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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.

31 dezembro 2013

Que me Importa...




O ano termina hoje. Muda o calendário, mas segue a vida. Os problemas de 2013, garanto, estarão presentes em 2014. O que pode dar a cada um deles nova significação serão suas atitudes. Não há nenhum tipo de magia na virada de um ano.

No dia 31 de dezembro, é praxe de algumas instituições e empresas fecharem para fazer balanço. Com muitas pessoas também é assim... Elas tentam fazer um encontro de contas com a vida, analisam a contabilidade dos dias, esmiúçam lucros e planos, perdas e danos, e chegam assim ao resultado da operação. Por vezes, ele é positivo, mas, não raro, acaba-se por perceber que o ano trouxe mais tristezas do que alegrias, deixando o saldo da conta no vermelho.

Quando isso acontece, nossas ambiências interiores são invadidas por aquele sentimento de fracasso, de vazio. Olhamos para trás e verificamos que não valeu a pena. Gastamos tempo, dinheiro, esforços, gastamos vida, e o retorno, simplesmente, não veio. Plantamos e não colhemos, amamos sem ser correspondidos, trabalhamos muito para pouco resultado, corremos e não conseguimos alcançar, choramos, mas não houve quem nos consolasse.

Contudo, estou decidido: não vou guardar nenhum tipo de sentimento ou alimentar qualquer tipo de pensamento que não seja argamassa para construir escadas e não muros. Em 2014, farei ainda melhor do que fiz em 2013! Trabalharei com mais paixão, servirei melhor as pessoas, gastarei mais tempo com meus amigos, aprenderei a sorrir mais e a reclamar menos, pois, que me importa se nem tudo saiu, exatamente, como eu queria?

Que me importa se eu amei e não fui correspondido? Amor é uma coisa que nunca se esgota, quanto mais agente dá, mas ele em nós se renova. Além do que, o amor não faz balanço, nem acerto de contas, se há desigualdades, ganha sempre quem deu mais de si ao outro. Se você amou sem ser amado, se se doou e não foi compensado, se deixou-se gastar por quem não lhe deu o devido valor, que importa?! Melhor foi amar do que represar as fontes do coração e tornar árida a alma. Quem dá o melhor de si, sempre receberá como paga da vida paz e bem para o ser.
    
Que me importa se o governo me frustrou e deixou aquela sensação de que fui roubado? Creia, não será sua incompetência que irá me fazer sonegar, ou deixar de agir com responsabilidade. Seu descaso não me levará a burlar as leis ou desrespeitar a constituição. Pelo contrário, minha revolta será a minha fome e sede de justiça, minha indignação se revelará pela minha honradez, ainda que todos façam errado, e torçam para que dê errado, eu permanecerei fiel aquilo em que acredito. Farei uma revolução primando pela verdade, começando por mim mesmo, darei o exemplo de que agir de forma correta não é diferencial, é obrigação!

Que me importa que eu não tenha ganhado com minha profissão aquilo que entendo ser justo? É triste, mas eu sei que muitos estão terminando o ano mais pobres e endividados. Num mundo em que as pessoas são julgadas pelo que possuem e não pelo que são, é de desanimar. Mas fazer o quê? Mudar de atividade? Tentar a ilicitude? Não. É certo que eu ganhei menos do que merecia, mas com minha atividade ajudei a tornar a sociedade um pouco melhor. Não fiz das circunstâncias um trampolim para o oportunismo, nem esmaguei aqueles que estavam sob minha gestão. Não maximizei lucros economizando com a justa remuneração de outros, nem fiz intrigas ou me submeti a jogos de poder. De uma coisa, todavia, estou absolutamente certo: busquei fazer o melhor que pude com os dons e habilidades que recebi. Nem sempre o resultado daquilo que fazemos é financeiro, por vezes, ele se traduz por um simples sentimento de dever cumprido.
 
Que me importa que eu não tenha sido o mais esperto, ou o que tirou mais vantagens das oportunidades? Ora, se para tal era preciso negar valores, barganhar princípios, lotear o coração por preço e tornar a consciência venal, melhor que tenha sido assim mesmo. Estou orgulhoso de ceder a posição para alguém mais velho, ou de dar oportunidade para o outro me passar no trânsito, ou ainda de não ter feito negócios que não reconheçam os direitos da propriedade e autoria. É provável que o mundo não tenha ficado melhor com minhas pequenas iniciativas, mas eu certamente fiquei! A esperteza, por vezes, é inimiga da destreza, e eu prefiro saber fazer, do que já levar feito.

Que me importa se eu me dei, se fui amigo, se agi com lisura, e não fui compensado ou mesmo compreendido? Eu sei que a ingratidão é coisa doída, que fere o ser com a aspereza do metal que rasga a carne, mas eu aprendi que é melhor dar do que receber. Como dizia a velha canção de Dominguinhos: “amigos a gente encontra...”. Eu sei que dá medo abrir a casa e o coração, e mais medo dá quando tornamos alguém íntimo do nosso ser e ele nos rouba a privacidade de existir entre cortinas de seda. Há os que te apunhalaram com o punhal da língua afiada, e os que te desprezaram em meio ao aguaceiro que caiu na escuridão da noite. Não te deixes abater pelo amor que te foi negado, segue resignado que o amanhã trará novamente o sol.
    
Que me importa se a minha fé parece utopia e as minhas crenças me levam a andar na contramão? Ora, não há prêmio sem lágrimas, nem vitória sem luta! Em meio a uma sociedade baseada na imagem, eu quero ser real, em meio a uma geração que deseja apenas ser feliz, eu quero ser perfeito, as voltas com um tempo onde consumir é a marca de existir, eu quero continuar repartindo. O Deus em quem acredito é diferente dos demais, ele chora, sorri e sangra. Abriu mão da sua glória para tornar-se homem comum. Não se parece com um super-herói, pois não sabe lutar, não tem uma armadura e sua única arma é o amor. O símbolo da minha fé não é uma espada, ou uma estrela, mas uma cruz. Eu sei: estou mesmo indo no contra-fluxo, mas a fé é mesmo absurdo...
 
E por tudo isso, e muito mais, que eu conto outro dia, feliz 2014 para você. Se 2013 não foi como você pensava, ou gostaria, na verdade, foi como deu para ser, foi como podia...  

Carlos Moreira

30 dezembro 2013

Feliz 2014!



Com esta adaptação de "Águas de Março", de Tom Jobim, me despeço de 2013. Em 2014, vamos trabalhar para reverter tudo isso!

É voto, oferta, é o fim do caminho
É um bando de loucos, é um crente tolinho
É pastor que é bandido, é mentira sem dó
Distorção da Escritura, é o laço sem nó

Oração que é encanto, é unção financeira
É o mergulho no manto, culto da sexta-feira
É unção do pulinho, é joelho no chão
É o mistério profundo, é uma revelação

É o líder caindo, é promessa em ladeira
É fofoca, é inveja, é um queira ou não queira
É a chuva chovendo, é conversa fiada
É profeta que mente, é oração enguiçada

É na fé, é na unção, evangelismo na feira
Livramento na rua, é a marcha estradeira
É um anjo no céu, uma arca no chão
Um shofar, uma bíblia, e óleo pra unção

Isso é o fundo do poço, isso é o fim do caminho
É o vinho sem mosto, é um povo fraquinho
Vai tu hoje, eu que prego, é exegese sem ponto
Púlpito amordaçado, a mensagem é um conto

É o povo, constrangido, é a prata brilhando
É o dízimo com medo, devorador chegando
Lenga-lenga, euforia, mente cauterizada
É catarse, é doidice, é o fim da picada

É o projeto do templo, é campanha, é um drama
Pra sair do atoleiro, é a lama, é a lama
É a rosa, é o lenço, a chave do amanhã
É demônio caindo, tá amarrado satã

Com o Evangelho é possível mudar tal situação
Pois tem promessas de vida pro teu coração

Me contaram de um tal, crente que é mané
Deu de oferta a casa, quase perdeu a mulher

Com o Evangelho é possível mudar tal situação
Pois tem promessas de vida pro teu coração

Mau, queda, fim, caminho
Rezo, pouco, mas não tô sozinho
Creio, faço, vida, sol, noite, morte, luz, suor  

Com o Evangelho é possível mudar tal situação
Pois tem promessas de vida pro teu coração


Carlos Moreira

26 dezembro 2013

Quando o Amor não é o Bastante



Em Recife, o tradicional Quartel do Derby, sede do comando da Polícia Militar, foi palco de duas grandes celebrações nestes dias natalinos: uma no dia 24 de dezembro, que reuniu os católicos na tradicional “Missa do Galo”, e a outra, no dia 25, que reuniu os evangélicos para o culto: “Que Haja Paz na Terra”. 

