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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.

15 janeiro 2014

Me Ensina esta Sina



Déjà vu, numa tradução literal do francês, “já visto”, é uma reação psicológica do cérebro que acusa que aquilo que vimos, ou sentimos, já aconteceu antes, sem, contudo, jamais ter ocorrido.

Nos trilhos do cotidiano, por entre os becos da vida, tenho encontrado os que sofrem com este mal. São amputados de afetos, solitários inveterados, irresolutos contumazes. Eles sofrem ao ar livre, mas ninguém os percebe. São Déjà vu, gente que geme em voz alta sem ser notada, como o jornal de ontem, levado pelo vento, elas vão e vem pelas calçadas. 

Quando a alma desembarca nesta estação, acredite, é porque a vida já esculpiu no mural dos dias muita dor. O tempo desfigura a face e o sofrimento enruga o ser. Existir assim, sem retoques, preto no branco, não é para qualquer um, só gente com duas dobras é capaz de suportar.  

“Eu já passei por isso”, eles me afirmam. Com semblante esmaecido, que denuncia ambientes internos vazios, falam páginas inteiras só com a expressão do olhar. “Sim, moço, eu já senti esta dor, eu já andei neste traço, já fui feito parte e pedaço, já me perdi até de mim”. 

Hoje eu sei que a amargura produzida pela dor da desesperança caleja o chão do ser e faz ferida no coração. Quem já sofreu com a navalha do destino, desde cedo, desde menino, sabe requentar lágrimas para servi-las no prato da ceia. O que não mata hoje, cala a esperança do amanhã que nunca chega. 

Na vida, ou você abre portas ou levanta paredes, ou se escancara para mundos, ou sucumbe asfixiado pelo sofrer. Nada há de novo debaixo do sol, tudo já foi feito, não há nada por se fazer, tudo é Déjà vu, na janela do trem, a paisagem é sempre a mesma, não importa o lado nem a direção, o trilho sempre leva ao mesmo lugar, sempre a mesma estação... 

Mas creia, há cura para esta chaga! E nem é preciso unguento ou cachaça, basta embeber o coração em alegria e untar a alma com gratidão. Sim, não há força maior na vida do que um vivente que insiste em sorrir sem motivo, em seguir sem aviso, arando a terra com as lágrimas do caminho, gotas de esperança semeadas no solo seco de cada amanhecer.

E assim, com portas e janelas abertas, a vida convida o sol para o café, faz sala e veste a mesa com toalha rendada de crochê, tecida fio a fio, que nem trabalho de aranha, que desenha na teia pintura tamanha, que artista nenhum consegue reproduzir. 

Aprende, portanto, a ser agradecido, bebe com singeleza o teu vinho e come graciosamente o teu pão, pois o sábio ensina que fazendo assim, agradarás a Deus. Vai, então, faze isto e viverás, pois querer mais do que isso é desejar o infinito, e basta a ti ser finito, sombra, silêncio e solidão. 

Carlos Moreira

10 janeiro 2014

Desgraçadamente Rico



Jesus nos fala sobre um homem infeliz no Evangelho de Lucas. Ele não era nem mendigo, nem enfermo, não padecia dos males comuns que matam os mortais. O problema do sujeito era excessos... Sim, ele sofria de um mal quase incurável: tornara-se insaciável.

A parábola nos relata a história deste amaldiçoado, um homem que tinha de um tudo, do bom e do melhor, mas sua alma não se saciava, era como pia que bebe água de torneira quebrada. De noite, ela sussurrava baixinho em seu ouvido: “é pouco, eu quero mais...”.  

Aquele tinha sido um ano especial por demais... Os celeiros estavam abastados, cheinhos até a boca, quase engasgados. E homem, em sua cadeira de balanço, olhava o resultado do seu penoso trabalho debaixo do sol. Era orgulho só! Dizia consigo mesmo: “Tudo isso fui eu que fiz”. Pitava o cigarro de palha, no entardecer do dia, e soprava a fumaça como chaminé de fábrica.

Mas havia em seu interior uma queimação, uma danação danada. Era comichão, dava tremelique e tudo o mais, suadez, cansaço e coriza. O homem olhava aquele amontoado de trigo no paiol e endoidecia: “É pouco!”, dizia, “Podia ter feito mais...”. Havia sobejos no campo, uma restinga de nada que se podia dar ao povo daquele lugar faminto, mas o peste não podia perder nem gota de suor.

