rotina, enfado e canseira. Este “sentir” representa o que considero A CONSTRUÇÃO DA LOGÍSTICA PARA ACOLHER AS SOMBRAS DA MORTE.

Ah, como tenho encontrado gente assim, com a “Vida Seca”, se arrastando existencialmente, amargando existir, na estação outonal, onde os pranteadores andam ao derredor, e as aves esperam a carniça para devorá-la. Em circunstâncias como esta, só um novo projeto pode trazer resultados. Aqui não adianta mudar hábitos, condicionamentos, ou até mesmo mudar de lugar, fugir, como fazia o Fabiano, do livro de Graciliano Ramos. Aqui é preciso uma nova perspectiva.

Por isso Deus – verso 12 – precisava semear entre eles um novo sonho: “trarei vocês de volta a terra de Israel”. Agora sim! Ele voltara a agir no meio do seu povo! O céu deixara de ser de bronze, impermeável, pois o tempo da visitação chegara novamente, o dia oportuno, o dia da salvação! A Babilônia ficaria para trás, com suas “simbologias” que representavam um tempo onde a “vida secou”. Mas o Espírito Dinâmico entendera que à hora do resgate havia chegado. Agora era só aguardar o livramento!

“Vidas Secas”... Como torná-las férteis novamente? Talvez analisar estes processos descritos anteriormente ajude a compreender algumas dinâmicas fenomenológicas e arquetípicas que se interpõe no caminhar dos humanos sobre a Terra.

De todo modo, em João, capítulo 7, Jesus nos apresenta uma perspectiva ainda melhor: “se alguém tem sede venha a mim e beba”. É uma metáfora em alusão a única coisa que pode gerar saciedade existencial: ir a Ele e, nEle, ser! Estais sedento? Venha e beba! Sua vida se dessignificou? Venha e beba! Tem existido com sombras no coração, com hálito de morte? Venha e beba! Perdeu a esperança? Venha e beba! O convite permite que se plante, no “jardim” do coração, sementes de misericórdia, as quais serão regadas diariamente com lágrimas de amor. Creia-me: você verá que, em pouco tempo, elas produzirão verdadeiros milagres; paz, saúde, vida e bem.

S O L A   G R A T I A  !

10 setembro 2009

Um Banho de Simplicidade


Como de costume, estava saindo às pressas para o escritório. Mal deu tempo de engolir o almoço e lá estava eu, de volta a maratona minha de cada dia.

Na saída do prédio, entretanto, algo me fez parar. Eu moro num edifício antigo, daqueles que possuem poucas unidades. Mas, confesso, não tenho do que me queixar. O bairro é bom, o espaço é ótimo, com cômodos amplos e bem divididos. Já a Gabriela, não sei...

Gabriela é minha filha de apenas 4 anos. Tenho dúvidas se para ela nossa aquisição foi boa. O motivo é simples: o prédio não tem parquinho, piscina, nem salão de festa. Apenas um pilotis cimentado e amontoado de carros com uma pequena área na entrada.

Pois bem, com tantas “deficiências”, levando-se em consideração os modernos arranha-céus que existem ao redor, a Gabi não parecia nem um pouco insatisfeita. Naquela tarde, colocou no pequeno espaço que havia entre a guarita e um carro sua “piscina” para se divertir. Aliás, chamar aquele artefato de piscina é um despropósito. Na verdade, tratava-se de uma antiga bóia que ela utilizava quando tinha meses de vida para brincar com a água.

Ao contrário de tudo que se possa imaginar, levando-se em consideração tanta “precariedade”, a pituca se esbaldava dando gritos de alegria e risos soltos no ar. Batia com as mãos na água, que se esparramava pra todo lado, e me mandava beijos de despedida.

Sem dúvida, uma cena arrebatadora. Pensei comigo mesmo por alguns instantes: tanta felicidade, com tão pouco. Como a Gabi pode estar tão feliz com apenas uma bóia e dois palmos de água? Na verdade, naquele dia, minha filha me deu um banho de simplicidade. Ao contrário do que eu imaginava, a piscina não era algo tão determinante para ela...

A vida moderna acabou por criar uma série de demandas de coisas que, não raras vezes, são totalmente dispensáveis na nossa lista de imprescindíveis. Constatei isto depois do episódio da “piscina”, numa análise, mesmo que simplista, sobre algumas coisas que julgava ser fundamentais no meu dia-a-dia.

Para se ter uma idéia, na minha lista passou desde alguns gêneros alimentícios até o uso de eletrodomésticos. Fiquei intrigado em ver que algumas coisas que eu realmente achava fundamentais acabaram não sendo assim tão importantes... Durante todo aquele dia continuei meditando e, para minha surpresa, vi que a lista começava a ter proporções cada vez maiores, cabendo, inclusive, até alguns eternos “sonhos de consumo”.

O que é mesmo necessário para se ser feliz? Paulo escrevendo a seu filho na fé Timóteo parece ser sintético demais. “Porque nada temos trazido para o mundo, nem coisa alguma podemos levar dele.Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes”. I Tm 6:7-8. Ora, dizer isto nos nossos dias soa como uma verdadeira aberração. Como se pode viver sem um telefone celular? E o ar-condicionado? Neste calor! Impossível. Você já imaginou o que seria de sua vida sem uma televisão? E banho quente, já pensou? Imagina tomar um banho frio no final de um dia de trabalho? Inadmissível! Será?

Impressionante mas, até a metade do século XX, boa parte destas coisas que eu mencionei como imprescindíveis à vida sequer existiam no Brasil. E isto há apenas 60 anos atrás. Será que as pessoas daquela época eram menos felizes do que nós somos?

