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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.
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21 julho 2017

Gente Também "Trava"




Eu comecei a lidar com computadores há 31 anos atrás. Vi a geração dos mainframes morrer e os microcomputadores assumirem seu lugar.

Coisa ainda comum nos dias de hoje, há décadas passadas os computadores travavam absurdamente, ou por erro do sistema operacional, ou por problemas de disco e memória, ou por conta do processador, por vezes, as três coisas juntas.

Reiniciar máquinas é tarefa fácil, quase sempre funciona, ou seja, elas voltam ao normal. Difícil é reiniciar pessoas... Sim, gente quando “trava”, quando dá “tela azul”, quando perde o encanto, a noção, quando quebra por dentro, ou fica sem chão, quando deprime, sucumbe, não reinicializa facilmente.

Eu nasci numa família de depressivos, convivi com a depressão desce muito cedo em casa, vi meu pai e minha mãe morrerem deprimidos, eles estavam “travados” para a vida, já não era possível reinicializá-los.

Ora, por que estou falando sobre isso? Por que vejo uma geração inteira acostumada a acionar botões e ver resultados imediatos. Vivemos no tempo dos cliques, desde aquele que aciona o controle remoto da TV, até o botão que dispara a foto no celular, tudo é instantâneo, basta você clicar!

Mas as pessoas não reagem a partir de “cliques”, a alma não pode ser reindexada automaticamente, não se ressensibiliza um coração machucado pela dor, pela humilhação, pela exploração ou descaso, num passe de mágica.

Quando as pessoas “travam” é preciso cuidar delas com paciência, pois a melhora é lenta, os passos são curtos, as falas são frágeis, os gestos são tênues. Portanto, lembre-se: botões foram feitos para as máquinas, as pessoas precisam de toques, de afagos e abraços, de palavras suaves, de incentivo e confiança.

Diferente dos computadores, que podem ter suas memórias trocadas, pessoas precisam lidar indefinidamente com tudo o que está gravado na alma, não há como dar “deltree”, ou reformatar, a única saída é ajuda-las a recuperar os “setores” danificados, e isso leva tempo... às vezes, uma vida inteira. Por isso, se seu computador travar, reinicialize, mas, se alguém próximo a você "travar", sensibilize-se...


Carlos Moreira




18 fevereiro 2016

Discriminação Emocional



O deprimido, no meio religioso, sofre uma discriminação sem precedentes, é tratado como crente de segunda classe, alguém sem fé, sem coragem, um indivíduo que está amarrado por satanás.

Em se tratando deste contexto, já vi de tudo, do bizarro ao irresponsável, do sujeito subir no monte para expulsar o “espírito da depressão”, até aquele que deixa a medicação acreditando na profetada recebida no “culto de oração”. Trágico!

Negar a condição humana é especialidade de toda religião autofágica, aquela que faz com o que o indivíduo se alimente de si mesmo, e não de Deus. Ora, toda tentativa de ignorar nossas fraquezas desemboca, irremediavelmente, na composição de um psiquismo adoecido, o qual torna superlativo todo tipo patologia emocional, da ansiedade ao pânico.

Assim, ignorar a depressão como enfermidade da alma, atribuindo-lhe uma fenomenologia espiritual, é manter um tipo de ignorância incompatível com o tempo em que vivemos. Na idade média, muitos foram exorcizados e outros tantos trancafiados em hospícios por causa de distúrbios totalmente tratáveis em nosso tempo, como a bipolaridade e a esquizofrenia. E sabe quem mediava tudo isso: a religião!

Ora, hoje, com todo o ferramental disponível na psicologia e na psicanálise, é impossível ler as Escrituras sem perceber a depressão de Jacó, após a “perda” de José, a depressão de Davi, depois do adultério com Bate-Seba, a depressão de Jó, em pele osso e somatizações, a depressão de Jeremias, nu num calabouço sombrio, a de Paulo, sentindo-se só no final da jornada, e a de Jesus, antevendo a Cruz, no Getsemani, quando afirmou: “Minha alma está abatida até a morte”.

Tenho reverência pela dor do deprimido, pois sei que sua enfermidade não é visível, não deforma o corpo, mas faz sucumbir à mente em meio à aridez de sonhos e esperanças. Mas eu creio num Deus “que faz forte aos cansados e multiplica as forças dos que não tem nenhum vigor”, que levanta o caído e consola o destroçado de espírito.

Contudo, e não menos, também creio, concomitantemente, na ciência, pois sei que a Graça de Deus inspira médicos e cientistas em pesquisas e na criação de medicamentos para aliviar a dor humana. Portanto, seja por que caminho for, a glória é sempre de Dele!


Carlos Moreira

01 maio 2012

“Sabe lá o Que é Não Ter e Ter Que Ter Pra Dar?”




“Convém que Ele cresça e que eu diminua”. A frase lapidar de João Batista é, além de desconcertante, inquietante. Quem, de sã consciência, fala um negócio desses? Quem, responda-me honestamente, quer diminuir, quer ceder o lugar, a vez, o espaço, o status? Eu lhe respondo: não sei. Só sei que eu não. Pelo menos, ainda não...

Mas talvez alguém me questione: “olha, abrir mão, nesta perspectiva, é deixar que Jesus se sobressaia!”. E eu respondo: eu sei! E é por isso mesmo que complica, porque Jesus não está atrás de nada, não precisa de nada, não tem que provar nada, não tem que defender nada, não tem que lutar por nada! Isso tudo é coisa minha, é dinâmica pequena e mesquinha da minha existência, da minha luta por um lugar em baixo do sol, da minha necessidade de parecer, de me fazer perceber, de buscar quem possa me reconhecer e, em tudo isso sentir, ainda que por um pouco, prazer.

Há algo me apertando a garganta... É uma vontade enorme de chorar, de gritar, de correr, de dizer que está difícil, “punk” mesmo, sofrido, doído, ou como se diz aqui por estas bandas, ardido. E eu preciso confessar! Preciso lhe dizer que não sou o que gostaria de ser, ou, melhor, o que deveria ser... Não há coisa pior do que você frustrar a você mesmo. Frustrar os outros já se tornou rotina, mas a pior decepção é quanto você vê que não consegue ser mais do que já é, chegou ao limite, e, ainda assim, é muito pouco... Lembro de Clarice Lispector: “oh chega de decepções, estou tão machucado, me doem a nuca, a boca, os tornozelos, fui chicoteado nos rins”.

Olho para a igreja... Vejo os “personagens” realizando “malabarismos” no “teatro de marionetes”. Sim, eles fazem mesmo o “show” acontecer. E como sabemos, “the show must go on!”. São todos “figurões da fé” lutando entre si de forma despudorada, acusando-se mutuamente, seja em secreto, seja nos bastidores eclesiásticos, seja de maneira aberrante na mídia, pra todo mundo ver. É gente muito “poderosa”, que construiu o seu próprio “reino”, mas que nunca esteve envolvida com o Evangelho, nem com Jesus de Nazaré, nem muito menos com o Reino de Deus.

Incomoda-me o personalismo, a divinização do humano, “pastores” sendo alçados a categoria de pop-star, gente que nunca teve nem referência nem consciência de que foi chamada para lavar os pés da igreja, para servir os que fazem o Corpo de Cristo. Sim “ministros”, nós devemos tomar os últimos lugares, tornarmo-nos os menores entre os menores, estarmos entre os que carregam as maiores cargas, os que sofrem em silêncio, que são perseguidos, injuriados, caluniados, e ainda termos a certeza de que nos tornamos alvo fácil para aqueles que abrem a boca com o fim de destruir em um mês o que foi construído com lágrimas em vinte, trinta anos.     

Domingo eu acordei cansado... Já faz parte... Dormi já era madrugada fazendo a mensagem. É a falta de tempo, não de zelo. Tinha vontade de tudo, menos de ir pregar. O corpo pesava duas toneladas, a cabeça doía, os pés estavam fartos de chão e os olhos cansados de tanto ver. Tive vontade de ficar dormindo. Pensei em ligar para alguém para me substituir. Mas levantei-me e fui... Tenho dúvidas se deveria. Não sei se era eu que estava ali. “Sabe lá o que é não ter e ter que ter pra dar?”. Encarnei com todos os matizes a poesia de Djavan. Estava parado na “esquina” e, diante de mim, se encontravam minha consciência e minhas limitações.

Fui aos trancos e barrancos. Deus usou o que sobrou de mim. Era a contradição em pessoa. “Como isso é possível?”, perguntava-me como que repetindo um velho mantra. Lembrei que não sou eu, mas Ele em mim... Ainda assim... A comunidade em que sirvo já me conhece. Sabe que não faço “caras e bocas”, que não sou performático, que evito disfarces, salamaleques. Era só olhar para ver que eu não estava bem. Mas tinha de estar. Tinha? Não sei, acho que tinha! Mas não estava... Como disse o Cáio, “Eu sou Biribá, não nasci para ser Fruta do Conde”.   

