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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.
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29 março 2017

Me Engana que Eu Gosto!



“Por isso, como é o povo, assim será o sacerdote; e castigá-lo-ei segundo os seus caminhos, e dar-lhe-ei a recompensa das suas obras”. Os. 4:9.

A fenomenologia congregacional nos ensina que o povo é um reflexo do seu pastor, eles possuem, portanto, o pastor que lhes cai bem, assim como, da mesma forma, o filósofo francês Joseph-Marie Maistre afirma que “cada povo possuí o governo que merece”.

Sim, eu diria ainda mais, a congregação é capaz de produzir um tipo de pastor que nada mais é do que o reflexo de sua própria face, ele é a expressão visível de aspirações e frustrações invisíveis, a propagação material das imaterialidades e latências da alma, das vaidades e taras, dos medos e opressões, da malícia e dos juízos, o produto consciente do inconsciente coletivo.

Assim, quanto mais doente é o povo, tanto mais será o pastor, quanto mais ambiciosa seja a congregação, mais volúpia por dinheiro terá o seu líder, quanto mais fetiche tenham os membros na magia espiritual, mais manipulador do sagrado será aquele que os conduz.

Ao final, o que se vê nestas igrejas é um grande engodo, todo mundo traindo e sendo traído, os encontros não passam de teatro a céu aberto, o baile de máscaras do qual falou Soren Kierkegaard.

Fuja disso! Busque quem reflete a face de Cristo, não a sua própria, muito menos a daqueles que o ouvem, saia de perto de todo ajuntamento onde o pastor se apresente como homem poderoso, capaz de fazer a agenda de Deus na Terra, ou de produzir milagres com dia e hora marcada. Saia daí! Isso lhe fará um mal sem precedentes! Corra para longe de todo aquele que se auto-promove, dos que falam com a boca e destroem o discurso com atos perversos, dos que esbravejam e praguejam para amedrontar incautos e neófitos.

Busque, de alguma forma, os que andam com bacias e toalhas para lavar os pés dos irmãos, os que trabalham incansavelmente sem buscar a recompensa financeira, os que não querem honra nem desejam bajulações. Busque pastores que se pareçam com Jesus, que sejam mansos, que tratem da dor humana com misericórdia, que acolham os necessitados e protejam os indefesos e diferentes.

Faça isso e sua alma viverá, você jamais será confundido, nem terá seu coração esmagado pela dor. Isso lhe diz quem sabe o que é andar no chão dos dias, quem já viveu o bastante para discernir que não há bem maior do que a paz e a alegria de ser conforme a imagem do Filho Unigênito de Deus, e não o reflexo tosco de qualquer outro homem debaixo de sol.


Carlos Moreira




24 janeiro 2017

Desculpe o Transtorno! A Falha... É Toda Minha.



- Sim, me desculpe por lhe falar a verdade, de forma bem objetiva, e as vezes com certa dureza, ainda que eu saiba que você prefere palavras amenas, discursos adocicados, falas positivistas, retórica triunfalista, algo que catapulte você para enfrentar a semana que já é tão difícil, uma espécie de ilusão consentida, um “me engana que eu gosto”.

- Me desculpe por não roubá-lo constrangendo-lhe para que você dê, com medo, 10% do que ganha para fazer a engrenagem religiosa funcionar. Eu sei que você gostaria de se sentir seguro porque está pagando a taxa da fazenda celestial, impermeabilizado contra o mal, e também estou informado que você precisa de coisas e, fazendo esta barganha, acha que poderia consegui-las com Deus, mas eu não posso lhe enganar, nada disso está no Evangelho. Se você quer ajudar, a sua oferta espontânea é bem vinda, mas apenas isso.

- Me desculpe por eu não ter montado uma igreja com uma agenda interminável de eventos e movimentos, uma espécie de academia aeróbica espiritual, onde mal acaba um programa e já começa outro, tudo para que você pense que está acumulando pontos no jogo da salvação. Eu lhe peço perdão por estar investindo mais no ensino e na formação de uma consciência que seja robusta o suficiente para você suportar as grandes crises da vida que, certamente, chegarão.

- Me desculpe por eu insistir que você abra a sua casa e faça discípulos, ajudando as pessoas a caminhar no cotidiano da vida pondo em prática os ensinamentos da fé. Sim, eu sei que é algo que invade nossa privacidade, que demanda esforço para preparar algo legal para os participantes, que prescinde de tempo para aconselhar os bebês espirituais, mas igreja é isso, não aquela reunião impessoal do domingo, aquele encontro onde a gente mal se fala, ainda que ele tenha outros objetivos, é insuficiente para formar Cristo em você e nos demais.

- Eu lhe peço perdão por estar constantemente lhe admoestando para cuidar dos pobres, dos necessitados, para colocar o seu semelhante na agenda. Sim, sei que na sociedade que vivemos há expurgados e amputados sociais, invisíveis ao Estado e a Igreja Institucional, mas eu preciso lhe lembrar que Deus escolheu ser amado no outro e que não há salvação se ela não alcançar todo homem e o homem todo.

 - Por favor, me desculpe pelas minhas pregações, sempre temas agudos, ligados aos acontecimentos do dia a dia, palavras que desafiam você a sair da inércia, da letargia, do anestesiamento de mente e coração. Eu sei que você adora mensagens sobre o amor, a esperança, a paz, e temas do Velho Testamento que tratam de vitória e prosperidade, mas o apóstolo Paulo me ensinou que tenho que pregar sobre “todo o conselho de Deus”, conforto e confronto, de tal forma a preparar você para as dinâmicas próprias da vida.

