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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.
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27 junho 2017

Possessões e Possuídos



A igreja tem uma preocupação exacerbada com pessoas possuídas por demônios, mas dá pouca, ou quase nenhuma atenção, aos variados tipos de possessão.

Sim, possuídos tem notoriedade garantida no show bis evangélico e, mais recentemente, até no catolicismo romano. Endemoninhados aparecem em horário nobre na TV, possuem culto só para eles (Desencapetamento Total), tem liturgia própria (rituais de exorcismo), e papel de destaque entre o povo, que se lambuza garantindo mídia ao espetáculo bizarro.

Entretanto, para quem conhece a fenomenologia por trás destes eventos, não há com o que se preocupar, pois a esmagadora maioria dos casos de possessão demoníaca não passam de manipulação emocional, baixa autoestima, sugestionamento inconsciente, histeria e fraude comportamental.

Na verdade, demônio que faz entrevista, responde a perguntas e espera o comercial da TV, só engana crente assombrado, pois nem criancinhas se prestam a dar atenção a tais performances.

Ser possuído fisicamente pelo diabo é o estágio último de um processo longo, que começa na mente, passa pelas emoções e chega à dimensão do físico. E é daí que surge toda minha preocupação.

Ora, o que mais percebo na igreja é gente sendo possuída, mesmo que essa possessão não tenha, ainda, chegado ao estágio da perda do controle das faculdades mentais e do domínio do corpo físico.

Há pessoas possuídas pelo “espírito dos pais”, pela ambiência familiar perversa, por abusos, humilhações, violências, inclusive sexual.

Há pessoas possuídas pelo “espírito do cônjuge”, gente que se tornou vítima de relações persecutórias, esmagadoras, manipulativas. Há mulheres, por exemplo, que sofrem violência sexual mesmo estando casadas, são expostas a pornografia, obrigadas a prática de swing, ou chantageadas por não possuir autonomia financeira.

Há gente possuída “pelo espírito da religião”, crentes que estão possessos de seus pastores sedutores, temendo tocar no “ungido”, submetendo-se a determinações absurdas, aceitando revelações enfatuadas, profecias fatalistas, maldições encomendadas. Outros tantos ficaram possessos do “espírito da denominação”, são os que abriram mão de sua autonomia, de suas agendas, tornaram-se funcionários do templo, servidores do altar, deixaram para trás profissão, estudos, família e amigos para servir a “obra”.

Tem gente na igreja possessa da luxúria, viciada em pornografia digital, gente presa ao “espírito do consumo”, endividada, fazendo transfusão de dinheiro entre contas com o agiota, sendo esmagada pelo cartão de crédito. Imaginar que as manifestações visíveis do diabo são as únicas que estão ocorrendo é de um reducionismo e de uma ingenuidade sem precedentes.

Assim, o diabo agradece toda a atenção dispensada e toda a mídia dedicada para os pseudo-possuídos, enquanto ele se banqueteia distribuindo, no varejo, possessões das mais diversas sobre as pessoas. Como tenho dito, e aqui reitero, o pior diabo é aquele que está sendo gestado dentro de você sem você, sequer, perceber.



Carlos Moreira


05 janeiro 2012

Possessões e Possuídos




"Quando um espírito imundo sai de um homem, passa por lugares áridos procurando descanso e não encontra, diz: ‘Voltarei para a casa de onde saí’. Chegando, acha a casa desocupada, varrida e em ordem. Então vai e traz consigo outros sete espíritos piores do que ele, e entrando passam a viver ali. E o estado final daquele homem torna-se pior do que o primeiro. Assim acontecerá a esta geração perversa". Mt. 12:43-45.

Já não é de hoje que me apercebi que fenômenos individuais têm, não raras vezes, o poder de se transportar para o coletivo. Em se tratando de manifestações espirituais, isto é ainda mais comum, como podemos ver no texto acima. 

Desde o verso 38, Jesus vem discutindo com os fariseus sobre as marcas daquela geração perversa que, mesmo sendo testemunha de muitos milagres e prodígios, insistia em manter duro o coração e petrificada a consciência. Na verdade, eles nunca se davam por satisfeitos, e pediam mais e mais sinais. 

Em linguagem junguiana, quando um assunto vira o centro das atenções de uma determinada sociedade, como era o caso ali, ou seja, “toda vez que ocorre um fenômeno de massa, um tema do inconsciente coletivo é ativado para através da projeção coletiva poder ser elaborado, compreendido, para que a consciência coletiva possa evoluir através da compreensão daquele tema”.