Se quiseres mesmo saber o que sou, sou iconoclasta, estou em busca de desmascarar e destruir os “ícones”, os “ídolos”, as “imagens”. E faço isso começando comigo mesmo, me expondo e abrindo o meu ser para que saibas que não sou o que pensas, nem mesmo o que penso eu, pois na verdade sou pó e podridão, poeira e solidão. Sim, não fosse a Graça que sustenta os caídos, sequer me levantaria da cama, amargaria existir de mim para mim mesmo.

Desculpe-me se de alguma forma te choquei... Faz parte do meu “show”... É melhor que saibas por mim mesmo sobre mim do que pelos outros, que de mim nada sabem além do que fragilmente conseguem perceber. Mas eu sei que sou mais do que o que eles podem ver e menos do que eu gostaria de ser. “That´s all folks!”. Quem lembrar vai entender... “E se quiser saber pra onde eu vou, pra onde tenha sol, é pra lá que eu vou...”. Jota Quest.  

Carlos Moreira

24 abril 2012

Gente "Tarja Preta"





A novela de Jó, descrita nas Escrituras, é maravilhosa e assustadora. De forma inusitada, ela vai de um extremo ao outro da existência. Em um frame, Jó é homem reto, temente a Deus, inculpe e bem sucedido. No outro, todavia, sua vida se torna uma catástrofe: seus filhos morrem, seus bens são destruídos, sua mulher o deixa e seus amigos se revelam tiranos.

Tanta desgraça assim não há quem possa suportar, nem mesmo Jó! Como era de se esperar, sua alma somatiza perdas e danos e derrama sobre o corpo, como larvas de um vulcão, toda a dor e incompreensão que lhe afligem em forma de úlceras e tumores, que vão da planta dos pés até a cabeça. Como bem citou Shakespeare: “Chorar sobre as desgraças passadas é a maneira mais segura de atrair outras”.

E foi assim que Jó, no auge de seu desespero, desencaixado do seu centro gravitacional, desencontrado de sua alma, vasculhou nos escombros de seu íntimo uma nesga de racionalidade e suspirou: “... aquilo que temo me sobrevém, e o que receio me acontece”. Jó 3:25.

De fato, sem qualquer explicação lógica ou motivo aparente – como não raro acontece na programação dos dias –, Jó havia se transformado num para-raios às avessas, capaz de atrair para si toda negatividade e desgraça que pairasse sobre nuvens escuras em dias sombrios.

Observado por esse prisma, ele passa a ser arquetípico, uma representação da materialização da desgraça, da negatividade humana e de tudo que se instala no ser para esculpir o mal. Resta a Jó apenas, como humano que é, entregar-se ao pessimismo e sucumbir à depressão. Cercar-se de racionalizações na busca insana e inumana de explicações e culpados, de justiça!

E é aqui que eu entro, qual um Quixote andante, para descrever uma coisa que a vida tem me ensinado: tem muito “João” por aí que deveria ser apenas João, mas, na verdade, não passa de um Jó disfarçado de “João”. E aqui me refiro a Jó não apenas como modelo de fé e resignação, mas na inteireza de quem ele é, desvelado o seu “dark side ”, pois todo ser é a soma do bem e do mal que nele habita. Nesse sentido, não há personagem bíblico tão de carne e osso quanto Jó.

Vendo os fatos dessa perspectiva, é fácil fazer correlações e perceber que tem gente que faz mal, ainda que este não seja necessariamente o caso de Jó. Sim, há pessoas que são capazes de fazer o sol se pôr ao meio-dia! É gente densa, cinzenta, que tornou-se uma espécie de “buraco negro”, atraindo para si tudo de ruim que gravita ao redor, pois nem mesmo a luz pode delas escapar. Gente assim é “tarja preta”, deve ser evitada, pois certamente causará danos a quem gravitar por perto.

Tenho visto, de forma recorrente, que tais pessoas são capazes de destruir tudo o que encontram pelo caminho, sobretudo pessoas, e fazem isso lhes roubando o sono e até a alegria de ser. Triste, entre-tanto, é saber que, na maioria dos casos, isso não lhes dá prazer, antes, pelo contrário, serve apenas para soterrá-las em si mesmas ainda mais.

Quando a alma chega nesse estágio, os “apetites” normais da vida acabam lhe fugindo. Em seu lugar, entretanto, surge uma “fome” insaciável de tristeza e pessimismo, pois a pessoa acaba se viciando em “devorar” aquilo que lhe mata, traga a miséria com satisfação e bebe do cálice da amargura com sofreguidão.

Se há cura para isso? Há sim, mas, para tal, “João” terá de percorrer o mesmo caminho existencial que percorreu o seu amigo Jó. E qual é esse caminho? Bem, como ele mesmo afirmou: “Meus ouvidos já tinham ouvido a Teu respeito, mas agora os meus olhos Te viram. Por isso menosprezo a mim mesmo e me arrependo no pó e na cinza”. Jó 42:5-6”.

O caminho que refaz o ser para a vida, que ressignifica os dias e que dá cor à flor e sabor ao pão é a experimentação da Graça como verdade capaz de curar a alma de todos os seus males, pois só assim é possível saber que, mesmo em meio à perda e à dor, há sempre um significado maior para o que nos acomete, uma vez que absolutamente tudo conspira para o bem dos que amam a Deus! Foi assim com Jó e será assim com todo e qualquer “João”.

É por isso que vos afirmo que toda cura passa, irremediavelmente, pela experimentação da Verdade como caminho caminhado, e não como teoria, doutrina ou ensinamento! Os olhos precisam ver a Graça, pois ouvir apenas não basta, e isso a partir de uma nova consciência.

Quem assim o fizer será capaz de aprender a degustar, no banquete da vida, tudo o que lhe for servido como dádiva do amor, pois só dessa forma é possível brotar a pacificação que produz paz e bem ao ser.


Carlos Moreira

 

29 novembro 2010

Medos de Quem tem Medo


A capa da revista Veja deste último final de semana estampou a notícia: “O Dia em que o Brasil Começou a Vencer o Crime”. Com uma ação coordenada entre as Polícias Militar, Civil, Federal, o Grupo de Operações Especiais – BOPE, Tropas do Exército, e tudo isto suportado por centenas de viaturas, helicópteros, blindados, tanques de guerra dos Fuzileiros Navais, os traficantes do Rio de Janeiro sofreram, talvez, o seu mais duro golpe em décadas.

Além da ação na favela Cruzeiro e no Complexo do Alemão, outras intervenções externas eram realizadas simultaneamente, como a transferência de chefões do tráfico para outros estados, a prisão de familiares dos traficantes, o bloqueio de bens, a decretação da prisão de advogados, uma ação de inteligência e ousadia do Governo do Estado e da Prefeitura que parece ter atingido, pelo menos até agora, resultados satisfatórios. Mesmo depois de termos assistido a série de barbáries proporcionadas pelos contraventores, com carros e ônibus incendiados, piquetes em avenidas, tiros disparados contra policiais, correria, comércio fechado, escolas inoperantes, parece que o saldo final foi positivo, pois as favelas estão controladas pelas forças de segurança e os bandidos presos.

Este não é um fato isolado. A verdade é que no mundo pós-moderno, cada vez mais, vivemos com medo. Criei interesse pelo tema e fui estudá-lo. Na minha análise, observei que existem determinados tipos de medos que são universais e atemporais. Rosemeire Zago, psicóloga clínica com abordagem jungiana, afirma que “o medo é uma reação protetora e saudável do ser humano e que ele se manifesta sempre que há uma ameaça à vida”. Este é o medo, digamos, saudável. Mas também existe o medo danoso, aquele que marca as pessoas e gera seqüelas na existência e que nasce quase sempre das experiências negativas e ameaçadoras que nós experimentamos.

Fato é que o nosso inconsciente não consegue diferenciar a fantasia da realidade, nem mesmo o passado do presente. Por isso muitos de nossos temores estão associados a coisas que vivenciamos e que nós, muitas vezes, não sabemos nem mesmo de onde vêm. Em muitos casos, esse tipo de medo surge, além dos perigos iminentes e reais, de certas associações que fizemos ao longo da vida.

Medo mata! Aliás, não somente ele, mas a ansiedade, que é a versão civilizada do medo, também pode matar. É por isso que os psicólogos dizem que o medo é o câncer da alma. E pior: quanto mais o negamos, mais poderoso ele se torna em nós. O medo é angustiante, apavorante, e, em algumas situações, paralisante. A vida pode ser comprometida por causa do medo. As dificuldades vão desde problemas relacionais, passam pelo comprometimento no exercício de atividades profissionais, e podem até mesmo chegar a gerar problemas físicos, as chamadas doenças psicossomáticas. Os casos mais agudos dão origem as síndromes do pânico, essa muito associada a tensões e temores do mundo contemporâneo.

Você tem medo? E tem medo do que? Ora, de tanto aconselhar pessoas, de ouvi-las em suas dores e dramas, acabei constatando que existe um conjunto de “medos genéricos”, sensações e sentimentos que são comuns as pessoas. Usando o Salmo 91 como pano de fundo para esta análise, uma vez que é um Salmo escrito durante um período de guerra, ou seja, numa situação onde surgem todos os tipos de medos, vamos tentar identificar, através da análise hermenêutica contextualizada, quais são estes medos presentes na vida das pessoas.