As celebrações reuniram milhares de pessoas e tiveram momentos de fé, alegria, e gratidão a Deus. Também foi possível apreciar, em ambos os encontros, as belíssimas apresentações de grupos musicais, além das homilias que lembraram o nascimento de Jesus. A mensagem dos católicos foi proferida pelo arcebispo de Recife e Olinda, Dom Fernando Saburido e a dos evangélicos, pelo presidente da Assembléia de Deus local, Pr. Ailton José Alves 

Tudo foi muito bonito! Só uma coisa, todavia, não foi possível de se ver: os dois grupos celebrarem este momento de gratidão a Deus juntos! Sim, para tristeza dos que percebem o que acontece nos bastidores da religião, ambas as confissões não puderam, com suas ações, anunciar a maior de todas as mensagens: a Boa Nova do Evangelho que afirma que Deus encarnou entre os homens para dar-lhes a esperança da Salvação. 

Não foi possível para os católicos, ter os evangélicos em sua celebração, assim como não foi possível para os evangélicos, ter os católicos na sua. É que este encontro poderia ser explosivo! A inimizade é histórica, e desperta os mais hostis sentimentos. Ambos os grupos, inclusive, atrevem-se a se considerar a única e verdadeira igreja de Jesus Cristo sobre a Terra. Também é fato que os dois reivindicam para si a chancela dos céus e o direito de propriedade ao uso do nome de Deus. 

É um contra-senso, mas é real! A posição assumida por estas duas igrejas, contudo, vai violentamente de encontro ao ensino de Jesus. Em sua oração sacerdotal, em João capítulo 17, o Galileu afirmou: “Pai, eu oro para que eles sejam um, assim como Tu ó Pai e Eu somos um... Faço isso para que o mundo creia que Tu me enviastes”. Para o Cristo de Deus, o amor bastava. Mas, para os cristãos...

De fato, uma celebração conjunta não seria mesmo viável. O bispo católico, por exemplo, iria ser criticado por suas vestes sacerdotais e, ao mesmo tempo, o pastor evangélico, por sua homilética mais exaltada. Não seria possível também realizar a eucaristia, pois um grupo crê na transubstanciação e o outro se divide em posições teológicas distintas, tais como: um memorial, a consubstanciação e a presença mística. Em resumo, no altar que celebra a Deus, se um grupo se fizesse presente, o outro seria excluído. 

Outro problema que precisaria ser enfrentado diria respeito às canções a serem entoadas. É que os evangélicos rechaçam a adoração a figura de Maria, mãe de Jesus, e se recusariam a cantar algo que fizesse alusão a ela. Ao mesmo tempo, os católicos possuem aversão aos líderes da Reforma do século XVI, que compuseram alguns dos belíssimos hinos que estão presentes no hinário protestante. 

E assim, por total impossibilidade de celebrarem conjuntamente o nascimento do Deus que se fez homem, em Recife, católicos e evangélicos tiveram duas celebrações. Mas é importante que se diga que Jesus encarnou para salvar a humanidade, da qual fazem parte católicos, evangélicos, espíritas, budistas, islâmicos, judeus, pois, conforme a Escritura, a única religião de Deus é o amor. 

Portanto, na celebração do Natal, os cristãos podem até dizer uma parte da passagem do Evangelho que afirma: “Glória a Deus nas alturas!”, mas, em definitivo, não podem dizer a conclusão da citação que expressa: “E paz na Terra aos homens de boa vontade.”.

Carlos Moreira

17 dezembro 2013

De que são Feitos os Homens?



Certa vez me fizeram acreditar que o homem havia sido feito do barro. Mas que nada! Eu sei que o homem veio da borracha. Ele nasce tão flexível, e que incrível, pode até retorcer-se. Não fosse de borracha, ainda nos primeiros anos, sucumbiria. Quedas frequentes, insistentes, o matariam sem constrangimentos. Sim, é de borracha, modela e se adapta, se constrói, põe-se de pé e diz: eu sou!

Os dias, todavia, com apetite insano, avançam, devoram as folhas dos calendários... E eis agora o homem! Passadas fartas em calçadas plácidas ele avança, lindo. Tudo é delícia quando se é jovem. Nesta estação o homem é de aço. Imagina ser inquebrável, invencível. Torna-se duro, impermeável a dor e ao amor. Pensa que é eterno, corre todos os riscos, risca rastros no chão da vida, faz mapas, corta mares, adentra infinitos. Mas tudo isso também passa...

Aí o homem se torna homem, se converte em vidro, fica mais refinado, translúcido, misterioso. Homem de vidro bem sabe dos seus limites, entende que pode facilmente se quebrar, cair e não mais ser. Sendo de vidro, reflete a luz, rouba cenas, mas aparece apenas, sem protagonizar, torna-se caleidoscópio, sintetiza cores, faz desenhos no imaginário. O homem de vidro domina pensamentos, controla sentimentos, rebusca grifos nas páginas do livro dos seus dias, une letras que namoram palavras, palavras que acabam parindo frases e textos.  Fica o dito e tudo o mais escrito, quase eterno, quase...

Vem então o fim, apressado, fora de tempo. O homem sabe que sua beleza já se foi e que as certezas se perderam quais folhas de outono dançando na porta do terraço vazio. Em seu epílogo entre os viventes, o homem se torna de barro. Mesmo em sua aparente fragilidade, o barro possui lindeza por demais. Pode ser moldado, refeito, reinventado. Homem de barro sabe que a vida é silêncio e solidão, é manufatura diária para, ao final do dia, os pés poderem descansar de tantas andanças, de tanto lamento.


Na velhice o homem é de barro, sim senhor, vai se esfarelando pelo caminho, deixando partes de si no solo como semeadura da vida, é, ao mesmo tempo, semente e adubo. E só aí, quando homem e terra começam a se fundir, é que o maravilhoso mistério de ser se desvela. Sim, quando os ventos sopram sobre a face enrugada e fazem os poucos fios de cabelos brancos se agitarem sobre olhos esmaecidos, quando o solo clama pela alma e chama o corpo para repousar na cama eterna, o homem percebe que existir é mais que viver, é ser e sentir, é encontrar o sentido que há em morrer para, finalmente, poder nascer...

Carlos Moreira 

19 novembro 2013

Motel ou Hotel? O que você Prefere?



Me perguntaram: “Pastor, ir para o motel é pecado? O que a bíblia diz?”. 


Bem, em primeiro lugar, a bíblia não se presta a responder questões como esta, a não ser quando há uma “forçação de barra”, ou seja, o uso do texto sem contexto. A bíblia, acredite, não é um manual de regras, mas uma carta de amor! Quem não a interpretar desta forma, viverá assombrado pelos fantasmas da religião.

Mas vamos à pergunta... Na verdade, a justificativa encontrada por muitos para não ir ao motel está associada ao fato de que este seja um lugar pecaminoso, onde as pessoas praticam todo tipo de sexo. No motel, afirmam, podem ser encontrados homossexuais, adúlteros, pervertidos, sodomitas, suwingueiros e por aí vai... Portanto, trata-se de um antro de prostituição, um ambiente da carne, onde os prazeres são buscados como fim último. Sendo assim, este tipo de local não pode ser frequentado por pessoas que são convertidas a Cristo, concluem.

Ora, é um raciocínio tão simplista que nem precisa de alguém com um pouquinho de conhecimento para responder... Na verdade, o primeiro problema está associado ao que chamo de ascetismo geográfico. Trata-se de uma herança judaica que estabelece que os lugares são, em si mesmos, santos ou profanos.

Um bom exemplo disso você pode encontrar nos Evangelhos, quando Jesus entrou, por exemplo, na casa do publicano Zaqueu, ou quando decidiu andar pelo território samaritano, ambos lugares tidos como pecaminosos ou malditos, “geografias” onde um judeu não podia estar.

O mesmo pode ser visto, no outro extremo, quando a mulher samaritana pergunta a Jesus sobre o lugar correto para se adorar, se era o monte Gerizim ou o templo de Jerusalém. A resposta do Galileu desconstruiu aquele conceito cultural-religioso, uma vez que ele afirmou: “nem neste monte nem em Jerusalém... pois o Pai procura adoradores que o adorem em Espírito e em verdade”.