Aquele fenômeno, na verdade, se transformara em arquétipo, passando a ser dramatizado através das projeções individuais das pessoas. Estas, por sua vez, assumiram papéis de protagonistas no drama existencial coletivo que estava sendo construído e que dizia respeito não só a individualidade de cada uma, mas a totalidade daqueles que compunham àquela “geração”.

No texto de Mateus, Jesus parte de um fenômeno individual, com seus desdobramentos próprios, e chega ao coletivo, afirmando que aquilo que se processava no micro-universo religioso, carregava em si mesmo todas as potencialidades de tornar-se fenomenologia coletiva. Se não, vejamos: “E o estado final daquele homem torna-se pior do que o primeiro. Assim acontecerá a esta geração perversa".

Mas o que estava sendo tratado ali? Quais as subliminaridades do texto que não estão evidentes a “olhos nus”? São duas as questões relativas ao possuído, as quais acabavam se transportando para uma possessão coletiva.

Em primeiro lugar, Jesus usa uma alegoria para tratar da questão individual e interior da vida humana que se torna desprovida de significados e conteúdos. Isto está posto quando ele afirma que o demônio, deixando aquele indivíduo, procura “lugares áridos” para repousar. Ora, aqui fica claro que aquele espírito havia saído de um “lugar árido” em busca de outro, ou seja, que aquela pessoa havia se tornado, pela via da dor, da amargura, do medo, do desespero, do ódio, e de outros matizes da existência, que por diversas formas se instalaram no seu ser, um deserto, uma terra devastada!

Como a “serpente se alimenta do pó da Terra”, usando a metáfora do Gênesis, os principados e potestades se alimentam de toda a produção humana que irradia dos indivíduos rancores, invejas, ciúmes, murmurações, e toda sorte de energia psíquica que, acumulada pelo sofrimento e pela dor, acaba emanado tudo o que é “veneno” e que por fim servirá de “banquete” aos demônios!

Em segundo lugar, Jesus trata do que se processa do lado de fora – “‘Voltarei para a casa de onde saí’. Chegando, acha a casa desocupada, varrida e em ordem...”. Aqui temos a existência na qual se fez uma “maquiagem”, aquela pintura que serve apenas para esconder a sujeira e as marcas profundas que a vida produziu.

De fato, Jesus estava fazendo uma analogia as práticas coletivas da religião de Israel, a qual, apesar de apresentar-se “varrida e ornamentada”, vivia da aplicação performática de ritos e mitos do sagrado, os quais produziam uma espiritualidade caricaturada, onde a “mobília” das liturgias e sacrifícios servia apenas para produzir uma fé de epiderme, um verniz ético, uma crença de fachada, pois os conteúdos não se enraizavam em direção ao coração, não se aninhavam nos escaninhos da alma, não podiam alcançar os meandros da consciência.  

E assim, conclui Jesus, o estado final daquele homem tornara-se pior que o primeiro, pois não há nada mais corrosivo ao ser do que viver no embuste, no estelionato, na falsificação, ser “figueira sem fruto”, amargando existir para fora, numa eterna estação outonal. E ele finaliza afirmando que aquela possessão individual tinha o “poder” de se transladar também para o coletivo “Assim acontecerá a esta geração perversa", como de fato estava ocorrendo.

Quando olho determinadas práticas da “igreja” em nossos dias, e o procedimento da grande maioria dos cristãos, consigo claramente discernir “possessões” individuais que se instalaram no ser pela projeção das “possessões” coletivas e vice-versa, ou seja, é um ciclo interminável que se retroalimenta. Como bem dizia um amigo: “é bronca! Se ficar o bicho pega, mas, se orar, o bicho foge!”. Valha-me Deus!

Carlos Moreira


05 agosto 2011

Tatuagem na Alma


“…e o anunciaram na cidade e nos campos; e saíram muitos a ver o que era aquilo que tinha acontecido. E foram ter com Jesus, e viram o endemoninhado, o que tivera a legião, assentado, vestido e em perfeito juízo, e temeram”. Mc. 5:14-15

Acho curioso quando afirmarmos com bastante convicção as palavras de Paulo de que “se alguém está em Cristo é uma nova criatura; as coisas velhas já passaram, tudo se fez novo”. É que esta é uma frase impactante, chamativa, serve como “marketing” cristão, mas, em nosso meio, ela é falsa, caricaturada e, porque não dizer, preconceituosa.

