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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.
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24 junho 2011

É Parada...


Nestes últimos dias estamos vivendo a “febre das paradas”. É parada pela legalização da maconha, parada dos Bombeiros do Rio, parada pela liberdade de expressão, parada gay, parada dos “evangélicos” – marcha para Jesus? – e ainda tem a parada de 7 de Setembro pela independência do Brasil. Haja parada! 

Algumas destas manifestações eu até entendo... A legalização da maconha, por exemplo, não é só um problema de saúde pública ou de polícia, o “buraco” é muito mais embaixo... As ramificações do tráfico são tantas, e tão complexas, que discutir se libera ou não, para mim, é como coar o mosquito e engolir o camelo.

A questão dos Bombeiros é legítima; são profissionais que se arriscam, estão sempre de prontidão, prestam um valoroso serviço a sociedade e ganham salários pífios. Acho que o governador do Rio excedeu-se, extrapolou seu poder e autoridade.   

Quanto à questão da liberdade de expressão, num país que viveu durante décadas debaixo de uma ditadura militar, nunca é demais fazer uma passeata para avivar em certas mentes velhos preceitos. A democracia é o estado de direito que permite ao povo manifestar-se, ser ouvido.

Já a parada gay, há muito tempo deixou de ser uma manifestação deste grupo da sociedade exigindo respeito e dignidade, para tornar-se um desfile anárquico, com exageros dos mais diversos, hostilidades, baixarias, pois os gays, tentando combater a homofobia, tornaram-se heterofóbicos, criaram a ditadura da homossexualidade.

O desfile de 7 de setembro celebra a independência do Brasil. Tem sua importância do ponto de vista do fato histórico, mas não reflete a realidade sócio-econômica do país pois, num mundo globalizado, todo mundo depende de todo mundo e nós, do 3º mundo, dependemos ainda mais.

Agora, a tal da marcha para Jesus, do meu ponto de vista, é de amargar! Apesar de nunca ter ido a uma, pois sempre achei o evento bizarro, acompanho a cada ano as notícias sobre a dita cuja nos meios de comunicação. Assim como a parada gay, que perdeu seu propósito, esta marcha, se um dia já teve algum, há muito ele desvaneceu-se.  

Hoje, esse corso de “carnaval evangélico”, com trio-elétrico e tudo, essa passeata de políticos "crentes" – espertalhões, falsários e corruptos – essa grande massa amorfa de gente caminhando pelas ruas, só me faz lembrar da música de Zé Ramalho que afirma em um de seus versos: “...e ver que toda essa engrenagem, já sente a ferrugem lhe comer... Êeeeeh! Oh! Oh! Vida de gado. Povo marcado, êh! Povo feliz!...”. Que o povo é marcado, eu tenho certeza, mas será que o povo é feliz? 

Meu amigo, minha amiga, se você ainda tem algum juízo em sua cabeça, se você ainda tem algum sopro de Deus em sua consciência, se você é capaz de, ao menos, ouvir o sussurrar do Espírito Santo, não se junte a este trágico desfile! Eu lhe aconselho, no nome do Senhor, fique em sua casa, junte sua família, alguns irmãos, e ore por esta “igreja” que, nem de longe, é um Corpo, mas apenas uma massa desconjuntada de membros esquartejados!

Essa marcha nem é nem nunca foi para Jesus e isso qualquer tolo pode ver... Quem foi que disse que Jesus quer um bando de gente “marchando” por ele nas ruas? Quem foi que disse que Jesus está atrás de ser notícia no Jornal Nacional ou na Veja? Quem foi que disse que o Senhor de toda a Terra está em busca deste tipo de publicidade? Será que você é tão ingenuo que não percebe que tem um grande business por trás de tudo isto!?...

Alguma vez você viu nas Escrituras Jesus incitando algo deste tipo? Você já o imaginou dizendo aos discípulos: “vamos juntar uma moçada lá em Cafarnaum e fazer um grande desfile para que se saiba, até em Roma, que eu sou o Rei dos Reis!”. Você imagina Paulo entrando em Atenas, em cima de um carro de boi, vociferando as verdades do Reino, seguido de um bando de “crente” com cornetas e apitos, com seus rostos pintados e carregando faixas com os seguintes dizeres: “aceitem Jesus!”?

Acorda rapaziada! Não é com passeata de 2,0 milhões de “evangélicos” que, não raro, nem sabem pelo que estão marchando, pessoas que nunca leram nem os 4 Evangelhos, gente que nunca foi discipulada, um “exército” de “soldados” com carisma, mas sem nenhum caráter, que a nossa sociedade vai perceber que o caminho é Cristo! Ah, isso nunca!

O Reino de Deus é subversão silenciosa, discreta, pacata, vida sendo gerada na vida de outras pessoas através dos encontros humanos, de casa em casa, nas esquinas da existência, tudo de forma simples. Precisamos é de gente que acolha o necessitado, que visite o preso, que solidariza-se com o faminto, que ore pelo enfermo, que ande pelos “antros” da terra anunciando com ações a Boa Nova de que “Deus estava em Cristo reconciliando consigo mesmo o mundo, não imputando aos homens os seus pecados”.

E digo-lhe mais... Para fazer isto, não precisamos de passeata, publicidade, carro de som, trio-elétrico, multidão, mas apenas de um punhado de gente que teve o coração pacificado pela graça que acolhe os caídos do mundo. O mais, meu mano, é fanfarra de “crente”, micareta “evangélica”, corso de “figueiras cheias de folhas”, mas sem qualquer fruto de justiça ou misericórdia.

Não gostou? Então coloque a sua “fantasia” e vá para a rua! Não tem fantasia? Então vá disfarçado de você mesmo... Um a mais, um a menos, que diferença fará? Se existem exceções? É óbvio! São os que estão, a cada ano, deixando de participar desta prosopopéia! Sabe o que significa o termo?  Trata-se de uma figura de linguagem que dá vida e sentimentos aos seres inanimados... Não cai como uma luva?

Carlos Moreira

10 fevereiro 2011

Bancos de Ferro


Procusto, personagem da mitologia grega, vivia perto da estrada de Elêusis. Costumava atrair para sua casa, de forma hospitaleira, viajantes solitários oferecendo-lhes abrigo para passar a noite. Ali ele possuía duas camas de ferro, uma menor e outra maior que, “caridosamente”, cedia ao visitante. Entretanto, depois que a vítima adormecia, Procusto a dominava para tentar adequá-la da forma exata ao tamanho do leito. Se o sujeito era alto, e passava das medidas, ele cortava os pés com um machado; se era baixo, esticava os seus membros com cordas e uma roldana. Ao final, mesmo mutilada, a pessoa acabava conformando-se adequadamente ao tamanho da cama, satisfazendo assim o mimetismo e o transtorno obsessivo compulsivo de Procusto.

Olhe para as igrejas dos nossos dias! Veja se os bancos não se parecem com “camas de ferro”? Veja se a mensagem que atrai as pessoas não parece com o “maravilhoso” convite de Procusto aos incautos? Triste, mas o cristianismo de hoje está apenas produzindo bonecos autômatos, ou seja, seres caricaturados, estereotipados, gente de uma rigidez e frieza cadavérica inigualáveis.

Com tristeza percebo que a mensagem, ao invés de fomentar a vida, semeia a morte, ao invés de produzir quebrantamento e pacificação interior, gera presunção e julgamento, ao invés de construir o ser, desconfigura a alma, ao invés de atrair as pessoas, produz nelas repugnância...


Ser crente, nesta geração, é ser engessado, alguém que foi customizado pela igreja como um

produto em série, alguns até vêm com chip! É gente sem consciência, sem senso crítico, apenas um membro de uma confraria de escolhidos que pensa que o sagrado pode ser cartelizado e o Evangelho, normatizado como se fosse uma franquia do divino. Ah moçada, quão distante tudo isso está da mensagem de salvação de Jesus!

Que seja utopia, mas eu desejo um cristianismo que produza gente de barro e não bonecos mecânicos, pois o barro nas mãos do oleiro ganha forma e pode ser moldado novamente, caso o objeto quebre ou perca o seu valor.

Gente de barro é entretecida nas mãos do arte-são, daquEle que cria o “vaso” com vistas a dar-lhe um propósito e um significado. É obra da manufatura diária da vida, que pacientemente constrói coisas boas e belas. Chega de esticar e cortar as pessoas para torná-las iguais, um fiel padrão! Isso pode até fazer sentido na nossa cabeça, adoecida pela religião, mas jamais passou, nem de longe, pelo coração do Pai que está nos céus.

