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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.

25 maio 2012

Os “Brutos” Também Choram




Ainda hoje eu me perturbo quando penso no sepultamento de meu pai. Só sabe o que é isso quem já enterrou alguém querido na vida. Das muitas lembranças, todas muito doídas, uma me atormentou até bem pouco tempo atrás: o fato de não ter conseguido derramar uma única lágrima em seu funeral.

Quando você perde alguém que ama, sempre acha que poderia ou deveria ter feito algo a mais. Essa sensação de culpa, não raro, faz as pessoas adoecerem. Comigo não foi diferente. Filho único, vi meu pai ser vitimado pelo câncer em 2006, três meses após detectar a doença. Racionalmente, sabia que havia feito o possível, o que estava ao meu alcance. Mas, inconscientemente, carregava culpas infundadas, punia-me por não ter realizado o impossível: salvá-lo.

Quem me viu no enterro, naquela manhã de segunda-feira, se não me conhecia bem, provavelmente achou que eu não estava sentindo absolutamente nada. Minha expressão era serena, apesar de circunspecta, a voz projetava-se suave, agradecendo a solidariedade de parentes e amigos, não havia lágrimas em meus olhos, nem desespero em minha face. Era meu pai quem estava ali, morto, no caixão, mas sei que, para muitos, parecia um qualquer dos tantos que, como pastor, já enterrei.

Passados alguns meses, processadas as dores, vivenciado o luto, tomadas todas as resoluções inerentes a um falecido, eu enfim, “descansei”. E foi justamente aí que os problemas começaram... Três meses haviam se passado quando meu corpo resolveu “falar”, tomou uma decisão unilateral de expelir tudo àquilo que minha alma guardara só para si, aprisionara nos escaninhos mais profundos do meu ser.

Eu sentia dores no corpo, no abdômen, nas costas, sentia palpitações no coração, falta de ar, pressão no peito, compressão na alma, desespero e medo. Algumas vezes, de tanta agonia, fui até o hospital, mas quando examinado, não possuía nada. Fiz check-up, tudo quanto foi tipo de exame, nada, absolutamente, nada!

Durante quase toda a vida havia sido uma pessoa trancada, travada. Hoje consegui as explicações para alguns comportamentos, desde um temperamento recluso, tímido, até uma criação super-protetora, asfixiante. Mas até descobrir estas coisas, precisei “cavar” fundo até chegar ao interior do ser, embarquei para dentro de mim mesmo em busca de quem eu sou, decidido a me encontrar de qualquer maneira.

Muito aos poucos, como alguém que está tateando no escuro, comecei a liberar algumas emoções, antes reclusas. Era como se tivesse tomado o controle que o ego exercia sobre minha consciência e entregue ao “Id”, que “habita”, grosso modo, o meu inconsciente, aqui me referindo aos conceitos da teoria psicanalítica de Freud.

O que posso dizer hoje, passados alguns anos, é que alterações profundas aconteceram e ainda continuam acontecendo em minha alma. Desde que comecei a me abrir para a vida, a ser mais sensível, alternando em meu ser a sensibilidade do poeta com o pragmatismo do profeta, passei a perceber a existência por outros matizes, aprendi que chorar faz bem, por isso as Escrituras afirmam que o caminhar humano deve ser regado por lágrimas, pois elas se tornam sementes de esperança sob o solo empoeirado da vida.

O melhor, todavia, ainda estava por vir... No ano passado, no dia dos pais, resolvi fazer uma singela homenagem ao meu “velho” no blog. Escrevi um punhado de palavras, duas dúzias, e coloquei o vídeo do Fábio Júnior cantando a canção “Pai”. Montei tudo no blogger, publiquei, e fui escutar. Estava no meu escritório, no apartamento onde moro, e era tarde da noite, horário que normalmente escrevo.

De repente, como um vulcão em erupção que “cospe” larvas as alturas, comecei a chorar. Lembrava do meu pai, dos momentos bons que vivemos, dos momentos difíceis e tristes, era um caldeirão de emoções com meus sentimentos “borbulhando” dentro de mim, e eu ali, absorto, na solidão daquela noite inesquecível. Sim, eu chorei intensamente, anos depois de sua morte, tudo o que não havia chorado no dia de seu enterro. Deus sabe o quanto aquilo foi libertador para mim, quanta alegria eu tive em chorar daquele jeito.  

Eu creio firmemente que um dos maiores desafios do Espírito Santo é reconstruir nosso interior, o qual, não raro, foi “ferido” de muitas maneiras diferentes pela vida. Por conta disto, acabamos nos monstrificando, nos tornando seres de aço, nos esquecendo que somos, simplesmente, pó e osso. Hoje acredito que a vida só pode ser vivida na sua singularidade maior se pudermos sentir todas as emoções que cada momento nos reserva e nos remete. 

Por isso Jesus me fascina tanto, pois ele encarna o verdadeiro Homem, expondo-nos todas as suas dimensões e revelando-nos todas as suas emoções. Sim, o Galileu chorava, se alegrava, falava contundentemente e se calava de forma inquietante. Nunca se furtou de experimentar nem a doçura nem o amargor, nem a ternura nem a dor, fazia tudo com intensidade, por isso era Totalmente Homem e Totalmente Deus. De fato, como diz karl Barth, ele era mesmo o “Totalmente Outro”. 

Carlos Moreira

 

Alma de Lata, Coração de Pedra e Nervos de Aço




Eu fui me desumanizando aos poucos, num processo lento, imperceptível. A transformação de um ser humano em máquina é uma das grandes maravilhas da sociedade contemporânea. É quase inacreditável, mas, quando você se dá conta, seus sentimentos já se embotaram, sua alma ficou árida, ácida, sua sensibilidade exilou nas cavernas sombrias do ser, seu coração tornou impermeável. Como diz a canção nostálgica do Pink Floyd: “agora você está confortavelmente anestesiado”.

Eu não sei como tudo começou... Talvez ainda bem cedo, na adolescência, quando me apaixonei pela informática. Alan Turing, cientista britânico com especialização em tecnologia, disse certa vez: “As máquinas me surpreendem com muita frequência”.

Nos últimos 25 anos tenho trabalhado com computadores desenvolvendo sistemas. Durante boa parte desse tempo, convivi mais com eles do que com gente e, assim, acabaram tornando-se tão íntimos que nós até conversávamos. Era possível demonstrar raiva, frustração, alegria e outros sentimentos que, quando eu era humano, sentia...

Nessa mesma época eu tive contato com a “religião”. Minha experiência de “conversão” mudou minha forma de agir, mas não minha maneira de pensar. Talvez esse tenha sido o maior de todos os problemas, eu me tornei “mestre em Israel”, mas minha alma estava esvaziada de valores como a misericórdia, o perdão, a humildade e o amor. Meu lado máquina, movido pela letra que mata, me converteu num soldado lutando pela causa da Igreja, mas eu ainda não podia perceber o quão estava distante de Jesus de Nazaré e do Evangelho.

É difícil admitir, mas, em pouco tempo, havia me tornado um workaholic espiritual, um jovem viciado em realizar, pois tudo era urgente e o mundo estava perdido! Minha agenda surpreendia até líderes religiosos: eu evangelizava nos hospitais, cantava nas praças, pregava nas ruas, me reunia com pequenos grupos, participava de cultos, vigílias e reuniões de oração. Ia à escola dominical e me envolvia com movimentos de todo tipo da minha comunidade e de outras. Lia compulsivamente as Escrituras, livros devocionais e comentários bíblicos. Ouvia mensagens pela TV e em fita cassete. Eu não parava, não descansava. No meu idealismo pragmático, estava investindo tudo no Reino, acumulando galardão e servindo ao Senhor!

