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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.
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18 outubro 2016

Fantasma Caseiro



Uma das grandes tragédias relacionais é a pessoa se tornar um fantasma caseiro. Sim, isso é mais comum do que se imagina, é quando o outro passa a ser ignorado pelo parceiro e aceita viver de migalhas do tempo, busca saciar-se com a escassez de gestos, quase suplica por miudezas de olhares e restos de atenção. 

O fantasma caseiro é o estado final da alma que foi desprezada e não se ateve para o mal do abandono, procurou, erradamente, satisfazer-se com pouco, lutou, ainda que heroicamente, para sobreviver do expurgo de um tipo de amor que mata, pois o narcisista só consegue amar àquilo que é espelho. 

Quanta gente já vi sucumbir em meio a esse tipo de patologia moderna, viraram assombrações de si mesmos, perambulando por corredores escuros, agonizando solitários em lençóis esbranquiçados, sentados, postumamente, na frente da TV ou comendo comida velha no banquinho de canto da cozinha. 

Neste contexto, já dizia Cazuza, a pior solidão é aquela de quem está acompanhado, faz a pele enrugar de tristeza e a boca murchar de descontentamento.

Portanto, se você discerne que está vivendo este processo, que sua existência está lhe levando a se tornar um holograma, uma projeção imaterial de um eu que sucumbiu em si mesmo, se as paredes se tornaram confidentes e os livros uma distração irremediável, talvez esteja na hora de pensar um pouco em você, pois há cura para este tipo de mal, basta que a pessoa acorde do sonífero que fez o coração se tornar dormente a dor. 

Acredite, não há pobreza maior do que não ter o que receber de quem se ama, pois a mendicância de afeto corrói mais que a ferrugem do ferro, mata compulsoriamente, faz o corpo implodir em silêncio e sombra, transforma a vida na cinza das horas. 

Desta forma, se já estais só, ainda que iludido com uma companhia que não te acompanha, não seria melhor libertar-se deste vício que te prendeu ao outro sem razão e sem por quês? Ama-te a ti mesmo, antes de tudo, e assim será possível amar e ser amado por alguém...


Carlos Moreira


05 fevereiro 2016

Até que a Morte nos Separe... Só que Não!




Casamento é tema recorrente no aconselhamento pastoral: traição, separação, finanças, mesmice, os dramas se repetem e cansa ter de dizer, sempre, as mesmas coisas...

É difícil falar de casamento, sobretudo, para quem não está casado, e aqui digo casado não me referindo a quem acha que casamento é altar e cartório, ou seja, cumprir liturgias e rituais da Igreja e do Estado e viver na aridez, mas aos que se encharcaram de amor, os que penetraram não apenas o corpo do outro, mas os que invadiram alma e chegaram até o espírito!

Deixe eu lhe dizer uma coisa com a autoridade de quem está casado há 25 anos: casamento tem crise e, se não tiver, ele é a crise, pois a relação gangrenou e você não se apercebeu porque, provavelmente, já não se importa mais com o outro. Dependendo do que se carregue no coração, viver na mesma casa, dormir na mesma cama, comer na mesma mesa e fazer sexo com a mesma pessoa não é atestado de saúde conjugal, mas de esclerose relacional!

Eu sei que anos de convívio vão impor desafios hercúleos à relação: superar pequenas diferenças – que ficaram grandes, vencer a mesmice, reapimentar o sexo, cultivar o carinho, mas é fato que, mesmo com todo esforço, por vezes, o casamento acaba! Sem esforço, então, já nasce morto, dura de dois meses a dois anos, no máximo.

Portanto, um casamento acabar não é o fim do mundo, não obstante ser uma das maiores dores que um ser humano pode enfrentar, mas o problema, mesmo, é ele acabar sem acabar, ou seja, é você manter-se “casado” por causa do patrimônio, dos filhos, pela preguiça de separar, ou por questões religiosas. Aí, sim, é o fim!