- Eu também quero lhe pedir perdão por estar tentando lhe conduzir a Verdade que não amordaça, que não pune, que não cerceia, que não reprime, que não esmaga, que não proíbe nem faz de você apenas um boneco da religião, um molde fabricado numa igreja-indústria que serializa a mente e o comportamento das pessoas. Sim, eu sei que pensar por si mesmo é algo assustador, porque é mais fácil que um sacerdote-intermediário-do-sagrado diga tudo o que a gente deve fazer, mais Jesus nos chamou para andarmos por nós mesmos e vivermos o Evangelho como Graça que nos liberta dos velhos preceitos e ditames da Lei.

- Me desculpe por não ser aquele pastor que você gostaria, parecido com o estereótipo da maioria, com voz empostada, roupa vistosa, oratória rebuscada, abraços e sorrisos politiqueiros, que se esconde atrás de um cargo clerical, que não bebe, nem se diverte, que não vai à festas, nem senta na mesa do bar. Eu lhe peço perdão por não tentar ser o super-homem, esmagando minha consciência e reprimindo toda a minha humanidade para você se sentir mais seguro com uma imagem de “homem de Deus”. Também aproveito para me retratar por não ter um casamento perfeito, uma filha perfeita, por eles não serem também “pastores” como eu, pois o chamado foi apenas para mim, minha família é feita apenas de gente boa, como você, não uma elite sacerdotal que herdou os meus atributos ministeriais.

- Perdoe, meu mano(a), por eu não enfrentar "demônios" em espetáculos circenses, não fazer demonstrações de que eu sou poderoso, brincando com potestades espirituais, me desculpe por não banalizar o milagre de Deus, nem tratar a cura da dor e da enfermidade humana como evento com dia e hora marcada, não consigo ser charlatão, nem alienar pessoas com efeitos spilberguianos, pirotecnias da religião pós-moderna.

- Peço aqui, de público, perdão a você que faz parte da Estação por nós não sermos uma mega-igreja, com várias bandas gospel, com muitos cultos, com milhares de “convertidos”, com um network fantástico e um status quo poderoso. Nós jamais seremos grandes, nossa mensagem é subversiva, é contra-cultura religiosa, não atrai multidões. Assim como aconteceu com o Galileu, nós sempre somos rechaçados pelo “sinédrio” religioso de plantão, que nos chama de libertinos, hereges e desviantes. Aconteceu com nosso Senhor, e acontece conosco também.

- Desculpe-me, meu irmão, por estar construindo uma igreja onde cabe gente diferente, onde todos são, de fato, bem vindos, e podem entrar e sair sem terem sua privacidade invadida, um lugar para punks, ripies, gays, exotéricos, ateus, agnósticos, e outros grupos que, normalmente, não encontram espaço nos ambientes religiosos. Eu sei que você gostaria de ter uma ambiente só com gente de pedigree, que fala e se veste de forma a se adequar ao manequim denominacional, mas aqui as pessoas são livres para ser o que são, sem disfarces e sem se constituir um estelionato existencial.

- Por fim, mas não menos grave, também peço que me desculpe por não me envolver nem estimulá-lo a participar de “marchas para Jesus”, junto com tele-evangelistas famosos e políticos evangélicos, nem ir a shows gospel, nem fazer congressos trazendo “big shots” do mundo religioso, onde temas como "batalha espiritual", "vitória e prosperidade", “cura e libertação” e "maldição hereditária" são abordados. É que eu percebo que tudo isso é comércio do sagrado, com vistas a enriquecer financeiramente uma elite espiritual, e nada promove em termos de crescimento genuíno e consistente, uma vez que o que ensinam e enfatizam choca-se, flagrantemente, contra o Evangelho.

E assim, por ser o que sou e pregar o que creio, peço-lhe perdão, mas informo que nada será mudado, pois aquele a quem eu prestarei contas, no último dia, está sempre me dizendo “fala e não te cales!”. Um beijo em seu coração!

Carlos Moreira


01 maio 2012

“Sabe lá o Que é Não Ter e Ter Que Ter Pra Dar?”




“Convém que Ele cresça e que eu diminua”. A frase lapidar de João Batista é, além de desconcertante, inquietante. Quem, de sã consciência, fala um negócio desses? Quem, responda-me honestamente, quer diminuir, quer ceder o lugar, a vez, o espaço, o status? Eu lhe respondo: não sei. Só sei que eu não. Pelo menos, ainda não...

Mas talvez alguém me questione: “olha, abrir mão, nesta perspectiva, é deixar que Jesus se sobressaia!”. E eu respondo: eu sei! E é por isso mesmo que complica, porque Jesus não está atrás de nada, não precisa de nada, não tem que provar nada, não tem que defender nada, não tem que lutar por nada! Isso tudo é coisa minha, é dinâmica pequena e mesquinha da minha existência, da minha luta por um lugar em baixo do sol, da minha necessidade de parecer, de me fazer perceber, de buscar quem possa me reconhecer e, em tudo isso sentir, ainda que por um pouco, prazer.

Há algo me apertando a garganta... É uma vontade enorme de chorar, de gritar, de correr, de dizer que está difícil, “punk” mesmo, sofrido, doído, ou como se diz aqui por estas bandas, ardido. E eu preciso confessar! Preciso lhe dizer que não sou o que gostaria de ser, ou, melhor, o que deveria ser... Não há coisa pior do que você frustrar a você mesmo. Frustrar os outros já se tornou rotina, mas a pior decepção é quanto você vê que não consegue ser mais do que já é, chegou ao limite, e, ainda assim, é muito pouco... Lembro de Clarice Lispector: “oh chega de decepções, estou tão machucado, me doem a nuca, a boca, os tornozelos, fui chicoteado nos rins”.

