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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.
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03 fevereiro 2018

Cristianismo sem Cristo



O modelo do cristianismo nunca foi se espelhar em Jesus. Sim, o modelo não é a manjedoura, mas as catedrais góticas, não são as vestes de louvor, mas as capas dos reis medievais, não são as línguas de fogo do Espírito, mas as mitras que se assemelham as coroas dos monarcas europeus, não é lavar os pés dos irmãos, com bacia e toalha, mas ser servido e reverenciado, ser tratado como ungido e receber uma titulação.

O modelo do cristianismo não é o da comunhão, mas o da gestão hierarquizada, não é a oferta generosa e responsável, mas o imposto do dízimo associado a maldições aos infratores, não é a liberdade de consciência, mas a mordaça doutrinária comportamental, não é o ajuntamento simples de dois ou três, mas as mega-construções apinhadas de gente que, sequer, sabe o nome de quem está ao lado. 


O modelo do cristianismo não é o discipulado, é a marcha pra “Jesus”, não é a adoração comunitária, é o show gospel, não é a sã doutrina, é o catecismo da denominação, não é evangelizar demonstrando uma transformação, é jogar pérolas a porcos transmitindo uma informação.

O modelo do cristianismo não é ocupar mentes, é ocupar prédios, não é fazer da Cruz um sinal, é fazer o sinal da cruz, não é buscar uma nova forma, mas fazer apologia a Reforma, não é transformar a Santa Ceia em concretude existencial, repartindo o pão com o faminto e o vinho da alegria com o quebrado de alma, mas transformá-la num memorial oco, egoísta e despropositado. 

Sejamos honestos, o cristianismo não tem nada a ver com Jesus, os símbolos nos altares foram copiados das pratarias da nobreza, os púlpitos vieram das tribunas das academias, as imagens dos santos dos panteões grego e romano, as procissões dos desfiles triunfalistas dos generais com seus exércitos, tudo tem a ver com Constantino, com império, com poder, com riqueza, com institucionalização, com controle.

A igreja que o Galileu propôs não tem paredes, pois o templo se faz no coração, não tem altar, pois o lugar do serviço é a vida do meu semelhante, não tem cargos, pois o maior é o que serve, não tem púlpito, pois a tribuna é a tapeçaria da vida, não tem riqueza, pois a arrecadação é destinada ao pobre, a viúva, ao órfão e ao estrangeiro.

Parem com esta panaceia, desçam de seus castelos, coloquem a cara no pó, rasguem suas vestes pomposas, chorem um choro de contrição, coloquem a mão na face ruborizada de vergonha, curvem-se a autoridade da Palavra, arrependam-se e talvez ainda haja esperança!

Desperta Igreja! Nem no Vaticano nem em Westminster adorareis, os verdadeiros adoradores fizeram um templo para Deus em suas consciências, despiram-se de toda vaidade, abraçaram a fé com todas as implicações, pois importa se parecer com Jesus e não com uma potestade humana qualquer, importa adorar a Jesus, não as pedras de uma construção, importa seguir a Jesus, não a catecismos e confissões, importa obedecer a Jesus, não a tribunais religiosos, importa andar como ele andou, e não na soberba opulenta desta igreja que, diante dos homens, é gloriosa, mas, diante de Deus, é pobre, cega e está nua...



Carlos Moreira









09 junho 2015

Eu Tenho Medo...



Não, eu não sou homofóbico, mas também não faço apologia ao homossexualismo. Amo e acolho homossexuais em sua condição existencial, entendendo o sagrado do coração de todo aquele que precisa de paz e misericórdia.

Mas quero confessar: eu sou “Cristianismofóbico”. Sim, eu tenho medo do cristianismo! E não deveria ter? Ora, não foi o cristianismo que se aliou ao império romano e se constituiu, por meio de conchavos, dogmas, confissões e da criação de santos, aliado poderoso na manutenção da opressão e da hegemonia ditatorial? 