O primeiro medo é o medo da morte – Sl. 91:6 “Não te assustará... a mortandade que assola ao meio-dia”. Segundo Elizabeth Kubler Ross, nós vivemos numa cultura de negação da morte, por isso evitamos hospitais, funerais, doentes terminais, e tudo que nos remeta ao fim da existência. O fato é que este medo da morte está muito associado às incertezas que existem sobre o além. Samuel Johnson escreveu “não importa como uma pessoa morre, mas sim como ela vive”. E Paulo afirma, “completei a carreira e guardei a fé!”. Gosto muito da forma como Leonardo Boff fala da morte. Ele afirma que nós não estamos rumando para o fim, mas avançando para o começo, pois nossa vida foi predestinada para aquilo que ainda está adiante. Neste momento, estamos indo de encontro ao nosso nascimento, e isto com vistas a realizarmos aquilo que Deus planejou, portanto, somos o agora e o ainda-não!

O segundo medo é o que falamos no começo, o medo da violência. Sl. 91:7 “caiam mil ao teu lado, e dez mil, à tua direita; tu não serás atingido”.  A vida humana perdeu o valor e o significado. Mata-se uma pessoa por questões banais, por uma discussão no trânsito, por um tênis, pela inveja, pelo poder, pela ganância. Com 20 ou 30 reais você pode extinguir a vida de uma pessoa. Este medo da violência nos trancafiou dentro de nossas casas. Temos medo de qualquer pessoa que tenta se aproximar de nós, nem mesmo com os vizinhos queremos relacionamento. Nossas “trocas” agora são virtuais, pois imaginamos estar protegidos atrás do computador. Ledo engano. Centenas de crimes são cometidos pela internet, desde os financeiros, até seqüestros, com pessoas seduzidas em sites de relacionamento.

O terceiro medo é o medo do futuro. Sl. 91:10  “nenhum mal te sucederá, praga nenhuma chegará à tua tenda”. A música popular diz: “como será o amanhã, responda quem puder, o que irá me acontecer...”. Nós vivemos num mundo onde, economicamente, os recursos são cada vez mais escassos. O capitalismo produziu um estilo de vida sufocante, onde as pessoas têm de sobreviver a qualquer custo e, para tal, vale tudo: passar por cima de regras, da ética, dos valores absolutos, pois o que vale é a negociata, o conluio, o suborno, uma vez que, no final, vencerá aquele que for mais “esperto”. É nesta perspectiva que o existencialismo de Sartre afirma que “o inferno é o outro”. Sim, o outro quer tomar o meu lugar, roubar a minha mulher, ocupar o meu cargo, morar na minha casa, desfrutar daquilo que deveria ser meu. É daí que surgem os transtornos de ansiedade, as doenças psicossomáticas, as demandas por diazepínicos, muletas existenciais que utilizamos para ter condições de tomar o transporte e encarar a rotina da vida. Disse Mário da Silva Brito “quem muito pensa no futuro, perde o presente”. 

O quarto medo é o medo do fracasso. Sl. 91:11 “porque aos seus anjos dará ordens a teu respeito, para que te guardem em todos os teus caminhos”.  Existimos na sociedade dos campeões. Você tem de chegar ao topo, tem de ser o melhor, o mais bonito, o mais bem sucedido, o que mora no melhor bairro, no melhor apartamento, que trabalha na melhor empresa, que tem os filhos no melhor colégio. Ai de quem fracassar! Ai do empresário que falir! Ai da mulher de meia idade, cheia de dores e de filhos, que foi abandonada pelo marido! Ai daquele que foi surpreendido em pecado, pois a “plebe” urge e grita “crucifica-o!”. Ai do homem de meia idade que não se recoloca mais no mercado, ai da mulher que não conseguiu casar, ai daquele que sucumbiu a depressão, ou que foi atingido por um câncer. As pessoas têm medo de perder, de cair, de beijar a lona. Judith Vriost afirma em seu livro “Perdas Necessárias” que nós só cresceremos quando aprendermos a perder, por isso, dê significado as suas derrotas, encontre lições em seus fracassos, tire da dor princípios para a vida, e da amargura valores para o ser. Diz o salmista, “não dormitará aquele que te guarda... ele guardará a tua entrada e a tua saída”. Aprenda a confiar e lembre-se “a maior perda é a das coisas que nunca tivemos” Mauro Motta.
 
Outro medo muito comum, o quinto, é o medo de amar. Sl. 91:14 “porque a mim se apegou com amor, eu o livrarei; pô-lo-ei a salvo”. A alusão do salmista é o amor de Deus por nós, mas eu bem que posso transportar isto para o amor que envolve um homem e uma mulher. Hoje ninguém se apega mais a ninguém, por isso “ninguém está a salvo”! Estamos na sociedade dos descartáveis, pois aprendemos a amar as coisas e usar as pessoas. “tem gente que pensa que gente se entrega a outra gente e nada acontece. Tem gente que se dá a outra gente sem saber que a gente é feita de gente. Tem gente que se ilude com a idéia de que gente não transfere gente para outra gente. Tem gente que não entende que gente é contagiada quando se faz ‘um’ com outra gente.” Caio Fábio. Eis uma realidade! Gente reciclando relacionamento, passando de mão em mão, simbiotizando a alma com toda sorte de ser, e ainda diz que o bom é experimentar a variedade. Coisa nenhuma! Quanto mais relações mais distorções, mais confusão sentimental, mais referências cruzadas, a pessoa acaba perdendo a noção do que é amor, pois tantas são suas experiências que ela já não distingue o bom do ruim. Amor não é um sentimento, mas uma decisão. Esta é a cura para este mal: “o verdadeiro amor lança fora todo medo... o amor tudo crê, tudo suporta, tudo espera”.

O sexto e último medo é o medo da solidão. Sl. 91:15 “Ele me invocará, e eu lhe responderei; na sua angústia eu estarei com ele”. A violência nos aprisionou em nossas casas. A tecnologia nos transportou para mundos distantes sem sair do lugar. Nossa vida se tornou impessoal, não relacional. É um tempo de impermanência, onde a existência de qualquer coisa duradoura está ameaçada. As pessoas se relacionam como empresas, fazem “contratos” de curta duração, pois não existem mais projetos de longo prazo, tudo é perecível. Por isso canta o poeta Cazuza: “solidão a dois de dia faz calor depois faz frio”. É a vivência que não gera conjugalidade, que não gera relacionamento, é apenas sexo e diversão, não existe renúncia, não existe amor, não existe doação. Vivemos na cultura da imagem: corpo sarado, mas a mente vazia; é a supervalorização do invólucro remendado pela plástica, a despeito das celulites e rugas, mas que vêm acompanhadas de precioso conteúdo existencial. É a tirania do se fazer acompanhar, pois é melhor estar mal acompanhado do que só. Que tragédia! Deus te diz: “nunca te deixarei, jamais te desampararei”. Viver de forma solitária, mas reverente para consigo mesmo, pode ser uma escolha difícil, mas que eliminará de tua vida muitos males. Quanto a isto não tenha dúvidas, pois é o que a vida tem me mostrado.    

Em minhas análises encontrei estes que são os medos de quem tem medo. Se você os identificar na sua vida, saiba: não há nada de anormal com você. Apenas, com coração apaziguado pela graça e com a alma pacificada pela fé, busque vencê-los, pois aquele que conhece a Deus é liberto de todos os seus temores. Diz o salmista “clamou este aflito, e o Senhor ouviu, e o livrou de todas as suas tribulações”. Por isso, não tema, mas apenas confie...

Carlos Moreira

21 outubro 2010

Sarando as Feridas


Os “marcos” são mais facilmente esquecidos que as “marcas”. Eu explico: os acontecimentos negativos da existência humana como perdas, medos, traumas, traições, tem infinitamente mais capacidade de “MARCAR” a vida das pessoas do que as vitórias, alegrias ou desejos realizados, os “MARCOS”. E estas “marcas” que aparecem, invariavelmente, em nossa história, em maior ou menor escala, por vezes se constituem em feridas tão profundas que impedem o agir transformador do Espírito Santo e, por conseguinte, bloqueiam o apaziguamento de nossa consciência e a pacificação de nosso ser.

Nem o poeta me deixa mentir quando diz: “tristeza não tem fim, felicidade sim”. A poeira da existência impregnada na alma humana desconstrói sonhos, desmonta a esperança, torna a nossa alma um calabouço sombrio, uma masmorra de solidão, uma terra devastada, árida, não obstante ávida de encontrar paz e bem. Neste estado de ser e sentir, nesta estação outonal, respirar dói e tudo se torna enfado e canseira. Laura Limeira me ajuda a dizer isto em forma de poesia: Somando as perdas e ganhos da minha vida, descobri muitas marcas em mim... Marcas no meu olhar, pela tristeza que vi, quando, ingenuamente, acreditei em tudo, e vivi... No rosto, pelo esquecimento do sorriso, e por tanta lágrima derramar... Na dor da solidão por enfrentar, e calar sozinha, nem sei como, tanta emoção... Marcas na alma, hoje estraçalhada, diante de tantas insídias... Muitas são essas tais marcas da vida, que, iguais tatuagens, já não saem mais...”.