Fico imaginando se Paulo escrevesse o mesmo texto hoje. Penso que, talvez, ele refletisse uma outra realidade. Como sabemos, a cultura sempre teve grande influência sobre o texto bíblico. Por isso, é bem provável que no nosso contexto algumas outras coisas realmente tivessem que ser acrescentadas para se poder viver a vida com dignidade. Mas, provavelmente, a nova lista continuaria a nos surpreender pela simplicidade.

Boa parte dos problemas que chegam aos gabinetes pastorais está relacionada com questões financeiras. Nós vivemos oprimidos por um forte apelo de consumo, seja de bens, de serviços, ou de gêneros alimentícios. A propaganda e o marketing são capazes de realizar maravilhas. Um consumidor menos precavido é sutilmente conduzido a se endividar realizando a compra de algo que, a primeira vista, parecia indispensável. Ao depois, entretanto, acaba se juntando a uma dúzia de outras coisas sem grandes utilidades.

Na verdade, a concupiscência dos olhos parece ter ganhado seu maior significado na sociedade pós-moderna. Ë muito apelo! Televisão, jornal, letreiro, stand, internet, vitrine, folder, e uma infinidade de outros instrumentos de comunicação estão sempre ávidos por encontrar os olhares cobiçosos de consumidores cada vez mais despreparados para comprar. Além do mais, para se levar tais “bagatelas” para casa não se precisa nem ter dinheiro! Tem cartão, crediário, cheque pré-datado, nota promissória, carnê e, se mesmo assim não der, você pode fazer um empréstimo bancário a taxas de juros extraordinárias; para os banqueiros, é claro.

Será mesmo que eu preciso disto? Será que esta é a melhor hora para fazer isto? Será que vou ter condições de pagar por esta aquisição? Perguntas tão óbvias, que poderiam evitar tanto sofrimento, mas que são, desgraçadamente, esquecidas na hora de se comprar algo ou de se fazer alguma despesa.

Fico impressionado como o tema “problema financeiro” tem uma alta capacidade de destruição. Famílias podem ser arrasadas como conseqüência de uma má administração econômica. Relacionamentos conjugais podem “virar sopa” por conta de descontroles e irresponsabilidades. Viver com dívidas é como viver no inferno. É uma tormenta da hora em que se levanta até a hora em que se vai dormir. Não há nada pior do que acordar com o telefonema de um gerente de banco dizendo que a conta está descoberta. Lembro-me de Paulo quando diz “a ninguém fiqueis devendo coisa alguma exceto o amor...” Rm. 13:8. Não tenho dúvidas de que o apóstolo queria nos poupar de tristezas e dissabores.

Você já olhou sua lista de imprescindíveis? Será que tudo que está nela é de fato indispensável? Vejo que as Escrituras Sagradas nos instam a um viver simples. Por isso Jesus recomenda buscarmos em primeiro lugar o Reino de Deus. Sim, Ele nos garante que “as outras coisas” nos serão acrescentadas. E o que é o Reino de Deus? Diz Paulo: “não é comida nem bebida”, mas “justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo”. Rm. 14:17. Ou seja, não é constituído de coisas, mas de valores. A felicidade não está baseada no que se tem, mas em quem se é.

Gosto do pensador de Eclesiastes quando ele diz:”Vai, pois, come com alegria o teu pão e bebe gostosamente o teu vinho... Goza a vida com a mulher que amas, todos os dias de tua vida fugaz, os quais Deus te deu debaixo do sol; porque esta é a tua porção nesta vida pelo trabalho com que te afadigaste debaixo do sol”.

Sim, ele fala de simplicidade. Não inclui o carro do ano, o apartamento de cobertura, a banheira de hidromassagem, o DVD, o microondas, o notepad, o celular, o i-pod, e tantos outros “imprescindíveis” dos nossos dias. Mas ensina a comermos com alegria, coisa que muitos de nós já não sabemos o que é. Cita o pão como elemento que expressa a graça de “cada dia”, como no pai-nosso, e o vinho como simbolização do prazer de se poder apreciar o que é bom e o que faz bem. Fala também da mulher amada, numa clara demonstração do prazer que há na conjugalidade, e é só. Só isso? Sim. Não precisa de mais nada. Esta é a nossa porção. É tudo o que precisamos. O resto está nas “outras coisas”, que não são essenciais e que, por assim ser, nos “serão acrescentadas”.

Quero viver dias melhores. Quero poder ver minha filha crescer com valores diferentes. Nunca mais me esquecerei do seu sorriso naquela tarde em que eu estava tão apressado para ir para o trabalho. Muitos negócios me esperavam. Coisas urgentes, telefonemas, contas para pagar. Mas uma bóia com dois palmos de água me fez refletir que a vida é mais do que o que eu tenho vivido. Obrigado Pai pela preciosa lição que a Gabi me ensinou. Ensina-me a viver com o pouco e a ser grato pelo muito que tens feito em minha vida.

Sola Gratia!

Carlos Moreira

02 setembro 2009

Oficina de Vidas


INTRODUÇÃO

Quem me conhece sabe o quanto eu gosto de carro. Oficina, então, nem se fala! Vá entender... Gosto de quase tudo que tem quatro rodas, mas o Jipe sempre foi o meu “xodó”. Quando comprei o primeiro, passava horas com ele no mecânico. A coisa chegou a um estado tal, que Fabiana uma vez me disse que eu estava ficando mais tempo na oficina do que com ela em casa.

Sempre gostei de cuidar de carros e acabei desenvolvendo outra paixão na vida: cuidar de gente. Mas é fato que trata-se de coisas totalmente diferentes. Carro se machuca, arranha, amassa, quebra uma peça, mas sempre tem jeito! Com grana e uma boa oficina pode-se até, num curto espaço de tempo, transformar uma velharia num hot rodes.