Olho para a igreja... Vejo os “personagens” realizando “malabarismos” no “teatro de marionetes”. Sim, eles fazem mesmo o “show” acontecer. E como sabemos, “the show must go on!”. São todos “figurões da fé” lutando entre si de forma despudorada, acusando-se mutuamente, seja em secreto, seja nos bastidores eclesiásticos, seja de maneira aberrante na mídia, pra todo mundo ver. É gente muito “poderosa”, que construiu o seu próprio “reino”, mas que nunca esteve envolvida com o Evangelho, nem com Jesus de Nazaré, nem muito menos com o Reino de Deus.

Incomoda-me o personalismo, a divinização do humano, “pastores” sendo alçados a categoria de pop-star, gente que nunca teve nem referência nem consciência de que foi chamada para lavar os pés da igreja, para servir os que fazem o Corpo de Cristo. Sim “ministros”, nós devemos tomar os últimos lugares, tornarmo-nos os menores entre os menores, estarmos entre os que carregam as maiores cargas, os que sofrem em silêncio, que são perseguidos, injuriados, caluniados, e ainda termos a certeza de que nos tornamos alvo fácil para aqueles que abrem a boca com o fim de destruir em um mês o que foi construído com lágrimas em vinte, trinta anos.     

Domingo eu acordei cansado... Já faz parte... Dormi já era madrugada fazendo a mensagem. É a falta de tempo, não de zelo. Tinha vontade de tudo, menos de ir pregar. O corpo pesava duas toneladas, a cabeça doía, os pés estavam fartos de chão e os olhos cansados de tanto ver. Tive vontade de ficar dormindo. Pensei em ligar para alguém para me substituir. Mas levantei-me e fui... Tenho dúvidas se deveria. Não sei se era eu que estava ali. “Sabe lá o que é não ter e ter que ter pra dar?”. Encarnei com todos os matizes a poesia de Djavan. Estava parado na “esquina” e, diante de mim, se encontravam minha consciência e minhas limitações.

Fui aos trancos e barrancos. Deus usou o que sobrou de mim. Era a contradição em pessoa. “Como isso é possível?”, perguntava-me como que repetindo um velho mantra. Lembrei que não sou eu, mas Ele em mim... Ainda assim... A comunidade em que sirvo já me conhece. Sabe que não faço “caras e bocas”, que não sou performático, que evito disfarces, salamaleques. Era só olhar para ver que eu não estava bem. Mas tinha de estar. Tinha? Não sei, acho que tinha! Mas não estava... Como disse o Cáio, “Eu sou Biribá, não nasci para ser Fruta do Conde”.   

Se quiseres mesmo saber o que sou, sou iconoclasta, estou em busca de desmascarar e destruir os “ícones”, os “ídolos”, as “imagens”. E faço isso começando comigo mesmo, me expondo e abrindo o meu ser para que saibas que não sou o que pensas, nem mesmo o que penso eu, pois na verdade sou pó e podridão, poeira e solidão. Sim, não fosse a Graça que sustenta os caídos, sequer me levantaria da cama, amargaria existir de mim para mim mesmo.

Desculpe-me se de alguma forma te choquei... Faz parte do meu “show”... É melhor que saibas por mim mesmo sobre mim do que pelos outros, que de mim nada sabem além do que fragilmente conseguem perceber. Mas eu sei que sou mais do que o que eles podem ver e menos do que eu gostaria de ser. “That´s all folks!”. Quem lembrar vai entender... “E se quiser saber pra onde eu vou, pra onde tenha sol, é pra lá que eu vou...”. Jota Quest.  

Carlos Moreira

16 janeiro 2012

Quando o Pastor Vira Fetiche!




O único lugar que eu conheço em que o blefe é bem-vindo é no jogo de pôquer. No mais, na vida cotidiana, blefar é plantar hoje a desgraça que será colhida amanhã. Creia-me: não há coisa pior do que transformar a existência em disfarce, teatro do real, um viver constituído de risos e falas, mas que, ao final do ato, não tem como ser esquecido ou apagado.

Tristemente, todavia, esta tem sido a vida de muitos pastores e pregadores do Evangelho. Uma vida de disfarce, baseada no blefe, um jogo de cartas no qual o jogador sempre perde.

E por que digo isso? Porque, com certa frequência, tenho escutado as dores de muitos deles. É gente que se tornou vítima da engrenagem da Igreja, foi engolida pela máquina que a tudo devora, tornou-se fim, e não meio. Pessoas que imaginaram, parafraseando Gilberto Gil, ser “o super-homem que viria nos restituir a glória, mudando como Deus o curso da história...”. Mas, felizmente, para eles mesmos, não o são.    

O que parece ter acontecido é justamente que eles esqueceram que Jesus, sendo Deus, quis ser homem e, sendo homem, agiu e sentiu como homem: teve sede, fome, medo, dor, tristeza, depressão, angústia. Mas, se chorou ou se sorriu, o importante é que emoções ele viveu, todos os matizes que os humanos caídos vivem; só uma coisa não fez: jamais pecou.

Preocupa-me o estado em que as coisas chegaram. Pastor dissimulando, vivendo crises de toda a sorte e tendo de sorrir para a plateia que pede bis! Pastor achando que é de aço, e não de osso, imaginando, equivocadamente, que tem sempre que ter a palavra correta, a mensagem perfeita. A família do pastor não pode ter crise – imagina? Sua mulher tem de ser o baluarte da santidade e dos bons costumes. Os filhos do pastor precisam encarnar o desafio de serem anjos em miniatura, os quais, temporariamente, estão impossibilitados de voar por ainda não terem asas.