Hoje, olhando para trás, vejo que tudo aquilo foi feito por mim e para mim, não para Deus. Ao largo de tudo aquilo estava Jesus; nós andávamos no mesmo caminho, mas, caminhando de maneira totalmente diferente. Não creio que Ele tenha desprezado a minha alma, pois eu me desencontrara de mim mesmo, mas enfim fui achado, “estava morto e revivi...”, parafraseando a parábola do filho pródigo.

Sei que demorou muito até eu perceber, pois a máquina estava programada apenas para cumprir. Não havia comando para pensar ou para falar, ainda que eu nada ouvisse; ou para ler, mesmo que sem poder discernir; ou para trabalhar, embora desprovido de amor.

Eu acordei quando me voltei para as Escrituras: “pois eu tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber; fui estrangeiro, e vocês me acolheram; necessitei de roupas, e vocês me vestiram; estive enfermo, e vocês cuidaram de mim; estive preso, e vocês me visitaram”. Mt. 25:35-36.

Sim, na minha religião só havia Deus e eu. Não existia o outro e, sem o outro, não há como amar a Deus, pois, se não amo aquele a quem vejo, como poderei amar a Deus, a quem não posso enxergar?!

Eu já estive muito ocupado com a “obra de Deus”, mas, há alguns anos, isso mudou. Percebi que havia me embrutecido, me tornado amargo, implacável. De fato possuía um currículo com muitas realizações, era difícil algo me desafiar, mexer comigo. Mas da mesma forma como eu me perdi de mim mesmo, Deus foi me trazendo de volta, resgatando-me para que eu pudesse ser aquilo para o que fui concebido, e não aquilo que a religião havia feito de mim.

Como o “Pródigo”, eu havia chegado ao fim do trilho, no fundo do poço. Tinha subido institucional-mente, mas minha alma beirava o inferno, sofria com a solidão, revolvia-me em agonias e inquietações, padecia de calafrios ao meio-dia.

Eu era a antítese daquilo que havia sido chamado para encarnar, havia me transformado num “RoboCop da Fé”. Sobraram de mim mesmo apenas os vestígios de um homem, minha alma era de lata, meu coração de pedra e meus nervos de aço.

A “viagem” de volta foi insólita... Eu andei pelo vale da sombra da morte; tinha todos os sintomas de quem estava sucumbindo, ainda que os médicos e os exames atestassem que minha saúde era boa. Olhava-me e não reconhecia o que via, estava exausto aos 40 anos, havia feito tantas coisas e, ainda assim, sentia como se nunca tivesse feito nada, tornara-me um escravo da performance, neurotizado com metas e números.

“Nos próximos anos, todavia, eu irei me dedicar mais a Deus, por isso, trabalharei bem menos para Ele” foi uma citação de um texto da época. A duras penas aprendi que o que Jesus deseja é muito diferente daquilo que eu estava fazendo. O Evangelho é simples, mas, como diz o sábio, “o simples é o contrário do fácil”.

Eis, então, o que busco agora: “...o jejum que desejo não é este: soltar as correntes da injustiça, desatar as cordas do jugo, pôr em liberdade os oprimi-dos e romper todo jugo? Não é partilhar sua comida com o faminto, abrigar o pobre desamparado, vestir o nu que você encontrou, e não recusar ajuda ao próximo? Aí sim, a sua luz irromperá como a alvora-da, e prontamente surgirá a sua cura; a sua retidão irá adiante de você, e a glória do Senhor estará na sua retaguarda...”. Is. 58:6-8.



Carlos Moreira


22 maio 2012

Você tem Fome de Quê?



Alguns afirmam que já somos mais de 7,0 bilhões de pessoas no planeta. Nossa capacidade de produzir alimento, todavia, está para bem além deste número, ou seja, seria possível, hoje, saciar a fome da humanidade! Mas por uma conjuntura de fatores e interesses – políticos, econômicos, empresariais, sócio-culturais e até religiosos – pessoas continuarão morrendo sem ter o que comer, principalmente nos países do terceiro mundo e, de forma assustadora, no continente africano.

No passado, as nações guerreavam por causa da necessidade de terras. Quanto mais território, mais capacidade de produzir, de desenvolver a agricultura e a pecuária. Isto gerava vantagens na hora de negociar mercadorias, de exportar ao invés de importar, de fazer trocas e realizar negócios. Hoje, todavia, que adianta ter terras se não se possui as técnicas e máquinas necessárias para explorá-las, para transformar em riqueza aquilo que o solo oferece de graça. A guerra agora é pela tecnologia, pelo conhecimento, pela informação.

Eu tenho uma questão: você já passou fome? Sabe o que é ter a necessidade de se alimentar e não ter o que comer? Você já viu pessoas em busca de alimento: velhos, crianças, homens e mulheres, gente que, não tendo como se fartar, chega ao absurdo de comer lixo, aquilo que você joga fora, que não presta mais! Você já viu isso, ainda que em um filme?

E mais... Esta questão lhe choca de alguma forma? Você acha que ela lhe diz respeito? Bem, eu lhe afirmo que, provavelmente, não, porque essa situação está banalizada nos grandes centros urbanos, nós nos acostumamos com tudo, até com a desgraça a nossa porta. Creia-me, o imponderável pode se tornar comum pela repetição, a exaustão da exposição a uma determinada “cena” transforma o trágico em habitual, o sofrimento em coisa normal, o absurdo em nostálgico e o inaceitável em casual. A parábola do "Rico e Lázaro" nos ensina isto de forma objetiva. 

Jesus respondeu: "A verdade é que vocês estão me procurando, não porque viram os sinais miraculosos, mas porque comeram os pães e ficaram satisfeitos”. Jo. 6:26.

Já havia três dias que Jesus estava expondo as verdades do Reino de Deus a uma grande multidão que se aglomerara em torno dele no meio do nada. Elas estavam famintas, exaustas e perdidas. “Tenho compaixão desta gente”, disse o Galileu. Mas sua percepção ia para bem além do “estômago”. Ele sabia que aquelas pessoas precisavam comer, mas aquele tipo de fome podia ser saciada. O problema estava em outras dimensões, numa “fome” que não se aplaca facilmente, algo que às vezes só a sepultura consegue extinguir. Por isso o Nazareno falou sobre o fermento dos fariseus, que fazia o "pão" crescer, mas na perspectiva errada...". 

Todas as semanas eu vejo as pessoas se amontoando nas igrejas. Não há uma em que eu não seja procurado por dezenas que precisam de ajuda espiritual. É gente com fome... Mas, não raro, percebo que sua necessidade não tem nada a ver com o “Pão” que desceu do céu, pois elas não estão em busca de Jesus, de direção, de consolação, de confrontação, de sentidos e significados para o ser, de um propósito para existir que vá para além do espaço que se criou entre o prato e a boca, elas estão em busca de outro tipo de “comida”, de saciedade.

Você tem fome? E tem fome de quê? Há os que têm “fome” por questões existenciais. Estão em busca de poder, de ter, de crescer, de aparecer, de fazer. É gente que quer vencer no mundo, e não ao mundo, quer chegar ao “topo da pirâmide”, ir até o “pináculo do templo”. Eles só pensam no status quo, nas primeiras filas, nos lugares de destaque, nas aparições na mídia. Houve um homem assim, que queria dominar todos e tudo. Seu nome era Alexandre, “o grande”. Hoje, na lápide do seu mausoléu, está escrito: “um túmulo basta agora para quem não bastava o mundo inteiro”.        

