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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.
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08 julho 2011

Só Leia se Desejar Aprender a Ser Feliz


Hoje é sexta-feira, dia em que tiro à tarde para aconselhar pessoas na igreja. Eu recebo também aqueles que precisam de ajuda no meu escritório, e estes se constituem a maioria. Acho que as pessoas não gostam de ir ao gabinete pastoral para não serem vistas, afinal, é bom sempre manter as aparências. Ou não...

O bom conselheiro é aquele que ouve muito e fala pouco. Não raras vezes, as pessoas falam por 30 ou 40 minutos e eu uso apenas 5 para me colocar. Acho curioso quando, ao final, depois de orarmos, ouço o seguinte: “pastor, foi maravilhoso vir hoje aqui, o Sr. me ajudou muito”. Dou um pequeno sorriso e despeço-me cordialmente. Na verdade, em nossa sociedade, as pessoas precisam apenas ser ouvidas...  

Curioso, mas todo mundo que vem para o aconselhamento trás uma questão em comum: deseja ser feliz. É legítimo, razoável, desejável, mas, quase nunca, alcançável, pelo menos não do jeito que eles imaginam. É que a felicidade, ao contrário do que se pensa, não é um estado perene na existência, mas uma estação sazonal. A vida é mais feita de dores e perdas do que de risos e conquistas. E isso, eu lhe garanto, se você ainda não aprendeu, aprenderá. 

Gosto muito do livro de Eclesiastes. Acho que, no velho testamento, é um dos meus preferidos. Construído em linguagem poético-sapiencial, escrito por um sábio com consciência epicurista, Eclesiastes nos chama a analisar a vida como ela é, sem disfarces, sem contornos religiosos, sem melodramas, tudo preto no branco.

É nesta perspectiva que, no capítulo 9, o filósofo-religioso nos dá alguns conselhos para alcançarmos a felicidade. Não sei se servirá para você, acostumado aos “10 passos para isto ou aquilo”, ou aos manuais de auto-ajuda, ou a teologias complexas, mas, para mim, pobre de espírito, quebrantado de coração, caiu como “uma luva”.

1º. Conselho – “Portanto, vá, coma com prazer a sua comida, e beba o seu vinho de coração alegre, pois Deus já se agradou do que você faz”. Em outras palavras, o melhor da vida está nas coisas simples. Comer é privilégio para poucos, pois nem mesmo os ricos o podem fazer. Estes estão sempre apressados, quase não tem tempo para se alimentar, comem no fast food, no Mcdonalds, pedem comida Chinesa, entregue numa caixa de papelão, e se alimentam na mesa de reunião do escritório.

Comer pão e vinho nos remete a simplicidade, e o simples, como sabemos, é o contrário do fácil. Além do mais, eles representam elementos cúlticos, ou seja, comer é dádiva de Deus, se alimentar é resultado do esforço do homem. O pão dos justos Deus o dá enquanto eles dormem, diz o salmista.

A verdade é que nós complexificamos muito a vida. Tornamos o essencial relativo, e o supérfluo essencial. Tenha certeza de uma coisa: se você conseguir se livrar da metade das contas que paga por serviços e produtos que não lhe farão falta, viverá muito melhor do que vive hoje. Bertrand Russell escreveu: “Não possuir alguma das coisas que desejamos é parte indispensável da felicidade”. Sim, se vivermos assim, Deus se agradará das nossas obras.

2º. Conselho – “Esteja sempre vestido com roupas de festa, e unja sempre a sua cabeça com óleo”. Traduzindo: viver deve ser algo prazeroso, mas, tome cuidado, a falta de equilíbrio pode fazer da existência uma experiência doentia e patológica.

Deus gosta da alegria, da festa, da música, da dança, do prazer, do riso e da satisfação. Quem disser o contrário, não o conhece, tem por referência um holograma caricaturado da sua própria projeção psicológica do sagrado, talvez associada a uma figura de autoridade próxima, não raro, um pai dominador, severo e inafetivo.

Ora, a vida nos foi dada para que a experimentássemos em todos os seus matizes, para que pudéssemos nos realizar e ter prazer e alegria. O cristianismo, infelizmente, mudou esta perspectiva que, notadamente vemos em Jesus, transformando-se numa religião asceta, que busca a ataraxia, a mortificação do eu, a sublimação do ser. Mas o que sei é que a Verdade liberta, torna-nos seres em expansão, não só do pensamento mas das sensações, pois “tudo é puro para os puros”.

O problema não está em viver com “vestes de louvor”, cingido de alegria, envolto com “ares de festas e luas de prata”. Não. O problema está no exagero, no excesso, na extravagância, no prazer pelo prazer, na tentativa de fazer a alma se saciar com aquilo que não gera a paz nem produz o bem. Por isso nossa cabeça precisa estar untada com óleo, pois óleo, neste texto, significa aquele elemento que produz cura, que sara feridas, que protege nossa consciência e nos traz de volta a razão. É o óleo do Espírito, derramado em nossos corações, que sara as seqüelas produzidas pelas experiências dolorosas da existência humana. Por isso, no que depender de você, nuca permita que ele deixe de cair sobre sua fronte.

3º. Conselho – “Desfrute a vida com a mulher a quem você ama, todos os dias desta vida sem sentido... Pois essa é a sua recompensa na vida pelo seu árduo trabalho debaixo do sol”. Aqui a intenção do autor é nos alertar que a coisa mais preciosa que temos são as relações de amor que construímos. Relacionamentos são eternos, perpassam da vida para a eternidade, tudo o mais fica aqui, pois diz o sábio, “ao morreres levarás tudo o que és e deixarás tudo o que tens”.