Não foi o cristianismo que ajudou a desenvolver o feudalismo na Europa, em conluio com os ricos e os políticos, achatando seres humanos, promovendo a escravidão, espoliando sonhos e esperanças?

Não foi ele que fez guerras medievais em nome de Deus, matou, destruiu, tudo com o intuito de aumentar latifúndios e constituir o Reino dos Homens, ao invés do Reino de Deus? 

Não foi o cristianismo que apoiou inquisições, genocídios, latrocínios, caças aos diferentes, mortandade aos que pensavam e criam de uma outra forma, que impôs a fé a força e a fórceps? 

Não foi ele que queimou desafetos, cerceou o saber e a ciência, aprisionou a literatura em seus mosteiros, que investiu na ignorância e no medo como forma de domínio e controle? 

Não foi em nome dele, também, que se invadiu nações, sobre o pretexto da colonização, espoliou-se gentes, dilacerou-se culturas, massacrou-se índios, tudo em nome da ética capitalista que atribuía aos tais a gestão das riquezas da Terra? 

Eu confesso, tenho medo do cristianismo, pois ele apoiou regimes facistas na Europa “evangelizada”, ditaduras militares na América, sempre se aliando ao que de pior existiu em termos de proposição econômica, com fins escusos e em nome da ganância. 

Sim, tenho medo deste cristianismo que persegue gays, cartomantes, hippies, roqueiros, babalorixás, espíritas, que se levanta contra tudo e contra todos em nome de sua ortodoxia biônica, de um Evangelho sem amor e de uma Fé baseada na retórica, onde a Graça é para poucos, que anuncia uma Cruz elitista, um Sangue que só serve a interesses sectários, um Cristo esquartejado, repartido entre milhares de confissões e interesses. 

Eu tenho medo, não escondo, do cristianismo que elege deputados no Congresso Nacional, gente que vive de fazer negociatas, que legisla em prol de suas denominações, que não reconhece o bem comum nem colabora para que haja justiça entre todos os homens. 

Eu admito, tenho medo, tenho muito medo mesmo do cristianismo... E não deveria ter?



Carlos Moreira

06 junho 2012

Ricardo Gondim: de “Herói” da Fé a Arqui-herege!





Inicialmente, quero lhe dizer que Ricardo Gondim não me conhece; eu o conheço. Sim, porque Gondim é parte da história recente do cristianismo em nosso país e do movimento evangélico, com livros publicados, participações em revistas aclamadas, congressos, simpósios, entrevistas na TV, homem de notório saber, não só do ponto de vista da teologia, mas de outras áreas do conhecimento, líder de uma denominação de expressão, articulista, dentre outras muitas habilidades que o Senhor da Igreja lhe concedeu.

Também não estou aqui para defender Gondim, até mesmo porque eu não tenho nem categoria nem “pedigree” para isso. Aliás, ele sequer precisaria de algo desta natureza: está lavado pelo Sangue do Cordeiro, justificado de suas obras, crucificado com Cristo e com Ele ressuscitado, já assentado nas regiões celestes e, com absoluta convicção, aguarda o dia do juízo para ouvir de Jesus: “vinde, entrai no Reino que vos está preparado desde a fundação do mundo... Foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei”.

Então, o que quero? Ora, eu busco entender os porquês de algumas coisas. Eu tenciono levar você há pensar um pouco e a questionar as razões de suas ações, como afirmava Nietzsch. Eu quero tentar sair desta “cortina de fumaça” que se formou em torno de Ricardo Gondim, para buscar enxergar práticas que estão em vigor hoje no mundo eclesiástico, almejo, de alguma forma, discernir que “espírito” é este que surgiu entre nós, que zeitgeist vem influenciando o "nosso ethos", o que está tornando-se “material” impregnado, tanto na mentalidade, quanto no inconsciente coletivo dos evangélicos, se é que isto é possível.

