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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.

28 agosto 2009

Maria e o Dilema Ecológico


“Sabemos que toda a criação geme como se estivesse com dores de parto até agora. Não só ela, mas nós mesmos, que temos as primícias do Espírito, também gememos em nós mesmos...” Romanos 8:22-23

Através deste texto, nos deparamos com a figura de duas grávidas, à semelhança de Maria e sua prima Isabel. Trata-se, primeiramente, da Criação como um todo, e em segundo lugar, nós, a Igreja de Cristo.

A Criação está grávida de uma nova Terra, enquanto a Igreja está grávida de um novo Céu. Há um parentesco entre ambas, e a gravidez de ambas está intimamente relacionadas, sendo parte de um único propósito, que deve se cumprir "assim na Terra como no Céu".

Quando Cristo foi levantado na Cruz, colocando-Se entre o céu e a terra, Ele reuniu em Si mesmo todas as coisas que há no céu, e todas as coisas que há na terra (Ef.1:10). Houve então o casamento entre os dois lados da realidade única criada por Deus. Céu e Terra contraíram núpcias para gerar um novo cosmos.

A gravidez da criação se deu quando Cristo, a semente incorruptível, foi colocado no “ventre da terra” (Mt.12:40). O corpo de Jesus era a semente divina que engravidaria a criação. Ele mesmo comparou-Se ao “grão de trigo”, que deveria morrer para poder frutificar (Jo.12:24). Seu sepultamento é comparado à semeadura: “Semeia-se em ignomínia, é ressuscitado em glória. Semeia-se em fraqueza, é ressuscitado em poder” (1 Co.15:43).

Quando houver chegado a hora da colheita, por causa daquela semente incorruptível semeada no ventre da terra, nossos corpos ressuscitarão incorruptíveis. E toda a criação, que hoje é cativa pela corrupção, se revestirá de incorruptibilidade. O cosmos inteiro será transfigurado!

A gravidez da igreja iniciou-se quando o Espírito Santo, como semente incorruptível, foi depositado em nós, a Igreja, por ocasião do Pentecostes (1 Pe.1:23).

Assim como coube ao Espírito gerar Jesus no ventre de Maria, compete ao Espírito gerar em nós a imagem de Cristo (2 Co.3:18). Nas palavras de Paulo, Cristo está sendo gerado em nós (Gl.4:19). A cada etapa desta gestação espiritual, ficamos mais parecidos com o Senhor Jesus. Quando Cristo vier em glória, será a hora do parto, e finalmente, nos manifestaremos ao mundo (1 Jo.3:2).

Paulo diz que a gravidez da Criação e a gravidez da Igreja estão profundamente relacionadas. Há, por parte da criação, uma “ardente expectativa” pela manifestação dos filhos de Deus (Rm.8:19). Segundo o apóstolo, tal manifestação proporcionará plena liberdade à criação (vv.20-21).

Então, surge a questão: De que maneira a igreja e a criação deveriam interagir durante o tempo de gravidez de ambas?

Encontramos nas Escrituras cristãs a história de outras duas grávidas, que nos oferece um padrão que deveríamos seguir em nosso relacionamento com a criação.

Maria e Isabel eram primas. Uma era ainda bem jovem e virgem, a outra já era avançada em idade e estéril.

A primeira a receber o anúncio de que se engravidaria foi Isabel. Aquele a quem ela daria a luz seria o profeta do Senhor, enviado especialmente para Lhe preparar o caminho (Lc.1:17). O mesmo anjos que apareceu a Zacarias, seu marido, foi ao encontro da jovem Maria, para anunciar-lhe o nascimento do Salvador do Mundo, Jesus.

Maria vivia em Nazaré da Galiléia, enquanto que Isabel, sua prima, vivia na região montanhosa de Judá. Quando o anjo Gabriel informou a Maria que sua prima também estava grávida, seu coração desejou profundamente encontrá-la.

“Naqueles dias levantou-se Maria, foi apressada às montanhas, a uma cidade de Judá, entrou na casa de Zacarias e saudou a Isabel” (Lc.1:39-40).

Embora Maria estivesse logo no início de sua gravidez, ela não esperou que sua prima viesse lhe visitar. Em vez disso, ela tomou a iniciativa, saindo-lhe ao encontro, disposta a enfrentar o terreno íngreme das montanhas.

Por que a iniciativa partiu de Maria, em vez de Isabel? Porque Isabel só recebeu o anúncio de sua gravidez, enquanto Maria foi informada sobre a sua gravidez e a de sua prima. Ela conhecia o que sua prima desconhecia. Ela era portadora de uma mensagem mais abrangente, que incluía ela e Isabel.

Podemos tomá-las como alegorias da Igreja e da Criação.

Isabel representa a criação, já avançada em idade, mas prestes a dar à luz uma nova criação. Maria representa a Igreja de Cristo, grávida d’Aquele que fora destinado a reger as nações (Ap.12:1-5).

Assim como Maria gerou Jesus, o Cabeça do Corpo, a igreja é o útero no qual o Espírito Santo está gerando aqueles que formam o Seu Corpo Místico. Jesus é o Novo Homem, o segundo Adão, enquanto a Igreja é a nova Eva, mãe da Nova Humanidade (1 Co.15:45).

Assim como Maria saiu ao encontro de Isabel, a Igreja deve sair ao encontro da Criação, e não o inverso. Mesmo antes da manifestação plena dos Filhos de Deus, a Igreja deve deixar sua zona de conforto, enfrentar o terreno íngreme e pedregoso do mundo, para encontrar-se com a Criação.

O texto prossegue: “Ao ouvir Isabel a saudação de Maria, a criancinha saltou no seu ventre, e Isabel foi cheia do Espírito Santo” (Lc.1:41).

Muito dos cataclismos naturais que temos assistido ultimamente, nada mais são do que as contrações de uma natureza gestante. Provavelmente, Isabel já havia sentido muitas contrações, mas o que ela sentiu no momento em que ouviu a saudação de Maria foi completamente diferente. A criança que era gerada em seu ventre saltava de alegria, cheia do Espírito Santo. Tal deve ser a reação da natureza, quando a Igreja de Cristo sai-lhe ao encontro.

Sair ao encontro da criação é entrar em sintonia com seus problemas, e trabalhar para que ela tenha uma gravidez tranqüila. É claro que os gemidos são inevitáveis. Ainda testemunharemos muitos terremotos, furacões, secas, e outros fenômenos naturais, que nos advertem quanto à proximidade do fim. Não do fim do mundo, mas do fim da gestação, quando um novo mundo emergirá. Quanto mais próximo estivermos do advento de Cristo, mais intensas serão as contrações, até que se rompa a bolsa d’água, os raios do Sol da Justiça sejam vistos no horizonte.

Apesar disso, podemos deixar nossa passividade, e trabalhar pelo bem-estar do meio-ambiente, defendendo um modo vida sustentável, e o futuro das próximas gerações. Como devemos tratar uma grávida? Da mesma maneira devemos lidar com a Criação. Assim como João foi cheio do Espírito, saltando no ventre de Isabel, quando a Criação ouvir a saudação da Igreja, ela se encherá do Espírito e será restaurada (Sl.104:30).

25 agosto 2009

Quando o Sacramento se Transforma em Sofrimento


Introdução

“Eu os declaro marido e mulher até que o casamento os separe”. Sendo muito sincero, essa deveria ser a frase usada na conclusão de algumas cerimônias religiosas de matrimônio. Olhando para os noivos, ainda no altar, analisando a forma como eles construíram aquela “história de amor”, nem é preciso ser profeta para vaticinar o provável desfecho. Sim, em pouco tempo, a não ser que haja uma mudança absoluta de direcionamento, aquilo lá vai para o beleléu! É que, não raras vezes, o “casamento” se transforma em veneno e, em curto prazo, mata o relacionamento.

Nós vivemos na sociedade dos descartáveis. Quase tudo à nossa volta, em termos de bens de consumo, é feito para durar pouco, ser substituído facilmente, ou ser reciclado. Talvez, por conta disso, começamos a amar coisas e usar pessoas. É muito comum, em conversas pastorais, diante de gente que teve o coração despedaçado pela perda do “grande amor da vida”, ouvir expressões do tipo: “ eu fui usada”; “sou apenas um joguete”; “não tenho qualquer valor”. A verdade é que, cada vez mais, amontoam-se os casos dos que são tratados como coisas e descartados como lixo.

Outra questão que também está muito presente em nossos dias é a impermanência. Trata-se da ausência de qualquer existência duradoura, estável e inerente. Impermanência é uma crença budista, que está presente nos “Três Selos do Dharma”, e postula que “as pessoas mudam, os fenômenos mudam. Nossos pensamentos, sonhos, sentimentos, idéias, vida, estão sempre em transformação. Nada permanece inalterado”. Olhando para o conceito sem pré-conceitos, não vejo nada extraordinário. Parece-me, apenas, a simples constatação dos “movimentos” próprios da existência humana. O problema é que, nós “evangélicos”, temos por premissa jogar no “lixo” tudo aquilo que é dito fora de nosso “mundinho eclesiástico”, como se a sabedoria fosse apenas um privilégio dos “santos”, e não um dom de Deus às Suas criaturas.

Descendo a Ladeira

Pois bem, o que tenho visto nos relacionamentos conjugais pós-modernos é justamente um misto de algo descartável e impermanente. Casamento não é mais um projeto existencial de longa duração, mas um contrato de prestação de serviço de curto prazo. As pessoas querem apenas ser felizes e, em nome dessa “tirania da felicidade”, ou seja, desse desejo de ser feliz a qualquer custo, como se felicidade fosse um estado perene, e não uma estação sazonal, estão dispostas a fazer qualquer coisa, inclusive, trocar de parceiros tantas vezes quantas sejam necessárias, até que o “príncipe” ou a “princesa” encantados seja encontrado.

Ora, eu não sou legalista, ou contra separações, mesmo sendo pastor de igreja. Crucifique-me quem quiser! E não me venha com sua “exegese de gaveta”, viciada, baseada no uso do texto que exalta a letra das Escrituras, mas exclui o Espírito do Evangelho. Sei, todavia, que meu trabalho, como sacerdote, é ajudar pessoas a construir vínculos afetivos fortes e duradouros. Contudo, não há como negar que, às vezes, vida de marido e mulher torna-se uma fábrica de neuroses e amarguras. Nesses casos, quando verifico que o ficar junto se constitui algo totalmente insalubre ao ser, pois está diluindo a substância interior das pessoas, além do desastre que é para os filhos ter de conviver com essa “ferida purulenta”, não raro apenas para manter as aparências, sejam religiosas, sejam sociais, aceito o fato de que, o que Deus não uniu, o homem pode separar.

De fato, o que tenho visto em certos tipos de vínculos conjugais é que eles, de tão adoecidos que estão, acabam se constituindo em algo profundamente nocivo a psique do casal. Dentro deste contexto, surgiu em nossa sociedade um tipo de patologia relacional que vem crescendo assustadoramente nos últimos 10 anos. Trata-se da famosa “solidão a dois”. A “síndrome” baseia-se na premissa de que os casais modernos estão mais preocupados em competir do que em construir, vivem juntos, mas existem desconectados. Moram na mesma casa, dormem no mesmo quarto, mas não conseguem experimentar um mínimo de conjugalidade. Possuem dois carros, duas camas, dois computadores e duas contas correntes. Têm amigos separados, lazer separados, filhos separados, bens separados, ou seja, tantas coisas fora do comum, e tão poucas em comum que, por fim, acabam olhando-se nos olhos e se perguntando: “ por que foi mesmo que nós nos casamos?”.