Apaixonar-se por alguém é o que há de melhor na vida. As pessoas mais felizes que conheço são aquelas que construíram relações duradouras, que conseguiram unir o amigo e o amante na mesma cama. Por isso o sábio diz que nem mesmo aquilo que o dinheiro pode comprar é capaz de sobrepujar-se a satisfação de se ter alguém a quem amar, alguém a quem se possa entregar a alma, o copo e a vida.

4º. Conselho – “O que as suas mãos tiverem que fazer, que o façam com toda a sua força, pois na sepultura, para onde você vai, não há atividade nem planejamento, não há conhecimento nem sabedoria”. Aqui o sábio nos chama a um encontro com o inevitável, a um encontro com o Deus Eterno!

A vida é feita de escolhas. Devemos e podemos realizar tudo aquilo que nos for possível, mas sem perder a referência de que tudo isto um dia passará e, portanto, nosso coração não deve estar naquilo que produzimos, mas em quem estamos nos tornando. Se esta perspectiva não for assumida na vida, se nossa existência se resumir a vivermos para trabalhar, e não a trabalharmos para viver, o que nos espera será apenas o nada, o não-ser, pois existir fora de Deus é tornar-se absurdo.

Para mim, isso é inferno. Inferno não é um lugar, mas um sentir. Todo texto sobre o tema é metafórico, recortado por alegorias. Quem imagina o inferno como um caldeirão com óleo fervendo e um “capeta” lhe espetando com um tridente não tem qualquer entendimento sobre a bondade e misericórdia de Deus.

Sabe o que é inferno? É toda existência que ignora a graça, é viver para si mesmo, é nunca perceber-se necessitado de perdão, é endurecer-se a tal ponto que a centelha que produz o arrependimento nunca possa ser acesa. Há tanta gente que “ama” a Deus com medo do inferno que, se chegar ao céu e descobrir que ele não existe, pelo menos do jeito que imaginam, irão reclamar de Jesus por não terem vivido a vida, mas apenas amordaçado o ser.

5º. Conselho - Já me disseram que se conselho fosse coisa boa não era dado e sim vendido. De fato, depois de 30 anos de caminhada, isso me faz todo sentido. Mas como eu recebi de graça, de graça também quero repartir. Gandhi afirmou: “Não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho.” Por isso, se o que disse lhe servir para alguma coisa, aplique a vida, faça o caminho, e o Caminho se fará em você. Se não te aproveitou em nada, sigas em paz.

Carlos Moreira

01 julho 2011

Cotidiano em Branco e Preto




Não me venha com tua mesmice, tuas críticas cruas que rasgam meu ser. Por vezes sinto tuas unhas se cravarem em minha carne como garras de aves de rapina, arrancam minha pele sem derramar uma gota de sangue. Sim, tu és cirúrgico demais, mesmo para mim...

E eu te pergunto: o que estás esperando? Que eu seja o Super-Homem? Que me sinta com a obrigação de salvar a humanidade inteira, fazer tudo certo, todo o tempo? Achas que sou um Quixote enfrentando moinhos de vento?! Ora, tu bem sabes que desprezo olhares tortos e passo ao largo de quem tem imaginação retilínea.

Deveras, tens de compreender, tuas teorias me entediam e me dá cansaço essa complacência com o descaso. És daqueles que tudo realizam, mas sempre no mundo das ideias... platônico demais para o real. Portanto, deixe-me ser, e saias do caminho!

Queres que eu confesse? Sim, os pecados são to-dos meus, não estou disposto a dividi-los com ninguém. Desejo o teu desprezo e que nunca descubras o que escrevo. Evites escutar o que falo, pois sou ácido e ávido, corto que nem navalha! Como já sabes, adoro o preto, mas detesto o ócio.

Um dia, não queiras enganar-me, pensaste que já sabias tudo. Mas te vejo calado, quieto, inseguro. Espreitas por entre portas entreabertas, por onde a vida passa cálida. O que te peço? Que afastes de mim tua compaixão, pois jamais desejei obter a caridade de quem me detesta. Se perguntarem por mim? Diz que fui por aí... com um punhado de sonhos nas mãos e lágrimas requentadas por perdas ínfimas.

Queres me surpreender? Então conta segredos sobre coisas que eu ainda não saiba. Tira as velhas roupas dos cabides, esvazia o armário e faze uma faxina na alma. Revira tuas ideias ao avesso, deixa o hermético de lado, é démodé o traço perfeito. Não me traga mesmices, não me canse com tagarelices, pois tu sabes o quanto gosto de fotos coloridas, mas, o real, esse tem mesmo de ser branco e preto.

Eu tenho um problema e tu o conheces. Estou andando nessa estrada já faz algum tempo. Sei onde estão os atalhos, as curvas e ondulações. As paisagens, são sempre as mesmas, não importa de que lado do caminho você esteja, indo ou voltando, são todas iguais. Por isso, faço uma trilha só minha, onde não haja pegadas, corro riscos, sinto medo, vejo os contrastes, tiro os disfarces, piso no chão com pés descalços, deixo o ar entrar pelo corpo e arejar os cômodos do meu ser.

Ademais, no íntimo de cada um há moinhos abandonados, ruas desertas, velas apagadas e copos vazios. Pudesse teu olhar penetrar mais fundo, como luz que vaza a cortina de seda fina, roubando da penumbra teus disfarces, se te fosse possível ir ao âmago, adentrar lugares escondidos, verias que interiores são feitos de poesia e que, na melancolia do ser, há paixões recolhidas e pétalas em flor.

Se quiseres, dou-te um conselho: quando tiveres que cortar a carne, faça o serviço com faca amolada, pois há decisões na vida que são quais amputações, salvam o ser da desgraça, mas produzem um aleijão na alma. E mais... se tens de fazer, então não perca a hora! Faze logo hoje, depressa, agora! A gangrena da consciência é pior do que o enfarto do coração.

Eis que encontrei uma coisa terrível debaixo do sol: o cotidiano! Ele passa a existência sentado no muro das ponderações. Faz contas, analisa, constrói gráficos, faz cálculos, imprecisas ponderações. Mexe, remexe, vira, não chega a lugar algum.

