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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.

27 outubro 2010

Igreja Playmobil


“Como é terrível conhecer, quando o conhecimento não favorece quem o possui!”
Sófocles, dramaturgo grego.

Se você já assistiu ao filme “The Wall”, produzido em 1982, pelo diretor Alan Parker, o qual é baseado no álbum de mesmo título da banda Pink Floyd, talvez se lembre de uma de suas cenas mais marcantes. Nela, vemos a imagem dos alunos, com máscaras de bonecos presas ao rosto, sendo empurrados numa esteira rolante em direção a uma máquina de trituração que os transformava em linguiças.

Era a dura crítica de que os alunos haviam se tornado manequins serializados, e não seres pensantes. A própria música “Another Brick in The Wall” – Um tijolo a mais na parede – tem em sua letra comentários mordazes quanto ao sistema de ensino inglês e aos professores. Em uma das estrofes, afirma de forma categórica: “Professores, deixem os alunos em paz!”.

Durante muito tempo, as escolas estiveram sob o domínio da Igreja, mas acabaram sofrendo profundas mudanças desencadeadas pelas novas necessidades dos processos de produção advindos da Revolução Industrial. Elas abandonaram o modelo ideológico religioso e se transformaram num local de disciplinamento e ordenação do saber.

Segundo Maria da Glória Silva, mestre em psicologia, “a partir do século XVIII, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos, os ambientes escolares pareciam-se mais com quartéis, pois a instrução ficava em segundo plano, atrás da obsessão pela ordem e compostura”.

Ora, é justamente isso que acontece hoje com o nosso sistema de ensino na Igreja. Ele está profundamente equivocado! Reproduz muito do que se viveu nos séculos XVIII, XIX e XX no mundo fabril. Estamos serializando as pessoas, transformando-as em commodities religiosas.

O problema já começa nos seminários teológicos, muitos dos quais lembram apenas uma “sociedade de profetas mortos”. Ali, jovens enviados sem qualquer critério de seleção pelas Igrejas, sem a mínima experiência com Deus e nenhum conhecimento das Escrituras, são expostos a conteúdos profundos de autores diversos que os fazem, não raro, entrar em crise e perder a fé. Dali muitos sairão como “profissionais da religião”, mas jamais como pastores de ovelhas. Há exceções, mas elas estão cada vez mais escassas. 

Lembro-me do profeta Oséias: “O meu povo está sendo destruído porque lhe falta conhecimento”. O mais trágico, contudo, ainda está por vir. Baseados em rotinas didáticas superadas – por vezes demasiadamente ortodoxas, em outros casos profundamente liberais –, numa hermenêutica descentrada de nosso tempo e de nossa cultura, que insiste em fazer exumação da letra morta em vez de ressignificar os conteúdos para expansão e construção de uma nova consciência, a Igreja acaba criando, seja do púlpito, na EBD (Escola Bíblica Dominical), no ensino dos pequenos grupos ou nas reuniões de doutrina, um modelo fabril. É o triunfo de uma práxis religiosa que apenas constrói gente robotizada, autômatos “espirituais”, bonecos com máscaras no rosto, vendas nos olhos e tampões na boca e nos ouvidos.

Não é sem motivos que grande parte da sociedade nos considera alienados! Isso se dá não porque temos os ideais e os princípios do Reino, mas porque nossas ações são bizarras, caducas e, por vezes, perversas. Tornamo-nos “discípulos” que decoramos meia dúzia de doutrinas, muitas das quais sincretizadas pelos vários tipos de denominações diferentes pelas quais passamos, e agora arrotamos um tipo de conhecimento bíblico que não tem nada a ver com o Espírito do Evangelho de Jesus. Como disse Charles Dickens, romancista inglês, temos “uma vaga noção de tudo, e um conhecimento de nada”.

Olho para a Igreja e sinto que ela se parece com um exército de Playmobil. Sabe, aqueles bonequinhos feitos na década de 1980, todos iguaizinhos, mas com roupinhas diferentes? Somos nós!

Crentes de mente cauterizada, falando e pensando as mesmas coisas, incapazes de nos conectarmos ao mundo que nos rodeia, com o coração petrificado e os nervos enferrujados. Somos a geração do “crente em série”, gente que engole o tiranossauro e colhe o mosquito, que se escandaliza com tudo, cheia de fricotes e de frescuras, de condicionamentos comportamentais, de julgamentos sociais, de restrições sacramentais, e por aí vamos.

Tornamo-nos bonequinhos forjados na Igreja-Fábrica, gente neurotizada, infeliz e incompleta, mas querendo mudar o mundo. Ah, quanta utopia!

E há solução pra isso? Sei lá! Talvez jogando uma bomba e destruindo este mar de hipocrisia e insensatez resolva... O que nos falta é paixão, é vida com Deus, é singularidade, é percepção do eu, das incompletudes do ser, das idiossincrasias, das falácias humanas, da trave nos olhos, de nos vermos do tamanho que somos.

Impossível não lembrar de Da Vinci: “Todo conhecimento se inicia com sentimento”.

É verdade: sem amor, o que poderá ser aproveitado?


Carlos Moreira

26 outubro 2010

Assim Caminha a Cristandade...

“Certa vez, tendo sido interrogado pelos fariseus sobre quando viria o Reino de Deus, Jesus respondeu: "O Reino de Deus não vem de modo visível, nem se dirá: ‘Aqui está ele’, ou ‘Lá está’; porque o Reino de Deus está dentro de vocês". Lc. 17:20-21.

O Sagrado em Israel se descaracterizara como experiência religiosa bem antes do tempo Jesus. Na verdade, a fé para os judeus havia se transformado num poderoso sistema que possuía dois grandes tentáculos: um político e o outro econômico. Assim como nos nossos dias, os que mercadejavam o espiritual perceberam que manipular com a fé das pessoas era um extraordinário e lucrativo negócio.

O texto citado acima nos dá a dimensão exata do que estava acontecendo naqueles dias... Mas nós não conseguimos discerni-lo com todos os seus matizes porque o “cenário” no qual os fatos se passam nos é totalmente estranho. No encontro inusitado entre Jesus e os Fariseus, a questão principal não é o que parece estar evidente, ou seja, o Reino de Deus, mas o que está subliminar – o reino dos homens.

Ora, isto pode ser visto claramente na pergunta, aparentemente “espiritual”, – “mostra-nos o teu Reino”. Ela não tinha nada a ver com os conteúdos, valores e princípios éticos do Evangelho de Jesus. A preocupação estava centrada apenas nos aspectos institucionais – nas estruturas físicas (templo, sinagogas), nos códigos regulamentares (a Lei e os Profetas), no centro de decisão (o Sinédrio), nos rituais “litúrgicos” (sacrifícios, oferendas), ou seja, o que estava em “jogo”, era entender quais os mecanismos que compunham a “engrenagem” que o Galileu estava anunciando. E isto era “bastante razoável”, uma vez que o “sistema” que eles possuíam já estava há anos sendo “tecido” pela aristocracia judaica, pelas castas sacerdotais e pelos grupos religiosos e, o melhor de tudo, “operava” perfeitamente.


A religião judaica criara uma opulência que entorpecia o ser. Era um conjunto de ritos e mitos que sacralizava o banal, petrificava o coração, cauterizava as percepções e roubava as emoções. Em torno de tudo aquilo girava uma “máquina” de fazer dinheiro, e era muita grana que circulava em torno do templo, o “centro espiritual” de toda a engrenagem, e de onde os recursos eram distribuídos para manter as benesses de muita gente e para bancar o “custo” da estrutura que era, sem dúvida, muito cara.

Aí vem Jesus que, em vez de propor manter a opulência do “negócio”, trás a mensagem de ressignificação da consciência! O Reino de Deus, anunciado através do Evangelho do Reino, não tinha “donos”, nem “trono”, nem ditames humanos, nem regras, nem lei, nem sacrifícios, nem intermediários sacerdotais, nem traficantes de influências espirituais, nem castas religiosas, nem comércio do sagrado, nem barganhas com a divindade, nem nada! Era a proposta de um Reino que crescia de dentro para fora, que instaurava valores no coração a partir de uma reconstrução da consciência. Por isso a discrepância tão grande entre um projeto e o outro. Agora dá para entender porque a proposta de Jesus era tão bizarra para aquela moçada, porque ela, simplesmente, desmantelava com o sistema inteiro!


O Evangelho do Reino é contra-cultura! É algo que se impõe para derrubar a cultura vigente. É subversão silenciosa, pacífica, de boca em boca, de casa em casa, de pequenos gestos, de serviço ao próximo, de amor ao necessitado, de acolhimento ao excluído. É uma lógica totalmente diferente! O sistema diz: ajunte, acumule, recolha. O Evangelho do Reino responde: espalhe, compartilhe, distribua. Onde um diz: seja servido; o outro preconiza: torne-se servo. Onde um diz: seja o primeiro; o outro afirma: seja o último. Onde um diz: busque reconhecimento; o outro adverte: faça tudo em secreto. Onde um diz: se exalte; o outro ensina: se humilhe. E ainda tem a segunda milha, a túnica junto com a capa, a face para o que o fere, o perdão setenta vezes sete... É metanóia!


