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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.
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15 dezembro 2018

João de Deus e a Cidade “Santa”



Pobre Abadiânia. Sim, tu, pequena Abadiânia, estais fadada a experimentar dias de desolação, pois o cenário econômico-religioso que te fazia prosperar, atraindo turistas e visitantes em busca de cura e libertação, está com os dias contados. 

É curioso como o fenômeno da religião tem esse poder de imantar pessoas e lugares, de sacralizar indivíduos de carne e osso e construções de tijolo e cimento. Sempre que algo desta natureza ocorre, logo se percebe a necessidade de se erigir um templo, um centro, uma casa de milagres, um espaço onde o sobrenatural aconteça de tal forma a atrair as pessoas, é o "Tanque de Betesda" em forma arquetípica. 

Por isso Jesus jamais se fixou em lugar algum, fosse assim ele abriria a Casa de Yeshua, e logo os discípulos estariam “trabalhando” no negócio do sagrado, vendendo quinquilharias, dando passes e derramando água benzida sobre enfermos e possessos. 

O tempo passa, o mundo gira, mas o fenômeno ainda é o mesmo... Abadiânia, Aparecida, Juazeiro, e outros lugares milagreiros são, na sua medida, a Jerusalém dos dias de Jesus, a cidade “santa”, onde existe o lugar sagrado, o homem do sagrado, as curas milagrosas, as unções de poder, as intercessões libertárias, os transes histéricos, as intermediações negociadas, os ascetismos estéticos, as purgações meritórias. 

Por isso o Galileu entrou naquele espaço e denunciou que ali se fazia comércio da Fé, pois se vendia todo tipo de objeto imantado, se operava o câmbio do dinheiro, se comprava animais para o sacrifício, animais estes criados nas fazendas dos comerciantes ricos da cidade, se consumia as ofertas de manjares, todas feitas a partir da plantação das fazendas agrícolas, era um negócio rentável - produzir, transportar, vender, aplicar - e todo mundo levada algum, até mesmo o sinédrio tinha o seu quinhão. 

Em Abadiânia não é diferente. Tem a água benta, a garrafa da água, o rótulo da garrafa, a indústria que produz, o caminhão que carrega, a barraquinha que vende, é uma cadeia de negócio, tudo entrelaçado, e é isso que faz a “roda girar”. E tem medicamentos, tem souvenirs, tem pousadas, restaurantes, lugar para comprar lembrancinhas, camisas, livros, tem de tudo, e todo muito ganha com o tráfego de gente e o comércio do sagrado. 

Por isso os Espíritas tem restrições ao João de Deus, pois no Kardecismo não se cobra nada para ser fazer o bem, coisa bem diferente dos neopentecostais evangélicos, que além dos dízimos cobram pedágios em suas campanhas para realizar curas e produzir libertação. 

João será preso, não tenho dúvidas, e Abadiânia vai precisar de outro “santo” para sobreviver, um “Roque Santeiro” fazedor de milagres, pois, doutra forma, como irá se sustentar? Fica a dica para o Macedo, o Estavan Hernandes, o Agenor Duque e o Valdemiro, gente especializada em fazer negócio com o povo em nome de Deus. Se um destes topar, fique certo, Abadiânia crescerá o dobro do que é hoje, quiçá, se tornará a capital de Goiás.


Carlos Moreira




18 junho 2017

OS DOIS LADOS DA MESMA MOEDA



Hoje, 18 de junho, foi o dia da “Marcha do Orgulho LGBT” em São Paulo. Exatamente há uma semana atrás, Evangélicos ocuparam as ruas da cidade, só que na zona norte, na “Marcha para Jesus”, igual em magnitude, mas oposta em propósito e proposta. Será?

LGBT e Evangélicos representam, nos dias atuais, expressivas fatias da sociedade brasileira, cada qual com suas idiossincrasias, mas ambos lutando contra preconceitos atrozes e discriminações ferrenhas. Os Evangélicos, historicamente, são perseguidos pela mídia; os LGBT, por sua vez, pela religião institucional. Cada um, ao seu jeito, tenta abrir espaço na multidão para ter vez e voz, obter respeito e ser reconhecido.

As semelhanças, contudo, não param por aí... A Marcha LGBT é marcada pelo excesso, não só na extravagância das fantasias, mas em atitudes extremadas, gestos histriônicos e, não raro, ofensas theofóbicas, ou seja, desrespeito a símbolos e crenças da religião cristã. Os Evangélicos, por sua vez, homofóbicos em sua maioria esmagadora, representados mais expressivamente na marcha por pentecostais e neopentecostais, extravasam uma “alegria” esfuziante, regada a cânticos, danças, pulos e malabarismos, atitudes que só cabem na rua, pois seriam, sem dúvidas, rechaçadas no espaço do “templo” e reprimidas pela ortodoxia doutrinal.

Outra coisa que, incrivelmente, aproxima os grupos tão antagônicos é o fundamentalismo ideológico. Sim, homossexualismo e cristianismo são, por assim dizer, duas religiões, com suas regras e costumes, seus objetivos político-sociais e suas propostas de hegemonia colonizadora. Um apregoa a doutrina da libertação da “moral” careta, o outro defende a plástica comportamental baseada nos valores da tradição judaico-cristã. No fundo, os “apóstolos” das duas crenças não passam de "gayzistas" e "crentinos", ambos defendem suas convicções a ferro e fogo, desejam ser maioria de forma irremediável, donos do status quo, estão dispostos a ultrapassar até mesmo os limites da razão e do bom senso para defender posturas, muitas vezes, irreconciliáveis com a bondade e a justiça.

