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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.
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27 fevereiro 2019

Esquerda? Direita? Pode ser Ambos?




Ideologia é o conjunto de ideias, pensamentos e doutrinas que um indivíduo, ou grupo de indivíduos, possui a respeito de questões de cunho social ou político. 

Apesar de podermos categorizar, ao menos, uma dezena de possibilidades nestes campos, no Brasil, neste tempo que vivemos, ficamos reduzidos a apenas duas possibilidades. 

Assim, usando a dialética de Heigel, ou somos “tese”, ou somos “antítese”, estamos fadados a ser, ou de direita, ou de esquerda. Minha questão, todavia, é a seguinte: e quem não cabe nessas duas caixas, faz o quê? 

Ora, minha indagação se dá pelo seguinte: eu escolhi nem ser de direita, nem de esquerda, e agora, o que faço? Se não entro numa “caixa”, fico fora do “jogo”? Será que eu não posso apoiar causas da direita, quando julgar que elas são justas, e causas da esquerda, quanto entender que elas são verdadeiras? Por que tenho que ter um lado se posso ter todos os lados? 

Bem, eu digo isso porque acredito que Jesus era assim, ele não tinha uma ideologia social, nem muito menos política. Na verdade, o que Jesus propôs foi uma “nova ideologia”, um conjunto de valore e princípios que ele chamou de “Evangelho”. 

Em síntese, o que essa “ideologia” pressupõe é a possibilidade de vivermos a vida tendo como premissa uma nova forma de olhar tudo o que nos cerca: o mundo, as pessoas, a cultura, a política, a sociedade e todas as dinâmicas presentes no cotidiano. 

O evangelista Mateus registrou, no Sermão do Monte, uma fala de Jesus que resolve a problemática do maniqueísmo ideológico de “direita e esquerda”. Diz o Galileu: “Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; Não, não...”. Sabe o que significa? É bem simples: o que for justo e verdadeiro, independente de qual seja a fonte ideológica, deve sempre encontrar naqueles que se dizem discípulos de Jesus a disposição para o “sim”, e o que for injusto e mentiroso, deve sempre obter de seus discípulos uma disposição para o “não”. 

Em Jesus, não importa a corrente ideológica, o que é bom, é bom, o que é ruim, é ruim, independente de que lado esteja. E ele completa a frase dizendo: “... porque o que passa disto é de procedência maligna”, ou seja, se você, por conta de uma questão de ideologia social ou política, de condicionamento academicista, de doutrinação religiosa, de indução filosófica ou manipulação marqueteira, transforma aquilo que é “sim”, em não, ou aquilo que é “não”, em sim, você está se permitindo manipular pelo maligno, uma vez que o mal não suporta nem a verdade, nem a justiça, o negócio do mal é fazer o que é bom ser ruim, e o que é ruim ser bom. 

Por isso, para mim, é muito fácil aplaudir a direita e elogiar a esquerda, e também é natural recriminar a esquerda e denunciar a direita, uma vez que eu não estou preso a nenhum destes condicionamentos, não me acho confinado a nenhuma das duas “caixinhas”, nem sou refém de quaisquer destes pressupostos, minha “ideologia” é o Evangelho, e nele eu posso ser de qualquer lado, desde que esse lado proponha a paz, o bem e a vida. 

É simples assim. Mas você acredita que, curiosamente, a maioria das pessoas não consegue entender isso...


Carlos Moreira





05 outubro 2018

A VIDA É FEITA DE ESCOLHAS. FAÇA A SUA!



Jesus chorou, olhando para Jerusalém, pelo fato do povo não ter reconhecido a oportunidade da visitação de Deus. Sim, eles rejeitaram um Reino de bondade e justiça e escolheram ficar debaixo do jugo Romano, que viria a destruir a Cidade Santa, através do general Tito, no ano 70 depois de Cristo. 


Mas toda tragédia tem sua própria anatomia, ela vai sendo construída pacientemente. No caso dos Judeus daqueles dias, duas escolhas foram decisivas para que a ruína começasse a ser tecida, o que durou, aproximadamente, 40 anos. 

A primeira escolha desastrosa foi a escolha de Caifás como sumo-sacerdote, uma jogada que envolveu a indicação política dos Romanos em conluio com o comando religioso do Sinédrio. 

Caifás era genro de Anás, que ocupava o cargo ante de sua posse, portanto, aquele era um “negócio de família”, uma vez que diversos interesses econômicos e políticos estavam em jogo na sensível relação dos Judeus com o Império. 

Ora, Lucas afirma, no capítulo 3 verso 2, que o ministério de João Batista, filho do Sacerdote Zacarias, da Tribo de Arão, começou na mesma época do sacerdócio de Caifás. João, como sabemos, prepara o “Caminho do Senhor”, e segundo Jesus, entre os nascidos de mulher, ninguém era igual a João. Ele, portanto, era a escolha certa, tinha a hereditariedade, tinha o chamado do Espírito Santo, tinha as qualificações para exercer um ministério profético, mas foi rejeitado pela elite religiosa e pela demagogia política. 

A segunda escolha desastrosa, que dispara o mecanismo que vai levar o povo a ruína, foi a escolha entre Jesus e Barrabás. 

No pátio do Palácio de Pilatos, os Judeus daquela geração não escolheram apenas soltar um preso político e agitador, para livrá-lo da sentença de morte, eles escolheram entre o Reino de Deus e o Reino de Roma, escolheram entre a salvação e a danação, escolheram entre a vida e a morte. 

