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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.
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05 janeiro 2019

Amar não é, Necessariamente, Querer Bem



“Ouvistes o que foi dito: ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo’. Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem”. Mt. 5:43-44

Nas palavras de Jesus, amar o inimigo parece, à primeira vista, um convite ao masoquismo, mas não é.

Para entender o texto do Sermão do Monte, sobre o qual há muita confusão, quero fazer breves ponderações. Sim, porque do ponto de vista da ortodoxia religiosa, a proposta é inalcançável, ninguém pode nutrir bons sentimentos por quem lhe faz mal.

O problema, contudo, está na forma de interpretar a proposta do Galileu que, acreditem, é um convite para o exercício da profilaxia que produz saúde ao ser. Ora, não há dúvidas sobre o que Jesus disse: o verbo ἀγαπᾶτε – amai – no grego, está no imperativo ativo, é uma ordem, não uma opção.

Mas, para entendermos qual é verdadeiramente a proposta, precisamos analisar o contexto da frase, e não apenas um conjunto de palavras. Perceba que, ao fazer a afirmação, Jesus está usando como contrapartida o que havia sido dito pelos antigos – “... Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo”. 

Nessa passagem existem duas questões importantes: a primeira é que a bíblia não diz: “Ouvistes o que está escrito...”, e sim: “Ouvistes o que foi dito...” – “Ἠκούσατε ὅτι ἐρρέθη”, ou seja, Jesus explicita que há um grave problema na interpretação da Lei, pois em nenhum lugar das Escrituras encontramos a afirmação de que devemos amar ao próximo e odiar o inimigo. A segunda questão é que essa crença baseava-se na “tradição dos antigos”, algo que estava perfeitamente alinhado com a “Lei de Talião”, a lei escrita mais remota já registrada e que tratava da reciprocidade entre o crime e a pena – “Olho por olho e dente por dente”. 

Desta forma, o que de fato Jesus queira dizer? Ora, nós sabemos que amar não é um sentimento, mas uma decisão, e temos esse entendimento quando compreendemos o amor de Deus por nós. Assim, o que Jesus estava querendo dizer sobre “... amai os vossos inimigos”, é que é possível fazermos a escolha de não “odiarmos os nossos inimigos”, conforme a “tradição antiga”, ainda que isso não tenha nada a ver em nutrir por eles sentimentos de afeição. 

Eu não devo odiar, nem desejar o mal, nem guardar rancor, nem cultivar amarguras, mas também não estou obrigado a sentar a mesa com ele para tomar uma breja, nem muito menos me subjugar a manter uma relação que se tornou insalubre, faz profundo mal a alma e ao coração. Eu posso amar, sem querer bem, eu posso amar, sem manter contato, eu posso amar, sem alimentar a ira, eu posso amar até mesmo sem ser amado, o que eu não posso, nem Deus me pede isso, é querer bem a quem me faz mal.

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Carlos Moreira





24 dezembro 2018

O Presente de Natal é Jesus Estar Presente



Bem falou Exupéry, “O essencial é invisível aos olhos”. De fato, as coisas mais significativas da vida são sentidas muito antes de serem vistas, elas nascem, primeiro, no coração e na consciência e, só depois, ganham materialidade e podem ser perceptíveis aos olhos. 

Paulo trata deste tema se referindo também aos fatos de natureza espiritual, ele afirma que há coisas na vida que só podem ser compreendidas se discernidas espiritualmente. Foi exatamente isso que aconteceu com os que estavam no Templo de Jerusalém no primeiro Natal. 

Naqueles dias, José e Maria foram, conforme o costume da Lei, apresentar o menino recém-nascido diante de Deus. Eles entraram no “lugar sagrado”, ali estavam acontecendo todas as liturgias e rotinas da religião, sacerdotes ofereciam sacrifícios pelos pecados do povo, levitas faziam suas oblações, transeuntes traziam seus dízimos e os depositavam nos gazofilácios, os objetivos cúlticos estavam em seus devidos lugares, havia canções e orações sendo proferidas, mas ninguém notou que o Salvador do Mundo adentrou aquele espaço. 

Eles serviam a um Deus a quem jamais conheceram, desenvolveram para si um tipo de espiritualidade que cega a consciência e endurece o coração, não podiam discernir, viam apenas as exterioridades, o essencial não podia ser compreendido porque a Revelação não havia acontecido. 

Lucas narra este fato no capítulo 2 de seu Evangelho. Ainda que ali estivessem milhares de pessoas, só Simeão, um homem piedoso da cidade, e Ana, uma profetiza velha e viúva, entenderam que o Messias havia chegado, a Encarnação de Deus, na figura de um menino, estava ali, diante de todos, mas a maioria deles não podia ver, seus olhos estavam embotados. 

Como bem disse Tertuliano: “credo quia absurdum” – creio porque é absurdo! Eu lhe desejo, com todo afeto, um Feliz Natal! Sim, lhe desejo um Natal onde Jesus possa ser sentido em seu coração, um Natal onde sua Mensagem possa ser discernida em sua Consciência e um Natal onde o Seu Espírito lhe habite trazendo a revelação de quem, de fato, ele é. 

Eu não sei se você frequenta um local de culto religioso, não sei se está envolvido com rotinas eclesiásticas ou mesmo se é um sacerdote, ou líder, o que sei é que este é um tempo de Templos cheios e almas vazias, onde a esmagadora maioria das pessoas sabe quem é Jesus, do ponto de vista da historicidade da fé, mas jamais teve um encontro pessoal com ele nas ambiências do coração. 

Naqueles dias, nem mesmo os rabinos, os doutores da Lei e os escribas puderem perceber o que estava acontecendo, pois eles sabiam tudo sobre a Letra, mas nada compreendiam sobre o Espírito, os Magos, do Oriente, fizeram a leitura correta, mas os teólogos de Jerusalém passaram batido, estavam entretidos com o negócio da religião. 

Contudo, diz o apóstolo João, “Mas, a todos quanto o receberam, deu-lhes o poder de serem chamados Filhos de Deus”! Que o Pai lhe dê, neste Natal, o maior de todos os presentes, que é a revelação de que Jesus está presente, ele habitou entre nós, se fez um de nós, viveu como um de nós, morreu como um de nós, mas Ressuscitou, como haveremos de ressuscitar todos nós, os que cremos em seu Nome! 

Um beijo carinhoso neste dia da Festa do Amor! 


Carlos Moreira


26 janeiro 2017

O que Há por Detrás do Seu Muro?



Eu pensei que a queda do Muro de Berlim havia ensinado aos homens que paredes de tijolo e cimento não resolvem problemas, apenas os separam em lados opostos. Mas Donald Trump pensa diferente...

Sim, enquanto o ser humano imaginar que apartar-se do seu igual pode ser a solução para alguma coisa, levantaremos barreiras visíveis, intermináveis, mas sequer seremos capazes de perceber que o grande muro está posto, na verdade, no coração e na consciência.

O “Muro do Trump” é só a representação visível dos muros invisíveis que crescem a cada dia dentro de nós. Olhe para o fenômeno, não para o evento, perceba o que há por trás de cada “tijolo” colocado nesta grande parede da vida.

De fato, o muro proposto pelo Trump separará nativos de imigrantes, mas se você analisar com mais cuidado, perceberá que, neste tempo, há outros muros erguidos, ainda que eles sejam invisíveis, como o muro que separa negros de brancos, pobres de ricos, direita da esquerda, capitalistas de socialistas, religiosos de ateus, protestantes de católicos, oriente do ocidente, islâmicos de cristãos, héteros de gays...

Olho para as Escritura e encontro: "Porquanto, Ele é a nossa paz. De ambos os povos fez um só e, derrubando o muro de separação, em seu próprio corpo desfez toda a inimizade...". Ef. 2:14. Portanto, não erga muros, pois você foi chamado para destruir fortalezas!

Ora, esse não será o primeiro muro que o homem vai construir, nem tão pouco será o último, mas a questão central é: quantos muros já cresceram dentro de você? E quantos ainda vão crescer?

Carlos Moreira


21 julho 2015

Lembranças...




Eu não sei quando, mas chegará o dia em que eu serei apenas uma lembrança...

Sim, virá o tempo em que eu não mais escreverei textos, ou subirei em púlpitos para pregar, não casarei ninguém, nem farei aconselhamentos.

Já vem a hora em que estarei fadado a ser uma lembrança, perambulando por aí, um andarilho sorrateiro espreitando mentes e arrebatando corações.

Então, minha ambição é que eu seja uma lembrança boa, que desperte sorrisos, que proporcione emoções, que deflagre suspiros saudosos e arranque lágrimas adormecidas pelo tempo.