O “buraco”, todavia, parece estar bem mais embaixo. Na prática, o que tenho visto é uma total falta de apetência dos casais em querer, de verdade, considerando, inclusive, os “custos” envolvidos – renúncia, paciência, humildade – que a relação ganhe significado e propósito, mesmo que em meio a crises. Desavenças e desajustes, neste mundo louco que vivemos, é algo comum e até natural! Desencontros são maravilhosas oportunidades de crescimento, de amadurecimento, de abrirmo-nos à percepção do outro, de suas dores, medos e idiossincrasias. Crises são, via de regra, a melhor chance de um casal ajustar-se para viver uma existência sadia e equilibrada, onde busca-se mais a alegria e o bem-estar do outro, do que o seu próprio. Mas, o problema é que nós queremos apenas ser felizes e, como diz o “poetinha”, “tristeza não tem fim, felicidade sim”...

Sinais de Fumaça

O trágico equívoco desta história está no fato de imaginarmos que os problemas conjugais só começam após o casamento, ou seja, que são frutos da falta de tato e habilidade dos cônjuges em conduzir o relacionamento entre quatro paredes. Que nada! Isso é lenda! Folclore puro! A bronca começa bem lá atrás, no alicerce e nos pilares, nos valores e conteúdos, na forma como a relação está sendo construída.

Pastores e Padres sabem o que eu estou dizendo... Sim, nós sacerdotes da igreja, incumbidos de realizar o sacramento do matrimônio, nos encontramos, por vezes, entre a “cruz” e a “espada”! Neste caso, entretanto, o dito popular ganha nova significação. Cruz passa a ser a representação do fardo existencial que os nubentes vão arrastar pela estrada da vida a dois, mas que, tristemente, ainda não sabem. Espada, por sua vez, é a sentença de morte, que já está posta, em algum lugar do futuro-próximo, pois, não tenha dúvidas, mais dias menos dias, um dos dois cônjuges será “decapitado” ou, quem sabe até, ambos!

Tentando encontrar alternativas para minimizar estes problemas, adotamos, em nossa denominação, o costume de, antes do casamento, termos alguns encontros com o casal para avaliar as motivações e o estado de ânimo em que eles se encontram. Normalmente esta iniciativa ajuda os noivos com questões pendentes, detalhes da cerimônia e, às vezes, até na solução de problemas. Pois bem, é justamente aí que, não raras vezes, já começo a perceber o cheiro de “angu queimado”... É que não é difícil discernir um relacionamento adoecido, mesmo tratando-se do primeiro encontro. Muitas vezes, uma simples conversa é capaz de revelar marcas e medos que só se fazem presentes em relações que foram vitimadas por enormes desgastes.

Diante de tais circunstâncias, a impressão que tenho é que a separação já aconteceu, não obstante o casamento ainda não ter sido realizado, ou seja, o casal já está separado, antes mesmo de se separar, só que ainda não está percebendo. Talvez, justamente por isso, é que exista uma certa expectativa mística em torno da cerimônia de matrimônio, como se o ato religioso pudesse produzir um efeito milagroso capaz de mudar realidades interiores.

Luzes, Câmera, Ação e Decepção!

Eu casei em 1991, numa cerimônia simples, à beira de uma piscina, no entardecer do mês de dezembro. De lá para cá, vi o sacramento se transformar num verdadeiro business. Hoje, casar como “manda o figurino”, é coisa dispendiosa e extremamente complexa. Para realizar a festa, prepare-se para gastar dinheiro, algumas dezenas de milhares de reais, e arregace as mangas, pois os preparativos começam com, pelo menos, um ano de antecedência.

Planejamento é a chave do “sucesso”! A coisa é tão organizada que possui até planilha de custos. Nela estão incluídos itens como: local, decoração, maquiagem, filmagem, sonorização, orquestra, bufet, iluminação, convites, dentre outros. Uma festa de casamento, realmente organizada, pode chegar a contar com uma equipe de até 40 pessoas trabalhando, pois, lembre-se: tudo precisa ser perfeito para que o evento seja inesquecível!

Olhando para este cenário, acho intrigante o fato de alguns casais desejarem se casar no religioso. A questão é simples: se eles não possuem um relacionamento com Deus, não estão dispostos a conhecer Sua vontade, não discernem os princípios das Escrituras, nem muito menos os valores intrínsecos à fé, por que, então, querem realizar tal ato? Se são apenas praticantes da religião institucional, hereditária e nominal, por que desejam o sacramento?

Ora, eu penso que quando esses pressupostos não se estabelecem como verdade nos “ambientes interiores”, de tal forma que o que se exteriorize seja apenas a significação do que já acontece no íntimo do ser, o que está sendo feito é apenas uma encenação social. É um enorme equívoco acharmos que algo possa ser sagrado sem proceder do coração, pois sagrado é tudo aquilo que reverencia a Deus no íntimo, e vaza pela vida em expressões de fé e gratidão. Tudo o mais é liturgia oca e sem propósito, é apenas o badalar do címbalo que retine, mas que não produz música para acalentar a alma, nem a alegria desejosa e amante que apaixona os apaixonados.

Remendo Novo em Vestido Velho?

Outra questão que avilta ainda mais o paradoxo está no fato de que, nas Escrituras, casamento sempre foi algo totalmente diferente do que aí está posto. Matrimônio, do ponto de vista bíblico, é algo simples, familiar, despretensioso, sem implicações regulamentares que possam ir além do pacto de amor e fidelidade entre os que se amam. A verdade é que a evolução sociológica da instituição do casamento acabou dessignificando por completo o ato diante de Deus e, porque não dizer, até mesmo diante dos homens.

Fato mesmo é que essa cerimônia de ritos e pompas é apenas a projeção dos plebeus acerca do casamento dos nobres. Festa com trombetas, véu, grinalda, entrada triunfal – já vi uma até com tiro de canhão – padrinhos e madrinhas, págens, corais, e a “corte” assistindo, como diz o Caio, é a simbolização dos casamentos de príncipes e princesas da Idade Média. Ora, convenhamos, você não acha que fica meio ridículo nós, descendentes de índios tupiniquins, querermos aparentar a sofisticação da burguesia européia?

O que tenho visto, na prática, é que os noivos pensam em tudo, até numa assessoria para ajudar na preparação do feito apoteótico, gastam “aos tubos”, chamam os amigos, parentes, aderentes, mas não possuem qualquer entendimento daquilo que Deus deseja que se realize. Eu não sou contra a festa, mas sou contra toda festa que aconteça apenas para fora, e não parta das dinâmicas que acontecem do lado de dentro, onde apenas Deus pode, de fato, fazer soar a música e brotar a alegria. Já vi casamento em que os noivos, ao apresentarem a lista das canções, sequer incluíram uma que fosse para adorar a Deus! Ora, se Deus é apenas adereço, por que então não assumir isso e fazer uma cerimônia apenas social? Não seria mais honesto?

Por isso, não raras vezes, sinto-me como se fosse uma espécie de “vela de altar”, ou seja, apenas um enfeite a mais na belíssima e requintada festa. E logo eu, branco do jeito que sou e vestido com vestes clericais, para vela, só fica faltando o fogo! Ora, se eu, que sou pó e poeira, me sinto meio sem sentido naquele altar, imagina, então, como não se sente aquEle que significa não só o altar, mas também a cerimônia, o sacramento, o casamento e a vida? Triste, não? E eu ainda tenho que ficar esperando, rindo e achando bom, às vezes mais de hora, a beldade da noiva chegar... Vá ser pastor! E o salário, ó!!

Depois de tudo isso, do esvaziamento dos significados da festa, do empobrecimento dos valores da cerimônia, da banalização dos preceitos do sagrado, o casal ainda deseja que Deus saia da igreja juntinho com eles, se possível, de mãos dadas com os pombinhos. Imaginam, equivocadamente, que a benção do Senhor se estabelecerá, de forma mágica, sobre as suas vidas pelo resto de seus dias, e isso sem qualquer perspectiva de mudanças posteriores. Ah, meu bom, me poupe! Não dá dois anos! Sim, esse é o tempo médio de muitos casamentos em nossos dias. É só a crise chegar, seja de que natureza for, para aquele “endless love” sair voando pela janela.

Cenas dos Próximos Capítulos

O que vem a seguir, todavia, seria hilário, não fosse trágico. O casal, mergulhado numa crise sem fim, perdido de Deus e de si mesmos, depois das luzes, cores e brilhos da festa terem se apagado, e a dura realidade da rotina e das contas a pagar ter chegado, tem ainda que aturar o coro desafinado da “moçada” da religião que, diante do infortúnio, tem a petulância de protestar em alto e bom tom: “O que Deus uniu não o separe o homem”. Mc. 10:9.

Cabe, aqui, perguntar: que tipo de entendimento temos sobre esta passagem? Será que ela trata do fato de ter Deus decidido, de forma unilateral e determinista, quem deva ser o nosso par na existência? Que a escolha foi dEle, e não nossa? Que Ele é uma espécie de deus grego que, com arco e flexa na mão, feito um cupido irresponsável, sai flexando as pessoas para obrigá-las a viver juntas para sempre? Me perdoe, mas eu não creio nisso. Não creio que Deus faça tal escolha nem por mim nem por você, como também não creio, por exemplo, que Ele escolha nossa profissão.

A coisa fica ainda pior quando se acrescenta a esse fatalismo-místico, exposto acima, uma analogia bíblica explicitamente legalista, baseada numa exegese tendenciosa e preconceituosa. Desta perspectiva, Jesus estabelece que a separação conjugal produz um estado de total impossibilidade de reconstrução da vida a dois, a não ser que tenha ocorrido um caso de adultério. Em tais circunstâncias, ficaria, então, “legalizado”, o direito a novas núpcias. Bizarro! Não parece ter nada a ver com a forma como o Galileu lidava com os dramas da vida. Sempre achei essa linha de interpretação muito perigosa, pois ela coloca na mente e na boca de Jesus conceitos e palavras que Ele pode, jamais, ter Se prestado a defender.

No mesmo contexto, também acho absurdo os que reconhecem a responsabilidade pela escolha conjugal que fizeram, mas, em paralelo afirmam que, a partir do momento que foram ao “altar-mágico” da igreja, Deus tomou parte no processo e, por conta disso, passa a obrigá-los ao convívio marital pelo resto da vida, mesmo quando fica claro que a decisão tomada foi totalmente equivocada. A conseqüência óbvia de tal pré-disposição é que o casal, por medo das supostas reprimendas do Altíssimo, permanece casado no papel, mas completamente separado no coração.

Para mim, todavia, ainda há algo mais impensável: os que em meio a uma relação claramente desprovida de sentido existencial, acabam torcendo, às vezes inconscientemente, para que o cônjuge, ou morra – que Deus o tenha! – ou adultere. A explicação para algo tão adoecido é simples: em ambos os casos, tanto a “letra morta” das Escrituras, quanto os “homens do sagrado” poderiam fornecer à devida “legalidade” institucional para chancelar a autorização que o pobre infeliz necessita para contrair a tão sonhada nova núpcia. É muita doideira!

Eu não creio, em se tratando de casamento, que Deus faça escolhas por nós nem, muito menos, que nos obrigue a viver com as decisões equivocadas que tomamos pelo resto da vida. Creio, sim, que Ele abençoa toda escolha que é feita levando-se em consideração os Seus princípios. É isso que entendo quando leio o texto “ o que Deus uniu não o separe o homem”, que tudo aquilo que foi feito em fé e calcado em valores e verdades, é algo realizado da perspectiva de Deus, e, por conta disso, o homem não deve desfazer. Sobre os que agem de tal forma, penso, repousa, ainda que em meio a lutas e dores, a paz que apazigua toda desconstrução interior. É isso que dá consistência a liga da qual é feito o “cordão de três dobras”, que não se rompe com facilidade, pois é o próprio Deus quem o mantém como uma corda de amor capaz de sustentar o relacionamento dos que nEle se amam.