Em Jesus, a única geografia que importa é a do coração (em Espírito), o território que se constitui sagrado é a consciência (em verdade), pois, no Evangelho, toda devoção a espaços ou ambientes está extinta.

É bem verdade que o cristianismo se tornou especialista em sacralizar lugares, túmulos de pessoas, catedrais, mas o fim último de tudo isso é comércio, não paixão pela história da fé. Portanto, ambientes não são nem bons nem ruins, eles são, na verdade, “possuídos” pelas pessoas que nele habitam, podem até mesmo “incorporar” cargas imateriais da consciência e do coração dos homens, tanto para o bem quanto para o mal, mas não são produtores nem indutores de influências espirituais ou de qualquer outra natureza.

Uma segunda questão, olhando desta perspectiva, é querer saber se existe algum ambiente que não seja, por assim dizer, “carregado”? Será que existe um “lugar do bem” onde só há santidade e devoção? Talvez alguém me diga: “Que tal a igreja?”. Ora, me perdoe, mas eu já vi coisas na igreja que até o diabo duvida!

É bom saber que o fato de você estar dentro do “templo” não quer dizer que ali não exista marido brigado com mulher, irmão odiando outro irmão, filho zangado com pai, líder invejando a função de um outro líder, gente cheia de avareza, homem tarando mulher, mulher paquerando homem casado, e por aí vai... As pessoas podem estar no “lugar santo”, mas com a mente e o coração “possuídos” dos mais perversos sentimentos!

Sabendo disso, e usando a mesma analogia, posso lhe afirmar que, num hotel, pode se fazer tanta "sacanagem" quanto num motel! Sim, num hotel, inclusive, há mais disfarces e pudores subliminares, pois, não raro, usa-se a aparente decência e neutralidade do lugar como álibi para todo tipo de safadeza. Mais uma vez, depende de quem vai para lá, e do que vai fazer, e não do lugar em si mesmo.

Minha mulher, certa vez, presenciou algo desta natureza... Estávamos hospedados em São Paulo, no HOTEL que fico quando estou trabalhando e, num certo momento, acabamos subindo no elevador com um distinto senhor que, na cara-dura, se fazia acompanhar de uma garota de programa. Ela, esperta como é, logo percebeu, sobretudo pelas roupas ultra-discretas que a moça usava.

Desta forma, você pode até pensar que, estando hospedado num hotel de renome, num lugar “puro”, com sua esposa no seu santo leito, está impermeabilizado para certas situações, mas, na verdade, você pode ter, bem ao lado, uma suruba hardcore rolando, pois não são os lugares que são santos ou profanos, mas as pessoas e a forma como elas agem.

Portanto, é possível se ir no motel, com a esposa ou o marido, e ter um momento de alegria e prazer a dois, com boa consciência e fé. Ao mesmo tempo, também é plausível que alguém use um hotel como ambiente de subterfúgio e disfarce para dar vazão as fantasias mais perversas e as taras mais insuspeitáveis. Sim, isso é possível. E, sendo assim, o que contamina mais a alma e o coração: o lugar ou o que as pessoas fazem naquele lugar?

Eu mesmo já vivi duas situações engraçadíssimas a esse respeito... Certa vez, em São Paulo, cheguei de viagem tarde da noite, já madrugada, para uma estadia de 3 dias. Ao me apresentar na recepção do hotel, esquina da Santos com a Pe. João Manoel, minha reserva só constava para o dia seguinte.

Cansado do voo, sem lugar para dormir, perguntei ao recepcionista para onde poderia ir. Ele me indicou um “hotel de classe” na rua Augusta! Naquela época, eu ainda não conhecia a fama que a belíssima rua carregava. Dirigi-me ao “hotel”, pedi um quarto e fui dormir.

Tempos depois fiquei sabendo que era comum pessoas em trânsito se hospedar ali, pois o custo era bem mais acessível. Mas naquela noite, depois de apagada a luz, percebi que aquele “hotel de classe” era, na verdade, um randevu, ou seja, em bom português, um bordel! Dormi ao som de “gemidos inexprimíveis”... Mas, fazer o quê?

O segundo “causo” foi em BH, também a trabalho. Tivemos uma reunião com o governo, eu, um gerente da minha empresa e um executivo de uma multinacional, parceiro nosso. Acabada a reunião, por pura desgraça, perdemos o voo. Quem conhece BH sabe que a rede hoteleira da cidade, historicamente, é um problema.

Pois bem, depois de vagarmos horas atrás de um quarto de hotel, resolvemos, sem maiores constrangimentos, dormir num motel para, no dia seguinte, voltar ao aeroporto. Isso também é bem comum na cidade, acredite! Agora, imagina você a cara do sujeito da recepção vendo três homens, todos de terno e gravata, e eu barbudo, pedindo um único quarto para “dormir”? kkkk... E nós dormimos mesmo, do jeito que deu... kkkkk... um sono tranquilo, bem mais sereno do que aquele do “hotel da Augusta”...

Meu mano querido, minha mana, Deus não vê como vê o homem! O homem só percebe as “cicatrizes” na epiderme da alma, mas o Senhor vai até o lugar onde juntas e medulas se separam. Não se preocupe com lugares mal afamados, carmas depositados em ambientes, casas mal-assombradas, cemitério à noite, nem nada deste tipo.

Se preocupe, sim, em estar sentado no banco de sua igreja, com o coração cheio de amargura, com sua alma encharcada de ira, ainda que sua aparência remeta a um querubim da guarda celestial.

Por fim, te afirmo que o teu Senhor era amigo de pecadores e publicanos, conversava nas rodas mal afamadas, andava com gente de caráter duvidoso, comia e bebia nos lugares mais impensáveis. Contudo, ele era livre! Sabia que seu coração repousava sobre a graça e sua consciência era iluminada pela fé. Nunca se tornou refém de nada nem de ninguém, a não ser refém do amor.

Cada um deve andar conforme a consciência que tem no Evangelho. Quem faz algo, não deve julgar quem não o faz, pois há questões que são de foro-íntimo, e a própria Escritura afirma que cada um deve andar de conformidade com aquilo que recebeu. Por isso, não faça doutrina daquilo que é “usos e costumes”, não transforme em dogma o que é cultura, não faça regras daquilo que são vivencias pessoais.

Ande com alegria, seja generoso com as pessoas, ame seu semelhante, faça amor com seu cônjuge, brinque com seus filhos, e pare de se preocupar com coisas que nada acrescentam a vida... Ser santo, antes de qualquer coisa, é ser gente! Beijo grande!


Carlos Moreira

20 julho 2013

Quando Deus Faz o Bem lhe Fazendo “Mal”



Então Deus olhou para a Terra e só havia “João”. Todos eram iguais, todos banais, cada qual vivendo sua própria sina: levantar, comer, trabalhar... Sim, por vezes a existência é puro enfado, o trágico espaço que se resume entre a boca e o prato.

Mas em meio a tanto “João”, Deus conseguiu ver a Jó! Ele era homem reto, íntegro, singular, que se desviava do mal e amava o bem. E Deus pensou: “Dá gosto de ver esse Jó! Quero Lhe retribuir por tudo que tem existencializado. Tratarei Jó como filho muito querido e, junto a Mim, Lhe ensinarei quem eu Sou e ainda deixarei que viva para poder saber quem ele é.

E foi assim que Deus permitiu que as dinâmicas próprias da vida visitassem a Jó. Como aguaceiro que desaba sem aviso prévio, ele foi alcançado por infortúnios, calamidades, perdas inigualáveis. A estação outonal havia chegado trazendo seus matizes próprios, fazendo as folhas despencarem dos galhos das árvores, despindo a vida de tudo o que ainda pudesse representar alegria e esperança.

Como bem sabemos, o dia da tragédia é sempre solitário, é o dia onde Deus parece ter se tornado indisponível. Jó perdera tudo quanto possuía: gado, terras, empregados, e até o que mais amava, os próprios filhos, carne da sua carne. Agora, todavia, restava-lhe render o coração em gratidão àquEle que havia dado e também havia tirado. Se Jó fosse um “João” qualquer, talvez tivesse esperneado, blasfemado... Mas Jó ficou apenas maravilhado, extasiado com a violência do amor com o qual estava sendo amado, um tipo de paixão que está para além de conjecturas e explicações.

Como já se esperava, todavia, Jó entrou em conflito, percebeu-se paradoxo. Mesmo não sendo um “João”, somatizou dores, mixou no ser esperanças e medos, viu explodir em sua pele úlceras e cóleras. Ainda que fosse Jó, tornara-se necessário reconhecer que não era de aço, mas apenas de osso.