Manipulados pelas autoridades judaicas, que já estavam articuladas com a autoridade do governador da Palestina, o povo escolheu seu próprio destino ao afirmar: “Crucifica-o!”, em relação a Jesus. 

Fosse isso pouco, ainda disseram, em tom arrogante: “Caia sobre nós e sobre os nossos filhos o seu sangue”. 40 anos depois, o grande General Romano entrou em Jerusalém, destruiu a cidade e o templo, profanando o lugar sagrado e fazendo ali sacrifícios pagãos, mantando centena de milhares de pessoas. 

A vida é feita de escolhas. Por vezes, lemos os textos, mas somos incapazes de articular o mosaico mais amplo da história. Na verdade, religião e política são duas potestades que sempre andam juntas, por isso, no livro do Apocalipse, elas são representadas por duas bestas. 

Quem puder discernir o que digo, que discirna... 

Neste domingo, o Brasil está diante de uma escolha que poderá mudar os rumos da nação para sempre. Espero, em Deus, que você faça a escolha correta e que aquele que for subir a rampa do Palácio esteja, realmente, pronto para governar e tomar as medidas que o nosso convalido País necessita. 

Que o Senhor nos livre, portanto, de escolhermos errado e de vermos o sangue de inocentes caindo como cachoeiras em nossas cabeças. Oro para que sua decisão seja conforme o Espírito que vemos em Jesus e a consciência que há no Evangelho. Deus os abençoe!




Carlos Moreira


29 agosto 2018

O Triunfo do Brasil será o seu Fracasso





O povo brasileiro está doente e a culpa, em boa parte, não é sua. Sim, esta patologia que nos aflige é fruto de séculos de descaso com a coisa pública, do escárnio com a vida daqueles que não possuem representatividade, pois são invisíveis sociais, e também é resultado de uma ignorância endêmica mantida programaticamente por um sistema perverso que visa produzir alienados em série.

É fato, pois a história nos revela, que grandes nações do mundo viveram este mesmo “estado das coisas”, ainda que há séculos atrás, é bem verdade, mas nós temos o atenuante de sermos um País relativamente novo, com apenas 500 anos, ainda temos muita “merda” a fazer...

Pois bem, eu estou convencido que o Brasil precisa do Jair Bolsonaro, ainda que eu jamais possa conceber em votar nele. Bolsonaro, não à toa, representa um mito que foi pacientemente construído no imaginário nacional, ele não é real, é uma “carranca”, assumiu uma personalidade fruto do inconsciente coletivo, não passa de uma projeção da indignação e do descaso do povo contra a política, assumiu ares messiânicos, é reverenciado como um ser acima do bem e do mal, pois dele se espera a solução para os nossos problemas.

O Brasil precisa de Bolsonaro porque só será possível experimentarmos um novo tempo quando esta “era” terminar, quando estivermos, irreversivelmente, mergulhados no caos, quando os mitos morrerem, quando o desencanto nos for jogado na cara sem mais alternativas para desculpas ou escapismos.

Os Gregos, de quem o ocidente é filho, só deu seu salto civilizatório quando os mitos morreram abrindo espaço para o surgimento do pensamento filosófico, inquieto por natureza, questionador em sua essência, escrutinador da verdade. Foi olhando para a realidade e para os fenômenos tangíveis que eles avançaram como sociedade, o “caos” produziu a centelha de lucidez necessária às mudanças, deuses, bestas e feras ficaram para trás, não passavam de representações da infância da consciência e do saber.

Na mesma perspectiva, outro evento que mudou drasticamente o ocidente foi a Queda da Bastilha na França do século XVIII. Ali encontrava-se uma sociedade corrompida, onde os ricos e aristocratas refestelavam-se na opulência e o povo morria de fome as portas do Palácio de Versalhes. Foi o “caos” que produziu o “Haja Luz” da França, a decadência econômica foi o combustível que alimentou o motor de propulsão para fazer explodir a revolta popular que levou para a guilhotina o rei Luiz XVI e sua esposa Maria Antonieta e pavimentou o caminho para que o País se tornasse a potência que é hoje.

Um pouco antes, no século XVI, outro acontecimento de importância ímpar para o ocidente teve suas origens no “caos”. Falo da Reforma Protestante, do século XVI, que quebrou, na idade média, o ciclo de séculos de escuridão e obscurantismo de uma igreja decadente e corrupta. As Teses de Lutero, restritas a esfera religiosa, tiveram desdobramentos intangíveis na economia e na política, como bem escreve Weber no clássico “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”. Mas assim como todos os outros, este foi um evento tecido pacientemente pelo tempo, como uma teia de aranha, até que todas as condições para a insurreição estivessem devidamente alinhadas.

O trabalho do historiador é preservar a memória dos fatos e o dos filósofos questionar seus fundamentos. Assim, do ponto de vista da fenomenologia do que sucede no Brasil, estamos avançando no trilho que nos levará ao caos, o que me faz alimentar uma esperança de que, em algumas décadas, talvez, vejamos um novo Brasil surgir das cinzas.

Desta perspectiva, penso, Bolsonaro é a melhor alternativa, não porque seja o mais preparado, o mais experiente ou o menos corrupto, mas porque representa a melhor alternativa para chegarmos rapidamente ao fim da linha.