Conclusão

Sinceramente, não creio ser possível construir um caminho existencial a dois, de forma sólida e séria, sem levar em consideração cada uma das questões aqui expostas. Se desejamos apenas cumprir os “códigos” da religião, sem atentar para a necessidade de haver pressupostos no coração, devemos ter claro o fato de que, em se tratando de casamento, poderemos até realizar uma bela festa, repleta de ritos sagrados, mas que, em sua essência, estará esvaziada da presença do Sagrado, que é o que dá sentido e significado ao rito.

E mais, o que tenho visto é que, quando o relacionamento não foi construído da maneira correta, antes das núpcias, acaba potencializando as chances de replicar as mesmas questões para a vida de casado, que passará, então, a acumular os desgastes do namoro e do noivado com os novos problemas da vida conjugal. Relacionamentos afetivos precisam de profilaxia, ou seja: cuidados diários, investimentos constantes e tratamento, quando necessário. Se isso não for observado, pode aguardar, pois, provavelmente, a tragédia está a caminho...

Por outro lado e, como mamãe dizia, às vezes “é melhor está só do que mal acompanhado”. Sim, tenho visto muitas experiências de solidão que, quando processadas pelo solitário de forma reverente consigo mesmo, acabam gerando desdobramentos existenciais extraordinários. Pessoas sozinhas tendem a crescer mais para dentro do que para fora. Este tipo de experimentação equilibra o corpo, aquieta o espírito, e produz paz e bem para a alma. Corrobora comigo o pensamento de Fernando Pessoa quando afirma: “a liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo”.

Sendo bem pragmático, creio haver mais chances para o solteirão solitário, que experimentou estes matizes interiores, construir um relacionamento duradouro, do que para o conquistador compulsivo, de sentimentos “reciclados”, ávido por relações de alto risco, estabelecer um convívio sustentável. Portanto, prefiro quem experimenta a liberdade de estar só, do que quem se “amarra” a uma companhia indesejável, mesmo que pela via do “sagrado” matrimônio.

Se você me convidar para realizar o seu casamento, certamente, fá-lo-ei com muito prazer. Ficarei ainda mais feliz se perceber que você discerniu o que está no “coração de Deus” e, por conta disso, tem buscado honrá-lo, não apenas no dia da festa, mas em todos os dias de sua vida.

Quanto à cerimônia, quero apenas lhe pedir um favor: se você for atrasar muito, não esqueça de me ligar antes, pois, nesse caso, não precisarei ficar em pé no altar, todo paramentado, suando feito “tirador de espírito”, rindo sem motivos para centenas de convidados que, impacientemente, estão esperando. Lembre-se: nem sempre as pessoas estão num dia bom e, se esse for o meu caso, para seu azar, posso também prolongar a liturgia do ato pelo mesmo tempo que você me fez esperar, horas a fio, pois, creia-me, é mais fácil tirar uma chupeta da boca de uma criança chorando, do que um microfone da mão de um pastor com desejo de pregar.

Sola Gratia !

Carlos Moreira

Perdão, a Faxina da Alma


O perdão é a cura das memórias, a assepsia do coração, a faxina da alma. O perdão é uma necessidade vital e uma condição indispensável para termos uma vida em paz com Deus, com nós mesmos e com o próximo. Uma vez que somos falhos e pecadores, estamos sujeitos a erros. Por essa razão, temos motivos de queixas uns contra os outros. As pessoas nos decepcionam e nós decepcionamos as pessoas.

É impossível termos uma vida cristã saudável sem o exercício do perdão. Quem não perdoa não pode adorar a Deus nem mesmo trazer sua oferta ao altar. Quem não perdoa tem suas orações interrompidas e nem mesmo pode receber o perdão de Deus. Quem não perdoa adoece física, emocional e espiritualmente. Quem não perdoa é entregue aos verdugos da consciência. O perdão, portanto, não é uma opção para o crente, mas uma necessidade imperativa.

O perdão é uma questão de bom senso. Quando nutrimos mágoa no coração, tornamo-nos escravos do ressentimento. A amargura alastra em nós suas raízes e produz dois frutos malditos: a perturbação e a contaminação. Uma pessoa magoada vive perturbada e ainda contamina as pessoas à sua volta. Quando guardamos algum ranço no coração e nutrimos mágoa por alguém, acabamos convivendo com essa pessoa de forma ininterrupta. Se vamos descansar, essa pessoa torna-se o nosso pesadelo. Se vamos nos assentar para tomar uma refeição, essa pessoa tira o nosso apetite. Se nosso propósito é sair de férias com a família, essa pessoa pega carona conosco e estraga as nossas férias. Por essa razão, perdoar não é apenas uma questão imperativa, mas, também, uma atitude de bom senso. O perdão alivia a bagagem, tira o fardo das costas e terapeutiza a alma.

Mas, o que é perdão? Perdão é alforriar o ofensor. Perdoar é não cobrar nem revidar a ofensa recebida. O perdão não exige justiça; exerce misericórdia. O perdão não faz registro das mágoas. Perdoar é lembrar sem sentir dor.

Até quando devemos perdoar? A Bíblia nos diz que devemos perdoar assim como Deus em Cristo nos perdoou. Devemos perdoar de forma ilimitada e incondicional. Devemos perdoar não apenas até sete vezes, mas até setenta vezes sete.

Por que devemos perdoar? Porque fomos perdoados por Deus. Os perdoados precisam ser perdoadores. No céu só entra aqueles que foram perdoados; e se não perdoarmos, não poderemos ser perdoados. Logo, todo crente em Cristo precisa praticar o perdão.

Quem deve tomar iniciativa no ato do perdão? Jesus disse que se nos lembrarmos que nosso irmão tem alguma coisa contra nós, devemos ir a ele. Não importa se somos o ofensor ou o ofendido. Sempre devemos tomar a iniciativa, e isso com humildade e espírito de mansidão. Precisamos entender que o tempo nem o silêncio são evidências de perdão. É preciso o confronto em amor. Há muitas pessoas doentes emocionalmente porque não liberam perdão. Há muitas pessoas fracas espiritualmente porque não têm a humildade de pedir e conceder perdão. Precisamos quebrar esses grilhões, a fim de vivermos a plenitude da liberdade cristã.

O perdão é a manifestação da graça de Deus em nós. Se nos afastarmos de Deus, nosso coração torna-se insensível. Porém, se nos aproximarmos de Deus, ele mesmo nos move e nos capacita a perdoar assim como ele em Cristo nos perdoou.


Rev. Hernandes Dias Lopes

Dez Coisas tão Simples Quanto Essenciais a Vida


1.Nunca descreia do poder do amor, ainda que você demore muito a ver os resultados;

2.Não tema pedir em oração, pois o Pai tem prazer em nos ouvir pedindo em fé confiante; mas lembre que Deus não está preso à oração, posto que somente nos atenda naquilo que Ele, como Pai, não julgue que nos fará mal;

3.Leia as Escrituras, especialmente a parte chamada de Novo Testamento; pois toda pessoa que, tendo tal chance, não a use, demonstra que não deseja mesmo conhecer a Deus; posto que seja pela leitura da Palavra que melhor se possa discernir a vontade de Deus;

4.Exercite-se na dadivosidade e na generosidade, pois por tais exercícios seu coração se manterá sóbrio em relação a dinheiro e poder;

5.Nunca fuja de uma necessidade humana que você possa ajudar a resolver... Seria como fugir de Jesus;

6.Fuja do pensamento malicioso. Seja sábio e sóbrio, mas não olhe com malicia, posto que o olhar malicioso corrompa todo o seu ser;

7.Cuidado com todas as raízes perversas... Sim, cuide de seu coração para que nele não cresçam as raízes da inveja, da amargura, da arrogância ou da auto-vitimização; pois essas são as piores raízes a serem deixadas vivas no chão do ser;

8.Nunca se sinta importante, pois tiraria toda a sua naturalidade de ser e viver...; além de que tal sentir é a ladeira para o abismo;

9.Nunca fuja de nenhuma verdade sobre você ou sobre quem você ame; pois, por tal evasão perde-se o discernimento e mergulha-se o ser no escafandro do auto-engano no fundo de um mar de rochas... Além disso, quem determina um auto-engano no pouco, esse será enganado no muito;

10.Ame a Deus e ao próximo; e não existirá lugar para ídolos em seu coração.


Estas são coisas simples e vitais... E aqueles que as seguem sempre são bem-sucedidos em tudo o que fazem; posto que seu fluxo de energia decorra da fonte do que é em Deus.

Cáio Fábio

24 agosto 2009

Perfeição e Proteção


Entre as patologias que a religião produz, a mais grave tem a ver com neurose. Os seres humanos vivem iludidos com a possibilidade de construir um mundo arredondado, previsível, sem percalços. Imaginam trazer as contingências existenciais sob controle; fantasiam encabrestar leis físicas, metafísicas, espirituais, esotéricas, cármicas, qualquer uma, para afugentar o mal e atrair o bem.

Os que acreditam em um Deus títere, que enlaçou cordões nos dedos para manipular o mundo, nem precisam dominar leis, basta ganhar o favor divino; quem conquista a simpatia celestial, vira preferido. “Deus fará qualquer coisa para deixar a vida dos seus filhos isenta de sobressaltos”, prometem. “E se por algum motivo acontecer imprevisto, basta orar com fé; Deus, que permitiu doença ou acidente, vingará seu nome com um livramento sobrenatural”.

Os sistemas religiosos monoteístas se fortalecem com esse discurso; discurso de quem conhece o segredo de agradar a Divindade. “Obedeça, cumpra, sacrifique, humilhe-se e seja bonzinho segundo a nossa prescrição e o Senhor lhe sorrirá; a sua vida vai aprumar-se”.

Israel tentou; seus líderes se revezaram para homogeneizar as ações do povo. Tudo era feito para escapar de exércitos poderosos, de epidemias que assolavam o mundo antigo, de gafanhotos na lavoura, de infertilidade feminina (os homens nunca eram responsabilizados quando as mulheres não engravidavam).

Porém, os esforços empacavam. Bastava um sair da risca para desabar a idéia da nação impecável. Abraão mentiu. Ló tomou um porre. Moisés, intempestivo, assassinou. Acã afanou o que não devia. A lista de personagens que jogaram na lata do lixo a possibilidade da recompensa por bom comportamento é longuíssima.

Buscar uma humanidade perfeita com o intuito de acabar com o sofrimento, não funciona. Homens e mulheres serão sempre sombras e luzes. Bem e mal, duas palavras que zunem como golpe de espada, também expressam a riqueza da virtude. Acabar com a ambiguidade, que mora na alma, aniquila a criatividade humana. A pedagogia que conduz à maturidade precisa acolher erro, deslizes, inadequação.

Deus não desejou criar gente absolutamente previsível, pateticamente conformada às suas leis. Ele criou para que aprendêssemos a trabalhar o vai-e-vem do coração; hora, doce, hora, amargo. Ele espera que descubramos, nas excursões para o interior da alma, a riqueza do eterno vir-a-ser.

Soli Deo Gloria

Ricardo Gondim

20 agosto 2009

Tratado Sobre Unidade?


João 17…

Não adianta fazer força, pois, unidade entre pessoas, genuína unidade, fruto de amor e tolerância, não se manifesta pela força do homem, embora seja simples como respirar...; isto quando se respira amor de Deus.

Jesus não deu um método e nem postulou uma Unidade Oficial ou Institucional.

Não havia tal coisa...

Os que ouviram Jesus sabiam que Unidade era o mesmo que amor em exercício, com todas as suas implicações...