Carlos Moreira

26 janeiro 2011

O Diabo vai ao Analista


Todos nós possuímos certos mecanismos que,
em psicologia, são chamados de mecanismos de defesa. Eles têm por finalidade reduzir manifestações que podem colocar em perigo a integridade do “ego” – uma instância da personalidade definida como o nosso eu mais perceptível.


Quando o indivíduo não consegue lidar com de-terminadas situações, entram em ação esses mecanismos de defesa, processos subconscientes ou mesmo inconscientes que acabam permitindo que a mente encontre uma solução para o conflito que não pôde ser resolvido no nível da consciência.

Esses mecanismos de defesa têm por base a angústia. Quanto maior a angústia, mas fortemente eles atuam. Freud estudou bastante este tema e nos revelou que um dos mais importantes mecanismos é a “projeção”. Trata-se da transferência de atributos pessoais de determinado indivíduo – pensamentos inaceitáveis ou indesejados, por exemplo – para outra pessoa.


O filósofo Ludwig Feuerbach estabeleceu para-lelos entre sua teoria da religião com a ideia de projeção psicológica, e escreveu como uma de suas conclusões que “a concepção de uma divindade antropomórfica trata-se, na verdade, de uma projeção dos medos e ansiedades dos homens”. Foi dentro deste contexto que, em uma de suas frases mais famosas, declarou: “Deus foi criado à imagem e semelhança do homem”.


Posto isso, base mínima para as argumentações que se seguem, quero especular sobre um fenômeno que tenho presenciado sistematicamente ouvindo pessoas: a atribuição ou transferência de culpa de atitudes dos indivíduos para a figura do “diabo”.

Em nossos dias, o “diabo” é o grande culpado por boa parte dos problemas que enfrentamos e este “fenômeno”, pasmem, carrega em si até certo grau de espiritualidade, pois, afinal de contas, o sujeito está sendo “atacado por satanás”! O diabo na igreja é criatura das mais conhecidas e reverenciadas. Não

raro, ganha status de ator hollywoodiano, pop star, gospel, chega a dividir com Deus boa parte das citações em um culto ou sermão.

Até hoje, todavia, ninguém havia avaliado os supostos estragos que eventuais acusações e transferências causaram na alma do “tinhoso”. De tanto ser culpado por coisas que jamais realizou, atos que não cometeu e situações das quais não participou, o diabo começou a desenvolver certas deformidades comportamentais.


No começo era apenas um leve sentimento de culpa, mas a coisa se aprofundou e começou a virar disfunção de autoimagem. Em seguida, baixa estima, depressão e, por fim, síndrome do pânico!


Apavorado com a situação e de forma recorrente, sendo acusado pelos crentes como culpado de tudo que lhes sobrevém, o diabo resolveu, como recurso último, já num grau de desespero extremo, ir ao analista. O trecho abaixo é parte da anamnese realizada pelo psicanalista no primeiro contato que teve com o “rabudo”.


Terapeuta - Vamos lá, deixe essa timidez de lado, pode falar. O que lhe incomoda?

Diabo – Doutor, eu estou me sentindo muito mal.
Tenho ânsia de vômito, sudorese, taquicardia e, às vezes, pânico!

Terapeuta – Sei... Mas o que você acha que provoca tais sintomas?

Diabo - Bem, doutor, eu estou carregando um far-do muito pesado. Os crentes colocam a culpa em mim por tudo o que lhes acontece. Isso tem gerado um constante estado de angústia. O senhor tem ideia do que é ser acusado de algo que, em absoluto, não realizou?


Terapeuta - Não. Mas isso não é importante, pois estamos falando de você, não de mim. Dê-me um exemplo para que eu possa entender melhor.

Diabo - O cara é um safado; vive no trambique... nota fria, caixa dois e tudo o mais. Um dia, chega a fiscalização e o cretino afirma: “Isso é coisa do diabo!”. Quer mais? O sujeito não ora, não lê a Bíblia, não age conforme o que crê, e aí diz que sua falta de disciplina é “coisa do diabo!”. É pouco, doutor?! Vem um outro... Ele não cria os filhos com valores nem princípios. Em casa, é o pior exemplo possível. Contudo, se os pirralhos se desencaminham na vida, assevera: “Isso é coisa do diabo”!

Terapeuta - Realmente, estou vendo que seu caso é mesmo sério!

Diabo – É, doutor, mas não fica só nisso não... Observe: o sujeito toma uma decisão sem pensar, irrefletidamente. Mas o que ele diz quando bate com a cara na parede: “Isso é coisa do diabo”! Ainda tem mais... Se alguém possui um temperamento descontrolado, iracundo, provocador, toda vez que se desentende com alguém conclui de forma absurda: “Isso é coisa do diabo”! Achou pouco, doutor? E quando um deles se endivida, desorganiza-se financeiramente por não
conseguir segurar o cartão na carteira, sabe o que diz? Que deu uma “brecha para o diabo!”.

Terapeuta - Cidadão, a situação é mesmo complicada...

Diabo – Mas não para aí não... O cara vem cheio de paranoias, uma família pra lá de louca, alma desestruturada, traumas, medos, e diz que a “doideira” dele é “coisa do diabo”. Imagina, doutor?! O sujeito é mal-amado, mal resolvido, carente, e tudo é “coisa do diabo?!”. Se o cara mergulha no vício, o que eu ouço? “Isso é coisa do diabo”. Se vive na mentira, diz que o responsável sou eu, afinal, eu sou o pai da mentira! A desgraça torna-se ainda maior porque eu não ganho nada com isso! Falam o tempo todo no meu nome, mas crédito que é bom, nada! Assim não tem quem aguente!

Terapeuta - Bem meu “amigo”, seu tempo, infeliz-mente, acabou. Na verdade, estou achando que você está muito ansioso. Vou ter de lhe receitar um ansiolítico!

Diabo - Para que serve?

Terapeuta - Para controlar sua ansiedade.

Diabo - Você está louco, doutor?! Eu vivo de gerar ansiedade nos outros e você quer tirar a minha? Doutor, creia-me, estou com muito medo de não ter mais nada o que fazer contra a existência humana, tornar-me apenas alegoria de história de criança!

Terapeuta - Mas seu diabo, como é que o senhor ganha a vida?


Diabo - Bem, eu vivo de gerar medo, culpa, angústia e ansiedade nas pessoas. Eu mato seus sonhos, roubo suas sensações, destruo suas almas. Na verdade, sou um grande coreógrafo! Crio cenários para as pessoas atuarem na peça, mas elas é que fazem as escolhas e desempenham os papéis.

A sessão termina. O analista diz: “Bem, vá até a farmácia, compre o medicamento e me ligue! Vamos avançando no tratamento...”. O diabo se despede, sai cabisbaixo, arrastando o rabo, deprimido, mas dirige-se à drogaria mais próxima.


No consultório, toca o telefone na sala do médico. É a secretária. O doutor diz: “Mande entrar o próximo”. A porta se abre e entra o outro paciente... É um crente. O doutor pergunta:


Terapeuta - Bem, meu amigo, qual é o seu problema?

Crente - Doutor, estou meio sem jeito... É que eu dei uma “brecha”, sabe? Uma escapadela! Na verdade, traí minha mulher.

Terapeuta - E quando foi isso?

Crente - Ah doutor, tem sido algo constante. Antes de vir para cá, por exemplo, aconteceu.

Terapeuta – Mas meu amigo, o que você acha que está acontecendo com sua vida afetiva?

Crente - Não sei, doutor! Tenho pensado muito sobre esse assunto e cheguei a uma conclusão: “Isso é coisa do diabo!”.

Nessa hora, não aguentando o absurdo ali proferido, o analista, levantando-se da cadeira exaltado, esbraveja: “Deixe de ser safado! Que diabo coisa nenhuma! O diabo acabou de sair daqui ainda agora, deprimido, mais pra baixo do que rabo de elefante, e você me vem com este papo da carochinha! Tome vergonha na sua cara e assuma a responsabilidade por seus atos...”.

Agora, durma o diabo com um barulho desse...

Carlos Moreira

27 dezembro 2010

Natal e Contracultura


Qual o verdadeiro sentido do natal? O que significa de fato o nascimento de Jesus? A essas perguntas muitas, ternas, sublimes, bobinhas e infundadas respostas foram dadas.