Portanto, não adianta você argumentar, mostrar números, falas, pensamentos, questionar a falta de competência, a falta de habilidade, de capacidade de gestão, nada fará os eleitores de Bolsonaro desistirem dele, pois “mitos” só morrem quando expostos a luz da realidade do cotidiano humano.

No fundo, Bolsonaro não passa de uma antítese da Dilma, que fez a primeira parte da lição para quebrar o Brasil. Ela é mulher, ele homem, ela é descasada, ele é o baluarte da família, ela é “comunista”, ele é de extrema direita, ela é subversiva, ele é militar, ela é “gestora”, ele aprovou em 17 anos meia dúzia de projetos na Câmara, ela é agnóstica, ele é cristão. Dilma, para mim, foi a tese; Bolsonaro, caso eleito, pode vir a ser a antítese. A síntese, todavia, e para minha esperança, será acordarmos, definitivamente, deste “berço esplêndido” no qual somos ninados deste o descobrimento do País.

Outubro está aí, falta só mais um pouco, quem viver, verá...


CM – Carlos Moreira



** Este pequeno post não tem o objetivo de ofender eleitores de Bolsonaro ou de Dilma, muito menos tem a pretensão de demove-los de seu voto. Da minha parte, estou apenas analisando, ainda que muito superficialmente, o atual fenômeno social e político do Brasil. Portanto, não tenha raiva de mim, nem me atire pedras – kkkk – eu não pretendo, em absoluto, ser o dono da verdade e da razão.

31 março 2016

Quando a Religião Serve à Política



A religião, historicamente, sempre foi usada como ferramenta de manipulação das massas pela política. Constantino que o diga... A simbiose entre estas duas potestades, produz, ao menos, quatro fenômenos sócio-religiosos, conforme a seguir.

O primeiro é a criação de uma cultura do medo, onde os sacerdotes são alçados a uma categoria de mitos divinizados, pois, tocar no “Ungido”, é tocar em Deus! Com o policiamento comportamental, pessoas são controladas pela via do medo do castigo, seja ele em forma de disciplina eclesiástica pública, seja pela via do bullying fraterno, onde os “irmãos” se afastam daquele que violou o código de conduta coletiva, seja pela ação raivosa de “Deus”, que pune quem não segue a “regra do jogo”. Para a religião, não basta o sacerdote se interpor entre os homens e o Criador, ela precisa controlar também as relações entre os homens e seus semelhantes.

O segundo é a alienação do fiel quanto às dinâmicas da vida, ou seja, quanto mais religião, mais separação do “mundo”, é o noeploatonismo embalado para consumo religioso. Desde há muito, a igreja prega um Evangelho que exclui o indivíduo da realidade cotidiana, suprimindo dele o apreço pela arte, pela cultura, pela política, pela economia. A alienação religiosa é um poderoso meio de controle, cria uma geração de descerebrados, produz na linha de série da igreja-indústria gente que lê a bíblia, mas não lê o jornal, indivíduos que se envolvem com a agenda de programas da denominação, mas que não tem tempo para ir ao cinema, a um show artístico, ou até para investir nos estudos e na profissão. A religião produz um apagão intelectual, isola o sujeito entre as paredes do templo, torna a existência um subproduto das doutrinas da igreja, tenciona impermeabilizar o contato com o mundo real.

O terceiro é a conformação com a miséria, uma vez que o religioso é ensinado que a vida aqui na Terra deve ser uma experiência de sofrimento e renúncia, de privação e desprazer. A verdade é que crente bom é crente pobre! Transportar toda alegria e prazer que alguém pode experimentar para uma vida vindoura, com a promessa de um paraíso perfeito, tem por finalidade produzir uma letargia existencial, um anestesiamento de mente, cultivar a cultura da subserviência, induzir uma subjugação social, levar o povo a ser domesticado tornando-o inofensivo. Ora, essa doutrinação foi largamente utilizada, sobretudo, na América Latina, marcada historicamente por governos totalitários e ditatoriais, pobreza extrema, tanto no campo quanto nas cidades, além de baixos níveis de escolarização e acesso a serviços essenciais. Bem afirmou Dom Hélder Câmara, “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, chamam-me de comunista”.

Por último, temos a rendição da crença às questões metafísicas, ou seja, quanto mais “espiritual” melhor, quanto mais à fé aponte para o sobrenatural, mas riqueza haverá na experiência com o sagrado. A metafísica religiosa amputa uma parte essencial da doutrina de Jesus, que é a preocupação com a justiça e com os dramas sociais, produz uma espiritualidade mágica, catártica e performática, revela um Deus fantasioso e vicia os “pagantes” à necessidade do espetáculo. Por isso, tanto “demônio” e tantos “milagres”! Vender religião é vender, sobretudo, o impossível, o intangível, e a metafísica religiosa se locupleta desta necessidade do ser humano de alcançar o divino para entretê-lo com a pirotecnia litúrgica, cultos teatrais com efeitos spilberguianos, muitos carismas disponíveis para uso, mas quase nenhum caráter que seja apto para torná-los úteis a qualquer coisa proveitosa para o bem.

Em minha experiência pastoral, tenho encontrado um sem número de pessoas marcadas por todos ou alguns destes tópicos acima. A violência religiosa é uma violência contra a alma humana, é um estupro da consciência, produz, por vezes, danos irreparáveis. Num tempo e numa sociedade onde o matrimônio está cada vez mais fragilizado, o casamento entre política e religião continua firme, e dando muitos frutos...