Agora sim, Jó havia sido reduzido a nada! Ele encontrava-se exatamente em meio ao caos do qual Deus se locupleta para criar o absurdo de ser. E foi em meio ao inusitado, ao inexplicável, “do meio do redemoínho” da vida, que Deus “saltou” para mostrar a Jó  que apenas Ele é quem pode todas as coisas, e que nenhum de Seus planos será frustrado. Assim, devolveu-lhe o Senhor em dobro tudo o que dantes tinha, pois mais foram os bens de Jó em meio a dor, do que as perdas que sofreu, ainda que por amor.

A história de Jó nos revela que Deus é livre para fazer aquilo que deseja. Ele poderia, para abençoá-lo, tê-lo prosperado ainda mais. Poderia ter lhe dado mais terras, gado, filhos e riquezas. Contudo, quando tencionou torná-lo grande, alguém melhor, quando imaginou algo que pudesse, de fato, fazer diferença em seus dias, algo para levá-lo a conhecer não apenas de ouvir falar, escolheu a dor, a perda, a angústia e a solidão.

Deus não teve medo de provar a Jó, não ficou com crise de consciência, nem muito menos com receios de que ele seguisse outro caminho. Ele sabia que Jó não era como os outros, ele não era um “João”. Sabia que a vida poderia lhe trazer tanto o bem como o mal, sem que isso alterasse o desejo de seu coração de conhecer a Verdade.  

A história de Jó é a arquetipia existencial de todos nós. Ela é o drama que está para além do certo ou errado, do bem e do mal. Na “novela” de Jó, a existência se catastrofiza do nada para, logo em seguida, voltar ao mesmo “lugar”. O que fica da “tragédia” de Jó é a certeza de que não importam as circunstâncias, pois Deus sempre tramará algo que, ao final, redunde em bem para nosso ser e paz para nossa alma. 

Num mundo habitado por gente que nada mais é do que um “João”, quero ser Jó. Desejo viver a experiência de me perder em mim mesmo para poder ser achado em Deus e assim encarnar a poesia do salmista que me desafia a semear no chão da vida lágrimas de esperança e, a partir delas, colher frutos de misericórdia.

Carlos Moreira

10 julho 2013

A Última Impressão é a que Fica



Na sociedade da imagem, o que importa é causar impacto logo na partida, pois o senso comum afirma que “a primeira impressão é a que fica”. Mesmo que tudo seja uma farsa, é melhor parecer sem ser do que ser e não aparecer.

Esse também é um tempo de busca por resultados: acionistas esperam resultados, clientes desejam resultados, o mercado projeta resultados. As pessoas não pensam, apenas executam. Ninguém se pergunta: “por que isso está sendo feito?”. Ao contrário, afirmam: “tem que ser feito, está na programação!”.

Essa dinâmica produziu um fenômeno ligado à fé: o evangelho burocrático. Ele transformou a igreja numa fábrica e os discípulos em trabalhadores. No evangelho burocrático a mudança da vida não é algo imprescindível, pois é possível viver apenas uma projeção. O que se requer é tão somente o engajamento do indivíduo na linha de produção da igreja-fábrica, de tal forma que ele siga as rotinas da religião, e isso sem questionar nada. É o “fordismo” cristão!

Esse “trabalhador”, então, passa a se envolver em campanhas, obras sociais, ministérios para-eclesiásticos e na evangelização, todas tarefas que movem a “engrenagem”. A grande maioria, todavia, produz ações inócuas, pois as realizam sem as motivações corretas para fazê-las. É que mudar a agenda não implica em mudar a consciência! De que adianta cumprir a grade da programação e, fora dela, a vida continuar seguindo insólita?   

Essa neurose obsessiva em realizar se faz acompanhar por aquilo que chamo de “síndrome do camaleão”. Trata-se de uma metamorfose epidérmica, calcada na imagem. As mudanças são condicionadas, estão associadas a contextos, ambientes, etc. É a fé teatralizada, que se adéqua as demandas sociais, que “posa para a foto”, porém, fora dessa ambiência, a vida agoniza em meio a desencontros pessoais, desarranjos familiares e desvios profissionais. 

Ora, a proposta do Evangelho tem a ver com a ressignificação da vida, não com a realização de um trabalho! Deus não está atrás de trabalhadores, mas de adoradores. E adoração não é algo associado a nenhuma arquetipia estética, ou a geografias do sagrado – “nem neste monte nem em Jerusalém” – mas ao que acontece “em espírito e em verdade”, no chão da Terra, em qualquer lugar e em todo tempo, pois o altar é o coração e o culto é a vida! Além disso, tem que ser expressa em absoluta verdade, pois toda performance que se constitui estelionato do ser é abominação a Deus.   

Alguém já afirmou que o caminho de todo discípulo é uma maratona, não uma corrida de cem metros. Mais importante do que começar bem, é terminar bem. Muitos começam bem, mas terminam mal! Talvez por isso o sábio do Eclesiastes afirme: “o fim das coisas é melhor do que o seu início...”. Ec. 7:8. Nas palavras de Paulo, seria como dizer: “combati o bom combate, completei a carreira e guardei a fé”. Assim, mais importante do que contabilizar “o que você fez”, é saber “por que você fez”.

“O que vale na vida não é o ponto de partida e sim a caminhada. Caminhando e semeando, no fim terás o que colher...”. Cora Coralina. Estou certo de que, ao final da jornada, quando o Senhor me chamar, tudo o que me tornei será registrado em uma “lousa de bronze”. Nela constará aquilo que, em Deus, eu conquistei, o que o Espírito produziu em mim. Essa será a minha glória, representará o mais perto que eu consegui chegar da estatura de Jesus, o meu Senhor.

E assim, olhando desta perspectiva e pensando na eternidade como a fronteira mais avançada, a última impressão é a que fica, e não a primeira, pois o mais relevante na soma das ambiguidades da vida é quem você se tornou e não o que você fez.   

Carlos Moreira

21 junho 2013

Era uma Vez... Mas não é Mais... - Uma Análise dos Últimos Acontecimentos no Brasil



Estamos na pós-modernidade, apesar de muitos ainda acharem que vivemos na idade média. Não há como comparar as manifestações que aconteceram nestes últimos dias no Brasil com nada que, historicamente, tenha ocorrido antes, ainda que os contornos possuam semelhanças com outros acontecimentos libertários, como a “Queda da Bastilha” na França do século XVIII, por exemplo.

Hoje, após um milhão de pessoas saírem às ruas marchando e cantando em mais de cem cidades brasileiras, vimos surgir inquietações de lideranças políticas, sociais, de filósofos e antropólogos que estão em busca de entender o que está acontecendo. Eles perseguem velhos paradigmas e se ocupam com modelos que não servem mais para nos levar a conclusões que, antes, nos saciavam.

Digo isto porque li e ouvi em blogs, nas redes sociais, em canais especializados de informação, pessoas em busca de identificar as lideranças do movimento, a pauta de reivindicações, a agenda com os próximos passos, etc. Ora, quem assim está pensando não analisou o fenômeno com os “óculos” corretos, mas está querendo esmiuçá-lo através de lentes que não mais se adéquam para este fim.

Na verdade, estamos vivendo algo totalmente novo, com uma fenomenologia própria. O que percebemos é que este movimento de protesto é multifacetado, policromático, independente. Ele se articulou através de pequenos grupos, das redes sociais, do marketing viral, não segue as regras que foram utilizadas no passado.

O fato histórico e de suma importância é que o movimento, em poucos dias, conseguiu mobilizar um espectro importante da sociedade, notadamente composto pela classe média, a qual vem reprimindo desejos de manifestações contra as políticas públicas, econômicas e sociais no Brasil. Uma vez que os objetivos mais tangíveis foram alcançados – no que diz respeito às tarifas de transportes públicos – não há mais o que protestar. As pessoas voltam para casa e aguardam uma nova convocação!

Se eu pudesse comparar o que aconteceu, de forma a termos um modelo conceitual, afirmaria que este fenômeno que assistimos é como um furacão, que se forma num determinado momento, concentra uma enorme força reprimida, provoca “estragos” por onde passa e, em seguida, se dissipa. Ele pode se formar novamente, a qualquer instante, bastando que haja condições e fatores necessários para tal.

Ninguém espere que este movimento produza um ícone nacional, ou faça surgir uma nova legenda partidária, ou que se crie a partir dele uma agenda de protestos organizados, etc. Eu acredito que o que o povo descobriu foi uma forma rápida, poderosa e eficiente de se manifestar sem que haja o envolvimento de sindicatos, partidos políticos, associações de classes ou grupos sociais. Se pudéssemos atribuir a um grupo a liderança das manifestações que presenciamos, poderíamos dizer que foi o “grupo dos brasileiros”!