A pesquisadora norte-americana Judith Viorst, no seu livro Perdas Necessárias, ensina-nos que viver é aprender a perder. Sem este aprendizado, não se pode crescer. Perdas são uma das “marcas” geradas pela existência. “Elas envolvem não só a morte de pessoas queridas, mas incluem também a perda consciente ou inconsciente de nossos sonhos, expectativas impossíveis, ilusões de liberdade e poder, ilusões de segurança e a perda do nosso próprio "eu" jovem”, porque envelhecer é como perder-se de si mesmo.

E aqui surge uma indagação: haverá uma solução para isto? Pode Deus agir de tal forma que todo este embaraço e peso que carregamos faça apenas parte do passado sepultado e cravado na cruz? Será mesmo possível materializar as verdades do Evangelho em realidade para a vida? Ou são verdadeiras as palavras de Thomas Quincey: “não existe o esquecimento total: as pegadas impressas na alma são indestrutíveis”.

Em 1905, em Viena, uma paciente cega, paralítica e bulêmica sofria, sem saber as causas, e sem perspectiva de cura, desta “doença da alma”. Foi neste contexto que um médico neurologista, nascido na Checoslováquia, foi designado para acompanhá-la. Após 10 anos os sintomas da doença desaparecem. A paciente estava clinicamente curada. Nascia ali a psicanálise. A história verídica é de Ana O. – a paciente – e o médico era Sigmund Freud. Nossa história, não raro, foi marcada duramente por fatos que desencadearam transtornos profundos em nossa psique e acabaram por produzir imagens doloridas, traumas, medos e culpas que se acumularam no limo da nossa alma. Hoje, mesmo sem querer, eles são como fantasmas e, não raro, vêm nos assombrar.

Eu quero lhe trazer uma passagem bem conhecido das Escrituras para me ajudar a analisar, ainda que de maneira figurada, estes processos que geram feridas emocionais e os mecanismos que podem ser utilizados para curar almas adoecidas. O texto é Ezequiel capítulo 47 versos de 1 a 9. Trata da visão do profeta de águas que saem de dentro do Templo, descem pelo vale, onde a vegetação e toda a vida aquática e pantaneira estão destruídas, e deságuam no mar morto. Aquele cenário que ali estava era mais do que real, mas também era um “holograma” espiritual do que se passava com a nação de Israel. Ele metaforizava o estado emocional e espiritual daquele povo que havia sido desterrado de maneira violenta para a Babilônia cerca de 70 anos antes. Muitos dos anciões que voltaram para a reconstrução dos muros e do Templo, por conta do decreto de Ciro, Rei da Pérsia – livros de Esdras e Neemias – haviam sido vítimas da barbárie dos Assírios. Suas almas estavam impregnadas com as imagens de lares destruídos, mulheres e crianças assassinadas, das portas de Jerusalém queimadas, da destruição do Templo, da morte dos príncipes e do escárnio sofrido pelo Rei Zedequias, que teve seus olhos vazados e, amarrado a grilhões de bronze, foi levado escravo entre os peregrinos. Este desfecho trágico era a conseqüência das consecutivas advertências de Deus contra os desvios do podo e podem ser vistos também na profecia do livro de Jeremias capítulo 37.

Agora vamos imaginar este retorno. O caminho é espinhoso, regado por lágrimas de desilusão e desespero. Essa gente está com as entranhas incrustadas de dores e de perdas. Suas almas foram assoladas pela tragédia, suas mentes guardam imagens fortes, duras, seus corações estão petrificados pela dor, seus olhos estão encharcados de lágrimas, de miséria e cólera. Questão: de onde foi que aquele povo tirou forças para reconstruir aquela cidade? Sim, porque ali estava uma gente destroçada, humilhada, subjugada, sem destino, sem esteio, sem chão, e agora se viam diante do desafio de recomeçar, no mesmo local, diante das ruínas que haviam deixado para trás. Como conseguiram? De onde tiraram forças?

Bem, eu creio que esta visão de Ezequiel simbolizava o prenúncio profético do que mais tarde iria acontecer. A visão de águas saindo de dentro do santuário prefigurava a maneira de Deus agir para curar o interior das pessoas. Olhe para este texto para além das realidades aparentes, pois a visão bem pode ser tratada como uma metáfora ou uma alegoria do autor, sem que isto represente perda para a aplicação espiritual do texto. Estudando filosofia, e entrando pelos caminhos da psicologia, você vai se deparar com estruturas chamadas de arquétipos. Quem melhor estudou sobre isto foi Carl Jung, quando tratou do inconsciente coletivo. O cenário metafórico da visão de Ezequiel é o arquétipo do que estava impregnado no inconsciente coletivo daquela geração de moribundos sobreviventes. Ali havia uma imensa carga de energia psíquica reprimida, pois aquela gente havia sido desterrada da vida. Por outro lado, também existia ali a premente necessidade de algo que pudesse materializar a fé necessária para curar as suas almas e levantá-los para a empreitada da reconstrução. É aí que entra a visão do profeta.

Eu não sei como está a sua vida. Não sei se você foi ou é vitima de abusos, de perdas, de dramas que marcaram profundamente sua alma e que te impedem de levar uma vida normal, equilibrada, que se manifesta numa espiritualidade sustentável, numa fé sadia. Não sei se o que lhe aconteceu lhe impede de exercer alguma atividade profissional, de constituir família, ou outra coisa que se torna limitante em sua existência. Mas quero lhe deixar algumas sugestões para sarar as feridas que, por vezes, a vida acaba por produzir.

Em primeiro lugar, utilizando-me alegoricamente do texto, quero lhe dizer que TODA CURA SÓ SE VIABILIZA NA VIDA QUANDO OCORRE DE DENTRO PARA FORA DO SER. Veja o verso 1 do capítulo 47: “Depois disso me fez voltar ao templo; e eis que saíam umas águas por debaixo do limiar do templo, e desciam pelo lado meridional do templo ao sul do altar”. Nós sabemos pela doutrina Neotestamentária que hoje somos o templo do Espírito Santo. O que o texto está explicitando, e também apontando de forma profética, pois mais tarde o próprio Jesus diria no Evangelho de João que aquele que nele cresse do seu interior fluiriam rios de água viva, é que a cura vem de dentro para fora, ou seja, não é um processo de reconstrução, mas de regeneração. Restabelecer este “santuário” tem implicações em ressignificar à fé, reimplantar uma nova consciência e transformar o coração de pedra em coração de carne. Este processo é algo que só pode ser feito e discernido espiritualmente. Sei que a escuta terapêutica e, por vezes, o tratamento medicamentoso é necessários para sarar dores e feridas na alma das pessoas. Mas nada pode ir tão fundo quanto estas ações, pois elas são demandadas pelo próprio Deus.     

Em segundo lugar, conforme os versos 3,4 e 5 do mesmo capítulo, O PROCESSO DE CURA DEMANDA UM MERGULHO EM NOSSAS “CAMADAS EXISTENCIAIS”. Vejamos: “Saiu aquele homem para o oriente, tendo na mão um cordel de medir; mediu mil côvados e me fez passar pelas águas, águas que me davam pelos tornozelos. Mediu mais mil e me fez passar pelas águas, águas que me davam pelos joelhos; mediu mais mil e me fez passar pelas águas, águas que me davam pelos lombos.Mediu ainda outros mil, e era já um rio que eu não podia atravessar, porque as águas tinham crescido, águas que se deviam passar a nado, rio pelo qual não se podia passar”. Aqui temos uma soma de elementos metafóricos. O rio representa a nossa própria vida, cheio de percalços e surpresas, de águas tranqüilas e corredeiras. E o “anjo” faz um convite ao profeta para que ele “mergulhe” neste rio, ou seja, para que entre nas águas, paulatinamente, consecutivamente. Um mergulho existencial, que passa pelos “caminhos” da vida, pelas escolhas, pelas decisões, pelas cenas doloridas, pelos momentos de tristeza, de solidão, de agonia, de desespero. E quanto mais o rio vai se aprofundando, menos o profeta tem controle de si mesmo. A cada passo, a cura vai chegando aos ambientes interiores, pois o Espírito vai revelando aquilo que produziu a doença e vai aplicando o bálsamo que produz a saúde. Há um momento, contudo, que todo o controle é perdido, pois o “anjo” leva o profeta aonde ele quer. Este anjo é uma figura do próprio Jesus, uma teofania, uma alegoria que aponta que Deus deseja que entreguemos a partir de agora o nosso caminho em suas mãos e deixemos que Ele a partir de então passe a nos conduzir.