Mas com gente é diferente. Gente quando “arranha”, “amassa”, ou “quebra” dá um trabalho enorme para “recuperar” e, não raras vezes, o problema é tão grave que a “perda é total”.

Você já pensou numa oficina que cuidasse de vidas? Imagine o cliente chegando e sendo recebido pelo “mecânico” da alma que diria: “é patrão, vamos ter de arriar todo esse egoísmo, que já rodou bastante, e colocar no lugar dele dois litros de generosidade. Também vou ter de substituir essa mentira aqui, que como se pode ver já está bastante gasta, por aquela verdade ali, novinha em folha”.

Que bom seria se fosse assim! Mas não é. Gente dá trabalho. Gente tem insegurança, insensatez, implicância, intemperança, intolerância, indolência, e tanta coisa ruim que a gente só acredita que gente tem jeito porque a gente é gente. E dá trabalho cuidar de gente; e como dá... Mas não há nessa terra tarefa que seja mais inspiradora e, no meu entender, que seja tão prioritária.

UMA “PAIXÃO” DENTRO DA PAIXÃO

Quando olho para Jesus, vejo essa verdade expressa em cada gesto e em cada palavra, pois, de fato, o Mestre gostava de gente. Gente doída, gente perdida, gente caída, gente excluída, gente que não se achava gente, gente que perdeu a referência do que era ser gente, gente que ignorava outra gente, gente de todo tipo e gente de toda gente.

Jesus vivia rodeado de pessoas. Com elas celebrou a vida e, por causa delas, a própria vida doou. Mas também experimentou nas suas relações a tristeza, a decepção e a dor. Para mim, a encarnação nada mais é do que Deus se deixando traduzir. Deus, agora, não é mais somente Deus, mas também é homem, bem próximo a nós. Podemos vê-Lo na esquina, entre uns e outros. Ele vai à casa do publicano e senta-se na roda dos pecadores. Conversa com a prostituta e come na mesa do coletor de impostos. Num momento está numa festa e, no outro, partilhando da dor solitária de um aleijado esquecido. Alegra-se no casamento, e chora no enterro do amigo, acolhe carinhosamente as crianças e expulsa o demônio que atormenta o endemoninhado.

Verdadeiramente, a paixão daquele Galileu, era gente...
A vida de Jesus foi “gasta” com pessoas, sobretudo, os três últimos anos. Ele investiu todo o tempo de que dispunha na tarefa de fazer discípulos e, mesmo não tendo inventado o discipulado, discerniu-O como algo eficaz e aplicou-O como estratégia no ministério. No fundo, Ele criou uma oficina de vidas, pois, no que diz respeito à “consertar” gente, nunca houve ou haverá alguém melhor do que Jesus.

QUEBRANDO PARADIGMAS

Mais o que é mesmo discipulado? Ora, para tentar refletir um pouco sobre o tema, vou primeiro lhe dizer, o que eu acho que não é.

- Discipulado não é uma reunião de pessoas, mas a união de pessoas que se reúnem;

- Discipulado não é apenas abrir a casa para uma reunião, mas abrir a vida para a comunhão;

- Discipulado não é algo que acontece num dia da semana, mas, numa semana, todos os dias;

- Discipulado não termina quando a reunião acaba, pelo contrário, começa;

- Discipular não é passar a vida ensinando a bíblia, mas, no ensino da bíblia, passar a vida;

- Discipular não é apenas ensinar o que se aprende, mas viver o que se ensina;

- Discípulo não é alguém que quer apenas fazer discípulos, mas, antes de tudo, ser discípulo;

- Discípulo não é alguém que freqüenta a sua casa, mas aquele que partilha com você a sua vida;

- Discipulador não é aquele que apenas aceita o chamado do pastor, mas que compreende a comissão do Senhor;

- Discipulador não é um cargo que se assume na Igreja, mas um encargo que se assume na vida.

Tenho trabalhado com discipulado há mais de 20 anos. Neste período, no nosso país, observei, pelo menos, 4 “tipos” dele sendo implementados nas Igrejas.

1- DISCIPULADO COMO UM SISTEMA DE MANIPULAÇÃO

É um tipo de discipulado onde o discipulador exerce forte influência na vida de “seus” discípulos sendo que, em muitos casos, a relação torna-se, perigosamente, passional. O que à primeira vista poderia ser um fator positivo acaba tornando-se, num curto espaço de tempo, em algo extremamente nocivo. É que a dita “influência” vai muito além do que deveria ir, revelando-se, assim, uma invasão de privacidade. As pessoas têm de fazer a vontade do líder, sempre sob o suposto respaldo das Escrituras que, não raras vezes, são utilizadas totalmente fora de contexto.

Outra característica deste tipo de discipulado é ser um “sistema” fechado em si mesmo, com regras e rigores a respeito da vida e da conduta. O produto gerado a partir deste “caldo existencial” são vidas que existem sob o signo do medo, uma vez que, num ambiente como esse, torna-se quase impossível desenvolver de forma sadia a consciência na graça.

Conteúdos e verdades podem e devem ser repassados, primordialmente, através da vida, com respeito e amor, sempre olhando de forma reverente os “espaços” do outro, nunca perdendo a referência de que cada pessoa fará o seu próprio caminho na terra com Deus, pois será a partir dele que colherá a paz e o bem de cada dia.

2- DISCIPULADO COMO UMA ESTRATÉGIA DE MASSIFICAÇÃO

Muito do que acontece hoje, no mundo corporativo, achará guarida, em alguns anos, no mundo eclesiástico. Foi isto o que aconteceu na última década, com vários conceitos e processos empresariais sendo adicionados ao dia a dia das Igrejas.

