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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.

30 abril 2016

Você é um Culto!



“Eu vou ao culto”? Vai não, você é um culto!

Nas manifestações religiosas dos hebreus, na antiguidade, o culto se relacionava a expressões de devoção e adoração associadas a lugares e circunstâncias, daí a prática dos Patriarcas de construir altares, com vistas a demarcar espaços de comunhão com Deus.

Depois que o Templo foi construído por Salomão, o lugar da vivência das práticas ligadas ao sagrado se confinou as paredes daquela mega-construção, onde as rotinas litúrgicas de culto eram executadas por funcionários devidamente qualificados.

No desterro babilônico, diante da ausência do Templo, os hebreus passaram a utilizar como lugar de adoração e ensino as sinagogas, prática que se mostra presente nos dias de Jesus e, após a destruição do Templo, no ano 70 d.C., pelos romanos, como modelo consolidado para esse fim.

Mas, em Jesus, e no Evangelho, o culto ganha uma dimensão totalmente diferente, ele move-se de um lugar fixo – “nem neste monte nem em Jerusalém” – para todo e qualquer lugar – “pois o Pai busca adoradores que o adorem em Espírito e em Verdade”.

Nesta perspectiva, culto é o que acontece na vida, culto é a dinâmica da existência que se rendeu a Deus e busca materializar a fé em atos de amor e justiça.

Por isso Paulo, quanto trata deste tema, ensina que o culto é racional, pois envolve todas as dimensões do nosso viver – corpo, emoções, intelecto e espírito – conforme descrito na sua carta aos Romanos. Em Coríntios, ele explicita ainda mais, dizendo que “quer comais, ou bebais, ou façais qualquer outra coisa, fazei-o para a Glória de Deus”.

Assim, não há geografia sagrada no Evangelho, nem lugares santificados, pois o culto acontece debaixo do sol, na forma como encarnamos os valores do Reino de Deus.

Na parábola do Samaritano, o sacerdote e o levita haviam saído do “culto”, onde tinham sacrificado no altar santo e louvado a Deus com suas oblações, mas foram incapazes de discernir que o culto seguia pelo chão da vida, e agora se apresentava diante deles na figura moribunda de um transeunte machucado por malfeitores.

De fato, aquele homem era o altar onde a fé deveria ganhar concretude pela via da solidariedade e do amor sacrificial, mas eles não puderam compreender, pois seus olhos e mentes estavam impregnados pela insensatez de um tipo de espiritualidade que privilegia rotinas e formas, mas despreza as dinâmicas do coração...


Carlos Moreira

26 abril 2016

Há Um Outro Eu Morando em Mim

“Desventurado homem que sou, quem me livrará desta morte?”. A afirmação dramática é do apóstolo Paulo e está descrita no capítulo 7 da Carta aos Romanos. De fato, a esmagadora maioria das pessoas que encontro vive em profunda aflição e sentindo-se brutalmente culpada por não conseguir fazer àquilo que a religião lhes propõe. Elas reconhecem que, mesmo amando a Deus e desejando seguir ao Evangelho, não conseguem livrar-se de vícios, pensamentos, condicionamentos, traumas e medos, o que as faz existir em flagrante estado de culpa e desânimo. Sim, a cartilha religiosa comportamental se constituiu no substituto da Lei Mosaica, assumiu o papel de advogada de acusação, esmaga consciências e reduz a zero a possiblidade de experimentação de algo que produza paz e bem na vida e, por conseguinte, saúde no ser. Contudo, a questão é: como lidar com esse outro “eu” que existe em mim e que tende, inexoravelmente, ao pecado? O que fazer para apaziguar essa guerra incessante entre a carne e o espírito, entre o bem e o mal que habitam no meu interior? Assista a mensagem e encontre a pacificação para sua alma!


22 abril 2016

Morreu na Praia Atrapalhando o Feriado.



O dia de ontem foi marcado pela tragédia do desabamento de parte da passarela da Ciclovia Tim Maia que circunda a Avenida Niemeyer no Rio de Janeiro, construída para abrigar competições das Olimpíadas.