Você tem fome? E tem fome de quê? Há os que têm “fome” de prazer. Eles precisam ser felizes a qualquer custo, usufruir o momento, sorver cada gole de vida que lhes for possível, aproveitar cada instante como se fosse o último. Sim, buscam o que é “bom” e “belo”, o que faz a alma suspirar, o frenesi, a adrenalina. Não importa o que seja necessário: pode ser o sexo casual, fortuito, reciclado, banal; pode ser droga em forma líquida, pastosa, pedrada, seja para beber, para fumar, para cheirar; pode ser malhar, cortar, costurar, inflar, pintar, modelar, embelezar o corpo, adornar o exterior, parecer sem ser, pois ainda que do lado de fora tudo esteja lindo, o interior não passa de uma casa de aves de rapina, mal cheirosa e devastada.     

Você tem fome? E tem fome de quê? Há os que têm “fome” de coisas. Eles buscam comprar, vender, trocar, amontoar. Precisam gerir posses, produzir bens, pois só se sentem seguros com dinheiro no bolso e ações na bolsa. Desgraçadamente, tornaram-se escravos do supérfluo, desejam o que não necessitam, correm atrás do que não precisam, quanto mais acumulam mais querem, possuem tudo e não têm nada; é gente pobre, cega e nu!

Naquela manhã, enquanto alimentava aquela gente, Jesus não discerniu apenas o imediato, o tangível, o concreto. Ele viu que a fome humana não era apenas aquela que fazia doer o estômago, mas uma que se projetava para muito além, pois naquela geração – arquetípica – estavam todas as gerações.

Por isso, afirmou profeticamente, “vocês me procuram não por causa do milagre, mas por causa do pão”, ou seja, o que vocês desejam não é a mim, mas aquilo que é próprio do chão da Terra, vocês não estão em busca do sobrenatural, mas do material, não desejam o transcendente, mas apenas aquilo que não os deixe “famintos” e carentes.

Você tem fome? E tem fome de quê? No sermão da montanha, em Mateus capítulo 5, Jesus fala dos que tem fome de justiça. Ele nos revela esta marca inquestionável do Reino de Deus. Quem dera na Terra houvesse gente com essa fome! As nações seriam diferentes, as relações seriam diferentes, os homens seriam diferentes!

Triste é reconhecer que os cristãos em nossos dias estão tão preocupados com suas questiúnculas pessoais que esqueceram que as multidões precisam ser "alimentadas", continuam exaustas e famintas! Sim, enquanto houver crianças mendigando pão, velhos pedindo esmolas nas esquinas, pais de família catando lixo para alimentar seus filhos e jovens cheirando cola para enganar a fome, a igreja atesta sua incompetência, sua incoerência e sua indecência. Enquanto não houver justiça entre os homens, o Reino de Deus será apenas uma utopia da religião, um discurso bonito entre os que tem fé, mas não tem obras.   

Infelizmente, eu pertenço há este tempo e faço parte desta geração que, notadamente, possui outros "apetites". Assumo minha parcela de culpa e não me eximo de minhas responsabilidades. Sei que vivemos um momento da história humana onde come-se lixo e  arrota-se caviar. Mas, fazer o quê? Para todos nós, implacavelmente, aplicam-se as palavras de Sêneca: “a fome não é exigente: basta contentá-la; como, não importa”.

Carlos Moreira

21 maio 2012

Uma Geração Enferma




Nesta mensagem, utilizando o texto de Marcos capítulo 8, vamos analisar as causas que levam uma geração a enfermar e como nós podemos nos precaver para que tal não aconteça conosco. 


Bem citou sobre esse tempo o escritor americano George Carlim, “Nós bebemos demais, fumamos demais, gastamos sem critérios, dirigimos rápido, ficamos acordados até muito mais tarde, acordamos cansados, lemos pouco, assistimos TV demais e rezamos raramente. Multiplicamos nossos bens, mas reduzimos nossos valores. Nós falamos demais, amamos raramente, odiamos freqüentemente. Aprendemos a sobreviver, mas não a viver; adicionamos anos à nossa vida e não vida aos nossos anos. Fizemos muitas coisas maiores, mas pouquíssimas melhores. Limpamos o ar, mas poluímos a alma; dominamos o átomo, mas não nosso preconceito; escrevemos mais, mas aprendemos menos; planejamos mais, mas realizamos menos. Construímos mais computadores para armazenar mais informação, produzir mais cópias do que nunca, mas nos comunicamos menos. Estamos na era do 'fast-food' e da digestão lenta; do homem grande de caráter pequeno; lucros acentuados e relações vazias". 


O que Jesus e o Evangelho nos propõem para lidarmos com esta dura realidade, marca de nosso tempo, ou arquétipo sócio-cultural da humanidade desencontrada de si mesma e de Deus?

Carlos Moreira



18 maio 2012

O Quarto






Aquele era o meu mundo... Ali eu existia sendo eu, um todo, alguém por inteiro. Fechada a porta, luzes se acendiam, cenários se desvelavam, via-me alçado ao imaginário, viajava sem sair do lugar, visitava outros ambientes, outros “planetas”! Mesmo na escuridão da noite, podia enxergar perfeitamente. O rádio tocava canções para embalar pensamentos nostálgicos, músicas antigas, daquelas que lhe entorpecem, trazem lembranças leves de tempos bons.

Todo mundo precisa de um “quarto”. Um lugar só seu, feito de estrelas e breu, com chaves pelo lado de dentro, inviolável, onde nada do mundo exterior possa lhe atingir. Chega de tanta realidade! Há de se poder delirar um pouco, pois quem suporta viver o concreto o tempo inteiro? Naquele “quarto” eu me despia de tudo o que não gostava, me vestia de tudo o que almejava ser. Ali “...eu era o rei, era o bedel e era também juiz. E pela a minha lei a gente era obrigado a ser feliz”, para lembrar o poeta por excelência, Chico Buarque.

Mas eu cresci, mudei de lugar, mudei de “quarto”... O novo não era do mesmo jeito, tinha mais glamour, mas nele o “show” não acontecia à noite, as cortinas não se abriam, os palhaços não apareciam, a vida era rotina e solidão. Eu tinha saudades do “velho amigo”, daquele pedacinho de mundo que eu havia criado, tecido de pétalas, coberto de sons, de cores e fantasias, onde sempre havia festas, risos, era um mundo dentro do meu mundo, um refúgio, um lugar onde me sentia protegido.

O tempo se passou... Os sonhos se esfarelaram na máquina de moer realidades, as estrelas despencaram do firmamento, o sol se pôs, tudo ficou denso, escuro, cheio de silêncios, de poeira levada pelo vento. A realidade veio me brindar com sua dose de fatalismos, com seus desgastes próprios. Trouxe consigo as dores de existir, de crescer, de ter de enxergar e não mais ver, de ter de ter e não bastar apenas ser. E eu pensava comigo: “Eu queria tanto estar no escuro do meu quarto à meia-noite, à meia luz, pensando, daria tudo por meu mundo e nada mais”. Era a nostalgia romântica do insuperável Guilherme Arantes.

Aí eu fiz o que já devia ter feito há muito tempo! Voltei para dentro do “quarto”! Sim, descobri que esse lugar não precisa ser real, pode ser imaginário, acessível pelos conduítes da alma, disponível a qualquer hora. Nele é possível afrouxar os nós da gravata, não atender o celular, nem ler e-mails ou olhar extratos bancários. São breves momentos que duram uma eternidade, pois ali você é só seu e de mais ninguém.

Bem afirmou o escritor Henry Miller, ainda que pareça idiotice: “Manter a mente vazia é uma proeza... Estar silencioso o dia inteiro, não ver nenhum jornal, não ouvir rádio, não escutar tagarelices, estar perfeita e completamente ocioso... Os jornais engendram mentiras, ódio, ganância, inveja, desconfiança, medo, maldade. Nós não precisamos da verdade como ela nos é servida nos jornais diários. Precisamos de paz, solidão e ociosidade”.