Mudar a cultura é mudar a forma como as pessoas vivem. E isto varia de época para época, pois a cultura é um subproduto do social e do humano. É antropológica e temporal, segundo Vergílio Ferreira. Não foi diferente com Jesus. Em seus dias Ele lidava com vários tipos de culturas e filosofias distintas: os epicuristas, os estóicos, os cínicos, os céticos, além de toda a influência helênica – 600 anos de pensamento grego sincretizado com os cultos de mistérios egípcios, culto ao imperador, religiões pagãs e por aí vai... Mas o Evangelho do Reino, pregado pelo Nazareno, e depois pelos seus discípulos, propunha uma contra-cultura que desmantelava com tudo aquilo. E eles subverteram o mundo com a mensagem da paz, da esperança e do amor! E eu lhe afirmo: se já foi feito antes, pode ser feito novamente...


Geraldo D’Almeida Alves nos questiona de forma instigante: “para que servem cultura e filosofia? Na verdade, elas são imprescindíveis ao próprio existir humano. Um homem sem cultura não existe, e a filosofia existe justamente para que toda atividade humana possa ter significado”.

Quando a cultura muda, as pessoas mudam. Por isso Jesus queria estabelecer um novo Reino (uma nova consciência – cultura), baseado num Evangelho que tinha um “vinho novo” (valores e princípios). De lá para cá, vimos o mundo mergulhar em muitas crenças e culturas diferentes: a medieval, a renascentista, a moderna e agora, a contemporânea. Mas o que fez o cristianismo durante este período? Que propostas trouxe como contraponto, como contra-cultura para enfrentar os sofismas e as vãs filosofias? Eu lhes respondo: quase nada. E está ficando cada vez pior... Quem somos nós hoje? Como somos vistos? Como somos interpretados? Quem está disposto a ouvir nossa mensagem? E o principal: por que será que isto está acontecendo? Eu não tenho todas as respostas, mas tenho minhas “teses”. Você não precisa concordar com elas, mas pode a partir delas expandir sua consciência e buscar construir seus próprios “mapas”. Contudo, lembre-se: respostas que não produzem mudanças tornam-se apenas filosofia de botequim.

O problema é que nós nos conformamos à cultura vigente. Nos amoldamos, nos amalgamamos a tudo o que esta posto aí. Vivemos como todo mundo vive, corremos atrás das mesmas coisas, nossas famílias são pautadas pelos mesmos valores, nossos filhos são criados do mesmo jeito, nossos negócios são conduzidos da mesma forma, nossas “igrejas” viraram empresas! A proposta deveria ser exatamente outra: deveríamos nos rebelar pacificamente! Deveríamos denunciar de forma ordeira! Onde está a nossa voz profética? Ela se tornou “profétida” tantos são os escândalos nos quais estamos envolvidos. Não há mais diferença, como afirmava o profeta Malaquias, entre o que serve a Deus e o que não serve. Todos são iguais, participam das mesmas práticas, se envolvem nos mesmos conluios, vivem pelos mesmos princípios.

Alguém recentemente me perguntou: “mas pastor, eu vou ter um casamento diferente de todos os outros?”. E eu respondi: “para que então você quer servir a Deus se não está disposta a fazer diferente e fazer diferença!”. Os crentes hoje são execrados na sociedade e com toda a razão, na grande maioria dos casos. Os piores profissionais que trabalharam na minha casa e na minha empresa eram “evangélicos”. Gente de duas conversas, que nunca cumpria prazo, que empenhava a palavra e não a honrava. É o empresário “evangélico” usando caixa dois, meia nota, propina para fechar negociatas, sonegação fiscal, e por aí vai. Qual a diferença?! Onde está a contra-cultura do Reino? E alguém me diz: “mas se eu fizer tudo certinho vou quebrar meu negócio”. Ora, então mude de profissão! É melhor perder o negócio e preservar a salvação e a vida eterna, do que ir para o inferno com o negócio e tudo!

Está achando o discurso duro? Então faça uma pesquisa sobre o que a sociedade acha dos cultos de catarse que promovemos para espoliar as pessoas. Pergunte aos seus amigos e vizinhos o que eles acham dos “evangélicos”. Veja se não estamos associados à idéia de gente perversa, julgadora, presunçosa, arrogante, falsa... Pergunte a deputados e senadores sérios – ainda existem alguns – o que eles acham da bancada “evangélica” no Congresso Nacional? Eu que sou pastor que o diga. Não há ninguém que não me olhe e não ache que eu sou ladrão, manipulador ou aproveitador. E aí me vem, do nada, um fulano querendo saber da marca da besta do apocalipse! Ora meu mano, a marca da besta já está aí, presente em tudo o que se faz neste “sistema” no qual nós estamos imersos. Ela existe desde Caim, que ficou com sua fronte marcada para que todo homem soubesse que ali estava alguém que vivia em desacordo com a vontade de Deus. Não precisa de marca no pulso, na testa, de número 666, porque tudo já está “tatuado” no coração, enraizado em práticas perversas, assumido por uma consciência anestesiada, incapaz de discernir o que o Espírito está falando a Igreja.

E assim vamos vivendo. Misturados ao todo e diluídos na massa, sequer aparecemos. Somos considerados gente de gueto, povo de segunda categoria, seres que não pensam, confraria de tolos. Não influenciamos, mas somos massacrados pelo marketing, pela mídia, pela cultura da aparência, do parecer ao invés do ser, dos valores pagãos, da fé commoditizada, mecanizada, robotizada, que produz uma massa de alienados que não consegue nem influenciar os que estão em suas próprias casas.

É amigos, parafraseando o Lulu Santos, assim caminha a cristandade, com passos de formiga e sem vontade. Até quando? Não sei. Mas parece que algo começa a acontecer, lentamente, silenciosamente. Há uma geração se levantando contra essas coisas, anunciando que Evangelho não é isto, que Jesus nunca propôs nada do que aí está. A revolução não começa nas estruturas, nas denominações, nos grupos se matando uns contra os outros, mas na consciência, numa nova hermenêutica, na ressignificação dos valores e das verdades do Evangelho do Reino, na restauração do ministério profético.

E quanto menos se esperar, surgirá de onde não se imagina, dos anônimos de bairro, dos discípulos que estão com a mão na massa, nas chagas das pessoas, socorrendo os desabrigados da Terra, os excluídos da sociedade, porque esta é a Igreja de Jesus. Ela está aí, como sal dissipada pelo mundo, ativa, falando nos blogs "subversivos", na cabeça de pensadores e escritores que fomentam novas idéias, no púlpito de algumas Igrejas, nos corredores dos hospitais, dos presídios, nos encontros de pequenos grupos.

Por isso, saiba: a “massa do bolo” está crescendo e o “caldo está engrossando”. Desta forma, preste atenção! O Evangelho do Reino está sendo pregado novamente e as profundas mudanças por ele trazidas estão a caminho e nada, absolutamente nada, poderá impedi-las de subverter novamente a sociedade e trazê-la para um encontro definitivo – restaurador e pacificador – com o Deus de toda a vida! E nem altura, nem profundidade, nem coisas do presente, nem do porvir, nem principados nem potestades, nada poderá deter o que já se iniciou por vontade única e exclusiva do Senhor de toda a Terra. Quem vai pagar para ver?

Carlos Moreira

21 outubro 2010

Sarando as Feridas


Os “marcos” são mais facilmente esquecidos que as “marcas”. Eu explico: os acontecimentos negativos da existência humana como perdas, medos, traumas, traições, tem infinitamente mais capacidade de “MARCAR” a vida das pessoas do que as vitórias, alegrias ou desejos realizados, os “MARCOS”. E estas “marcas” que aparecem, invariavelmente, em nossa história, em maior ou menor escala, por vezes se constituem em feridas tão profundas que impedem o agir transformador do Espírito Santo e, por conseguinte, bloqueiam o apaziguamento de nossa consciência e a pacificação de nosso ser.

Nem o poeta me deixa mentir quando diz: “tristeza não tem fim, felicidade sim”. A poeira da existência impregnada na alma humana desconstrói sonhos, desmonta a esperança, torna a nossa alma um calabouço sombrio, uma masmorra de solidão, uma terra devastada, árida, não obstante ávida de encontrar paz e bem. Neste estado de ser e sentir, nesta estação outonal, respirar dói e tudo se torna enfado e canseira. Laura Limeira me ajuda a dizer isto em forma de poesia: Somando as perdas e ganhos da minha vida, descobri muitas marcas em mim... Marcas no meu olhar, pela tristeza que vi, quando, ingenuamente, acreditei em tudo, e vivi... No rosto, pelo esquecimento do sorriso, e por tanta lágrima derramar... Na dor da solidão por enfrentar, e calar sozinha, nem sei como, tanta emoção... Marcas na alma, hoje estraçalhada, diante de tantas insídias... Muitas são essas tais marcas da vida, que, iguais tatuagens, já não saem mais...”.