E mais:

Os que ouviram Jesus dizer tais palavras sabiam que se Ele não vivesse neles... tudo aquilo seria totalmente impossível...

Afinal, com Jesus entre eles..., eles ainda brigavam... Imagine só eles sem Jesus, mas fazendo tudo em nome de Jesus, e sem o amor de Jesus em seus corações — o que sobraria da experiência se não aquilo que hoje chamamos de “Cristianismo” e de “Igreja”?...

Sim, nesse sentido o “Cristianismo” é coerente consigo mesmo e com sua fundação no Século IV da “Era Cristã”...

Digo isto porque o “Cristianismo” é a tentativa de organizar a fé sobre bases e fundamentos humanos de poder, de institucionalidade e de intelectualidade capaz de explicar Deus e demonstrar a superioridade da tese cristã sobre o resto da humanidade perdida...

Jesus, todavia, disse que a Unidade a qual Ele fazia referencia era um milagre...

Sim, teria e tem a ver apenas com aquilo que Ele pediu ao Pai: “Eu neles; tu em mim; eles em nós; para que sejam aperfeiçoados na unidade”...

E disse que a única apologia que o Evangelho teria no mundo seria a do poder e da evidencia simples do amor!...

Ora, tal realidade ganha contornos objetivos e históricos na manifestação do amor, e apenas do amor; pois, do contrário, tudo mais que se crie é confraria, é maçonaria, é clube santo, é “igreja”, é o que se tem visto... — e que é tudo, menos manifestação de amor no mundo, e, menos ainda, pelo mundo...

Entretanto, tal Unidade não espera acontecer...

Quem ama e vive com Ele, Nele, e Ele no Pai — esse não espera encontrar comunhão intelectual com ninguém, mas, sobretudo, busca servir, não importando a identificação...

Sim, pois tal Unidade se baseia em amor e não em acordo de opiniões...

Se o outro conhece o Senhor mesmo, a unidade acontece como a vida ou como o nascimento... Se, porém, o outro não conhece o Senhor, será mesmo assim e, sobretudo, servido...; pois amor tem como seu Dogma único o servir e o se dar...

Assim, onde há amor, há unidade; e onde não há amor, pode-se ter tudo, inclusive acordo doutrinário, mas jamais haverá unidade segundo Deus.

Ora, a grande manifestação do amor que testemunha a unidade no mundo e entre os homens somente é de serviço...

Sim, o que Jesus chamou de Igreja teria e tem que ser o povo do amor em serviço, uns pelos outros e pelo mundo inteiro...

Mas a “Igreja” não quer servir, quer ser servida; não quer amar, quer ser amada; não acredita no silencio esmagador das obras de amor, mas apenas em discursos; não pode nem mesmo se imaginar servindo aos pagãos da Terra, mas apenas sonha com os pagãos em submissão à “igreja”...

Desse modo, com tal espírito, com esse animo de “Alexandre, o Grande”, com essa vontade soberana dos Casares, com esse fervor mulçumano fundamentalista, e com esse surto de importância histórica que assomou a “igreja”—o resultado tem que ser o que foi e o que é; posto que não haja em tal “igreja” nada do Espírito de Jesus, nada do Servo de Todos, nada daquele que disse que nossa vida seria entregá-la todos os dias, em amor e serviço à vida e ao mundo perdido...

Toda tentativa humana de unidade apenas acentua as diferenças e abisma os homens...

Sim, pois Unidade é apenas unidade... — e isso só nasce do amor que não faz perguntas, mas apenas se dá como Jesus se Deus...

Agora leia João 17 e veja que a suma de tudo é o que está dito acima!



Nele, que não escreveu um Tratado sobre Unidade, mas ensinou o caminho do amor,

Caio Fábio

Os Profetas


Os profetas marcaram a história judaica por se oporem ao cerimonialismo religioso sustentado pela lógica sacrificial e pelo peleguismo sacerdotal. Eles forneceram conteúdos éticos à consciência política e ao tecido social. Os profetas encararam o rei para defender viúvas pobres. Amargaram a pobreza para denunciar desvios morais entre o povo.

Os profetas eram moscas que atrapalhavam a sala do perfumista corrupto; suas palavras, martelos que despedaçavam corações de pedra; seus olhos, faíscas do fogo consumidor da justiça. Se vidas corriam perigo, não temiam descer em fossas fétidas. Não havia dinheiro que os comprasse. Os profetas desmascaravam personagens que ritualizavam a espiritualidade, desdouravam promessas de paz e caminhavam na contramão do sucesso.

Os profetas detectavam os blefes do jogo do poder. De dedo em riste, saiam do palácio para clamar no deserto. Mesmo sabendo que não seriam ouvidos, insistiam em prenunciar os despenhadeiros que a falta de amor abria. Prometiam trevas pela falta de ética e morte pelo egoismo. Desprezados em vida, precisaram esperar que o futuro lhes desse razão. Mas mesmo assim perseveram sob ameaça de assassinato e ostracismo.

Os profetas sentiram as dores divinas. Percebendo que a história descambava, se colocavam na brecha. Vendo que os acontecimentos fugiam do controle divino, vociferavam maldições. Os profetas sofriam, indignados com a banalização da vida e com a morte desnecessária de inocentes. Mais que porta-vozes do além, encarnavam o coração paterno de Deus.

Os profetas foram sentinelas nas muralhas que protegiam as cidades, bússulas na incipiente ética primitiva, faróis da esperança futura. Israel deve a eles sua permanência histórica mesmo tendo sido considerado uma Sodoma e se mostrado mais vil que os povos inumanos que o rodeavam. O judeu só não desapareceu como esterco da história devido a Isaías, Ezequiel, Oséias e outros.

Os profetas continuam necessários. Sem eles, as pedras clamam, Deus não fala, o futuro inexiste, toda a perspectiva se esgarça e o inferno se viabiliza. Nunca se precisou tanto deles, principalmente, agora, nesse protestantismo cooptado pelo mercado e instrumentalizado pela ganância.

Soli Deo Gloria

Ricardo Gondim

18 agosto 2009

O Deus que Age Fora de Nossos Arraiais


O Deus que age fora dos nossos arraiais Para começarmos nossa presente discussão, gostaria de compartilhar duas composições de duas bandas que começaram suas atividades nos anos 70. A primeira letra diz o seguinte:


Você já pensou sobre sua alma / Será que ela pode ser salva? / Ou talvez você pense que quando estiver morto / Você vai simplesmente ficar no túmulo / Deus é só um pensamento na sua cabeça / Ou ele é uma parte de você? / Cristo é só um nome que você leu em um livro / Quando você estava na escola? / Quando você pensa na morte, você perde o fôlego / Ou fica tranqüilo? / Você gostaria de ver o papa enforcado? / Você acha que ele é bobo? / Bem, eu vi a verdade, sim, eu vi a luz / E mudei o meu caminho / E estarei preparado quando você estiver sozinho e assustado / No fim de nossos dias / Será que você ficaria com medo do que seus amigos poderiam dizer / Se eles soubessem que você crê no Deus Altíssimo? / Eles compreenderiam antes de criticar / Que Jesus é o único caminho para o amor / Sua mente é tão pequena que você tem que desabar / Com a sua turma por onde quer que você corra? / Você ainda zomba quando a morte se aproxima / E diz que eles podem muito bem adorar o sol? / Acho que é verdade que foi gente como você / Que crucificou a Cristo / Acho triste que a sua opinião / Tenha sido a única levada em consideração / Você estará tão certo quando o seu dia chegar / Ao dizer que não crê? / Você teve a chance, mas você a jogou fora / Agora você não pode reavê-la / Talvez você pense antes de dizer que / Deus está morto e enterrado / Abra seus olhos e entenda que Ele é o Único / O Único que pode salvar você de todo este pecado e ódio / Ou você ainda zomba de tudo o que ouve? / Sim, acho que é tarde demais.


É bem interessante. Agora, vejamos a segunda composição:


Eu O vi na multidão / Um monte de gente se reuniu ao redor dEle / Os mendigos gritavam e os leprosos O chamavam / O velho não disse nada / Apenas ficou fitando-O / Todos estão indo ver o Senhor Jesus / Então chegou um homem que caiu perante Seus pés / Impuro, disse o leproso, e tocou o seu sino / Sentiu a palma de uma mão tocar sua cabeça / Vá, vá, você é um novo homem / Todos estão indo ver o Senhor Jesus / Tudo começou com três sábios / que seguiram uma estrela que os guiou até Belém / E fizeram com que isso fosse conhecido em toda a terra / O líder dos homens nasceu / Todos estão indo ver o Senhor Jesus


A primeira letra parece ser de alguma banda evangélica que confronta, face a face, a obstinação do pecador em recusar a oferta salvífica de Cristo. A segunda letra parece ser de alguma banda de louvor e adoração que resolveu retratar algum episódio bíblico, convidando ao ouvinte a também seguir o Senhor.


A banda responsável pela primeira letra ficou conhecida como a primeira banda de heavy metal da história. O seu nome é derivado de rituais de magia negra. É o Black Sabbath.


Já a banda responsável pela segunda letra ficou conhecida pela alta qualidade de sua música, que misturava rock com componentes progressivos e orquestrais, e pela teatralidade de seu vocalista. O nome da banda é uma antiga gíria para designar homossexual. Estamos falando do Queen.


Não é estranho que Black Sabbath e Queen fossem capazes de produzir músicas de conteúdo espiritual tão profundos e tão belos? Não é de se estranhar que, segundo a mentalidade evangélica segregacionalista e auto-centrada de hoje em dia, pessoas notoriamente contrárias à fé cristã falarem tão abertamente da realidade do Reino de Deus?


Estranhamos pelo fato de sofrermos da mesma miopia religiosa dos judeus do tempo de Jesus, que ficaram bravos quando Ele disse que Naamã, general sírio, havia sido curado de sua lepra por Deus, mesmo havendo tantos israelitas contemporâneos ao ele padecendo da mesma enfermidade (Lc 4.27). Estranhamos pelo fato de não compreendermos o que significa Graça Comum e imagem de Deus.


O que é Graça Comum?


Graça é o favor de Deus que nós não merecemos. É o Seu amor por nós, pecadores. Deus nos ama a ponto de enviar Seu Filho para morrer em nosso lugar naquela cruz. Mas Graça não é apenas isso.


A Graça de Deus também faz com que o mundo em que vivemos não se torne insuportável. A Graça de Deus manda chuva e sol, estações chuvosas e estações secas, frio e calor, sobre pessoas tementes a Ele e sobre pessoas que O rejeitam de modo completo . A Graça de Deus faz com que o homem não-regenerado saiba que, mesmo no seu mais profundo íntimo, existe o certo e o errado . A Graça de Deus, derramada sobre a Criação, sustentando-a, é designada Graça Comum.


Imagem e semelhança de Deus


Outro aspecto que negligenciamos é a doutrina da imagem de Deus. Como evangélicos, tendemos a pensar em todas as coisas de uma maneira maniqueísta: espiritual x material. Assim, temos dificuldade em entender o homem como imagem de Deus sem relacionar este fato com a sua espiritualidade, ou melhor, com sua filiação denominacional.


Ainda que o homem seja pecador, ele carrega em si uma identidade com o Criador. Tal identidade, a imagem e a semelhança – os dois termos são usados como sinônimos – faz com que ele seja distinto do restante da Criação.


Um mero animal não faz escolhas baseadas em um senso de justiça. Um animal não chega a conclusões lógicas baseadas em um pensamento abstrato. Os animais inferiores estão presos aos seus instintos, mas o homem possui a liberdade moral, ainda que limitada. Enfim, um animal não possui a capacidade de se encantar com a Ária na corda Sol de Bach, apreciar algum quadro de Salvador Dalí, se divertir lendo textos de Luís Fernando Veríssimo ou se entreter com algum filme hollywoodiano.