Dentro desta perspectiva, os métodos voltados para o crescimento da membresia, mais especificamente através da estratégia de pequenos grupos, são os mais utilizados. A “visão” inicial, que chegou ao Brasil em meados dos anos 90, tinha como modelo a Igreja em Células da Colômbia que, num curto espaço de tempo, experimentou, através do discipulado, um crescimento numérico de milhares de pessoas.

Na versão tupiniquim, entretanto, o método sofreu o aditamento de programas e estratégias de planejamento e marketing com vistas a gerar melhores “resultados”. O saldo, todavia, na maioria dos casos, tem sido desastroso, e não há como ser diferente, pois algo tão frio e impessoal, que visa apenas metas quantitativas, só pode gerar um adoecimento emocional e espiritual nas pessoas. Muitos são os casos dos que se queixam de estarem sendo submetidos a forte pressão para que metas de “multiplicação de membros” sejam alcançadas, como se a Igreja agora fosse uma empresa.

Jesus não nos mandou oprimir as pessoas, mas instou-nos a servi-las e amá-las. Nossa tarefa é encher o céu, e não a Igreja. Encher Igreja, sobretudo com gente vazia, é algo fácil. Com meia dúzia de “teologias da terra” o objetivo será alcançado. Mas, povoar o céu, com gente transformada, que compreende a graça e que viva de forma pacificada com Deus e com seus semelhantes, é tarefa apenas para quem quer ver o Reino de Deus crescer, e não o seu reino pessoal.

3- DISCIPULADO COMO UM PROGRAMA DE MANUTENÇÃO

Toda rotina gera fadiga, até mesmo nas coisas boas. Tenho observado que muitas comunidades se encantam com a possibilidade de começar um “programa” de discipulado. Analisam livros, escolhem métodos, criam uma “estrutura” e comissionam pessoas para a “execução da tarefa”. Todavia, cedo–cedo, e, inevitavelmente, acabam se deparando com questões prementes tais como: o que é ser discípulo? O que se deve ensinar a eles? De que forma eles serão influenciados? Qual o objetivo deles estarem nas reuniões? A maneira de lidar com estas e outras questões, ao longo do tempo, definirá se a “coisa”, como um todo, irá ou não rumar na direção de um “programa de manutenção”.

O que é isto? É quando o discipulado, após alguns anos de funcionamento, torna-se apenas mais um “programa” da Igreja e, por isto, tem de ser mantido em funcionamento. Chega-se facilmente a esta situação quando a rotina se estabelece e o método se torna mais importante que a vida. Mesmo algo bom, como uma reunião caseira, com cânticos, orações, estudo e compartilhar, pode tornar-se algo extremamente “viciante”, sem desdobramentos maiores, sem que as pessoas sejam de fato transformadas nos valores, conteúdos e caráter. Numa perspectiva mais ampla, o “programa” ou tenderá a se acabar, ou virará algo sem conseqüências práticas para a vida. Existirá sim, porém, cada vez mais, menos pessoas se interessarão por ele.

Jesus fez justamente o contrário, ou seja, transformou o método em algo prático e aplicável à vida. Jesus não chamou os discípulos para uma reunião na sua casa, nem para participarem de um estudo bíblico na sinagoga, nem mesmo para um grupo de comunhão aos sábados, dia reservado ao “sagrado”. O convite foi para que pudessem experimentar o hoje, com todas as cores e intensidade de cada momento, na singularidade incomparável que há em cada dia. O chamado dizia respeito a se “provar” as dinâmicas da existência e, a partir delas, experimentar a verdadeira vida que deve ser sempre vivida em abundância.

4- DISCIPULADO COMO UM TEMA PARA MEDITAÇÃO

Quem já passou por um curso de pós-graduação sabe que um dos itens mais importantes para a formulação de uma tese é o arcabouço teórico, ou seja, o acréscimo ao texto principal do pensamento de diversos autores. Mas, uma boa tese, dificilmente se sustentará sem um “trabalho de campo”, ou seja, sem as observações práticas que respaldem a teoria proposta. Pois bem, a mesma coisa pode ocorrer com o discipulado quando ele se transforma num tema para meditação, quase sempre contido nos objetivos de ensino da Igreja.

Com data de início e fim já demarcados – em alguns casos estabelece-se o tempo de três anos – o grupo passa a reunir-se com o objetivo de estudar um vasto cabedal de temas bíblicos e de autores diversos. Assim, o que deveria ser um estilo de vida a ser adotado, com pressupostos mais excelentes, acaba se transformando, apenas, num conjunto de conteúdos a ser “dissecado”. Ao final do período proposto, cumpridas as “exigências”, o membro do grupo torna-se um “discípulo graduado”, ou seja, alguém que cumpriu uma espécie de jornada acadêmica, mas que, talvez, não tenha incorporado nenhuma prática à vida. Tiago nos adverte sobre o risco que há nesse proceder, quando nos diz: “tornai-vos, pois, praticantes da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos”. Tg. 1:22

Jesus não iniciou com seus discípulos um programa acadêmico fechado, mas, pelo contrário, criou uma grande escola da vida, aberta às pessoas, com sala de aula móvel, variando entre um lugar e outro, com conteúdos ensinados a partir das manifestações próprias da existência humana, sempre buscando harmonizar as pessoas ao mundo que as cercava e a Deus o Pai e Criador.

Mais afinal, então, o que é discipulado?

DISCIPULADO É A ESSÊNCIA DA MISSÃO!

Não há como entender algo sobre discipulado cristão se não olharmos para Jesus. Ele é a chave hermenêutica para todas as coisas e, a partir dEle, tudo pode ser discernido, até o próprio coração do Pai. É certo que as Escrituras Sagradas nos revelam alguns modelos de discipulado – Moisés e Josué, Elias e Eliseu, Paulo e Timóteo – mas a referência maior está no discipulado de Cristo.