A verdade é que pastor, no meio evangélico se tornou fetiche! E aqui uso a palavra do ponto de vista de sua concepção filosófica, baseado nos pressupostos do filósofo francês Comte, pai da sociologia e do positivismo. Nesta perspectiva, o homem de Deus é concebido como “entidade supranatural”, na qual se buscam conceitos e respostas absolutos.

Ora, isso atribuído a Deus está bem-posto, pois Deus de fato é absoluto. Nós, porém, somos o relativo do relativo, mas a questão é que a igreja desviou o foco do eterno para o temporal, e transferiu aquilo que é apenas ligado ao transcendente para o imanente, cujas características são antropomórficas.

Sabes, entretanto, o que sois? Parafraseando Chaplin, no seu “O Grande Ditador” – homem de carne e sangue, ainda que imagines poder seguir a rotina da máquina composta de fios e ferro!

Quem te disse, pastor, que você não pode entristecer-se ou deprimir-se, que não pode chorar, sentir desânimo, nem incorrer em equívocos? Quem te sentenciou a existencializar o casamento perfeito, a não ter filhos problemáticos, ou a nunca experimentar um revés financeiro? Quem, diga-me, ousou su-por que tu não sofres de crise de fé, não tens medo, ou que todo domingo não estais atormentado tamanha é a tua vontade de celebrar 2, 3 cultos? Quem te disse, “pequeno ser de barro”, que és quase perfeito, que vives no vácuo abissal entre o homem caído e o Deus santo como se fosses um híbrido?!

Deixo-te, então, para teu consolo – quem sabe? – a poesia de Djavan. Não, não é um dos Heróis da Fé de Hebreus 11, nem teólogo de sucesso, nem mesmo evangelista de multidões, mas apenas alguém que, com sensibilidade para discernir as ambiguidades do ser, suas idiossincrasias, conseguiu colocar em sua canção o que vive o homem debaixo do sol.

Só eu sei, as esquinas por que passei...”. Pastor, tu és homem, tu és pó, tu és falho, e só tu sabes as profundas contradições que coexistem em ti. Acorda homem! Deixa este trono fictício no qual tu, equivocadamente, te assentastes, e vem novamente habitar entre os mortais. Lembra-te do que disse o escritor irlandês Oscar Wilde: “Onde há sofrimento, há terreno sagrado”.

Só eu sei, os desertos que atravessei...”. Pastor, tu és beduíno, és hebreu errante, homem de tendas! Não te deixes aprisionar pela fixidez da vida, pelos confortos da contemporaneidade. Não plante nada que crie raízes profundas, pois deves sempre estar preparado para levantar teu “acampamento” e partir, ao sabor do vento, para onde quer que fores enviado... Sim, quando as fontes secarem, deves ir em busca de outros mananciais. Não esqueças o que nos ensina o pensador Thiago Paes Piva: “No deserto da vida, eu me sinto afogado em uma miragem”.

Sabe lá, o que é morrer de sede em frente ao mar...”. Não te iludas, pastor, tu és carne! Teus desejos são naturais, tuas necessidades são reais, tuas vontades são legítimas! Não é pecado desejar algo que se ama, mas apenas materializar aquilo que faz mal ao ser. Fazes o que puderes, mas sê prudente, não caves uma cova para a tua própria alma. Assim, aconselho-te o que nos ensinou o psicanalista Sigmund Freud: “É escusado sonhar que se bebe; quando a sede aperta, é preciso acordar para beber”.

Sabe lá, o que é não ter e ter que ter pra dar...”. Atenta, homem, que este é teu maior desafio. Ninguém pode dar o que não tem! Admites, então, que tu te esvazias, que tua alma seca quando exposta ao “calor” da vida, que teu coração pedra pela experimentação das dores que brotam do simples fato de existir. Por isso, torna-te gente! Abandona esta enfadonha rotina de ser apenas existente. E lembra-te de Publílio Siro, escritor latino da Roma antiga, “a necessidade não obedece à lei; ela faz a lei”.

No mais, segue a cartilha na qual fostes ensinado: ama a Deus, obedece às Escrituras e serve ao teu semelhante. Vista-te com vestes de louvor e unjas tua cabeça com óleo! Jamais te falte o vinho da alegria, a gratidão e o contentamento, a paz celebrada como oração. Sejas, então, homem, como os demais! Desistas, antes que seja tarde, de ser Deus! Isto, para ti, seria penoso e infrutífero trabalho...

Carlos Moreira

23 dezembro 2011

Quanto Pior, Melhor!

Nos últimos 15 anos, trabalhando como executivo, aprendi muita coisa. Na área da Tecnologia a competição sempre foi bastante acirrada, pois o mercado é muito dinâmico, as margens são apertadas, há muitos players, os produtos são commodities... Sobreviver neste ambiente é tarefa hercúlea!

A boa notícia, entretanto, é que percebo claramente nos últimos tempos um movimento em busca de padrões éticos que não “canibalizem” a atuação das empresas na prospecção de clientes. Há, inclusive, Companhias que não só observam estes padrões mais os tornam determinantes na hora de escolher com quem vão trabalhar.

Quem dera fosse assim também entre aqueles que trabalham no Reino de Deus... Confesso, todavia, com tristeza, que o ambiente eclesiástico – desde os históricos, passando pelos reformados, chegando aos pentecostais, adentrando entre os pós-pentecostais e até em meio aos Católicos Romanos – tem se tornado um lugar insalubre em suas propostas, práticas e, sobretudo, no convívio entre seus líderes.