Carlos Moreira.

18 março 2016

O Rei que se Arrepende



Davi, rei de Israel, me impressiona por muitos motivos, mas, sobretudo, porque ele é um homem que se arrepende do mal.

Eu chamo o episódio de Davi com Bate-Seba de: “A Maior de Todas as Derrotas!”. Sim, o mavioso salmista nunca havia perdido uma batalha, mas foi derrotado dentro de sua casa. Mesmo velho, cobiçou a mulher de seu general, deitou com ela e, sabendo da gravidez indesejada, tentou ardilosamente ludibriar os fatos.

Mas Urias era um homem de valores e de uma envergadura moral inquebrantável. E assim, vendo Davi que não era possível demovê-lo, tramou seu assassinato, deu ordens específicas a Joabe para matá-lo de forma desleal e desumana. Ao depois, posou de bacana assumindo a viúva e imaginou que seria feliz para sempre...

O pecado cega a visão e endurece o coração do homem. Davi expressa isso no Salmo 32 quando afirma: “Enquanto calei o meu pecado, secaram-se meus ossos”. A maior desgraça que um homem pode sofrer em vida é ser evitado por Deus, cometer todo tipo de desatino e torpeza sem que haja consequências, ser um promotor de atitudes déspotas sem ver o juízo cair sobre si como prova de disciplina e amor. Isso poderia ter acontecido com Davi, mas não foi assim, pois, decerto, o Pai corrige a quem ama...

Desta forma, Natã, o profeta, foi enviado a Davi como uma espada de esperança para cortar-lhe a garganta e derrubar toda altivez. “Tu és o homem, ó Rei!”, disse o profeta sem meias-palavras e sem pruridos cerimoniais. Feliz o homem de quem Deus não esquece, felizes aqueles que são julgados pelo Senhor, pois ele é grande em misericórdia e se apressa a perdoar os que lhe buscam.

A Davi restou apenas admitir o inconfessável e render-se ante a poderosa mão do Juiz de toda a Terra. Xeque Mate! Não havia o que ponderar, não restava escapatórias, tudo tornara-se flagrante, o Rei, verdadeiramente, estava nu!

É do caos que nascem os homens... “Pequei contra Deus!”, disse o eterno "Pastor de Ovelhas", arrependido. Nada é mais libertador na existência do que a confissão sincera, a alma que se expõe a verdade e a luz, fugindo da penumbra da vaidade e dos disfarces, é sarada de toda a lepra que a desfigura.

Davi nunca foi tão grande, para mim, quanto naquele momento de absoluta derrota, pois, de fato, há derrotas que são mais valiosas que vitórias. Sansão que o diga...


Carlos Moreira

25 agosto 2015

A Igreja e sua Responsabilidade Social e Política



Jesus não era um homem do templo, mas das ruas. Ele não vivia de conchavos na coxia da religião, nem frequentava os bastidores do sinédrio, não estava entre os teólogos de Israel, ortodoxos calcificados de coração e gangrenados de consciência.

Na verdade, o Galileu era um homem de atitudes e muitas de suas ações foram, por assim dizer, ações sociopolíticas. Não há Evangelho nem salvação que seja o bastante para alguém com fome e com medo. As marcas do Reino de Deus ainda são amor e justiça!

Por isso o Senhor deu pão aos famintos de Betsaida, nos desafiando, assim, a assumirmos a responsabilidade com as questões ligadas a miséria e a fome. Ele entrou na aldeia dos leprosos, excluídos do convívio social, demonstrando que seus seguidores deveriam invadir os guetos e os antros das cidades e passou pela terra dos samaritanos, gente expurgada da vida pelo preconceito religioso, sinalizando que o caminho do Evangelho deve nos levar a busca do respeito e da tolerância.

Sim, o meu Jesus conversou com o “sindicato” dos coletores de impostos, na casa de Mateus, denunciou o comércio da religião, que era a mola da economia de Jerusalém e condenou as ações políticas do Rei Herodes, um fantoche nas mãos do Império Romano.

A igreja, equivocadamente, se excluiu do debate social e político porque só tem interesses no Reino dos Céus, esquece que o Reino proposto por Jesus é um Reino de consciência! Há anos ouço líderes evangélicos afirmarem que Jesus nunca misturou política e religião, pois vaticinou: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Nunca vi uma exegese tão fajuta e fraudulenta!

Desta perspectiva, Jesus era um indivíduo dicotômico, que departamentalizava as dinâmicas da existência, separava o natural do espiritual. Absurdo! Ele nunca fez isso! Viveu com intensidade cada instante, não se privou de nada nem fugiu daquilo que entendia ser a dádiva do Pai no banquete da vida.

O fato é que Jesus vivia numa teocracia, o imperador de Roma era um deus, adorado e cultuado como tal, um déspota legislando o que bem entendia. O imposto, naquela circunstância, foi só o pano de fundo da armadilha dos fariseus. Eles, contudo, não puderam entender a resposta do Senhor e a maioria dos religiosos, até hoje, ainda não pode.