Jesus era um homem de oração, de reclusão. Tinha necessidade do isolamento, da busca do intangível, de alimentar sua alma de verdades e não apenas de coisas. Ele também tinha um “quarto” desses... Estava em todo lugar e em lugar nenhum. Às vezes era um jardim, em outras ocasiões as montanhas. De certa feita, repousou na areia do Mar da Galileia, num outro momento, abrigou-se numa estalagem qualquer, no meio do nada, acolhido pelo frio, embalado pelo cansaço, debaixo do céu enluarado, deitado sobre o chão de estrelas. Ali sentia os aromas do deserto, sabia que, mesmo sem ter onde reclinar a cabeça, possuía um “quarto” somente seu...

Recentemente, visitei aquele cantinho da infância. Depois de 27 anos voltei ao apartamento onde meus pais moraram por quase duas décadas. Nele estava residindo um casal de velhinhos. Muito simpáticos, convidaram-me a entrar. Mostraram-me a casa reformada, as mudanças realizadas. Tudo ficou muito bonito.

Mas houve um momento em que eu cheguei ao quarto que havia sido meu. O coração acelerou, os olhos encheram-se de lágrimas, uma nostalgia irresistível tomou conta de minha mente pragmática, não dada a muitas emoções. “Eu dormia aqui”, disse. O casal me deixou só por alguns instantes, tempo suficiente para ver toda a minha vida diante dos meus olhos.

No canto do quarto, sentado na cama, estava eu mesmo, com uns 11 anos de idade. Eu olhei para mim e me perguntei: “Como você está?”. Com voz embargada, o outro eu de mim mesmo respondeu: “Eu tô bem, eu vou indo...”. O “garoto” insistiu: “Você está mais velho, há marcas no seu rosto, e outras na sua alma. As de fora não importam tanto, as de dentro, todavia, talvez nem mesmo o tempo possa apagá-las.”. “Tenho de ir”, disse. “Vá com calma, ele falou. Vá mais leve, mais livre, vá com Deus!”.

Já faz meses que vivi esta experiência imaginária, ficcional... Ela me ajudou a entender algumas coisas; outras eu ainda estou discernindo, aos poucos, lentamente. Não consegui escrever sobre este fato antes, talvez por medo de me expor, ou por medo do leitor, ou ainda por medo de mim mesmo... É que eu sei que minha solidão não tem nada a ver com a presença ou ausência de pessoas… “Detesto quem me rouba a solidão, sem em troca me oferecer verdadeiramente companhia”. Eis o meu filósofo favorito, Nietzsche, “o martelo!”.

Agora, com todo respeito, peço-lhe licença: vou para o meu “quarto”. Não, não é o quarto do meu apartamento, é o “quarto” que abriga a minha alma e o meu coração. Você não tem um desses? Bem, sugiro que adquira um o mais breve possível. Mas não procure nos classificados nem se preocupe com dinheiro, este “quarto” está dentro de você, e só você pode encontrá-lo, entrar nele e usufruir o que de melhor ele tiver a lhe proporcionar.


Carlos Moreira

17 maio 2012

A Vida não Espera por Ninguém




“Amanhã; amanhã eu faço.”. Mas amanhã já começou! E mais: daqui a pouco, já terminou, pois amanhã já acontece no hoje, e o hoje começou desde ontem... Tudo está em constate mudança, conectado, faz parte do crochê que emoldura a grande “teia” que é a vida. A única coisa que temos por completo é o agora, o momento, o instante! O mais são partes: restos do ontem, porções do hoje, fragmentos do amanhã.

Vejo as pessoas. Elas pensam que o dia tem 24 horas. Que ilusão, o dia só tem o agora. Você não sabe se no minuto seguinte estará vivo ou morto, portanto, toda cogitação é suposição infrutífera. O futuro ainda está por ser escrito, e ele poderá ser construído de tantas formas diferentes que não adianta lançar-se a pensar sobre nada, isso trará apenas ansiedades e inquietações. Talvez por isso Einstein tenha dito: “nunca penso no futuro, ele chega rápido demais”.

A vida me ensinou a fazer as coisas agora, neste momento. Não deixo para amanhã o que já deveria ter sido feito ontem, pois, na verdade, estou atrasado! Mas nós temos medo do agora porque o agora não espera, não permite hesitação, inseguranças, ele não tolera planos, simulações, o agora tem ser “degustado” neste momento, no tempo em que as coisas estão acontecendo, ou então haveremos de nos conformar com o fato de que ele, nunca, jamais voltará novamente.

Os dias talvez sejam iguais para um relógio, mas não para um homem”. Marcel Proust. Há coisas que você precisa realizar agora e, normalmente, estas coisas não fazem parte de sua rotina. A rotina escraviza, torna-nos peças de uma engrenagem. Mas creia-me, você precisa quebrar as “regras”, tem de executar aquilo que não está programado, algo que surgiu na sua frente, de repente, motivou o impulso, produziu sensações, gerou o insight, criou o novo.

Há telefonemas que têm que ser dados agora, sentimentos que precisam ser expressos agora, beijos que precisam ser trocados agora, decisões que precisam ser tomadas agora, planos que precisam ser executados agora, nãos que precisam ser ditos agora. Sim, há coisas que não podem esperar, que precisam ser feitas agora, ou então se “calcificam”, tornam-se parte inerte da história, perdem-se entre o quase e o foi-se, entre o talvez e o nada.   

Você conhece a história de Zaqueu, o publicano. As Escrituras não apresentam os detalhes da visita de Jesus à sua casa, apenas narram o fato incomum de um profeta judeu visitar um homem tido como impuro. Eu não sei o que eles conversaram, apenas os resultados...

Fato é que, após aquele encontro, de forma inusitada, inesperada e mesmo surpreendente, Zaqueu, que era um homem desonesto, que extorquia os habitantes de sua cidade com ágio sobre o imposto cobrado pelos romanos, tomou a decisão de repor quatro vezes aquilo que havia ganhado ilicitamente. Era uma decisão difícil, sobretudo em se tratando de questões financeiras. Some-se a isto o fato de que ele era um homem de “negócios”, devia ser hábil em fazer contas, não realizava nada sem ponderar cuidadosamente, pois, como se diz, “o dinheiro nunca dorme”.   

Mas naquela manhã, exposto às verdades e valores do Reino de Deus, tendo sua alma compungida pelas palavras do Nazareno, sentindo seu íntimo invadido por uma luz que lhe desnudou as entranhas do ser e sua consciência despertada frente aos agravos dos próprios atos, desvendados seus olhos para torná-lo capaz de enxergar sua indignidade, ele não pestanejou, não racionalizou, não pediu para pensar, fazer contas ou conjecturas, agiu conforme lhe pedia o coração, apossou-se do agora e não deixou passar aquele momento, o qual, `num único instante, mudou toda sua eternidade, pois disse Jesus: “hoje entrou salvação nesta casa!”.

Sim, Zaqueu não se perdeu nas horas do relógio, não deixou escapar a oportunidade, não permitiu que o “trem” passasse na estação sem que ele embarcasse na grande aventura de viver a vida a partir dos pressupostos do Evangelho, tendo a misericórdia como companheira de jornada e a esperança como alimento que constrói o novo ser.

O que sei é que a vida não espera por ninguém, segue seu curso, faz seus próprios planos, ruma inexorável na direção que lhe está proposta. No fundo, como disse Chaplin, ela “... é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso, cante, chore, dance, ria e viva intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos”. Carpe Diem!

Carlos Moreira

15 maio 2012

O Que os Olhos não Vêem o Coração não Sente. Mas Faz mal do Mesmo Jeito!