Casamento acabado que não acabou é um horror, é como manter o vovô, morto, na sala de estar da casa, em estado de putrefação, degenerando-se lentamente na presença da família. Sim, óbvio, todos percebem: seus filhos – principalmente, os funcionários, os vizinhos, até o cachorro! E você ali, firme, como o capitão do Titanic, afunda com o barco, mas não perde a pose, e ainda mantém seu orgulho idiotado de poder afirmar que está casado, com a mesma mulher, há trocentos anos. E viva a hipocrisia!

Mas nada é mais bizarro do que casamento de crente que acabou e não acabou. Sim, é triste ver como as pessoas podem ser sequestradas de mente e alma pela religião, como um dogma aplicado de forma perversa sobre a existência castra sonhos e arrasa corações. E o sujeito-homem, defensor da moral e dos bons costumes, da indissolubilidade do matrimônio, do meio de sua amargura asfixiante, reza todo dia para a mulher cometer adultério – o que lhe daria a prerrogativa “legal” para a separação, ou que Deus leve sua “amada” para junto de Si, de tal forma que, pela via da viuvez, a vida possa, enfim, ser refeita.

Não sou dos que advogam o divórcio por qualquer idiotice, muito menos acredito em relações frívolas, mas creio que, por vezes, amputar o membro é melhor do que perder o corpo inteiro por septicemia. No que tange ao divórcio, Jesus afirmou: “Não foi assim desde o princípio...”, alertando-nos que, o melhor de Deus é casar e manter-se casado, mas, num mundo caído, onde nascem “cardos e abrolhos”, a vida é como pode ser, não como deveria ser, portanto, na falta de escolha, escolha o mal menor!

E assim, digo, com toda a responsabilidade que carrego, se teu casamento te faz pecar, corta-o e arranca-o fora, pois é melhor entrares divorciado e casado novamente no Reino de Deus, do que casado uma única vez, em meio a uma relação fraudulenta e cheia de perversidade piedosa, viveres, já aqui, no inferno da tua alma e, ao depois, na eternidade, quem sabe onde?

© 2016 Carlos Moreira

10 novembro 2015

Negar-se a Si Mesmo



“Negar-se a si mesmo” é um dos conceitos e uma das falas de Jesus mais mal interpretadas de todo o Novo Testamento. Você pode encontrar a citação nos Evangelhos sinópticos, como por exemplo, em Lucas 9:23.

A questão se agrava pelo fato de que, a grande maioria dos pastores e líderes deste tempo carece, desgraçadamente, de ferramental mínimo para interpretar as Escrituras, as regras básicas da hermenêutica e da exegese bíblica. Sem isso, a versão que prevalece é sempre a mais popular, ou aquela que é expressa pela maior denominação, ou ainda o pensamento que for mais fundamentalista.

“Negar-se a si mesmo”, no conceito da esmagadora maioria da igreja evangélica brasileira, tem a ver com mortificação do eu, com aniquilamento da personalidade, com ascetismo grego repaginado, com estoicismo contemporâneo, com o neoplatonismo de Plotino, do qual Agostinho bebeu para elaborar sua teologia, que é à base de boa parte das crenças da igreja católica romana e de parte do protestantismo.

Nesse sentido, desconhecer a história é uma tragédia imperdoável para quem deseja se tornar mestre ou pregador do Evangelho. A negação do eu é um doutrina pagã, mas, jamais, cristã! O sujeito que se nega faz isso para se autojustificar, ainda que, conscientemente, ele não perceba tal feito.

Assim, a negação do eu é uma alternativa para a purificação, para a sublimação, para o “nirvana” espiritual. É uma das mais antigas práticas das religiões primitivas e dos cultos antigos. Quem se entrega a essa doutrina de negação e quem tenta reduzir à carne a escravidão, só fará com que pulsões enormes cresçam ainda mais em si mesmo, e essa analogia é científica, não religiosa.

A doutrina da negação elimina a doutrina da justificação, na qual eu sou informado de que não há nada que eu precise fazer para que a paz de Deus me envolva e para que a inimizade, produzida pelo pecado seja, definitivamente, extirpada da minha consciência.