Mas deixa estar... Feliz é quem já se estrepou numa estrada de barro batido, tomou prumo pra lida, rasgou a roupa que camuflava a imagem e o orgulho que vestia a hipocrisia. Isso sim, muda a gente!

Dor é coisa preciosa. Quando não mata o “cabra”, quebra o tédio de seguranças pasteurizadas. Feliz é quem sofre, quem acumula rugas no rosto e certezas no olhar. Sofrer é acalento de gente grande, faz a lágrima escorrer pelo canto do rosto e leva embora sonhos embebidos em esperanças póstumas.

Dá-me, então, minha porção de sofrimento, pois é calejando os pés nas pedras do caminho que poderei ir mais longe. Mas não me canse com melancolias nem me venhas com doçuras ou canduras.

Se quiseres me ajudar, traze um balde com a lama que escorreu pela calçada por onde a tristeza desfilou impoluta. Com ele, mais um pincel de pintor, colorirei a tela da vida, sem mazelas ou pieguices, tudo preto no branco, vívido e verdadeiro, tudo como tem que ser.

Houve um tempo em que eu era idealista... Depois, a realidade se enraizou até os ossos, entrou pelas veias, entranhou-se na alma. No meu mimetismo, sempre busquei camuflar as imperfeições, disfarçar antigas contradições.

Mas o tempo devora tudo, muda a essência, transforma a existência. Hoje, confesso, cansei de “caras e bocas”, da “estética”, da plástica social, dos traquejos, das políticas e dos manejos.

Na verdade, nunca fui bom nisso, e agora fiquei irreparável. Hoje só me interessa aquilo que é, o que vaza da alma em direção à vida, que borbulha do caldo das incongruências e medos e se espalha pela tapeçaria dos dias.

É que chega o tempo em que o belo é torto, penso e díspare. Farto de tanta perfeição, você para e suplica: dá-me um pouco de ilusão! Faze isso e te serei grato pelo resto de meus dias. Sim, dá-me essa tal ilusão, faze uma alquimia qualquer, ainda que no fundo, ela seja a mais pura realidade...

Carlos Moreira

16 junho 2011

O Homem Acordado


Cada vez que paro e reflito sobre as coisas com as quais estou envolvido sinto que “corro atrás do vento”. Boa parte daquilo que eu faço não me levará a lugar algum; constato com tristeza.

Percebo isso com mais clareza quando o meu corpo exausto de uma rotina sem sentido adoece. As doenças, em alguns casos, são as melhores amigas do ser humano porque o fazem perceber a sua loucura.

Elas nos ajudam a sair de nós mesmos e ver como são fúteis os projetos nos quais estamos envolvidos. Como observou Nietzsche certa vez: “É preciso sair da cidade para ver a que altura fica às torres”.

Estamos afundados até o pescoço em uma grande ilusão. Aquilo que chamamos erroneamente de “ganhar a vida”, não passa de algo que nos ajuda
a perdê-la. Como dizia uma antiga música de Belchior: “caminhamos para a morte pensando em vencer na vida”.

As nossas muitas e fúteis atividades não nos deixam tempo nem para mastigar a comida que comemos. Fazemos uma coisa pensando na próxima, nos deitamos hoje pensando no trabalho de amanhã.

Um dia me apanhei comendo enquanto caminhava para o local de trabalho porque para mim tornou-se comum comer andando e dirigir comendo. Como podem ser saudáveis e felizes pessoas que comem enquanto andam?

A maior parte das coisas que fazemos tem finalidades egoístas e mesquinhas. Além do mais, as pessoas com quem nos relacionamos todos os dias, em sua maioria, sentiriam grande prazer em nos verem arruinados.

Tudo isso não poderia ser diferente uma vez que objetivos mesquinhos geram pessoas mesquinhas. Não passamos de máquinas burras de trabalhar que deveriam procurar fazer menos e ser mais.

Somos escravos das próprias necessidades que criamos em um ato de loucura e disparate. Falamos de liberdade e vivemos cada vez mais cativos; forjamos as próprias correntes que nos prendem nas trevas como os homens do mito da caverna de Platão!

Talvez o antídoto para tudo isso seja deixar um pouco de lado a realidade, dormir e sonhar. Pois, como explicou Erich Fromm: “no sono, o reino da necessidade cede lugar ao da liberdade”. Só somos livres de fato enquanto dormimos!

Talvez precisemos primeiro adormecer para só depois despertar. O homem acordado dorme, mas aquele que sonha realmente acordou.


André Pessoa via Século XXI

19 abril 2011

Destruir para Construir-se


“Alguns dos seus discípulos estavam comentando como o templo era adornado com lindas pedras e dádivas dedicadas a Deus. Mas Jesus disse: Disso que vocês estão vendo, dias virão em que não ficará pedra sobre pedra; serão todas derrubadas”.
Lc. 21:5-6.






É comum os homens se impressionarem com a“opulência” da religião. Não foi diferente com os discípulos de Jesus. Eles conviviam todos os dias com o “Templo” que se movia, pois o sagrado havia tomado forma humana e se revestido de sangue e suor.

O verbo havia encarnado, deixado de ser palavra para constituir-se em ação, transmutara-se do metafísico ao físico, do transcendente para o imanente. Não obstante tudo isso, eles ainda se extasiavam com o aparente...

Também pudera! Ali estava o Templo! Suas pedras chamavam a atenção pela grandiosidade! Contudo e, intrigantemente, mesmo possuindo milhares delas engenhosamente arrumadas, faltava uma única para poder dar-lhe significado e propósito: a “Pedra Angular”.

Na verdade, ali não estava apenas uma imponente construção, mas o símbolo máximo de um sistema religioso cuidadosamente construído e que levara gerações para calcificar os mitos do sagrado de Israel.