Discipulado não é apenas um programa, apesar de ter etapas, nem um método, apesar de ter estratégias, nem mesmo um sistema, apesar de ter processos, mas é, antes de tudo, um estilo de viver para ser incorporado à vida. O ponto focal está no relacionamento. Jesus não chamou pessoas para manipular, nem criou estratégias para alcançar as massas e multiplicar “o bolo”. Ele não estabeleceu uma rotina reciclável de entretenimento e nem fundou uma classe de estudos sistematizados. Tudo que aconteceu, aconteceu a partir da vida, nas relações travadas no dia a dia e nas oportunidades que foram surgindo a partir dos encontros humanos. Foi algo simples, mas extremamente poderoso.

Os vínculos e laços gerados, durante aqueles três anos de convivência com Cristo, foram tão profundos e marcantes que a vida daqueles que com Ele estavam nunca mais foi a mesma. Jesus ressuscitou, subiu aos céus, mas antes de sentar-se, definitivamente, à direita do Pai, esteve com Seus discípulos uma última vez, às margens do mar da Galiléia. Na derradeira palavra do Senhor aos seus amigos, disse: “ide e fazei discípulos”. E, de fato, eles foram...

Quando penso em tudo isto e olho para a grande comissão meu coração se enche de esperança e alegria. Sim, porque mesmo sem cursos, apostilas ou livros, mesmo sem recursos de fita K7, CD ou DVD, sem elaboração de estratégias, programas ou campanhas, os discípulos saíram pelo mundo anunciando as boas novas da salvação. De nada se fizeram acompanhar que não fosse vida. Sim, tudo se resumiu apenas a vida vivida com o Galileu, naqueles dias empoeirados na Palestina, onde a luz resplandeceu nas trevas de seus corações.

CONCLUSÃO

Discipulado é uma oficina de vidas! É uma tarefa árdua e que exige persistência. Muitas pessoas estão à nossa volta, todos os dias, precisando ser discipuladas. Algumas estão em nossa casa, outras no trabalho, ou na faculdade, e outras estão dentro da Igreja. Muitas delas acham que não precisam se submeter a isso, e outras, até que precisam, mas poucas serão as que tomarão uma de-cisão de ir além. Existe uma grande diferença entre precisar e querer e, isto, você verá por si mesmo...

O discipulador é um escultor do caráter de Cristo no caráter das pessoas. Ele é alguém que entendeu que precisa ser uma referência na vida de outros a partir da vida que pulsa na sua própria vida. E isto leva tempo... E dá trabalho... Por isso, não espere moleza se quiser ser e fazer discípulos.

Jesus discipulou, de forma mais próxima, 12 pessoas. A Bíblia também fala dos 70, dos 120 e Paulo menciona os 500. Não sei quantos dá para formar numa vida, mas tenho a impressão de que, talvez, não sejam muitos. Se, todavia, nos empenharmos nesta tarefa, poderemos ver, ainda nessa geração, uma Igreja formada, em sua maioria, por discípulos do Senhor. Isso, posso lhe garantir, fará muita diferença...

Sola Gratia!

Carlos Moreira

25 agosto 2009

Quando o Sacramento se Transforma em Sofrimento


Introdução

“Eu os declaro marido e mulher até que o casamento os separe”. Sendo muito sincero, essa deveria ser a frase usada na conclusão de algumas cerimônias religiosas de matrimônio. Olhando para os noivos, ainda no altar, analisando a forma como eles construíram aquela “história de amor”, nem é preciso ser profeta para vaticinar o provável desfecho. Sim, em pouco tempo, a não ser que haja uma mudança absoluta de direcionamento, aquilo lá vai para o beleléu! É que, não raras vezes, o “casamento” se transforma em veneno e, em curto prazo, mata o relacionamento.

Nós vivemos na sociedade dos descartáveis. Quase tudo à nossa volta, em termos de bens de consumo, é feito para durar pouco, ser substituído facilmente, ou ser reciclado. Talvez, por conta disso, começamos a amar coisas e usar pessoas. É muito comum, em conversas pastorais, diante de gente que teve o coração despedaçado pela perda do “grande amor da vida”, ouvir expressões do tipo: “ eu fui usada”; “sou apenas um joguete”; “não tenho qualquer valor”. A verdade é que, cada vez mais, amontoam-se os casos dos que são tratados como coisas e descartados como lixo.

Outra questão que também está muito presente em nossos dias é a impermanência. Trata-se da ausência de qualquer existência duradoura, estável e inerente. Impermanência é uma crença budista, que está presente nos “Três Selos do Dharma”, e postula que “as pessoas mudam, os fenômenos mudam. Nossos pensamentos, sonhos, sentimentos, idéias, vida, estão sempre em transformação. Nada permanece inalterado”. Olhando para o conceito sem pré-conceitos, não vejo nada extraordinário. Parece-me, apenas, a simples constatação dos “movimentos” próprios da existência humana. O problema é que, nós “evangélicos”, temos por premissa jogar no “lixo” tudo aquilo que é dito fora de nosso “mundinho eclesiástico”, como se a sabedoria fosse apenas um privilégio dos “santos”, e não um dom de Deus às Suas criaturas.

Descendo a Ladeira

Pois bem, o que tenho visto nos relacionamentos conjugais pós-modernos é justamente um misto de algo descartável e impermanente. Casamento não é mais um projeto existencial de longa duração, mas um contrato de prestação de serviço de curto prazo. As pessoas querem apenas ser felizes e, em nome dessa “tirania da felicidade”, ou seja, desse desejo de ser feliz a qualquer custo, como se felicidade fosse um estado perene, e não uma estação sazonal, estão dispostas a fazer qualquer coisa, inclusive, trocar de parceiros tantas vezes quantas sejam necessárias, até que o “príncipe” ou a “princesa” encantados seja encontrado.