Tenho acompanhado o “drama” do Gondim... Afirmo desta forma, pois, há bem pouco tempo atrás, ele era um homem celebrado no meio evangélico, um “herói” da fé. Seus escritos e mensagens abençoavam e alcançavam milhões de pessoas dentro e fora do Brasil. Não tenho dúvidas das centenas de milhares que foram levados a Cristo pela pregação do Evangelho que foi posto em sua boca. Mas, de repente, em função de algumas falas e escritos, a despeito de tudo, desgraçadamente, ele transformou-se em arqui-herege da fé cristã. Interessante...

Eu li e assisti a todo o material que veio a baila nestes últimos tempos. Não o fiz apenas nos blogs na internet, mas, sobretudo, entrei no site de Gondim e desci as “profundezas” de seus pensamentos e ensinamentos, de tal forma que evitasse texto sem contexto, exegese de ocasião, sensacionalismo, e outros recursos mais que, penso, foram usados neste e em outros casos.

Li também e, de forma cuidadosa, analisei, sem “sentimentos” ou inclinações, as articulações dos apologetas sobre Gondim. Diante de todo este cenário, valendo-me da posição que hoje me cabe, como editor assistente do Genizah, com 30 anos de caminhada com Jesus, 10 dos quais como pastor, com formação em teologia e filosofia, com centenas de artigos e mensagens publicados em revistas e blogs, penso que, ao menos, também ganhei o direito de ser ouvido por alguns instantes, ainda que esteja “remando contra a maré”...   

Minha fala carrega algumas preocupações...

Em primeiro lugar, preocupa-me como, tão repentinamente, um homem com notórios “serviços” prestados ao Senhor da História, da Vida e da Igreja, tenha se transformado em alguém tão execrado. Como bem afirmou Cáio Fábio – outro que já viveu algo de natureza semelhante, ainda que por questões totalmente diferentes – “a igreja é o único exército que mata os seus feridos”. O homem vem pregando e falando a mesma coisa há décadas e, de repente, por começar a pensar em outras possibilidades e analisar outras “rotas”, tudo o que fez, toda sua história, sua reputação, construída com lágrimas e muito trabalho, foi para o “beleléu”, pois, agora, sentenciado pela multidão que grita “crucifica-o”, ele se “converteu” em inimigo da fé.

Parece-me, grosso modo, que o que se quer é ver o “circo pegar fogo”! Nós perdemos o respeito pelos nossos líderes, somos uma geração sem referências, sem influências, sem heróis. Joga-se no lixo tudo o que um homem fez em sua vida porque ele não está seguindo a risca, para usar uma fala do próprio Gondim, o “evangelho” segundo os santos evangélicos! Pouquíssimos tem, ao menos uma ideia, do "preço" que um homem deste paga para chegar onde chegou. É um custo de vida, aliás, é quase não ter vida, mas vamos "jogar pedra na Geni!", e de forma, não raro, irresponsável. Gondim caiu em desgraça porque ousou pensar diferente, mas cometeu o pior de todos os pecados: tornou isso público! 

Em segundo lugar, preocupa-me a grave crise que vivemos, pois ela é crise de pensamento, é a substituição da intuição pela dogmatização, do questionamento pelo fundamentalismo, da liberdade de expressão pela tirania da letra. Onde os cristãos imaginam que vão parar isolando-se cada vez mais do “mundo”? Como poderá a teologia sobreviver nos dias atuais separada do resto do pensamento e do conhecimento humano? Será que ninguém vê que o mundo mudou? Quem tem coragem e ousadia de articular a ponte que leve a fé ao diálogo com os outros saberes, que a liberte da prisão a qual a "instituição" a remeteu? Gondim vem tentando fazer isso e olha no que deu!? Como bem citou João Alexandre, em uma de suas maravilhosas canções: “é proibido pensar!”. Estou certo: é mesmo...