Por isso, quem tenta fazer isso pela via da negação de si mesmo, assemelha-se aos que praticam a doutrina Kardecista, onde o indivíduo purga seus pecados pela via da piedade e das boas obras. Muda o meio, mas não o objetivo final.

Ora, a fala de Jesus só pode ser interpretada a partir da leitura mais ampla dos textos, no caso de Lucas, com a adição à exegese do verso 24. Observe: “Pois quem quiser salvar a sua vida a perderá; mas quem perder a vida por minha causa, este a salvará”. Ou seja, “negar-se a si mesmo” significa abandonar toda busca de um caminho meritório para Deus, significa esvaziar-se de toda a justiça própria, significa abrir mão de qualquer sacrifício, oblação ou oferenda que possa assumir o papel da Cruz e do Sangue do Cordeiro.

Negar-se a si mesmo é aceitar o fato de que tudo já “está consumado”, de que o sacrifício foi feito uma vez para sempre, e que não há outro que possa ser colocado no lugar de nosso Sumo Sacerdote, o qual expia toda nossa imundice e culpa.

Portanto, quem desejar, pela via da negação, salvar a sua vida, a perderá, disse Jesus! Não existe nenhum ritual, nenhum culto, nenhum poder ou sabedoria, nenhum intermediário, nenhuma doutrina ou confissão que possa mudar isso, nada pode se colocar no lugar do Sacrifício do Senhor, que deu a sua vida para salvar o mundo! Portanto, só quem abre mão do caminho da religião, que é o esforço do homem para alcançar a Deus, quem “perde a sua vida”, a achará!

Eu penso que os que possuem bom coração e boa consciência entenderão o que falo. Por outro lado, quem se calcificou pela via da cauterização de mente produzida pela crença religiosa ainda andará buscando meios de agradar a Deus. Deus não quer se seduzido! Deus quer ser amado e obedecido! Só Jesus foi capaz de agradar a Deus! “Esse é o meu filho amado, e nele a minha vida se alegra!”.


Carlos Moreira

12 junho 2012

Seja quem For, Seja Você!




É muito comum, em conversas pastorais, encontrar aqueles que se tornaram refém dos anseios e desejos de pessoas: pais, cônjuges, filhos, patrões, “amigos”. Eles afirmam que não possuem identidade, que se tornaram uma projeção de outros, um holograma material do que é imaterial e só existe como desejo reprimido, que acabaram encarnando um “personagem”, vivendo uma vida que não é deles, tudo com vistas a agradar aqueles que, sobre eles, alimentaram expectativas das mais variadas. Isso, creiam, provoca um sofrimento sem medida e um desgaste existencial sem precedentes...  

Neste contexto, encontro aquele que se casou com quem não gostava, aquela que exerce uma profissão para a qual não se sente habilitada, o que passou a assumir determinados pensamentos e comportamentos que lhes são estranhos, ou mesmo inaceitáveis, a outra que evita a polêmica, a exposição, o firmar posição, tudo em prol de jamais romper o “cordão umbilical emocional” que os torna, de certa forma, escravos psicológicos de outrem, uma vez que a consciência viciou-se em não ter sua própria “voz”. Desastrosamente, aqui temos algo que, por fim, estabelece um estado existencial em que a pessoa se torna prisioneira de um outro alguém em seu próprio ser! 

Analisando mais detalhadamente, percebi que muitas destas situações, não raro, estão associadas a questões econômicas, ao mundo competitivo em que nós vivemos, a essa sociedade movida pelo supérfluo, ao capitalismo que, segundo Bauman, estabeleceu a seguinte máxima: “consumo, logo existo”. Desta forma, em prol de manter vantagens e benesses, as pessoas acabam, às vezes sutilmente enganadas, se sujeitando ao imponderável.