Um coração quebrantado, todavia, era capaz de discernir que aquele lugar estava vazio, pois revestia-se de liturgias ocas, dessignificadas, constituía-se apenas obra de engenharia, mas não possuía qualquer possibilidade de produzir vida.   

Diferentemente de seus discípulos, Jesus não se impressionou com o Templo. Ele sabia que tudo o que ali era feito não passava de “sombras”, projeções vagas do que, de fato, possuía valor para Deus.

Se usássemos Platão, poderíamos dizer que o que ali se fazia era apenas a reprodução de imagens, hologramas do mundo das ideias, imitações do verdadeiro sagrado, o qual estava “no alto” e, por sua vez, era constituído de outra inteligência e vontade, com valores e princípios diferentes.

Nós, não raramente, achamos que as formas podem nos levar a experimentar os conteúdos. Equívoco! Eis o Templo, com seus artefatos de prata, de bronze, altar de incenso, local para sacrifícios, propiciações, turnos de oração, levitas entoando canções, gazofilácio para os dízimos, cultos diários, mas tudo não passava de moldura, era arquétipo de uma espiritualidade almejada, mas jamais vivenciada.

Aquelas práticas estavam enraizadas na tradição, mas suas raízes eram incapazes de chegar ao coração, pois a mente estava cauterizada, os sentido embotados, as ações mecanizadas, tudo havia se tornado vã repetição, sacrifício de tolos, devoção empírica, religião de exterioridades.

Naquela manhã, Jesus anteviu a destruição do Templo e a profetizou. Anos mais tarde, em 70 d.C, o general Tito entrou em Jerusalém e dele não restou pedra sobre pedra.

Mas a verdadeira destruição já havia se processado bem antes, pois apesar das pedras manterem a “casa” de pé, por dentro dela não se podia encontrar o Espírito, o qual, por meio da fé, mediante a graça, é o único capaz de produzir arrependimento e nos levar à salvação.

“Destruir para construir-se”. A frase não é minha, mas de Nietzsche. Está em Crepúsculo dos Ídolos, um de seus últimos escritos. Com uma “fúria” insuperável, ele ensina como se “filosofar com o marte-lo” e parte para a destruição de tudo o que tenha se constituído, de alguma forma, iconoclasta. Eis aí o grande problema da religião: a construção em série de ídolos!

“Quem perder a sua vida, por amor de mim, acha-la-á”.

Sem morte não pode haver vida! Sem desconstrução não existe ressignificação! Jesus morreu por volta do ano 30 e o Templo de Jerusalém foi arrasado 40 anos mais tarde. Enquanto um santuário, pela destruição, fechou as suas portas, o outro, pela mesma via, abriu-as por toda a eternidade.

A mensagem do Nazareno não pôde ser destruída, nem mesmo contida, espalhou-se por todo o mundo, de casa em casa, nas esquinas das ruas, nos becos, nas estradas da Palestina, em cada cidade ou vilarejo.

As portas do Reino dos céus foram escancaradas, pois Deus não estava confinado ao Templo, muito pelo contrário, havia resolvido andar com os homens, com aqueles que desejassem adorá-lo em Espírito e em Verdade. E Seu convite era irrecusável: “Vinde a Mim...”.

Creio firmemente que o cristianismo, na sua concepção atual, tornou-se um ídolo, precisa morrer, destruir-se para construir-se. Sim, precisa deixar as formas caducas e dogmáticas para que possa se encontrar novamente com os conteúdos da mensagem de Jesus de Nazaré.

Para tal, todavia, é preciso diluir-se, para que a verdadeira religião possa, mais uma vez, surgir. Sim, aquela da qual nos fala Isaías, que “solta as ligaduras da impiedade, desfaz as ataduras do jugo e deixa livre os oprimidos”.



Carlos Moreira

05 abril 2011

A Fila já Andou



Hoje à tarde fui ao shopping; coisa rara. Tinha que comprar um chip para o iPad e aproveitei para pagar uma conta telefônica na lotérica. O que deveria ser uma comodidade tornou-se, na verdade, um suplício. A fila era enorme, gente se apertando de todos os lados num pequeno corredor por trás das lojas.

Depois de meia hora sem sair do canto, eu já estava “viajando”. Minha cabeça, definitivamente, não se encontrava mais naquele lugar. Ouvia ao fundo um “zumbido”, mas ele não podia me tirar do meu “transe”. Foi aí que senti uma “cutucadela” nas costas. Virei-me e vi uma senhora dizendo: “meu filho, preste atenção! A fila já andou”. De fato, a fila andara e eu não havia me apercebido.

Mas não foi só a fila da lotérica que andou... Em quase 30 anos de caminhada, percebo claramente que uma outra “fila" também andou, aquela que me conduz para dentro de mim mesmo. Hoje, constato com alegria que, enquanto caminhava, desconstruí muita coisa que foi “erguida” erroneamente. A verdade é que pouco sobrou... Às vezes releio textos ou mensagens de alguns anos e não os reconheço. “Minha teologia” mudou significativamente nos últimos anos. Dores, perdas e alguns fracassos me tornaram mais humilde, mais quebrantando, talvez, mais simples.

Lembrei do Roberto Corrêa: “o simples é o contrário do fácil”. É muito comum confundirmos simplicidade com simplismo. Ser simples é ser singular; ser simplório é ser medíocre. Tenho pavor da banalidade, da unanimidade. Meu grande medo na vida sempre foi não me tornar alguém, não chegar nunca a ser eu mesmo, não me encontrar comigo.

É por isso que Jesus me fascina! Ele sabia quem era, conhecia o significado de sua existência, compreendia as implicações de sua vocação, seu propósito, discernia o que tinha de fazer, por onde devia andar, com quem precisava se ajuntar. O estilo de Jesus era singular, inconfundível.