A pesquisadora norte-americana Judith Viorst, no seu livro Perdas Necessárias, ensina-nos que viver é aprender a perder. Sem este aprendizado, não se pode crescer. Perdas são uma das “marcas” geradas pela existência. “Elas envolvem não só a morte de pessoas queridas, mas incluem também a perda consciente ou inconsciente de nossos sonhos, expectativas impossíveis, ilusões de liberdade e poder, ilusões de segurança e a perda do nosso próprio "eu" jovem”, porque envelhecer é como perder-se de si mesmo.

E aqui surge uma indagação: haverá uma solução para isto? Pode Deus agir de tal forma que todo este embaraço e peso que carregamos faça apenas parte do passado sepultado e cravado na cruz? Será mesmo possível materializar as verdades do Evangelho em realidade para a vida? Ou são verdadeiras as palavras de Thomas Quincey: “não existe o esquecimento total: as pegadas impressas na alma são indestrutíveis”.

Em 1905, em Viena, uma paciente cega, paralítica e bulêmica sofria, sem saber as causas, e sem perspectiva de cura, desta “doença da alma”. Foi neste contexto que um médico neurologista, nascido na Checoslováquia, foi designado para acompanhá-la. Após 10 anos os sintomas da doença desaparecem. A paciente estava clinicamente curada. Nascia ali a psicanálise. A história verídica é de Ana O. – a paciente – e o médico era Sigmund Freud. Nossa história, não raro, foi marcada duramente por fatos que desencadearam transtornos profundos em nossa psique e acabaram por produzir imagens doloridas, traumas, medos e culpas que se acumularam no limo da nossa alma. Hoje, mesmo sem querer, eles são como fantasmas e, não raro, vêm nos assombrar.

Eu quero lhe trazer uma passagem bem conhecido das Escrituras para me ajudar a analisar, ainda que de maneira figurada, estes processos que geram feridas emocionais e os mecanismos que podem ser utilizados para curar almas adoecidas. O texto é Ezequiel capítulo 47 versos de 1 a 9. Trata da visão do profeta de águas que saem de dentro do Templo, descem pelo vale, onde a vegetação e toda a vida aquática e pantaneira estão destruídas, e deságuam no mar morto. Aquele cenário que ali estava era mais do que real, mas também era um “holograma” espiritual do que se passava com a nação de Israel. Ele metaforizava o estado emocional e espiritual daquele povo que havia sido desterrado de maneira violenta para a Babilônia cerca de 70 anos antes. Muitos dos anciões que voltaram para a reconstrução dos muros e do Templo, por conta do decreto de Ciro, Rei da Pérsia – livros de Esdras e Neemias – haviam sido vítimas da barbárie dos Assírios. Suas almas estavam impregnadas com as imagens de lares destruídos, mulheres e crianças assassinadas, das portas de Jerusalém queimadas, da destruição do Templo, da morte dos príncipes e do escárnio sofrido pelo Rei Zedequias, que teve seus olhos vazados e, amarrado a grilhões de bronze, foi levado escravo entre os peregrinos. Este desfecho trágico era a conseqüência das consecutivas advertências de Deus contra os desvios do podo e podem ser vistos também na profecia do livro de Jeremias capítulo 37.

Agora vamos imaginar este retorno. O caminho é espinhoso, regado por lágrimas de desilusão e desespero. Essa gente está com as entranhas incrustadas de dores e de perdas. Suas almas foram assoladas pela tragédia, suas mentes guardam imagens fortes, duras, seus corações estão petrificados pela dor, seus olhos estão encharcados de lágrimas, de miséria e cólera. Questão: de onde foi que aquele povo tirou forças para reconstruir aquela cidade? Sim, porque ali estava uma gente destroçada, humilhada, subjugada, sem destino, sem esteio, sem chão, e agora se viam diante do desafio de recomeçar, no mesmo local, diante das ruínas que haviam deixado para trás. Como conseguiram? De onde tiraram forças?

Bem, eu creio que esta visão de Ezequiel simbolizava o prenúncio profético do que mais tarde iria acontecer. A visão de águas saindo de dentro do santuário prefigurava a maneira de Deus agir para curar o interior das pessoas. Olhe para este texto para além das realidades aparentes, pois a visão bem pode ser tratada como uma metáfora ou uma alegoria do autor, sem que isto represente perda para a aplicação espiritual do texto. Estudando filosofia, e entrando pelos caminhos da psicologia, você vai se deparar com estruturas chamadas de arquétipos. Quem melhor estudou sobre isto foi Carl Jung, quando tratou do inconsciente coletivo. O cenário metafórico da visão de Ezequiel é o arquétipo do que estava impregnado no inconsciente coletivo daquela geração de moribundos sobreviventes. Ali havia uma imensa carga de energia psíquica reprimida, pois aquela gente havia sido desterrada da vida. Por outro lado, também existia ali a premente necessidade de algo que pudesse materializar a fé necessária para curar as suas almas e levantá-los para a empreitada da reconstrução. É aí que entra a visão do profeta.

Eu não sei como está a sua vida. Não sei se você foi ou é vitima de abusos, de perdas, de dramas que marcaram profundamente sua alma e que te impedem de levar uma vida normal, equilibrada, que se manifesta numa espiritualidade sustentável, numa fé sadia. Não sei se o que lhe aconteceu lhe impede de exercer alguma atividade profissional, de constituir família, ou outra coisa que se torna limitante em sua existência. Mas quero lhe deixar algumas sugestões para sarar as feridas que, por vezes, a vida acaba por produzir.

Em primeiro lugar, utilizando-me alegoricamente do texto, quero lhe dizer que TODA CURA SÓ SE VIABILIZA NA VIDA QUANDO OCORRE DE DENTRO PARA FORA DO SER. Veja o verso 1 do capítulo 47: “Depois disso me fez voltar ao templo; e eis que saíam umas águas por debaixo do limiar do templo, e desciam pelo lado meridional do templo ao sul do altar”. Nós sabemos pela doutrina Neotestamentária que hoje somos o templo do Espírito Santo. O que o texto está explicitando, e também apontando de forma profética, pois mais tarde o próprio Jesus diria no Evangelho de João que aquele que nele cresse do seu interior fluiriam rios de água viva, é que a cura vem de dentro para fora, ou seja, não é um processo de reconstrução, mas de regeneração. Restabelecer este “santuário” tem implicações em ressignificar à fé, reimplantar uma nova consciência e transformar o coração de pedra em coração de carne. Este processo é algo que só pode ser feito e discernido espiritualmente. Sei que a escuta terapêutica e, por vezes, o tratamento medicamentoso é necessários para sarar dores e feridas na alma das pessoas. Mas nada pode ir tão fundo quanto estas ações, pois elas são demandadas pelo próprio Deus.     

Em segundo lugar, conforme os versos 3,4 e 5 do mesmo capítulo, O PROCESSO DE CURA DEMANDA UM MERGULHO EM NOSSAS “CAMADAS EXISTENCIAIS”. Vejamos: “Saiu aquele homem para o oriente, tendo na mão um cordel de medir; mediu mil côvados e me fez passar pelas águas, águas que me davam pelos tornozelos. Mediu mais mil e me fez passar pelas águas, águas que me davam pelos joelhos; mediu mais mil e me fez passar pelas águas, águas que me davam pelos lombos.Mediu ainda outros mil, e era já um rio que eu não podia atravessar, porque as águas tinham crescido, águas que se deviam passar a nado, rio pelo qual não se podia passar”. Aqui temos uma soma de elementos metafóricos. O rio representa a nossa própria vida, cheio de percalços e surpresas, de águas tranqüilas e corredeiras. E o “anjo” faz um convite ao profeta para que ele “mergulhe” neste rio, ou seja, para que entre nas águas, paulatinamente, consecutivamente. Um mergulho existencial, que passa pelos “caminhos” da vida, pelas escolhas, pelas decisões, pelas cenas doloridas, pelos momentos de tristeza, de solidão, de agonia, de desespero. E quanto mais o rio vai se aprofundando, menos o profeta tem controle de si mesmo. A cada passo, a cura vai chegando aos ambientes interiores, pois o Espírito vai revelando aquilo que produziu a doença e vai aplicando o bálsamo que produz a saúde. Há um momento, contudo, que todo o controle é perdido, pois o “anjo” leva o profeta aonde ele quer. Este anjo é uma figura do próprio Jesus, uma teofania, uma alegoria que aponta que Deus deseja que entreguemos a partir de agora o nosso caminho em suas mãos e deixemos que Ele a partir de então passe a nos conduzir.