Estamos vivendo em meio a uma geração movida à repetição, que “segue mapas”. Ainda nos encontramos presos ao século XIX, não ousamos, não avançamos, não dialogamos com os outros, não nos abrimos à reflexão, a auto-análise, não ouvimos críticas, achamos que a teologia é algo que está acima do bem e do mal, somos tão ufanistas que sequer cogitamos que podemos estar equivocados. Estamos debaixo da tirania de Procusto, normatizados pela instituição perversa, nossas consciências se cauterizaram pela pregação de uma mensagem que nada mais tem de Evangelho. Tristemente tornamo-nos a “igreja playmobil”: somos todos iguais, falamos todos iguais, pensamos todos iguais, vestimos todos iguais, cremos todos iguais! 

Em terceiro lugar, preocupa-me o fato de que muitos dos que fizeram análises e avaliações das falas e textos de Gondim sequer têm preparo para sentar com ele numa mesa e conversar, cinco minutos que seja, sobre os temas "malditos". A grande maioria dos líderes e pastores que o detratam são rasos, possuem um conhecimento de "epiderme", nunca investiram nem no estudo das Escrituras nem em estudos de outros campos do saber. Estes, jamais topariam um debate com o Gondim em rede nacional, pois, certamente, ficariam desconfortáveis e, provavelmente, sem argumentos consistentes para refutar pensamos e ideias. Boa parte dos textos “apologéticos” que li fazem “recortes pinçados” daquilo que Gondim afirma, uma espécie de edição via fotoshop, numa clara demonstração de que a análise é, no mínimo, tendenciosa. É a velha práxis de “coar o mosquito” enquanto se engole o “tiranossauro-nosso-de-cada-dia”. 

Apesar de não concordar com alguns pensamentos de Gondim, em nada ele me escandalizou. Pensar diferente não ofende, abre "sendas" para um olhar novo sobre questões antigas. Isso não desconstrói minhas convicções, pelo contrário, por vezes ajuda a sedimentá-las!  Sei que este homem agiu com retidão, abriu o coração, sei de sua seriedade e serenidade ao tratar dos assuntos do Reino, pois, mesmo sem o conhecer, conheço o seu legado e tenho convicção que ele próprio não poderia negar aquilo que passou toda a vida crendo. Seu pensamento avança ainda que, talvez, por terrenos eventualmente “pantanosos”, mas certamente rumo a um platô que lhe ponha firme sobre a Eterna Rocha que, uma vez posta, sendo a Pedra Angular, jamais poderá ser removida: Cristo, Jesus.

Em quarto lugar, preocupa-me a igreja evangélica não está aberta a nenhum tipo de conversação que vá para além da ortodoxia e, em alguns casos, para além do fundamentalismo já posto. Aqui vão me dizer que as “Escrituras são nossa única regra de prática e fé”, e eu assim também creio, mas não me sinto “amarrado” ao ponto de não usar da liberdade que disponho em Cristo para pensar, para fazer conjecturas, para teologizar, como tantos outros fizeram antes de mim, pois nossas crenças estão, usando um conceito de Foucault, sobre “camadas de saber” que foram construídas por outros, desde os Pais da Igreja até os pensadores – teólogos e filósofos – dos nossos dias.

Ora, nós somos o “produto” do pensamento de muitas gerações, de homens e mulheres que, ao seu tempo, ousaram, com aqueles que com eles estavam, refletir, pensar, questionar. Ninguém irá ao “inferno” de fogo por assim agir, isso eu lhes garanto... Toda teologia é temporal e antropológica, produto do tempo, da cultura, da sociedade e do homem em um determinado momento histórico. Mas as igrejas hoje querem apenas seguir a cartilha de sua denominação, pois nelas é pecado mortal pensar de forma diferente ou se abrir a novos saberes. Continuam dizendo que “Jesus é a solução”, mas não têm a mínima idéia do que o mundo está hoje questionando...