Ora, eu não sou legalista, ou contra separações, mesmo sendo pastor de igreja. Crucifique-me quem quiser! E não me venha com sua “exegese de gaveta”, viciada, baseada no uso do texto que exalta a letra das Escrituras, mas exclui o Espírito do Evangelho. Sei, todavia, que meu trabalho, como sacerdote, é ajudar pessoas a construir vínculos afetivos fortes e duradouros. Contudo, não há como negar que, às vezes, vida de marido e mulher torna-se uma fábrica de neuroses e amarguras. Nesses casos, quando verifico que o ficar junto se constitui algo totalmente insalubre ao ser, pois está diluindo a substância interior das pessoas, além do desastre que é para os filhos ter de conviver com essa “ferida purulenta”, não raro apenas para manter as aparências, sejam religiosas, sejam sociais, aceito o fato de que, o que Deus não uniu, o homem pode separar.

De fato, o que tenho visto em certos tipos de vínculos conjugais é que eles, de tão adoecidos que estão, acabam se constituindo em algo profundamente nocivo a psique do casal. Dentro deste contexto, surgiu em nossa sociedade um tipo de patologia relacional que vem crescendo assustadoramente nos últimos 10 anos. Trata-se da famosa “solidão a dois”. A “síndrome” baseia-se na premissa de que os casais modernos estão mais preocupados em competir do que em construir, vivem juntos, mas existem desconectados. Moram na mesma casa, dormem no mesmo quarto, mas não conseguem experimentar um mínimo de conjugalidade. Possuem dois carros, duas camas, dois computadores e duas contas correntes. Têm amigos separados, lazer separados, filhos separados, bens separados, ou seja, tantas coisas fora do comum, e tão poucas em comum que, por fim, acabam olhando-se nos olhos e se perguntando: “ por que foi mesmo que nós nos casamos?”.

O “buraco”, todavia, parece estar bem mais embaixo. Na prática, o que tenho visto é uma total falta de apetência dos casais em querer, de verdade, considerando, inclusive, os “custos” envolvidos – renúncia, paciência, humildade – que a relação ganhe significado e propósito, mesmo que em meio a crises. Desavenças e desajustes, neste mundo louco que vivemos, é algo comum e até natural! Desencontros são maravilhosas oportunidades de crescimento, de amadurecimento, de abrirmo-nos à percepção do outro, de suas dores, medos e idiossincrasias. Crises são, via de regra, a melhor chance de um casal ajustar-se para viver uma existência sadia e equilibrada, onde busca-se mais a alegria e o bem-estar do outro, do que o seu próprio. Mas, o problema é que nós queremos apenas ser felizes e, como diz o “poetinha”, “tristeza não tem fim, felicidade sim”...

Sinais de Fumaça

O trágico equívoco desta história está no fato de imaginarmos que os problemas conjugais só começam após o casamento, ou seja, que são frutos da falta de tato e habilidade dos cônjuges em conduzir o relacionamento entre quatro paredes. Que nada! Isso é lenda! Folclore puro! A bronca começa bem lá atrás, no alicerce e nos pilares, nos valores e conteúdos, na forma como a relação está sendo construída.

Pastores e Padres sabem o que eu estou dizendo... Sim, nós sacerdotes da igreja, incumbidos de realizar o sacramento do matrimônio, nos encontramos, por vezes, entre a “cruz” e a “espada”! Neste caso, entretanto, o dito popular ganha nova significação. Cruz passa a ser a representação do fardo existencial que os nubentes vão arrastar pela estrada da vida a dois, mas que, tristemente, ainda não sabem. Espada, por sua vez, é a sentença de morte, que já está posta, em algum lugar do futuro-próximo, pois, não tenha dúvidas, mais dias menos dias, um dos dois cônjuges será “decapitado” ou, quem sabe até, ambos!

Tentando encontrar alternativas para minimizar estes problemas, adotamos, em nossa denominação, o costume de, antes do casamento, termos alguns encontros com o casal para avaliar as motivações e o estado de ânimo em que eles se encontram. Normalmente esta iniciativa ajuda os noivos com questões pendentes, detalhes da cerimônia e, às vezes, até na solução de problemas. Pois bem, é justamente aí que, não raras vezes, já começo a perceber o cheiro de “angu queimado”... É que não é difícil discernir um relacionamento adoecido, mesmo tratando-se do primeiro encontro. Muitas vezes, uma simples conversa é capaz de revelar marcas e medos que só se fazem presentes em relações que foram vitimadas por enormes desgastes.

Diante de tais circunstâncias, a impressão que tenho é que a separação já aconteceu, não obstante o casamento ainda não ter sido realizado, ou seja, o casal já está separado, antes mesmo de se separar, só que ainda não está percebendo. Talvez, justamente por isso, é que exista uma certa expectativa mística em torno da cerimônia de matrimônio, como se o ato religioso pudesse produzir um efeito milagroso capaz de mudar realidades interiores.

Luzes, Câmera, Ação e Decepção!

Eu casei em 1991, numa cerimônia simples, à beira de uma piscina, no entardecer do mês de dezembro. De lá para cá, vi o sacramento se transformar num verdadeiro business. Hoje, casar como “manda o figurino”, é coisa dispendiosa e extremamente complexa. Para realizar a festa, prepare-se para gastar dinheiro, algumas dezenas de milhares de reais, e arregace as mangas, pois os preparativos começam com, pelo menos, um ano de antecedência.