O que se vê na mídia em geral é gente atacando e sendo atacada, literalmente se “devorando”, auto-proclamando-se mais “espiritual”, mais bem preparada, com maior “pedigree”, portadora de “poderes do alto”, pois em seus “cultos” existem mais “conversões”, “milagres”, “libertações”, “curas” e até “exorcismos”! É a “tenda dos milagres” personalizada, pregando um “evangelho”, não raro, distorcido, o qual se tornou produto “enlatado” para consumo de gente desesperada. Estes correm o risco de se tornarem traficantes do Sagrado, intermediando “benefícios” do céu na Terra através do “cartório-igreja” em nome do qual, supostamente, estão autorizados a prestar tal “serviço”.

Assisto periodicamente pastores se mutilando, falando mal do ministério alheio, acusando o outro de ser embusteiro, falsário, mentiroso e até bandido! Ora, é óbvio que aqui não estou tratando dos que fazem a apologética da fé, nem muito menos do caráter profético relativo à denúncia dos extravios, mas das “guerrilhas” que acontecem entre os players do “mercado da salvação”, cada um querendo encher mais a sua “botija”, defender sua fatia do “market share” dos perdidos, e isto sem qualquer critério ético ou moral!

Os “pastores” estão neurotizados, buscam viabilizar seus próprios ministérios, tentam catapultá-lo na TV, nas revistas e outras mídias, como se isso fosse possível! Igrejas selecionam ministros por sua formação, currículo, por falarem mais de um idioma, e não por sua piedade, devoção, vida de oração e santidade. No fundo são crianças atrás dos 3 P’s: palco, púlpitos e platéia. Ora, estes ainda não aprenderam como convém saber, e pensam que podem ter alguma autoridade sem que dos céus lhes seja dada. A estes digo: quebrem suas algemas de microfones e destruam seus palanques de pregação, tomem sua cruz e sigam-no!

Quero dizer duas coisas: a primeira é o texto de Paulo aos Filipenses 1:18: “Mas que importa? Contanto que Cristo seja anunciado de toda a maneira, ou com fingimento ou em verdade, nisto me regozijo, e me regozijarei ainda”.

Paulo não se preocupava com QUEM pregava, mas apenas com O QUE se pregava. Deus tratará do mensageiro, e esse problema não é nem meu nem seu! Devemos ficar atentos quanto a eventuais desvios do “eixo” das Escrituras, da chave hermenêutica que é Jesus, pois ainda que um anjo dos céus nos pregue outro Evangelho que não seja o de Cristo, este será maldito e mentiroso! O resto, é com Ele!

A segunda coisa é o texto de Lucas 9:49-50: “E, respondendo João, disse: Mestre, vimos um que em teu nome expulsava os demônios, e lho proibimos, porque não te segue conosco.E Jesus lhes disse: Não o proibais, porque quem não é contra nós é por nós”.

Os discípulos estavam preocupados que a “franquia do Divino” estivesse saindo do controle deles, pois pensavam em cartelizar o Sagrado. Eles imaginavam abrir a “Jesus SA”, uma companhia para realizar a divulgação do Evangelho. Mal sabiam, entretanto, que transeuntes anônimos levariam a Boa Semente de Jerusalém para os confins da Terra, disseminando a mensagem de que “Deus estava em Cristo reconciliando com Ele o mundo e não imputando aos homens os seus pecados”.

Sei que muitos dos que aí estão são “pastores-lobos” e que torcem pela desgraça dos outros, buscam “despojos” daqueles que, por algum motivo existencial, enfrentando perdas e danos, naufragaram em seus ministérios. A tônica deles é: “Quanto Pior, Melhor!”. Vejo gente conspirando, amaldiçoando, mentindo, destratando, irmão contra irmão, um espetáculo que leva o mundo a não querer jamais fazer parte de nossa “confraria”, pois, diante de tanta aberração, só há algo que possa ser afirmado: “vejam como eles se odeiam!”.

A mim, todavia, que importa? É certo que compareceremos diante do Tribunal de Cristo e, diante dEle, quem irá dissimular ou mentir? Naquele momento teremos de dar contas de tudo que tivermos feito por meio do corpo, pois Ele sonda os segredos de nossas almas, os propósitos de nossas motivações, os conteúdos de nossos corações, nossos esforços e labor. Por isso, fique tranqüilo, e deixe Deus ser Deus!


Carlos Moreira


03 dezembro 2011

O Que é Pior: o “Profeta” que Mente ou o Pierrô que Fala a Verdade?



Eram seis horas da manhã quando o telefone tocou interrompendo o meu sono. Já é um hábito meu manter o celular sempre ativado, pois nunca se sabe quando será preciso atender a um chamado de urgência de alguém em apuros.

Quando o telefone tocou e eu vi o nome escrito no visor do aparelho, já imaginei do que se tratava... Atendi com voz rouca, pois estou doente. Do outro lado, havia alguém chorando. A voz embargada tornava-se ainda menos inteligível pelo estado de embriaguês. Sim, meu amigo estava bêbado! Saindo de uma festa, desencontrado de sua alma, sentia-se sozinho no meio da multidão.

“Amigo!”, disse ele, “Eu acabei de pregar para os seguranças da festa. Sei que estou bêbado, mas falei do amor de Deus e da misericórdia de Jesus. Agora estamos todos aqui chorando: eu, porque não deveria ter vindo a esse lugar, esse ambiente não pode me acrescentar mais absolutamente nada, simplesmente não faz parte de mim. Eles porque, mesmo sóbrios, estão esvaziados de significados, estão vivendo sem um propósito, sem conteúdos e valores que possam ressignificar suas consciências e trazer-lhes vida ao ser”.