A quem diga, por exemplo, que o natal é época de amor, paz e outros estados de espírito que não passam de meros artifícios retóricos e monótonos romanticamente construídos para fins religiosos 
igualmente românticos.

Mas absurdo ainda é dizer que o natal representa o nascimento do salvador. Pelo contrário, o natal deveria nos perturbar, pois o filho de Deus trouxe consigo a espada, veio para executar, condenar, questionar, contradizer um conjunto de coisas a muito estabelecidas.

Jesus nasceu, não sem motivo, numa manjedoura, numa estribaria desconfortável, fedorenta e insalubre. Caso viesse hoje, haveria nascido numa favela violenta, à margem da sociedade, em um barraco com chão de terra batida.

A caminha confortável de palha retratada nos presépios não passa de uma fantasia que tem como objetivo exaltar a pobreza limpinha e franciscana a qual o proletariado deve se submeter no inferno do mundo capitalista. Não me entendam mal, eu não sou marxista; é que fui possuído pelo espírito do natal!

Estranho isso: em Roma, um homem, Otávio, imperador romano, deseja ser Deus (augusto). Em Belém, Deus torna-se homem e habita entre nós; Jesus o Emanuel (Deus conosco).

O nascimento de Jesus, acreditem, tem um aspecto jurídico, é uma denúncia contra o nosso materialismo insano e desenfreado que nos transforma, em alguns casos, em idiotas ricos, mas ainda assim idiotas. A manjedoura não é um lugar, é um veredicto!

Depois desse nascimento impróprio para um messias, Jesus foi crescendo e tornou-se contracultura (é isso mesmo, ficou meio hippie). O desenvolvimento rápido do carpinteiro filho de José tornou as suas antigas roupas coronhas!

Daí em diante ele rompeu com a religião, começou a achar graça das atitudes caricaturais dos sacerdotes “espirituais” dos seus dias e ficou mais a vontade com prostitutas, publicanos e pecadores. Teria o mestre apostatado?

O centro religioso de sua época tratou de matá-lo é claro. Mas não sem que antes o nazareno pronunciasse em alto e bom som que “os últimos seriam os primeiros”. O mundo a partir de então virou de ponta cabeça.

Eis aí o verdadeiro sentido do natal: a inversão do status quo, a quebra da lógica ideológica, religiosa e dominante do mundo no qual nasceu. Nascesse Jesus mil vezes, mil vezes o mataríamos!

André Pessoa via Século XXI

01 dezembro 2010

Uma Geração de Vampiros

Desde que os jornais sensacionalistas como a Folha de Pernambuco entraram em circulação a violência e a morte foi banalizada e uma grande multidão de “vampiros” ávida por sangue espalhou-se por todos os lugares. São os novos vampiros urbanos, habitantes da cidade e não da lendária Transilvânia.

Não basta apenas ver pessoas mortas nos jornais e nos filmes da TV, é preciso que os cadáveres estejam mutilados, decepados, esmagados, empalados, mergulhados em poças de sangue, enforcados nas próprias tripas. Quanto maior a desgraça, mais leitores, mais dinheiro ganho.
Lembro de um dia, enquanto eu dava aula, que chamei um aluno à atenção porque ele ria sem parar no fundo da sala, sentado em uma cadeira na última fileira de bancas enquanto olhava um pedaço de papel.

“Por que você está rindo tanto? Alguma coisa muito engraçada? O que tem aí nesse papel?”; perguntei ao rapaz. Com um gesto ele levantou a mão contendo uma página de jornal na qual se via a fotografia de um homem decapitado e a sua cabeça repousando calmamente colocada em cima de um orelhão.

“É que se parece com o tio de um amigo meu”, e o rapaz continuou rindo sem controle algum. Pensei então comigo: “que geração é essa que ri de uma cena tão bizarra? Será que ele tem noção do que é uma vida humana? Acho que não”. O ser humano perdeu todo o seu valor, a vida nada significa.

A verdade é que somos vampiros, filhos de Vlad IV, geração do Conde Drácula, criaturas ávidas por sangue. Os nossos heróis são os homens mais sanguinários (Stallone, Vin Diesel, Capitão Nascimento) e os nossos filmes preferidos os mais violentos. Somos todos vampiros!


Você acha que não? Então me responda: você não se frustrou com a tomada quase sem violência do Morro do Cruzeiro e do Complexo do Alemão no Rio de Janeiro? Seja sincero, admita, você gostaria de ter visto os traficantes esmagados pelos blindados da Marinha, metralhados impiedosamente, cortados ao meio por armas de grosso calibre não gostaria?

Você também é um vampiro, apesar dessa carinha de gente civilizada, você também deseja beber sangue. Foi a TV que fez isso com você, foi a locadora, foi a globo, foi a internet... “A vida imita o vídeo”.


Sangue, queremos sangue! Não somos muito diferentes dos antigos romanos que se reuniam em grandes multidões nas arquibancadas do coliseu de Roma para ver os gladiadores lutarem até morrerem envoltos em um rio de sangue. Somos uma geração de vampiros, e o pior de tudo: não temos medo de alho!

André Pessoa via Século XXI

30 novembro 2010

Crente Lady Kate: "Tô Pagano!"

A Revolução Francesa foi sem dúvida um dos eventos mais significativos do mundo ocidental e da sociedade moderna. A França do século XVIII era um país marcado por profundas injustiças sociais. O arcabouço histórico da revolta se construiu em meio a um regime político absolutista, onde a camada inferior da população, formada por trabalhadores urbanos, camponeses e a pequena burguesia comercial, era obrigada a pagar pesados impostos para manter o luxo das classes privilegiadas.


No topo daquela pirâmide estava o clero que, dentre outras prerrogativas, não pagava impostos. Abaixo dele estava à nobreza, formada pelo rei, sua família, condes, duques, marqueses e outros nobres. O rei era absoluto; controlava a economia, a justiça, a política e até mesmo a religião dos súditos. Qualquer tipo de oposição era punida duramente, pois o "contraventor", além de ser enviado a prisão da Bastilha, era, em seguida, guilhotinado.

A insatisfação com aquela situação chegou ao limite em 1789. Vivendo em extrema miséria, a população saiu às ruas com o objetivo de tomar o poder. Avançaram primeiramente para derrubar a Bastilha e, em seguida, invadiram os palácios e as terras da nobreza em busca de tomar o controle do país. Muitos conseguiram escapar, mas a família real foi capturada, e o rei Luis XVI, juntamente com sua esposa Maria Antonieta, foi julgado e guilhotinado em 1793. Nem o clero foi poupado, pois os bens da igreja foram todos confiscados.

Os contornos estruturais que marcaram o desencadeamento da Revolução Francesa são muito parecidos com a situação da Igreja em nossos dias. Como bem disse o sábio do Eclesiastes, as gerações mudam, mas o “espírito” humano permanece o mesmo. Olho para o que está aí e surpreendo-me com tamanha semelhança. Os fatos são arquetípicos além de fenomenológicos.

Se não, vejamos: o que temos em nossos dias que não uma elite espiritual privilegiada, supostamente dotada de pedigree sacerdotal, vivendo no luxo e na benesse, com seus “líderes” – não seria melhor dizer gestores? – e seus cantores – não seria melhor dizer atores? – refestelados em mansões, andando com carros de grife importada, voando em jatinhos e helicópteros, vestindo ternos italianos e comendo das “iguarias da corte”, enquanto a grande massa da população vive na pobreza ou na miséria?

O que temos hoje senão o tráfico de influência religiosa, o conluio político para a concessão de rádios e canais de TV que, supostamente, divulgam o “reino” de Deus, mas que, na prática, apenas aumentam o poder e a riqueza do “reino dos homens”? O que temos hoje senão a prática de se efetuar barganhas com o sagrado operacionalizadas através da cobrança perversa de “impostos celestes” que têm como único alvo o espólio desmedido de gente incauta e desesperada?

Posso continuar? O que temos hoje senão a pregação fraudulenta de doutrinas bíblicas aberrantemente distorcidas, aplicadas de forma maliciosa, com vistas a estimular a crença em promessas absurdas que, supostamente, trarão a solução para problemas financeiros, conjugais, físicos, espirituais e de toda e qualquer outra sorte? O que temos hoje senão a alienação da consciência, o esvaziamento dos valores éticos, o anestesiamento dos “sentidos” do coração e tudo em favor da catarse cultual, da serialização da “vida” e da commoditização da doutrina?