É próprio do ser humano fugir de responsabilidades, não assumir erros, nem chamar para si o “peso” de decisões, muito menos ser coerente com suas convicções. Sim, coisa difícil é encontrar, sobretudo num tempo onde é possível camuflar quase tudo, desde a imagem até a realidade, pessoas que, reconhecendo suas falhas, defeitos, incongruências e interjeições, firmem posições.

A atitude de fugir, de esconder-se, não é algo novo. No texto do Gênesis já podemos ver tal comportamento na conduta de Adão e Eva. “Onde estais?”, disse Deus. Era o Criador a procura da criatura. Diante da transgressão cometida, a primeira coisa que ambos cogitaram foi desaparecer, tentaram encontrar um modo de evadir-se da culpa, das implicações inerentes ao que fora praticado. Tolinhos...

Na verdade, o ato de se esconder, de dissuadir, de disfarçar, está intimamente ligado com o fato de que, aquilo que não pode ser percebido, passa incólume, dá ao transgressor a sensação de imunidade e impunidade, de ter escapado ileso ao agravo realizado.

Pensando bem, talvez seja por isso que a sabedoria popular afirma: “o que os olhos não vêem o coração não sente”. Ora, se os olhos não podem discernir o que está se passando, então a alma nem sente nem se ressente de nada, pois tudo fica na sombra, vira esquecimento.

Esses conceitos são muito úteis para pensarmos sobre uma questão bastante polêmica: pecados que são percebidos e pecados que são de foro íntimo. O pressuposto é bastante simples: aquilo que não é visto não pode ser julgado, nem tornar-se alvo de condenação, de comentários ou fofocas. O pecado que se desenvolve na mente, por exemplo, só é discernido por quem o pratica, mas não tem como ser percebido pelo outro.

No entanto, quando o pecado é perceptível, vem a público, o “infeliz” que o cometeu torna-se réu da “corte dos santos”, alvo fácil de falatórios, a “bola da vez”, o “prato” quente servido para ser devorado na mesa dos “justos”, os quais o fazem com voracidade, mas sem qualquer compaixão ou misericórdia. Triste de quem for surpreendido em qualquer que seja a situação de pecado. Será vítima do “apetite” de uma “igreja” que tem prazer em ver mortos os seus feridos.  

Neste sentido, é fácil, por exemplo, condenar alguém que está embriagado. Seu estado é facilmente perceptível. Mas o que dizer de alguém que sente ciúmes? Ora, quem comete tal pecado, normalmente faz tudo para escondê-lo, sobretudo porque não deseja que a pessoa que é alvo de tal sentimento o saiba. Contudo, ao analisarmos Gálatas 5, que trata dos desvios da conduta humana, vemos que ambos são tratados da mesma forma, com igual severidade.

Jesus lidou com esta questão quando proferiu o Sermão do Monte. Nele está explicitado o que chamo de “Ética do Reino”, ou seja, os valores e conteúdos que fazem com que o bem aventurado seja aquele que é, que encarna no chão da vida a Verdade, que se cobre com a justiça que procede da fé, e não das obras.

No texto, o Galileu nos fala o seguinte: “ouvistes o que foi dito...”; em seguida, todavia, estabelece o novo paradigma: “eu porém vos digo...”. Faz isso por diversas vezes. Numa delas, usa um exemplo que era extremamente controverso na cultura judaica, e o é ainda nos nossos dias: a questão do adultério.

Vocês ouviram o que foi dito: “Não adulterarás”. Mas eu lhes digo: qualquer que olhar para uma mulher para desejá-la, já cometeu adultério com ela no seu coração”. Mt. 5:27-28. Perceba a maneira como o Evangelho trata a questão: tanto o explícito quanto o implícito são reprováveis diante de Deus, pois, mesmo aquilo que os olhos não vêem, tendo, todavia, se tornado fato “materializado” no coração, constitui-se pecado, e torna aquele que o cometeu réu do inferno.

Ora, isso está posto para que ninguém seja capaz de se justificar diante de Deus, uma vez que alguém até pode dizer: “eu jamais me deitei com outra mulher”, mas torna-se impossível afirmar nunca ter desejado alguém em sua mente e coração durante toda a vida.  

No fundo, a afirmação de Jesus foi proposital, pois tornou inviável todo caminho que tente promover auto-justificação. Por outro lado e, exclusivamente pela Graça, Ele mesmo se constituiu Caminho para a salvação de todo aquele que, crendo, deseje viver em pacificação, santidade e fé.

Quando realizo algo que desagrada a Deus, os olhos dos outros podem não perceber, seus corações podem até nem sentir, mas, a mim, faz mal de todo jeito! O pecado ofende ao Senhor, mas causa danos a minha alma e consciência. Por isso, é melhor andar sempre na luz, pois é na “claridade” que toda obra se torna manifesta, e só desta forma é que eu posso ser justificado, não por aquilo que faço, mas por alguém em quem creio, Cristo Jesus!


Carlos Moreira

12 maio 2012

“Quando o Corpo Pede um Pouco mais de Alma”




Que tempo este que nós vivemos. As mulheres buscam emagrecer para ficar com uma silhueta adequada ao “padrão” de beleza. Os homens, por sua vez, empenham-se em engordar, aumentam o volume para transformá-lo em músculos. Ao final, todavia, o que temos são mulheres esbeltas de corpo e pobres de alma, e homens fortes e musculosos, mas fracos de mente.   

O culto a imagem não é coisa da sociedade contemporânea. Em nossos dias, todavia, exacerbou-se a tal ponto que virou patologia. No caso dos homens, a disfunção chama-se vigorexia e, no caso das mulheres, anorexia. Ambas as doenças se remetem a transtornos dismórficos corporais, ou seja, a percepção por parte do doente de que sua própria imagem está distorcida.

Foi Platão, na Grécia antiga, o primeiro a formular a pergunta: “o que é o belo?”. Para os gregos, a beleza sempre foi algo fundamental. Mas eu penso que só agora, em nosso tempo, a questão ganhou contornos neurotizantes. As pessoas preocupam-se tanto com a imagem que esquecem que são mais do que apenas um corpo! Bem falou Confúcio, filósofo chinês,  "ainda não vi ninguém que ame a virtude tanto quanto ama a beleza do corpo". O avanço da indústria dos cosméticos, associado com as novas práticas da medicina estética – com plásticas restauradoras e modeladoras – tornou, a meu ver, o tema ainda mais dramático.   

Para quem tem dinheiro, o “céu” é o limite – ou seria o “inferno”? Corta, puxa, estica, infla, pinta, tudo é possível! É gente de 50, 60 anos querendo ter corpo de 20, ainda que a “cabeça” continue nos 15. Hoje, inclusive, estas práticas estão sendo cada vez mais buscadas precocemente. Até os adolescentes já entraram na “dança” do “culto ao corpo”, a “caça” pela perfeição estética, ainda que, do lado de dentro, falte-lhes um elemento essencial ao ser: a ética. Sou contra se investir na aparência? Não. Sou contra tudo o que maquia a verdade e camufla a essência, sou contra a falta de bom senso, de equilíbrio e inteligência. Ademais, lembrando David Hume "a beleza das coisas existe no espírito de quem as contempla".

Na verdade, assisto com desânimo homens de 40, 50 anos trocando suas esposas, companheiras de toda uma vida, por garotas de 20. O mesmo acontece com as mulheres... Talvez nenhum deles saiba que “enganosa é a beleza e vã a formosura”. Sim, haverá um tempo em que será inevitável esconder rugas, calvície, celulites, cabelos brancos, culotes, varizes, marcas que o tempo produziu no corpo que, ainda sem querer, teve de acolher as “pinturas” que a vida trouxe com o findar da “primavera”.  