Não havia muito o que eu pudesse fazer àquela hora da madrugada, isso sem contar que eu estava com febre. Dei-lhe algumas orientações e voltei para a cama. Não consegui mais dormir... Levantei e liguei a TV. Em certo canal, um “apóstolo” estava pregando a palavra de Deus. “Que loucura”, pensei! Nada do que ele dizia era Evangelho, tudo estava torcido para atingir seus propósitos: enganar os incautos, iludir os desesperados e alienar os desiludidos. Em suma: “quebrar o caniço esmagado e apagar o pavio que ainda fumega”.

Mudei de canal. Essa gente me dá náuseas! Caiu num filme do “Harry Potter”. Era bem melhor! Prefiro o feiticeiro de “verdade” ao de mentira... Fiquei vendo as imagens na tela, mas minha mente não estava ali... No meu íntimo fazia conjecturas: “O que é menos danoso ao ser: um falsário sóbrio ou um bêbado verdadeiro? É melhor ouvir a mentira do Profeta, que fala sem ter ingerido álcool, ou a verdade do Pierrô que passou a noite “enchendo a cara?”.

As perguntas se amontoavam em mim... Lembrei do meu filósofo favorito, Nietzsche: “O fantasioso nega a verdade para si mesmo; o mentiroso apenas para os outros”

Triste o povo que não tem profetas para admoestá-lo! Em meio à aridez humana de nossos dias, “quando tudo pede um pouco mais de calma, até quando o corpo pede um pouco mais de alma”, prefiro ouvir as “loucuras” do bêbado às “verdades” do “santo”. Não obstante, ambos estão errados: o primeiro em seu proceder; o segundo em suas intenções.

Do fundo do coração, todavia, acho mais fácil a pregação do Pierrô surtir efeito, pois traz em si a palavra carregada de paixão, sem distorções ou manipulações, ainda que o “pregador” não esteja em um de seus melhores dias, do que o sofisma eloquente do Profeta mal-intencionado, que fez “alquimia” das Escrituras com vistas a iludir aqueles que nada sabem sobre a Verdade e, por isso, acabam, como embriagados, se satisfazendo com o veneno que lhes é despejado goela abaixo.

Aquele telefonema do Leandro quebrou em mim muitos paradigmas. Obviamente estou usando um nome fictício. É que o Leandro converteu-se há pouco tempo, não virou ainda celebridade do mundo “gospel” dando testemunhos bombásticos em igrejas. De todo coração, espero com fé que isso jamais venha a acontecer.

Sim, esse meu amigo vem de uma história de vida complicada. Era um cara rico que, de repente, se viu sem nada, perdeu tudo: casa, dinheiro, amigos, dignidade, esposa e filhos. A culpa maior é dele e ele sabe disso. Não reclama, não usa de autoindulgência, não faz racionalizações; tem feito como Davi: “Pequei contra Deus!”.

É meu amigo, no circo que a religião se tornou em nossos dias, prefiro ver pierrô bêbado a profeta sóbrio. É que o primeiro, se só disser besteira, ainda pode divertir. O segundo, todavia, falando apenas heresia, faz-me contorcer de dó, primeiro pelo agravo que comete contra Deus, e segundo pelo assassi-nato contra as Sagradas Escrituras.

Carlos Moreira

23 novembro 2011

Isso é de Deus ou do diabo?



Talvez daqui a alguns anos eu escreva um livro só com as “pérolas” que ouço semanalmente conversando com as pessoas. Já pensei até no título: “Confissões & Confusões”.

Uma das atividades mais desgastantes da vida de um ministro do Evangelho é o aconselhamento. Digo isso porque é impossível ouvir os dramas e as dores das pessoas sem, de alguma forma, se envolver com elas.

Mas a escuta terapêutica vem desaparecendo, gradativamente, das funções dos pastores ordenados e isso, para mim, tem um único motivo: escutar pessoas requer um investimento grande de tempo e, “desgraçadamente”, não gera dinheiro. Por isso, muitos pastores têm optado em fazer um curso superior de psicologia, pois aí podem cobrar pelo atendimento profissional.

Pois bem, dia desses me vi diante de uma situação muito frequente quando ouço gente: a suposta obrigação de ter de dizer ao indivíduo se ele deve ou não fazer algo. Concretamente, a questão me foi posta da seguinte forma: “Pastor, depois de ter ouvido tudo o que eu disse, me responda sinceramente: Isso é de Deus ou do Diabo?”. “Bem”, respondi, “nem de um nem do outro, muito pelo contrário!”.

E prossegui: “Meu amigo, eu não sou feiticeiro, nem adivinho, não possuo bola de cristal, não jogo búzios, nem leio cartas. Portanto, não estou aqui para lhe dizer como será o amanhã, nem muito menos para lhe dar uma “profetada”. Posso sim lhe ajudar a refletir sobre alguns cenários possíveis, e isso a partir de suas escolhas. Mas saiba: a decisão final será sempre sua e somente sua”.    

E continuei: “Outra coisa que preciso lhe esclarecer é que nem tudo na vida se resume a ser de Deus ou do Diabo. Na verdade, a maioria das coisas é “do homem”, ou seja, ganha materialidade a partir da projeção das “sombras” que existem em nós, pois, segundo Tiago: “Cobiçais, e nada tendes; matais, e sois invejosos, e nada podeis alcançar... pedis, e não recebeis, porque pedis mal, para gastardes em vossos deleites”.