Vou lhe dizer o que penso. O que temos hoje é a anatomia de uma tragédia anunciada se desenhando silenciosamente debaixo de nossos olhos! O que temos hoje é uma multidão de milhões de pessoas sendo pressionadas, roubadas e enganadas por uma gangue de feiticeiros do sagrado. É gente que, iludida, está em busca de um “Deus performático”, uma divindade que está obrigada a satisfazer as demandas de seus “clientes” a qualquer custo.

Eis o maior dos absurdos: Deus colocado contra a parede tendo que cumprir o que, supostamente, está dito em Sua palavra! O Todo-Poderoso sendo vítima de extorsão para realizar milagres de prateleira: é o problema da falta de emprego, da restauração do casamento falido, do pagamento da dívida do aluguel, da eliminação da ação de despejo, do destravamento do processo judicial, da limpeza do nome no SPC, da libertação do encosto encomendado na macumba, e por aí vai... É tanta bizarrice que eu poderia encher um livro com estas loucuras.

Olho para a cristandade e vejo uma multidão de “crentes Lady Kate”. Você sabe de quem estou falando? Trata-se de uma personagem interpretada pela atriz Katiuscia Canoro no programa humorístico Zorra Total da Rede Globo. Lady Kate é uma aspirante a socialite que vive a todo custo tentando entrar para o High Society. Apesar da origem humilde, Kate herdou a fortuna deixada pelo marido, um senador rico, que, desgraçadamente, "bateu a caçuleta". Enfeitiçada com as novas possibilidades que o dinheiro lhe proporciona, Lady Kate vai em busca do "gramour, causo de que grana ela já tem".

O “crente Lady Kate” é aquele ser que quer por que quer que a vida se transforme num passe de mágica e, para tal, está disposto a pagar o “pedágio religioso” para que “seu milagre” se materialize. Minha questão é bem simples: até onde isso vai? Até quando as pessoas que estão sendo iludidas continuarão pagando esta conta? Sim, porque assim como Lady Kate, que usa o bordão “que que é? Tô pagano”, essa “moçada” também vai querer receber o seu bocado, pois, sem dúvida alguma, eles estão pagando, e pagando muito caro!

Quer saber no que eu acredito: acredito que em muito pouco tempo toda esta farsa vai cair! Acredito que esta multidão de gente espoliada e enganada vai se revoltar, assim como aconteceu na Revolução Francesa, pois eles estarão exaustos de pagar tanto “imposto” travestido de dízimo, e não ver nada acontecer. Estarão fartos de ver “pastores”, “bispos”, “apóstolos”, e outras “divindades” enriquecendo a custa de sua inocência, de seu desespero e, não raro, de suas excentricidades.

Espero firmemente que a farsa termine e que a farra acabe! No que depender de mim, como profeta do Senhor, continuarei a denunciar este estelionato, este anti-Evangelho, esta deformação de fé em Jesus Cristo. Estarei incansavelmente pregando, escrevendo, e fazendo tudo o que estiver ao meu alcance para que este engodo seja, em fim, revelado aos olhos de todos.

Minhas orações estão centradas para que Deus, no zelo que tem por Sua palavra e pelo Seu povo, interfira com justiça e juízo sob tudo o que está sendo feito. Meu desejo é que Ele haja logo, antes que venhamos a experimentar o que hoje acontece na Europa, onde as catedrais viraram boates e o povo nada quer saber sobre Jesus.

Na Revolução Francesa, o destino da família real não poderia ser pior: a guilhotina. Fico pensando que destino espera aqueles que estão profanando a Palavra do Senhor e enganando o povo que foi comprado pelo Sangue do Cordeiro? Não desejo nenhum mal a ninguém, mas se esta moçada for parar no inferno, poderá, usando outro bordão da Lady Kate, fazer a seguinte barganha com o capeta: “que que é ô seu diabo! Descola aí um lugarzinho meior pra nós, causo de que grana nós tem; o que só nos falta-nos é o gramour”. Pois é, se isso acontecesse, sabe o que eu acho que o “tinhoso” responderia: “tá amarrado!”.


Carlos Moreira

28 novembro 2010

Uma Conversa com o Nazareno

Entrei no bar por volta das dez da noite, queria tomar uma cerveja, relaxar. Não planejava encontrar com ninguém, queria mesmo era ficar só. Pra falar a verdade, eu admitia outras presenças, mas não as pessoas que eu conhecia. Será que eu as conhecia mesmo?

Pedi ao garçom uma Bohemia. Não estava gelada, mesmo assim tomei-a rapidamente, sorvendo-a em grandes goles. Eu estava com "sede"!

Foi só depois da terceira garrafa que olhei na mesa ao lado e tive uma grande surpresa. Lá estava ele, tomando uma cerveja como eu. Esfreguei os olhos como sempre fazia quando via coisas que não deveria ver e voltei a olhar para a mesa do lado. Para o meu espanto, era mesmo ele, bem ao meu lado, num bar, Jesus de Nazaré.

Não estava usando roupas brancas e reluzentes como o pintaram os artistas renascentistas, nem muito menos tinha cabelos longos e olhos azuis, como o Cristo ariano. Antes, os seus cabelos eram curtos e crespos.


Olhei para a sua mesa e vi com espanto que ele estava na quarta cerveja enquanto eu tinha tomado apenas três. Neste exato momento, ele olhou para mim com simpatia e profundidade, ergueu o copo americano no qual bebia e propôs um brinde a distância.

Depois disso me convidou para sentar com ele a sua mesa. Não hesitei, ergui-me um pouco zonzo e num pulo só fui até onde ele estava. Ele sorriu carinhosamente e disse: “você parece um pouco triste”.

Respondi com uma avalanche de perguntas: “O que você faz aqui? Por que freqüenta este lugar? Ele é digno de você? Isto não é contra os princípios religiosos?

Ele me olhou outra vez, agora com ar inquiridor e fez uma pergunta retórica; “Por que não freqüentaria?”

“Bom, eu achei que o seu lugar fosse na igreja, nos altares, nos sermões, compondo os credos... Ele me respondeu: “Altares são prisões, sermões são meras peças oratórias, credos são fórmulas vazias, como, aliás, também são vazios os seus formuladores.

Na verdade, estou aqui porque me expulsaram dos templos, enxotaram-me de lá, construíram uma estrutura na qual não havia lugar para a verdade, por isso venho sempre aqui.

“Mas não foi você mesmo que fundou a igreja e que chamou os apóstolos? Nos evangelhos não estão escritas as suas palavras que dizem: “Sobre esta pedra edificarei a minha igreja? Não foi você quem disse isso?”

“Você não entendeu nada do que eu disse, nem você e nem aqueles que se dizem meus seguidores. Você não entende o que eu falo por que as suas idéias são preconcebidas. Mesmo antes de se dirigir a mim, você já tinha um arcabouço de idéias prontas na cabeça. Você procura em mim apenas a legitimidade para endossar aquilo que você já decidiu que era verdade!”

“Viu, por exemplo, como você achava que eu não poderia estar aqui neste lugar? A essa altura, depois de ter lido tantas vezes a Bíblia, e de ter freqüentado tanto a igreja, você já deveria saber que são as pessoas que fazem o lugar e não contrário”.

Dito isto ele tomou um grande gole de cerveja e continuou: “Vocês não dizem que eu sou onipresente, por que eu não estaria aqui também? Ah, já sei, estes jargões só servem para algumas situações, para outras não, não é?”

“Vocês cristãos de brincadeirinha me transformaram em um fantasma, em um ghost no melhor estilo platônico, mas quando o meu pai resolveu enviar-me para o seu planeta, a primeira coisa que fez foi tornar-me homem. A expressão “se fez carne” lhe diz alguma coisa?”


“Eu sou carne, como você. Eu não sou nada do que disseram de mim. Eu não flutuo, não pego carona em nuvem de algodão, não sou transparente como vidro... sou carne entende? Isso mesmo amigo, carne”. Disse tudo isso enquanto eu o olhava atônito.

“Minha carne, porém, não me aprisiona, como faz a sua no melhor estilo grego. Nesse particular, reconheço, sou legitimamente judeu. Para mim, o corpo é meio de vida e não instrumento de morte. Dionísio e não Apolo, entende?”