Tais características – senso de justiça, raciocínio lógico, espiritualidade e senso de estética – são o que teólogos classificam como imagem de Deus.


Obviamente que tal imagem foi seriamente prejudicada pelo pecado. Se, antes da Queda, poderíamos ver a assinatura de Deus na natureza, hoje, só podemos ter consciência de Deus e de nossa necessidade dEle através Palavra.


Manifestações culturais


Cristo pode ser manifesto na cultura, não sendo um produto dela, e nem estar contra ela. A soberania de Deus se estende em toda a Sua Criação; Ele não está restrito aos evangélicos apenas.


Grandes obras de nossa literatura contemporânea, como O Senhor dos Anéis e As Crônicas de Nárnia, apresentam a realidade do Evangelho de maneira implícita, lançando mão de elementos culturais europeus arcaicos e mitológicos. Embora os seus autores fossem cristãos – J. R. R. Tolkien e C. S. Lewis – não foram superficiais em seus trabalhos escritos, usando elementos religiosos cristãos. Podemos ver a figura de Jesus em Gandalf e em Aslam, o que nos mostra que Cristo pode se apresentar na cultura, ainda que esta não seja explicitamente cristã. E isto se deve à imagem de Deus no homem – ainda que não-regenerado – e à Graça Comum.

Texto extraído do Blog do Digão [dica do Pavablog]

17 agosto 2009

Produtos cristãos movimentam R$ 137 bilhões


Os bonecos de Jesus Cristo, Sansão e Davi entram num mercado que movimenta 75 bilhões de dólares por ano no mundo (R$ 137 bilhões).

Os produtos fazem parte de um setor que cresce ano a ano: o da linha cristã, que inclui infinidade de artigos alusivos à fé. Em 2006, este ramo comercializou 4,6 bilhões de dólares só nos Estados Unidos.

Fonte: O Dia Online [via Fora da Zona do Conforto]

Não é à toa que tantos produtos seculares tem agora a sua versão gospel.
Já há pastores que interrompem seus cultos para oferecer produtos e serviços especiais aos fiéis.

Daqui há pouco os templos estarão cheios de outdoors espalhados por suas paredes.

Logo no início do culto, poderemos assistir no telão a um video que dirá: Este culto é um oferecimento de Coca-cola. E ao término de cada louvor, um minuto de comercial.

Será que estou sendo profético? Espero que não!

Hermes Fernandes via http://hermesfernandes.blogspot.com/

14 agosto 2009

Aquele Abraço!


Esta semana encontrei com um “irmão” que já há algum tempo não via... Conversamos rapidamente na rua. Perguntei sobre a família, o trabalho e a igreja... Aí, do meio do nada, ele me disse: “você soube o que aconteceu com o Pr. Fulano?”. E começou a fazer uma narrativa triste sobre o “desterro público” do dito cujo, totalmente desencontrada, presunçosa, preconceituosa, recoberta por julgamentos pré-concebidos, maldade, acidez, que, para mim, revelaram nada mais que uma enorme miséria interior e pobreza de espírito humano.

De fato, o citado fato é público e notório, mas o “desastre” iminente do “convalescente” é única e exclusivamente aparente, pois Deus não julga o homem por suas misérias exteriores, mas a partir das realidades existentes no seu coração e, sempre que ele deseja, o refaz em meio ao monturo de cinzas em que se encontra. Sim, basta um espírito contrito e um coração quebrantado para que se crie o “ambiente espiritual” capaz de gerar a centelha de consciência que produz o arrependimento que constrói o ser, desdobra-se numa fé conseqüente, cheia de gratidão reverente e boas obras.

Despedi-me do “amigo” apressadamente – a conversa me fazia mal – e saí pensativo pelo caminho... Cogitei: “é assim mesmo”, “a igreja mata os seus feridos”". Fiquei com medo! Imaginei que qualquer um, mais dias, menos dias, pode ser surpreendido na vida, experimentar uma tragédia existencial, e aí ser alvo de julgamentos precipitados, comentários maldosos, interpretações equivocadas... Pensei nas Escrituras: “ninguém aceite denúncia contra um presbítero, senão exclusivamente respaldada pelo depoimento de duas ou três testemunhas”.

Que inocência a minha... Admito tratar-se de uma tolice, pois a grande maioria dos “crentes” não conhece esse texto, os que pensam conhecer, não o seguem, e os que seguem, não percebem o “espírito” daquilo que ele propõe.

Se eu pudesse reescrever o capítulo 11 do livro de Hebreus, que fala dos Heróis da Fé, talvez produzisse um texto que certamente escandalizaria a muitos. É que, surpreendentemente, os “meus heróis” me ensinaram mais nos seus “fracassos”, do que nas suas “conquistas”. São homens e mulheres maravilhosos, que aprendi a amar e admirar no caminho da caminhada, pois eles impregnaram minha alma de ternura e me alimentaram o coração de ânimo para continuar a jornada. Alguns são muito conhecidos, mentores de longas datas, outros, todavia, são simples anônimos. Todos, entretanto, são marcantes!

Mas, para falar de herói, ou melhor, do que entendo ser um Herói da Fé, faz-se necessário estabelecer uma diferenciação imprescindível, pois, nos nossos dias, tal figura sofreu total dessignificação pela relativização de valores que são inegociáveis em se tratando da construção de um caminhar com Deus na Terra.

O termo herói, para a grande maioria dos “crentes”, e de muitos “colegas” “pastores”, está associado a uma caricatura estereotipada e medíocre de “ministro” “bem sucedido” na “igreja”, e isso designado a partir da análise simplista de elementos meramente aritméticos e cartesianos em seus míseros “ministérios”, e não por uma espiritualidade centrada, baseada em valores e conteúdos.

Gosto do Jorge Versilo, de sua música e poesia. Numas de suas canções, que fala do Homem Aranha, herói dos quadrinhos e do cinema, ele diz: “hoje o herói agüenta o peso das compras do mês. No telhado, ajeitando a antena da tevê. Acordado a noite inteira pra ninar bebê.”. A frase é intrigante porque desmantela aquele modelo de herói que, habitualmente, as pessoas estão acostumadas a ver, ou seja, um ser fantástico, que não sofre, não perde, não sente medo, dor nem contradições. Esse outro não! Esse é mais humano, palatável, real, comum, mais próximo de mim e de você.

Pois bem, é justamente assim que são para mim os Heróis da Fé do meu tempo. Gente comum, gente com história de vida, consciente, coerente e consequênte. Gente capaz de errar e concertar, “porque o cair é do homem, e o levantar é de Deus”. Cai-o-Paulo, cai-o-Saulo, Caio Fábio, caio-Eu, e quem não cai? Caímos todos nós! E quem não cair em si e de si mesmo não se levantará jamais para Deus, e nunca experimentará o significado que há no abraço do Pai que espera ansioso o retorno do filho arrependido, pois diz o texto que isto só se tornou possível quando ele, “caindo em si...”, teve a coragem de fazer o caminho de volta. Foi queda para dentro, para cima, mas nunca para baixo, para o nada, ou para o fim.

Herói para mim não é o cara que criou uma denominação com milhares de membros, e que têm milhares de processos em tribunais de todo País por causa de sua máquina de enganar pessoas e lavar dinheiro. Herói para mim não é o sujeito que tem um programa na TV, que passa mais tempo pedindo grana de “gente inocente”, e de outros que se deixam manipular, do que falando a verdade das Escrituras. Herói para mim não é o ministro que pendurou na parede seus diplomas universitários, seu mestrado ou doutorado em “divindade”, que qualquer menino bom de EBD pode tirar numa faculdade destas por aí.

Também não é aquele que se assentou no “pináculo do templo” de uma igreja de classe média, recebe um bom salário e ótimos benefícios, mas não tem a independência própria dos profetas para subir ao púlpito e dizer o que o povo precisa ouvir, e não o que ele quer, pois isto geraria reprimendas imediatas dos líderes da religião de sua denominação.

Herói para mim não são os que enchem os estádios e casas de espetáculos para fazer “shows gospel”, produzidos a partir do arquétipo dos espetáculos dos artistas seculares, fazendo malabarismos ridículos, onde o gelo seco, as luzes, os cenários, e todo tipo de artefato periférico e pirotécnico tenta produzir o que só a singeleza da fé que se associa a harmonia filha da música que procede do coração é capaz de realizar, ou seja, adoração. Catarse de uma meninada boba, estupefata pelo impacto visual da massa manipulada, qualquer “mané” pode realizar. Culto a Deus é outra coisa, não é “zoação”, para ter propósito e significados precisa ter comunhão, oração e partir do pão.

Quer saber o que é um Herói para mim? Herói é o pastor do interior, sem ajuda e sem apoio, sem modelos nem estratégias, que ainda insiste em todo domingo sair às ruas, mesmo que não seja da forma mais adequada ao nosso tempo e ao nosso mundo, para anunciar a salvação.

Heróis são os muitos pastores que sobrevivem com salários indignos, com suas famílias privadas de tudo, mas que ainda sonham em ver o Reino entre os homens.

Heróis são os que, de alguma forma “caíram”, e foram massacrados pela hipocrisia de uma “igreja” perversa e cega, e por líderes invejosos, que tratam gente como despojo, mas ainda continuam pregando o que sempre pregaram.

Heróis são os sobreviventes de “escândalos”, que foram expurgados de suas comunidades, humilhados em suas cidades, mas que ainda sonham em poder subir ao púlpito para expor aos perdidos o amor de Deus.

Heróis são os que vão aos seminários e institutos, e largam, às vezes, uma história inteira de vida, para poder dizer: “eis-me aqui, envia-me a mim”.

Diante de “gente” sórdida, que tem prazer em compartilhar a céu aberto a miséria de seus líderes, que quebra a cana esmagada e apaga a torcida que fumega, lembro o que escreveu o apóstolo Paulo: “Porque me parece que Deus nos colocou a nós, os apóstolos, em último lugar, como condenados à morte. Viemos a ser um espetáculo para o mundo, tanto diante de anjos como de homens. Nós somos loucos por causa de Cristo, mas vocês são sensatos em Cristo! Nós somos fracos, mas vocês são fortes! Vocês são respeitados, mas nós somos desprezados! Até agora estamos passando fome, sede e necessidade de roupas, estamos sendo tratados brutalmente, não temos residência certa e trabalhamos arduamente com nossas próprias mãos. Quando somos amaldiçoados, abençoamos; quando perseguidos, suportamos; quando caluniados, respondemos amavelmente. Até agora nos tornamos a escória da terra, o lixo do mundo”.

Mas para vocês, benditos do Senhor, Heróis da Fé, eu “tiro o meu chapéu”! Sim, eu os bendigo pelas noites ao pé da cama, orando sem cessar por gente como eu, que não sou digno de lhes desatar os laços do sapato. Obrigado pelas incontáveis horas debruçados sobre as Escrituras para trazer-nos palavras do coração do Pai. Obrigado pelos tantos momentos gastos em aconselhamentos, ouvindo as “dores do mundo”, sempre com olhar solidário e espírito generoso.

Obrigado pelos sacrifícios que fizeram em termos de família, por terem deixado muitas vezes filhos, mulher ou marido, para atender, não raro anônimos, que precisavam desesperadamente de um ombro para chorar.

Obrigado pelas viagens que fizeram, cansados, hospedados em hotéis, em casa de desconhecidos, longe de suas camas e do aconchego de seus cônjuges, para falar para gente que precisava de direção na vida. Obrigado por tudo!