Planejamento é a chave do “sucesso”! A coisa é tão organizada que possui até planilha de custos. Nela estão incluídos itens como: local, decoração, maquiagem, filmagem, sonorização, orquestra, bufet, iluminação, convites, dentre outros. Uma festa de casamento, realmente organizada, pode chegar a contar com uma equipe de até 40 pessoas trabalhando, pois, lembre-se: tudo precisa ser perfeito para que o evento seja inesquecível!

Olhando para este cenário, acho intrigante o fato de alguns casais desejarem se casar no religioso. A questão é simples: se eles não possuem um relacionamento com Deus, não estão dispostos a conhecer Sua vontade, não discernem os princípios das Escrituras, nem muito menos os valores intrínsecos à fé, por que, então, querem realizar tal ato? Se são apenas praticantes da religião institucional, hereditária e nominal, por que desejam o sacramento?

Ora, eu penso que quando esses pressupostos não se estabelecem como verdade nos “ambientes interiores”, de tal forma que o que se exteriorize seja apenas a significação do que já acontece no íntimo do ser, o que está sendo feito é apenas uma encenação social. É um enorme equívoco acharmos que algo possa ser sagrado sem proceder do coração, pois sagrado é tudo aquilo que reverencia a Deus no íntimo, e vaza pela vida em expressões de fé e gratidão. Tudo o mais é liturgia oca e sem propósito, é apenas o badalar do címbalo que retine, mas que não produz música para acalentar a alma, nem a alegria desejosa e amante que apaixona os apaixonados.

Remendo Novo em Vestido Velho?

Outra questão que avilta ainda mais o paradoxo está no fato de que, nas Escrituras, casamento sempre foi algo totalmente diferente do que aí está posto. Matrimônio, do ponto de vista bíblico, é algo simples, familiar, despretensioso, sem implicações regulamentares que possam ir além do pacto de amor e fidelidade entre os que se amam. A verdade é que a evolução sociológica da instituição do casamento acabou dessignificando por completo o ato diante de Deus e, porque não dizer, até mesmo diante dos homens.

Fato mesmo é que essa cerimônia de ritos e pompas é apenas a projeção dos plebeus acerca do casamento dos nobres. Festa com trombetas, véu, grinalda, entrada triunfal – já vi uma até com tiro de canhão – padrinhos e madrinhas, págens, corais, e a “corte” assistindo, como diz o Caio, é a simbolização dos casamentos de príncipes e princesas da Idade Média. Ora, convenhamos, você não acha que fica meio ridículo nós, descendentes de índios tupiniquins, querermos aparentar a sofisticação da burguesia européia?

O que tenho visto, na prática, é que os noivos pensam em tudo, até numa assessoria para ajudar na preparação do feito apoteótico, gastam “aos tubos”, chamam os amigos, parentes, aderentes, mas não possuem qualquer entendimento daquilo que Deus deseja que se realize. Eu não sou contra a festa, mas sou contra toda festa que aconteça apenas para fora, e não parta das dinâmicas que acontecem do lado de dentro, onde apenas Deus pode, de fato, fazer soar a música e brotar a alegria. Já vi casamento em que os noivos, ao apresentarem a lista das canções, sequer incluíram uma que fosse para adorar a Deus! Ora, se Deus é apenas adereço, por que então não assumir isso e fazer uma cerimônia apenas social? Não seria mais honesto?

Por isso, não raras vezes, sinto-me como se fosse uma espécie de “vela de altar”, ou seja, apenas um enfeite a mais na belíssima e requintada festa. E logo eu, branco do jeito que sou e vestido com vestes clericais, para vela, só fica faltando o fogo! Ora, se eu, que sou pó e poeira, me sinto meio sem sentido naquele altar, imagina, então, como não se sente aquEle que significa não só o altar, mas também a cerimônia, o sacramento, o casamento e a vida? Triste, não? E eu ainda tenho que ficar esperando, rindo e achando bom, às vezes mais de hora, a beldade da noiva chegar... Vá ser pastor! E o salário, ó!!

Depois de tudo isso, do esvaziamento dos significados da festa, do empobrecimento dos valores da cerimônia, da banalização dos preceitos do sagrado, o casal ainda deseja que Deus saia da igreja juntinho com eles, se possível, de mãos dadas com os pombinhos. Imaginam, equivocadamente, que a benção do Senhor se estabelecerá, de forma mágica, sobre as suas vidas pelo resto de seus dias, e isso sem qualquer perspectiva de mudanças posteriores. Ah, meu bom, me poupe! Não dá dois anos! Sim, esse é o tempo médio de muitos casamentos em nossos dias. É só a crise chegar, seja de que natureza for, para aquele “endless love” sair voando pela janela.

Cenas dos Próximos Capítulos

O que vem a seguir, todavia, seria hilário, não fosse trágico. O casal, mergulhado numa crise sem fim, perdido de Deus e de si mesmos, depois das luzes, cores e brilhos da festa terem se apagado, e a dura realidade da rotina e das contas a pagar ter chegado, tem ainda que aturar o coro desafinado da “moçada” da religião que, diante do infortúnio, tem a petulância de protestar em alto e bom tom: “O que Deus uniu não o separe o homem”. Mc. 10:9.

Cabe, aqui, perguntar: que tipo de entendimento temos sobre esta passagem? Será que ela trata do fato de ter Deus decidido, de forma unilateral e determinista, quem deva ser o nosso par na existência? Que a escolha foi dEle, e não nossa? Que Ele é uma espécie de deus grego que, com arco e flexa na mão, feito um cupido irresponsável, sai flexando as pessoas para obrigá-las a viver juntas para sempre? Me perdoe, mas eu não creio nisso. Não creio que Deus faça tal escolha nem por mim nem por você, como também não creio, por exemplo, que Ele escolha nossa profissão.