Em quinto e último lugar preocupa-me o destino do cristianismo como religião institucionalizada. Quando vejo alguns homens que jugo serem pessoas sérias, coerentes, pensantes, representativas e, sobretudo, gente de Deus abandonando o que aí está posto, quando ouço, por exemplo, um Leonardo Boff falar que o cristianismo deveria se aproximar mais da existência, ou um Cáio Fábio afirmar que hoje vivemos a perversão do Evangelho de Jesus, ou um Gondim romper com o movimento evangélico, fico contando o que sobrou e, sinceramente, assusta-me o que parece nos reservar o futuro! Acho que Deus terá de levantar as "pedras" para pregar, pois faltarão pregadores. Ou então vamos ficar com os estelionatários que aí estão, na TV, no rádio, gente tão perversa que aqui não cabe nem nominar.

Não estou preocupado com a Igreja de Jesus, pois esta sempre estará lutando contra as hostes do mal, defendendo “a fé que foi entregue uma vez por todas aos santos”, pregando a sã doutrina, amparando os caídos da existência, servindo a Deus com coração pacificado, adorando-o com todo ardor e amor, aguardando com ansiedade a volta de Jesus! Todavia, esta igreja invisível e católica – Universal  de Cristo, está inserida dentro das milhares de ramificações do cristianismo, pois é fato que existe uma igreja dentro da "igreja" e só o "Cabeça do Corpo", que a tudo vê, pode discernir quem é "joio" e quem é "trigo". E assim, como partícipe da religião institucionalizada, angustio-me com seus rumos, temo pelos dias vindouros, desencanto-me com suas posturas, percebo sua grave crise, sua "septicemia intelectual", sua falência múltipla em termos de prática e fé.

Bem, tudo dito, agora é só aguardar as PEDRADAS... (risos). Mas quem escreve aqui deve estar sempre preparado. Como de costume, não responderei as críticas, não é falta de respeito, mas de disponibilidade. Isso toma o pequeno espaço de tempo de postar novo artigo para abençoar meia dúzia dos que precisam. Ao Gondim, meu mano querido na fé em Jesus, desejo que seu coração seja inundado de paz e misericórdia, que ele fuja de toda raiz de amargura que esta “saraivada de golpes” pode vir a provocar, que se entregue ao Justo Juiz e sinta-se consolado por seus antecessores, uma grande “nuvem de testemunhas”, os quais foram perseguidos, mortos, torturados, serrados ao meio, caluniados, destratados, injuriados, “homens dos quais o mundo não era digno”, conforme Hebreus, capítulo 11. 

Termino este texto desejando encontrar corações quebrantados e espíritos humildes para entender o que está exposto, que não distorçam as afirmações aqui feitas, pois sou responsável pelo que escrevo, mas não pelo que entendem... Contudo, depois de ler o artigo da Bráulia e ver os comentários tenho poucas esperanças... (risos). Que Deus nos guie a Sua vontade e ao temor do Seu nome. Quanto a você, Gondim, caso leia estas linhas, sei que  sabe que é privilégio sofrer pela causa do Evangelho e pelo nome de Jesus, ainda que muitos não vejam que o que está acontecendo se encaixe neste contexto... Parafraseando-o, então, concluso dizendo:  Soli Deo Gloria!


Carlos Moreira


26 outubro 2010

Assim Caminha a Cristandade...

“Certa vez, tendo sido interrogado pelos fariseus sobre quando viria o Reino de Deus, Jesus respondeu: "O Reino de Deus não vem de modo visível, nem se dirá: ‘Aqui está ele’, ou ‘Lá está’; porque o Reino de Deus está dentro de vocês". Lc. 17:20-21.

O Sagrado em Israel se descaracterizara como experiência religiosa bem antes do tempo Jesus. Na verdade, a fé para os judeus havia se transformado num poderoso sistema que possuía dois grandes tentáculos: um político e o outro econômico. Assim como nos nossos dias, os que mercadejavam o espiritual perceberam que manipular com a fé das pessoas era um extraordinário e lucrativo negócio.