Eu quero ser lembrado numa mesa de bar, em meio a gargalhadas, não quero ser uma citação, uma aparição técnica num texto utilizado para respaldar o pensar de alguém. Não! Eu quero mesmo é estar na lembrança de gente que amei, que abracei, que acolhi do desprezo da vida, que me fiz presente no dia dor, gente com quem me solidarizei, que cobri do frio da indiferença, que alimentei com ternura em meio ao desgosto, que protegi do preconceito, que livrei da solidão.

Eu preciso que você pense em mim como um sujeito que viveu no limite, que gastou e deixou-se gatar por aquilo que acreditava, que sempre andou encharcado de sonhos e parido de ternas ilusões.

Mas para ser lembrado assim, é mister construir, hoje, uma história bacana, um caminhar instigante.

Portanto, preciso lhe confessar, desejo ter mais amigos, ao invés de mais dinheiro e mais encontros, ao invés de tantas reuniões. Almejo por mais devoção e menos liturgia, mais misericórdia e menos teologia.

Eu não tenho ideia de onde vou ser enterrado, isso pouco importa, pois, na verdade, estarei mesmo é plantado na terra do coração de muita gente, serei árvore que alimenta sabores de frutas de quintal, que traz um cheiro de mato regado pela chuva. Sim, você me encontrará na chama da luz que rasga a cortina no raiar do dia, na gota de orvalho que se entregou sem pudores ao chão da manhã, e como bem disse o Drummond, naquele dia, não serei mais moderno, serei eterno!


© 2015 Carlos Moreira

26 março 2015

A "Babilônia" é Aqui...



Me desculpe, mas desligar a TV não livra você da “Babilônia”. Que grande tolice e que enorme ingenuidade! Evitar uma programação que não presta é uma questão de bom senso, não de religião, pois tem coisa que, muito antes de fazer mal ao nosso espírito, faz mal a nossa alma, deprime, constrange, produz uma falta de apetite para a vida.
Mas evitar a novela Babilônia, em absoluto, livrará você da “Babilônia”, porque, antes de tudo, “Babilônia” não é uma trama televisiva ficcional, mas um sistema de valores poderoso, um zeitgeist, uma impregnação que está na mente, não na tela da televisão.
“Babilônia” é o símbolo daquilo que é perverso, sincrético, enfatuado, está no olhar de quem só discerne o mal, de quem acha que, pela moral, poderá se jactar contra Deus, de quem faz do ascetismo ético sua tábua de salvação, ainda que tais prescrições comportamentais nada possam contra as potestades espirituais.
Acho curioso que algo tão evidente não esteja sendo discernido pela esmagadora maioria das pessoas! Elas mudam de canal por causa do beijo gay de duas senhoras oitentonas, mas assistem a programas como Cidade Alerta, com cenas muito mais poderosas do ponto de vista da exposição da miséria humana e das calamidades existenciais.
Que triste esta geração, que vive enganada de si mesma, que se esconde em toscas máscaras religiosas, que quer tirar a “trave dos olhos” da Rede Globo, mas não consegue, sequer, discernir o argueiro incômodo do Show da Fé.

Carlos Moreira

06 dezembro 2010

Bolso Furado


“Jesus sentou-se em frente do lugar onde eram colocadas as contribuições, e observava a multidão colocando o dinheiro nas caixas de ofertas. Muitos ricos lançavam ali grandes quantias. Então, uma viúva pobre chegou-se e colocou duas pequeninas moedas de cobre, de muito pouco valor. Chamando a si os seus discípulos, Jesus declarou: Afirmo-lhes que esta viúva pobre colocou na caixa de ofertas mais do que todos os outros. Todos deram do que lhes sobrava; mas ela, da sua pobreza, deu tudo o que possuía para viver.”
Mc. 12:41-44

Para Jesus, diferentemente do que acontece conosco, a maior oferta foi aquela que teve a menor significação monetária, pois foi a que carregou em si as implicações da fé e do amor. E a razão é simples: para Deus, o que mais importa na vida é a motivação.

Curioso, todavia, é imaginar o Senhor sentado em frente ao gazofilácio, no átrio externo do Templo, observando o movimento... Passava por ali a moçada da religião, fariseus e escribas, todos cheios de jactância, de autoindulgência. Também ali estavam os ricos, revestidos de pompas, com suas ofertas vultosas, despejando no receptório aquilo que lhes sobejava da soberba da vida. Então veio a viúva...


Aquele era um mês especialmente difícil. As economias já haviam se acabado. A feira não tinha sido feita. Várias das contas a serem pagas estavam sob a mesa da sala. Tudo o que restava eram duas pequeninas moedas. O coração compungiu-se: “Como entregar aquilo que se tem para viver?”. A consciência, por outro lado, argumentava: “Como viver sem entregar tudo o que se tem e o que se é?”. Santo dilema! Quem me dera fosse o meu...


Dinheiro ali nunca foi a questão. A oferta da viúva era a oferta de si mesma, a única que interessa a Deus. Não se tratava de algo com significação econômica, pois, financeiramente, aquilo que ela deu não possuía valor.


Sua oferta, todavia, era fruto de uma consciência desenvolvida para a obediência e de um coração dilatado para a generosidade. Por isso, em fé, entregou “tudo o que possuía para viver”. Saiu com o bolso vazio e o coração cheio. Sua alma foi alimentada de esperança e seu espírito fortalecido em fé. Seu ato discreto chamou a atenção de Jesus, pois o Senhor percebe o íntimo, mas despreza as aparências.


Deus não precisa de dinheiro para Sua obra; eu e você é que precisamos! Portanto, se a obra for Dele, se Ele estiver interessado em que ela se viabilize, se estiver sendo glorificado com o que está sendo feito e se os Seus planos estão em sintonia com os nossos, creia-me, dinheiro nunca será um problema.


Ainda assim, toda moeda tem dois lados, mesmo a da viúva. Temos o lado dos que vivem dos despojos do povo, mas também o dos que querem apenas, como disse o profeta Ageu, “apainelar” as suas vidas e as suas casas, gente incapaz de fazer qualquer sacrifício ou investimento na obra de Deus porque está totalmente focada no seu projeto de enriquecimento pessoal.


Conheço homens de Deus sérios, bem-intencionados, apaixonados pelo que fazem, com boas ideias, que não conseguem realizar empreendimentos para o Reino por causa da avareza e do egoísmo que se instalaram no coração dos que se dizem “povo de Deus”.


Talvez esse cenário seja uma reação de autodefesa, ainda que inconsciente, a tanto escândalo e manipulação. Mas, talvez, não. O fato é que é dificílimo encontrarmos pessoas que invistam os seus talentos e recursos na obra de Deus.


Tenho visto muitos prosperarem na vida. Como empresário, vejo companhias alcançando níveis de faturamento extraordinários, com ganhos expressivos para seus acionistas. Alguns deles são cristãos. Compram novos carros, apartamentos maravilhosos, fazem viagens para outros países, adquirem casas na praia, no campo, mas são insensíveis e incapazes de se envolver com qualquer desafio que possa levá-los a investir algum dinheiro no Reino de Deus.


Olho para isso e creio que esses jamais entenderam o princípio que diz: “Dai e dar-se-vos-á”, pois Deus dá, de forma abundante, com o objetivo de desenvolver em nós a generosidade para com os outros e para com o Evangelho.


Sim, creio que Deus não tem nenhuma intenção de fazer ninguém milionário, protagonista de uma vida egoísta e centrada em si mesmo, mas em enriquecer alguns para torná-los capazes de distribuir, de investir, de canalizar recursos para Seus propósitos. Creio que o Senhor deu talentos há alguns homens e mulheres para que eles pudessem usá-los para a Sua glória, mas eles acabaram usando apenas para usufruto próprio.


Tenho com frequência sempre aconselhado pessoas em crises financeiras. O “ralo” é sempre o mesmo: cartão de crédito, cheque especial, despesas feitas sem provisão, vaidade, desorganização, futilidades.


Nesses momentos, o profeta Ageu sempre me volta à mente: “Vocês têm plantado muito, e colhido pouco. Vocês comem, mas não se fartam. Bebem, mas não se satisfazem. Vestem-se, mas não se aquecem. Aquele que recebe salário, recebe-o para colocá-lo numa bolsa furada”. Como alguns me dizem, é muito mês para pouco provento. Aí, o dízimo já era...


Jesus nunca se preocupou com dinheiro. Mesmo sabendo que existiam pessoas que “bancavam” Seu ministério, sobretudo as mulheres, nunca o vi “passando a sacola” ao final de um sermão ou depois da realização de um milagre.