Como se sabe, nem tudo está pronto. E nem era mesmo para estar! O que fica como lição para políticos e governantes é que não há mais como não se aperceber das grandes demandas e insatisfações da sociedade. Não há mais como manipular massas como se fez no passado, utilizando meios de comunicação subservientes e métodos alienantes. Mesmo em meio a uma Copa da FIFA, onde a seleção do Brasil vai bem, o povo foi às ruas deixando claro que a época do “pão e circo” acabou, ficou para trás.

Este novo Brasil que surge não tem um rosto, mas milhões deles, não tem um partido, a não ser aquilo que tome partido em função da coletividade. Este novo Brasil não precisa de canais de TV ou Rádios, usa a internet e as redes sociais – uma mídia que não possui donos – como meio por onde as informações podem trafegar alcançando milhões de cidadãos de forma rápida e objetiva.

O que está acontecendo neste momento, ainda está longe de se poder compreender. Muitos especularão e tentarão dar ao fenômeno uma forma, colocar uma marca, impingir velhas regras e conhecidos controles. Inútil. O que foi, já não é mais.

Daqui há alguns anos, quando falarem do dia 20 de junho de 2013, o dia em que eu e você assistimos a “queda dos poderes”, ainda que ela tenha sido mais moral do que institucional, dirão o seguinte: “era uma vez um país...”, e relatarão o que ocorreu. Hoje, todavia, o que vejo, concretamente, é que nada do que era é mais...

Carlos Moreira

Uma Nova Igreja para um Novo Tempo


O dia 20 de junho de 2013 entrará para a história do Brasil. Gerações que nos sucederão lembrarão esta data como o dia em que a maior das arquibancadas foi as ruas das metrópoles e cidades do interior, e não os assentos dos campos de futebol.

De norte a sul o país se uniu numa só voz e foi protestar contra os descalabros dos políticos e os desmandos dos governos, independente de afiliações partidárias e de ideologias. Hoje se sabe que a manifestação já está para bem além dos problemas nos transportes. Reflete, na verdade, uma indignação generalizada contra as questões mais graves da nação.

Ao contrário do que sempre se viu, não estamos diante de um ato político-partidário, orquestrado pelo oportunismo dos “insatisfeitos” com os que estão circunstancialmente no poder. Não! Foi uma explosão da indignação do povo – jovens, velhos, estudantes, famílias, trabalhadores e donas de casa – todos foram às ruas para manifestar uma nova consciência prevalente, um sentimento pulsante alimentando a batida de um novo coração. E na voz desta gente há uma só canção: "tem que mudar!".

De tudo o que presenciei, todavia, o que mais me animou foi ver a igreja nas ruas. Em pleno século XXI, surge uma nova igreja, com novas características, e ela está para além das denominações, dos condicionamentos escravizantes, da alienação do pensar, das amarras do agir, da petrificação do coração.

A igreja foi às ruas! Enfim, saiu de dentro dos templos! Uniu a oração com a ação, fez o jejum que interessa a Deus, que é aquele que solta as ligaduras dos oprimidos. Deixou de olhar apenas para as demandas espirituais e percebeu que existem questões prementes ligadas ao social. Entendeu que o Reino de Deus não é só feito de “língua estranha”, santificação e estudo bíblico, mas também de justiça, paz e alegria no Espírito Santo! Rm. 14:17.

A igreja está nas ruas, não como uma facção esquartejada, mas como a união de muitos cidadãos. Ela percebeu que a religião que agrada a Deus tem a ver com as “demandas da Terra”, e não apenas com uma busca alienante pela vida eterna. Ontem, através de atitudes, tornou possível a união de duas lindas canções: “podes reinar, Senhor Jesus, oh sim!” e também “vem, vamos embora... quem sabe faz a hora, não espera acontecer!”.

Eu creio que a igreja que a sociedade brasileira deseja ver é sensível à injustiça, aos problemas éticos, às questões ambientais, ao diferente, à má distribuição de renda. A igreja que melhor representa Jesus é aquela que faz o que ele fez, acolhendo ao caído, libertando o oprimido, sensibilizando-se com os encarcerados sociais e também com os que estão algemados pelo pecado.

É tempo de mudança! Quem não for capaz de entender este momento, quem não discernir o que “o Espírito diz às igrejas”, ficará definitivamente preso a uma espiritualidade oca, que apenas produz entorpecimento de mente e cauterização de coração.

Fiquem todos atentos, pois o Deus de toda a Terra está nos convocando para “pregar boas novas aos quebrantados”, para “livrar todos os cativos”, “consolar os que choram”, afim de que possamos ser chamados “carvalhos de justiça, plantados pelo Senhor, para sua glória”.      

Carlos Moreira

13 junho 2013

Ser Maior não Significa Ser Melhor



Gosto de Fórmula 1 desde pequeno. Mesmo com a morte do Senna, continuei assistindo as corridas e amargando o fato de não termos mais um representante à altura de nossas tradições.

A F1 é um esporte curioso. Contraditoriamente, nem sempre a maior equipe é a melhor na competição. Veja o caso da Ferrari. Sem dúvida, ela é a escuderia mais poderosa, pois sua marca é a mais famosa e sua estrutura a mais glamorosa. Contudo, mesmo tendo o maior piloto do mundo, além de milhões de dólares investidos em tecnologia e pesquisa, a Ferrari não é o melhor time.

Intrigante, mas esse fenômeno parece acontecer também com os Protestantes no Brasil. O protestantismo “brazuca”, herdeiro do americano, tem historicamente como uma de suas características o desenvolvimento de uma mentalidade altamente voltada para números. Ele sempre perseguiu metas, porcentuais, quantidades. Não é difícil encontrar entre evangélicos uma neurose culposa que visa alcançar os perdidos, evangelizar os caídos, de alguma forma, tornar a “massa do bolo” maior.

Segundo o último censo do IBGE, em 2010 esse segmento chegou à expressiva marca de 42,3 milhões de fiéis – 22,2% dos brasileiros – o que representa um aumento de 61,45% em relação aos dados do ano de 2000. “Extraordinário”! Mas aqui surge uma questão: o crescimento numérico dos evangélicos se desdobra, também, num crescimento qualitativo?

Ora, que eles cresceram numericamente é fato! Mas não foi só isso. Esse crescimento produziu uma representatividade que se alastrou em outras esferas. Hoje, o grupo possui uma forte bancada no Congresso Nacional, emissoras de televisão, rádios, gravadoras, veículos de comunicação dos mais diversos a serviço da “fé”.

Evangélicos se tornaram pop stars, empresários bem sucedidos, profissionais liberais, funcionários do alto escalão de empresas, membros do governo. Eles estão nos esportes, nas artes, em praticamente todos os segmentos da sociedade civil organizada. Pasmem, mais eles estão até na Rede Globo!

De fato, parece que os evangélicos encontraram mesmo o seu lugar ao sol. Não há mais como ignorá-los, pois eles possuem “prata e ouro!”. Falta-lhes, todavia, graça e poder para proclamar aos aleijados da existência: “levantem-se e andem!”. 

Mesmo sendo um grupo maior, os evangélicos não se tornaram um grupo melhor. Eles representam cerca de 20% da população do país, mas isso não se traduziu em bem para a sociedade, aumentaram de tamanho, mas isso não reverberou mudanças significativas.

A questão é bem simples: o discurso e a prática estão tão distantes quanto dista o oriente do ocidente. Ser evangélico no Brasil é sinônimo de obscurantismo e fundamentalismo. Se você perguntar a alguém que não é parte da confraria, perceberá que a opinião pública tem deles a pior impressão possível. Bem diferente do que acontecia com a igreja em Jerusalém, que louvava a Deus e tinha a “...simpatia de todo o povo”. At. 2:47.

O grupo cresceu, é bem verdade, mas não apareceu. Tornou-se poderoso, mas ineficiente, expressivo, mas insipiente, reconhecido, mas não respeitado. Ele não produz diferenças em termos de caráter, não obstante ter muito "carisma", não denuncia abusos sociais, não se envolve com causas ambientais, tudo para eles resume-se às questões metafísicas e sobrenaturais. Muita religião e pouca ação, ou, em outras palavras, fé sem obras! Tg. 2:18.