A coisa fica ainda pior quando se acrescenta a esse fatalismo-místico, exposto acima, uma analogia bíblica explicitamente legalista, baseada numa exegese tendenciosa e preconceituosa. Desta perspectiva, Jesus estabelece que a separação conjugal produz um estado de total impossibilidade de reconstrução da vida a dois, a não ser que tenha ocorrido um caso de adultério. Em tais circunstâncias, ficaria, então, “legalizado”, o direito a novas núpcias. Bizarro! Não parece ter nada a ver com a forma como o Galileu lidava com os dramas da vida. Sempre achei essa linha de interpretação muito perigosa, pois ela coloca na mente e na boca de Jesus conceitos e palavras que Ele pode, jamais, ter Se prestado a defender.

No mesmo contexto, também acho absurdo os que reconhecem a responsabilidade pela escolha conjugal que fizeram, mas, em paralelo afirmam que, a partir do momento que foram ao “altar-mágico” da igreja, Deus tomou parte no processo e, por conta disso, passa a obrigá-los ao convívio marital pelo resto da vida, mesmo quando fica claro que a decisão tomada foi totalmente equivocada. A conseqüência óbvia de tal pré-disposição é que o casal, por medo das supostas reprimendas do Altíssimo, permanece casado no papel, mas completamente separado no coração.

Para mim, todavia, ainda há algo mais impensável: os que em meio a uma relação claramente desprovida de sentido existencial, acabam torcendo, às vezes inconscientemente, para que o cônjuge, ou morra – que Deus o tenha! – ou adultere. A explicação para algo tão adoecido é simples: em ambos os casos, tanto a “letra morta” das Escrituras, quanto os “homens do sagrado” poderiam fornecer à devida “legalidade” institucional para chancelar a autorização que o pobre infeliz necessita para contrair a tão sonhada nova núpcia. É muita doideira!

Eu não creio, em se tratando de casamento, que Deus faça escolhas por nós nem, muito menos, que nos obrigue a viver com as decisões equivocadas que tomamos pelo resto da vida. Creio, sim, que Ele abençoa toda escolha que é feita levando-se em consideração os Seus princípios. É isso que entendo quando leio o texto “ o que Deus uniu não o separe o homem”, que tudo aquilo que foi feito em fé e calcado em valores e verdades, é algo realizado da perspectiva de Deus, e, por conta disso, o homem não deve desfazer. Sobre os que agem de tal forma, penso, repousa, ainda que em meio a lutas e dores, a paz que apazigua toda desconstrução interior. É isso que dá consistência a liga da qual é feito o “cordão de três dobras”, que não se rompe com facilidade, pois é o próprio Deus quem o mantém como uma corda de amor capaz de sustentar o relacionamento dos que nEle se amam.

Conclusão

Sinceramente, não creio ser possível construir um caminho existencial a dois, de forma sólida e séria, sem levar em consideração cada uma das questões aqui expostas. Se desejamos apenas cumprir os “códigos” da religião, sem atentar para a necessidade de haver pressupostos no coração, devemos ter claro o fato de que, em se tratando de casamento, poderemos até realizar uma bela festa, repleta de ritos sagrados, mas que, em sua essência, estará esvaziada da presença do Sagrado, que é o que dá sentido e significado ao rito.

E mais, o que tenho visto é que, quando o relacionamento não foi construído da maneira correta, antes das núpcias, acaba potencializando as chances de replicar as mesmas questões para a vida de casado, que passará, então, a acumular os desgastes do namoro e do noivado com os novos problemas da vida conjugal. Relacionamentos afetivos precisam de profilaxia, ou seja: cuidados diários, investimentos constantes e tratamento, quando necessário. Se isso não for observado, pode aguardar, pois, provavelmente, a tragédia está a caminho...

Por outro lado e, como mamãe dizia, às vezes “é melhor está só do que mal acompanhado”. Sim, tenho visto muitas experiências de solidão que, quando processadas pelo solitário de forma reverente consigo mesmo, acabam gerando desdobramentos existenciais extraordinários. Pessoas sozinhas tendem a crescer mais para dentro do que para fora. Este tipo de experimentação equilibra o corpo, aquieta o espírito, e produz paz e bem para a alma. Corrobora comigo o pensamento de Fernando Pessoa quando afirma: “a liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo”.

Sendo bem pragmático, creio haver mais chances para o solteirão solitário, que experimentou estes matizes interiores, construir um relacionamento duradouro, do que para o conquistador compulsivo, de sentimentos “reciclados”, ávido por relações de alto risco, estabelecer um convívio sustentável. Portanto, prefiro quem experimenta a liberdade de estar só, do que quem se “amarra” a uma companhia indesejável, mesmo que pela via do “sagrado” matrimônio.

Se você me convidar para realizar o seu casamento, certamente, fá-lo-ei com muito prazer. Ficarei ainda mais feliz se perceber que você discerniu o que está no “coração de Deus” e, por conta disso, tem buscado honrá-lo, não apenas no dia da festa, mas em todos os dias de sua vida.

Quanto à cerimônia, quero apenas lhe pedir um favor: se você for atrasar muito, não esqueça de me ligar antes, pois, nesse caso, não precisarei ficar em pé no altar, todo paramentado, suando feito “tirador de espírito”, rindo sem motivos para centenas de convidados que, impacientemente, estão esperando. Lembre-se: nem sempre as pessoas estão num dia bom e, se esse for o meu caso, para seu azar, posso também prolongar a liturgia do ato pelo mesmo tempo que você me fez esperar, horas a fio, pois, creia-me, é mais fácil tirar uma chupeta da boca de uma criança chorando, do que um microfone da mão de um pastor com desejo de pregar.

Sola Gratia !

Carlos Moreira

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