Ele apenas pregava a Boa Nova, amava as pessoas, curava, libertava, apaziguava os corações, e o mais Deus provia. Nunca deixou de fazer nada porque não havia recursos disponíveis. Não se hospedava em hotel cinco estrelas, não andava de Audi, não jantava nas boas casas de massa e não dispunha de nenhum aparato logístico, mas Sua mensagem era capaz de impactar milhares de pessoas e de transformá-las de dentro para fora. Por que será que isto não acontece com a nossa?

Gosto muito das músicas do Almir Sater. Em uma delas, de título “Peão”, o compositor afirma: “Para um bom companheiro não conto dinheiro”. Fiquei imaginando como seria bom se o verso se aplicasse à nossa relação com Jesus, no que diz respeito à generosidade e ao desprendimento.

É que não raro dizemos que o Senhor é o nosso companheiro, contudo, na hora de metermos a mão no bolso, materializando assim a amizade, de tal forma a permitir que coisas concretas possam ser realizadas, o bolso quase sempre está furado. Nessas circunstâncias, você poderá ouvi-lo dizer o seguinte: “Não se apoquente não, bichinho; Eu já paguei a conta!”.

Carlos Moreira

21 novembro 2010

A Consagração das Toupeiras


Já fazia muito tempo que, entre os bichos da floresta, os ministros religiosos eram escolhidos entre as corujas. As razões que explicam esta preferência eram as mais diversas, citemos algumas: a) As corujas possuíam carinho tal pelos seus, que achavam seus filhos lindos ainda que toda a floresta os visse como criaturas abomináveis. b) há muito tempo, por passar inúmeras noites acordadas, dedicando-se ao estudo, ficaram famosas e foram consideradas símbolos da sabedoria. c) O fato de serem aves e viverem em lugares altos dava-lhes uma melhor visão das coisas que aconteciam lá em baixo. d) Seu aspecto taciturno fazia com que os outros lhe atribuíssem uma grande capacidade de reflexão.


Enfim, entre os animais, as corujas pareciam ser, sem sombra de dúvidas, os mais aptos para o sacerdócio, e a sua escolha pelos outros bichos demonstrava que na floresta o critério utilizado para eleger o guru espiritual era bastante rigoroso e levava em conta vários aspectos da vida do escolhido e não apenas alguns, afinal de contas à atividade religiosa mostra sempre que o líder espiritual tem que ser um pouco de tudo.


O tempo passou e as coisas mudaram. Certos paradigmas foram quebrados e muitas revoluções tiveram início. No campo ético, por exemplo, a figura do sacerdote já não era mais associada à honra e ao respeito, pelo contrário, o mercantilismo da fé fazia com que muitos bichos olhassem para as corujas como grandes espertalhonas que não queriam trabalhar e sim ter vida fácil, o que, em alguns casos, era verdade. Por outro lado, muitas corujas tinham dado motivos suficientes para essa desconfiança tendo agido imprudentemente com relação ao dinheiro e ao sexo. Diante de tudo isso os bichos começaram a questionar a aptidão das corujas para o sacerdócio e, depois de muita briga, foi eleito para o ministério religioso o primeiro animal que não era daquela espécie: uma toupeira.


Uma toupeira? Admiravam-se os mais experientes, uma vez que as toupeiras possuíam, entre os animais, a fama de serem bichos desprovidos de inteligência e que sabiam apenas cavar buracos.


A escolha das toupeiras, porém, tinha lá seus motivos, afinal de contas, já dizia um antigo filósofo: “todo efeito tem uma causa”.


Em primeiro lugar, as toupeiras ascenderam ao poder por causa da própria degeneração e inaptidão das corujas que, há muito tempo no poder, julgaram-se seguras e começaram a tratar as coisas do mundo religioso com desdém. Seus sermões já não diziam nada, seus ensinamentos menos ainda, a administração era um caos, a Teologia tinha sumido dos púlpitos e a vida no lar deixava muito a desejar. Portanto, a escolha das toupeiras era o resultado direto da decadência das corujas.


Em segundo lugar, a escolha das toupeiras se deveu também a sagacidade desse animal, que neste ponto tem muitas semelhanças com uma antiga conhecida nossa que habitava os belos bosques do Éden (a serpente).


Muito embora fossem julgados animais pouco inteligentes pela maioria dos outros bichos, as toupeiras souberam aproveitar bem a situação de crise no âmbito religioso e com relativa facilidade alcançaram seus objetivos. Grandes oportunistas, era um termo que definia bem este pérfido animal.


As toupeiras perceberam que uma comunidade pouco instruída, revoltada e em crise, perdia a capacidade de escolher sensatamente seus líderes, o que lhes facilitava o empreendimento. Talvez fosse por isso que odiavam tanto o conhecimento e o estudo.


Elas (as toupeiras) também perceberam que o antigo critério de escolha que levava em consideração vários aspectos da vida do líder antes de escolhê-lo, havia sido suprimido e agora se recomendava para o ministério qualquer um que fosse julgado honesto, inteligente, bom orador ou que tivesse lido o grande livro religioso dos animais 50 vezes. Este último critério revelou-se, ao longo do tempo, como o mais equivocado de todos, uma vez que todo sacerdote deveria, obrigatoriamente, conhecer e ter lido o livro religioso dos animais, mas nem todos que conheciam e tinham lido o livro religioso dos animais tinham sido chamados para exercer o sacerdócio. Essa confusão de conceitos fez muitas vítimas no mundo religioso da floresta, algumas jamais se recuperaram.


Dessa forma, as toupeiras perceberam que não existia nada mais fácil do que ascender ao posto de sacerdote, já que não existia mais critério entre os outros animais para escolher os ministros religiosos. Assim, a crise se instalava tendo como principais protagonistas às toupeiras e algumas corujas que, em pleno exercício de ministérios fracassados, tentavam se manter no poder através de uma política intransigente e legalista.


Enfim, esta é a história da ascensão e consagração das toupeiras aos serviços religiosos. Sobre estas coisas, refletia um macaco solitário que morava no alto de uma árvore na floresta e que dizia consigo mesmo: “Quem não tem coruja apta se vira com toupeira; quem tem toupeira como sacerdote, vai de mal a pior”.

André Pessoa via Século XXI

09 novembro 2010

Quando Nordestinos se Transformam em Samaritanos

No dicionário Michaelis, xenofobia é: aversão às pessoas e coisas estrangeiras. Falar de xenofobia é falar de discriminação, de juízo temerário, de sentimentos como prepotência, orgulho e superioridade racial, política, religiosa, sexual, intelectual ou cultural. Me daria mais prazer, citando Rousseau, escrever sobre a minha preferência em ser “...um homem de paradoxos que um homem de preconceitos”. Mas, a esta altura do campeonato, eu já aprendi que a vida é bela, e o mundo é mau...  

Eu não sei quantos de vocês acompanhou o último “boom” do
 microblog Twitter que aconteceu no domingo dia 31 de outubro com mensagens ofensivas aos habitantes do Nordeste do Brasil. Os escárnios começaram por conta de se atribuir a vitória de Dilma Rousseff aos votos dos nordestinos. Ledo engano. Apesar de não ter votado nela, constato que a futura presidente ganharia mesmo não sendo computados os votos do Norte e do Nordeste. 


O caso mais extremo, entretanto, me pareceu ser o da estudante de direito Mayara Petruso, de São Paulo, que escreveu em seu
 blog: “Nordestino não é gente. Faça um favor a SP, mate um nordestino afogado!”. Como era de se esperar, imediatamente explodiu na net todo tipo de manifestação, tanto em defesa como contra o post. Ao final, o episódio apenas reacende o velho conflito regional que marca a cena sócio-histórica-cultural brasileira há décadas. Nada de novo...


Do ponto de vista do direito e da legalidade, e é bom que se diga, diversos segmentos estão fazendo protestos e entrando com representações no Ministério Público de Pernambuco e de outros Estados contra o triste episódio. Segundo o presidente da OAB-PE, Henrique Mariano, Mayara deve responder por crime de racismo (pena de dois a cinco anos de prisão, mais multa) e incitação pública de prática de crime (cuja pena é detenção de três a seis meses).
 No Brasil, a Lei nº 1.390, de 3 de julho de 1951 trata da questão do preconceito e da discriminação racial e a Lei nº 7.716, de 15 de janeiro de 1989, a qual foi modificada pela Lei nº 9.459, de 13 de maio de 1997, alarga significativamente as questões interpretativas, apontando expressamente a discriminação e acrescendo os crimes resultantes de preconceito ou discriminação de etnia, religião ou procedência nacional.