Em terceiro e último lugar, conforme o verso 9 e consecutivos, A CURA SÓ SE MATERIALIZA QUANDO O QUE ESTAVA MORTO GANHA VIDA NOVAMENTE. “por onde quer que entrar o rio viverá todo ser vivente que vive em enxames, e haverá muitíssimo peixe; porque lá chegarão estas águas, para que as águas do mar se tornem doces, e viverá tudo por onde quer que entrar este rio. Junto ao rio, às ribanceiras, de um e de outro lado, nascerá toda sorte de árvore que dá fruto para se comer; não fenecerá a sua folha, nem faltará o seu fruto; nos seus meses, produzirá novos frutos, porque as suas águas saem do santuário; o seu fruto servirá de alimento, e a sua folha, de remédio”. Estas águas que saem do santuário são o lavar restaurador e regenerador do Espírito Santo em nossas vidas. Elas se materializam simbolicamente através do batismo e, a partir de então, Deus nos concede o poder de sermos feitos Seus filhos, membros de Sua família. Tudo o que estava morto ao nosso redor começa a ser chamado a vida novamente. Por isso Paulo nos afirma: “se alguém está em Cristo é uma nova criação. As coisas velhas já passaram, tudo se fez novo”. Quando as torrentes de águas do Espírito de Deus chegam ao “mar morto” de nossas vidas toda sequidão, toda podridão, tudo o que estava destruído e sem vida tornará a existência, será revigorado, será renovado na força do Seu poder. E a árvore que o texto aponta prefigura a nossa própria vida, gerando frutos em abundância, sendo utilizada para trazer cura às nações da Terra.     

Talvez você já tenha corrido atrás de muitas coisas em busca de cura. Não sei se já freqüentou templos de “igrejas”, ou fez parte de religiões e filosofias, tudo em busca de salvação. Mesmo assim, talvez, suas chagas ainda estejam expostas, doloridas, inflamadas, e você continua desejando ardentemente encontrar uma “folha” que produza um “ungüento” capaz de lhe trazer alívio, cura e paz. Pois eu quero lhe afirmar que o que você procura é Jesus! Ele, por vezes, não está nos “templos” das “igrejas”, nem presente no compêndio das muitas religiões criadas pelos homens, mas é incapaz de desprezar um coração contrito ou abandonar um espírito quebrantado. Se você realmente deseja ser curado, chegue-se a Ele, diga-lhe sem cerimônias: “preciso de ti”, e receba a cura. É apenas isto... Sim. Simples assim. Pois aquele que ama a Deus viverá apenas pela sua fé.

Carlos Moreira

13 outubro 2010

Morte: um Tema para os Vivos


Diz o livro de Eclesiastes: “melhor é ir a casa onde há luto do que ir a casa onde há banquete, pois naquela se vê o fim de todos os homens...”, ou seja, quando estamos expostos à ambientes de morte acabamos refletindo melhor sobre os aspectos que estão relacionados à vida. Por isso é melhor estar na casa onde há luto, neste lugar de aflição e dor, de perda e de pranto, porque nele nos depararemos com dimensões existenciais que não encontramos facilmente em outros lugares. É lá que vemos de forma visceral sentimentos como a solidariedade, o afeto, a compaixão, o quebrantamento e a misericórdia, sendo esboçados espontaneamente, irrompendo do íntimo das pessoas, jorrando das fontes do coração.

Diante deste tipo de situação é impossível não nos questionarmos sobre a vida, sobre quem somos, como temos vivido, com quem nos relacionamos, como gastamos o nosso tempo. Eu não sei, mas talvez você desejasse ler algo que lhe catapultasse para cima, uma “auto-ajuda evangélica”, mas eu acredito que morte é um tema mais do que oportuno para ser tratado com os vivos. E digo-lhe isto porque a morte está permanentemente presente em nosso cotidiano, pois vida e morte são coisas que não podem ser separadas.

Não obstante isto, segundo a psicóloga Maria Helena Bromberg, “cada vez mais as pessoas têm dificuldade em falar e vivenciar a morte; os rituais de luto estão sendo segregados aos CTIs de hospitais e às salas de velório, organizadas de forma a tornar o contato com o morto (e a morte) o mais indolor possível”. A sociedade de consumo tenta dar à morte – ampliando o tabu que a envolve – uma nova embalagem, mais ascética e aceitável, tentando com isto contornar o seu impacto, amenizar seu significado, reduzir os transtornos que ela possa acarretar. O avanço da ciência e o tecnicismo dos nossos dias fizeram com que crescesse no mundo contemporâneo uma cultura de negação da morte.

É justamente isto que expõe o pensador Ernest Becker, a idéia de que o homem, a qualquer custo, faz um movimento para evitar a morte, cujo medo é uma condição universal humana. Max Scheler, o filósofo dos valores, diz que no ocidente todos nós fomos educados pelas tradições científica, capitalista e filósofo-mecanicista a compreender a morte como morte dos outros, um fenômeno externo que nada tem a ver conosco. O escritor Philippe Ariés, numa análise mais histórico-antropológica, fala-nos da evolução do comportamento humano constatando que a partir do século XII, havia maior dramaticidade e individualidade na maneira de considerar a morte. No século das Luzes, a morte começou a ser “colorida” com matizes românticas. Mas só a partir da segunda metade do século XX foi que toda referência ao tema começou a ser camuflada. A morte precisava ser escondida, por isso foi banida do espaço familiar. Outro grande expoente no tema, a psiquiatra Elisabeth Kubler-Ross, trabalha a idéia de que uma das razões para fugir de encarar a morte, é que, hoje em dia, morrer é solitário, mecânico e desumano. As pessoas são removidas de suas casas para hospitais e a família acaba por afastar-se do enfermo, que fica cada vez mais desamparado e triste.

Meu olhar simplista sobre a existência tem me levado a constatar que o medo que temos da morte acaba por nos tornar irresponsáveis para com a vida. Nós vivemos como se este conjunto do qual somos compostos, corpo, alma e espírito, fosse eterno. Não pensamos na morte, não falamos da morte, sequer cogitamos morrer, a não ser em ironias e anedotas. Evitamos funerais, hospitais, doentes terminais, e tudo aquilo, ainda que de forma subliminar, nos remeta ao ocaso. Achamos que somos de aço, mas, na verdade, somos apenas constituídos de osso. Benjamin Franklin escreveu: “o homem fraco teme a morte; o desgraçado chama-a; o valente procura-a; só o sensato a espera”.

Há um homem na bíblia chamado Ezequias, rei de Judá, que viveu durante os anos do profeta Isaías, por volta de 716 a.C. Considerado como um dos reis mais piedosos era também reto e temente a Deus, íntegro, fiel e irrepreensível. Talvez, por conta disto, é que Deus, na sua infinita misericórdia, tenha lhe avisado, por intermédio do profeta, que sua morte era iminente O texto na sua íntegra descreve a situação da seguinte forma, “... põe em ordem a tua casa, porque morrerás e não viverás”. Is. 38:1.

Inevitável não pensar: se Deus me desse este aviso, se eu estivesse um dia deitado na minha cama, na minha casa, como faço todas as noites antes de dormir, orando ao Senhor, e Ele me dissesse para eu por as coisas em ordem porque eu iria morrer, como é que eu reagiria? O que é que eu faria? Metódico como sou, provavelmente elaboraria uma lista de coisas que precisariam ser providenciadas. No checklist estariam ações do tipo: comunicar aos parentes e amigos; analisar e organizar a situação financeira; preparar a empresa para minha súbita saída; despachar pendências urgentes; e, por fim, talvez como um regalo, realizar, quem sabe, algum último desejo.
               
E você, o que faria ? O que estaria na sua lista? Você tem pendências? A quem avisaria? E as contas, como estão? Tem algo para consertar? Alguém para pedir perdão? E o trabalho? O compositor e cantor Paulinho Mosca, há alguns anos atrás, fez uma música para uma minissérie da Globo chamada “O Fim do Mundo”, onde cantava: ”o que você faria se só te restaste um dia ?”.

E é justamente aí, na hora do desfecho, no fim do trilho, no último lampejo de luz, que eu e você precisamos acordar e cair na realidade. É nesta hora, no momento de rever como se viveu a vida, porque a morte veio bater a porta que, não raro, um profundo vazio existencial toma conta de nós e um desespero sem precedentes nos invade.

Seria legítimo pensar: o que vou levar comigo quando o momento chegar? Separo roupa de inverno ou de verão? Levo dinheiro, cheque, cartão de crédito? Coloco na minha maleta escrituras de imóveis, contratos, algum carnê? Talvez o currículo atualizado, com os recortes de jornais e revistas onde apareci? Carrego algum pertence valioso ou algo de estimação? No dia da minha morte, levarei algo comigo?

Como seria bom que toda morte fosse como a morte de Ezequias, com conhecimento antecipado e tempo de preparação. O problema é que a morte normalmente não dá aviso, não manda recado e nem põe anúncio no jornal. Por isso lhe digo que há um grande equívoco quando pensamos que nós não vamos levar nada desta vida. Esta é uma frase que não reflete a verdade bíblica. Nós temos bagagem sim, e precisamos ter consciência disto, pois, quando Ele nos chamar, não teremos tempo para providenciar absolutamente nada.