Diferentemente de outros mestres, como Platão, que fundou uma academia, ou Aristóteles, que fundou um liceu, Jesus não fundou coisa alguma. Aliás, foi peça fundamental para afundar tradições, dogmas, ritos e mitos do “sagrado” de Israel.

Jesus era desalojado, era como o Pai, “claustrofóbico”, não podia ser “contido”, “aprisionado”. Ia às sinagogas, mas nunca quis ser membro delas, rejeitou a tentação de ser sacerdote, passou ao largo da possibilidade de tornar-se “refém” do Templo, deixou de lado a politicagem do Sinédrio e fez caso das seitas judaicas. Para Jesus, aquilo tudo tinha cheiro de morte, era a religião das aparências, da performance, do embuste, o estelionato do ser.

Por isso a escola de Jesus era na rua, nas esquinas, nos becos das cidades, nas casas, nos ajuntamentos a beira mar, ao pé das montanha ou nas colinas. Seus alunos não eram filósofos letrados, nem rabinos eruditos, muito pelo contrário, entre seus discípulos não havia pessoas com “pedigree”, apenas gente que queria aprender a ser gente.

Se não, observe! Veja se os encontros mais significativos de Jesus não foram com a rafaméia: a prostituta que ia ser apedrejada, os 10 leprosos, Zaqueu o publicano, a mulher do fluxo de sangue, o cego de Jericó, o aleijado do tanque de Betesda, a mulher Cananéia, a viúva de Naim, o endemoninhado gadareno, e outros tantos anônimos, excluídos, oprimidos, perseguidos.          

Lembro da parábola das bodas... Os convidados eram pessoas “distintas”, “nobres”, gente de “importância”, de “destaque”. Mas todos tinham seus afazeres e fizeram pouco caso do convite. Aí o Rei mandou chamar a gentalha, os estorvos, os miseráveis e os bêbados. Se fosse hoje estariam na festa viciados em crak, transexuais, lésbicas, gays, agiotas, traficantes, aidéticos, deprimidos, flanelinhas, e outros “diferentes”. Fico pensando se eu teria a dignidade necessária para me sentar à mesa com essa gente. Talvez não...

Fato mesmo é que Jesus ora estava aqui, ora ali, outra ora sabe-se lá onde. Até seus discípulos, por vezes, o perdiam de vista. Ele era ser errante, não tinha onde reclinar a cabeça, não criava “raiz”, nem amarras, sua casa era o mundo! Quando você pensava que Ele estava vindo, já tinha ido. Para Jesus a fila sempre estava andando, a vida sempre estava fluindo. Mas, desgraçadamente, aquela geração não soube reconhecer aquela “visitação”.

Olho as pessoas nos nossos dias... Elas estão sempre insatisfeitas, reclamando, querem mais e depois mais, buscam a fixidez, o concreto, a segurança, a estabilidade. Enquanto perdem tempo com suas questiúnculas, “a fila anda”, o sonho passa, a vida segue, o tempo voa. É gente insegura, gente ansiosa, gente ingrata, gente irresolvida, gente intemperante, gente que deixou de ser gente, gente que se dessignificou como gente, gente que desaprendeu a ser gente, tornou-se substrato de gente, gente partida, dividida, gente que já não é mais gente.  

Para quem chegou neste estágio, só tenho uma coisa a dizer: “a fila já andou”. Enquanto você se emaranhava com tantas questões fúteis, com tantos projetos inúteis, com tanta megalomania, “a fila estava andando...”. Havia nas esquinas da vida gente precisando de carinho, de afago, de uma mão estendida, de uma palavra de conforto, de uma ação de misericórdia, de uma atitude de solidariedade, de uma decisão corajosa, de uma posição assumida, de uma consciência renovada, de uma alma quebrantada, de um coração expandido. E você, onde estava? Onde eu estava?! Ah, nós estávamos nos templos, nas reuniões, nos encontros religiosos, nas vigílias, nos seminários, estávamos “fazendo a obra”! Mas que obra?! A obra de quem?!

Hoje à tarde eu quase adormeci naquela fila... Agora estou com medo de estar adormecido quanto à existência que me cerca, aos dramas que me rodeiam, as calamidades que acontecem a minha porta, na minha cara, na esquina da minha rua, na frente do meu trabalho, na ponte, na praça, pois nestes lugares é onde estão os bêbados, os mendigos, os gays, os travestis, os maconheiros, essa gente que eu tenho desprezo de olhar, aversão de ouvir, nojo de tocar, medo de sentir.

Entretanto, o grande paradigma em tudo isto é que são justamente estes que Jesus quer que eu convide para a “festa”, pois são eles os mais receptivos a Graça e ao Reino. Agora, se eu não me “tocar” quanto a isto, corro o sério risco de, em algum momento, ouvir dEle: “desculpe filho; "a fila já andou"; tive de usar outro em seu lugar, pois você estava muito ocupado com a sua obra”. Pense nisso...     

Carlos Moreira

18 março 2011

Bolas e Bolos


Eu sou do tipo que só lembra o próprio aniversário por intermédio dos outros. Nunca me preocupei demasiadamente em comemorá-lo.

Talvez isso aconteça porque eu considero a minha existência como um todo e não como uma seqüência de partes no melhor estilo cartesiano. Penso no relógio e não nos mecanismos que o compõem.

Olho sempre para o fim e nunca para o meio. Os meus olhos não se impressionam com o que eu sou e com o que vejo, mas fixam-se naquilo que eu ainda verei e virei à ser.

Contudo, este ano algo diferente aconteceu. Por um momento voltei-me para onde eu estou e não apenas para o lugar onde estou indo.

Costumo fitar as torres ao longe com os seus topos cortando o céu distante, hoje, entretanto, olhei-as de baixo, contemplei a dificuldade em escalá-las ao mesmo tempo em que constatava que agora eu já estou mais próximo do cume do que antes.