Mayara, que provavelmente acompanhava o que estava acontecendo e, sabedora de que na internet tudo ganha “volume” e “intensidade” de forma assombrosamente rápida, ainda na madrugada da segunda-feira apagou os posts que continham essas informações e, logo em seguida, tornou seu perfil “privado” para que ninguém mais pudesse ver absolutamente nada em seu blog. Impossível me foi não lembrar de Einstein: “triste época essa que vivemos! É mais fácil desintegrar um átomo do que quebrar um preconceito”.

Diante do exposto, trago algo semelhante nas Escrituras; "Um homem descia de Jerusalém para Jericó, quando caiu nas mãos de assaltantes. Estes lhe tiraram as roupas, espancaram-no e se foram, deixando-o quase morto. Aconteceu estar descendo pela mesma estrada um sacerdote. Quando viu o homem, passou pelo outro lado. E assim também um levita; quando chegou ao lugar e o viu, passou pelo outro lado. Mas um samaritano, estando de viagem, chegou onde se encontrava o homem e, quando o viu, teve piedade dele. Aproximou-se, enfaixou-lhe as feridas, derramando nelas vinho e óleo. Depois colocou-o sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e cuidou dele. No dia seguinte, deu dois denários ao hospedeiro e disse-lhe: ‘Cuide dele. Quando voltar lhe pagarei todas as despesas que você tiver’. "Qual destes três você acha que foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes? " "Aquele que teve misericórdia dele", respondeu o perito na lei. Jesus lhe disse: "Vá e faça o mesmo". Lc. 10:29-37.

Os Samaritanos eram um povo que, depois do cisma entre as 12 tribos, acabaram constituindo o Reino do Norte – Israel, cuja capital, por volta do século IX a.C. era Samaria. As disputas entre o Reino do Sul – Jerusalém e o Reino do Norte – Samaria – se estabeleceram por centenas de anos, chegando ao ponto dos hebreus mais ortodoxos não considerarem os Samaritanos judeus, nem mesmo filhos de Israel, mas sim descendentes de estrangeiros. Assim, nos tempos do Galileu, os Samaritanos eram um povo isolado, distanciado de Jerusalém, das práticas da religião judaica, que havia criado seu próprio código sagrado, seus preceitos e seu templo. 

Todas estas questões históricas, religiosas e culturais havia os tornado execráveis e, por conta disto, eles eram odiados pelos seus próprios compatriotas. Por isso, não raras vezes, vemos Jesus quebrando, como de costume, paradigmas existentes usando os Samaritanos como modelo de espiritualidade. O fato é que Jesus era contra todo preconceito, toda acepção de pessoa, todo julgamento presunçoso, toda discriminação, toda separação. E Ele sabia onde “pisava”, pois ali estava uma nação separada por “confrarias” religiosas, num mundo dividido em castas – ou seria melhor dizer carmas. Mas Sua mensagem sempre foi em favor das minorias, dos excluídos, dos caídos, dos esquecidos, dos sofridos, dos ardidos, dos deprimidos, dos expurgados, dos enxotados, dos que nada tinham.

Trouxe a passagem apenas para refrescar nossa mente cauterizada e viciada em interpretações de prateleira, em exegeses enlatadas. Sim, porque nela Jesus estabelece como modelo de espiritualidade um homem da escória em detrimento da elite espiritual, dos que possuíam pedigree, dos descendentes de Abraão, dos politicamente corretos, dos “teologicamente reformados”, dos “gospels”, dos “apóstolos”, “bispos” e “levitas da música”. Todos estes passaram ao largo e deixaram o moribundo entregue a própria sorte. Todos iam pelo mesmo caminho, mas apenas um deles caminhava de forma diferente. E sempre é assim, pois o caminho é um só, mas a maneira como se caminha é que faz toda a diferença. Uma coisa é conhecer o caminho, outra é caminhar por ele.  

Deus está atrás de gente, não de crente, está em busca de adoradores, não de cantores ou pregadores, está desejoso de encontrar corações quebrantados, não egos super-inflados. Quero lhe perguntar: Como se sentiria um travesti sentado no banco de sua “igreja”? Como se sentiria um casal de lésbicas assistindo a escola dominical em sua denominação? Como se sentiria uma garota de programa no culto da juventude de sua comunidade? Eles seriam aceitos? Eles seriam tratados com respeito? Eles teriam a oportunidade de ir e vir como os adúlteros, os sonegadores de impostos, os fofoqueiros e os avarentos?

Estamos mesmo prontos para receber os “perdidos” da Terra? Nossos encontros são acolhedores? Nossas “igrejas” estão com suas portas abertas para o diferente? Nossas casas podem receber gente que não se parece com a gente? O mundo quer respostas e nós dizemos que Jesus é a solução, mas nós não sabemos o que eles perguntam, por isso nossas respostas nada dizem, são retórica verborrágica sacralizada, e não amor encarnado no chão da vida. 

Foi vergonhoso este episódio!  Fiquei triste de ver os meus conterrâneos Nordestinos tratados de forma xenofóbica como também um dia foram tratados os Samaritanos. Foi deplorável a posição de Mayara, ainda que eu ache que ela, no caminhar da existência, deva merecer a chance de se reposicionar e se arrepender. É triste ver que existe dentro de nosso país tanta segregação, tanto preconceito, tanta acepção, tanta anestesia de alma, tanta indulgência com a injustiça, tanta cumplicidade com a inverdade, tanta flexibilidade com a contradição, tanta hipocrisia, tanto desamor. O preconceito, no Brasil, é silencioso, disfarçado, travestido, hipócrita, dissimulado. Não é escancarado como em outras partes do mundo. Aqui ele é sutil, quase intelectual, por vezes recoberto de pensamentos político-filosóficos. Mas ele existe e está aí. É o preconceito contra os Negros, contra os Deficientes, contra os Toxicômanos, contra os ex-Presidiários, contra os Homossexuais, contra os Nordestinos, contra as Garotas de Programa...

Fiz questão de escrever todos estes grupos humanos com letra maiúscula porque é justamente assim que os vejo. Como gente maiúscula! Alguns fizeram escolhas e devem ser respeitados em suas opções. Eu, por outro lado, devo pregar sobre o amor, a graça, a misericórdia e o desejo de Deus de que, em Cristo, todo ser humano encontre o padrão para ser e existir. Mas isto tem de ser feito com amor, pois, sem ele, o que sobraria da mensagem do Evangelho? Por isso, por vezes penso se não é verdade a afirmação de William Haslitt quando diz: “Quase toda a seita do cristianismo representa uma perversão da sua essência, com a finalidade de adaptá-lo aos preconceitos do mundo”. Você tem coragem de refletir sobre isto?...

Carlos Moreira

05 novembro 2010

Tempo de Poetas e de Profetas



Estamos em extinção! Que o mundo está agonizando, todos nós já sabemos. Só não vê quem não quer. É destruição da camada de ozônio, devastação das matas, contaminação dos rios, poluição do ar, extinção dos animais, desperdício da água, e isso só para enumerar o que a mídia anuncia todo dia.

A “bola da vez”, agora, é o aquecimento global, com todas as consequências devastadoras que dele advirão. Quanto tempo ainda nos resta? Não sei. Você sabe?

Minha convicção é de que o nosso mundo dá os seus últimos suspiros. As previsões dos institutos e dos cientistas não são animadoras: talvez nunca cheguemos ao século XXII. Penso na minha filha Gabriela... Que mundo ela estará herdando? Certamente avançado tecnologicamente, mas à custa do caos da biosfera.

Nunca fui nostálgico, mas quando converso com pessoas mais velhas, e as ouço falar sobre como era viver em nossa cidade há algumas décadas, sinto um nó na garganta. É que elas se referem ao ar puro, pássaros nas janelas, conversas nas calçadas, bondes no meio da rua e frutas fresquinhas na feira. Tudo isto já se foi... Hoje, o ar é poluído, os pássaros desapareceram, as pessoas têm medo de sair de casa, os carros atropelam e os alimentos estão cheios de agrotóxicos.

Lutar pela sobrevivência é característica própria de tudo o que tem vida, mas, em se tratando do planeta Terra, a batalha é inglória. Seus recursos são cada vez mais escassos, e nossa ganância, em contrapartida, desmedida.

Isso tudo, irremediavelmente, nos levará ao colapso iminente. Como eu sei disso? Pelo que está expresso nas Escrituras! Estamos no tempo do fim! Os dias estão mais difíceis e as dores do planeta mais intensas. O pior de tudo, a meu ver, é viver esse momento desprovido de dimensões que julgo essenciais à vida: a doçura dos poetas e a firmeza dos profetas.

Sinto falta de poesia em tudo: nos textos, nas canções, nos olhares, nos gestos, nas palavras. Onde está a beleza do céu, no amanhecer, ou o brilho do sol nas árvores, ao findar do dia? Sei que isso ainda não se perdeu; meus olhos, sim, ficaram acinzentados de tanto concreto e asfalto.