É o filho que tem que assumir o próspero negócio da família, ainda que não tenha qualquer vocação para tal. É a moça que tem que agüentar situações constrangedoras e até assédio por causa do bom emprego que possui. É o cinquentão que tem de se submeter a situações vexatórias, pois, caso seja dispensado, não encontrará mais oportunidades no mercado. É o rapaz pobre, que se casou com a socialite rica, e, agora, tem de atender-lhe as demandas para poder manter privilégios. E por aí vai...

O resultado de tudo isto é o estabelecimento de uma sociedade movida a disfarces, a interesses, ao “jogo de empurra”, ao “toma lá, dá cá”, a cultura da vantagem, dos que vivem “em cima do muro”, do impessoal, do “politicamente correto”. Raramente vemos pessoas que se posicionam, que assumem riscos, que sejam firmes, que mantenham convicções e por elas estejam dispostas a ir as últimas conseqüências! Somos uma geração de homens e mulheres sem “palavra”, de caráter afrouxado, de valores relativizados, de comportamentos marionetizados. Sintetizando, como bem afirmou Groucho Marx: “esses são os meus princípios; se você não gostar deles, eu tenho outros...”. 

Quem é você? No que você acredita? Quais os disfarces que possui a sua face? Quantas pessoas existem dentro de você? São perguntas intrigantes, inquietantes. Respondê-las, inclusive, lhe expõe, faz com que seu pensamento seja conhecido, suas idéias venham à baila, sua opinião se torne pública. É perigoso demais! Para que fazer isto? Que vantagens algo desta natureza lhe trará?

Bem, reconheço que, de fato, você lucrará pouco ou quase nada se passar a fazer tais coisas ou, muito provavelmente, terá enormes problemas e dificuldades, mas, estou certo que, seja você quem for, é melhor que seja sempre você mesmo! No livro "Coragem para Mudar", utilizado no Al-Anon, encontramos “...jamais senti que pudesse ser eu mesmo perto das outras pessoas. Eu estava ocupado demais, tentando ser o que eu achava que os outros queriam que eu fosse, com medo de que eles não me aceitassem do jeito que eu era". Por isso, pense, não dói; fale, não é proibido; posicione-se, não é pecado!

Essa é justamente a questão que Jesus está tratando no texto abaixo: 
Pois veio João Batista, que jejua e não bebe vinho, e vocês dizem: ‘Ele tem demônio’. Veio o Filho do homem, comendo e bebendo, e vocês dizem: ‘Aí está um comilão e beberrão, amigo de publicanos e pecadores.’”. Lc. 7:33-34. 

É certo que o Galileu nunca sofreu crise de identidade, não se dobrava aos interesses do Sinédrio, nem de Herodes, ou do Império Romano, nem de seu ninguém! Isso porque não tinha compromissos que lhe levassem para além de sua própria consciência e fé, estava disposto apenas a obedecer ao Pai, pois, até mesmo a Escritura se tornara relativa diante dEle uma vez que, Jesus, o Cristo, veio a se constituir a única chave hermenêutica através da qual a “letra” pode ganhar sentido e significado.

Essa passagem de Lucas nos trás uma situação corriqueira. Sua análise concentra-se no fato de que João Batista, que tinha voto de nazireu, ou seja, vivia como um ermitão, comia gafanhotos, mel silvestre, vestia-se de trapos, peregrinava pelo deserto, não era casado, não bebia vinho, orava, jejuava, pregava o arrependimento, mas, ainda assim, os religiosos diziam que ele tinha demônio! Ou seja, João, segundo Jesus, havia se tornado o maior de todos os homens nascidos de mulher, contudo, não era capaz de agradar àquela multidão.

Com o Nazareno, todavia, a questão era diferente! Comia, bebia, se alegrava, sentava com pecadores, ia à casa de publicanos, conversava com meretrizes, andava com samaritanos, curava em dia de Sábado, acolhia os enfermos, libertava os endemoninhados, quebrava as tradições, fazia tudo ao contrário de João, mas ainda assim era tido como subversivo, alguém andando na contra mão do “sistema”, um “rebelde” com causa, sendo condenado do mesmo jeito, porque o que as pessoas queriam era ver um boneco, um fantoche, um profeta de “brinquedo”. Mas Jesus “quebrou a banca!”. Boa!