Tenho observado a vida, apreciado um tipo de apetite que só se sacia com a terra da sepultura. Há homens que possuem tudo e são miseráveis de espírito, sim, são pobres, cegos e nus. Tristeza desgraçada é a alma não se fartar com nada, nem com ódio nem com amor, nem com pódios nem com dor. É como a garganta escancarada tentando beber a água do oceano inteiro, mas o mar todinho, para esse tal, não passa apenas de uma poça.

“Construirei celeiros ainda maiores e guardarei neles as minhas riquezas...”, afirmou o desenganado. E foi assim que desfez castelos, derrubou cercas, quebrou telhas, picotou o piso, botou tudo no chão, de riba até embaixo. Depois, sentou-se no alpendre, fez contas, planos, levantou paredes, alargou espaços, botou nova coberta e pintou tudo de encarnado, uma belezura que dava gosto de ver...

E foi assim que se foi o verão, cheio de canseiras e mesmices... Então descansou o desinfeliz! Com celeiros maiores, capazes de armazenar ainda mais trigo, ele agora dava-se por satisfeito. Mas até quando? "Não teria sido melhor fazer, pelo menos, um galpão a mais para eventualidades?", pensava. E se revolvia de um lado para o outro...

“Louco”, disse Jesus! Tens celeiros lotados e uma alma vazia. Possuis mais do que podes consumir e não tendo com quem repartir, de que te adianta tanta prosperidade? A riqueza só traz proveito se puder ser dividida. A produção de toda uma vida acaba apodrecendo nos celeiros do ser quando o fruto colhido se torna entulho de coisas no coração.

Carlos Moreira

09 janeiro 2014

Dublê Quase Perfeito



O “pecado” da Figueira era o disfarce. Era ter folhas e não ter frutos, estar decorada, mas não ter nada para oferecer, parecer apetitosa de longe, ainda que, de perto, estivesse pálida e seca.

Jesus não suportava esse tipo de estelionato. Ele sabia o quanto isso fazia mal ao ser. Aquela Figueira era uma arquetipia de Israel, uma representação daquela devoção que cumpria as etiquetas da religião enquanto, ao mesmo tempo, asfixiava as fontes da alegria de ser. Era o mal daquela geração: amargar existir apenas para fora. Sem frutos, a árvore secou. No correlato, sem amor, o que se pode aproveitar?

Hoje a Igreja é o Israel de Deus, a Kahal, a assembléia dos chamados à festa onde o perdão é servido como dádiva do amor no banquete da vida. Mas as dinâmicas da religião ainda continuam tão vívidas, privilegiam aparências, disfarces em plena luz do sol ao meio dia.

“Venha para cá!”, eles dizem. “Entre, sinta-se em casa. Aqui acolhemos a todos, sem distinção, sem prediletos”. Mas ao passar pela porta, você é orientado a pegar a sua máscara. Coloque-a sutilmente, ajuste-a levemente e sente-se confortavelmente. Aguarde um pouco e você logo ouvirá: “Não se incomode, aqui todo mundo está escondendo alguma coisa, aqui todo mundo é perfeito”.

Então, sorria! Seja o mais artificial que puder. Todos estão olhando e todo mundo sabe de todo mundo. No fundo, é como um grande baile onde a insensatez é senso comum. Você é fraudulento? Não se importe! Pareça honesto, fale de princípios, defenda a honradez! Nas próximas duas horas de “culto”, você pode ser quem quiser, só não seja você mesmo.

Você é gay? Não se atormente! Mas seja discreto, sente-se como macho, pareça um “pegador” e tudo estará bem. Se tiver um relacionamento, cuidado! Não cometa deslizes! Não vá esquecer de usar os artigos e pronomes sempre no feminino. Ademais, que importa que se saiba a verdade? Aqui, entre os “santos”, não pode haver “manchas” ou “máculas”. Deixe os incômodos para a dura realidade que está do lado de fora...

E assim, de disfarce em disfarce, os dias vão se arrastando... O mentiroso, como num passe de mágica, torna-se assertivo. E no picadeiro do mercado da fé, o fofoqueiro é confiável, o avarento, generoso e o hipócrita, autêntico. Até eu, que sou lixo, sinto-me são neste meio... Quisera, todavia, ser apenas pecador...


Mate-me, se preciso for, mas diga-me sempre a verdade na cara, crua e rara, verdade verdadeira! Não me deixe viver no engodo, não me deixe sucumbir no engano de mim mesmo. Livra-me da embriaguez de me imaginar protótipo de idealizações, projeto perfeito, quase rarefeito, de um Robocop espiritual que, na melhor das hipóteses, não passa de manequim de espantalho travestido de uma espiritualidade arrotada boca a fora, mas jamais encarnada como vida no chão do mundo.  

Carlos Moreira

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