E seguem as coincidências... LGBT e Evangélicos também desfilam em praça pública com o objetivo claro de demonstrar para a sociedade a força que possuem. Sim, no primeiro caso, o manifesto é uma ovação a frase histórica do Zagalo, algo como: “nós estamos aqui, reconheçam, pois vocês vão ter que nos engolir!”. Marginalizados, excluídos e discriminados, gays, lésbicas, bisexuais e transexuais vão as ruas, antes de tudo, para protestar, exigir o respeito que merecem e buscar a dignidade que vem pela aceitação da massa. Evangélicos, por sua vez, estão numa “batalha espiritual” contra o “mundo”, querem mostrar um Jesus romano, belicista, conquistador, dominador, que é cabeça, não cauda! Esse deus, contudo, parece mais com Thor, uma divindade nórdica, do que com o Deus hebreu que se revela na figura do Carpinteiro de Nazaré, o Deus que deixou o trono da majestade celeste e veio servir aos homens, lavando-lhes os pés e os pecados.

Quer mais? LGBT e Evangélicos patrocinaram, cada um a seu modo, um evento que movimentou milhões de reais. A Causa da liberdade sexual despertou não só a atenção do mercado corporativo, promoveu seu total envolvimento com o business. Marcas como Boticário, AMBEV e Uber se tornaram patrocinadoras do evento, todos de olho no “Pink Money”. Mas o negócio não para por aí, ainda tem artistas renomados, políticos inflamados, heróis de ocasião e muita, muita grana sendo gerada no movimento que atiça o comércio local. Já os Evangélicos, por outro lado, não ficam atrás. Eles também tem seus políticos, seus artistas gospel, seus trios elétricos e muito merchan no share do mercado religioso. Subir nesses palcos preparados pela Marcha para Jesus, seja para discursar ou cantar, custa caro, vale tempo de rádio, de TV, percentual de grana do patrocínio público e não falta quem queria pagar para fazer sua propaganda pessoal. Aliás, o dono da Marcha para Jesus, Estevan Hernandes, foi durante anos profissional de marketing de empresas como Xeroz e Itautec, sabe fazer a “roda girar”, Jesus, para ele, é apenas mais uma commodity na prateleira. Isso sem falar nas propagandas de outros produtos, como a BemPrev, a previdência privada para evangélicos que foi anunciada durante a micareta dos crentes.

Até naquilo que é trágico os grupos se assemelham. A violência sofrida injustamente pelo movimento LGBT, que coloca o Brasil hoje como destaque mundial de assassinatos contra adeptos das práticas, pode também ser comparada a violência histórica sofrida pelos Evangélicos no final do século XIX e primeira metade do século XX, onde igrejas foram incendiadas, missionários assassinados e participantes de cultos apedrejados. A coisa era tão absurda que o aparato militar e policial, usado na defesa da lei e do cidadão, foi usado como instrumento de coerção e intimidação, o que pode ser comprovado com uma pequena pesquisa histórica.

Bem, quem sabe como esses jogos são jogados, não tem ilusões sobre os objetivos destas marchas... Tenho respeito pela homossexualidade humana e por outras expressões de sexualidade não convencional, mas desprezo pelo movimento ideológico. Possuo gays como amigos pessoais e, em minha comunidade, eles são tratados sem discriminação ou preconceito, podem exercer funções e viver sua fé sem ser molestados, mas jamais me convidem para me aliar a esses que fazem da ideologia sexual sua bandeira existencial.

Quanto aos Evangélicos, tenho amor pela esmagadora maioria das pessoas que ali estão. Sei que, em grande parte, trata-se de gente alienada, que ainda não percebeu que não passa de massa de manobra nas mãos de lobos vorazes. Sim, há muita gente boa e ingênua na “Marcha para Jesus”, achando que O Galileu está vibrando com o mega-evento da fé. Tolice. O Reino de Deus não se estabelece com fanfarras e demonstrações de poder terreno, mas em manifestações de paz, amor e justiça, sobretudo, no serviço aos pobres e desamparados. A Marcha da igreja não é nas ruas da cidade, com ufanismo e catarse emocional, mas nas favelas e cracolândias do Brasil, nos presídios e nos hospitais, visitando órfãos e viúvas, cuidando de indefesos e invisíveis sociais, tudo no anonimato, pois o sal salga e dá sabor ao alimento sem ser, sequer, percebido...

Portanto, concluo reconhecendo que o grupo LGTB realizou, de fato, um estrondoso evento hoje! Gays, lésbicas, transexuais e bisexuais conscientes, contudo, sóbrios e cônscios de seu papel social e da responsabilidade que carregam em se assumir como são, sabem que o que estou falando é coerente com a Verdade. Aos Evangélicos, por outro lado, credito todo o "sucesso" do mega-evento realizado, ainda que isso não tenha nada a ver com o Evangelho é, sem dúvida, uma demonstração de força diante de uma sociedade hipócrita e de um país que se intitula cristão e é o campeão da corrupção e da desigualdade social.

Para ambos os grupos, todavia, deixo um chamado a reflexão. Vocês são tão diferentes e tão parecidos, tão antagônicos e tão próximos, tão distintos e tão iguais. Na verdade, quando olho para vocês não consigo ver esta distância abissal que muitos apregoam, vocês são, sim, os dois lados da mesma moeda...


Carlos Moreira



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