Em terceiro e último lugar, conforme o verso 9 e consecutivos, A CURA SÓ SE MATERIALIZA QUANDO O QUE ESTAVA MORTO GANHA VIDA NOVAMENTE. “por onde quer que entrar o rio viverá todo ser vivente que vive em enxames, e haverá muitíssimo peixe; porque lá chegarão estas águas, para que as águas do mar se tornem doces, e viverá tudo por onde quer que entrar este rio. Junto ao rio, às ribanceiras, de um e de outro lado, nascerá toda sorte de árvore que dá fruto para se comer; não fenecerá a sua folha, nem faltará o seu fruto; nos seus meses, produzirá novos frutos, porque as suas águas saem do santuário; o seu fruto servirá de alimento, e a sua folha, de remédio”. Estas águas que saem do santuário são o lavar restaurador e regenerador do Espírito Santo em nossas vidas. Elas se materializam simbolicamente através do batismo e, a partir de então, Deus nos concede o poder de sermos feitos Seus filhos, membros de Sua família. Tudo o que estava morto ao nosso redor começa a ser chamado a vida novamente. Por isso Paulo nos afirma: “se alguém está em Cristo é uma nova criação. As coisas velhas já passaram, tudo se fez novo”. Quando as torrentes de águas do Espírito de Deus chegam ao “mar morto” de nossas vidas toda sequidão, toda podridão, tudo o que estava destruído e sem vida tornará a existência, será revigorado, será renovado na força do Seu poder. E a árvore que o texto aponta prefigura a nossa própria vida, gerando frutos em abundância, sendo utilizada para trazer cura às nações da Terra.     

Talvez você já tenha corrido atrás de muitas coisas em busca de cura. Não sei se já freqüentou templos de “igrejas”, ou fez parte de religiões e filosofias, tudo em busca de salvação. Mesmo assim, talvez, suas chagas ainda estejam expostas, doloridas, inflamadas, e você continua desejando ardentemente encontrar uma “folha” que produza um “ungüento” capaz de lhe trazer alívio, cura e paz. Pois eu quero lhe afirmar que o que você procura é Jesus! Ele, por vezes, não está nos “templos” das “igrejas”, nem presente no compêndio das muitas religiões criadas pelos homens, mas é incapaz de desprezar um coração contrito ou abandonar um espírito quebrantado. Se você realmente deseja ser curado, chegue-se a Ele, diga-lhe sem cerimônias: “preciso de ti”, e receba a cura. É apenas isto... Sim. Simples assim. Pois aquele que ama a Deus viverá apenas pela sua fé.

Carlos Moreira

09 outubro 2010

Consumido pela Culpa

Sem pecado, não há transgressão. Sem transgressão, não há punição. Sem punição, não há culpa. Está comprovado, pela escuta psicoterapêutica e pela leitura de nossa história, que a culpa existe desde nossa origem, faz sofrer, e sua recordação nos acompanha em nossa trajetória existencial.


Para definirmos de forma clássica a culpa, podemos afirmar que ela é algo que se refere à responsabilidade atribuída à pessoa por um ato que provocou prejuízo material, moral ou espiritual a si mesma ou a outrem. Segundo Wikipédia, no sentido subjetivo, a culpa é um sentimento que se apresenta à consciência quando o sujeito avalia seus atos de forma negativa, sentindo-se responsável por falhas, erros e imperfeições. No sentido objetivo, ou intersubjetivo, a culpa é um atributo que um grupo aplica a um indivíduo, ao avaliar os seus atos, quando esses atos resultaram em prejuízo a outros ou a todos.

Provavelmente foi Freud quem mais fez análises sobre os mecanismos geradores de culpa. Para ele, a idéia de uma onipresença da culpa, que se manifesta de múltiplas formas e que é fundamentalmente inexpiável, é o mais importante problema no desenvolvimento das sociedades humanas. Freud analisa em obras como Totem e Tabu e Mal Estar da Civilização, as diversas etapas de constituição da culpa, indo desde a angústia social até os sentimentos inconscientes.

Você se sente culpado por algo que fez? Você se sente culpado pelo destino de outros? Já experimentou um vazio no ser por pensar que poderia ter feito algo de forma diferente, ou tomar outra decisão a respeito de determinado assunto, ou mesmo ter escolhido outro caminho ou propósito na vida? Eu não tenho dúvidas em afirmar que a culpa é uma das mais poderosas forças que existem. E mais, sei que a serpente se alimenta do pó da terra, ou seja, das produções emocionais e psíquicas dos seres humanos, em particular daquelas emanadas de seus desencontros e contradições. Na prática, isto cria um círculo vicioso tal que a pessoa passa a se “alimentar” da própria culpa que produz.

Há na Bíblia Sagrada um herói da fé que experimentou a culpa em todas as suas dimensões. Seu nome é Sansão. O desfecho de sua vida, deste juiz de Israel, homem dotado de uma força sobrenatural, parece inicialmente trágico e melancólico. Sua história começa durante um ciclo de apostasia e cativeiro do povo Hebreu. É em meio a estas circunstâncias que Deus o levanta para iniciar o processo de libertação.

Numa primeira olhadela, Sansão nos parece um homem com muito carisma e pouco caráter. Mesmo tendo sido consagrado desde o ventre materno por um voto de Nazireu, parece ter passado a vida se esquivando de suas responsabilidades. Solitário, tem dificuldades em estabelecer vínculos afetivos e, mesmo estando à frente de seu povo durante 20 anos como juiz, não lhe serve como exemplo nem referencial. Vive de forma questionável, quebra princípios e é exageradamente temperamental, o que acaba lhe custando à morte da esposa e do sogro em um conflito com os filisteus.

Se fizermos uma análise simplista, apenas olhando para os seus feitos, sem discernir o que por vezes acontece no coração, teremos a percepção de que Sansão é um fracassado, alguém que terminou seus dias na situação mais humilhante e degradante que um ser humano pode experimentar. A Bíblia Sagrada, todavia, o inclui na listas dos heróis da fé do livro de Hebreus, onde estão homens da envergadura de Davi, Moisés, Abraão e Elias. Assim, penso, Sansão é avaliado não por aquilo que ele fez, mas, sobretudo, por quem ele por fim se tornou. O sábio do Eclesiastes diz que “melhor é o fim das coisas do que o seu começo”. Gosto também da frase que diz que “numa maratona, não importa como você começa, mas sim como você termina”.

O texto do livro de Juízes que relata o desfecho da vida de Sansão, diz que “mais foram os que ele matou na sua morte do que os que matou em sua vida”, ou seja, é na morte de Sansão, e não na sua vida, que ele se notabiliza como herói da fé. É apenas na sua morte que ele, enfim, cumpre o propósito para o qual lhe foi dada a vida, ou seja, ser a vara do juízo de Deus contra os filisteus. Esta análise não é minha, ouvi-a numa extraordinária mensagem do Ricardo Gondim.

Eu creio que, no final dos seus dias, Sansão era um homem atormentado. O capítulo 16 de Juízes nos revela o estado derradeiro de Sansão: “Os filisteus o prenderam, furaram os seus olhos e o levaram para Gaza. Prenderam-no com algemas de bronze, e o puseram a girar um moinho na prisão”. Nestas circunstâncias, olhando para sua trajetória de vida, para as escolhas dramáticas que fez, para o desprezo com o sagrado, para a decepção que ele se tornara para seus pais, para seu fracasso diante do próprio povo, para a traição de sua mulher e, finalmente, para o seu destrato para com Deus, o grande Sansão sucumbiu em meio à culpa.

Eis agora Sansão, cego dos olhos, amarrado a grilhões de bronze, girando em torno de uma roda de moinho. Mas é justamente em meio à calamidade, quando ele perde o que lhe é caro, a sua liberdade, a sua honra, a sua fama, as pessoas a quem ama, que algo começa a se construir em seu coração. A Sansão não resta mais nada a não ser olhar para dentro de si mesmo e tentar, através do arrependimento que pacifica o ser, encontrar, ainda que tardiamente, um propósito para sua existência. E é justamente a partir daí que Deus age para, na sua morte, matar mais inimigos do que ele fizera em toda a sua vida.


Para não perder a riqueza da história, me ative apenas ao versículo 21 para fazer uma pequena análise sobre o nascedouro e os desdobramentos gerados por processos de culpa, utilizando como “pano de fundo” a tragédia de Sansão. Vou usar seu estado “terminal”, com algumas alegorias, para trazer as idéias para o “nosso mundo”, para o “nosso tempo”.A primeira coisa que observo é que Sansão, após ser preso pelos filisteus, teve os seus olhos vazados – ficou cego. A metáfora me remete ao fato de que A CULPA ELIMINA NOSSA CAPACIDADE DE ENXERGAR A VIDA. Sansão agora era apenas um “campeão” humilhado, um homem sem direção, sem “visão”, sem sonhos, sem horizontes. Muitas das escolhas que fazemos na vida irão desembocar em processos de culpa. Decisões equivocadas, um temperamento iracundo que inviabilizou relacionamentos afetivos, a devassidão existencial encarnada na vida, uma separação conjugal – por vezes concretizada de forma humilhante e penosa, a dissolução da família, que é um dos maiores traumas que alguém pode sofrer, ou os que se sentem culpados pelo destino dos filhos, desterrados na vida, para os quais nunca foram referencial. O fato é que a culpa cega, consome a alma como uma comichão de dia e de noite, corrói o ser como a ferrugem “come” o ferro, nos impede de ver que ainda existem outras possibilidades! Por isso Paulo afirma: “se alguém está em Cristo é uma nova criatura; as coisas que foram feitas já passaram, agora tudo pode ser construído de outra forma”. (tradução livre).