“E tem mais, a imagem que a tradição cristã preservou de mim não é nada do que eu queria. A cruz foi real e dolorosa, mas não era ela que eu queria ver associada ao meu nome.” Nessa hora, parei, respirei fundo e disse: “Me perdoe, mas você está louco”. “Não era como um moribundo desfigurado e ensangüentado num madeiro que eu queria ser conhecido pela posteridade. Gostaria de ter ficado marcado na mente de vocês de outra forma”. Ele continuava falando, e cada palavra era uma sentença, uma flecha encravada nas minhas convicções.

Neste ponto interrompi-o e perguntei: “E como você gostaria de ter sido lembrado pelos homens que vieram depois de você?” Ele sorriu e me disse: “Como mestre, como professor. Eu queria ter sido associado com alguém que ensina e não com alguém que morre violentamente. Os que morrem violentamente só suscitam horror e pena”. Eu continuava a escutá-lo, mas agora já não mais o inquiria.


“Gostaria que quando as pessoas se lembrassem de mim, a imagem que viesse a cabeça delas fosse a de alguém entre elas, misturado com os homens, instruindo-os. A grande falácia da religião foi me separar das pessoas, retratarem-me numa cruz longínqua fincada no topo de um monte sombrio”.

Depois continuou: “Pense nisso amigo, reflita sobre estas coisas. Era em um bar que eu planejava me encontrar com você, e não em um templo, embora tenha ido lá algumas vezes”. Tendo dito isto, pagou a conta, levantou-se e desapareceu pelos becos escuros da cidade enquanto os cães latiam ao vê-lo passar.

Quanto a mim, precisei de alguns minutos para me recompor de tudo quanto ouvi do nazareno. Quando voltei à razão, o copo logo a minha frente estava vazio, como se alguém tivesse acabado de bebê-lo.


André Pessoa via Século XXI

26 novembro 2010

Enterrado Vivo


“Deus está morto, e o seu túmulo é a igreja”. A frase famosa de Friedrich Nietzsche, filósofo alemão do século XIX, filho de uma família luterana, homem que pensou em seguir o sacerdócio, mas que “rejeitou a fé” durante a adolescência para dedicar-se a filosofia, é de chocar, a primeira vista. Mas para entender o pensamento de Nietzsche, primeiramente, você deve lê-lo. Criticá-lo utilizando-se de frases feitas por fundamentalistas é por demais clichê. A leitura de um filósofo é como a leitura de um profeta, nunca deve ser feita fora de sua matriz existencial, de seu tempo, sua cultura e sociedade. São estes matizes históricos que constroem o mosaico sobre o qual o pensamento e as palavras de alguém ganham significado.

As críticas de Nietzsche ao cristianismo e as suas asseverações sobre a “morte de Deus”, sobretudo aquelas encontradas no livro “Assim Falou Zaratustra”, precisam levar em consideração a herança medieval que a igreja de seu tempo trazia consigo. O “Deus” que o filósofo afirma que está morto é o ídolo que entorpece os sentidos e percepções humanas, o ser castrador, manipulador e egocêntrico criado pela Instituição, o “Deus” do dogma, da repressão, do medo e da punição.

Se Nietzsche vivesse em nossos dias, observando as aberrações praticadas em nossas igrejas, seus escritos seriam transmutados de profanos para proféticos! O que se faz hoje, comparado com o que se fez na Idade Média, transforma os monstros da santa inquisição em criancinhas dóceis de escola dominical.

Creia-me, em termos de bizarrice, deformidade, estelionato e manipulação, nada se compara ao que estamos assistindo ao vivo e em cores nos cultos de algumas denominações, nos shows gospel de astros evangélicos, nas campanhas e correntes de fé, onde o sincretismo associa práticas judaizantes, religiões de mistérios, macumba, feitiçaria e espiritismo, tudo em nome de Deus!

Essa afirmação de Nietzsche de que o túmulo de Deus é a igreja não é despropositada. No passado, era prática comum enterrar as pessoas dentro de igrejas, sobretudo aquelas que possuíam maiores posses. Famílias influentes, ricas e poderosas, tinham seus próprios jazigos nos corredores e assoalhos das catedrais e igrejas. Sacerdotes também eram enterrados no “solo sagrado”, sobretudo em locais próximos ao altar ou mesmo abaixo dele.

Com a pandemia da peste negra na Europa do século XIV, que dizimou aproximadamente 75 milhões de pessoas, o sepultamento em igrejas tornou-se algo inviável.

Nessa época, sobretudo por questões de saúde pública, os cemitérios começam a ser implantados nos grandes centros. Assim, os sepulcros sacros, tanto do lado de dentro quanto do lado de fora das igrejas, foram totalmente abandonados, ficando a prática restrita apenas ao clero que, em determinados lugares, ainda mantinha o ritual.

Tudo isso me veio à mente porque eu tenho considerado a igreja dos nossos dias como cemitério de gente, com uma distinção fundamental em relação ao passado: hoje as pessoas estão sendo enterradas vivas! Desgraçadamente, elas vão sendo sepultadas paulatinamente, em doses homeopáticas. A afirmação é terrível, mas a explicação é lógica e simples.

O sujeito existe no mundo sem Deus, sem qualquer tipo de espiritualidade ou de relação com o sagrado. Não raro, sua vida está arrebentada, ele vive desacreditado de tudo, desencontrado de quem de fato é, de sua própria alma, cético e, por vezes, cínico.       

Em muitas situações, sua família está esfacelada, isso quando ele já não vem separado. Os filhos, em muitos casos, são outro grande problema, pois ou cresceram com péssimas referências, ou estão sendo criados pela TV e pelas babás.

Sexo é outra dificuldade. A grande maioria vem de relacionamentos reciclados, com parceiros dos mais diversos com os quais trocaram não apenas fluidos, mas, sem perceber, simbiotizaram suas próprias almas e espíritos com gente de todo tipo. Isso dilui o ser, torna a substância interior uma pasta, muda referências e até padrões comportamentais e psicológicos.

Não bastasse tudo isso, há questões periféricas, mas que também são importantes. Por exemplo: a vida financeira quase sempre está desarrumada. Movidas pela concupiscência dos olhos e pela necessidade de manter aparências, as pessoas de nossa sociedade fazem do cartão de crédito uma arma apontada para suas próprias cabeças! 

Ética é também outro tema confuso. Isso aparece mais claramente quando estamos tratando de práticas profissionais. Percebo que em muitas situações, para manter privilégios ou garantir oportunidades, pessoas estão dispostas a relativizar o absoluto e absolutizar o relativo, negociam tudo, até suas próprias almas, se preciso for.
 
Quando uma pessoa chega a uma comunidade de fé com toda essa bagagem, naturalmente espera que ali possa encontrar pacificação e alívio. Mas a ilusão dura pouco, apenas o tempo necessário para ela constatar como as coisas, de fato, funcionam...

A máquina institucional-religiosa é cruel e não poupa ninguém. Não há fé que resista, não há paixão que suporte. A morte compulsória começa justamente aí, é o enterro antecipado, o sepultamento desdobrado em módicas parcelas.

Massacrado por práticas perversas, dogmas irrefutáveis, liturgias alucinógenas, ritos, mitos, medos e modos, além de um compêndio de doutrinas bizarras, que vão dos absurdos “usos e costumes” até o pagamento do imposto-dízimo, o fiel vai tendo a sua consciência cauterizada, suas emoções anestesiadas. Suas inquietações vão aumentando ao invés de diminuírem, e suas contradições vão se tornando ainda mais realçadas. Em resumo, o indivíduo passa a viver na igreja em situação pior do que vivia fora dela. Pode?!

De fato, creio que a igreja tornou-se novamente um cemitério, um lugar onde a morte é mais propagada que a vida. Ela vem embalada de várias maneiras: nas leis eclesiais, nas proibições, nas castrações, na propagação do medo – medo do inferno, do diabo, do castigo, da alegria, da diversão, da cultura, do saber, e até medo de Deus!

A cada domingo, a cada culto, a cada pregação, o sujeito vai perdendo a vida, não da forma como Je -sus falou, que é a perda que produz ganho, mas da pior forma possível, a perda que produz frustração e angústia existencial.

Há muitos anos, aprendi algo importante: o lugar mais rico da terra é o cemitério. Sim, o cemitério é o lugar onde muitos sonhos foram enterrados. Nele há livros que nunca foram escritos, canções que nunca foram compostas, ideias que nunca se materializaram, negócios que jamais se realizaram e relações que nunca foram a lugar algum. Tudo, absolutamente tudo ali foi tragado pela morte. É um tesouro incontável, mas que não tem qualquer proveito.