Dificilmente você verá evangélicos lutando por questões ligadas à melhoria da dignidade humana, ou engajados em ONGS, movimentos sindicais ou partidos políticos. Há exceções, mas cada vez mais escassas. A grande maioria vive alienada dentro de “templos”, em “campanhas”, “correntes”, fazendo alquimia de doutrinas, esquecida de que o mundo agoniza com infecção generalizada, lentamente flutua à deriva na maré da vida.

De que adianta ter evangélicos no poder, no comando, ser “cabeça” ao invés de “cauda”? Sim, para que serve se isso não se traduz em graça, misericórdia e salvação! Qual a vantagem de ter igrejas cheias de pessoas vazias? E assim, em busca de alcançar a vida eterna, eles acabaram esquecendo que ainda há vida aqui na Terra.

Tristemente, o que se vê em meio a tanto “crescimento”, é escândalo em cima de escândalo. “Pastores”, “bispos”, “apóstolos” e outras “entidades” do mundo eclesiástico cometem todo tipo de torpeza e arbitrariedade. É “crente” que mente, que é ganancioso, fofoqueiro, malicioso, beligerante e avarento. Gente que quer vencer no mundo e não vencer o mundo! Casamentos falidos, filhos criados à revelia, desordens financeiras, vida profissional fraudulenta, e por aí vai. Essa é minha rotina há 10 anos, atendendo gente todos os dias. Gente “evangélica”...

Há salvação? Há. “se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar e orar, buscar a minha face e se afastar dos seus maus caminhos, dos céus o ouvirei, perdoarei o seu pecado e curarei a sua nação”. 2ª. Cr. 7:14.

O Brasil, como se sabe, é o maior país Católico do mundo. E daí? Também somos o país da malandragem, dos juros escorchante, da má distribuição de renda, das estruturas perversas, do nepotismo, dos miseráveis, das mortes violentas, da ladroagem, do sucateamento da saúde, da educação... Em suma, somos o melhor do pior! E viva a Copa de 2014! Brasiiiillll !

Ah... Você acha que se fôssemos o maior país evangélico do mundo tudo seria diferente? Acha mesmo!? 


Carlos Moreira


10 junho 2013

O Choro dos Felizes


O Choro dos Felizes

“Homem não chora!”. Ouvi isso muitas vezes... Era ainda pequeno, mas estava sendo treinado para ser um “campeão”, para superar a tudo e a todos, ser “forte”, suportar até mesmo a dor. Pura ilusão...

Hoje, homem feito, tenho dificuldades para chorar. Acho que adquiri esse mal com o tempo, impermeabilizando sentimentos, permanecendo firme, retesando a alma para que ela se tornasse imune a qualquer tipo de sensação.

Na “sociedade dos campeões” ninguém deve chorar! Choro é sinônimo de fraqueza, de covardia e pequenez. Para valorizar esta “imperfeição”, todavia, inventaram outros tipos de choro: choro de raiva, choro performático, choro malcriado, choro chantagista. As lágrimas caem, mas são incapazes de produzir qualquer tipo de bem para a alma.

Acredite, chorar produz coisas boas, mas apenas para quem se abre para experimentar os matizes próprios de cada estação da existência. Por isso Jesus afirmou: “Bem aventurados os que choram, pois serão consolados”. Sim, só é pacificado em suas ambiguidades próprias, em suas agonias e contradições aquele que se rende a enorme fragilidade de ser, pois só é possível refazer o vaso que um dia se quebrou.   

Por isso, só quem se arrisca a ser vulnerável é que pode experimentar a grande alegria que há em chorar. Só quem desistir de ser o super-homem conseguirá tirar proveito da dor, da perda, da solidão. Todos os demais estarão lutando contra si mesmos, buscando lubrificar nervos de aço para que a engrenagem psíquica possa suportar a grande “tragédia” de sermos humanos.  

Ah, quão triste é passar pela vida e, aos poucos, quase que imperceptivelmente, perder todas as sensações, ir se desumanizando, tornando-se de lata. Triste é não nos sensibilizarmos mais com a miséria, com a injustiça, com o sofrimento do outro, traços do real que, na tela de nossas vidas, virou apenas drama do imaginário.

Mendigos, velhos, crianças de rua, travestis, drogaditos, para nós são apenas personagens que se exibem no trailer de um filme qualquer, como se jamais pudessem fazer parte da atração principal. Eles estão à margem e lá continuarão. De nós receberão apenas desprezo e, num caso extremo, alguns trocados, quem sabe?  

Digo-te sem medo: é tempo de chorar, de deixar que lágrimas corram pelos nossos olhos de chumbo, encharcados de cinza, fartos de tanto asfalto e concreto. Chore logo, hoje, não deixe para chorar amanhã! Faça como Drummond: “Um dia desses, eu separo um tempinho e ponho em dia todos os choros que não tenho tido tempo de chorar”.

Estou certo que só os felizes é que são capazes de chorar, pois eles entenderam que a vida não é feita só de riso e festa. Diz o salmista “Quem sai andando e chorando enquanto semeia voltará com alegria...”, pois na semeadura da vida, lágrimas são sementes de esperança que regam o chão duro e batido do cotidiano com vistas a produzir paz e bem para o ser.  

Desejo-te, então, um bom choro.

Carlos Moreira

17 maio 2013

Nota de Falecimento




Hoje tomei conhecimento de algo que já era aguardado por muitos: a notícia de que o cristianismo faleceu. Ao contrário do que talvez se pense, não foi uma morte repentina, uma vez que sua falência múltipla já se arrastava por, pelo menos, meio século. Morreu de infecção generalizada!

Na verdade, a saúde do cristianismo nunca foi boa. Isso podia ser percebido já em seus primeiros anos. Sua origem está associada ao movimento chamado “os do Caminho”, que remonta aos primeiros discípulos de Jesus, o Cristo. No segundo século, este grupo havia crescido assustadoramente, tinha seguidores em todas as camadas da sociedade e na maior parte do mundo habitado.

No terceiro século, todavia, o “movimento do Caminho” sofreu um duro golpe: foi transformado pelo imperador romano Constantino na religião oficial do império. Essa institucionalização, que se deu em 325 d.C., numa reunião denominada de Concílio de Nicéia, estabeleceu a ruptura definitiva entre os antigos seguidores de Jesus e os que passaram a organizar e normatizar essa nova fé.

A idade média foi muito dura com o cristianismo. Já como religião dominante do ocidente, ele viu-se em voltas com inúmeros problemas. Teve de lidar, dentre outros, com a infiltração e o crescimento de falsas doutrinas, além da grave corrupção do clero. Apesar de ter se estabelecido como um poder terreno, tanto político quanto religioso, começava a apresentar os primeiros sinais de doença grave.

O auge dessa crise, contanto, se deu na idade moderna, no século XVI. Foi nesse período que o cristianismo enfrentou mais um sério problema: o seu mais contundente cisma. Denominado de Reforma Protestante, foi liderado por um monge alemão de nome Martinho Lutero, e refletiu o desejo de mudança que já se podia sentir pelo menos 200 anos antes.   

As intenções da Reforma eram boas, mas seus desdobramentos mostraram que ela não se constituiu no remédio definitivo para a “cura do mal”. Polarizado, tendo de um lado a igreja de Roma e do outro as centenas de denominações Protestantes, o cristianismo começou a agonizar. Na idade contemporânea, estava infectado por politicagem, corrupção, desvios, fragmentações, o que acelerou o agravamento de sua situação.

O século XXI iniciou com o cristianismo já em estado de coma. Os últimos anos do século XX foram decisivos para sua decadência final. Os problemas generalizaram-se, em todas as esferas, e atingiram duramente seus líderes. Escândalos sem precedentes marcaram sua derrocada. Entre os mais graves, casos de pedofilia, de enriquecimento ilícito, prostituição no clero, lavagem de dinheiro e os sucessivos e agora insustentáveis desvios doutrinários. A morte era só uma questão de tempo. Enfim, chegou.

Quero aqui me solidarizar com mais de dois bilhões de fiéis que ficaram órfãos de sua religião. Sinto a dor dos que foram manipulados, espoliados, dos que foram iludidos com falsas esperanças. Sim, choro com você que acreditou num deus feito pelos homens, numa fé calcada em magia, numa proposta de mudanças epidérmicas, que alteram a aparência, mas que jamais chegam aos escaninhos da alma e as câmaras do coração.

Querido amigo, sou reverente com sua dor. Sinto pelo engano do qual você se tornou vítima. Apesar de sua mente ter passado por uma “lavagem”, sua consciência nunca foi ressignifcada. Suas práticas não lhe levaram a nada porque eram apenas ritos ocos, regras tolas, nunca se constituíram em mudança profunda no caráter que produzisse furtos de justiça.