É que o mundo tornou-se preto e branco. Para onde foi a alegria? Onde estão a sensibilidade e a ternura? Tivesse eu poder, decretaria em alta voz: tragam-me os poetas! Preciso urgentemente ser alçado a um platô mais elevado. Chega de chão! Chega de tanta realidade! Estou farto de praticidade e de pragmatismo. Deixem-me sonhar, mesmo que por um pouco, pois preciso acreditar que ainda é possível...

Nós perdemos a beleza quando perdemos a nossa alma. Enchemo-nos de coisas e esvaziamo-nos de significados; existimos para fora, sem sentir e sem sentido. Mais do que um projeto de vida, pre-cisamos de um propósito para a existência. Nossas angústias não estão no fato de faltar-nos meios e métodos, mas na esmagadora ausência de valores e verdades. Por isso, parecemos sempre ir a lugar nenhum, pois, onde há perda de entendimento, há sobra de estupidez.

Sinto falta de gente sensível, que perceba na existência a beleza que há nas coisas simples. Gente que olhe o que está além da marca do carro, do celular, do perfume ou da grife da roupa. Gente que se emocione com gestos que passam despercebidos, fale palavras leves, seja gentil e inspire coisas boas.

Sinto falta de romantismo, de perder o tempo olhando para o nada, de chorar por lembrar de momentos felizes, de sentir saudade do cheiro e do gosto de quem amo. Sim, falta-nos a alma dos poetas e, como se sabe, onde não há poesia, não há vida.

Mas nossas perdas não param por aí... Quisera eu que fosse só isso. Juntamente com os poetas, perdemos também os profetas. Eu os procuro, mas não sei onde estão. Pergunto-me: quem os fez calar? Não me refiro aos apologetas do caos, nem aos adivinhadores, nem aos deterministas, nem aos manipuladores.

Falo de profetas que, por amor a Deus aprenderam a entender o coração dos homens e, por amor aos homens, dedicaram-se a discernir o coração de Deus. Sim, esses, aos quais me refiro, não encontramos mais por aí...

Deus tem sempre buscado falar com os homens e, não raras vezes, usou os profetas para fazê-lo. Profeta é aquele que se quebranta e chora ante as misérias e dores da terra. Profeta é aquele que se compadece do caído, que se angustia ao ver o oprimido e que se revolta pelo que foi excluído.

É ele quem denuncia a injustiça, quem aponta a falsidade, quem assevera contra a malícia, e quem não se cala diante da maldade. Diz o que diz, e faz o que faz, porque não é em si mesmo, mas existe a fim de revelar aquele que era, que é e que há de vir.

Profetas falam aos homens porque ouvem a Deus. Eles são capazes de discernir o choro incontido, do Pai apaixonado, que debruçado no alpendre da casa, no entardecer do dia, olha incansável para o horizonte, sempre à espera do momento em que o filho despontará no caminho.

Fazem-nos falta os profetas, firmes como o machado, afiados como lâmina de dois gumes, incansáveis na proclamação da verdade. Num mundo sem valores, sem referências e sem temores, eles seriam a voz da lucidez em meio ao coro dos insensatos.

Estou certo de que o caos no qual estamos mergulhados não é apenas fruto dos desequilíbrios na criação, mas, sobretudo, das criaturas. Viver neste mundo caído, onde colhe-se mais a dor do que o riso, está cada vez mais difícil.

É que nos falta poesia, para a leveza da alma, e profecia, para fortalecimento do espírito. Se hoje eu pudesse fazer um pedido ao Senhor, dir-lhe-ia: Pai, manda-nos mais profetas e, se possível, juntamente com eles, um punhado de poetas...

Carlos Moreira

09 outubro 2010

Consumido pela Culpa

Sem pecado, não há transgressão. Sem transgressão, não há punição. Sem punição, não há culpa. Está comprovado, pela escuta psicoterapêutica e pela leitura de nossa história, que a culpa existe desde nossa origem, faz sofrer, e sua recordação nos acompanha em nossa trajetória existencial.


Para definirmos de forma clássica a culpa, podemos afirmar que ela é algo que se refere à responsabilidade atribuída à pessoa por um ato que provocou prejuízo material, moral ou espiritual a si mesma ou a outrem. Segundo Wikipédia, no sentido subjetivo, a culpa é um sentimento que se apresenta à consciência quando o sujeito avalia seus atos de forma negativa, sentindo-se responsável por falhas, erros e imperfeições. No sentido objetivo, ou intersubjetivo, a culpa é um atributo que um grupo aplica a um indivíduo, ao avaliar os seus atos, quando esses atos resultaram em prejuízo a outros ou a todos.

Provavelmente foi Freud quem mais fez análises sobre os mecanismos geradores de culpa. Para ele, a idéia de uma onipresença da culpa, que se manifesta de múltiplas formas e que é fundamentalmente inexpiável, é o mais importante problema no desenvolvimento das sociedades humanas. Freud analisa em obras como Totem e Tabu e Mal Estar da Civilização, as diversas etapas de constituição da culpa, indo desde a angústia social até os sentimentos inconscientes.

Você se sente culpado por algo que fez? Você se sente culpado pelo destino de outros? Já experimentou um vazio no ser por pensar que poderia ter feito algo de forma diferente, ou tomar outra decisão a respeito de determinado assunto, ou mesmo ter escolhido outro caminho ou propósito na vida? Eu não tenho dúvidas em afirmar que a culpa é uma das mais poderosas forças que existem. E mais, sei que a serpente se alimenta do pó da terra, ou seja, das produções emocionais e psíquicas dos seres humanos, em particular daquelas emanadas de seus desencontros e contradições. Na prática, isto cria um círculo vicioso tal que a pessoa passa a se “alimentar” da própria culpa que produz.

Há na Bíblia Sagrada um herói da fé que experimentou a culpa em todas as suas dimensões. Seu nome é Sansão. O desfecho de sua vida, deste juiz de Israel, homem dotado de uma força sobrenatural, parece inicialmente trágico e melancólico. Sua história começa durante um ciclo de apostasia e cativeiro do povo Hebreu. É em meio a estas circunstâncias que Deus o levanta para iniciar o processo de libertação.

Numa primeira olhadela, Sansão nos parece um homem com muito carisma e pouco caráter. Mesmo tendo sido consagrado desde o ventre materno por um voto de Nazireu, parece ter passado a vida se esquivando de suas responsabilidades. Solitário, tem dificuldades em estabelecer vínculos afetivos e, mesmo estando à frente de seu povo durante 20 anos como juiz, não lhe serve como exemplo nem referencial. Vive de forma questionável, quebra princípios e é exageradamente temperamental, o que acaba lhe custando à morte da esposa e do sogro em um conflito com os filisteus.

Se fizermos uma análise simplista, apenas olhando para os seus feitos, sem discernir o que por vezes acontece no coração, teremos a percepção de que Sansão é um fracassado, alguém que terminou seus dias na situação mais humilhante e degradante que um ser humano pode experimentar. A Bíblia Sagrada, todavia, o inclui na listas dos heróis da fé do livro de Hebreus, onde estão homens da envergadura de Davi, Moisés, Abraão e Elias. Assim, penso, Sansão é avaliado não por aquilo que ele fez, mas, sobretudo, por quem ele por fim se tornou. O sábio do Eclesiastes diz que “melhor é o fim das coisas do que o seu começo”. Gosto também da frase que diz que “numa maratona, não importa como você começa, mas sim como você termina”.

O texto do livro de Juízes que relata o desfecho da vida de Sansão, diz que “mais foram os que ele matou na sua morte do que os que matou em sua vida”, ou seja, é na morte de Sansão, e não na sua vida, que ele se notabiliza como herói da fé. É apenas na sua morte que ele, enfim, cumpre o propósito para o qual lhe foi dada a vida, ou seja, ser a vara do juízo de Deus contra os filisteus. Esta análise não é minha, ouvi-a numa extraordinária mensagem do Ricardo Gondim.

Eu creio que, no final dos seus dias, Sansão era um homem atormentado. O capítulo 16 de Juízes nos revela o estado derradeiro de Sansão: “Os filisteus o prenderam, furaram os seus olhos e o levaram para Gaza. Prenderam-no com algemas de bronze, e o puseram a girar um moinho na prisão”. Nestas circunstâncias, olhando para sua trajetória de vida, para as escolhas dramáticas que fez, para o desprezo com o sagrado, para a decepção que ele se tornara para seus pais, para seu fracasso diante do próprio povo, para a traição de sua mulher e, finalmente, para o seu destrato para com Deus, o grande Sansão sucumbiu em meio à culpa.