Há três coisas que você levará consigo no dia da sua morte. Por isso, quero tentar lhe ajudar a prestar atenção na forma como você está arrumando a sua “mala”. Em primeiro lugar, segundo Mt. 16:27, VOCÊ LEVARÁ TODAS AS COISAS BOAS E RUINS QUE TIVER REALIZADO POR INTERMÉDIO DO CORPO. “Porque o Filho do homem há de vir na glória de seu Pai, com os seus anjos; e então retribuirá a cada um segundo as suas obras”. Nós que nos dizemos “reformados” temos a empáfia de afirmar que não fomos salvos pelas obras, mas pela fé. É verdade. Mas fomos, segundo Tiago, salvos para as obras, pois sem obras, do que vale a nossa fé? Temo por aqueles que se afadigam em muitos “trabalhos” eclesiásticos, pois esquecem-se que “o obedecer é melhor do que o sacrificar”. Senhor, em teu nome fizemos isto, aquilo, e aquilo outro, e mais ainda... E Ele vos dirá: “apartai-vos de mim vós que praticastes a iniqüidade”. O pensador nos afirma: “possuis apenas aquilo que não perderás com a morte; tudo o mais é ilusão”.

Em segundo lugar, conforme 1a. Co. 13:8, VOCÊ LEVARÁ O BEM E O MAL QUE TIVER VIVIDO EM TODOS OS SEUS RELACIONAMENTOS. “O amor jamais acaba; mas, havendo profecias, desaparecerão; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, passará”. Relacionamentos são eternos! Jesus deu a sua vida por pessoas, não por instituições ou por qualquer religião ou filosofia. É por isso que “o próximo”, na Bíblia – o outro – aquele que está ao meu lado, é tão precioso para Deus, seja ele mulher, esposo, filho, amigo, irmão, ou o mendigo agonizante, o cego na beira do caminho, a prostitua acuada no flagrante da multidão, o leproso excluído da sociedade. Não esqueça a segunda parte do grande mandamento: “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”!

Finalmente, em último lugar, conforme 1a, Co. 15:10, VOCÊ LEVARÁ CONSIGO TUDO AQUILO QUE VOCÊ SE TORNAR. Ricardo Gondim usa uma alegoria interessante para tratar deste tema. Ele afirma que no último dia, no último instante, tudo o que você é, tudo o que alcançou como construção no ser, tudo o que está impresso em seu caráter se cristalizará, como se uma foto fosse tirada de todas as suas dimensões existenciais, física, emocional, psíquica e espiritual e, naquele momento, cessasse o relógio de sua vida aqui na Terra, parassem todos os seus feitos. O filósofo diz: “quando morremos, deixamos atrás de nós tudo o que possuímos e levamos tudo o que somos”. Não é a toa que Paulo, aos Efésios, nos fala para caminharmos até chegarmos à dimensão da “Estatura de Cristo”, e em Romanos, nos oferece o alvo que temos que atingir uma vez que fomos predestinados para ser conforme a imagem do Filho. Você nasceu desconfigurado em relação aos propósitos de Deus, mas através do novo nascimento, depois de receber o Espírito, tem progressivamente sua consciência refeita para se tornar aquilo para o qual foi um dia sonhado pelo Pai, para produzir obras que dignifiquem o arrependimento.  

O livro de Eclesiastes nos ensina que a alma não cresce sem dor, e não se mantém sem alegria. Viver uma vida abundante é justamente isto: não se alienar nem fugir de dor alguma, mesmo que seja a dor da morte, mas, a partir de seus matizes, produzir significados que construam um ser melhor, com uma nova consciência e um coração pacificado na graça. Eu não sei o dia em que vou morrer. Aliás, não estou preocupado com isto. Me contento com o que diz Emil Cioran: “a morte é a coisa mais segura e firme que a vida inventou até agora“. Ademais, Jesus me ensinou que, no caminho, o importante não é como se morre, mas, sobretudo, como se vive.

 Carlos Moreira

11 outubro 2010

Semeadores de Sonhos


Eu tenho um sonho. O sonho de ver meus filhos julgados por sua personalidade, não pela cor de sua pele.” A frase famosa foi proferida no dia 23 de agosto de 1963, à sombra do Memorial de Lincoln em Washington, pelo rev. Martin Luther King, para uma multidão de mais de 250 mil pessoas, que formavam a maior concentração até então vista no país a favor dos Direitos Civis.

Luther King, líder negro pacifista e pastor norte-americano, nasceu em Atlanta, na Georgia e formou-se em Teologia na Universidade de Boston. Foi o principal líder do boicote nos transportes contra a discriminação racial nos Estados Unidos que durou 381 dias.  Em 1960 ele conseguiu liberar aos negros acesso aos lugares públicos. Suas lutas resultaram na promulgação da Lei dos Direitos Civis, em 1964, e na Lei dos direitos de Voto, em 1965. Seu sonho de ver negros e brancos vivendo unidos levou-o a ganhar, em 1968, o Prêmio Nobel da Paz. Talvez, até como já se esperava, lamentavelmente, logo em seguida, foi assassinado a tiros em Memphis, no dia 4 de abril de 1968, por um branco racista revoltado com suas idéias, que havia saído da prisão.

Quais são os teus sonhos? O que é que te faz levantar todos os dias para enfrentar a maratona cansativa que é a vida? Qual é o combustível que te move e te faz existir? Do que é que você alimenta a tua alma nos dias sombrios da existência? Mário da Silva Brito escreveu em 1916 “sonho, logo existo”. O filósofo e pensador, escritor do livro de Eclesiastes, diz que Deus colocou a eternidade no coração do homem. Parafraseando-o, eu diria: “Deus nos deu o maior dos motivos para sonhar”.

Todos os progressos obtidos pela humanidade vieram através de homens e mulheres que se dispuseram a sonhar. Thomas Edson estava cansado das velas, sonhava com um tipo diferente de luz. Grahambell queria falar a distância, Gutemberg pensava em livros em série, Pasteur queria aliviar as dores das pessoas, e Santos Dumond achou que já havia andado muito sobre a terra, agora queria voar como os pássaros. Jack Kerouac, falando deste espírito impetuoso de algumas pessoas, afirmou: “Alguns os vêem como loucos, nós os vemos como geniais. Porque as pessoas loucas o bastante para acreditar que podem mudar o mundo, são as que o mudam.".

Viver sem sonhos é ser empurrado pela mesmice um dia após o outro. Tenho visto uma coisa estarrecedora neste tempo: uma Igreja que não possui sonhos! Onde estão os patriarcas dos nossos dias sonhando com a terra prometida? Onde estão os profetas dos nossos dias sonhando com o messias? Onde estão os apóstolos dos nossos dias sonhando com a construção da Igreja e a evangelização do mundo? Deixe-me fazer uma confissão: estou farto de tanta realidade, de tanto pragmatismo!  Deixe-me, portanto, sonhar, por favor!

Talvez alguém me responda: ah, pastor, os sonhos dos nossos dias são outros... São sonhos de consumo, do Audi A4, do apartamento na Barra, da viagem a Europa, do iate ancorado no píer da marina. São sonhos de sucesso, de uma carreira bem sucedida de executivo de multinacional, de faturar milhões num grande empreendimento, do emprego público bem remunerado. Pastor, os sonhos de hoje são outros: é o desejo de cuidar da estética, é o dinheiro para a lipoaspiração, que embeleza o corpo ou, quem sabe, para a plástica corretiva, que modela o rosto. A verdade, é que se sonha com tudo, menos com os sonhos de Deus! E Deus tem sonhos? Tem! Só não tem tido quem os semeie sobre a Terra.

Há um personagem no livro de Josué que me impressiona e me inspira: Calebe. Com 40 anos de idade foi enviado a espiar a terra que Deus prometera dar ao povo Hebreu, logo após a saída do Egito. Ele olhou para aquele lugar e sonhou em possuí-lo. Olhou para a cidade de Hebron, a cidade alta, uma cidade que ficava no cume de uma montanha e afirmou para si mesmo: “você será minha”. Mas a Terra prometida mais parecia com uma casa do BNH, tinha sido dada, mas era preciso tirar o “invasor” que estava lá dentro. Calebe, todavia, não se ateve aos obstáculos, não se amedrontou diante dos gigantes. Ao contrário, desprezou as impossibilidades, desconsiderou que ali havia homens de guerra, mas apenas creu que Deus poderia lhe dar aquela terra, como prometera, e guardou aquele desejo.

Numa primeira leitura do livro de Josué, você pode, equivocadamente, imaginar que a conquista daquela terra foi fácil, uma arrancada avassaladora do povo Hebreu baseada em ações militares prodigiosas e estratégicas. Entretanto, não foi assim. Na verdade, a conquista foi lenta, e nem tudo foi conquistado. Em várias situações, houve a necessidade de se fazer aliança com os povos que ali já estavam para que a sobrevivência pudesse ser garantida.