O texto citado acima nos dá a dimensão exata do que estava acontecendo naqueles dias... Mas nós não conseguimos discerni-lo com todos os seus matizes porque o “cenário” no qual os fatos se passam nos é totalmente estranho. No encontro inusitado entre Jesus e os Fariseus, a questão principal não é o que parece estar evidente, ou seja, o Reino de Deus, mas o que está subliminar – o reino dos homens.

Ora, isto pode ser visto claramente na pergunta, aparentemente “espiritual”, – “mostra-nos o teu Reino”. Ela não tinha nada a ver com os conteúdos, valores e princípios éticos do Evangelho de Jesus. A preocupação estava centrada apenas nos aspectos institucionais – nas estruturas físicas (templo, sinagogas), nos códigos regulamentares (a Lei e os Profetas), no centro de decisão (o Sinédrio), nos rituais “litúrgicos” (sacrifícios, oferendas), ou seja, o que estava em “jogo”, era entender quais os mecanismos que compunham a “engrenagem” que o Galileu estava anunciando. E isto era “bastante razoável”, uma vez que o “sistema” que eles possuíam já estava há anos sendo “tecido” pela aristocracia judaica, pelas castas sacerdotais e pelos grupos religiosos e, o melhor de tudo, “operava” perfeitamente.


A religião judaica criara uma opulência que entorpecia o ser. Era um conjunto de ritos e mitos que sacralizava o banal, petrificava o coração, cauterizava as percepções e roubava as emoções. Em torno de tudo aquilo girava uma “máquina” de fazer dinheiro, e era muita grana que circulava em torno do templo, o “centro espiritual” de toda a engrenagem, e de onde os recursos eram distribuídos para manter as benesses de muita gente e para bancar o “custo” da estrutura que era, sem dúvida, muito cara.

Aí vem Jesus que, em vez de propor manter a opulência do “negócio”, trás a mensagem de ressignificação da consciência! O Reino de Deus, anunciado através do Evangelho do Reino, não tinha “donos”, nem “trono”, nem ditames humanos, nem regras, nem lei, nem sacrifícios, nem intermediários sacerdotais, nem traficantes de influências espirituais, nem castas religiosas, nem comércio do sagrado, nem barganhas com a divindade, nem nada! Era a proposta de um Reino que crescia de dentro para fora, que instaurava valores no coração a partir de uma reconstrução da consciência. Por isso a discrepância tão grande entre um projeto e o outro. Agora dá para entender porque a proposta de Jesus era tão bizarra para aquela moçada, porque ela, simplesmente, desmantelava com o sistema inteiro!


O Evangelho do Reino é contra-cultura! É algo que se impõe para derrubar a cultura vigente. É subversão silenciosa, pacífica, de boca em boca, de casa em casa, de pequenos gestos, de serviço ao próximo, de amor ao necessitado, de acolhimento ao excluído. É uma lógica totalmente diferente! O sistema diz: ajunte, acumule, recolha. O Evangelho do Reino responde: espalhe, compartilhe, distribua. Onde um diz: seja servido; o outro preconiza: torne-se servo. Onde um diz: seja o primeiro; o outro afirma: seja o último. Onde um diz: busque reconhecimento; o outro adverte: faça tudo em secreto. Onde um diz: se exalte; o outro ensina: se humilhe. E ainda tem a segunda milha, a túnica junto com a capa, a face para o que o fere, o perdão setenta vezes sete... É metanóia!


Mudar a cultura é mudar a forma como as pessoas vivem. E isto varia de época para época, pois a cultura é um subproduto do social e do humano. É antropológica e temporal, segundo Vergílio Ferreira. Não foi diferente com Jesus. Em seus dias Ele lidava com vários tipos de culturas e filosofias distintas: os epicuristas, os estóicos, os cínicos, os céticos, além de toda a influência helênica – 600 anos de pensamento grego sincretizado com os cultos de mistérios egípcios, culto ao imperador, religiões pagãs e por aí vai... Mas o Evangelho do Reino, pregado pelo Nazareno, e depois pelos seus discípulos, propunha uma contra-cultura que desmantelava com tudo aquilo. E eles subverteram o mundo com a mensagem da paz, da esperança e do amor! E eu lhe afirmo: se já foi feito antes, pode ser feito novamente...