Eis agora Sansão, cego dos olhos, amarrado a grilhões de bronze, girando em torno de uma roda de moinho. Mas é justamente em meio à calamidade, quando ele perde o que lhe é caro, a sua liberdade, a sua honra, a sua fama, as pessoas a quem ama, que algo começa a se construir em seu coração. A Sansão não resta mais nada a não ser olhar para dentro de si mesmo e tentar, através do arrependimento que pacifica o ser, encontrar, ainda que tardiamente, um propósito para sua existência. E é justamente a partir daí que Deus age para, na sua morte, matar mais inimigos do que ele fizera em toda a sua vida.


Para não perder a riqueza da história, me ative apenas ao versículo 21 para fazer uma pequena análise sobre o nascedouro e os desdobramentos gerados por processos de culpa, utilizando como “pano de fundo” a tragédia de Sansão. Vou usar seu estado “terminal”, com algumas alegorias, para trazer as idéias para o “nosso mundo”, para o “nosso tempo”.A primeira coisa que observo é que Sansão, após ser preso pelos filisteus, teve os seus olhos vazados – ficou cego. A metáfora me remete ao fato de que A CULPA ELIMINA NOSSA CAPACIDADE DE ENXERGAR A VIDA. Sansão agora era apenas um “campeão” humilhado, um homem sem direção, sem “visão”, sem sonhos, sem horizontes. Muitas das escolhas que fazemos na vida irão desembocar em processos de culpa. Decisões equivocadas, um temperamento iracundo que inviabilizou relacionamentos afetivos, a devassidão existencial encarnada na vida, uma separação conjugal – por vezes concretizada de forma humilhante e penosa, a dissolução da família, que é um dos maiores traumas que alguém pode sofrer, ou os que se sentem culpados pelo destino dos filhos, desterrados na vida, para os quais nunca foram referencial. O fato é que a culpa cega, consome a alma como uma comichão de dia e de noite, corrói o ser como a ferrugem “come” o ferro, nos impede de ver que ainda existem outras possibilidades! Por isso Paulo afirma: “se alguém está em Cristo é uma nova criatura; as coisas que foram feitas já passaram, agora tudo pode ser construído de outra forma”. (tradução livre).

Outra coisa que aparece no verso 21 é o fato de Sansão ter sido prezo pelos filisteus com algemas de bronze. Eis aí, de forma alegórica, uma outra conseqüência: A CULPA NOS ENCLAUSURA NUMA MASMORRA DE ANSIEDADE E MEDO. Sansão era um guerreiro imbatível, impetuoso, livre para ir e vir, mas agora, tornara-se apenas um homem preso a grilhões, indefeso, inseguro. As amarras que o prendiam não eram de bronze, mais “cordas de solidão”, de desespero, laços de agonia, “algemas de medo”. A culpa, não raro, aprisiona as pessoas em si mesmas e as impede de crescer para fora e para dentro. É como se a vida ficasse “parada naquela estação”, parafraseando Marisa Monte. Estes grilhões se manifestam de várias formas: como distúrbios emocionais a partir de experiências que produziram culpa (estupro, violência física, abusos); pessoas que se tornaram inseguras e que não conseguem se posicionar na vida, pois foram alvo de críticas mordazes, comentário maldosos, humilhações; pessoas que foram exploradas com manipulações e chantagens; religiosos que foram ensinados a partir de uma espiritualidade neurotizada, calcada em dogmas, ritos e mitos do “sagrado”, gente que desenvolveu uma fé patológica, doentia, que tem em Deus a figura do juiz acusador.

Finalmente, a partir do texto de Sansão, ainda que metaforizado para uma aplicação que nos seja mais próxima, vejo A CULPA PRODUZINDO INSUMO EXISTENCIAL PARA A DEPRESSÃO. Diz o texto que o Juiz de Israel além de ter os olhos vazados, de ter sido algemado a grilhões de bronze, foi acorrentado para passar seus dias a girar uma roda de moinho. É a vida perdendo por completo toda sua significação e propósito. Imagine a mesmice sendo servida como prato a cada manhã. Sansão agora é vítima de uma rotina pavorosa, pois ele é constituído escárnio antes os seus inimigos, figura de deboche para o povo. Nestas circunstâncias, sem perspectivas existenciais, aprisionado num calabouço de medo e dor, vivendo a mesmice de dias onde todo o apetite pela vida se foi, o que resta é abraçar a dessignificação completa do ser. Os dias de Sansão já não possuem cor, sabor ou propósito. Tudo o que lhe resta é dar voltas em torno de si mesmo, girar a roda de moinho que se desloca em torno de um mesmo eixo e que nunca lhe leva a lugar algum.

Como pastor, tenho encontrado gente consumida pela culpa. A culpa que roubou a visão da vida, que tolheu os sonhos, que subtraiu os desejos. Encontro gente que parou no tempo, não consegue se livrar de cenas que, como tatuagens, ficaram gravadas na alma, se alojaram até no subconsciente, são demandadoras de medos infundados, de patologias das mais diversas. Encontro ainda os que sucumbiram as suas próprias escolhas e decisões, os deprimidos, os caídos, os que beijaram o chão na lona do ringue da vida. Sim, eu os encontro aos montões, gente moída, excluída, sofrida, gente que perdeu o sentido de ser gente.

Eu creio que as feridas feitas na alma não cicatrizam nem rápida nem facilmente. O perdão é parte do processo de cura, sobretudo quando ele deve ser liberado para aplacar a dor daqueles que nos feriram. Por outro lado, ser perdoado é uma dádiva que a vida reserva para poucos, pois poucas são as pessoas suficientemente generosas para conceder a alguém que lhe magoou o direito de nascer novamente em sua vida. Aos culpados, como eu, deixo as palavras do profeta Isaías. Espero que elas sejam capazes, como foram para mim, de iniciar a grande jornada para dentro de você mesmo, na busca da pacificação e do perdão. “Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados”. Isaías 53:5

Carlos Moreira


07 outubro 2010

Torre de Papel

“Um túmulo basta agora àquele para quem não bastava o mundo inteiro”. Esta é a frase que está escrita no epitáfio de Alexandre III, Rei da Macedônia, dominador do  mundo, imortalizado pela história como “Alexandre o Grande”. 

O monarca, nascido em356 A.C., foi educado pelo filósofo Aristóteles, que lhe ensinou variadas disciplinas como retórica, política, ciências físicas e naturais, medicina, geografia, além de história grega. As conquistas de Alexandre são notáveis, pois ele era um homem profundamente obstinado, nada parecia lhe saciar o apetite. Dominou a Grécia, derrotou o império Persa e tomou o Egito.

Por fim, partiu para a conquista definitiva do oriente, tentando invadir a Índia. Todavia, com suas tropas cansadas de tantos anos de batalhas, decidiu regressar à Pérsia, numa viagem penosa na qual foi acometido de uma febre desconhecida que o levou a morte com apenas 33 anos de idade. O império que com tanto esforço edificou, começou a desmoronar, pois, só um homem com suas qualidades poderia governar território tão amplo e complexo, mesclado por povos e culturas tão diferentes.

Ambição é o desejo que o ser humano possui por algo grande e que planeja conquistar, muitas vezes não se importando, para atingir seu objetivo, em prejudicar a outros. O combustível da ambição é a ganancia, um desejo genérico de coisas grandiosas, como fortuna, glória, honrarias e poder. Segundo Edward Bach, “a ambição é uma negação da liberdade de toda alma. Ao invés de reconhecer que cada um de nós existe para desenvolver livremente suas próprias diretrizes, a personalidade ambiciosa deseja ditar, moldar e comandar, tentando, assim, usurpar o poder do Criador”.

Diante de prerrogativas tão poderosas, surge a questão: como sobreviver, no mundo em que vivemos, sem ter ambição? James Champy, autor do Livro “O Arco da Ambição”, afirma que “em nossa sociedade precisamos de pessoas ambiciosas, gente impelida por um poderoso desejo de mudar as coisas à sua volta e também o seu próprio destino”. Este mesmo paradigma está presente no mercado de trabalho. Empresas precisam encontrar pessoas capazes de gerar resultados, correr riscos, gente que coloque a carreira em primeiro lugar na vida e que, para atingir o sucesso profissional, esteja disposta a fazer qualquer sacrifício.

Vivemos dias muito difíceis no cristianismo. A infiltração da teologia da prosperidade no meio evangélico mudou o eixo de significação de vários pressupostos da fé e criou uma geração de pessoas dispostas a vencer no mundo, e não a vencer o mundo, como queria Jesus. Este novo contingente de crentes traduz-se numa repaginação das teses do sociólogo alemão Max Weber segundo a qual os calvinistas buscavam no sucesso econômico a evidência de sua eleição divina.