Mais eu gostaria de resgatar alguns trechos da conversa de Calebe com Josué, o homem que havia substituído Moisés no comando do povo, após eles haverem entrado na terra prometida. Tratava-se de dois amigos de longa data, companheiros de lutas e de batalhas. Alegorizando o texto, posso eleger alguns elementos que transformam homens e mulheres comuns em pessoas que semeiam sonhos no chão da vida.

Js. 14:7 “Quarenta anos tinha eu quando Moisés, servo do Senhor, me enviou de Cades-Barnéia para espiar a terra, e eu lhe trouxe resposta, como sentia no meu coração”. OS SONHOS DE DEUS NASCEM NO CORAÇÃO. Deus não faz surgir sonhos em meio a metas pré-fixadas, a planejamentos elaborados, a estratégias e estatísticas mensuradas. Não. O sonho nasce primeiro no coração, não importando quão difícil seja para executá-lo. Aliás, normalmente, este tipo de sonho é sempre impossível de tornar-se algo concreto. Apenas a ação de Deus é que poderá trazê-lo a realidade, para que a glória seja sempre dEle, e de mais ninguém. Sonhos nascem no coração porque precisam, em primeiro lugar, de paixão para ser executados, não de estultícia ou sabedoria, eles precisam de um tipo de devoção que só se encontra no coração dos apaixonados, dos que se acham comprometidos com os propósitos de Deus.  

Js. 14:8 “Meus irmãos que subiram comigo fizeram derreter o coração o povo; mas eu perseverei em seguir ao Senhor meu Deus”. OS SONHOS DE DEUS SE ALCANÇAM PELA PERSEVERANÇA. Calebe tinha uma visão construída em sua mente. Ele sonhava com aquela montanha e iria possuí-la a qualquer custo. Ele não se impressionou com o que as pessoas falavam, não se deixou influenciar pelas notícias, pelas avaliações pessimistas, pelas análises catastróficas. Vejo as pessoas em nossos dias... Elas pedem algo a Deus e já desistem na semana seguinte porque não obtiveram o que desejavam. São incapazes de superar obstáculos, de não se ater as circunstâncias, apavoraram-se com os “gigantes”, no seu conforto, na sua letargia religiosa, jamais perseveram em prol de um objetivo maior. Não podem orar nem cinco minutos por dia, a Bíblia lhes dá coceira nas mãos. E assim, casamentos vão por água abaixo, filhos são perdidos para as drogas, empresas vão à falência, ministérios são interrompidos, igrejas são fechadas. Esquecem-se o que diz as Escrituras: “o que perseverar até a morte receberá a coroa da vida”. Sonhadores são pessoas perseverantes!

Js. 14:9 “Naquele dia Moisés jurou, dizendo: Certamente a terra em que pisou o teu pé te será por herança a ti e a teus filhos para sempre, porque perseveraste em seguir ao Senhor meu Deus”. OS SONHOS DE DEUS SÃO FIRMADOS POR PROMESSAS. Calebe sabia que aquela montanha seria sua porque Deus havia jurado em entregá-la a ele. Deus não é homem para mentir, nem filho do homem para se arrepender. Se Ele prometeu, irá cumprir. Quais são as palavras que influenciam a tua vida? As previsões da bolsa de valores? Os juros da economia? O preço do ouro? Uma promessa feita por um político, por um amigo, por seu patrão? Não acredito em cristãos que não conhecem as Escrituras, que não se debruçam sobre a Palavra de Deus para discernir aquilo que Ele nos prometeu. Os sonhos de Deus não se alcançam porque as circunstâncias são favoráveis, mas porque Ele disse que assim seria. Em todas as promessas de Deus há um “sim”, e o Seu justo viverá, sempre, pela fé, pois, se retroceder, o Espírito de Deus não estará nele. Gosto da frase de Fernando Teixeira: “nós somos do tamanho dos nossos sonhos”. Por isso encontramos tantos gigantes profissionais e, ao mesmo tempo, tantos pigmeus espirituais.

Js. 14:10,11 “E agora eis que o Senhor, como falou, me conservou em vida estes quarenta e cinco anos, desde o tempo em que o Senhor falou esta palavra a Moisés, andando Israel ainda no deserto; e eis que hoje tenho já oitenta e cinco anos; ainda hoje me acho tão forte como no dia em que Moisés me enviou; qual era a minha força então, tal é agora a minha força, tanto para a guerra como para sair e entrar”. OS SONHOS DE DEUS GERAM PROPÓSITOS PARA A EXISTÊNCIA. O que se pode esperar de um homem de 85 anos? Que ele queira subir uma montanha para desalojar uma cidade estabelecida? Você sabia que quando Calebe disse estas palavras os Anaquins – povo constituído por gigantes – habitavam a cidade de Hebron? Mas nada era obstáculo para ele, pois sua vida perseguia aquele objetivo, aquela meta, aquele alvo. Sim, aquele homem tinha um motivo para se levantar todos os dias. Ouso afirmar: quem não tem sonhos para sonhar, não tem motivos para viver. Vejo as pessoas sonhando com coisas fúteis e, quando as conseguem, ficam sem referencial na vida. São sonhos de coisas passageiras, coisa que a traça e a ferrugem consomem. De que vale ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma, disse Jesus. Por isso, Robert de Montesquiou afirmou: “da-me, Senhor, o sonho meu de cada dia”.
    
Js. 14:12-14 “Agora, pois, dá-me este monte de que o Senhor falou naquele dia; porque tu ouviste, naquele dia, que estavam ali os anaquins, bem como cidades grandes e fortificadas. Porventura o Senhor será comigo para os expulsar, como ele disse. Então Josué abençoou a Calebe, filho de Jefoné, e lhe deu Hebrom em herança. Portanto Hebrom ficou sendo herança de Calebe, filho de Jefoné o quenezeu, até o dia de hoje, porquanto perseverara em seguir ao Senhor Deus de Israel”. OS SONHOS DE DEUS TÊM A BENÇÃO DE DEUS. Quem poderia resistir a Calebe, um homem com um sonho de Deus no coração? Quem poderia parar aquele homem que aos 85 anos ia em busca do sonho de uma vida inteira? Ele não olhou para a montanha, para os gigantes, para as circunstâncias, para as impossibilidades. Apenas creu que poderia vencer e subiu a guerrear. Onde estão os Anaquins que lutam contra você? Quais são as cidade fortificadas que precisam ser destruídas? Quais adversários precisam ser subjugados. Eu profetizo, em nome de Jesus, hoje, comece a sonhar e conquiste a Hebron da tua vida!

Albert Schweitzer escreveu: “A tragédia do homem é o que morre dentro dele enquanto ele ainda está vivo”. Eu tenho vergonha de pertencer a uma geração tão apática, tão conformada, tão anestesiada, que se “enquartela” dentro de suas igrejolas e fica vendo o tempo passar. Uma igreja que não sai às ruas, que não tem causas, que tem carismas, mas não tem caráter, que tem sonhos mesquinhos, toscos, pálidos, pueris, fúteis. Vejo os jovens, eles estão perdidos, sem líderes, sem referencial, sem sonhos! Onde estão os Calebes dos nossos dias? É tempo de sonhar! Sonhemos antes que seja tarde demais...

Carlos Moreira

09 outubro 2010

Consumido pela Culpa

Sem pecado, não há transgressão. Sem transgressão, não há punição. Sem punição, não há culpa. Está comprovado, pela escuta psicoterapêutica e pela leitura de nossa história, que a culpa existe desde nossa origem, faz sofrer, e sua recordação nos acompanha em nossa trajetória existencial.


Para definirmos de forma clássica a culpa, podemos afirmar que ela é algo que se refere à responsabilidade atribuída à pessoa por um ato que provocou prejuízo material, moral ou espiritual a si mesma ou a outrem. Segundo Wikipédia, no sentido subjetivo, a culpa é um sentimento que se apresenta à consciência quando o sujeito avalia seus atos de forma negativa, sentindo-se responsável por falhas, erros e imperfeições. No sentido objetivo, ou intersubjetivo, a culpa é um atributo que um grupo aplica a um indivíduo, ao avaliar os seus atos, quando esses atos resultaram em prejuízo a outros ou a todos.

Provavelmente foi Freud quem mais fez análises sobre os mecanismos geradores de culpa. Para ele, a idéia de uma onipresença da culpa, que se manifesta de múltiplas formas e que é fundamentalmente inexpiável, é o mais importante problema no desenvolvimento das sociedades humanas. Freud analisa em obras como Totem e Tabu e Mal Estar da Civilização, as diversas etapas de constituição da culpa, indo desde a angústia social até os sentimentos inconscientes.

Você se sente culpado por algo que fez? Você se sente culpado pelo destino de outros? Já experimentou um vazio no ser por pensar que poderia ter feito algo de forma diferente, ou tomar outra decisão a respeito de determinado assunto, ou mesmo ter escolhido outro caminho ou propósito na vida? Eu não tenho dúvidas em afirmar que a culpa é uma das mais poderosas forças que existem. E mais, sei que a serpente se alimenta do pó da terra, ou seja, das produções emocionais e psíquicas dos seres humanos, em particular daquelas emanadas de seus desencontros e contradições. Na prática, isto cria um círculo vicioso tal que a pessoa passa a se “alimentar” da própria culpa que produz.