Estou certo que suas intenções eram boas. Mas, convenhamos, é impossível que doutrinas judaizantes, simbiotizadas com religiões de mistérios antigas e filosofias gregas, sobretudo a lógica aristotélica, pudesse fazer alguém transcender e chegar ao Deus Eterno. Isso, creia-me, só é possível por meio do Sangue de Jesus de Nazaré, uma vez quebrantado o coração por causa da Graça e acesa a consciência para o arrependimento por meio da fé.

Notícias que chegam a todo instante dão conta de que o sepultamento do cristianismo ainda não tem data certa. Neste momento, há intensa discussão sobre o local, que poderá ser a Basílica de São Pedro, a catedral de Westiminster ou a catedral de Canterbury, e também sobre quem deverá ser o oficiante da cerimônia.

Em todo o mundo, grupos religiosos se preparam para receber o “espólio” dos cristãos, não só os bens da igreja, que são numerosos, mas, sobretudo, as pessoas. Acredita-se que a migração será fragmentada, com grupos aderindo ao islamismo, outros retornando ao judaísmo, e ainda os que buscarão religiões espiritualistas orientais.

A boa notícia, em meio a toda essa tragédia, é que ainda sobrevive um pequeno remanescente dos que acreditam em Jesus de Nazaré. Em todo o mundo, discípulos do profeta da Galiléia continuam a reunir-se em casas, escolas, pequenos auditórios e igrejas para celebrar ao Deus Verdadeiro. Eles se dizem oriundos do “movimento do Caminho”, o qual está associado aos primeiros apóstolos e pais da igreja dos dois primeiros séculos.  

Esse grupo permanece, até hoje, fiel a Escritura Sagrada, amando a Deus sobre todas as coisas e sendo solidário com o próximo. Curiosamente, eles sempre se fizeram presentes na história, ora coexistindo dentro do próprio cristianismo, ora correndo paralelo a ele. Surpreendentemente, a fé destes discípulos de Jesus sobreviveu há séculos de crendices e hoje parece ter se tornado madura e consistente.

Trata-se de gente carregada de uma singeleza no olhar, pois eles são mansos, humildes, cheios de compaixão e misericórdia. Não será difícil reconhecê-los. Estão sempre dispostos a ajudar, são coerentes com aquilo que pregam e vivem, falam de esperança, amam com sinceridade, são desapegados.

Quais errantes, eles estão em todo lugar, e sempre anunciam o que chamam de Evangelho. Essa mensagem milenar, que parecia totalmente esquecida, apregoa que Deus se reconciliou com os homens por intermédio de Jesus, não mais imputando aos mesmos os seus pecados, mas assegurando a todo o que crê a vida eterna.

Quem desejar conferir que fique atento! Pode existir um grupo destes bem próximo a você. Vale a pena visitá-los e conhecer a extraordinária mensagem que eles carregam encarnada em si mesmos.

Carlos Moreira 


14 maio 2013

Sem Noção!




Ouvir pessoas é algo, ao mesmo tempo, prazeroso e penoso. Dá prazer porque você pode ajudar a resolver questões, não raro, simples, que machucam e angustiam os indivíduos. Penoso porque você sofre com o sofrimento de quem se expõe e abre as feridas feitas pela vida.

É nesse processo de escuta terapêutica que compreendemos o que acontece entre os cristãos. A esmagadora maioria dos problemas tem a ver com questões onde o bom senso resolveria. Mas também são muitos os casos onde se percebe o total desconhecimento de princípios elementares do Evangelho os quais, uma vez aplicados a existência, tornariam a vida melhor e mais leve.

Em conversas pastorais, ao questionar sobre a leitura das Escrituras, identifico que quase a totalidade dos entrevistados nunca leu, sequer, o Novo Testamento. Pessoas com cinco ou dez anos na “fé” afirmam que nunca leram um livro inteiro da Bíblia, nem mesmo um dos Evangelhos!

O fenômeno que surge em decorrência desta atitude revela um pouco do substrato da igreja em nossos dias. Em primeiro lugar, temos uma massa de indivíduos facilmente manipulados, pois ela não possui qualquer argumento para confrontar ou refutar as ideias que lhes são transmitidas.

Em segundo lugar, surge a “hegemonia da tradição”, que torna verdade aquilo que foi construído a partir da cultura. Foi assim, por exemplo, que se estabeleceu que não se pode comer carne na semana santa. Em nenhum lugar das Escrituras encontramos isso, pelo contrário, Jesus afirmou que não é o que entra pela boca que contamina o homem, mas o que procede do coração.

Em terceiro lugar, temos o problema da interpretação. A Reforma Protestante prestou um enorme bem à cristandade quando colocou a Bíblia ao alcance das pessoas. Por outro lado, fez surgir um mal quase que incontornável: a questão de como os textos passaram a ser interpretados.

A Escritura Sagrada possui diversos tipos de linguagem, foi escrita dentro de uma cosmovisão específica, num contexto cultural, econômico, religioso, filosófico e político totalmente diferente do nosso. Além disso, aproximadamente 40 autores participaram deste processo, o que a torna ainda mais heterogênea e eclética. Portanto, interpretar este livro e trazer seus ensinamentos, ressignificado-os para o nosso tempo, não é tarefa fácil.  

Por outro lado, não conhecer os conteúdos e os princípios da fé leva as pessoas a sempre serem infantis em sua espiritualidade. A priori, ou elas são manipuladas por estelionatários ou fundamentalistas, ou passam a ser guiadas por tradições que nada dizem respeito a Jesus e ao Evangelho, ou caem no problema das interpretações, por vezes, bizarras.

A educação cristã é tão importante quanto à educação tradicional. Um povo analfabeto em termos de Bíblia refletirá um cristianismo distorcido e insipiente. O pior é que não há solução de curto prazo, pois cada vez mais as pessoas leem menos. Até nas igrejas as passagens são projetados em telões. Desta forma, nem mesmo na comunidade de fé o indivíduo lê o texto em sua própria Bíblia!

Abrir a Escritura foi uma das mais prazerosas experiências que tive na vida. Em minhas mãos, tenho mais do que um conjunto de livros, tenho um “ente relacional”, escritos que ganham vida, palavras que saltam das páginas e interagem comigo. Elas me confrontam, indagam, acalmam.

Em qualquer área do conhecimento humano é mister o aprofundamento teórico. Na vida cristã também é assim. O desconhecimento das verdades bíblicas tem consequências profundamente danosas à espiritualidade, sendo que a menos impactante delas é a formação de uma geração de fiéis totalmente “sem noção”. Seria, sem qualquer ofensa, a consagração das toupeiras!

Contudo, eu lhes pergunto: fazer o quê?

Carlos Moreira

13 maio 2013

Eu Porém vos Digo...



Quando Jesus começou a anunciar o Reino de Deus, sua proposta não se referia a mudanças na religião de Israel, mas tratava da transformação da consciência dos indivíduos. Estava claro que seu objetivo não era fazer remendos na debilitada lei judaica, mas instaurar um novo proceder que fosse para além das questões relativas à norma.

“Ouvistes o que foi dito...”, afirmava o Galileu. Sua fala referia-se aos velhos ditames da Torá. Ele estava confrontando àquilo que era discernido como espiritualidade, mas que, na verdade, envenenava a alma. Aquela geração vivia calcada em regras estéreis, baseadas na estética comportamental, que valorizavam a performance. Jesus, todavia, oferecia conteúdos éticos, que transformavam interiores e regeneravam o ser.

“Eu porém vos digo...”, insistia Ele. Era uma proposição que visava ressignificar práticas existenciais. A lei havia caducado, transformara-se num conjunto de doutrinas perversas e tradições histórico-culturais. Chegara a um ponto em que era melhor deixar alguém sofrendo com um aleijão do que curá-lo em dia de sábado. Instaurara-se no coração dos homens a condescendência com a hipocrisia.

Estou certo de que um dos maiores perigos da religião é quando ela vira ideologia. Se perguntarmos a alguém em uma comunidade se ele já aceitou a Cristo, ouviremos: “sim, eu tomei essa decisão. Certo dia levantei minha mão e dei um passo à frente”. Esse ato, todavia, raramente é seguido de qualquer mudança interior, pois o que o sujeito fez foi dizer que concorda com as regras seguidas pela coletividade.