Eu creio que Jesus afirmou: “Dai a César o que é de César”, referindo-se ao fato de que um deus terreno só pode receber o que provém da terra, no caso, o pagamento do imposto. Era com isso que César se importava e se satisfazia. Mas ele complementou: “Dai a Deus o que é de Deus”, ou seja, dê ao todo-poderoso aquilo que lhe é devido – glória, honra, louvor e devoção verdadeira – pois o Pai procura a estes que assim o façam. Ele não fez separação de coisa alguma, mas pôs tudo em seu devido lugar.

Acredite, a igreja sempre foi chamada a se envolver com as questões políticas e sociais e continuar a negligenciar isto é abdicar de influenciar os destinos deste mundo. Do jeito que está hoje, a igreja é uma organização com pouquíssima finalidade, existe de si para si mesma, enclausura-se em seus programas e exclui-se de tudo o que não for concernente à doutrina e a fé. Eu penso que a igreja só poderá ser relevante neste tempo se estiver envolvida com todos os processos e dinâmicas da vida e isso inclui as demandas políticas e sociais.

É mister, então, compreender, que não há como contribuir de forma propositiva com a sociedade apenas com louvor e pregação. Uma igreja que tenha algum significado para a história de sua geração precisará, a todo custo, sair do átrio do templo para as ruas, precisará aprender a lotar as galerias do Congresso, onde as leis estão sendo feitas, ao invés de lotar as galerias dos teatros, em busca de ouvir artistas gospel.

É tempo de agirmos! O mundo carece de líderes e de pessoas com boa consciência, gente do bem, para influenciar sindicatos, partidos, organizações e políticos! E acredite: você pode ser um destes...

© 2015 Carlos Moreira

21 junho 2013

Era uma Vez... Mas não é Mais... - Uma Análise dos Últimos Acontecimentos no Brasil



Estamos na pós-modernidade, apesar de muitos ainda acharem que vivemos na idade média. Não há como comparar as manifestações que aconteceram nestes últimos dias no Brasil com nada que, historicamente, tenha ocorrido antes, ainda que os contornos possuam semelhanças com outros acontecimentos libertários, como a “Queda da Bastilha” na França do século XVIII, por exemplo.

Hoje, após um milhão de pessoas saírem às ruas marchando e cantando em mais de cem cidades brasileiras, vimos surgir inquietações de lideranças políticas, sociais, de filósofos e antropólogos que estão em busca de entender o que está acontecendo. Eles perseguem velhos paradigmas e se ocupam com modelos que não servem mais para nos levar a conclusões que, antes, nos saciavam.

Digo isto porque li e ouvi em blogs, nas redes sociais, em canais especializados de informação, pessoas em busca de identificar as lideranças do movimento, a pauta de reivindicações, a agenda com os próximos passos, etc. Ora, quem assim está pensando não analisou o fenômeno com os “óculos” corretos, mas está querendo esmiuçá-lo através de lentes que não mais se adéquam para este fim.

Na verdade, estamos vivendo algo totalmente novo, com uma fenomenologia própria. O que percebemos é que este movimento de protesto é multifacetado, policromático, independente. Ele se articulou através de pequenos grupos, das redes sociais, do marketing viral, não segue as regras que foram utilizadas no passado.

O fato histórico e de suma importância é que o movimento, em poucos dias, conseguiu mobilizar um espectro importante da sociedade, notadamente composto pela classe média, a qual vem reprimindo desejos de manifestações contra as políticas públicas, econômicas e sociais no Brasil. Uma vez que os objetivos mais tangíveis foram alcançados – no que diz respeito às tarifas de transportes públicos – não há mais o que protestar. As pessoas voltam para casa e aguardam uma nova convocação!

Se eu pudesse comparar o que aconteceu, de forma a termos um modelo conceitual, afirmaria que este fenômeno que assistimos é como um furacão, que se forma num determinado momento, concentra uma enorme força reprimida, provoca “estragos” por onde passa e, em seguida, se dissipa. Ele pode se formar novamente, a qualquer instante, bastando que haja condições e fatores necessários para tal.

Ninguém espere que este movimento produza um ícone nacional, ou faça surgir uma nova legenda partidária, ou que se crie a partir dele uma agenda de protestos organizados, etc. Eu acredito que o que o povo descobriu foi uma forma rápida, poderosa e eficiente de se manifestar sem que haja o envolvimento de sindicatos, partidos políticos, associações de classes ou grupos sociais. Se pudéssemos atribuir a um grupo a liderança das manifestações que presenciamos, poderíamos dizer que foi o “grupo dos brasileiros”!

Como se sabe, nem tudo está pronto. E nem era mesmo para estar! O que fica como lição para políticos e governantes é que não há mais como não se aperceber das grandes demandas e insatisfações da sociedade. Não há mais como manipular massas como se fez no passado, utilizando meios de comunicação subservientes e métodos alienantes. Mesmo em meio a uma Copa da FIFA, onde a seleção do Brasil vai bem, o povo foi às ruas deixando claro que a época do “pão e circo” acabou, ficou para trás.

Este novo Brasil que surge não tem um rosto, mas milhões deles, não tem um partido, a não ser aquilo que tome partido em função da coletividade. Este novo Brasil não precisa de canais de TV ou Rádios, usa a internet e as redes sociais – uma mídia que não possui donos – como meio por onde as informações podem trafegar alcançando milhões de cidadãos de forma rápida e objetiva.

O que está acontecendo neste momento, ainda está longe de se poder compreender. Muitos especularão e tentarão dar ao fenômeno uma forma, colocar uma marca, impingir velhas regras e conhecidos controles. Inútil. O que foi, já não é mais.