O nosso aniversário lembra-nos a nossa missão e o sentido da nossa existência. Sem sentido existencial não há aniversário, apenas festa vazia, bolas e bolos.

Eis aí a função das festas de aniversário: sinalizar em que ponto do caminho estamos. Os aniversários são como estações que nos lembram a proximidade ou distância que no encontramos do nosso destino final.

Cada comemoração de aniversário representa uma porta para um próximo estágio. Por isso mesmo as festas de aniversário são momentos de reflexão, porque representam uma intersecção entre dois mundos.

Eu nunca havia comido um bolo tão gostoso como aquele que os meus alunos me presentearam hoje, dia do meu aniversário. Sou professor, e como tal, existo para os meus alunos, aqueles a quem fui enviado para ensinar.

Penso, porém, que em breve ensinarei a um número bem maior de alunos. Certifiquei-me disso hoje mais uma vez, quando mordi aquele bolo. Ele tinha gosto de multidão.

André Pessoa

13 fevereiro 2011

Pior do que Envelhecer é Não se Tornar Adulto Nunca



Quando eu fiz 40 anos, um amigo me ligou e disse: “meus parabéns! Agora começarão os bons anos de sua vida!”. Eu fiquei animado, pois estava com aquela sensação de envelhecimento, começando a famosa "crise da meia idade". Aí, em seguida, ele arrematou “é meu amigo, aproveite os bons anos que virão, pois, os extraordinários, já se foram...”.



Na verdade, ninguém quer envelhecer. Por outro lado, na “sociedade da imagem”, desde que se tenham recursos financeiros, só envelhece quem quer. A medicina avançou tanto nesta área da estética que é difícil hoje você encontrar alguém que não tenha feito algum tipo de cirurgia. É implante de cabelo, lipoaspiração, restauração dentária, botox, silicone, depilação a laser, e um sem número de mimos disponíveis tanto para as mulheres quanto para os homens.  



De fato, é mesmo possível retardar o envelhecimento. Mas há um fenômeno que eu tenho observado na sociedade contemporânea: a desproporcionalidade entre o avanço da idade cronológica e o crescimento da maturidade existencial. A impressão que tenho é que quanto mais velhas as pessoas vão se tornando, mais imaturas vão ficando. E não é só isso... O problema parece ser bem mais freqüente em pessoas do sexo masculino do que nas do sexo feminino.   



Sinto-me confortável para afirmar isto, pois, como profissional de mercado, interajo com uma grande quantidade de pessoas, sobretudo em viagens. Fico abismado com o nível das conversas que travo em encontros dos mais diversos. Percebo nelas a existência de um profundo esvaziamento emocional, intelectual, cultural, social, político e religioso. É o que chamo de desidratação da alma. Praticamente todas as conversas giram em torno da seguinte "vala comum": dinheiro, status, mulher, balada, futebol e cachaça.

A prova dos nove, todavia, acontece no gabinete pastoral. Sistematicamente, por exemplo, ouço as mulheres se queixando da falta de conteúdos nos homens. Elas afirmam que eles estão sem perspectivas na vida, gravitam em torno de grandes futilidades, possuem uma vaidade exacerbada, além do total desconhecimento de questões elementares para se construir uma relação afetiva com um mínimo de propósito. Lembrei da Paula Toller, do Kid Abelha, quando em sua canção diz: “garotos perdem tempo pensando em brinquedos e proteção...”. Do lado das mulheres, o problema se repete, mas numa freqüência menor, eu diria.

“Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino... agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido.” 1ª Co. 13:11-12.

Observe o que Paulo está afirmando: ele está nos ensinando que o conhecimento de Deus e a maturidade existencial – holisticamente falando – são coisas que caminham de forma paralela. À medida que minha consciência vai sendo transformada pelos conteúdos do Reino de Deus, vou deixando para trás as “coisas de menino”, ou seja, as futilidades, vaidades e tolices próprias de quem ainda não chegou a tornar-se adulto, e passo a materializar outro tipo de comportamento. Preste atenção: pessoas que possuem um “centro de gravidade” mais adensado são justamente aquelas que, concomitantemente, desenvolveram uma espiritualidade sustentável.  

Num mundo feito apenas para os vencedores, nesta sociedade dos campeões, ter é a grande prioridade para o ser, pois é melhor vencer no mundo do que vencer o mundo! E assim, alienados pelo zeitgeist, presos a uma espiral umbigocêntrica que por fim nos leva a uma total incapacidade de nos enxergarmos, nos auto-discernirmos, vamos envelhecendo, mas, curiosamente, nunca chegamos a nos tornar adultos. Sobre isso, Hermann Hesse afirma: “Ninguém pode ver nem compreender nos outros o que ele próprio não tiver vivido”.

Tenho encontrado muito poucas pessoas que tem idade cronológica compatível com a maturidade existencial. Quando isto acontece, todavia, percebo que há algo em comum entre elas: o fato de estarem sendo capaz de evoluir no discernimento de Deus, de si mesmas e dos seus semelhantes.  

Carlos Moreira

03 fevereiro 2011

Ou se É o que se É, ou não há o que Ser


Li hoje no facebook algo curiosíssimo: “‎ninguém é tão feio como na identidade, tão bonito como no Orkut, tão feliz quanto no Facebook, tão simpático como no Twitter, tão ausente como no skype, tão ocupado como no MSN e nem tão bom quanto no Curriculum Vitae”. Silvia Souza.

Queria lhe fazer uma perguntar: você entende algo sobre falsificação? Se visse um Van Gogh, poderia afirmar: parece; mas não é? E uma bolsa Luiz Viton? Teria condições de dizer se é original ou falsa? Um Rolex? É verdadeiro ou paraguaio?