Agradeço por que sei que quase ninguém os agradecerá! Agradeço porque sei que quando você for alvo de fofocas e destratos, tudo isto será relevado e considerado como coisa alguma, pois você será apenas um ser sem história, um alvo para as flechas dos famintos pela "justiça".

Finalmente, quero aqui desejar o meu abraço a todos vocês, meus Heróis, gente que me fez aprender a ser gente, que é muito mais e muito melhor do que ser “crente”.

Para você, Caio Fábio, amigo que nunca conheci, aquele abraço! A você Ricardo Gondim, aquele abraço! Ariovaldo Ramos, aquele abraço! A vocês, sacerdotes da música, Gerson Ortega, João Alexandre, Asaph Borba e Adhemar de Campos, aquele abraço! Aos meus bispos e amigos, Leonides Menezes e William Mikler, aquele abraço! Ao Paulo Garcia, aquele abraço! Karla Patriota, aquele abraço! Ao “paizão” Pedro Paulo Albuquerque e ao Mário Fagundes, aquele abraço! Ao amigo de todas as horas, Dinamérico Wanderley, aquele abraço! Carlos Alberto (Betão) – in memoriam – aquele abraço! Ao querido Aloísio Figueiredo, aquele abraço! Martorelli Dantas, precioso aos olhos do Senhor, aquele abraço!

E a você que eu não conheço, nunca vi, não sei quem é, nem onde está, mas que é um destes Heróis anônimos da fé, homem ou mulher, na capital ou no interior, seja em qual denominação for, que ama a Jesus e quer pregar o Evangelho, aquele abraço, pois, por sua causa, o “Reino de Deus continua lindo...”.

Querido amigo e companheiro da jornada, quero que você saiba que os seus acertos e erros, dramas e dores, o que aprendi e percebi em você, seja pelo conforto, seja pelo confronto, tem me proporcionado ser um ser humano melhor, um discípulo mais fiel, um pregador mais consciente e um pastor mais amoroso.

Obrigado por você existir, ser quem é, por sua família e ministério, pelo que já fez em prol da Igreja, e por tudo aquilo que ainda fará, pois, certamente, aquEle que é fiel em tudo, não esquecerá de retribuir-lhe em amor e graça toda a devoção com a qual você O tem servido todos estes anos.

A você, Herói da Fé do mundo moderno, Herói da Igreja do século XXI, minha gratidão por sua vida e minha reverência por sua alma!

Sola Gratia !

Carlos Moreira

Deus esteve em Woodstock


Há quarenta anos acontecia numa cidadezinha chamada Bethel, há 80 km de Woodstock, interior do estado de Nova York, o maior festival de Rock da história.

Meio milhão de jovens se reuniram entre 15 e 17 de agosto de 1969, para ouvir algumas das mais importantes bandas de rock da época, debaixo de muita chuva e em cima de muita lama.

Woodstock não foi apenas um festival de rock. Foi uma espécie de oficialização do rompimento daquela geração com os valores que norteavam a sociedade ocidental pós-guerra. No imaginário coletivo foi o momento e o lugar nos quais o inconformismo e a rebeldia de uma geração castigada pela Guerra do Vietnã se manifestaram plenamente.

Interessante que o nome Bethel nos remete ao lugar em que Jacó se encontrou com Deus pela primeira vez. Foi lá que ele, depois de ter fugido da casa de seus pais para não ser assassinado por seu raivoso irmão, viu o céu aberto, e anjos que transitavam entre o céu e a terra. A pedra que o patriarca usou como travesseiro, foi erigida como altar, e o lugar passou a ser chamado “casa de Deus” (Bethel, em hebraico).

Milhares de anos depois, uma multidão de jovens se reúne num lugar com o mesmo nome, para erigir um novo altar.

Na cultura semítica, altares eram erigidos como marcos, que identificavam o início de uma nova jornada, ou pelo menos, uma escala importante em uma jornada já começada.

A partir de Woodstock, aquela geração passou a enxergar o mundo dividido em dois grupos, “nós” e “eles”. E o pronome “eles” era aplicado principalmente aos pais.

O abismo entre gerações que antes era velado, e se dava de maneira discreta e quase silenciosa, agora tomava uma proporção inédita.

- Não queremos ser cúmplices do que vocês estão fazendo com o mundo! Diziam eles. - Queremos reinventar o mundo, sem guerras, sem fome, sem hipocrisia, onde impere a paz, o amor e o prazer.

Sem dúvida, aquela foi uma geração idealista e sonhadora. “Faça amor, não faça guerra” era o seu lema.

Mas naquele Bethel faltou o principal: A conexão com o Deus de Jacó!

No lugar de Deus, eles entronizaram outra trindade: droga, sexo e rock’n roll.

Quarenta anos depois, podemos verificar o que ficou de positivo ou negativo da rebeldia idealista da geração que contestou e mudou nossa visão do mundo.

Woodstock revelou ao mundo a força que tem a juventude. E talvez a maior glória daquela geração tenha sido arrancar os Estados Unidos do Vietnã. Seu exemplo repercute até hoje no ativismo em defesa do meio ambiente e de outras causas justas.

O jovem passou a ser visto como o centro do universo do consumo, o que até hoje pode ser verificado através do constante apelo publicitário direcionado a este público.

Infelizmente, aquele engajamento político e idealista não perdurou muito tempo. Aquela geração sequer conseguiu contagiar seus filhos com sua utopia. Por conta disso, as gerações seguintes perderam o interesse de mudar o mundo, voltando a priorizar a ascensão profissional e social.

As drogas que ingenuamente foram experimentadas como uma maneira de aguçar a percepção se tornaram instrumentos de fuga da realidade e de alienação. E o pior é que abriram a porta para o uso de drogas cada vez mais pesadas, cuja proliferação é a responsável pela difusão da criminalidade. O amor livre, antes pregado com orgulho e praticado sem o menor escrúpulo, revelou-se como promiscuidade, o que provocou um dos maiores pesadelos da juventude das décadas de 80 e 90: a Aids.

Até a música, antes usada para contestar, vendeu-se às grandes gravadoras e se tornou em mais um instrumento alienante da juventude.

Pelo que tudo indica, o sonho acabou.
Mas nem tudo está perdido. Deus está convidando a nossa geração para um reencontro em Bethel. Um Woodstock onde o lema “Paz e Amor” receba a inclusão da palavra “Graça”. Um lugar onde as gerações se reencontrem e celebrem a possibilidade de um novo mundo. Em vez de abrir-se um abismo entre gerações, construiremos uma ponte para interligá-las.

Jacó estava fugindo da realidade, imaginando que poderia romper com tudo, e começar uma nova história. Mas em Bethel, Deus lhe apareceu em sonho para dizer-lhe:

“Eu sou o Senhor, o Deus de Abraão, teu pai, e o Deus de Isaque. Esta terra em que estás deitado, eu a darei a ti e à tua descendência” (Gn.28:13).

Agora Jacó se via situado no tempo e no espaço. A ponte entre nós, as gerações que nos antecederam e as que nos sucederão só será possível se houver uma escada que nos ligue aos céus.

Na linguagem da geração Woodstock, Jacó teve o maior barato. Ele viu que havia uma ligação entre o céu e a terra. E é esta ligação que possibilita o ajuste entre nós, nossos contemporâneos, nossos antecessores e nossos sucessores.

Jacó, embasbacado com o que via, expressou-se: "Deus estava aqui e eu não sabia". Da mesma maneira, Deus estava em Woodstock naqueles três dias, mas ninguém ficou sabendo. Diz-se que algumas bandas como The Doors foram convidadas, mas preferiram não participar, achando que o festival seria um fiasco, por ser realizado num ambiente rural, em vez de no Central Park em Nova York. Tais bandas se arrependeram amargamente. Deus, mesmo não sendo convidado, fez questão de estar lá, conferindo in loco a angústia e os anseios daquela geração perdidamente sonhadora. Ele passeava entre os corpos nus e eslameados, compadecendo-Se de uma multidão que era como ovelhas sem pastor (Mt.9:36).

Sim, Deus esteve em Woodstock, mas não tocou alarde. Preferiu a discrição. Em outras, Ele simplesmente deixou rolar. E a chuva que enviou não foi com a intenção de estragar a festa, antes, representava a Sua incompreensível Graça. Pena que ninguém ficou sabendo. Janis Joplin e Jimi Hendrix morreram sem saber. Talvez se tivessem sabido, ainda estariam por aí, nos brindando com suas habilidades musicais.

Creio firmemente que um novo Woodstock precisa acontecer. Não me refiro ao festival em si, mas àquilo que representou para o mundo. A atual geração está passando por uma fermentação que resultará em algo vultuoso, com desdobramentos espirituais, sociais e culturais. A qualquer momento eclodirá o despertar de uma nova visão de mundo. Um Woodstock pleno, sem drogas, sem promiscuidade, mas com graça, paz e amor.

Hermes Fernandes via http://hermesfernandes.blogspot.com/

12 agosto 2009

Vem e Vê!


Para mim, Deus tem um estranho e maravilhoso senso de humor. Não raro, faz escolhas surpreendentes e toma decisões desconcertantes. Digo isto depois ter me debruçado durante anos sobre as Escrituras vendo nelas fatos curiosos e, por vezes, bizarros, punk mesmo! Pareço radical? Então veja a seguir uma “pitada” do que afirmei.

Deus fez a um homem amortecido pela idade, Abraão, casado com uma mulher estéril, a promessa de que seria pai de uma grande nação. Humor negro? Depois disto, apaixonou-se inexplicavelmente por Jacó, um trambiqueiro sem-vergonha, e aborreceu-se de seu irmão, Esaú, que, diga-se de passagem, era o primogênito. Não satisfeito com tudo isto, chamou Moisés, com nada menos que 80 anos, aposentado e palitando os dentes, criando galinha e cortando as unhas dos pés, para enfrentar o poderoso Faraó do Egito e ser protagonista da maior jornada do povo Hebreu. Aí Aquietou-se um pouco mas, logo em seguida, teve outra “inspiração”: mandou o profeta Samuel ungir como Rei de Israel, Davi, um menino franzino e de boa aparência que cuidava das ovelhas do pai no campo.

Jesus também não ficou a dever. Subverteu toda a lógica humana! De cara, chamou Mateus, um publicano, com todas as implicações inerentes, para fazer parte de sua “equipe ministerial”. Ao visitar a região de Gedara, transformou um endemoninhado num pregador do Evangelho. Em Cafarnaum afirmou que o Centurião Romano, que estava com o servo adoentado, tinha mais fé do que toda a moçada da religião de Israel e, de outra feita, falando por parábola, disse que o Samaritano era o único que, indo pelo caminho, construía um caminho com Deus.

A verdade é que o “Totalmente Outro” não parece estar preocupado com aquilo que as pessoas são, mas, com o que elas podem vir a ser. Ao contrário de nós, que sempre focamos na aparência, nas potencialidades, no currículo, no “pedigree espiritual”, Deus foca no coração, no que está encoberto aos olhos naturais.

Assim foi com Abraão, que creu que podia ser um patriarca mesmo contra todas as evidências. O mesmo se deu com Jacó, que subornou Esaú e mentiu para Isaque, pois entendia que a primogenitura era algo decisivo na vida. Não foi diferente com Moisés, que superou as limitações pessoais e o comodismo e foi encarar 40 anos de deserto e 1 milhão de pessoas para gerir. Finalmente Davi, mesmo tendo adulterado e assassinado seu general, quando confrontado, não se esquivou de suas responsabilidades, mas arrependeu-se, por isso era um “homem segundo o coração de Deus”. Estou certo: Deus não nos vê como somos, mas, como poderemos vir a ser!