Daqui há alguns anos, quando falarem do dia 20 de junho de 2013, o dia em que eu e você assistimos a “queda dos poderes”, ainda que ela tenha sido mais moral do que institucional, dirão o seguinte: “era uma vez um país...”, e relatarão o que ocorreu. Hoje, todavia, o que vejo, concretamente, é que nada do que era é mais...

Carlos Moreira

23 fevereiro 2011

DEMOCRACIA, MCDONALDS E TWITTER



Os deuses já não governam o Egito. As pirâmides começaram a ruir, os “faraós” estão sendo destronados e as múmias foram interrompidas em seu sono eterno.

Desde os dias de Menés até o governo de Osnir Mubarak, nunca se tinha visto no Vale do Nilo coisa igual. É a revolta dos felás, a ressurreição do camponês eloqüente!

O Egito dos governantes “embalsamados” está indo por água abaixo. Se eternizar no poder e governar absoluto a partir de um palácio inatingível nunca mais!

Na verdade, não é o ditador Osnir Mubarak que está perdendo o poder, é a tradição política milenar do crescente fértil que está sucumbindo às ondas do neoliberalismo ocidental.

Não são os fundamentalistas islâmicos que estão movendo a revolta popular e nem muito menos qualquer entidade metafísica muçulmana, judia ou cristã. São os “caras pintadas” egípcios que cansaram da ditadura e exigem a saída do presidente.

Ditaduras autocráticas regadas à valores questionáveis não fazem mais sentido no mundo contemporâneo e não estão na ordem do dia no Egito. É o secularismo ocidental que está derrubando Mubarak!

Não são os seguidores de Alá que estão promovendo a reviravolta no Cairo, e sim outro tipo de seguidores: os do Orkut, facebook e twitter. O povo clicou no ícone LIBERDADE.

A convulsão social no Egito é o começo da vitória do hambúrguer sobre o quibe. O que os exércitos ocidentais não conseguiram impor nos campos de batalha, a internet e o mcdonald’s estão conseguindo no âmbito cultural.

Digo isto porque embora Osnir Muabark seja um rebento do imperialismo norte-americano, como Sadan Hussein foi um dia, ele também é um representante legítimo dessas ditaduras violentas que floresceram naquela região ao longo de toda a história.

As manifestações populares no Egito, na Tunísia, na Síria ou onde quer que elas venham a aparecer são um sinal inconteste de que o mundo árabe está trocando o alcorão pela web 2.0 e pelo big-mac com bastante ketchup.

Os tempos mudaram, paradigmas estão sendo quebrados e outros ainda serão. Pelo visto, dentro de mais algum tempo o rigor das antigas tradições será engolido pela liberdade de expressão no mundo virtual.

E eu que preferia os livros ao notebook!

André Pessoa via Século XXI

19 fevereiro 2011

GUNPOWDER PLOT


Bertrand, Russel em seu livro “ABC da realidade”, diz que no dia 5 de novembro os ingleses comemoram o “gunpowder plot”, ou a “conspiração da pólvora”. O evento é uma espécie de festa cívica britânica.

Esta data é festejada para relembrar o empreendimento malsucedido de um conspirador chamado Guy Fawkes que intentou explodir o parlamento inglês no século XVI. Os ingleses comemoram a sobrevivência dos seus parlamentares que não foram apanhados de surpresa pelo atentado (acredite se quiser).

Denunciada a sinistra operação, o parlamento foi inspecionado, a pólvora, que seria usada na explosão também, e os parlamentares salvos sem nenhum arranhão. Em suma, a comemoração demonstra o respeito dos ingleses pelos seus representantes políticos.

A existência do parlamento inglês é, por incrível que isso possa parecer a um brasileiro, motivo de comemoração. No Brasil, entretanto, tal celebração seria impossível por motivos óbvios.

A história da política brasileira e do seu parlamento - digo isso com tristeza - é sinônimo de corrupção e entreguismo. Não temos qualquer motivo para comemorar os nossos parlamentares, ou a existência do senado e do congresso.

A bancada da câmara e do senado é uma vergonha nacional e uma instância totalmente desacreditada. A forma como os parlamentares defendem os seus interesses mesquinhos (principalmente os seus salários) é descabida e antiética.

A maneira vergonhosa como os nossos deputados e senadores confundem interesses públicos e privados é lastimável. A política brasileira enoja o cidadão honesto, torna-nos incrédulos quanto a mudanças e suja a imagem do nosso país no exterior.

Vida política no Brasil continua sendo sinônimo de bom emprego e porta para um possível enriquecimento ilícito. No nosso caso, temos motivo para lamentar, e não para comemorar a não explosão do congresso!

Contudo, eu mesmo não aprovaria uma possível explosão do congresso e do senado nacional. Por quê? Você já imaginou um pedaçinho do Sarney em cada canto do Brasil?

André Pessoa via Século XXI

15 janeiro 2011

"Quando não se Tem Nada a Perder Deve-se Arriscar Tudo"





A tragédia que desabou sobre as cidades serranas do Rio de Janeiro durante as chuvas desta semana é sem precedentes, mas tem antecedentes. Segundo um dos depoimentos que assisti pela TV, cada vez que chove nesta região duas coisas são certas e estão previstas: deslizamentos e velórios.