Como é triste ver igrejas se transformarem em cemitérios. Como é de estarrecer ver pessoas sendo enterradas vivas! Não morra desta forma! Não perca sua alegria, não permita que sua esperança sucumba, não consinta com o sepultamento de sua consciência, de sua razão, de sua autocrítica, sua sensibilidade, seu gosto pelo belo, pela arte, pela música, pela dança, pelo amor!

Fuja de todo radicalismo, de toda ortodoxia neurótica, de todo fundamentalismo insano, de toda dog-matização presunçosa. Nada disso tem a ver com o Evangelho ou com Jesus de Nazaré, pois seu convite é para que experimentemos a vida, nunca a morte!

Georges Clemenceau, jornalista francês, escreveu: “Os cemitérios estão cheios de pessoas insubstituí-veis”. Tenho convicção de que para Deus você é irrepetitível e insubstituível! Ele não lhe vê como mais um, pois você não é um número nem um rosto na multidão. Não é apenas um dizimista, ou alguém que executa funções na igreja. Para Deus, você é singular!

Muito em breve chegará o dia em que serei sepultado. Não sei quem fará o ofício, mas espero um funeral de categoria, com muita música e alegria.


Quero que celebrem a minha vida, nunca a minha morte, pois, naquele momento, estarei indo de en-contro para aquilo a que fui predestinado, para ser integral, conhecer como sou conhecido, para não mais ver por espelho, mas face a face, existir em es-sência, com corpo ressurreto e vida eterna.

Apesar de tudo isso, não estou com nenhuma pressa de morrer e muito menos de ser sepultado antes da hora, principalmente, porque ainda estou vivo! E mais: Deus não está morto, mas vive, não pode, todavia, ser algemado a uma religião, pois, por sofrer de claustrofobia, não é possível ser contido ou enclausurado. Quem puder entender que entenda...



Carlos Moreira

25 novembro 2010

O Funeral da Catedral


Introdução


“Quincas Berro D’água”, personagem do livro de Jorge Amado, era um funcionário público, pai e marido exemplar, até a sua aposentadoria. Daí para frente, jogou tudo para o alto e passou a viver no baixo meretrício de Salvador, afundado na bebedice e na jogatina. Quincas morreu de forma triste e solitária. Os amigos, sentindo sua falta, foram ao seu encontro e, sem perceber que ele estava morto, pois estavam embriagados, saíram arrastando-o pelos bordéis da cidade. A gandaia só foi terminar de manhã, num saveiro, onde Quincas, que estava jogado num canto do barco, escorregando pela beirada do mesmo caiu ao mar e desapareceu nas águas da Bahia.


Quando olho para o cristianismo de nossos dias, para a instituição que o representa – a igreja –, para os postulados que tenciona defender, para as convicções que almeja fomentar, para as transformações que pretende introduzir, para os conteúdos que propõe anunciar, para os líderes que consegue produzir, para as dores que deseja aliviar, acabo achando tudo muito parecido com a história de “Quincas Berro D’água”. No fundo, a sensação que tenho é que nós estamos arrastando um “defunto”, talvez até, sem perceber!


Um dos piores problemas do cristianismo sempre foi a sua falta de senso crítico. De fato, de Constantino até os nossos dias, a fé cristã “evoluiu” bastante como religião organizada e institucionalizada, tornando-se, sem dúvida alguma, um fenômeno de massa, um “sucesso”! Entretanto, do meu ponto de vista, involuiu drasticamente como proposta de ressignificação da existência e de apaziguamento do ser através de uma relação íntima com Deus por meio de Jesus Cristo. Myles Munroe, conferencista internacional, no seu livro “Understanding your Potential”, afirma que “o sucesso é o grande inimigo do progresso”. Ele usou a expressão para se referir aos riscos existentes em todo empreendimento quanto ele alcança um expressivo êxito em seus objetivos. Diante do pressuposto, pensei: não seria esta uma das causas que tem levado a igreja ao explícito enfraquecimento atual?


Uma Crise Global: Ética, Moral e Espiritual


O fato é que o cristianismo enfrenta problemas sérios, e isso não tem mais como ser escondido. A exceção de algumas partes do continente Africano, onde os números atestam para uma expressiva adesão a fé em Jesus Cristo, a despeito de qualquer ligação confessional, em boa parte do resto do mundo a coisa vai de mal a pior.


No continente Asiático somos, simplesmente, insignificantes. O Hinduísmo, o Islamismo e o Budismo são maioria absoluta. A famosa Janela 10/40, uma faixa de terra que vai do oeste da África até a Ásia, revela que cerca de 3,2 bilhões de pessoas, que vivem em 62 países, ou seja, mais de 50% de todos os habitantes do planeta, ainda não foram evangelizados. Neste território estão contidas megalópoles como Tóquio, Calcutá, Bagdá e Bancoc. Dados da Junta de Missões Mundiais atestam que no Japão existem 3% de evangélicos, na Índia 1%, no Iraque 0,5% e na Tailândia 0,3%, que são, respectivamente, os países destas cidades citadas anteriormente.


Na Europa, um dos lugares onde a crise é mais grave, a falência do cristianismo é um fato concreto e, talvez, irrecuperável. No velho continente, a igreja cristã, tanto Católica Romana, quanto Protestante, está agonizando. Na Itália, por exemplo, país onde 95% da população está vinculada a Sé de Roma, só 30% vai à igreja. Na França, há cidades onde os Mulçumanos são maioria absoluta em relação aos Cristãos. 40% dos britânicos, tradicionalmente Protestantes, declararam não acreditar em Deus. Em artigo recente, a jornalista Adele M. Stan, articulista do jornal New York Times, escreveu que “a rejeição da Europa ao catolicismo tem menos a ver com a perda da espiritualidade e mais com a falência da instituição”.


Mas a crise não para por aí... Nos Estados Unidos e no Canadá o cristianismo também entrou na UTI. Na América os escândalos de pedofilia da Igreja Romana abalaram o mundo todo, tendo inclusive desencadeado uma forte reação do Vaticano e, em ambos os países, as igrejas Protestantes, algumas de origem histórica, sobretudo a Igreja Episcopal, vem enfrentando graves problemas de desvios doutrinários com questões ligadas a uniões de pessoas do mesmo sexo, inclusive sacerdotes. Um escândalo sem precedentes...


Brasil: Mostra a tua Cara


No Brasil, maior país Católico Romano do mundo, que representa quase metade da América Latina, a crise não parece ser perceptível, porém, certamente, mais cedo ou mais tarde, será. A fé cristã continua perdendo sistematicamente fiéis para as religiões de origem Afro e também para as seitas espiritualistas. Outro fato preocupante é a migração adensada, sobretudo nos últimos 15 anos, de fiéis tanto da Igreja Romana, quanto da Evangélica – tradicionais e históricos – para as chamadas igrejas Neo-Pentecostais.


O neo-pentecostalismo no Brasil é um capítulo à parte. Ele tem como precursor a Confissão Positiva de Gossett e Hagin nos Estados Unidos, na década de 1980. Seu arcabouço teórico é o que denominou-se chamar de “Teologia da Prosperidade”, uma doutrina baseada em promessas de sucesso e felicidade. A estratégia eclesiástica, que tem arrebanhado milhões de pessoas, está baseada no trinômio: discipulado manipulativo, hermenêutica tendenciosa e cultos de catarses. Numa época de “igrejas cegas”, uma que tem um olho vesgo vira majestade!


Não se deixe iludir, a situação é gravíssima! Não acredite em estatísticas triunfalistas, elas são fraudulentas! Infelizmente o último censo do IBGE não contemplou a questão das pessoas que abandonaram igrejas. Gente séria, que lida com dados, estima que o número de evangélicos “desviados” é superior ao número dos que afirmam pertencer a alguma denominação. Se de fato representamos algo em torno de 25 milhões de pessoas, temos, pelo menos, o mesmo número de gente que, tendo aceito de bom grado a mensagem da salvação, acabou vindo a rejeitar a mensagem e o proceder da igreja. Agora, imagine o que acontecerá quando esta legião de gente iludida, que hoje encorpa as fileiras das igrejas Neo-Pentecostais, se decepcionar com “Deus” por não ter recebido a “benção” que lhes foi prometida? Viraremos o novo continente Europeu, onde as catedrais tornaram-se boates? Deus se apiede de nós!