“Perguntou-lhe Natanael: De Nazaré pode sair alguma coisa boa? Respondeu-lhe Filipe: Vem e vê”. João 1:46.

Filipe havia visto Jesus pregar e fazer milagres. Seu coração havia se compungido e ele sentira que ali estava o Filho de Deus, o Messias esperado. Sua reação imediata foi correr e contar todos os fatos ao seu irmão Natanael. Este, ao ouvir o relato empolgado de Filipe, exclamou: “ô brother: daquela terrinha lá não sai coisa boa não!”. O estigma social, cultural e religioso já estava posto há gerações. A Galiléia não era um “celeiro de profetas”. Todos sabiam que aquela região nunca produzira algo significante na história do povo de Israel. Mas Deus tem um senso de humor extravagante! Imagino-o dando boas risadas nos céus dos céus e dizendo: “tolinhos... Posso fazer o bem e produzir o que é bom da maneira como bem entender. Não me importa os condicionamentos, a aparência, o previsível, a lógica, o óbvio, ou qualquer outra coisa.”...

Chegamos a você... Talvez uma pessoa cheia de conflitos, de medos, de inseguranças. Talvez tenha sempre uma desculpa para não ser quem Deus gostaria que você fosse. Quem sabe está se escondendo atrás de uma limitação pessoal, como Moisés, que era gago, ou talvez esteja um pouco passado da idade, como Abraão, sentindo-se cansado. Talvez seja muito imaturo, como Davi, e não queira assumir responsabilidades, ou ainda seja alguém como Jacó, com desvios de caráter. Não sei se você possui traumas familiares, ou marcas de violência, se está depressivo, pessimista ou melancólico. Quem sabe está desempregado, ou fracassou no casamento, se sinta inculto, ou feio, está endividado, mal resolvido, mal amado. No fundo, que importa quem você é! Importa, sim, quem Deus deseja que você possa vir a ser!

Como pastor tenho conversado com muitas pessoas. Vejo em suas faces todas as dores que a vida produziu, pois aprendi que as marcas marcam mais do que os marcos. Muitas delas estão definhando pela existência, arrastando um fardo insuportável. Sentem-se como se estivessem fadadas ao fracasso, vitimizadas por um karma irreparável.

Como um bom ouvinte, tenho tentado olhar para além daquilo que é perceptível... Por trás destas dores estão, não raro, as críticas mordazes de um pai irritadiço, ou o desprezo de uma mãe insensível. Certas “confissões” produzem um prejuízo incalculável à alma humana. Pessoas nestas circunstâncias acabam se projetando, como hologramas, para incorporarem aquilo que foi “profetizado”. “Você não vai ser ninguém”, diz o chefe. “Você não vai conseguir”, diz o marido. “Você não vai superar”, diz a “amiga”. E de dizer em dizer o ser vai se diluindo.

Existem também questões de outras naturezas. É a situação social, a cor da pele, o bairro onde se foi criado ou o colégio onde estudou. São fatores aparentemente limitantes, “karmas de prateleira”, desígnios supostamente insuperáveis do destino. Tudo bobagem! Todas estas coisas têm os seus pesos próprios e, sob determinadas circunstâncias, podem provocar estragos, não tenha dúvidas, mas quero hoje lhe afirmar, de forma categórica, que não será nada disto que determinará o teu caminho na existência.

Por isso, não importa quem você é, nem de onde veio, se tem estudo ou não, se é bonito ou feio, ou se tem algum problema físico. Não importa se não tem recursos, ou se nunca teve uma chance, não importa se já roubou, ou se já matou, ou se traiu, subornou, não importa nada disso, pois, se você desejar, do fundo do coração ser diferente, Deus pode lhe transformar em alguém que você jamais imaginou ser.

“Torna-te aquilo que és”. Nietzsche.

Você não foi criado para ser um desastre! Deus não te trouxe a existência para que você existisse sem significado ou propósito. Ele tem um projeto para você, algo pensado antes da fundação do mundo, por isso, mediante o Espírito de Deus, você pode tornar-se aquilo para o qual foi concebido.

Assim, desta perspectiva, os dramas da vida passam a ter novo significado, tornam-se como sementes plantadas no jardim da nossa história, pois visam, em última instância, nos fazer pessoas melhores, parecidas com Jesus.

Eu sei que isto é possível, pois foi assim comigo... Quando era criança, algumas pessoas diziam: “esse menino não vai dar para nada”. Durante muito tempo este fantasma me perseguiu, produzindo seus próprios estragos em minha alma. Mas um dia eu conheci a Jesus, e o que para mim parecia impossível, tornou-se realidade.

Hoje, depois de tudo o que experimentei, depois do que Ele fez em mim e está fazendo por meu intermédio, posso apenas afirmar, caso estas palavras lhe façam algum sentido: “Vem e Vê!”.

Sola Gratia!

Carlos Moreira

06 agosto 2009

Ilusão de Ética


Enquanto tento “digerir” os muitos escândalos associados tanto à política quanto à economia e gestão em nosso país, lembrei de algo que pode bem ilustrar a crise na qual estamos mergulhados.

Trata-se de um exemplo usado por George Moore, filósofo inglês da primeira metade do século XX, que buscou resolver, pela filosofia da linguagem, o “problema” do ceticismo cartesiano.

Moore afirmava que, se olhássemos fixamente para a cor laranja, por exemplo, e depois voltássemos nosso olhar para uma parede branca, a cor da parede pareceria ser esverdeada. Este fenômeno, denominado de pós-imagem, revela que os olhos enxergam outra cor por causa da “impregnação” que adveio do olhar fixo sobre outra tonalidade.

A experiência de Moore, que no fundo trata de uma ilusão de ótica, assemelha-se ao que temos vivido em nossa sociedade, ou seja, uma ilusão de ética. De tanto “olharmos” para o disfarce, a dissimulação e a falcatrua como modus operandi, acabamos ficando impregnados por essa praxis distorcida.

Mesmo diante do indubitável, como em alguns casos em que a coisa foi do grotesco ao bizarro, ficamos impedidos de discernir a verdade, seja por conveniência, pois isso de alguma forma fere nossos interesses, seja por entorpecimento e cauterização da consciência.

Curiosamente, mas não menos preocupante, algo semelhante acontece com o cristianismo. A fé cristã tem se intitulado, ao longo da história, como depositária e mantenedora de princípios éticos e morais que deveriam reger as sociedades humanas. Mas esta prerrogativa, que no fundo é apenas ilusão, está cada vez mais insustentável.

É sem precedentes a perversão na qual está mergulhado o cristianismo nos nossos dias. Os conteúdos e princípios do Evangelho de Jesus Cristo, que deveriam ser seu esteio, foram totalmente esquecidos e dessignificados, dando lugar a práticas bizarras baseadas numa hermenêutica fraudulenta das Escrituras. Nem mesmo o dogmatismo e o fundamentalismo, como correntes filosóficas, foram capazes de conter os desvios atuais.

Entretanto, o que os cristãos não estão percebendo é que existe uma nova consciência ética se expandindo em todo o mundo, e isto fora dos portões da Igreja!

Há hoje um intenso movimento em busca do resgate de valores e padrões éticos e morais nas empresas, instituições, partidos políticos, organizações não governamentais, que busca fomentar princípios que rejam a vida do homem do século XXI.

Esta disposição, todavia, não está surgindo como resultado de uma alteração da consciência por meio da pregação da fé. Se assim fosse, teríamos como fim último a pacificação do ser e a transformação dos valores plantados no coração, de tal forma que tudo se desdobrasse em algo consequente para a vida.

Em definitivo não é isso... As mudanças em curso são fruto da percepção da sociedade da necessidade de transformação dos padrões e valores morais e éticos por questões, única e exclusivamente, de sobrevivência. Ou seja, é o capitalismo tentando acor-dar para as realidades prementes que nos cercam neste momento de nossa história, e isso com vistas a ele mesmo sobreviver.

A exploração entre países pobres e ricos, as questões ambientais – como desmatamento, aquecimento global, utilização de recursos hídricos –, as questões ligadas aos avanços tecnológicos, como a biotecnologia, dentre outras, são demandadoras de um repensar da civilização pós-moderna. Seus valores e princípios precisam ser alterados para que haja a chance de se construir algo sustentável para o planeta.

E os cristãos, alienados com o que acontece no mundo, impregnados por um olhar existencial distorcido, calcado numa ética elástica, forjado por princípios que apenas se prestam a conveniências morais da teologia de causa e efeito, vagam no mundo das alucinações, vivendo o irreal e achando tudo normal, sem perceber que, na verdade, é surreal.

Para eles, o que restará será o desmonte e o descarte, pois esta corrente ética-filosófica-existencial que está sendo demandada pela nova sociedade não necessitará nem de chancelas da Igreja nem de legitimadores “espirituais” – sacerdotes – para dar credibilidade aos seus pressupostos.

A Igreja, com seus líderes e suas doutrinas – no pretenso papel de reguladores do comportamento humano –, irá então desaparecer do cenário mundial, pois sua causa-de-ser-existir se tornará totalmente irrelevante. Em seu lugar se consolidará a Nova Era, este novo sentir-pensar que fomentará um tipo diferente de espiritualidade no coração dos seres humanos.

Você acha isso impossível? Seria o cristianismo, como religião institucionalizada, invencível? Imortal? Insubstituível? Eu não creio. Não sei nem mesmo se ainda há tempo para que tudo isso possa ser revertido, pois talvez a Igreja não acorde nunca do seu sono profundo. Confesso, todavia, que não vou ficar esperando que isso aconteça para fazer o que tem de ser feito.

Chega de ilusões de ótica e de ética. É tempo de olharmos para o que está acontecendo na sociedade, no mundo que nos cerca, mas, fundamentalmente, em nossas Igrejas! É tempo de olharmos para o que está acontecendo com o cristianismo! Chega de tanta cauterização de mente, chega de tanta letargia de alma, chega de tanto entorpecimento de coração! Chega!

É tempo de ter coragem! Tempo de abrir os “porões” de nossas denominações para constatar as podridões que lá existem: lutas pelo poder, sectarismo, maledicências, politicagens. Não somos diferentes do Congresso, apenas, talvez, nos disfarcemos melhor. É hora de começar a limpeza na casa de Deus!

Tudo o que fizemos, para atender às “demandas existenciais”, foi criar a Self-Made-Religion, a religião das conveniências, customizada sob medida para as necessidades de cada pessoa. Já não temos mais conversões, mas apenas adesões!

Não existem mais discípulos de Jesus, mas apenas clientes da Igreja! Será que não vemos que a mensagem não transforma mais as pessoas de dentro para fora, mas apenas as reveste de um fino e falso verniz de “ética” e “moral”?!

Minha esperança é que ainda haja consciência e coragem em uns poucos, e que estes se levantem como arautos das mudanças que urgem. Ou fazemos isso ou veremos a Igreja e a fé cristã se diluírem e se extinguirem no tempo que virá.

É hora de ação, não de retórica! Lembremo-nos, parafraseando Pierre Reverdy, poeta surrealista francês, que: “A ética é a estética do lado de dentro”, não a plasticidade performática do lado de fora.


Carlos Moreira

05 agosto 2009

Ser Líder É...


Que o mundo carece de heróis, todos já sabemos. O herói de nosso tempo, segundo o cantor e compositor Jorge Versilo, “aguenta o peso das compras do mês, sobe no telhado para ajeitar a antena da TV e fica acordado a noite inteira pra ninar bebê”. Mesmo sabendo tratar-se de um luxo, eu me satisfaria com bons líderes, ao invés de heróis, sobretudo na Igreja. Mas a safra atual é sofrível...