Há na Bíblia Sagrada um herói da fé que experimentou a culpa em todas as suas dimensões. Seu nome é Sansão. O desfecho de sua vida, deste juiz de Israel, homem dotado de uma força sobrenatural, parece inicialmente trágico e melancólico. Sua história começa durante um ciclo de apostasia e cativeiro do povo Hebreu. É em meio a estas circunstâncias que Deus o levanta para iniciar o processo de libertação.

Numa primeira olhadela, Sansão nos parece um homem com muito carisma e pouco caráter. Mesmo tendo sido consagrado desde o ventre materno por um voto de Nazireu, parece ter passado a vida se esquivando de suas responsabilidades. Solitário, tem dificuldades em estabelecer vínculos afetivos e, mesmo estando à frente de seu povo durante 20 anos como juiz, não lhe serve como exemplo nem referencial. Vive de forma questionável, quebra princípios e é exageradamente temperamental, o que acaba lhe custando à morte da esposa e do sogro em um conflito com os filisteus.

Se fizermos uma análise simplista, apenas olhando para os seus feitos, sem discernir o que por vezes acontece no coração, teremos a percepção de que Sansão é um fracassado, alguém que terminou seus dias na situação mais humilhante e degradante que um ser humano pode experimentar. A Bíblia Sagrada, todavia, o inclui na listas dos heróis da fé do livro de Hebreus, onde estão homens da envergadura de Davi, Moisés, Abraão e Elias. Assim, penso, Sansão é avaliado não por aquilo que ele fez, mas, sobretudo, por quem ele por fim se tornou. O sábio do Eclesiastes diz que “melhor é o fim das coisas do que o seu começo”. Gosto também da frase que diz que “numa maratona, não importa como você começa, mas sim como você termina”.

O texto do livro de Juízes que relata o desfecho da vida de Sansão, diz que “mais foram os que ele matou na sua morte do que os que matou em sua vida”, ou seja, é na morte de Sansão, e não na sua vida, que ele se notabiliza como herói da fé. É apenas na sua morte que ele, enfim, cumpre o propósito para o qual lhe foi dada a vida, ou seja, ser a vara do juízo de Deus contra os filisteus. Esta análise não é minha, ouvi-a numa extraordinária mensagem do Ricardo Gondim.

Eu creio que, no final dos seus dias, Sansão era um homem atormentado. O capítulo 16 de Juízes nos revela o estado derradeiro de Sansão: “Os filisteus o prenderam, furaram os seus olhos e o levaram para Gaza. Prenderam-no com algemas de bronze, e o puseram a girar um moinho na prisão”. Nestas circunstâncias, olhando para sua trajetória de vida, para as escolhas dramáticas que fez, para o desprezo com o sagrado, para a decepção que ele se tornara para seus pais, para seu fracasso diante do próprio povo, para a traição de sua mulher e, finalmente, para o seu destrato para com Deus, o grande Sansão sucumbiu em meio à culpa.

Eis agora Sansão, cego dos olhos, amarrado a grilhões de bronze, girando em torno de uma roda de moinho. Mas é justamente em meio à calamidade, quando ele perde o que lhe é caro, a sua liberdade, a sua honra, a sua fama, as pessoas a quem ama, que algo começa a se construir em seu coração. A Sansão não resta mais nada a não ser olhar para dentro de si mesmo e tentar, através do arrependimento que pacifica o ser, encontrar, ainda que tardiamente, um propósito para sua existência. E é justamente a partir daí que Deus age para, na sua morte, matar mais inimigos do que ele fizera em toda a sua vida.


Para não perder a riqueza da história, me ative apenas ao versículo 21 para fazer uma pequena análise sobre o nascedouro e os desdobramentos gerados por processos de culpa, utilizando como “pano de fundo” a tragédia de Sansão. Vou usar seu estado “terminal”, com algumas alegorias, para trazer as idéias para o “nosso mundo”, para o “nosso tempo”.A primeira coisa que observo é que Sansão, após ser preso pelos filisteus, teve os seus olhos vazados – ficou cego. A metáfora me remete ao fato de que A CULPA ELIMINA NOSSA CAPACIDADE DE ENXERGAR A VIDA. Sansão agora era apenas um “campeão” humilhado, um homem sem direção, sem “visão”, sem sonhos, sem horizontes. Muitas das escolhas que fazemos na vida irão desembocar em processos de culpa. Decisões equivocadas, um temperamento iracundo que inviabilizou relacionamentos afetivos, a devassidão existencial encarnada na vida, uma separação conjugal – por vezes concretizada de forma humilhante e penosa, a dissolução da família, que é um dos maiores traumas que alguém pode sofrer, ou os que se sentem culpados pelo destino dos filhos, desterrados na vida, para os quais nunca foram referencial. O fato é que a culpa cega, consome a alma como uma comichão de dia e de noite, corrói o ser como a ferrugem “come” o ferro, nos impede de ver que ainda existem outras possibilidades! Por isso Paulo afirma: “se alguém está em Cristo é uma nova criatura; as coisas que foram feitas já passaram, agora tudo pode ser construído de outra forma”. (tradução livre).

Outra coisa que aparece no verso 21 é o fato de Sansão ter sido prezo pelos filisteus com algemas de bronze. Eis aí, de forma alegórica, uma outra conseqüência: A CULPA NOS ENCLAUSURA NUMA MASMORRA DE ANSIEDADE E MEDO. Sansão era um guerreiro imbatível, impetuoso, livre para ir e vir, mas agora, tornara-se apenas um homem preso a grilhões, indefeso, inseguro. As amarras que o prendiam não eram de bronze, mais “cordas de solidão”, de desespero, laços de agonia, “algemas de medo”. A culpa, não raro, aprisiona as pessoas em si mesmas e as impede de crescer para fora e para dentro. É como se a vida ficasse “parada naquela estação”, parafraseando Marisa Monte. Estes grilhões se manifestam de várias formas: como distúrbios emocionais a partir de experiências que produziram culpa (estupro, violência física, abusos); pessoas que se tornaram inseguras e que não conseguem se posicionar na vida, pois foram alvo de críticas mordazes, comentário maldosos, humilhações; pessoas que foram exploradas com manipulações e chantagens; religiosos que foram ensinados a partir de uma espiritualidade neurotizada, calcada em dogmas, ritos e mitos do “sagrado”, gente que desenvolveu uma fé patológica, doentia, que tem em Deus a figura do juiz acusador.

Finalmente, a partir do texto de Sansão, ainda que metaforizado para uma aplicação que nos seja mais próxima, vejo A CULPA PRODUZINDO INSUMO EXISTENCIAL PARA A DEPRESSÃO. Diz o texto que o Juiz de Israel além de ter os olhos vazados, de ter sido algemado a grilhões de bronze, foi acorrentado para passar seus dias a girar uma roda de moinho. É a vida perdendo por completo toda sua significação e propósito. Imagine a mesmice sendo servida como prato a cada manhã. Sansão agora é vítima de uma rotina pavorosa, pois ele é constituído escárnio antes os seus inimigos, figura de deboche para o povo. Nestas circunstâncias, sem perspectivas existenciais, aprisionado num calabouço de medo e dor, vivendo a mesmice de dias onde todo o apetite pela vida se foi, o que resta é abraçar a dessignificação completa do ser. Os dias de Sansão já não possuem cor, sabor ou propósito. Tudo o que lhe resta é dar voltas em torno de si mesmo, girar a roda de moinho que se desloca em torno de um mesmo eixo e que nunca lhe leva a lugar algum.

Como pastor, tenho encontrado gente consumida pela culpa. A culpa que roubou a visão da vida, que tolheu os sonhos, que subtraiu os desejos. Encontro gente que parou no tempo, não consegue se livrar de cenas que, como tatuagens, ficaram gravadas na alma, se alojaram até no subconsciente, são demandadoras de medos infundados, de patologias das mais diversas. Encontro ainda os que sucumbiram as suas próprias escolhas e decisões, os deprimidos, os caídos, os que beijaram o chão na lona do ringue da vida. Sim, eu os encontro aos montões, gente moída, excluída, sofrida, gente que perdeu o sentido de ser gente.

Eu creio que as feridas feitas na alma não cicatrizam nem rápida nem facilmente. O perdão é parte do processo de cura, sobretudo quando ele deve ser liberado para aplacar a dor daqueles que nos feriram. Por outro lado, ser perdoado é uma dádiva que a vida reserva para poucos, pois poucas são as pessoas suficientemente generosas para conceder a alguém que lhe magoou o direito de nascer novamente em sua vida. Aos culpados, como eu, deixo as palavras do profeta Isaías. Espero que elas sejam capazes, como foram para mim, de iniciar a grande jornada para dentro de você mesmo, na busca da pacificação e do perdão. “Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados”. Isaías 53:5

Carlos Moreira


07 outubro 2010

Torre de Papel

Um túmulo basta agora àquele para quem não bastava o mundo inteiro”. Esta é a frase que está escrita no epitáfio de Alexandre III, Rei da Macedônia, dominador do  mundo, imortalizado pela história como “Alexandre o Grande”. 