Outra coisa que aparece no verso 21 é o fato de Sansão ter sido prezo pelos filisteus com algemas de bronze. Eis aí, de forma alegórica, uma outra conseqüência: A CULPA NOS ENCLAUSURA NUMA MASMORRA DE ANSIEDADE E MEDO. Sansão era um guerreiro imbatível, impetuoso, livre para ir e vir, mas agora, tornara-se apenas um homem preso a grilhões, indefeso, inseguro. As amarras que o prendiam não eram de bronze, mais “cordas de solidão”, de desespero, laços de agonia, “algemas de medo”. A culpa, não raro, aprisiona as pessoas em si mesmas e as impede de crescer para fora e para dentro. É como se a vida ficasse “parada naquela estação”, parafraseando Marisa Monte. Estes grilhões se manifestam de várias formas: como distúrbios emocionais a partir de experiências que produziram culpa (estupro, violência física, abusos); pessoas que se tornaram inseguras e que não conseguem se posicionar na vida, pois foram alvo de críticas mordazes, comentário maldosos, humilhações; pessoas que foram exploradas com manipulações e chantagens; religiosos que foram ensinados a partir de uma espiritualidade neurotizada, calcada em dogmas, ritos e mitos do “sagrado”, gente que desenvolveu uma fé patológica, doentia, que tem em Deus a figura do juiz acusador.

Finalmente, a partir do texto de Sansão, ainda que metaforizado para uma aplicação que nos seja mais próxima, vejo A CULPA PRODUZINDO INSUMO EXISTENCIAL PARA A DEPRESSÃO. Diz o texto que o Juiz de Israel além de ter os olhos vazados, de ter sido algemado a grilhões de bronze, foi acorrentado para passar seus dias a girar uma roda de moinho. É a vida perdendo por completo toda sua significação e propósito. Imagine a mesmice sendo servida como prato a cada manhã. Sansão agora é vítima de uma rotina pavorosa, pois ele é constituído escárnio antes os seus inimigos, figura de deboche para o povo. Nestas circunstâncias, sem perspectivas existenciais, aprisionado num calabouço de medo e dor, vivendo a mesmice de dias onde todo o apetite pela vida se foi, o que resta é abraçar a dessignificação completa do ser. Os dias de Sansão já não possuem cor, sabor ou propósito. Tudo o que lhe resta é dar voltas em torno de si mesmo, girar a roda de moinho que se desloca em torno de um mesmo eixo e que nunca lhe leva a lugar algum.

Como pastor, tenho encontrado gente consumida pela culpa. A culpa que roubou a visão da vida, que tolheu os sonhos, que subtraiu os desejos. Encontro gente que parou no tempo, não consegue se livrar de cenas que, como tatuagens, ficaram gravadas na alma, se alojaram até no subconsciente, são demandadoras de medos infundados, de patologias das mais diversas. Encontro ainda os que sucumbiram as suas próprias escolhas e decisões, os deprimidos, os caídos, os que beijaram o chão na lona do ringue da vida. Sim, eu os encontro aos montões, gente moída, excluída, sofrida, gente que perdeu o sentido de ser gente.

Eu creio que as feridas feitas na alma não cicatrizam nem rápida nem facilmente. O perdão é parte do processo de cura, sobretudo quando ele deve ser liberado para aplacar a dor daqueles que nos feriram. Por outro lado, ser perdoado é uma dádiva que a vida reserva para poucos, pois poucas são as pessoas suficientemente generosas para conceder a alguém que lhe magoou o direito de nascer novamente em sua vida. Aos culpados, como eu, deixo as palavras do profeta Isaías. Espero que elas sejam capazes, como foram para mim, de iniciar a grande jornada para dentro de você mesmo, na busca da pacificação e do perdão. “Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados”. Isaías 53:5

Carlos Moreira


03 outubro 2010

Acompanhado pela Solidão

Publicação em Jornal de grande circulação: "Obrigada por razões profissionais, me transferi para São Paulo. Encontro-me sozinha e sem amigos. A cidade me sufoca, durante o dia, e me isola à noite num pequeno apartamento de bairro. Não sei o que fazer, não tenho a quem recorrer e, às vezes, chego quase ao desespero. Quero gente para conversar e para conviver. Ajude-me, por favor.

Solidão é o estado de quem se encontra ou se sente desacompanhado ou só. É um sentir humano, complexo, e psicológico. Quem sofre de solidão vive como se estivesse fora da sociedade. Sabemos que o ser humano precisa se relacionar com outros indivíduos para aprender, desenvolver-se e afirmar-se como ser social. Quando isto não acontece, surgem os distúrbios de comportamento, principalmente nas pessoas tímidas, sensíveis, e nos que enfrentam problemas para expor idéias e interagir.

Eu não tenho dúvidas em afirmar que a solidão é um dos mais graves problemas da humanidade neste início de século XXI. O escritor francês André Malraux disse que nós integramos o que pode ser denominado de “a civilização da solidão”. Dados da Organização Mundial da Saúde apontam à solidão como um dos fenômenos psicossociais que mais tem levado pacientes aos consultórios terapêuticos e a dependência de ansiolíticos e antidepressivos. Raimundo de Lima, psicanalista e professor da USP, explica que “são muitas as situações geradoras de solidão: existe a solidão gerada pelo poder, a decorrente da riqueza, a dos mal casados, a imposta pelo trabalho automatizado, a da criança cujos pais são egoístas ou inafetivos, a dos velhinhos rejeitados, abandonados pelos familiares, a dos órfãos, a solidão da loucura, a dos enfermos hospitalizados, a dos excluídos do mercado de trabalho” e, citando Kublerross, a solidão da morte, pois morrer nos nossos dias é solitário, é algo que acontece no isolamento dos CTI’s, longe dos amigos e da família.

A Bíblia Sagrada nos fala sobre a vida de um profeta solitário, vivendo as agruras de seu tempo, mergulhado num mundo desprovido de propósitos e significados. Trata-se de Miquéias, um hebreu que viveu entre 704 e 696 A.C. Sua solidão não está associada a um processo de depressão ou a ausência de companhia. É algo muito mais complexo e profundo. O texto do capítulo 7 nos expõe o que chamo de “Esquematismo da Solidão” – o conjunto de fatores e situações que desencadeiam, inevitavelmente, situações de isolamento na vida. O “mosaico” da passagem nos põe diante da fragmentação do mundo, em todos os sentidos, algo significativamente parecido com o que temos em nossos dias. Neste contexto trágico, envolto numa profunda solidão, Miquéias ora a Deus e fala consigo mesmo opinando sobre o que observa na existência ao seu redor. É a partir de sua fala que identifico estas 5 “estações” da solidão.
Em primeiro lugar, a solidão como conseqüência de UMA ALMA QUE PERDEU O APETITE PELA VIDA. Cap. 7:1 “Que desgraça a minha! Sou como quem colhe frutos de verão na respiga da vinha; não há nenhum cacho de uvas para provar, nenhum figo novo que eu tanto desejo”. Eis a fala de quem sente que o tempo passou, que o melhor da vida se foi, que a “primavera da existência” findou, e pior, que tudo, seguiu despercebido. Existir, nestas circunstâncias, gera fastio de alma, pois a vida, de tão agitada que foi, nos privou de ver e sentir coisas boas e belas. Era a nossa agenda interminável, os compromissos inadiáveis, as reuniões, e-mails, metas a bater, tantas coisas que o melhor da vida fugiu de nós. Não vimos nossas crianças crescerem, não brincamos com elas no parque, não namoramos de mãos dadas na praça, não tomamos vinho ao por do sol na praia, ou dançamos a luz do luar. A existência se complexificou tanto, que a felicidade, coisa singela e simples, tornou-se algo tão sofisticado que a perdemos. Agora, é tarde demais...

Em segundo lugar, a solidão como resultado de UMA EXISTÊNCIA ESVAZIADA DE VALORES E CONTEÚDOS. Cap. 7:2 “
Os piedosos desapareceram do país; não há um justo sequer. Todos estão à espreita para derramar sangue; cada um caça seu irmão com uma armadilha”. Nietzsche afirma:na solidão, o solitário devora a si mesmo. Na multidão devoram-no inúmeros”. Miquéias olha para a vida e vê que já não há mais gente boa na Terra, de coração verdadeiro, que não queira tirar proveito e vantagem de tudo. É como nos nossos dias... na sociedade das aparências, da imagem, dos relacionamentos reciclados, dos encontros dessignificados, onde todo mundo “se dá” a todo mundo e ninguém é de ninguém. Isto dilui a substância interior das pessoas, a alma vira sopa, os conteúdos se desfazem, os princípios se esvaem. Na busca da felicidade a qualquer custo – a tirania de ser feliz – tudo é possível, gente é tratada como coisa; coisa é amada como gente!