Olhando para Dentro Antes de Olhar para Fora


Se quisermos ser honestos e verdadeiros, veremos que a Igreja Cristã como um todo não está preparada para enfrentar os desafios do século XXI. Aliás, aqui cabe, inclusive, perguntar: você acha que a igreja, do jeito que está, vai sobreviver a este novo milênio? Se não, que igreja, então, sobreviverá? Quais serão suas características? Que perfil terá os seus líderes? Será possível articular e contextualizar a milenar mensagem da salvação às idiossincrasias do mundo pós-moderno? Como usar a hermenêutica e a exegese de tal forma a não desprezar a ortodoxia histórica, nem sufocar as questões prementes de nosso tempo? Não me leve a mal, mas se sua igreja não está refletindo estas questões ela é uma séria candidata a virar defunto, se é que já não virou! Acorde: igrejas também morrem!


Sendo pragmático, creio que a situação do cristianismo ainda não aponta para uma morte súbita. Sua patologia, entretanto, sugere o diagnóstico de uma doença crônica, que vem avançando desde o século XVIII, com o secularismo e iluminismo. No século XX o existencialismo deu mais um duro golpe na fé cristã e, nos dias atuais, uma soma de fatores como o modernismo, o relativismo e o multiculturalismo, servem como elementos desestruturadores da igreja e de sua mensagem. A verdade é que as pessoas estão cada vez mais desiludidas com a proposta cristã. Ser religioso, nos nossos dias, é sinônimo de ser obscurantista, moralista, hipócrita e até manipulador. Eu que sou pastor que o diga...


Olho para a igreja e vejo a tragédia na qual estamos mergulhados. Nossos púlpitos estão esvaziados, a mensagem é direcionada para atender as exigências dos ouvintes, não suas necessidades. O discipulado se resumiu a um enfadonho estudo bíblico, não é mais a vida sendo ministrada através da experiência prática e da convivência fraterna. Os programas, recursos aos quais recorremos para entreter pessoas, ocuparam o lugar da oração, do jejum e do estudo aprofundado das Escrituras. As famílias vivem um drama a parte. Separação já virou coisa natural, até mesmo de líderes e pastores. Por isso tanta miséria social, tanta catástrofe! A Terra foi ferida com maldição, pois os entes familiares não converteram os seus corações uns aos outros. Nossos filhos não sabem nada sobre a nossa fé e, quando sabem alguma coisa, nunca a transformam em prática de vida. Talvez porque faltam-lhes exemplos...


Somos tão presunçosos que continuamos utilizando métodos e formas do século XIX, como se eles fossem eficazes no século XXI. Não são! É um fato! Precisamos acordar! Muitos dos nossos programas não conseguem mais atingir as pessoas. Perdemos terreno para outras seitas que parecem entender o nosso mundo e as pessoas que nele vivem bem melhor do que nós. Nossos líderes são fracos, não foram treinados, não sabem, sequer, interpretar os textos mais elementares. Até em termos de administração e finanças nós ficamos a dever. Nem avançamos no espiritual, nem damos conta do natural. Trágico, convenhamos!


Diante deste contexto nefasto, há algo que ainda possa ser feito? Há! Mas tem que ser feito logo, de forma inteligente e planejada. Todavia, e é bom não esquecer, devemos começar por onde tudo, em toda a história, sempre começou, quando grandes mudanças aconteceram: no arrependimento. Sem ele, sem um olhar que nos permita ver que estamos “nus”, sem o desejo de continuar reformando aquilo que apenas começou com a Reforma, sem quebrantamento, sem humilhação perante o Senhor da Igreja, sem confissão de culpa, sem desapego de vaidades, sem o desmantelamento de estruturas adoecidas, nunca conseguiremos recolocar a igreja no lugar onde Deus deseja que ela esteja. Creia-me: se esta geração falhar, a bronca ficará para a próxima...


Semelhanças Entre o Passado e o Presente


Foi mais ou menos isto que aconteceu nos dias de Josué. Diz as Escrituras: “Depois que toda aquela geração foi reunida aos seus antepassados, surgiu uma nova geração que não conhecia o Senhor e o que ele havia feito por Israel”. Jz. 2:10. O contexto do texto é o estabelecimento do povo Hebreu na terra de Canaã. Moisés, o líder que havia tirado o povo do Egito, já havia falecido. Em seu lugar assumira o “moço que ficava a porta da tenda”; Josué. Aquela geração foi testemunha dos feitos do Senhor e guardou as Suas leis e preceitos, conforme lhes fora ordenado. Contudo, eles falharam no ensino e na propagação da mensagem e esta falha lhes saiu muito caro...


A continuação do texto de Juízes nos mostra as conseqüências desastrosas do que aconteceu. O povo, sem referências de quem era Deus, sem uma vida pautada em princípios, sem experiências práticas que significassem sua fé, foi se extraviando e se afastando do Senhor. Abandonaram o Deus de seus antepassados e seguiram a adorar deuses estranhos, prestando culto a Baal e Astarote. Por conta disto, a ira do Senhor se acendeu contra Israel e Ele os entregou nas mãos dos invasores que os saquearam, havendo para toda aquela geração muita dor e muito sofrimento.


A história está aí para que aprendamos com ela. Se isso não nos for possível, de fato, somos uma geração obtusa e arrogante. Ainda há tempo de reconhecermos nossos equívocos e voltarmos ao Senhor nosso Deus! Estamos vivendo uma espiritualidade banalizada e uma fé dessignificada. Nossas igrejas estão cheias de um amontoado de gente perdida e vazia, que transformou o evangelho em barganhas com o sagrado, que esqueceu dos preceitos e princípios do Reino e passou a viver pelo sistema caído do mundo que nos cerca, adorando aos “deuses” deste tempo.


Fim dos Tempos ou Nova Era?


Por outro lado, correndo paralelamente as fragilidades da igreja, está aí a Nova Era. Diferentemente do que muitos pensam, Nova Era não é uma religião, nem mesmo uma seita, mas uma espécie de “sentir” deste final dos tempos. Ela está misturada a todas as coisas, inclusive, a mensagem de salvação de algumas correntes da igreja. O movimento da Nova Era é uma miscelânea de ensinos metafísicos, de influência oriental, de linhas teológicas, de crenças espiritualistas, animistas e paracientíficas, que tem como proposta um novo modelo de consciência moral, psicológica e social além de integração e simbiose com o meio envolvente, a natureza e até o cosmos. Sim, amigo, eles sabem como “enfeitar o bolo” e “vender a festa”.


A Nova Era está conectada com as demandas deste tempo, com os dramas das pessoas, suas angústias, medos e perplexidades. Para cada questão tem uma resposta clara, objetiva. Fala da necessidade de uma nova ordem mundial de unificação global, ou sobre o fato da cultura ser determinada ecleticamente, respeitando a diversidade dos povos do mundo. Propõe acrescentar ao estilo de vida capitalista elementos do Budismo, Hinduismo, religiões africanas, e outras tradições místicas – tudo conforme o gosto de cada um. É a religião self-service!


Contudo, há um ponto determinante na proposta da Nova Era que afeta diretamente a Mensagem do Evangelho de Jesus Cristo: o fim das diferenças entre as várias religiões. Segundo seus postulados, todas as religiões adoram o mesmo Deus e, partindo-se de uma cosmo visão ecumênica, todas poderão aprender muito mais umas com as outras e isto, obviamente, permitirá uma melhor compreensão de quem é Deus. No fundo é uma espécie de “todo caminho dá na venda”. É pouco ou quer mais?


Você já ouviu falar do “Ponto de Mutação”? Trata-se de um tratado científico em que o físico Fritjof Capra, com uma aguda crítica ao pensamento cartesiano na biologia, medicina, na psicologia e na economia, explica como a nossa abordagem, limitada aos problemas orgânicos, nos levou a um impasse perigoso, ao mesmo tempo em que antevê boas perspectivas para o futuro e traz uma nova visão da realidade, que envolve mudanças radicais em nossos pensamentos, percepções e valores.


Capra se inspirou nos escritos do I Ching, – Livro das Mutações, um texto clássico chinês, milenar, composto de várias camadas sobrepostas ao longo do tempo – que expressa que "depois de uma época de decadência chega o ponto de mutação". Ele pondera que os movimentos sociais dos anos 60 e 70 representaram na verdade o início de uma nova cultura em ascensão, destinada a substituir as nossas rígidas instituições e suas tecnologias obsoletas. É a era de Aquários! No fundo, as premissas de Capra estão mais do que nunca conectadas aos pressupostos da Nova Era e, desgraçadamente, é esta “mensagem” que está atraindo as pessoas, e não a única mensagem que pode transformar de fato o homem, de dentro para fora, dando a ele valor e significado, a mensagem de Jesus Cristo!