O monarca, nascido em356 A.C., foi educado pelo filósofo Aristóteles, que lhe ensinou variadas disciplinas como retórica, política, ciências físicas e naturais, medicina, geografia, além de história grega. As conquistas de Alexandre são notáveis, pois ele era um homem profundamente obstinado, nada parecia lhe saciar o apetite. Dominou a Grécia, derrotou o império Persa e tomou o Egito.

Por fim, partiu para a conquista definitiva do oriente, tentando invadir a Índia. Todavia, com suas tropas cansadas de tantos anos de batalhas, decidiu regressar à Pérsia, numa viagem penosa na qual foi acometido de uma febre desconhecida que o levou a morte com apenas 33 anos de idade. O império que com tanto esforço edificou, começou a desmoronar, pois, só um homem com suas qualidades poderia governar território tão amplo e complexo, mesclado por povos e culturas tão diferentes.

Ambição é o desejo que o ser humano possui por algo grande e que planeja conquistar, muitas vezes não se importando, para atingir seu objetivo, em prejudicar a outros. O combustível da ambição é a ganancia, um desejo genérico de coisas grandiosas, como fortuna, glória, honrarias e poder. Segundo Edward Bach, “a ambição é uma negação da liberdade de toda alma. Ao invés de reconhecer que cada um de nós existe para desenvolver livremente suas próprias diretrizes, a personalidade ambiciosa deseja ditar, moldar e comandar, tentando, assim, usurpar o poder do Criador”.

Diante de prerrogativas tão poderosas, surge a questão: como sobreviver, no mundo em que vivemos, sem ter ambição? James Champy, autor do Livro “O Arco da Ambição”, afirma que “em nossa sociedade precisamos de pessoas ambiciosas, gente impelida por um poderoso desejo de mudar as coisas à sua volta e também o seu próprio destino”. Este mesmo paradigma está presente no mercado de trabalho. Empresas precisam encontrar pessoas capazes de gerar resultados, correr riscos, gente que coloque a carreira em primeiro lugar na vida e que, para atingir o sucesso profissional, esteja disposta a fazer qualquer sacrifício.

Vivemos dias muito difíceis no cristianismo. A infiltração da teologia da prosperidade no meio evangélico mudou o eixo de significação de vários pressupostos da fé e criou uma geração de pessoas dispostas a vencer no mundo, e não a vencer o mundo, como queria Jesus. Este novo contingente de crentes traduz-se numa repaginação das teses do sociólogo alemão Max Weber segundo a qual os calvinistas buscavam no sucesso econômico a evidência de sua eleição divina.

A Bíblia Sagrada, no episódio novelesco da Torre de Babel, mostra-nos, numa cultura tão distante e num mundo tão diferente do nosso, até onde pode ir à ambição humana. Ela conta-nos que em tempos remotos, num vale da Mesopotâmia, os clãs dos descendentes dos filhos de Noé – Sem, Cam e Jafé, em sua marcha para o Oriente, haviam, enfim, encontrado uma terra para se fixar. O lugar ao qual haviam chegado era a planície de Sinear, onde hoje é o Iraque. Noé e sua família traziam impregnada na memória a destruição causada pelo dilúvio, pois tinham sido testemunhas da grande destruição que sobreveio sobre os seres viventes em conseqüência do juízo de Deus. No mundo que havia sido destruído, o amor se afastara em definitivo do caminho dos humanos e a maldade, de todas as formas e meios, imperava absoluta.

Pois bem, eis aqui, diante dos olhos, estava a chance de um novo começo! Eis a possibilidade de escrever novos mapas, novas trilhas, de fazer projetos diferentes, de eleger outras prioridades para a vida, de semear valores e verdades no ser, de alimentar o coração de sonhos e de esperança. Quem não gostaria de uma oportunidade como essa? Diga-me com sinceridade, quem desprezaria isto?

O que passou, passou. Os erros cometidos podem ser concertados. As mágoas podem ser perdoadas. Os medos podem ser superados. As dores podem ser amenizadas. Agora, tudo pode ser feito de forma diferente! Mas não foi assim que aconteceu... Montesquieu diz: “Um homem não é infeliz porque tem ambições, mas porque elas o devoram”. Não era suficiente reconstruir a vida de forma simples e boa. Não era suficiente rever a existência, os valores, as escolhas, as prioridades e dar aos dias uma nova significação. Não bastava o coração pacificado e agradecido por tão grande salvação. Não, eles queriam mais. Eles queriam mais...

Foram em busca de saciar um tipo de apetite que só pode ser saciado pela morte, pois a boca dos ambiciosos só fica cheia com a terra da sepultura. Não bastava construir uma aldeia, com casas singelas, eles queriam uma cidade. Mas não bastava uma cidade, com sua agitação e efervescência própria, eles queriam nela uma torre. Sim, uma torre que os elevasse acima das nuvens. Mas não uma torre qualquer, mesmo que ela subisse além de toda altura possível ou imaginável, eles queriam uma torre que fosse até o céu, quem sabe, para sentarem-se junto ao Todo-Poderoso, ser como Deus.

Construíram uma torre, Babel, mas era apenas uma torre de papel. Diz o pensador que nada tem quem nada lhe basta. Eles queriam mais... Queriam escrever seus nomes na história, queriam notabilizar-se como empreendedores de uma obra única, inovadora, queriam empreender, ir aonde ninguém ainda havia ido. Os homens e seus sonhos de grandeza e poder... 

E você meu amigo(a)? O que você quer? O que tem buscado? Como ocupa os seus dias? No que está firmado teu coração? Qual é o teu maior compromisso na terra? O que você persegue? Quem sabe, talvez, você também esteja construindo “torres”. Quem sabe você está em busca de ter o nome reconhecido, ser capa da revista da empresa, ser entrevistado num jornal de grande circulação. Quem sabe você quer marcar a história com feitos notáveis, quer chegar ao topo da pirâmide, quer ir aonde ninguém ainda foi, ganhar dinheiro com alguma invenção, ser o criador de um novo negócio, um novo produto, escrever seu nome na história. Quem sabe??...

Sim, talvez você esteja nesta empreitada da vida, afadigado, atarefado, planejando, empreendendo, construindo. Sua “Babel” está em plena execução e, para torná-la real, nada mais lhe importa: família, amigos, nem mesmo Deus encontra tempo em sua agenda ocupadíssima. Tenho apenas uma coisa a lhe dizer, e digo-lhe porque já estive no “pináculo do templo”, transformando “pedras em pães. Sim, eu já fui workaholick – viciado em trabalho – profissional e de igreja – e o resultado foi desastroso. Perdi quase tudo o que tinha; perdi dinheiro, minha alma e minha fé. Apenas minha mulher me fez uma concessão de ficar comigo, caso as coisas mudassem. Não fosse isso, teria perdido também a família. Cuidado, amigo(a), para sua torre de “Babel” não se transformar numa torre de papel!

Cuidado, eu lhe digo, pois o desejo de construir uma vida boa e confortável é muitas vezes separado por uma tênue linha que nos revela, do outro lado da moeda, a escravidão que pode ser produzida pela compulsão desenfreada por conquistas megalomaníacas. Os filhos de Noé e seus descendentes não estavam satisfeitos com suas vidas. Queriam mais... E Deus percebeu tudo isso... Viu que os humanos não querem ser, mas ter, estavam alimentando o coração de ambições, não de verdades, queriam chegar até a “porta de deus”, que é a tradução do nome Babel.

De fato, eles queriam penetrar na morada do Todo-Poderoso, quebrar o limite entre o humano e o divino, o profano e o sagrado, a Terra e o Céu. Já não era a divindade que descera a Terra, agora, o próprio ser humano invadiria o Céu, e tudo graças à obra de suas mãos. Eu penso que é legítimo que nós possamos encontrar uma “planície” e nela nos estabelecer. Todos precisam achar esse platô na existência, esse chão, e Deus se agrada disso. Mas daí a construir “torres” há um abismo enorme.

Finalizo com o pensamento de Nietzche quando ele afirma que “um homem que aspira a coisas grandes considera todo aquele que encontra no seu caminho, ou como meio, ou como impedimento”. O Deus a quem sirvo nasceu numa manjedoura, não tinha onde reclinar a cabeça, morreu pobre e não deixou herança. No seu currículo de realizações apenas semeou o bem, amou pessoas, serviu transeuntes, acolheu desgraçados, deu-se em prol de muitos, entregou-se a si mesmo para que, na morte do “grão”, pudesse germinar vida, paz, reconciliação e esperança. Eis aí uma grande ambição...

Carlos Moreira

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