O que sei é que quando você não é o que é, não há mais o que se possa ser! O que sei é que toda a sua vida se resume na busca de você tentar se encontrar com você mesmo, de “tornar-se aquilo que é”, e isso tem a ver com o propósito do que Deus planejou para que você experimentasse debaixo do sol, no solo árido da existência humana, pois, ou você é em Deus, ou você já se tornou não-ser, ou seja, algo que parece que é, mas que está longe de ser...   

Carlos Moreira


18 maio 2012

O Quarto






Aquele era o meu mundo... Ali eu existia sendo eu, um todo, alguém por inteiro. Fechada a porta, luzes se acendiam, cenários se desvelavam, via-me alçado ao imaginário, viajava sem sair do lugar, visitava outros ambientes, outros “planetas”! Mesmo na escuridão da noite, podia enxergar perfeitamente. O rádio tocava canções para embalar pensamentos nostálgicos, músicas antigas, daquelas que lhe entorpecem, trazem lembranças leves de tempos bons.

Todo mundo precisa de um “quarto”. Um lugar só seu, feito de estrelas e breu, com chaves pelo lado de dentro, inviolável, onde nada do mundo exterior possa lhe atingir. Chega de tanta realidade! Há de se poder delirar um pouco, pois quem suporta viver o concreto o tempo inteiro? Naquele “quarto” eu me despia de tudo o que não gostava, me vestia de tudo o que almejava ser. Ali “...eu era o rei, era o bedel e era também juiz. E pela a minha lei a gente era obrigado a ser feliz”, para lembrar o poeta por excelência, Chico Buarque.

Mas eu cresci, mudei de lugar, mudei de “quarto”... O novo não era do mesmo jeito, tinha mais glamour, mas nele o “show” não acontecia à noite, as cortinas não se abriam, os palhaços não apareciam, a vida era rotina e solidão. Eu tinha saudades do “velho amigo”, daquele pedacinho de mundo que eu havia criado, tecido de pétalas, coberto de sons, de cores e fantasias, onde sempre havia festas, risos, era um mundo dentro do meu mundo, um refúgio, um lugar onde me sentia protegido.

O tempo se passou... Os sonhos se esfarelaram na máquina de moer realidades, as estrelas despencaram do firmamento, o sol se pôs, tudo ficou denso, escuro, cheio de silêncios, de poeira levada pelo vento. A realidade veio me brindar com sua dose de fatalismos, com seus desgastes próprios. Trouxe consigo as dores de existir, de crescer, de ter de enxergar e não mais ver, de ter de ter e não bastar apenas ser. E eu pensava comigo: “Eu queria tanto estar no escuro do meu quarto à meia-noite, à meia luz, pensando, daria tudo por meu mundo e nada mais”. Era a nostalgia romântica do insuperável Guilherme Arantes.

Aí eu fiz o que já devia ter feito há muito tempo! Voltei para dentro do “quarto”! Sim, descobri que esse lugar não precisa ser real, pode ser imaginário, acessível pelos conduítes da alma, disponível a qualquer hora. Nele é possível afrouxar os nós da gravata, não atender o celular, nem ler e-mails ou olhar extratos bancários. São breves momentos que duram uma eternidade, pois ali você é só seu e de mais ninguém.

Bem afirmou o escritor Henry Miller, ainda que pareça idiotice: “Manter a mente vazia é uma proeza... Estar silencioso o dia inteiro, não ver nenhum jornal, não ouvir rádio, não escutar tagarelices, estar perfeita e completamente ocioso... Os jornais engendram mentiras, ódio, ganância, inveja, desconfiança, medo, maldade. Nós não precisamos da verdade como ela nos é servida nos jornais diários. Precisamos de paz, solidão e ociosidade”.