Em terceiro lugar, a solidão como subproduto da ALIENAÇÃO E CORRUPÇÃO SOCIAL. Cap. 7:3,4 “Com as mãos prontas para fazer o mal o governante exige presentes, o juiz aceita suborno, os poderosos impõem o que querem; todos tramam em conjunto O melhor deles é como espinheiro, e o mais correto é pior que uma cerca de espinhos”. Nada mais atual. A autoridade política pede a condenação por interesse. O Juiz aceita negociar sentenças por preço. O homem rico e poderoso faz conluios e negociatas. É o dinheiro do suborno na meia, na cueca, é a morte encomendada, é o extermínio dos jovens, é o descaso com as vítimas das avalanches e enchentes, com os viciados da cracolândia, com os indigentes dos hospitais, com os desterrados da vida, com os que separam o alimento nos lixões e disputam com urubus o café da manhã. É por isso que Sartre diz que “o inferno é o outro”, pois é o outro que ocupa o nosso espaço, quer o nosso cargo, rouba a nossa mulher, deseja a nossa roupa, quer a nossa vida! Mas Jesus, de forma diametralmente oposta, nos ensina, na parábola de “Lázaro e o Rico”, que é justamente o existir sem perceber o outro que é inferno.

Em quarto lugar, a solidão gerada pela DESCONTRUÇÃO DE RELACIONAMENTOS AFETIVOS E AMOROSOS. Cap. 7:5 “Não confie nos vizinhos; nem acredite nos amigos. Até com aquela que o abraça tenha cada um cuidado com o que diz”. Aqui a tônica é: não acredite em mais ninguém! Não confie nem mesmo nos seus companheiros, pois eles podem mudar de lado conforme a conveniência. Não se apegue nem com quem você faz amor, com quem partilha de sua cama, pois ele(a) pode lhe trair! Vai casar? Faça um contrato nupcial; jamais entre num regime de comunhão de bens; não acredite em relacionamentos duradouros, pois nós vivemos no tempo da impermanência. Veja os casais: eles possuem dois carros, duas casas, duas camas, dois computadores, duas contas correntes, amigos separados, lazer separado, projetos de vida separados. É a “solidão a dois” que poetizou o Cazuza.

Em quinto e último lugar, a solidão gerada pelo ANIQUILAMENTO DAS ESTRUTURAS FAMILIARES. Cap. 7:6Pois o filho despreza o pai, a filha se rebela contra a mãe, a nora, contra a sogra; os inimigos do homem são os seus próprios familiares”. Estarrecedor! Em nossos dias, o número de assassinato de pais contra filhos subiu assustadoramente. Os casais estão desconjuntados, as crianças são criadas a revelia, ou pelas babás, ou pela televisão. Some-se a isso os novos arranjos familiares surgidos a partir da segunda metade do século XX: as produções independentes – mulheres tendo filhos sozinhas e utilizando o “pai” apenas como reprodutor; casais de orientação homoerótica adotando crianças; filhos criados em mais de uma casa, por vezes, com dois pais e duas mães. Família hoje é apenas família nuclear – pai – mãe – filhos. Tios, avós, primos, já não fazem parte do contexto, são parentes mais do que distantes. Os idosos, não raro, são tratados sem respeito, perdem a dignidade, são lançados em depósitos humanos para “cuidados geriátricos”. O que esperar de uma sociedade que vive desta maneira?

Tenho uma pergunta a lhe fazer: você se sente só? Mesmo em meio a uma multidão de pessoas, imagina-se solitário? Então quero lhe indicar uma alternativa para mudar o panorama de sua existência. E aqui não me refiro apenas a eliminar o, talvez, aparente problema de você não ter uma companhia. Isto não é solução! Fernando Pessoa escreveu:a liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo”. Também não se constitui alternativa, como alguns pensam, uma mudança radical na vida! Tenho acompanhado muitos que fizeram isto e pioraram sensivelmente seus estados existenciais. A saída não é mudarmos de casa, de profissão, de amor, de cidade, de igreja, de empresa, pois, mesmo fazendo tudo isto, o problema ainda persistirá. Débora Bötcher afirma: Que importa morar aqui ou lá, quando se descobre que se está sozinho em qualquer lugar?”.

A única mudança que pode provocar uma revolução em sua vida não está associada a nada exterior, mas a algo que acontece do lado de dentro do ser, e só aquEle que pode ressignificar a vida é capaz de fazê-la. Vamos voltar a Miquéias... Observemos como ele, após constatar todos estes matizes expostos acima, conclui o seu pensamento: Cap. 7:7Mas, quanto a mim, ficarei atento ao SENHOR, esperando em Deus, o meu Salvador”. É em Deus que está à única alternativa para toda a calamidade humana, para todo desencontro, para todas as nossas interjeições e contradições. Se buscarmos isto como alguém que busca o ar que respira, poderemos experimentar o que nos promete o Senhor nas Escrituras “nunca te deixarei, jamais te desampararei”. A partir deste ponto, meu mano, toda solidão será apenas circunstância existencial, pois, na companhia dEle, quem poderá sentir-se sozinho?

Carlos Moreira

05 agosto 2009

De Quem é a Culpa?


"Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta. Ao contrário, cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz". Tg. 1:13-14

O diálogo do gênesis entre Deus, Adão, Eva e a serpente é algo extraordinário. Ele carrega em si mesmo muitos significados e revela-nos facetas do caráter e do comportamento dos mortais. Poderia ser, para os estudiosos da alma humana, para os que buscam através de ações terapêuticas amenizar as dores do ser, um vasto cabedal de conhecimentos. Mas, via de regra, os Escritos Sagrados têm sido desprezados, sobretudo pela dificuldade que possuímos de interpretar alguns de seus conteúdos. Neste caso, por exemplo, temos um texto em linguagem mítica, com seus simbolismos próprios que, erroneamente imaginamos, deva ser entendido de forma literal.

Quando paro para analisar os contornos do capítulo 3 de Gênesis, acabo encontrando uma coisa muito comum e presente nos relacionamentos humanos, a famosa “transferência de responsabilidade”. No fundo, para mim, a “conversa” parece apenas um grande jogo de empurra, uma espécie de "salve-se quem puder"! Senão, vejamos...

Na viração do dia, Deus, sentindo cheiro de lambança, procurou o homem para lhe perguntar o que estava havendo. Adão, meio “cabrero”, respondeu o seguinte: "a mulher que você me deu por esposa me ofereceu do fruto da árvore e eu comi". Ou seja, “olha patrão, a culpa é Tua! Essa aí já veio com defeito de fabricação. Não dá pra fazer outra não?”. Mas Deus é Deus, misericordioso e paciente. Mandou chamar a "marvada" da Eva e perguntou: "o que foi que você fez?". Olha só a resposta da "criança": "...a serpente me enganou, e eu comi". Fico imaginando que se o Senhor desse "corda ao assunto", chegando ao desplante de inquirir, também, a serpente, é bem provável que ela se saísse com algo do tipo: "ora, a culpa é Tua! Não foi você mesmo que criou estas duas alminhas sebosas?". É pouco, ou quer mais?

Como pastor, tenho sido sempre questionado pelas pessoas sobre a origem de muitos dos dramas humanos. Deparo-me, não raras vezes, com questões complexas, do tipo: "pastor, por que isto aconteceu comigo? Será que é uma armadilha de satanás para minha vida?”. Outros afirmam: “Ah, isso não é culpa minha não, é fruto da minha criação. O problema é da minha mulher, ela é que não me entende”. Ouço coisas do tipo: “Ah meu querido, o tráfego estava um horror, por isso me atrasei; pastor, o vestibular foi muito difícil, não dava mesmo para passar; reverendo, mesmo me esforçando, continuo desempregado. O mercado de trabalho está terrível para alguém da minha idade".

Sinceramente, não sou cigano, nem vidente, mas apenas profeta, por isso não tenho, muitas vezes, respostas exatas nem convincentes para o porquê de tais questões. Um pastor amigo, professor de Teologia, disse-me certa vez que, em muitas situações no ministério, a única coisa a se fazer é apenas sentar junto e ficar calado. Por isso, meu brother, deixe-me quietinho aqui, não provoque não! Aí vem você e me pergunta: “de quem é a culpa então?”. Quer mesmo uma explicação? Então vou tentar esclarecer alguns pontos para você.

Questões de Constituição do Ser

Do ponto de vista da psicologia, elementos que redundam em transferência de responsabilidade são chamados de “projeção” e estão enquadrados em um grupo do comportamento humano chamado de "mecanismos de defesa".