Geraldo D’Almeida Alves nos questiona de forma instigante: “para que servem cultura e filosofia? Na verdade, elas são imprescindíveis ao próprio existir humano. Um homem sem cultura não existe, e a filosofia existe justamente para que toda atividade humana possa ter significado”.

Quando a cultura muda, as pessoas mudam. Por isso Jesus queria estabelecer um novo Reino (uma nova consciência – cultura), baseado num Evangelho que tinha um “vinho novo” (valores e princípios). De lá para cá, vimos o mundo mergulhar em muitas crenças e culturas diferentes: a medieval, a renascentista, a moderna e agora, a contemporânea. Mas o que fez o cristianismo durante este período? Que propostas trouxe como contraponto, como contra-cultura para enfrentar os sofismas e as vãs filosofias? Eu lhes respondo: quase nada. E está ficando cada vez pior... Quem somos nós hoje? Como somos vistos? Como somos interpretados? Quem está disposto a ouvir nossa mensagem? E o principal: por que será que isto está acontecendo? Eu não tenho todas as respostas, mas tenho minhas “teses”. Você não precisa concordar com elas, mas pode a partir delas expandir sua consciência e buscar construir seus próprios “mapas”. Contudo, lembre-se: respostas que não produzem mudanças tornam-se apenas filosofia de botequim.

O problema é que nós nos conformamos à cultura vigente. Nos amoldamos, nos amalgamamos a tudo o que esta posto aí. Vivemos como todo mundo vive, corremos atrás das mesmas coisas, nossas famílias são pautadas pelos mesmos valores, nossos filhos são criados do mesmo jeito, nossos negócios são conduzidos da mesma forma, nossas “igrejas” viraram empresas! A proposta deveria ser exatamente outra: deveríamos nos rebelar pacificamente! Deveríamos denunciar de forma ordeira! Onde está a nossa voz profética? Ela se tornou “profétida” tantos são os escândalos nos quais estamos envolvidos. Não há mais diferença, como afirmava o profeta Malaquias, entre o que serve a Deus e o que não serve. Todos são iguais, participam das mesmas práticas, se envolvem nos mesmos conluios, vivem pelos mesmos princípios.

Alguém recentemente me perguntou: “mas pastor, eu vou ter um casamento diferente de todos os outros?”. E eu respondi: “para que então você quer servir a Deus se não está disposta a fazer diferente e fazer diferença!”. Os crentes hoje são execrados na sociedade e com toda a razão, na grande maioria dos casos. Os piores profissionais que trabalharam na minha casa e na minha empresa eram “evangélicos”. Gente de duas conversas, que nunca cumpria prazo, que empenhava a palavra e não a honrava. É o empresário “evangélico” usando caixa dois, meia nota, propina para fechar negociatas, sonegação fiscal, e por aí vai. Qual a diferença?! Onde está a contra-cultura do Reino? E alguém me diz: “mas se eu fizer tudo certinho vou quebrar meu negócio”. Ora, então mude de profissão! É melhor perder o negócio e preservar a salvação e a vida eterna, do que ir para o inferno com o negócio e tudo!