Quando a desgraça acontece, todo mundo se sensibiliza. As emissoras de televisão transmitem o “show” ao vivo e a cores; os jornais vociferam o descaso das autoridades; as autoridades atuais culpam seus antecessores por não terem feito nada; as rádios fazem entrevistas com os sobreviventes que nos mostram histórias das mais dramáticas possíveis.

Contudo, creia-me, isso não é motivo de alarde. Não se preocupe tanto. Sei que, talvez, você tenha visto cenas muito fortes, mas, saiba, elas desaparecerão de sua memória em dois ou três dias. Sim, elas sumirão assim como sumiram as imagens inacreditáveis de Angra dos Reis, de Niterói, das cidades do nordeste, todas devastadas por enchentes, arrasadas, com   milhares de mortos, cidades varridas do mapa por sinais que a natureza nos dá, cada vez mais freqüentes, de que a Terra agoniza.  

É duro de admitir, mas nos tornamos confortavelmente insensíveis. A dor do outro não nos diz nada. Quando muito, citando Sartre, o outro é o inferno.  Em poucos dias as TV’s, as Rádios, os Jornais, a Internet, precisarão de novos escândalos, de novas tragédias, de novas revelações, de novas notícias. É assim que a “máquina” gira, é assim que as coisas funcionam, é “assim que caminha a humanidade”... Tudo, tudo mesmo será esquecido...

Você acha que algo será feito? Claro que não! Alguns órgãos farão visitas, a presidente vai sobrevoar as cidades, alguns políticos vão aproveitar a desgraça para se projetarem, os bombeiros, a polícia, as igrejas, outras entidades de auxílio, a cruz vermelha, e muitos, muitos anônimos, como sempre, vão ajudar, vão se doar, vão se arriscar. Mas, no próximo ano, tenha certeza, veremos tudo de novo. Só não temos ainda como prever em qual região e em quais cidades a desgraça acontecerá. Talvez, nos mesmos lugares novamente.

No vídeo postado acima, assisti a uma das cenas mais dramáticas de toda a minha vida. Ela me lembra a frase de Laya: “quando não se tem o que perder deve-se arriscar tudo”. A mulher está ilhada numa casa semi destruída. Ali dentro tem uma história, tem a luta de uma vida, os móveis, os eletrodomésticos, documentos, fotos, poucos bens comprados com sacrifício. Mas a casa está submersa, a maior parte destas coisas já foi levada pela correnteza. O volume de água e a sua força faz com que a mulher suba até chegar ao telhado. Agora já não há mais o que fazer,  não tem mais para onde ir.

A câmera mostra a dura realidade. O que lhe sobrou foram apenas duas coisas: a roupa do corpo e o cachorro que ela segura como um filho. Naquele momento, o melhor amigo do cão era o “homem”. Ela o segura como quem segura o único e último bem que lhe restou. Parece determinada a salvá-lo a qualquer custo.

Num ato extremado, num último recurso para livrá-la da morte, vizinhos jogam uma corda para tentar puxá-la para o prédio ao lado. É uma tarefa arriscada. As chances do resgate dar certo são poucas, pois a correnteza é muito forte, o prédio é alto, apenas dois homens estão lá em cima e uma mulher de idade não tem tanta resistência para suportar isto.

A corda é lançada e ela a segura. Ao fundo ouvem-se gritos de desespero. A mulher se joga na correnteza agarrada ao cachorro e tenta salvar-se e salvar o seu bichinho. Mas a força da água impõe-lhe a dura tarefa de escolher entre a sua vida e a vida do animal. Ela agarra a corda com as duas mãos e solta o cachorro que é levado pelo turbilhão descontrolado.

Puxada de forma milagrosa até o teto do prédio, amparada heroicamente por gente que estava no lugar certo na hora certa, ela olha pra trás e não vê mais nada. O “amigo” que tentou salvar a todo custo desaparecera para sempre. Eu tenho um cachorrinho, posso imaginar a sua dor pela sua perda. O que não poderei jamais imaginar é a dor gerada pelas outras tantas perdas deste dia que, para ela, será inesquecível: o dia em que sua vida esteve presa apenas por uma corda.

Eu não sei o nome daquela mulher. Não sei o nome dos homens que a puxaram. Não sei o nome do pequeno cachorrinho. Mas minha alma se entristeceu profundamente pela sua dor e meu coração se compungiu pelo seu sofrimento. Sua coragem em se lançar nas águas para tentar salvar-se me marcarão pelo resto da vida. Daqui de onde estou, posso apenas orar para que ela encontre forças para continuar a viver e reconstruir o que sobrou de sua existência.

A esta mulher, símbolo do desrespeito pela vida, símbolo do descaso das autoridades deste país pelo povo que vive a margem de tudo, símbolo da resistência e da vontade inexplicável de sobreviver, símbolo de dignidade, de humanidade, meus sentimentos, meu respeito e minha reverência pela sua vida, pela sua alma e pela sua dor.

Carlos Moreira 

29 dezembro 2010

Seria Lula um Novo Messias?


Ao ser homenageado na noite desta terça-feira em Pernambuco, estado onde nasceu, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou de mais uma despedida do cargo e afirmou que continuará ajudando a "resolver os problemas do Brasil". Fonte: O Globo.