A Bíblia Sagrada, no episódio novelesco da Torre de Babel, mostra-nos, numa cultura tão distante e num mundo tão diferente do nosso, até onde pode ir à ambição humana. Ela conta-nos que em tempos remotos, num vale da Mesopotâmia, os clãs dos descendentes dos filhos de Noé – Sem, Cam e Jafé, em sua marcha para o Oriente, haviam, enfim, encontrado uma terra para se fixar. O lugar ao qual haviam chegado era a planície de Sinear, onde hoje é o Iraque. Noé e sua família traziam impregnada na memória a destruição causada pelo dilúvio, pois tinham sido testemunhas da grande destruição que sobreveio sobre os seres viventes em conseqüência do juízo de Deus. No mundo que havia sido destruído, o amor se afastara em definitivo do caminho dos humanos e a maldade, de todas as formas e meios, imperava absoluta.

Pois bem, eis aqui, diante dos olhos, estava a chance de um novo começo! Eis a possibilidade de escrever novos mapas, novas trilhas, de fazer projetos diferentes, de eleger outras prioridades para a vida, de semear valores e verdades no ser, de alimentar o coração de sonhos e de esperança. Quem não gostaria de uma oportunidade como essa? Diga-me com sinceridade, quem desprezaria isto?

O que passou, passou. Os erros cometidos podem ser concertados. As mágoas podem ser perdoadas. Os medos podem ser superados. As dores podem ser amenizadas. Agora, tudo pode ser feito de forma diferente! Mas não foi assim que aconteceu... Montesquieu diz: “Um homem não é infeliz porque tem ambições, mas porque elas o devoram”. Não era suficiente reconstruir a vida de forma simples e boa. Não era suficiente rever a existência, os valores, as escolhas, as prioridades e dar aos dias uma nova significação. Não bastava o coração pacificado e agradecido por tão grande salvação. Não, eles queriam mais. Eles queriam mais...

Foram em busca de saciar um tipo de apetite que só pode ser saciado pela morte, pois a boca dos ambiciosos só fica cheia com a terra da sepultura. Não bastava construir uma aldeia, com casas singelas, eles queriam uma cidade. Mas não bastava uma cidade, com sua agitação e efervescência própria, eles queriam nela uma torre. Sim, uma torre que os elevasse acima das nuvens. Mas não uma torre qualquer, mesmo que ela subisse além de toda altura possível ou imaginável, eles queriam uma torre que fosse até o céu, quem sabe, para sentarem-se junto ao Todo-Poderoso, ser como Deus.

Construíram uma torre, Babel, mas era apenas uma torre de papel. Diz o pensador que nada tem quem nada lhe basta. Eles queriam mais... Queriam escrever seus nomes na história, queriam notabilizar-se como empreendedores de uma obra única, inovadora, queriam empreender, ir aonde ninguém ainda havia ido. Os homens e seus sonhos de grandeza e poder... 

E você meu amigo(a)? O que você quer? O que tem buscado? Como ocupa os seus dias? No que está firmado teu coração? Qual é o teu maior compromisso na terra? O que você persegue? Quem sabe, talvez, você também esteja construindo “torres”. Quem sabe você está em busca de ter o nome reconhecido, ser capa da revista da empresa, ser entrevistado num jornal de grande circulação. Quem sabe você quer marcar a história com feitos notáveis, quer chegar ao topo da pirâmide, quer ir aonde ninguém ainda foi, ganhar dinheiro com alguma invenção, ser o criador de um novo negócio, um novo produto, escrever seu nome na história. Quem sabe??...

Sim, talvez você esteja nesta empreitada da vida, afadigado, atarefado, planejando, empreendendo, construindo. Sua “Babel” está em plena execução e, para torná-la real, nada mais lhe importa: família, amigos, nem mesmo Deus encontra tempo em sua agenda ocupadíssima. Tenho apenas uma coisa a lhe dizer, e digo-lhe porque já estive no “pináculo do templo”, transformando “pedras em pães. Sim, eu já fui workaholick – viciado em trabalho – profissional e de igreja – e o resultado foi desastroso. Perdi quase tudo o que tinha; perdi dinheiro, minha alma e minha fé. Apenas minha mulher me fez uma concessão de ficar comigo, caso as coisas mudassem. Não fosse isso, teria perdido também a família. Cuidado, amigo(a), para sua torre de “Babel” não se transformar numa torre de papel!

Cuidado, eu lhe digo, pois o desejo de construir uma vida boa e confortável é muitas vezes separado por uma tênue linha que nos revela, do outro lado da moeda, a escravidão que pode ser produzida pela compulsão desenfreada por conquistas megalomaníacas. Os filhos de Noé e seus descendentes não estavam satisfeitos com suas vidas. Queriam mais... E Deus percebeu tudo isso... Viu que os humanos não querem ser, mas ter, estavam alimentando o coração de ambições, não de verdades, queriam chegar até a “porta de deus”, que é a tradução do nome Babel.

De fato, eles queriam penetrar na morada do Todo-Poderoso, quebrar o limite entre o humano e o divino, o profano e o sagrado, a Terra e o Céu. Já não era a divindade que descera a Terra, agora, o próprio ser humano invadiria o Céu, e tudo graças à obra de suas mãos. Eu penso que é legítimo que nós possamos encontrar uma “planície” e nela nos estabelecer. Todos precisam achar esse platô na existência, esse chão, e Deus se agrada disso. Mas daí a construir “torres” há um abismo enorme.

Finalizo com o pensamento de Nietzche quando ele afirma que “um homem que aspira a coisas grandes considera todo aquele que encontra no seu caminho, ou como meio, ou como impedimento”. O Deus a quem sirvo nasceu numa manjedoura, não tinha onde reclinar a cabeça, morreu pobre e não deixou herança. No seu currículo de realizações apenas semeou o bem, amou pessoas, serviu transeuntes, acolheu desgraçados, deu-se em prol de muitos, entregou-se a si mesmo para que, na morte do “grão”, pudesse germinar vida, paz, reconciliação e esperança. Eis aí uma grande ambição...

Carlos Moreira

03 outubro 2010

Acompanhado pela Solidão

Publicação em Jornal de grande circulação: "Obrigada por razões profissionais, me transferi para São Paulo. Encontro-me sozinha e sem amigos. A cidade me sufoca, durante o dia, e me isola à noite num pequeno apartamento de bairro. Não sei o que fazer, não tenho a quem recorrer e, às vezes, chego quase ao desespero. Quero gente para conversar e para conviver. Ajude-me, por favor”.

Solidão é o estado de quem se encontra ou se sente desacompanhado ou só. É um sentir humano, complexo, e psicológico. Quem sofre de solidão vive como se estivesse fora da sociedade. Sabemos que o ser humano precisa se relacionar com outros indivíduos para aprender, desenvolver-se e afirmar-se como ser social. Quando isto não acontece, surgem os distúrbios de comportamento, principalmente nas pessoas tímidas, sensíveis, e nos que enfrentam problemas para expor idéias e interagir.

Eu não tenho dúvidas em afirmar que a solidão é um dos mais graves problemas da humanidade neste início de século XXI. O escritor francês André Malraux disse que nós integramos o que pode ser denominado de “a civilização da solidão”. Dados da Organização Mundial da Saúde apontam à solidão como um dos fenômenos psicossociais que mais tem levado pacientes aos consultórios terapêuticos e a dependência de ansiolíticos e antidepressivos. Raimundo de Lima, psicanalista e professor da USP, explica que “são muitas as situações geradoras de solidão: existe a solidão gerada pelo poder, a decorrente da riqueza, a dos mal casados, a imposta pelo trabalho automatizado, a da criança cujos pais são egoístas ou inafetivos, a dos velhinhos rejeitados, abandonados pelos familiares, a dos órfãos, a solidão da loucura, a dos enfermos hospitalizados, a dos excluídos do mercado de trabalho” e, citando Kublerross, a solidão da morte, pois morrer nos nossos dias é solitário, é algo que acontece no isolamento dos CTI’s, longe dos amigos e da família.