De forma objetiva, o que quero aqui esclarecer é que a tradição cristã, infelizmente, está impregnada desse tipo de pensamento, que nada mais é do que o dualismo grego. Foi a partir da influência dessa filosofia que a existência acabou sendo reduzida a algo binário: zero ou um. Em outras palavras, tudo passou a ser ou de Deus ou do Diabo!

O dualismo grego é uma espécie de dialética hegeliana sem a síntese, ou seja, ele só tem tese e antítese. Separa o físico do metafísico, o sensível do espiritual, o bem do mal, a unidade da pluralidade.

Muitas dessas ideias estão centradas em Platão, pois, para o filósofo, o mundo estaria dividido em duas esferas: a superior e a inferior. O nível mais elevado consistia das ideias eternas. O nível mais baixo era formado pela “matéria”. Esta, por sua vez, era temporal, física e imperfeita. 

É por este motivo, por exemplo, que Platão localiza o trabalho no reino inferior. Para ele, existia um reino espiritual separado e distinto do reino físico. Por isso, quanto mais espiritual a pessoa fosse, me-nos ligada à matéria estaria. No dualismo grego, o ambiente profissional era “carnal”, pois tratava das “coisas terrenas”, tais como o dinheiro.

Agora uma pergunta: você já viu esse tipo de “pensamento” presente na igreja? Mais é claro que sim! O que você talvez não saiba é sua origem. Vamos mergulhar na história?  

A partir do século IV, a cosmovisão cristã começou a sofrer forte influência do neoplatonismo, desenvolvido por Plotino. Tratava-se de uma doutrina que preconizava, dentre outras coisas, o abandono do mundo material para que o espírito pudesse unir-se a uma “entidade superior”.

Pois bem, a porta de entrada do neoplatonismo no pensamento cristão se deu por meio de um de seus mais ilustres representantes: Santo Agostinho. O bispo de Hipona foi, talvez, o principal responsável pela adaptação das ideias de Platão, de tal forma que elas pudessem servir como argumentação filosófica para a apologética da fé cristã.

Um dos desdobramentos desta tradição, durante a Idade Média, impunha aos clérigos a necessidade de atestar sua espiritualidade pelos votos de pobreza, de castidade e de obediência. Era a negação dos elementos do reino inferior com vistas a alcançar uma espiritualidade elevada, ou seja, era a ataraxia estoica grega simbiotizada com a fé judaico-cristã.  

Agora quero lhe fazer uma proposta: olhe para a vida com estas novas lentes e, talvez, você comece a perceber que o dualismo não tem nada a ver com o Evangelho. Essa separação de mundo espiritual do mundo material é pagã, e não cristã. É dela que surgem conceitos tais como: coisas de Deus e coisas do Diabo; arte sacra e arte profana, música gospel e música do mundo, coisas espirituais – orar, jejuar, pregar – e coisas carnais – trabalhar, divertir-se, exercitar-se.  

Fico feliz em saber que a proposta de Jesus é de ressignificação de minha consciência de tal forma que eu encarne os valores e verdades do Reino. Deus é soberano sobre tudo, tanto o que é natural quanto o que é espiritual, pois, para Ele, as duas dimensões são uma coisa só.

Por isso, o que sei é que devo ser santo, como santo é o Senhor, tanto na faculdade quanto na igreja, tanto no trabalho quanto na reunião de oração, tanto no campo de futebol quanto na escola dominical!

Desta forma, nem tudo é coisa do Diabo, como também nem tudo é coisa de Deus. Há, pois, coisas que são do homem, ou seja, escolhas e decisões que são tomadas nos trilhos do cotidiano e que trazem, por si mesmas, as suas consequências, seja para o bem, seja para o mal.

Você pode perceber isso na parábola do “Bom Samaritano”. O caminho era um só, e todos iam por ele: tanto os salteadores quanto o transeunte agredido, o levita, o sacerdote e o samaritano. A única diferença, contudo, era a forma como cada um deles estava caminhando.


Carlos Moreira

28 agosto 2011

Não; Não Quero; Não Posso; Não Sei!




Faz 30 anos que conheci a Jesus Cristo, mas só há 10 atuo como ministro ordenado. Para entrar para o “seleto” grupo dos clérigos da igreja, tive de ir ao seminário teológico onde passei 4 anos estudando.


Quando estava no meio do curso de teologia, achei que aquilo lá não iria ser tão útil quanto eu, inicialmente, imaginava. Foi aí que comecei, paralelamente, o curso de filosofia. A princípio minha cabeça “ferveu” um pouco, pois enquanto o “teólogo” tem sempre respostas para tudo, o “filósofo” persegue implacavelmente as perguntas. Depois de certo tempo, ambos acabaram se harmonizando em mim... Hoje convivem em paz.

Como sempre fui um leitor contumaz das Escrituras, não passei por nenhum tipo de crise, nem num curso nem no outro. Minha fé já estava bastante alicerçada quando parti para aprofundar meus conhecimentos. Sei que muita gente afirma ter “surtado” quando se deparou com certas questões, sobretudo no seminário, mas comigo isso jamais aconteceu. Durante algum tempo pensei que era algum tipo de anormalidade. Depois, descansei...

Eu aprendi muita coisa interessante nestes últimos 5 anos. Li bastante, sobretudo os clássicos de ambas as disciplinas. Mas para você, jovem pastor, ordenado ou não, membro ou não de alguma instituição religiosa, que recebeu sucessão apostólica ou não, que foi ou não ao seminário, mas você, que cuida de gente, abre a sua casa, sacrifica sua agenda, reparte sua vida, esforça-se para servir a outros, tenho 4 coisas a lhe ensinar. Aliás, estas são as 4 coisas mais importantes que eu aprendi até agora no exercício do ministério pastoral.