De que adianta um corpo perfeito numa alma disforme? De que vale cabelos bem tratados e um coração amargurado? Ou um rosto bonito e uma mente perversa? Pernas e braços torneados e uma alma árida, áspera? Pele de seda e olhos de aço? Há, como gostaria de ver gente investindo em ser mais generosa, mais misericordiosa, quebrantada, obediente, santa, temperante, amorosa, humilde e verdadeira! Gente que desejasse ser mais do que “carne emoldurada”, e sim “alma esculpida”, talhada pelo cutelo do Espírito Santo, refeita e ressignificada para servir aos propósitos do “Oleiro”.  

Não é a toa que a alma adoece tanto, pois a ela não é dispensado qualquer tipo de cuidado. Toda nossa atenção está voltada para o corpo, para a imagem. E de tanto se viver de disfarce, de futilidades, a substância interior se dilui, as estruturas do ser desmoronam, as “vigas” da alma se quebram e fazem irromper toda sorte de somatização que, não raro, acabam por destruir os “investimentos” realizados no corpo.   

Certo estava Lenine quando, em sua poesia urbana, declarou que o corpo precisava mais de alma! Sim, um corpo sem alma é como uma casa sem mobília – triste, vazia e sem vida. Num tempo onde a aparência conta mais do que o caráter e a beleza mais do que valores, sei que estou na contramão do “sistema”, investindo em ter conteúdos e consciência. Cuido razoavelmente do corpo que recebi, mas estou mesmo interessado no que ainda está por vir. 



Carlos Moreira


10 maio 2012

Sofro de Distâncias






Cresci sozinho. A solidão sempre foi boa com­panheira, nunca me deixou só. E solidão não é au­sência de companhia, é a falta de si mesmo, é quan­do você não é um rosto na multidão, mas a multidão sem um rosto.

Nasci no tempo errado, tenho certeza. Pertenço a um mundo de impessoalidades, de pessoas indo e vindo sem saber ao certo o porquê de estarem fa­zendo tal coisa... É a era da virtualidade, da imagem. Foi-se o tempo em que existia o toque, o cheiro, o gosto. Agora tudo é digital.

Não sei se você se deu conta, mas, em nossa so­ciedade, é melhor ser singular do que plural. Au­menta a cada dia o número dos que existem sozi­nhos, dissociados. São solteiros tardios, pais sem esposas, mães sem maridos, filhos sem pais. A pala­vra “nosso” praticamente perdeu suas implicações e significados. Hoje tudo é apenas “meu”: meus so­nhos, meus projetos, minha casa, meu carro, minha cama, meu dinheiro.

Olho para tudo isso e me acho desconforme. Sinto falta de gente. Apesar de sempre ter brin­cado sozinho, ansiava por um amigo, uma compa­nhia. Tive alguns na vida, mas foram poucos. Hoje, não enchem nem uma mão. Dias difíceis... Tanta correria que não dá tempo para realizar trocas, bater um bom papo, ou mesmo ficar calado, um do lado do outro.

Moro num edifício, mas quase não conheço meu vizinho. O de cima e o de baixo não sei quem são. Mesmo depois de algum tempo, encontro gente no elevador que nunca vi. Não sei o nome dos portei­ros, dos vigias, nem dos zeladores. Gosto de ir sem­pre aos mesmos lugares, vejo gente que lá está, mas não sei de quem se trata. Na farmácia todos são anônimos. O mesmo acontece no posto de gasolina, na padaria, no pet shop e na livraria. Os rostos são familiares, mas as pessoas parecem não ter alma, são como zumbis, interagem comigo quase sem me dirigir palavras.

Como observador da existência, percebo que o fenômeno chegou também na igreja. Tudo vem se tornando impessoal. É tanta gente que não se sabe quem é quem. Alguns poucos você conhece pelo nome, todos os outros são apenas “irmãos”, mas não parecem fazer parte da mesma família. Sim, não posso chamar isso de “Corpo”, mas de uma saco­la de membros esquartejados, pois não há conexão entre as “partes”, não há ligamentos nem ligadu­ras, apenas distâncias e silêncios, sorrisos pálidos e abraços gélidos.

Fui buscar as Escrituras. Bateu-me certo deses­pero! O padrão que está lá é outro... O Novo Tes­tamento nos indica o caminho: “Sujeitai-vos uns aos outros; consolai-vos uns aos outros; amai-vos uns aos outros; saudai-vos uns aos outros; sede benignos uns para com os outros; perdoai-vos uns aos outros; exortai-vos uns aos outros; edificai-vos uns aos outros; confessai-vos uns aos outros; orai uns pelos outros; recebei-vos uns aos outros; não mintais uns aos outros; lavai os pés uns dos ou­tros; suportai-vos uns aos outros; admoestai-vos uns aos outros”. Ler isso me deu certo alento...

No meu pensar, mesmo sabendo que será to­talmente inócuo, creio estarmos quase todos na contramão! Não há Evangelho se não há o outro, pois, sem o próximo, não há caminho a ser cami­nhado. Amarei a Deus, mas não terei como ma­terializar esse amor amando o meu semelhante. É por isso que o “Pai” é “nosso” e não meu, e a igreja é reunião de “dois ou três” e não fé existen­cializada individualmente.

E assim, diante da máquina, que não ouve, não vê e não fala, termino essa noite, ou melhor, esse dia, pois já são três horas da manhã. Pela janela vejo a cidade vazia, as ruas desertas, os apartamentos no escuro. Todos agora estão descansando, cada um no seu quarto, cada qual com seu sonho, pois até dormir é solitário.

“O médico perguntou: O que sentes?
E eu respondi: Sinto lonjuras, doutor. Sofro de distâncias”.
Denison Mendes



Carlos Moreira


08 maio 2012

Prisões que não Possuem Grades



“Quem dormiu no chão deve lembrar-se disso... Escreverá talvez asperezas, mas é delas que a vida é feita: inútil negá-las, contorná-las, envolvê-las em gaze”.
Graciliano Ramos

Memórias do Cárcere é uma obra póstuma de Graciliano Ramos publicada em 1953. Preso na época do “Estado Novo” sob a falsa acusação de ligação com o Partido Comunista, o escritor foi deportado para o Rio de Janeiro, onde permaneceu encarcerado por cerca de dois anos.

No livro, Graciliano se ocupou em tornar público, depois de muita hesitação, acontecimentos da vida na prisão. Escrito dez anos após sua libertação, traz em si uma narrativa amarga, não obstante verdadeira.

Já li comentários de que pessoas que foram presas, sobretudo injustamente, jamais voltaram a ser as mesmas. O cerceamento da liberdade traz impactos tão violentos à psique que o indivíduo não consegue mais se reencontrar com sua essência, impõe-se a um autoexílio rumo aos porões do ser, acaba soterrado sob densas camadas de lembranças tenebrosas.  

Eu sei que há prisões que possuem grades, e dessas é muito difícil escapar. Mas há outros tipos de prisões, que vão para além de impor ao corpo a reclusão em um cubículo onde ele permanecerá confinado. Sim, essas masmorras são imateriais, sem grades, sem paredes, são calabouços que aprisionam não só a vontade, o desejo de liberdade, mas o ser e os sonhos.

É fato que tenho encontrado no passadiço da vida muitas pessoas aprisionadas em tais “labirintos”. É gente que, sem perceber, tornou-se refém de sofismas, projeções, carmas, manipulações e toda sorte de situação que produz autoengano e acaba dando forma a uma imagem distorcida de si mesmo. Essa, por sua vez, projetada na tela da existência, reproduz um holograma monstrificado de quem enganosamente se pensa ser.

Não é raro me deparar com pessoas vivenciando tais dinâmicas. É gente que se tornou refém de cônjuge, de sogra, de filhos, tudo pelo estabelecimento de vínculos afetivos adoecidos, que acabam dando ao outro uma espécie de “licença para matar”, e, por assim dizer, produzem, pela via da culpa e do medo, todo tipo de escravidão e subserviência.