Segundo Eugênio Mussak, colunista da revista Você SA e especialista em educação corporativa, estes mecanismos se manifestam da seguinte forma: "a parte da estrutura psicológica chamada ego muitas vezes recusa-se a reconhecer impulsos de seu vizinho, o id. Essa é a parte da mente humana mais primitiva, regida pelo impulso do prazer, e que busca a satisfação imediata das necessidades e o apaziguamento das tensões. Obedecendo a esses impulsos primitivos, muitas vezes fazemos coisas, ou deixamos de fazer, que nossa própria moral reprovaria. É quando entra o ego, que é regido pelo princípio da realidade. Quando adultos, não podemos mais simplesmente cair no choro e sapatear quando somos contrariados ou repreendidos. As crianças fazem isso porque são comandadas pelo id. Nos adultos, o ego assume o comando e a responsabilidade. Entretanto, às vezes o golpe é muito forte para um ego ainda não totalmente estruturado. Nesse caso, ele projeta a culpa para fora de si, isentando-se e, claro, incriminando alguém”. Resumindo, Freud explicou, pelo menos em parte...

Questões Relativas aos Desdobramentos Existenciais

Outra coisa importante, e que não pode ser desprezada, é que em todo fato desencadeado na natureza, existe a causa que o determina e a causa que o predispõe. Sempre existe uma causa interna e outra externa para cada um dos fenômenos da vida humana. Por exemplo, um casal, depois de anos experimentando um relacionamento apático, sem diálogo, carinho ou cumplicidade, em uma discussão banal, por causa de um programa de TV, decide se separar. O que determinou a separação foi a controvérsia, não há dúvidas, mas o que permitiu que algo tão drástico acontecesse foram os anos de total entorpecimento do amor. Isso sim foi o que provocou a desconstrução da relação.

Para que um ser seja emocionalmente saudável, é necessário que haja a experimentação do equilíbrio entre estas duas questões, a causa determinante e a causa de predisposição. O problema é que, na grande maioria dos casos, as pessoas não conseguem ajustar o "fiel da balança" para que isto se constitua num determinante existencial. Valorizam sempre um aspecto mais do que o outro, de acordo com suas próprias conveniências. Desta forma, acertos acabam sendo sempre mérito nosso, mas desgraças, via de regra, são produzidas por fatores externos a nós, algo ou alguém.

É muito raro uma pessoa me dizer: "pastor, isso é culpa minha, de minhas escolhas e ações, e não tem nada a ver com o diabo. Pastor, meu casamento acabou porque nunca tratei minha mulher como deveria", ou, "não passei no vestibular porque não estudei", ou ainda, "não consigo emprego porque meu currículo é fraco”. Se fosse assim seria uma maravilha...
Mas não é.

Questões de Suposta Natureza Espiritual

É muito comum, sobretudo no meio cristão, a atribuição a satanás de poderes extraordinários. Nós "crentes" gostamos de meter o diabo em tudo. Ele é o arquiteto das desgraças humanas. Sentado na sua prancheta no inferno, vive a elaborar planos malignos para nos destruir.

Esse tipo de pensar está associado a uma fé infantil, a uma espiritualidade baseada no medo, demonizada pelas “teologias da terra”. Infelizmente, creio que a igreja tem muito a ver com tudo isto. É que o diabo na igreja é tratado como um super-star, com status de ator hollywoodiano. Tudo de ruim que acontece é coisa do diabo, como se nós nunca tivéssemos qualquer responsabilidade sobre o "latifúndio". Não seria heresia achar, inclusive, que o "capiroto" se sinta profundamente injustiçado e ofendido com tudo isso. Não me surpreenderia se ele procurasse a Deus e dissesse: "olha aqui, aquela “parada” lá não é culpa minha não, viu. Vê o que aquele miziguento tá fazendo, Senhor!". E Deus olhando para o proceder de Seu filho na Terra, responderia: “Durma com um barulho desse...”.

Sinceramente, o que vejo em Jesus me serve como chave hermenêutica para estas questões. O Senhor nunca deu qualquer importância a satanás, nem muito menos fez qualquer apologia a teologias sobre encostos, maldições hereditárias, e outras maluquices que a igreja inventou. Quando encontrou, no caminhar da existência, pessoas possessas, expulsou o demônio sem muitas delongas nem pirotecnias. "Retira-te dele", era o que bastava. Bem diferente do que acontece em nossos dias, nestes espetáculos bizarros de exorcismo fraudulento de demônios de quinta categoria, os quais, supostamente, estão atormentando a vida das pessoas. Sai capeta! Quanta gente vivendo de correntes e sessões de descarrego as quais, ao invés de quebrar o jugo do diabo, quebra apenas a cara do “cliente” e, não raras vezes, o bolso também.

Não me entenda mal. Eu não estou afirmando que satanás, por vezes, não crie cenários existenciais para nos atormentar com culpas e medos. Como já disse, a “serpente” se alimenta do pó da terra, ou seja, de toda a produção emocional e psíquica dos humanos caídos. Isso, sem dúvida, é um poderoso motor de propulsão quando acionado. Por exemplo, medo gera medo que alimenta o medo para desenvolver mais medo ainda. É um ciclo vicioso. Mas é fato que o diabo não pode atuar na "peça", ainda que ajude a ornamentar o cenário. Quem desempenha o papel de ator principal do espetáculo somos nós, sempre a partir de nossas próprias escolhas e decisões. Jean Paul Sartre, filósofo existencialista, disse certa vez que "o inferno é o outro". De fato, para muitos, é justamente isso que se processa no ser: criam infernos particulares onde todo mundo tem culpa no cartório, menos eles mesmos. É um eterno jogo de transferência, um empurra-empurra, um “toma que o filho é teu”. Muito elementar...

A Posição das Escrituras Sagradas

Tiago, no texto que citei acima, que para mim é bastante equilibrado e isento, pois coloca cada coisa em seu devido lugar, afirma que Deus não tenta ninguém. A respeito do diabo, como era de se esperar, não fala absolutamente nada, deixando o “tinhoso” no seu devido lugar, apenas como espectador da existência. Contudo, de forma categórica, pontua que nossos desencontros são fruto das escolhas que fazemos, de nossa cobiça e contradições, ou seja, em última instância, a responsabilidade é toda nossa.

De fato, cada um de nós busca viver por uma espécie de “mapa existencial”, e determina, a partir dele, quais rotas deverão ser seguidas. Na fase de execução do projeto, somos chamados a tomar decisões, muitas das quais acabam por modificar o mundo ao nosso redor, tanto a nosso favor, quanto contra nós, e nem Deus, nem o diabo, tem nada a ver com isso. Somos responsáveis por cada decisão que tomamos. Não adianta tentar fazer transferências ou viver de escapismos, isso não nos ajuda em absolutamente nada, apenas provoca um sentir infantil, que desemboca numa psique instável, e leva-nos a experimentar sentimentos de frustração, impotência e injustiça. Tornamo-nos vítimas do mundo, e nunca de nós mesmos...

A vida cristã é construída a partir de valores e verdades. Deus estabeleceu princípios imutáveis através dos quais opera. Por exemplo, “aquilo que o homem semear, isto também ceifará”. É o livre arbítrio em operação. Não dá para plantar vento e depois não querer colher tempestade. De forma prática, se não estudar, não passa; se não amar a esposa, o casamento se dessignifica; se não aprender a repartir, vai tornar-se avaro; se não perdoar, terá o ser consumido pela amargura; se não falar a verdade, viverá enredado com mentiras, se não tiver controle, vai se endividar, e por aí vai...

Conclusão

Quero desafiá-lo a aprender a fazer uma dicotomia dos fatos e fenômenos que lhe acometem. Tente discernir o que é de natureza psicológica, o que veio como conseqüência e desdobramento existencial e, se for o caso, o que surgiu a partir de aspectos e implicações espirituais. A vida é feita de escolhas e cada um de nós fará o seu próprio caminho sobre a terra, seja com Deus, seja sozinho. Se queremos crescer, em todos os aspectos, precisamos colocar cada coisa no seu devido lugar.

Em última hipótese, todavia, considere que algumas situações que lhe advirão estarão fora de seu controle e responsabilidade, e podem apenas ser o desenrolar de fatores externos que, involuntariamente, acabaram “caindo” sobre você. Nestes casos, tire proveito do todo e aprenda, também, a lidar com isso, pois está escrito que "todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus".

Entretanto, não posso deixar de afirmar, é bem provável que na absoluta e esmagadora maioria das vezes, nem Deus, nem o diabo, nem os outros possuam qualquer responsabilidade sobre suas desventuras. Introjetar esse saber no ser lhe proporcionará um enorme bem na vida e lhe trará paz e serenidade.

A história mítica do Édem, dentre outras coisas, nos ensinou que o pecado passou a todos os homens em função da escolha de um só. Entretanto, segundo Paulo aos Romanos, “onde abundou o pecado, superabundou à graça!”. É que Deus, em Cristo Jesus, antes de haver mundo, ou mesmo humanos habitando nele, antes, inclusive, de haver luz na Terra, disse: "haja cruz!". O Cordeiro foi sacrificado antes de todos os começos, pois, para o Pai, o fim precedeu ao princípio, e isso assim foi feito para que existisse uma alternativa segura e viável de salvação para mim e para você. Essa escolha foi ele quem fez! Façamos, então, a nossa! Antes de escolher, todavia, não esqueçamos de que, por ela, viveremos ou morreremos.

Sola Gratia !

Carlos Moreira

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