Lula é um fenômeno, e eu o respeito por isso. Aliás, respeito-o como meu presidente, pois, ao menos uma vez, votei nele. Reconheço seus feitos, suas realizações, coisas concretas, mensuráveis, admiro o seu carisma incontestável, testifico como positivo o rumo que ele deu ao Brasil nestes últimos 8 anos.

De fato, tivemos um bom governo. Muito foi realizado, nem tudo o que era necessário, é claro, mas, sem utopias ou partidarismos, o que dava para ser feito. A pobreza diminuiu, o emprego aumentou, a visibilidade do país cresceu, os setores da economia melhoraram, alguns serviços básicos também.

Mas não vamos nos perder em ufanismos, deslumbres ou politicagem. Não vivemos no Haiti, é verdade, mas ainda estamos longe de ser o Havaí... Nossos juros são os mais altos do mundo, saneamento ainda é o sonho de consumo da maioria da população e tanto o Senado quanto o Congresso, nossas instituições democráticas mais expressivas, são “casas de horrores”. A violência urbana impera e, para tentar controlá-la, precisamos de uma overdose bélica que reuniu Exército, Marinha, as Polícias e o BOPE! A saúde anda mal das pernas, a educação é sofrível, a infra-estrutura ainda está bastante sucateada, e isto para não aprofundarmos muito...   

Mas, com tudo isto, ainda impressiona-me o Lula. Dizer que não teve competência e não dar-lhe crédito é idiotice de uma oposição burra. Por outro lado, não afirmar que colheu onde não plantou é negar o óbvio e o irrefutável. Se Fernando Henrique Cardoso tivesse “navegado” aos “ventos” e “marés” que teve o Lula, tanto internamente, quanto no campo internacional, talvez tivesse feito o mesmo ou, quem sabe, até mais.

Sei que esta é uma análise simplista, mas aqui está um empresário que conhece um pouco como a “máquina” funciona. Faço-a com isenção, pois apesar de me constituir ser político, não sou politiqueiro nem militante. Não sou filiado a nenhum partido, não defendo nenhuma bandeira, a não ser a bandeira do Reino de Deus, não carrego no peito nenhuma estrela a não ser a Estrela da Manhã, aquela que simboliza a Jesus, o meu Senhor.

Ontem saí tarde do escritório, como de costume. As ruas do Recife Antigo estavam apinhadas de gente. Todos queriam ouvir o presidente. Ao fundo, escutei gritos e ovações, mas o cansaço e mesmo o descaso me fizeram rumar passos largos até o estacionamento para pegar o carro e ir para casa. Mas hoje, depois de ler as matérias publicadas nos jornais, analisando o último discurso de Lula, cheguei a uma importante conclusão: Lula é um novo Messias! Você não acredita? Então, vejamos...

Lula “encarnou” como presidente após sucessivas derrotas em campanhas políticas. Todavia, sua persistência e a de seu partido o levaram, enfim, aos píncaros da glória, ao Palácio da Alvorada. Saiu do interior de Pernambuco, da fome, da miséria, da seca, da boléia do caminhão, do pau-de-arara, para ser operário na cidade de São Paulo, líder sindicalista, e, por fim, presidente da República. Invejável...

Depois de “encarnado” passou, então, a ser considerado a salvação do país. Em seus discursos e em todos os pronunciamentos, dentro e fora do Brasil, exibia-se a si mesmo como o único capaz de trazer a solução para os problemas da nação. Asseverava ter encontrado um Brasil espoliado, destruído, incapacitado e debilitado. Ao seu antecessor restaram apenas críticas, chacotas e desdém. Contudo, no “tempo oportuno”, "Deus", tendo misericórdia de tão sofrido povo, revelou Lula, o “salvador da pátria”.   

Em seguida, acompanhado por um competente gabinete de ministros – poderíamos até parafrasear como seus “apóstolos” – começou a por ordem na casa. Cuidou dos pobres, quebrou protocolos, investiu em favor dos menos favorecidos, manteve programas assistenciais importantes, criou outros, fez de um tudo para ajudar os excluídos e os despossuídos. Fato.

Num determinado momento, quando acusado de ser o diabo em pessoa, quando lhe atiraram pedras, quando pensaram em crucificá-lo e o responsabilizaram pelo maior escândalo da República – “O Mensalão” – calou-se. Numa atitude de “humildade”, preferiu retroceder. “Nunca soube de nada”, foi seu parecer. E mais, mesmo sendo acusado de todos os lados, perdoou os seus agressores e "deu salvo conduto" àqueles que lhe ofenderam e destrataram.

Finalmente, já na reta final, no último lampejo de seu governo, Lula consegue o feito inédito de eleger presidente a primeira mulher na história da nossa nação, Dilma Rousseff. Sai então de cena o homem; entra na história o mito. Lula “morre” para Dilma poder nascer! Enfim, “tudo está consumado”.

Mas no discurso de ontem, diante de uma platéia ensandecida, gritos emocionados, o nosso “messias” não resistiu e veio as lágrimas. E assim, de forma quase que profética, anunciou em alta voz: “eu voltarei”!

Foi aí que eu pensei: pronto, agora está tudo completo: a encarnação, a vida, a “morte”, a promessa de “ressurreição” e, em seguida, a volta. Fica, desta forma, uma pergunta que não vai querer calar, pelo menos durante os próximos 8 anos: não seria mesmo o Lula um novo messias? Menino, sei não viu....

Carlos Moreira

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