A primeira é que você precisa aprender a dizer NÃO. E por que digo isto? Porque pastores normalmente são vistos como seres que não possuem suas próprias demandas, ou seja, nós não podemos nos sentir cansados, sobrecarregados, deprimidos, aflitos, desestimulados. O pastor tem sempre que estar sorrindo, ser uma benção, um exemplo de fé, de renúncia, de coragem. A esposa do pastor tem que ser quase uma “virgem santa”, ela tem de agradar a igreja inteirinha, e os filhos do pastor, ai meu Deus, tem de se assemelhar a anjinhos de presépio.

Pois bem, se você aprender a dizer não, você vai mostrar para a igreja que você não irá viver uma farsa, que você não está disposto a “pagar” esse “custo” existencial nem ministerial, que não raro você também enfrenta os mesmos problemas que qualquer um dos membros que lhe procura solicitando ajuda. Sim, se você é alguém normal, e não incorporou ainda o “espírito” do super-pastor, você pode, e deve, em diversas situações, dizer não!    

Outra coisa fundamental no seu ministério será você aprender a dizer NÃO QUERO! É muito comum pastores que depende financeiramente da igreja ter de se submeter a tudo que os membros desejam. Desta forma, o pastor torna-se refém da membresia, não tem autonomia nem mesmo para pregar com liberdade e ousadia aquilo que Deus coloca no seu coração.

Isso, convenhamos, é muito triste, pois, com medo de faltar os recursos necessários para manter sua família, os quais podem ser abruptamente cortados pela junta, conselho,  presbitério, diocese – isso varia de acordo como o tipo de governo da igreja – o pastor acaba tendo de fazer o que chamo de “pregação cotonete”. Trata-se de um tipo de mensagem que possui grande poder de fazer cócegas nos ouvidos da igreja, mas isso é tudo que ela produz. Se você aprender a dizer NÃO QUERO, ou a igreja vai lhe botar no olho da rua, o que fará com que você viva em paz com sua consciência, ou ela aprenderá a ouvir aquilo que precisa, e não o que deseja.

Em terceiro lugar, quero lhe ensinar algo preciosismo: comece a dizer NÃO POSSO. O ministério pastoral é um dos trabalhos mais desgastantes que existe. Eu sou empresário há 15 anos, estou acostumado com árduas jornadas de trabalho, viagens, reuniões, etc. Mas um pastor não tem vida! Ele tem de visitar, batizar, casar, enterrar, aconselhar, animar, ensinar, pregar, evangelizar, são tantos “....ar”, que não sobra tempo para você ter vida! E não sei se você já percebeu, mas você precisa de uma...

Por isso, querido pastor, aprenda logo a dizer: “infelizmente, eu “NÃO POSSO” fazer isto. Para tal, mantenha uma agenda atualizada, separe tempo para as tarefas do ministério e para as outras coisas também! No meu caso, eu possuo trabalho secular, mulher, filha, necessidade de lazer, de cuidar da saúde, e não poderei fazer essas coisas se tudo o que me pedirem eu me comprometer a realizar.

Finalmente, mas não menos importante, aprenda a dizer “NÃO SEI”! Todo pastor imagina ser um compendio de informações bíblico-teológicas, uma espécie de Google Evangélico. Ele pensa que tem de ter respostas exatas para todas as questões da vida cristã, que precisa saber decorados todos os versículos, as doutrinas, credos, confissões, a história da igreja, a teologia sistemática, a escatologia, e todas as outras “...gias” que existem no ministério.

Meu querido, simplifique as coisas para você e para a sua congregação: diga a maravilhosa e ungida frase: “NÃO SEI”! Com isto você irá poupar as ovelhas de Jesus Cristo de ouvirem respostas bizarras, interpretações mirabolantes, desculpas esfarrapadas, exegeses de 5ª categoria, uma hermenêutica que beira as bordas do inferno. Experimente ser alcançado pela maravilhosa paz que recai sobre o ministro de Deus quando ele diz: “NÃO SEI”! Aleluia!

Existem muitas outras coisas que são úteis ao ministério, mas estas você deve aprender nos livros de teologia. Elas servirão para muito pouca coisa, mas é bom que você as conheça. Contudo, com estas 4 que eu acabei de lhes ensinar, vocês poderão não ser um grande “sucesso” ministerial, mas terão uma vida para viver com Deus e com o rebanho que a Ele pertence e lhes foi confiado. Sim, creio que vocês viverão com a alma pacificada, o coração agradecido e o espírito quebrantado. O que mais vocês desejam?

Carlos Moreira

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É importante esclarecer que este BLOG, em plena vigência do Estado Democrático de Direito, exercita-se das prerrogativas constantes dos incisos IV e IX, do artigo 5º, da Constituição Federal. Relembrando os referidos textos constitucionais, verifica-se: “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato" (inciso IV) e "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença" (inciso IX). Além disso, cabe salientar que a proteção legal de nosso trabalho também se constata na análise mais acurada do inciso VI, do mesmo artigo em comento, quando sentencia que "é inviolável a liberdade de consciência e de crença". Tendo sido explicitada, faz-se necessário, ainda, esclarecer que as menções, aferições, ou até mesmo as aparentes críticas que, porventura, se façam a respeito de doutrinas das mais diversas crenças, situam-se e estão adstritas tão somente ao campo da "argumentação", ou seja, são abordagens que se limitam puramente às questões teológicas e doutrinárias. Assim sendo, não há que se falar em difamação, crime contra a honra de quem quer que seja, ressaltando-se, inclusive, que tais discussões não estão voltadas para a pessoa, mas para idéias e doutrinas.

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