É um tipo de “decisão” que não possuiu qualquer desdobramento para dentro, restringiu-se ao que se pode perceber do lado de fora. Ela fez com que o sujeito incorporasse trejeitos, mudasse o tom da fala, alterasse a agenda. Tudo isso, contudo, jamais se projetou para o ser. Conversão, de fato, diz respeito a mudar a consciência, com vistas a que se possa materializar no caminho “frutos dignos do arrependimento”.

Quando isso acontece, a pessoa é capaz de perceber o outro, solidarizar-se com os caídos, tornar-se reverente com a dor do que sofre, aceitar o diferente, buscar a justiça, falar a verdade, amar sem ser amado. Não existe fé que não se desdobre! Uma espiritualidade voltada para si mesmo adoece todo aquele que dela se torne refém.

“Se a justiça de vocês não for muito superior à dos fariseus e mestres da lei, de modo nenhum entrarão no Reino dos céus”. Essa é a difícil constatação de Jesus. Tenho percebido que há mais gente de bem fora das igrejas do que dentro delas. Vejo cristãos se esforçando para tentar chegar à média comportamental da sociedade. Triste ver que somos um povo cheio de carismas, mas totalmente esvaziados de caráter.      

Em tempos de prosperidade, falsificação doutrinária, barganhas com o sagrado, querer viver o bom e simples Evangelho coloca a pessoa na contra-mão do fluxo. Fazer o quê? Talvez, lembrar de Isaías: “Senhor, quem deu ouvidos a nossa pregação?”.

Carlos Moreira

11 fevereiro 2013

Tem Gente que Vem, Tem Gente que Vai



Todos os dias é um vai-e-vem , a vida se repete na estação. Tem gente que chega pra ficar, tem gente que vai pra nunca mais, tem gente que vem e quer voltar, tem gente que vai e quer ficar, tem gente que veio só olhar, tem gente a sorrir e a chorar. E assim, chegar e partir”  
Milton Nascimento e Fernando Brant 

O trecho acima é parte da canção Encontros e Despedidas, de Milton Nascimento e Fernando Brant. Confesso que, para mim, já se tornou hábito analisar a vida através das lentes dos poetas, pois eles, não raro, revelam-nos a realidade através do que, a princípio, parecia só abstração

Eis, então, algo que vi na vida: nada é capaz de marcar tão profundamente a alma humana quanto a passagem de uma pessoa. Sim, seres humanos deixam rastros por onde pisam, sobretudo se o terreno é o ser da gente. Há pegadas que se projetam do chão da existência para o sagrado do coração, deixam tatuadas impressões, sentidos e sentimentos.  

Por isso, tenha muito cuidado com quem entra e sai de sua vida, pois você pode acabar acolhendo quem só lhe fará mal ou despedir quem só lhe fez bem.

Tem gente que chega pra ficar...”. Estes, de preferência, devem ser os que nos trazem paz e alegria. Semeá-los em nós revelará sábia decisão, pois, quem acha um amigo, encontrou na lida da vida um abrigo. Deixe que entrem, que sentem, que façam morada duradoura, que nos dias difíceis nos sejam alívio e nas noites sombrias, alento.

“Tem gente que vai pra nunca mais...”. Em alguns casos, inclusive, já foi tarde! É sinal de maturidade acatar a voz da consciência e abandonar os sussurros do coração. Há certo tipo de gente que precisa ser arrancada de dentro de nós, pela raiz, de tal forma que jamais brote novamente. Dessas, as piores são aquelas que nos fazem bem nos fazendo mal. Esse vício vicia! Trate-as como erva daninha, deixe a piedade para outra ocasião, corte a própria carne, se preciso for, mas ampute esse mal antes que ele lhe faça “bem”.

“Tem gente que vem e quer voltar...”. Mas seja cauteloso, veja se vale a pena. Alguns relacionamentos têm prazo de validade, não devem ser consumidos após o tempo determinado. Partidas saudosas marcam mais do que chegadas indesejáveis. É melhor a lembrança boa do que o convívio entediante. Há certos encontros humanos que nos trazem coisas boas por um determinado tempo, passado o qual, tendem a afetar o sono e o apetite.

“Tem gente que vai e quer ficar...”. Aprendi que sonhos não devem ser construídos sobre nuvens, mas sobre pedras! Não há coisa mais danosa ao ser do que a convivência passiva com a indecisão, pessoas que estão sempre entre o agora e o ainda-não. Na vida, há mais proveito no fim precoce do que na longevidade tardia. Portanto, ou fica, ou sai, ou entra, ou vai, pois o tempo urge, devora o sentir e o ser.

“Tem gente que veio só olhar...”. Pois é melhor assistir ao circo pegar fogo do que meter a mão no lamaçal para levantar paredes. De que lhe servem milhares de amigos nas redes sociais que assistem, placidamente, a tua dor, num torpor calcificante, de dar nó e dó, de dá medo? A vida não é palco do imaginário, mas crueza do real, não demanda plateia, mas atores que se envolvam na trama do drama, façam parte do enredo, seja ele qual for, co-média ou tragédia.

“Tem gente a sorrir e a chorar...”. Elas vão e vêm, daqui para ali, e você precisará escolher com quem vai sorrir, após ter chorado, e com quem vai chorar, depois de ter sorrido. Lembre-se, todavia: a vida é feita de nuances e contradições, tempos bons e maus, dias pálidos e noites ardentes. Por isso, se possível, nunca deixe a mesa ficar vazia, mas acolha sempre a solidão com reverência, se preciso for.

No mais, “é melhor serem dois do que um”, e melhor ainda quando, de dois, se faz um, pois, lembrando Nietzsche: “Na solidão, o solitário devora a si mesmo; na multidão, devoram-no muitos”. Contudo, é mister aprender, tem gente que vem e gente que vai, é preciso acolher quem chega, com ares de primavera, e despedir agradecido quem parte, no ocaso da estação outonal.

Carlos Moreira

18 janeiro 2013

Eu, Dublê de Deus?



“Chegando Jesus à região de Cesaréia de Filipe, perguntou aos seus discípulos: “Quem os outros dizem que o Filho do homem é?”. MT. 16:13


Curioso Jesus fazer esta pergunta? Não parece coisa de gente insegura, que está preocupada com a opinião pública? Para mim, todavia, Jesus estava interessado em saber o que os discípulos pensavam, e não a multidão, pois, logo em seguida, questionou: “e vocês? Quem vocês dizem que Eu sou?”. Pedro, impetuoso como sempre, foi quem declarou: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!”. 

Entretanto, o mesmo Pedro, que fez a “confissão bombástica”, não muito depois, foi duramente repreendido pelo Senhor: “arreda daqui satanás, pois és para mim uma pedra de tropeço”. Como pode, num momento alguém ser usado por Deus e, no outro, pelo diabo? Por que isto acontece? 

A questão gira em torno de dois eixos importantes para a nossa espiritualidade: a confissão e o testemunho. Confessar é algo fundamental, pois, conforme as Escrituras, se cremos com o coração precisamos declarar com a boca aquilo que foi introjetado na consciência por meio da fé. Mas o processo não para por aí... Quem confessa algo, deve materializar na prática aquilo que exprime crer como reflexo do ser. A confissão em si mesma é como uma lata vazia, que apenas ressoa os sons que dentro dela são produzidos. 

Para nossa tristeza, assim tem sido o cristianismo, muito parecido com a confissão de Pedro, retórica pura. Muita falação, mas pouco testemunho. É uma religião de garganta, verborrágica, contudo sem respaldo da vida, sem ações e desdobramentos que transformem os conteúdos em prática existencial. A pergunta de Jesus, todavia, não vai calar: “E vocês? Quem vocês dizem que eu sou?”. Quem é Jesus para você? Melhor ainda: como você transmite isto às pessoas?

Perceba, se sua resposta é apenas um discurso teológico, sem respaldo das ações práticas, você pode ter se tornado um teórico da religião, que confessa algo com a boca, mas que não materializa com a vida. A melhor forma que há para se dizer as pessoas quem é Jesus é a partir de sua própria encarnação dEle – “já não sou eu que vivo, mas Cristo vive em mim” – como se você fosse um dublê, alguém que assumiu o papel do outro. Isso, de forma alguma lhe descaracterizará, pelo contrário, você será mais você tanto mais a vida dEle esteja simbiotizada com a sua, pois o propósito eterno de Deus é ser o Pai de uma grande família de muitos filhos semelhantes a Jesus! 

Finalizo com as palavras sábias de São Francisco de Assis: “viva o Evangelho. Se necessário, fale sobre ele”. 

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