Essa poderia ser mais uma obra de engenharia com problemas, teria passado despercebida, como tantas outras, devido, quem sabe, a materiais de quinta categoria, erro de projeto, descaso na fiscalização, corrupção na licitação, mas chamou à atenção pelo fato de ter vitimado, até agora, duas pessoas e haver a suspeita de uma terceira morte.

Ora, numa cidade onde morre gente todo dia, de todas as formas, de indigência na fila do hospital, de bala perdida na favela, de assalto na Lagoa, essas foram apenas mais duas, logo estarão nas estatísticas e fica tudo por aí...

A imagem do post é da reportagem da Rede Globo e choca pelo descaso, mostra os corpos estendidos ao centro e as pessoas seguindo normalmente o script programado para o feriado: jogo de futebol, churrasquinho, cerveja, bronzeador e frescobol.

Mais e daí? Vamos estragar o dia por causa de duas mortezinhas de nada? Lembrando o João Bosco, "Tá lá o corpo estendido no chão...". O que tem a morte do outro a ver comigo? Dá licença, coloca aí do lado, deixa quem de direito reclamar, só não atrapalha minha pelada, não estraga meu lazer e, se possível, não "suja" a paisagem, hoje é dia de praia e sol!

Pobres homens de gelo, com coração de lata e nervos de aço, desumanizaram-se! Bem disse Jesus a vosso respeito, que chegaria o tempo, nos dias derradeiros da Terra, onde o amor esfriaria, as pessoas seriam vítimas de um tipo de sociopatia que dessensibilizaria a alma. Certo estava Sartre, o inferno é mesmo o outro... E que venham as Olimpíadas!



Carlos Moreira

21 abril 2016

A Pisada de Bola de Bolsonaro e o “Pecado” de Deus



Diante da polêmica sobre o discurso de Jair Bolsonaro no Congresso, uma fala curta, mas carregada de ódio, uma vez que exaltou Carlos Alberto Brilhante Ustra, torturador da Ditadura Militar, acabei lendo um comentário de alguém que disse: “Ora, vocês cristãos criticam torturadores, mas amam um Deus que irá torturar, indefinidamente no inferno, almas condenadas à danação?”.

Na verdade, a citação era uma entre muitas, num diálogo bizarro, cheio de agressões, tendo como protagonistas crentes raivosos e um ateu astuto. Pois bem, a certa altura do imbróglio, que já adentrara no tema do inferno, o ateu citou a parábola do “Rico e Lázaro”, descrita por Lucas no capítulo 16. Foi um vexame! Os crentes silenciaram, ficaram estupefatos, não puderam contrapor a fala do próprio Jesus que assevera sobre um Homem Rico que foi condenado a sofrer os horrores do inferno e, sendo assim, é consumido por suas chamas implacáveis. Achei curioso o ateu saber mais bíblia que os crentes, mas...

Na verdade, a ideia de inferno que habita o inconsciente coletivo do ocidente cristão, nada tem a ver com o Evangelho ou com Jesus. Ler os textos que tratam do inferno no Novo Testamento sem ter conhecimento histórico e filosófico sobre o tema nos levará, irremediavelmente, a acreditar no inferno de Dante Alighieri, escritor italiano do século XIII, autor de famosa obra – O Inferno de Dante – sobre a “Casa do Tinhoso”, esse lugar onde há lagos de larvas, câmaras de tortura, fogo, enxofre, bestas insanas e homens desgraçados.

O inferno cristão é uma construção teológica que se inicia no exílio judaico, na simbiose de crenças babilônicas e egípcias com as concepções do Velho Testamento. Durante cerca de 400 anos, rabinos organizaram uma nova metafísica para o pós-morte, a qual sofreu, por último, a aditivação de elementos da cultura helênica, zeitgeist dominante no mundo antigo desde 300 a.C. Portanto, o “Ades” do Novo Testamento não tem nada a ver com o “Sheol” do Velho, é, por assim dizer, uma crença pagã convertida ao judaísmo.

Dito isso, chego à parábola do “Rico e Lázaro”, explicitada por Jesus. De fato, o que temos não é um texto elucidativo sobre o inferno, mas sobre o drama de se viver sem Deus no mundo, ainda que cumprindo os rigores da Lei. O público ao qual a mensagem se destina é essencialmente religioso, por isso o “Rico”, “abençoado” pelo Senhor, vai parar no tormento do inferno de fogo, enquanto “Lázaro”, um pobre purulento, tem como destino o céu e vive a graça de estar junto a Abraão.