Há aqueles que estão presos a determinismos infundados, não raro fruto de comentários recorrentes feitos por pessoas próximas, alguns dos quais se enraizaram na alma desde a infância. É gente que se sente assombrada por um carma, conduzida inexoravelmente por um trilho de onde não se pode sair. No fundo, é como se o indivíduo estivesse fadado a parar sempre na mesma “estação” e seguir sempre pelo mesmo caminho.

Também é comum encontrar os que se viciaram psicologicamente no fracasso, que sentem prazer nas impossibilidades. Trata-se da negatividade alça-da ao platô mais profundo do ser, são pessoas som-brias, que vivem de olhar pelo “retrovisor”, sempre a se lamentar pelo que passou, ansiando pelo que poderia ter sido, mas não foi...

Não menos danoso é o grupo dos que passaram a viver de uma espécie de ração, que esmolam da vida, acomodaram-se em ser o que não são, estagnaram a consciência e amordaçaram o pensamento.
Pessoas assim deixam de acreditar no novo, pois acabam se acostumando com a mesmice, vivem apenas seguindo o fluxo, o curso, a rotina. Estão mortas, mas ainda não foram sepultadas, existem sem ser, sem saber vão, de arrastão em arrastão, vivem dos restos do ontem e dos fragmentos do hoje.

Finalmente, mas não menos triste, há os que adoeceram a ponto de dependerem de medicação para viver, drogas que se aplicam a distúrbios e doenças tais como ansiedade, depressão nervosa, distúrbio bipolar, psicose, pânico, dentre outras..

Nesse estágio há muita dor e desânimo, pois, além dos sintomas próprios de cada doença, ainda há os efeitos colaterais dos remédios, tão diversos quanto possamos imaginar. Eles, sem pedir permissão, mudam as pessoas, alteram gestos e gostos, sorrisos e olhares.

Seria pieguice e irresponsabilidade de minha par-te afirmar que a solução para todas estas coisas está na religião. Tolice crer que reunião de oração, jejum e leitura da Bíblia vão resolver o problema. Também incluo aqui bizarrices do tipo: sessão do descarrego, culto de libertação, de unção, do desencapetamento total e outras mandingas do meio evangélico. Nada disso tem sustentação nas Escrituras, sendo assim, não produz nem paz nem bem ao ser.

Acredito, entretanto, que a cura passa pela experimentação da verdade, ou, como disse Tolstoi, escritor russo do século XIX: “Não alcançamos a liberdade buscando a liberdade, mas sim a verdade. A liberdade não é um fim, mas uma consequência”.

A maior parte dos problemas e dores humanas está associada a não percepção da Verdade, e aqui afirmo Verdade não como paradigma existencial, mas como Caminho a ser caminhado. A verdade nasce da experimentação de valores e princípios que mudam o ser, de dentro para fora, pela via da pacificação produzida pela Graça, em Fé e através do Amor, pela ação do Espírito Santo. Ela é capaz de realizar aquilo que nada nem ninguém pode fazer em definitivo: sarar a alma! Sim, como disse Jesus: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”.

Há prisões que não possuem grades, mas que aprisionam muito mais do que aquelas que prendem os indivíduos, posto que é mais fácil libertar o corpo do que a alma. Como disse em um outro texto: “... eu não sei qual foi a porta que eu abri, mas, quando dei por mim, já estava aqui! Curioso, também, é que eu não sei como sair; as portas daqui só possuem maçanetas pelo lado de fora! Aqui é todo canto e lugar nenhum”.

Gostaria de ver todo aquele que se encontra “encarcerado” livre dessa prisão, das amarras que prendem a mente, a alma e o ser. Sei que só Deus pode livrar-nos disto, mas esta experiência tem de ser vivida por cada um, a seu tempo e do seu próprio modo. Deixo-te, então, com o que escreveu Clarice Lispector: “Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome”.


Carlos Moreira


07 maio 2012

No Facebook Todo Mundo é Feliz



Um dos maiores fenômenos nos EUA nos últimos anos chama-se “Second Life”. Trata-se de um “metaverso, um mundo virtual tridimensional que oferece a qualquer um que tenha acesso a internet a possibilidade de ter uma segunda vida, um alter-ego”.

O Second Life permite que residentes do universo on-line possam trabalhar, estudar, passear, namorar, fazer compras, vender, ter novos amigos, viajar, ou seja, experimentar quase todas as dinâmicas de uma vida real, mas com uma enorme vantagem: no Second Life você pode ser quem quiser, ter uma outra vida, totalmente diferente da que já possui. Nela você pode ser famoso, rico, bonito, saudável, bem empregado, ou seja, ter ou ser tudo o que você sempre quis, mas que, talvez, nunca tenha conseguido. 

Quando eu observo o fenômeno das redes sociais, sobretudo o Facebook, eu me lembro muito do Sencond Life. E por quê? Porque o Facebook permite que se tenha uma vida dentro da própria vida, ele estabelece um ambiente virtual onde qualquer um pode aparentar ser o que desejar! Na verdade, a grande maioria das pessoas estão ali se relacionando com outras milhares que não lhe conhecem bem, ou mesmo que sequer nunca lhe viram pessoalmente.

Eu sou usuário do Facebook. Entro lá para divulgar mensagens, artigos, reflexões, frases, e para dar notícias sobre meu ministério e minha comunidade. Como não tenho tempo para ficar analisando o que se posta, às vezes dou uma olhada rápida no feed de notícias para ver o que aparece por lá... É como se você ficasse diante de um grande “quadro de avisos” onde as pessoas postam as mais diversas informações: frases, músicas, imagens, vídeos, textos, piadas, e tudo o que, eventualmente, lhes chama a atenção.

Obviamente, o conteúdo publicado por cada pessoa muda de acordo com os “conteúdos” interiores que em cada um existe, com sua matriz de valores. Como somos uma geração com muita aparência e pouca consciência, tenho percebido que cada vez mais encontro “material degradável” no Facebook. Recentemente, inclusive, cheguei a afirmar que esse “ambiente” estava parecendo um grande lixão, onde é preciso um esforço hercúleo para se achar algo que se aproveite.

Mas o que mais me impressiona no Facebook é o fato de boa parte das pessoas viverem, na grande maioria do tempo, uma enorme mentira, uma vida que não é a delas. É gente que está despedaçada fazendo piada, casais em crise postando fotos de amor, profissionais frustrados contando vantagens, pessoas solitárias compartilhando experiências maravilhosas, pais descuidados em fotos belíssimas com os filhos, gente flertando e contando lorota, têm de tudo um pouco, muita encenação e pouca verdade. O grande perigo, todavia, é descuidar nos exageros e cair no que bem citou o Millôr Fernandes: “jamais diga uma mentira que não possa provar”.

Triste geração esta, onde ser o que se é tornou-se algo insuportável. Por isso precisamos tanto do disfarce, de algo que nos projete da falsidade real para a realidade virtual. Tem toda a razão Erich Fromm quando afirmou: "somos uma sociedade de pessoas com notória infelicidade: solidão, ansiedade, depressão, dependência; pessoas que ficam felizes quando matam o tempo que foi tão difícil conquistar". E me responda, com total isenção e honestidade, em que lugar se “mata” mais o tempo do que no Facebook?

Diante de tudo isso, alguém pode afirmar que sou contra a tecnologia. Não, não sou. Mas confesso, sou totalmente cético quanto ao fato da tecnologia poder nos tornar pessoas melhores e dar a humanidade um futuro mais tranquilo. E aqui lembro de George Carlim; “construímos mais computadores para armazenar mais informação, produzir mais cópias do que nunca, mas nos comunicarmos menos. Estamos na era do 'fast-food' e da digestão lenta; do homem grande de caráter pequeno; lucros acentuados e relações vazias”.