Jesus era um homem de oração, de reclusão. Tinha necessidade do isolamento, da busca do intangível, de alimentar sua alma de verdades e não apenas de coisas. Ele também tinha um “quarto” desses... Estava em todo lugar e em lugar nenhum. Às vezes era um jardim, em outras ocasiões as montanhas. De certa feita, repousou na areia do Mar da Galileia, num outro momento, abrigou-se numa estalagem qualquer, no meio do nada, acolhido pelo frio, embalado pelo cansaço, debaixo do céu enluarado, deitado sobre o chão de estrelas. Ali sentia os aromas do deserto, sabia que, mesmo sem ter onde reclinar a cabeça, possuía um “quarto” somente seu...

Recentemente, visitei aquele cantinho da infância. Depois de 27 anos voltei ao apartamento onde meus pais moraram por quase duas décadas. Nele estava residindo um casal de velhinhos. Muito simpáticos, convidaram-me a entrar. Mostraram-me a casa reformada, as mudanças realizadas. Tudo ficou muito bonito.

Mas houve um momento em que eu cheguei ao quarto que havia sido meu. O coração acelerou, os olhos encheram-se de lágrimas, uma nostalgia irresistível tomou conta de minha mente pragmática, não dada a muitas emoções. “Eu dormia aqui”, disse. O casal me deixou só por alguns instantes, tempo suficiente para ver toda a minha vida diante dos meus olhos.

No canto do quarto, sentado na cama, estava eu mesmo, com uns 11 anos de idade. Eu olhei para mim e me perguntei: “Como você está?”. Com voz embargada, o outro eu de mim mesmo respondeu: “Eu tô bem, eu vou indo...”. O “garoto” insistiu: “Você está mais velho, há marcas no seu rosto, e outras na sua alma. As de fora não importam tanto, as de dentro, todavia, talvez nem mesmo o tempo possa apagá-las.”. “Tenho de ir”, disse. “Vá com calma, ele falou. Vá mais leve, mais livre, vá com Deus!”.

Já faz meses que vivi esta experiência imaginária, ficcional... Ela me ajudou a entender algumas coisas; outras eu ainda estou discernindo, aos poucos, lentamente. Não consegui escrever sobre este fato antes, talvez por medo de me expor, ou por medo do leitor, ou ainda por medo de mim mesmo... É que eu sei que minha solidão não tem nada a ver com a presença ou ausência de pessoas… “Detesto quem me rouba a solidão, sem em troca me oferecer verdadeiramente companhia”. Eis o meu filósofo favorito, Nietzsche, “o martelo!”.

Agora, com todo respeito, peço-lhe licença: vou para o meu “quarto”. Não, não é o quarto do meu apartamento, é o “quarto” que abriga a minha alma e o meu coração. Você não tem um desses? Bem, sugiro que adquira um o mais breve possível. Mas não procure nos classificados nem se preocupe com dinheiro, este “quarto” está dentro de você, e só você pode encontrá-lo, entrar nele e usufruir o que de melhor ele tiver a lhe proporcionar.


Carlos Moreira

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É importante esclarecer que este BLOG, em plena vigência do Estado Democrático de Direito, exercita-se das prerrogativas constantes dos incisos IV e IX, do artigo 5º, da Constituição Federal. Relembrando os referidos textos constitucionais, verifica-se: “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato" (inciso IV) e "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença" (inciso IX). Além disso, cabe salientar que a proteção legal de nosso trabalho também se constata na análise mais acurada do inciso VI, do mesmo artigo em comento, quando sentencia que "é inviolável a liberdade de consciência e de crença". Tendo sido explicitada, faz-se necessário, ainda, esclarecer que as menções, aferições, ou até mesmo as aparentes críticas que, porventura, se façam a respeito de doutrinas das mais diversas crenças, situam-se e estão adstritas tão somente ao campo da "argumentação", ou seja, são abordagens que se limitam puramente às questões teológicas e doutrinárias. Assim sendo, não há que se falar em difamação, crime contra a honra de quem quer que seja, ressaltando-se, inclusive, que tais discussões não estão voltadas para a pessoa, mas para idéias e doutrinas.

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