A falsificação já foi considerada uma arte. É bem verdade que era utilizada por ladrões, mas, ainda assim, tornava-se imperativo reconhecer o talento do criminoso. Hoje a falsificação é uma indústria que gera perdas na economia mundial da ordem de 800 bilhões de dólares. Só no Brasil, somando-se apenas as indústrias fonográfica, cinematográfica e de programas de computador, a cifra chega a um bilhão de dólares anuais.

Por outro lado, a falsificação não está restrita aos bens de consumo. Já dizia Justiniano que ela “nada mais é do que a imitação da verdade”. Nos dias em que vivemos, é comum encontrá-la não só em coisas, mas, sobretudo, nas pessoas. E é este tipo de símile da realidade que é extremamente danosa, pois nada mais é do que uma adulteração, cada vez mais comum, de valores e conteúdos que deveriam construir o ser e que, invariavelmente, revelariam não só quem nós somos, mas, sobretudo, como e baseados em que vivemos.

Fato é que a sociedade contemporânea esta calcada sob a cultura da imagem: gente mais preocupada em parecer ser do que em ser de verdade. Kierkegaard com propriedade afirmou que “a vida é um baile de máscaras”, e essas máscaras tornam-se “escudos” atrás dos quais almas se escondem de si mesmas, e não apenas faces. Hoje, ser socialmente aceito ou parecer politicamente correto pode, em muitas situações, exigir de nós posicionamentos que, na verdade, abominamos ou rechaçamos. Todavia, para ficarmos bem na foto...

Mas o pior tipo de estelionato, convenhamos, é aquele ligado ao ser religioso. Sobre isto, bem conceituou Nietzsche: “o disfarce sob o manto da religião e da transfiguração através da moral são metamorfoses da escravatura”. Foi por isso que João escreveu que, conhecer a verdade liberta, mas, digo eu, se amasiar com a religião, escraviza.

Creia-me, não há coisa mais danosa a alma humana do que alguém que se tornou um simulacro eclesiástico, que abraçou uma espiritualidade performática, que pincelou um verniz de santidade na consciência, que viciou-se na hermenêutica que exuma letras mortas, mas recusa-se a trazer a vida a palavra que liberta, alguém que tem no olhar a impregnação do juízo e nas atitudes o proceder calcado na intolerância.

A figueira sem fruto, do texto de Marcos, bem nos revela este cenário. Ela nada mais era do que um arquétipo que apontava para o que acontecia com o povo de Israel. Era a religião das folhagens, das aparências, dos ritos, dos mitos, mas onde não se encontravam frutos. Jesus discerniu naquela geração o embuste, a mentira, a falsidade, o culto a aparência, o disfarce tentando travestir-se de verdade. Por isso a árvore foi amaldiçoada, pois para Deus ou se é o que se é ou não se é coisa alguma. O ser só torna-se ser quando se assume como verdade-existente. Evadir-se disto é tornar-se não-ser.

Isto me fez lembrar da belíssima passagem do livro “Todos os Homens são Mentirosos”, de Alberto Manguel quando afirma: “nenhum rosto era verdadeiro, todos dissimulavam algo, cada qual mentia quase por hábito, era uma mascarazinha que refletia a máscara da cidade inteira, uma cidade que pretendia não ser o que era...”. Sei que não tem qualquer correlação, mas aí está um retrato do que era Jerusalém nos dias do Galileu... Por isso a figueira secou e, com ela, toda aquela geração de falsários e embusteiros.

Eu já fui figueira
Travestido de folhagens, mas sem frutos
Invertendo as estações da existência
Ocultando minha nudez outonal com atitudes performáticas
com exuberância desprovida de fruto
Amargava existir para fora
Sem poder ser exatamente eu mesmo
Eu... Nu... e em Cristo
Mas Deus
reverteu a morte gerada pela falsificação

Caio Fábio.

Como é difícil, mas desejo ardentemente fugir da falsificação. Tenho pavor da dissimulação, da representação, da mediocridade, dos que não são e nunca serão, pois existem como desmonte existencial, estão travestidos com as vestes da mentira, habitados por um espírito falsário, seu interior é como labirinto de trevas, masmorra que perpassa medo e solidão.

Se pudesse pedir algo a Deus, de todo o coração, gostaria de terminar os meus dias expressando o que disse o Luiz Fernando Veríssimo “eu sou hoje a melhor versão de mim mesmo”. E isso afirmaria na certeza de não ter tido qualquer mérito na construção de nada, em absoluto, mas a clareza de que tudo se fez em mim pelo poder da cruz e pela misericórdia que se derramou como orvalho em meu ser através da preciosa e incomparável graça de Deus.

Carlos Moreira

Pesquisa revela a tendência do cristianismo atual: Mediocridade


O instituto Barna Group publicou há poucos dias o resumo das principais pesquisas realizadas pela instituição nos Estados Unidos durante o ano de 2010. O resultado fornece um retrato de como o ambiente religioso nos Estados Unidos está se transformando em algo novo e também perigoso.

A matéria fornece seis tendências principais. Vejamos:


1. A Igreja Cristã está se tornando menos alfabetizada teologicamente

As pesquisas apontaram que o que costumavam ser verdades básicas e universalmente conhecidas sobre o cristianismo, são agora mistérios desconhecidos para uma grande e crescente parte de norte-americanos. Os estudos revelaram que enquanto a maioria das pessoas consideram a Páscoa como um feriado religioso, apenas uma minoria de adultos a associam com a ressurreição de Jesus Cristo. Outros exemplos, relata a matéria, incluem a constatação de que poucos adultos acreditam que sua fé é para ser o ponto focal de sua vida ou ser integrados em todos os aspectos da sua existência. Além disso, uma crescente maioria acredita que o Espírito Santo é um símbolo da presença de Deus ou do poder, mas não é uma entidade viva. A teologia livre para todos que está invadindo as igrejas protestantes em todo o país sugere que a próxima década será um momento de diversidade teológica incomparável e inconsistência.