A Nova Era é mais perigosa do que qualquer outra seita ou religião, sobretudo porque não se “vende” como tal. Ela é uma espécie de “oxigênio”, que não se pode ver, mas que se pode sentir. Almeja estar em todo lugar, buscando ocupar todos os espaços vazios de tal forma que, sem ela, nada que possua vida possa existir. Você está preparado para enfrentá-la? E sua igreja, está?


Conclusão


Se a esperança é a última que morre, é bom você começar a passar o terno para o funeral da catedral. A igreja, conforme a conhecemos hoje, ou muda radicalmente sua forma de ser, seus programas, seus modelos, sua estratégia, sua liderança e até mesmo a forma de anunciar a mensagem da salvação, não subtraindo-lhe as verdades e conteúdos, mas repensando os meios e as formas, ou veremos o cristianismo, como religião institucionalizada, perder cada vez mais espaço para outras confissões, mergulhando assim num ocaso sem precedentes.


Diante de tudo isto, o que me deixa tranqüilo e seguro é saber que, mesmo que esta “peleja” seja perdida, o campeonato, contudo, já está ganho. Aleluia! Haverá um dia onde o Leão da Tribo de Judá, reunindo seus anjos e arcanjos virá buscar a Sua Igreja. Se ela será esta que aí está, não sei. Sinceramente, espero que não! Mas, certamente, existe uma Igreja, invisível e indivisível, aconfessionalista, que ama a Jesus mais que a tudo, que guarda os Seus mandamentos e que espera ansiosamente a Sua vinda. Esta, sem dúvida, nunca sucumbirá, pois está destinada ao triunfo e a vida eterna ao lado do seu “Noivo”.


Meu desejo e minha oração é que, tanto eu, quanto você, estejamos sempre almejando por fazer parte desta Igreja, e que jamais venhamos a ser como os amigos de Quincas Berro D’água, que arrastaram o defunto noite a dentro até ele afundar nas águas profundas do oceano. Que tal não aconteça com as nossas catedrais!


Carlos Moreira

21 novembro 2010

A Consagração das Toupeiras


Já fazia muito tempo que, entre os bichos da floresta, os ministros religiosos eram escolhidos entre as corujas. As razões que explicam esta preferência eram as mais diversas, citemos algumas: a) As corujas possuíam carinho tal pelos seus, que achavam seus filhos lindos ainda que toda a floresta os visse como criaturas abomináveis. b) há muito tempo, por passar inúmeras noites acordadas, dedicando-se ao estudo, ficaram famosas e foram consideradas símbolos da sabedoria. c) O fato de serem aves e viverem em lugares altos dava-lhes uma melhor visão das coisas que aconteciam lá em baixo. d) Seu aspecto taciturno fazia com que os outros lhe atribuíssem uma grande capacidade de reflexão.


Enfim, entre os animais, as corujas pareciam ser, sem sombra de dúvidas, os mais aptos para o sacerdócio, e a sua escolha pelos outros bichos demonstrava que na floresta o critério utilizado para eleger o guru espiritual era bastante rigoroso e levava em conta vários aspectos da vida do escolhido e não apenas alguns, afinal de contas à atividade religiosa mostra sempre que o líder espiritual tem que ser um pouco de tudo.


O tempo passou e as coisas mudaram. Certos paradigmas foram quebrados e muitas revoluções tiveram início. No campo ético, por exemplo, a figura do sacerdote já não era mais associada à honra e ao respeito, pelo contrário, o mercantilismo da fé fazia com que muitos bichos olhassem para as corujas como grandes espertalhonas que não queriam trabalhar e sim ter vida fácil, o que, em alguns casos, era verdade. Por outro lado, muitas corujas tinham dado motivos suficientes para essa desconfiança tendo agido imprudentemente com relação ao dinheiro e ao sexo. Diante de tudo isso os bichos começaram a questionar a aptidão das corujas para o sacerdócio e, depois de muita briga, foi eleito para o ministério religioso o primeiro animal que não era daquela espécie: uma toupeira.


Uma toupeira? Admiravam-se os mais experientes, uma vez que as toupeiras possuíam, entre os animais, a fama de serem bichos desprovidos de inteligência e que sabiam apenas cavar buracos.


A escolha das toupeiras, porém, tinha lá seus motivos, afinal de contas, já dizia um antigo filósofo: “todo efeito tem uma causa”.


Em primeiro lugar, as toupeiras ascenderam ao poder por causa da própria degeneração e inaptidão das corujas que, há muito tempo no poder, julgaram-se seguras e começaram a tratar as coisas do mundo religioso com desdém. Seus sermões já não diziam nada, seus ensinamentos menos ainda, a administração era um caos, a Teologia tinha sumido dos púlpitos e a vida no lar deixava muito a desejar. Portanto, a escolha das toupeiras era o resultado direto da decadência das corujas.


Em segundo lugar, a escolha das toupeiras se deveu também a sagacidade desse animal, que neste ponto tem muitas semelhanças com uma antiga conhecida nossa que habitava os belos bosques do Éden (a serpente).


Muito embora fossem julgados animais pouco inteligentes pela maioria dos outros bichos, as toupeiras souberam aproveitar bem a situação de crise no âmbito religioso e com relativa facilidade alcançaram seus objetivos. Grandes oportunistas, era um termo que definia bem este pérfido animal.


As toupeiras perceberam que uma comunidade pouco instruída, revoltada e em crise, perdia a capacidade de escolher sensatamente seus líderes, o que lhes facilitava o empreendimento. Talvez fosse por isso que odiavam tanto o conhecimento e o estudo.


Elas (as toupeiras) também perceberam que o antigo critério de escolha que levava em consideração vários aspectos da vida do líder antes de escolhê-lo, havia sido suprimido e agora se recomendava para o ministério qualquer um que fosse julgado honesto, inteligente, bom orador ou que tivesse lido o grande livro religioso dos animais 50 vezes. Este último critério revelou-se, ao longo do tempo, como o mais equivocado de todos, uma vez que todo sacerdote deveria, obrigatoriamente, conhecer e ter lido o livro religioso dos animais, mas nem todos que conheciam e tinham lido o livro religioso dos animais tinham sido chamados para exercer o sacerdócio. Essa confusão de conceitos fez muitas vítimas no mundo religioso da floresta, algumas jamais se recuperaram.


Dessa forma, as toupeiras perceberam que não existia nada mais fácil do que ascender ao posto de sacerdote, já que não existia mais critério entre os outros animais para escolher os ministros religiosos. Assim, a crise se instalava tendo como principais protagonistas às toupeiras e algumas corujas que, em pleno exercício de ministérios fracassados, tentavam se manter no poder através de uma política intransigente e legalista.


Enfim, esta é a história da ascensão e consagração das toupeiras aos serviços religiosos. Sobre estas coisas, refletia um macaco solitário que morava no alto de uma árvore na floresta e que dizia consigo mesmo: “Quem não tem coruja apta se vira com toupeira; quem tem toupeira como sacerdote, vai de mal a pior”.

André Pessoa via Século XXI

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É importante esclarecer que este BLOG, em plena vigência do Estado Democrático de Direito, exercita-se das prerrogativas constantes dos incisos IV e IX, do artigo 5º, da Constituição Federal. Relembrando os referidos textos constitucionais, verifica-se: “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato" (inciso IV) e "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença" (inciso IX). Além disso, cabe salientar que a proteção legal de nosso trabalho também se constata na análise mais acurada do inciso VI, do mesmo artigo em comento, quando sentencia que "é inviolável a liberdade de consciência e de crença". Tendo sido explicitada, faz-se necessário, ainda, esclarecer que as menções, aferições, ou até mesmo as aparentes críticas que, porventura, se façam a respeito de doutrinas das mais diversas crenças, situam-se e estão adstritas tão somente ao campo da "argumentação", ou seja, são abordagens que se limitam puramente às questões teológicas e doutrinárias. Assim sendo, não há que se falar em difamação, crime contra a honra de quem quer que seja, ressaltando-se, inclusive, que tais discussões não estão voltadas para a pessoa, mas para idéias e doutrinas.

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