Ora, parábolas são contos que tem como objetivo transmitir um ensinamento moral. Elas se utilizam de metáforas e alegorias, um universo rico em imagens e símbolos, sempre com o fim de facilitar o entendimento. Assim, a lição óbvia que Jesus traz na parábola do “Rico e Lázaro” é que devemos encarnar uma espiritualidade que nos leve a amar a Deus tendo a vida do nosso próximo como altar, ou seja, não devemos deixar que ninguém agonize em nossa porta, pois quando deixamos de fazer algo aos pequeninos, ao Senhor o negamos.

Observe que a parábola começa na Terra, passa pelo céu e pelo inferno, e retorna novamente a Terra, onde os irmãos do “Rico” estão a viver de forma descuidada e desafeiçoada. O inferno nesse conto é apenas uma cenografia, algo que já habitava o inconsciente daquela geração, por isso Jesus o utilizou como uma poderosa imagem para tratar do essencial, que é o fato de que não devemos deixar que em nós se instale o que há de pior para a vida. Inferno, muito antes de ser um lugar, é um sentir, você pode estar possuído do inferno mesmo sem, literalmente, vir a habitá-lo.

Portanto, ainda que de forma muito simplista, uma vez que num texto curto não dá para explorar o tema com profundidade, quero dizer que essa especulação de que Deus irá torturar indefinidamente as pessoas num caldeirão de fogo é uma crença mitológica e infantilizada. E com isso não estou negando a existência do inferno, tema que deixarei para abordar em outra oportunidade, mas apenas abrindo um espaço mental para novas percepções.

É mister esclarecer que todo texto que fala de inferno o faz de uma perspectiva filosófica, especulativa, uma vez que ninguém nunca foi lá e voltou para fazer um relato. Eu sei que a ortodoxia vai citar os textos do Apocalipse de João e os escritos de Paulo quanto ao cenário de horrores, mas, como disse, toda leitura sobre o tema deve partir da perspectiva das crenças vigentes nos dias de Jesus e também do fato de que os textos estão em linguagem apocalíptica, recheados de arquetipias, metáforas e alegorias, e assim devem ser interpretados. 


Para mim, todavia, vai para o inferno aquele que odeia a vida, pois ele é o destino de quem insistir em viver sem Deus, como acontece com os demônios. Inferno é a existência sem a possibilidade de Deus, seu maior castigo é permitir que os indivíduos convivam com o pior de si mesmos sem uma alternativa para o arrependimento e o perdão. Esse é o significado do fogo que não se extingue, um símbolo da perpetuação daquilo que consome o ser para a morte e a não existência de salvação ou esperança.

Finalmente, quero lhe dizer que a bondade de Deus não combina com a maldade do inferno dos cristãos. A justiça de Deus foi feita na Cruz, onde tudo foi pago! Deus amou o mundo, não condenou o mundo, pois a misericórdia, por fim, triunfará sobre o juízo! Deus, um torturador? Jamais! Quem o conhece, sabe do que estou falando...


Carlos Moreira

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É importante esclarecer que este BLOG, em plena vigência do Estado Democrático de Direito, exercita-se das prerrogativas constantes dos incisos IV e IX, do artigo 5º, da Constituição Federal. Relembrando os referidos textos constitucionais, verifica-se: “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato" (inciso IV) e "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença" (inciso IX). Além disso, cabe salientar que a proteção legal de nosso trabalho também se constata na análise mais acurada do inciso VI, do mesmo artigo em comento, quando sentencia que "é inviolável a liberdade de consciência e de crença". Tendo sido explicitada, faz-se necessário, ainda, esclarecer que as menções, aferições, ou até mesmo as aparentes críticas que, porventura, se façam a respeito de doutrinas das mais diversas crenças, situam-se e estão adstritas tão somente ao campo da "argumentação", ou seja, são abordagens que se limitam puramente às questões teológicas e doutrinárias. Assim sendo, não há que se falar em difamação, crime contra a honra de quem quer que seja, ressaltando-se, inclusive, que tais discussões não estão voltadas para a pessoa, mas para idéias e doutrinas.

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