Por outro lado, olhando para Jesus, na tarefa hercúlea de transformar pescadores em profetas do Evangelho da Graça, reaviva-se em mim um soslaio de esperanças. De fato, o Galileu não enfrentou moleza. Imagino o desafio de lidar com os “espasmos emocionais” de Pedro, as vaidades e desejos de poder da dupla João e Tiago, a incredulidade de Tomé, além da ladroagem de Judas. Que time! Mas andar com Jesus fez toda a diferença. Por isso sempre serei um entusiasta do discipulado, pois creio que a melhor maneira de transmitir a fé é através da partilha da vida.

Vivemos no tempo da escassez, os economistas que o digam. Falta-nos quase tudo; o tempo é exíguo, o salário é pequeno, a paixão é passageira, a amizade é superficial, os desejos são fúteis... Para completar a lista, faltam-nos líderes, de todos os tipos e em todos os âmbitos: políticos, empresariais, sociais, acadêmicos e religiosos. Com tantas faltas, ainda insistimos em viver. Haja coragem!

Tenho olhado para o desafio de ser líder na Igreja. Quão grande ele é! Maior, talvez, do que eu pudesse imaginar. Se tenho conseguido ser um? Não sei, estou tentando, o tempo dirá.

Contudo, depois de tantos anos, imagino ter adquirido alguma “autoridade” para falar sobre o tema. Assim, compartilho com você umas poucas sugestões sobre o que imagino ser necessário para ser um líder. São 10 mandamentos que, creio, podem ser extremamente úteis na concretização de seus objetivos.

Se você quer ser um líder, então:

01- Desassocie mentalmente liderança de status ou poder. Líder é alguém que está disposto a servir, e não a mandar.

02- Esteja pronto para se decepcionar com as pessoas. As decepções serão muito mais abundantes que as certezas ou convicções que você tem sobre elas.

03- Aprenda a ser um “degustador” de derrotas. Você tirará mais proveito de seus fracassos do que de suas conquistas. É que as marcas marcam mais do que os marcos.

04- Seja paciente. Quase nada acontecerá da forma como você sonhou, no tempo que você imaginou ou do jeito que você planejou.

05- Conforme-se com o anonimato. Dificilmente alguém recordará o que você fez, ou reconhecerá o seu valor. Gratidão é artigo em extinção.

06- Acostume-se com a solidão, pois você se sentirá só muitas vezes.

07- Nunca perca o senso crítico e não negligencie ouvir a opinião dos outros. Você, na maioria das vezes, tem apenas fragmentos da verdade.

08- Desanime sempre que for necessário, mas não desista nunca. Desanimar faz parte da alma humana, superar o desânimo faz parte do propósito de um líder.

09- Tente construir vínculos duradouros. Sobretudo a certa idade, boas companhias lhe farão muita falta.

10- Não foque suas atenções nos que ficam pelo caminho, pois eles serão muitos. Atenha-se a investir nos que querem, e não nos que precisam, pios há uma grande diferença entre estas coisas.

Parece ácido, mas eu penso ser lúcido. Prefiro a dor da realidade a embriagues da ilusão. Se os dizeres lhe fizerem algum sentido, aplique-os a vida. O mais, você, assim como eu, aprenderá fazendo o caminho, enquanto o caminho vai sendo feito em você.

Sola Gratia!

Carlos Moreira

Como Será a Igreja Evangélica em 2058?


Daqui a cinquenta anos serei um velhinho octogenário. Se Jesus não houver buscado Sua Igreja, ou se eu mesmo não tiver ido de outra forma, estarei aqui nesta Terra com meus cabelos brancos, uma família bem grande e muita história pra contar aos meus netos. Mas, como estará a Igreja brasileira? Que Igreja as minhas cãs verão? Vamos fazer uma projeção mambembe?
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Daqui a cinquenta anos o Brasil será uma nação evangélica. Teremos passado por um presidente da República evangélico, um ministro do STF evangélico, e muitas autoridades políticas evangélicas, como vários senadores de destaque. Muitos deles terão cometido crimes de corrupção, improbidade administrativa, e haverá escândalos em diversos Municípios e Estados com o franco envolvimento de pastores, líderes evangélicos e igrejas.

A maioria dos crentes evangélicos em 2058 será nominal. Dizer a palavra "evangélico" será como anunciar uma importante insígnia, o termo cairá na boca de todo mundo como açúcar. Ser evangélico abrirá muitas portas, e fechará outras a quem não se identificar como tal. Em razão de disputas de poder, haverá grandes divisões nas maiores denominações do país. Todas as denominações ficarão rachadas em vários pedaços. O pentecostalismo passará por uma transformação enorme, quase desaparecerá debaixo de heresias e duros golpes dos sensacionalistas e personalistas, que se apoderarão de suas igrejas. Mas alguns crentes verdadeiros sobreviverão a isso, tendo que se reinventar.
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Crescerá um movimento informal de igrejas menores, pequenos grupos que se reunirão por extrema necessidade espiritual, não por uma questão de estratégia de crescimento, nada disso. Haverá pastores sendo consagrados por sua vocação, dentro desses pequenos grupos, e não por causa de promoções políticas dos sistemas eclesiais.

Para se distinguir dos poderosos e hereges evangélicos do futuro, os verdadeiros crentes adotarão o nome que lhes for dado. Não me arrisco a antecipar essa nomemclatura, porque não sou vidente, mas será alguma coisa pejorativa, uma alcunha dada pelos outros, que acabará redundando num modo de designação de diversos grupos heterogêneos.

Muitos dos popstars serão evangélicos. Eles gravarão músicas para igreja e para bailes funk ou coisa do gênero, tudo num só album. Haverá evangélicos em todos os setores artísticos, e a maior rede de televisão e rádio será evangélica.

Será muito difícil pregar o Evangelho em 2058. As pessoas terão preconceito, porque buscarão apenas o nome "evangélico", mas não o Jesus do Evangelho. Quando os crentes verdadeiros quiserem pregar, serão tratados com o típico respeito da indiferença, no mesmo sentido do ainda vivo pluralismo. O evangélico "normal" será uma pessoa materialista, que criou um estilo diferente de se vestir e de falar, com sua cultura musical e artística específica, cada vez mais influente. Falar de Jesus entre os evangélicos será como falar de um líder que fez coisas extraordinárias para mostrar o que se pode esperar desta vida.

Daqui a cinquenta anos, a Bíblia continuará sendo tratada como um rol de variados segredos motivacionais, como um pacote de amuletos, e, mais do que isso, será vista até pelos evangélicos como um livro sagrado dentre tantos outros. Haverá forte expansão da demitologização das Escrituras, os milagres e o sobrenatural serão vistos como figuras de um poder cósmico que a Bíblia atribui a Deus. Os líderes farão da Bíblia o que quiserem. Isso não será a exceção - será a regra, a tese majoritária, a doutrina oficial, a ideologia da classe dominante nas igrejas, e, enfim, do País.

Os crentes de verdade não apreciarão em nada esse estado de coisas, e por isso não terão alternativa senão envolver-se em grupos menores, de comunhão, primeiro em casas, depois em prédios destinados a esse fim, mas com o surgimento de líderes proeminentes que buscarão pastorear esse rebanho e resgatar pontos doutrinários fundamentais, com interesse reformista.

...E eu, do alto de meus 81 anos, ficarei em casa conversando sobre tudo isso com minha família, principalmente com a minha esposa, a Miriam. Não tendo mais forças para falar em público, nem sendo mais convidado a lugar nenhum, dobrarei meus joelhos frágeis e orarei ao Deus do Céu, para que tenha misericórdia daquela geração tosca e fútil.

Não se apoquente: não sou profeta. Este é apenas um pequeno exercício mental e literário, sem nenhuma conotação profética.

Fonte: Alex Esteves via Genizah

Carta de Cristo para a Igreja Brasileira


“Aos anjos da igreja do Brasil escreve: Isto diz o Filho de Deus, que tem os olhos como chama de fogo, dos quais tu não podes te esconder.[1]

Conheço as tuas obras; tens nome de que vives, mas estás morto. Te gabas de ser protagonista de um grande avivamento, mas não sabes que estás moribundo. Teu avivamento artificial e sensacionalista não me comove, nem tampouco produz transformação na sociedade onde estás inserido.[2]

Conheço as tuas obras, as tuas estratégias, o teu marketing, e mesmo que te aches quente, na verdade não és frio nem quente. Quem dera fosses frio ou quente! Tua mornidão e apatia já me causam náuseas. Estou a ponto de te vomitar.[3]

Tu te achas rico, por causa de tuas suntuosas catedrais, como se Eu me impressionasse com sua exuberância; te esqueceste que Eu não habito em templos feitos por mãos? [4]

Tu dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta. Mas não sabes que és um coitado, e miserável, e pobre, e cego, e nu.[5]

Tua riqueza é fruto de extorsão, de manobras políticas, de sacrifícios dos mais pobres, que caem em suas teias por desconhecerem a minha Palavra. Esqueceste que não quero sacrifícios, e sim misericórdia?[6]

Começaste bem, mas te corrompeste. Deixaste de ser igreja, para ser empresa. Deixaste o teu primeiro amor. Lembra-te de onde caíste! Arrepende-te, e pratica as primeiras obras. Se não te arrependeres, brevemente virei a ti, e removerei do seu lugar o teu candeeiro, tirarei o teu alvará, e passarás a trabalhar na escuridão e na clandestinidade espiritual.[7]

Tenho contra ti que toleras o espírito do consumismo, e ainda o estimulas com suas correntes de prosperidade. Tenho lhe dado tempo para que te arrependas, mas tu não queres te arrepender.[8]

Tu não te pareces comigo, mas com o mundo. As mãos que tu tens estendido ao Pai em louvor, não têm sido estendidas ao próximo em Amor. Em vez de buscar me conhecer mais, tu preferes conhecer as profundezas de Satanás,[9] ignorando que Eu mesmo o despojei através de minha Cruz. Mas tendes no Brasil algumas pessoas que não contaminaram as suas vestes, nem a sua consciência.[10]

Estas não se venderam aos modismos doutrinários, mas permanecem fiéis, retendo o que receberam. A estas digo: Guarda o que tens, para que ninguém tome a tua coroa. [11]

Sei que habitas no meio a idolatria, superstições, feitiçarias, contudo, reténs o meu nome, e não negaste a minha fé[12].

O que tendes, retende-o até que eu venha. Ao que vencer, e guardar até o fim as minhas obras, eu lhe darei autoridade sobre as nações, e com Cetro de ferro as regerá, quebrando-as como são quebrados os vasos de oleiro; assim como também recebi autoridade de meu Pai.[13]

Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz à igreja brasileira. [14]

Fonte: Hermes Fernandes via Hermes Fernandes

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É importante esclarecer que este BLOG, em plena vigência do Estado Democrático de Direito, exercita-se das prerrogativas constantes dos incisos IV e IX, do artigo 5º, da Constituição Federal. Relembrando os referidos textos constitucionais, verifica-se: “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato" (inciso IV) e "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença" (inciso IX). Além disso, cabe salientar que a proteção legal de nosso trabalho também se constata na análise mais acurada do inciso VI, do mesmo artigo em comento, quando sentencia que "é inviolável a liberdade de consciência e de crença". Tendo sido explicitada, faz-se necessário, ainda, esclarecer que as menções, aferições, ou até mesmo as aparentes críticas que, porventura, se façam a respeito de doutrinas das mais diversas crenças, situam-se e estão adstritas tão somente ao campo da "argumentação", ou seja, são abordagens que se limitam puramente às questões teológicas e doutrinárias. Assim sendo, não há que se falar em difamação, crime contra a honra de quem quer que seja, ressaltando-se, inclusive, que tais discussões não estão voltadas para a pessoa, mas para idéias e doutrinas.

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