A Igreja “vende” para as pessoas a idéia de que Cristo as aceitará como são, mas, na realidade, elas sempre serão vistas com as “marcas” que trouxeram “estampadas” em si mesmas, “marcas” produzidas pela existência, tatuagens na alma, marcas que não desaparecem facilmente.

“Crente” adora testemunho; alguém falando que fez isso, aquilo, pintou e bordou é algo que faz um auditório vir abaixo. Quanto mais miséria houver na vida do sujeito, mas ovacionado ele será. “Glória a Deus!”. Todavia, mal sabe o pobre coitado que essa “tatuagem” que ele carrega em seu ser jamais será dissociada de sua narrativa pessoal.

Todo “testemunheiro profissional” é “ex” alguma coisa: ex-viciado, ex-alcoólatra, ex-homossexual, ex-prostituta, ex-presidiário, ex-maconheiro, creia-me, a lista não tem fim...

Depois de certo tempo, a pessoa perde sua identidade pessoal e passa a ser apenas o ex-alguma-coisa. Pior do que isso é o fato do dito cujo não conseguir compreender sua nova realidade em Cristo, ou seja, ele não discerne seu novo estado, não se percebe como é, Nova Criação, alguém que recebeu uma folha em branco para poder escrever uma história nova, ressignificar a vida, e não um ex-... com uma folha corrida cheia de desgraças e misérias!

O caso do endemoninhado gadareno é bem típico. O cara era uma fera, um monstro, maluco de pai e mãe, possesso do capeta. Naquela região, não havia quem não tivesse pavor dele. Todavia, simbolicamente, ele era a projeção do inconsciente coletivo daquela gente que queria rebelar-se contra a dominação a qual estava sujeita há vários séculos. Ele era o “mocinho” e o “bandido” ao mesmo tempo, assustava e encantava, pois ninguém podia detê-lo, subjugá-lo ou questioná-lo de seus atos.

Quando aquela criatura desencontrada de si mesmo se encontrou com Jesus, imediatamente “seus” demônios foram expulsos. Mas aquela não era uma possessão comum, pois o gadareno ao ser questionado sobre quem era, afirmou: "somos muitos", somos uma legião, e fez um pedido: "não nos mande embora do país".

Aquela potestade espiritual atuava naquela região há, talvez, milhares de anos. Ela conhecia todos os contornos sócio-histórico-culturais que estavam inculcados na mente e na alma daquela gente e era justamente isso que lhe dava subsídios para manipular aquelas vidas.

Naquele exato momento, do ponto de vista histórico, havia uma legião romana habitando aquelas terras, mas, antes dos romanos, muitas outras legiões já haviam passado ali. O gadareno era, então, uma espécie de representação espiritual da dominação histórica que naquelas terras sempre existiu.

Fato é que Jesus esbarrou com aquele “condenado” naquela manhã e ele, liberto de seus dramas e dores, de seus medos e temores, teve seus grilhões destroçados pela força do poder libertador do Senhor. O que aconteceu em seguida, é algo quase arquetípico.

Enquanto Jesus ainda estava naquele lugar, o ex-endemoninhado – olha o “ex” aí – apareceu de banho tomado, barba feita, cabelo cortado, roupa limpa, alma pacificada, consciência restaurada, coração de "carne", um novo ser! E aí, o que aconteceu?

Bem, o povo daquele lugar ao ver o “ex” transformado em “sou”, pois em Cristo não há passado, mas apenas presente – o bem-aventurado é aquele que é – decepcionado por não ter mais a sua disposição o espetáculo do “monstro” que a todos punha medo, pediu educadamente a Jesus que se retirasse dali.

Não sei como seguiu a vida daquele homem. Pelas Escrituras percebo que ele pediu a Jesus para segui-lo, mas o Senhor o mandou dar testemunho ali mesmo do que Deus fizera em seu favor.

Creio, todavia, que, das duas uma: ou ele foi viver sua vida em paz com Deus e com seus semelhantes, ou virou “testemunheiro profissional”, ou seja, passou a ganhar oferta para sair anunciando que um dia tinha sido um possesso perigoso, mas, agora, era apenas um ex-endemoninhado. Tatuagem na alma só sai se a alma for ressignificada em Jesus. Do contrário, as marcas permanecerão por toda a vida. 

Carlos Moreira

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