A Bíblia Sagrada nos fala sobre a vida de um profeta solitário, vivendo as agruras de seu tempo, mergulhado num mundo desprovido de propósitos e significados. Trata-se de Miquéias, um hebreu que viveu entre 704 e 696 A.C. Sua solidão não está associada a um processo de depressão ou a ausência de companhia. É algo muito mais complexo e profundo. O texto do capítulo 7 nos expõe o que chamo de “Esquematismo da Solidão” – o conjunto de fatores e situações que desencadeiam, inevitavelmente, situações de isolamento na vida. O “mosaico” da passagem nos põe diante da fragmentação do mundo, em todos os sentidos, algo significativamente parecido com o que temos em nossos dias. Neste contexto trágico, envolto numa profunda solidão, Miquéias ora a Deus e fala consigo mesmo opinando sobre o que observa na existência ao seu redor. É a partir de sua fala que identifico estas 5 “estações” da solidão.
Em primeiro lugar, a solidão como conseqüência de UMA ALMA QUE PERDEU O APETITE PELA VIDA. Cap. 7:1 “Que desgraça a minha! Sou como quem colhe frutos de verão na respiga da vinha; não há nenhum cacho de uvas para provar, nenhum figo novo que eu tanto desejo”. Eis a fala de quem sente que o tempo passou, que o melhor da vida se foi, que a “primavera da existência” findou, e pior, que tudo, seguiu despercebido. Existir, nestas circunstâncias, gera fastio de alma, pois a vida, de tão agitada que foi, nos privou de ver e sentir coisas boas e belas. Era a nossa agenda interminável, os compromissos inadiáveis, as reuniões, e-mails, metas a bater, tantas coisas que o melhor da vida fugiu de nós. Não vimos nossas crianças crescerem, não brincamos com elas no parque, não namoramos de mãos dadas na praça, não tomamos vinho ao por do sol na praia, ou dançamos a luz do luar. A existência se complexificou tanto, que a felicidade, coisa singela e simples, tornou-se algo tão sofisticado que a perdemos. Agora, é tarde demais...

Em segundo lugar, a solidão como resultado de UMA EXISTÊNCIA ESVAZIADA DE VALORES E CONTEÚDOS. Cap. 7:2 “
Os piedosos desapareceram do país; não há um justo sequer. Todos estão à espreita para derramar sangue; cada um caça seu irmão com uma armadilha”. Nietzsche afirma: “na solidão, o solitário devora a si mesmo. Na multidão devoram-no inúmeros”. Miquéias olha para a vida e vê que já não há mais gente boa na Terra, de coração verdadeiro, que não queira tirar proveito e vantagem de tudo. É como nos nossos dias... na sociedade das aparências, da imagem, dos relacionamentos reciclados, dos encontros dessignificados, onde todo mundo “se dá” a todo mundo e ninguém é de ninguém. Isto dilui a substância interior das pessoas, a alma vira sopa, os conteúdos se desfazem, os princípios se esvaem. Na busca da felicidade a qualquer custo – a tirania de ser feliz – tudo é possível, gente é tratada como coisa; coisa é amada como gente!

Em terceiro lugar, a solidão como subproduto da ALIENAÇÃO E CORRUPÇÃO SOCIAL. Cap. 7:3,4 “Com as mãos prontas para fazer o mal o governante exige presentes, o juiz aceita suborno, os poderosos impõem o que querem; todos tramam em conjunto O melhor deles é como espinheiro, e o mais correto é pior que uma cerca de espinhos”. Nada mais atual. A autoridade política pede a condenação por interesse. O Juiz aceita negociar sentenças por preço. O homem rico e poderoso faz conluios e negociatas. É o dinheiro do suborno na meia, na cueca, é a morte encomendada, é o extermínio dos jovens, é o descaso com as vítimas das avalanches e enchentes, com os viciados da cracolândia, com os indigentes dos hospitais, com os desterrados da vida, com os que separam o alimento nos lixões e disputam com urubus o café da manhã. É por isso que Sartre diz que “o inferno é o outro”, pois é o outro que ocupa o nosso espaço, quer o nosso cargo, rouba a nossa mulher, deseja a nossa roupa, quer a nossa vida! Mas Jesus, de forma diametralmente oposta, nos ensina, na parábola de “Lázaro e o Rico”, que é justamente o existir sem perceber o outro que é inferno.

Em quarto lugar, a solidão gerada pela DESCONTRUÇÃO DE RELACIONAMENTOS AFETIVOS E AMOROSOS. Cap. 7:5 “Não confie nos vizinhos; nem acredite nos amigos. Até com aquela que o abraça tenha cada um cuidado com o que diz”. Aqui a tônica é: não acredite em mais ninguém! Não confie nem mesmo nos seus companheiros, pois eles podem mudar de lado conforme a conveniência. Não se apegue nem com quem você faz amor, com quem partilha de sua cama, pois ele(a) pode lhe trair! Vai casar? Faça um contrato nupcial; jamais entre num regime de comunhão de bens; não acredite em relacionamentos duradouros, pois nós vivemos no tempo da impermanência. Veja os casais: eles possuem dois carros, duas casas, duas camas, dois computadores, duas contas correntes, amigos separados, lazer separado, projetos de vida separados. É a “solidão a dois” que poetizou o Cazuza.

Em quinto e último lugar, a solidão gerada pelo ANIQUILAMENTO DAS ESTRUTURAS FAMILIARES. Cap. 7:6 “Pois o filho despreza o pai, a filha se rebela contra a mãe, a nora, contra a sogra; os inimigos do homem são os seus próprios familiares”. Estarrecedor! Em nossos dias, o número de assassinato de pais contra filhos subiu assustadoramente. Os casais estão desconjuntados, as crianças são criadas a revelia, ou pelas babás, ou pela televisão. Some-se a isso os novos arranjos familiares surgidos a partir da segunda metade do século XX: as produções independentes – mulheres tendo filhos sozinhas e utilizando o “pai” apenas como reprodutor; casais de orientação homoerótica adotando crianças; filhos criados em mais de uma casa, por vezes, com dois pais e duas mães. Família hoje é apenas família nuclear – pai – mãe – filhos. Tios, avós, primos, já não fazem parte do contexto, são parentes mais do que distantes. Os idosos, não raro, são tratados sem respeito, perdem a dignidade, são lançados em depósitos humanos para “cuidados geriátricos”. O que esperar de uma sociedade que vive desta maneira?

Tenho uma pergunta a lhe fazer: você se sente só? Mesmo em meio a uma multidão de pessoas, imagina-se solitário? Então quero lhe indicar uma alternativa para mudar o panorama de sua existência. E aqui não me refiro apenas a eliminar o, talvez, aparente problema de você não ter uma companhia. Isto não é solução! Fernando Pessoa escreveu: “a liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo”. Também não se constitui alternativa, como alguns pensam, uma mudança radical na vida! Tenho acompanhado muitos que fizeram isto e pioraram sensivelmente seus estados existenciais. A saída não é mudarmos de casa, de profissão, de amor, de cidade, de igreja, de empresa, pois, mesmo fazendo tudo isto, o problema ainda persistirá. Débora Bötcher afirma: “Que importa morar aqui ou lá, quando se descobre que se está sozinho em qualquer lugar?”.

A única mudança que pode provocar uma revolução em sua vida não está associada a nada exterior, mas a algo que acontece do lado de dentro do ser, e só aquEle que pode ressignificar a vida é capaz de fazê-la. Vamos voltar a Miquéias... Observemos como ele, após constatar todos estes matizes expostos acima, conclui o seu pensamento: Cap. 7:7 “Mas, quanto a mim, ficarei atento ao SENHOR, esperando em Deus, o meu Salvador”. É em Deus que está à única alternativa para toda a calamidade humana, para todo desencontro, para todas as nossas interjeições e contradições. Se buscarmos isto como alguém que busca o ar que respira, poderemos experimentar o que nos promete o Senhor nas Escrituras “nunca te deixarei, jamais te desampararei”. A partir deste ponto, meu mano, toda solidão será apenas circunstância existencial, pois, na companhia dEle, quem poderá sentir-se sozinho?

Carlos Moreira

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É importante esclarecer que este BLOG, em plena vigência do Estado Democrático de Direito, exercita-se das prerrogativas constantes dos incisos IV e IX, do artigo 5º, da Constituição Federal. Relembrando os referidos textos constitucionais, verifica-se: “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato" (inciso IV) e "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença" (inciso IX). Além disso, cabe salientar que a proteção legal de nosso trabalho também se constata na análise mais acurada do inciso VI, do mesmo artigo em comento, quando sentencia que "é inviolável a liberdade de consciência e de crença". Tendo sido explicitada, faz-se necessário, ainda, esclarecer que as menções, aferições, ou até mesmo as aparentes críticas que, porventura, se façam a respeito de doutrinas das mais diversas crenças, situam-se e estão adstritas tão somente ao campo da "argumentação", ou seja, são abordagens que se limitam puramente às questões teológicas e doutrinárias. Assim sendo, não há que se falar em difamação, crime contra a honra de quem quer que seja, ressaltando-se, inclusive, que tais discussões não estão voltadas para a pessoa, mas para idéias e doutrinas.

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