Escrevi esse texto porque, nessa madrugada, conversando com alguém que conheço há bastante tempo, que não pode me esconder os contornos de sua vida, percebi que seu estado era preocupante, senti suas dores, discerni sua angústia, “inalei” sua tristeza, “sorvi” sua solidão, “degustei” sua ansiedade, seus medos, sua aflição. Foi uma conversa longa e difícil...

Hoje pela manhã, todavia, quando fui divulgar uma programação da comunidade, percebi que depois de termos batido aquele "papo", o dito cujo passou o resto da noite postando piadas, fotos engraçadas, contando vantagens, falando bobagens, dizendo tolices, tirando “onda”, como se nada do que está “depositado” nos escaninhos de sua alma fosse real.

Diante do ridículo da situação, e com certo ar de decepção, não me restou outra alternativa a não ser relacionar tudo aquilo com a velha canção do Bee Gees – “Jive Talking” – numa tradução livre: “Papo Furado”. Sim meu “mano”, tudo aquilo que foi publicado não passou de “conversa mole”, dissimulação e mentira. Por isso, tenha muito cuidado, pois do outro lado da linha tem gente de carne e osso, e não estátuas! Certo mesmo estava o Renato Russo ao afirmar: “mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira”. E viva o Facebook!

Carlos Moreira

01 maio 2012

“Sabe lá o Que é Não Ter e Ter Que Ter Pra Dar?”




“Convém que Ele cresça e que eu diminua”. A frase lapidar de João Batista é, além de desconcertante, inquietante. Quem, de sã consciência, fala um negócio desses? Quem, responda-me honestamente, quer diminuir, quer ceder o lugar, a vez, o espaço, o status? Eu lhe respondo: não sei. Só sei que eu não. Pelo menos, ainda não...

Mas talvez alguém me questione: “olha, abrir mão, nesta perspectiva, é deixar que Jesus se sobressaia!”. E eu respondo: eu sei! E é por isso mesmo que complica, porque Jesus não está atrás de nada, não precisa de nada, não tem que provar nada, não tem que defender nada, não tem que lutar por nada! Isso tudo é coisa minha, é dinâmica pequena e mesquinha da minha existência, da minha luta por um lugar em baixo do sol, da minha necessidade de parecer, de me fazer perceber, de buscar quem possa me reconhecer e, em tudo isso sentir, ainda que por um pouco, prazer.

Há algo me apertando a garganta... É uma vontade enorme de chorar, de gritar, de correr, de dizer que está difícil, “punk” mesmo, sofrido, doído, ou como se diz aqui por estas bandas, ardido. E eu preciso confessar! Preciso lhe dizer que não sou o que gostaria de ser, ou, melhor, o que deveria ser... Não há coisa pior do que você frustrar a você mesmo. Frustrar os outros já se tornou rotina, mas a pior decepção é quanto você vê que não consegue ser mais do que já é, chegou ao limite, e, ainda assim, é muito pouco... Lembro de Clarice Lispector: “oh chega de decepções, estou tão machucado, me doem a nuca, a boca, os tornozelos, fui chicoteado nos rins”.

Olho para a igreja... Vejo os “personagens” realizando “malabarismos” no “teatro de marionetes”. Sim, eles fazem mesmo o “show” acontecer. E como sabemos, “the show must go on!”. São todos “figurões da fé” lutando entre si de forma despudorada, acusando-se mutuamente, seja em secreto, seja nos bastidores eclesiásticos, seja de maneira aberrante na mídia, pra todo mundo ver. É gente muito “poderosa”, que construiu o seu próprio “reino”, mas que nunca esteve envolvida com o Evangelho, nem com Jesus de Nazaré, nem muito menos com o Reino de Deus.

Incomoda-me o personalismo, a divinização do humano, “pastores” sendo alçados a categoria de pop-star, gente que nunca teve nem referência nem consciência de que foi chamada para lavar os pés da igreja, para servir os que fazem o Corpo de Cristo. Sim “ministros”, nós devemos tomar os últimos lugares, tornarmo-nos os menores entre os menores, estarmos entre os que carregam as maiores cargas, os que sofrem em silêncio, que são perseguidos, injuriados, caluniados, e ainda termos a certeza de que nos tornamos alvo fácil para aqueles que abrem a boca com o fim de destruir em um mês o que foi construído com lágrimas em vinte, trinta anos.     

Domingo eu acordei cansado... Já faz parte... Dormi já era madrugada fazendo a mensagem. É a falta de tempo, não de zelo. Tinha vontade de tudo, menos de ir pregar. O corpo pesava duas toneladas, a cabeça doía, os pés estavam fartos de chão e os olhos cansados de tanto ver. Tive vontade de ficar dormindo. Pensei em ligar para alguém para me substituir. Mas levantei-me e fui... Tenho dúvidas se deveria. Não sei se era eu que estava ali. “Sabe lá o que é não ter e ter que ter pra dar?”. Encarnei com todos os matizes a poesia de Djavan. Estava parado na “esquina” e, diante de mim, se encontravam minha consciência e minhas limitações.

Fui aos trancos e barrancos. Deus usou o que sobrou de mim. Era a contradição em pessoa. “Como isso é possível?”, perguntava-me como que repetindo um velho mantra. Lembrei que não sou eu, mas Ele em mim... Ainda assim... A comunidade em que sirvo já me conhece. Sabe que não faço “caras e bocas”, que não sou performático, que evito disfarces, salamaleques. Era só olhar para ver que eu não estava bem. Mas tinha de estar. Tinha? Não sei, acho que tinha! Mas não estava... Como disse o Cáio, “Eu sou Biribá, não nasci para ser Fruta do Conde”.   

Se quiseres mesmo saber o que sou, sou iconoclasta, estou em busca de desmascarar e destruir os “ícones”, os “ídolos”, as “imagens”. E faço isso começando comigo mesmo, me expondo e abrindo o meu ser para que saibas que não sou o que pensas, nem mesmo o que penso eu, pois na verdade sou pó e podridão, poeira e solidão. Sim, não fosse a Graça que sustenta os caídos, sequer me levantaria da cama, amargaria existir de mim para mim mesmo.

Desculpe-me se de alguma forma te choquei... Faz parte do meu “show”... É melhor que saibas por mim mesmo sobre mim do que pelos outros, que de mim nada sabem além do que fragilmente conseguem perceber. Mas eu sei que sou mais do que o que eles podem ver e menos do que eu gostaria de ser. “That´s all folks!”. Quem lembrar vai entender... “E se quiser saber pra onde eu vou, pra onde tenha sol, é pra lá que eu vou...”. Jota Quest.  

Carlos Moreira

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É importante esclarecer que este BLOG, em plena vigência do Estado Democrático de Direito, exercita-se das prerrogativas constantes dos incisos IV e IX, do artigo 5º, da Constituição Federal. Relembrando os referidos textos constitucionais, verifica-se: “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato" (inciso IV) e "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença" (inciso IX). Além disso, cabe salientar que a proteção legal de nosso trabalho também se constata na análise mais acurada do inciso VI, do mesmo artigo em comento, quando sentencia que "é inviolável a liberdade de consciência e de crença". Tendo sido explicitada, faz-se necessário, ainda, esclarecer que as menções, aferições, ou até mesmo as aparentes críticas que, porventura, se façam a respeito de doutrinas das mais diversas crenças, situam-se e estão adstritas tão somente ao campo da "argumentação", ou seja, são abordagens que se limitam puramente às questões teológicas e doutrinárias. Assim sendo, não há que se falar em difamação, crime contra a honra de quem quer que seja, ressaltando-se, inclusive, que tais discussões não estão voltadas para a pessoa, mas para idéias e doutrinas.

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