Está achando o discurso duro? Então faça uma pesquisa sobre o que a sociedade acha dos cultos de catarse que promovemos para espoliar as pessoas. Pergunte aos seus amigos e vizinhos o que eles acham dos “evangélicos”. Veja se não estamos associados à idéia de gente perversa, julgadora, presunçosa, arrogante, falsa... Pergunte a deputados e senadores sérios – ainda existem alguns – o que eles acham da bancada “evangélica” no Congresso Nacional? Eu que sou pastor que o diga. Não há ninguém que não me olhe e não ache que eu sou ladrão, manipulador ou aproveitador. E aí me vem, do nada, um fulano querendo saber da marca da besta do apocalipse! Ora meu mano, a marca da besta já está aí, presente em tudo o que se faz neste “sistema” no qual nós estamos imersos. Ela existe desde Caim, que ficou com sua fronte marcada para que todo homem soubesse que ali estava alguém que vivia em desacordo com a vontade de Deus. Não precisa de marca no pulso, na testa, de número 666, porque tudo já está “tatuado” no coração, enraizado em práticas perversas, assumido por uma consciência anestesiada, incapaz de discernir o que o Espírito está falando a Igreja.

E assim vamos vivendo. Misturados ao todo e diluídos na massa, sequer aparecemos. Somos considerados gente de gueto, povo de segunda categoria, seres que não pensam, confraria de tolos. Não influenciamos, mas somos massacrados pelo marketing, pela mídia, pela cultura da aparência, do parecer ao invés do ser, dos valores pagãos, da fé commoditizada, mecanizada, robotizada, que produz uma massa de alienados que não consegue nem influenciar os que estão em suas próprias casas.

É amigos, parafraseando o Lulu Santos, assim caminha a cristandade, com passos de formiga e sem vontade. Até quando? Não sei. Mas parece que algo começa a acontecer, lentamente, silenciosamente. Há uma geração se levantando contra essas coisas, anunciando que Evangelho não é isto, que Jesus nunca propôs nada do que aí está. A revolução não começa nas estruturas, nas denominações, nos grupos se matando uns contra os outros, mas na consciência, numa nova hermenêutica, na ressignificação dos valores e das verdades do Evangelho do Reino, na restauração do ministério profético.

E quanto menos se esperar, surgirá de onde não se imagina, dos anônimos de bairro, dos discípulos que estão com a mão na massa, nas chagas das pessoas, socorrendo os desabrigados da Terra, os excluídos da sociedade, porque esta é a Igreja de Jesus. Ela está aí, como sal dissipada pelo mundo, ativa, falando nos blogs "subversivos", na cabeça de pensadores e escritores que fomentam novas idéias, no púlpito de algumas Igrejas, nos corredores dos hospitais, dos presídios, nos encontros de pequenos grupos.

Por isso, saiba: a “massa do bolo” está crescendo e o “caldo está engrossando”. Desta forma, preste atenção! O Evangelho do Reino está sendo pregado novamente e as profundas mudanças por ele trazidas estão a caminho e nada, absolutamente nada, poderá impedi-las de subverter novamente a sociedade e trazê-la para um encontro definitivo – restaurador e pacificador – com o Deus de toda a vida! E nem altura, nem profundidade, nem coisas do presente, nem do porvir, nem principados nem potestades, nada poderá deter o que já se iniciou por vontade única e exclusiva do Senhor de toda a Terra. Quem vai pagar para ver?

Carlos Moreira

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É importante esclarecer que este BLOG, em plena vigência do Estado Democrático de Direito, exercita-se das prerrogativas constantes dos incisos IV e IX, do artigo 5º, da Constituição Federal. Relembrando os referidos textos constitucionais, verifica-se: “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato" (inciso IV) e "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença" (inciso IX). Além disso, cabe salientar que a proteção legal de nosso trabalho também se constata na análise mais acurada do inciso VI, do mesmo artigo em comento, quando sentencia que "é inviolável a liberdade de consciência e de crença". Tendo sido explicitada, faz-se necessário, ainda, esclarecer que as menções, aferições, ou até mesmo as aparentes críticas que, porventura, se façam a respeito de doutrinas das mais diversas crenças, situam-se e estão adstritas tão somente ao campo da "argumentação", ou seja, são abordagens que se limitam puramente às questões teológicas e doutrinárias. Assim sendo, não há que se falar em difamação, crime contra a honra de quem quer que seja, ressaltando-se, inclusive, que tais discussões não estão voltadas para a pessoa, mas para idéias e doutrinas.

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