2. Os cristãos estão se tornando mais isolados dos não-cristãos

Os cristãos estão cada vez mais espiritualmente isolados dos não-cristãos do que era há uma década. Exemplos dessa tendência incluem o fato de que menos de um terço dos cristãos tem convidado qualquer pessoa para se juntar a eles em um evento da igreja durante a época da Páscoa. Os adolescentes são menos inclinados a discutir o cristianismo com seus amigos do que acontecia no passado.

3. Um número crescente de pessoas estão menos interessadas em princípios espirituais e desejosos de aprender mais soluções pragmáticas para a vida.

Quando perguntado o que mais importa, os adolescentes norte-americanos disseram priorizar a educação, carreira, amizades e viagens. A fé é importante para eles, mas é preciso primeiro um conjunto de realizações de vida. Entre os adultos, as áreas de importância crescente são o conforto, estilo de vida, sucesso e realizações pessoais. Essas dimensões têm aumentado à custa do investimento em fé e família. O ritmo corrido da sociedade deixa as pessoas com pouco tempo para reflexão. O pensamento profundo que ocorre normalmente refere-se a interesses econômicos. As práticas espirituais como a contemplação, solidão, silêncio e simplicidade são raras. (É irônico que os mais de quatro em cada cinco adultos dizem viver uma vida simples.)

4. Entre os cristãos, o interesse em participar da ação da comunidade é cada vez maior

Os cristãos estão mais abertos e mais envolvidos em atividades de serviço comunitário do que no passado recente. No entanto, conforme alerta a matéria, apesar dessa tendência, as igrejas correm o risco desse engajamento diminuir, a menos que abracem uma base espiritual muito forte para tal serviço, e não por estímulo momentâneo.

5. A insistência pós-moderna de tolerância é de conquistar a Igreja Cristã

O analfabetismo bíblico e a falta de confiança espiritual fez com que os americanos evitassem escolhas baseadas na exigências bíblicas, com medo de serem rotulados de julgadores (ou preconceituosos). O resultado é uma Igreja que se tornou tolerante com uma vasta gama de comportamentos moralmente e espiritualmente duvidosos. A idéia de amor foi redefinido para significar a ausência de conflito e confronto, como se não existem absolutos morais que vale a pena lutar. Isso não pode ser surpreendente em uma Igreja na qual uma minoria acredita que existe uma moral absoluta ditada pelas escrituras.

6. A influência do cristianismo na cultura e na vida individual é praticamente invisível

O cristianismo é sem dúvida a cosmovisão que mais influenciou a cultura americana do que qualquer outra religião, filosofia ou ideologia. No entanto, isso não tem corrido nos últimos tempos.

Fonte http://www.comoviveremos.com/ Com dados do Barna Group 

01 fevereiro 2011

Investimento Espiritual? E Eu preciso Disto?

O executivo chegou ao restaurante esbaforido... Olhou o garçom e disse: “estou com pressa hoje... vou no self service”. Deslocou-se rapidamente e começou a servi-se das saladas... 

A certa altura chegou a uma bandeja onde estava exposto algo muito esquisito. Era uma pasta, uma espécie de suflê, mas com uma coloração marrom.



-Garçom, por favor... O que é isto?

-Comida pré-mastigada senhor.
-O que?!
-Sim, nós mastigamos antes de vocês chegarem e cuspimos de volta na bandeja.
-Que absurdo?! E tem gente que como esta porcaria?!
-Sim senhor, muita gente...
-Mas quem?
-Gente como o senhor, gente apressada, gente que não tem tempo para mastigar...

Que mundo maravilhoso este que vivemos! Tudo é muito prático, rápido. Clica-se em um botão e algo liga; clica-se novamente e desliga! O controle remoto executa funções, o leite é instantâneo, a comida congelada esquenta no microondas, o cappuccino dissolve na água quente, um toque e estamos na internet, a máquina libera o dinheiro da conta, o telefone nos conecta com qualquer um em qualquer lugar. Wonderful Wrold!   

Você sabia que todas estas coisas foram feitas para você economizar tempo? Sim, tempo é artigo de luxo, cada vez mais escasso, cada vez mais espaço. Horas “correndo”, minutos se passando, eles “roubam” o que deveria está sendo dedicado a coisas realmente “importantes”: reuniões, negócios pendentes, e-mai, conference call, aula do MBA, curso de inglês, malhar, namorar, twittar, se bronzear, pedalar... Puxa! Quantas coisas “imprescindíveis” que podem ser seqüestradas da nossa vida se não administrarmos bem nosso precioso tempo!

3,2,1, Aterrissando... Que tragédia! Essa é a sociedade na qual vivemos... Pessoas em busca de ser gigantes profissionais, não obstante pigmeus espirituais. Preocupam-se com a carreira, o sucesso, o apartamento, o carro, as contas, a aparência, o status quo. Satisfazem-se em crescer “para fora”, materialmente, socialmente, emocionalmente, profissionalmente, existencialmente, mas estão totalmente desconexas quanto ao crescimento de suas dimensões e percepções espirituais. E com isso não estou dizendo que crescer espiritualmente não seja também “subproduto” do avanço de outras áreas de nossas vidas, mas que isto, por si só, é totalmente insuficiente para produzir “musculatura espiritual”, significação emocional, propósito social, sustentabilidade existencial.

Não sei se você já se apercebeu, mas na vida não há processo de estagnação: o que não cresce, morre! Isso significa que há muitos que já morreram espiritualmente e não se deram conta disto. São cadáveres se arrastando pela existência, centenas de milhares de “zumbis” enchendo igrejas e achando que o fato de serem membros da “confraria”, ou de seguirem meia dúzia de “regras”, dogmas e liturgias já os habilita ao céu, com translado de 1ª classe ao paraíso e passaporte para a eternidade, ou seja, estão aptos a usufruir das benesses da vida eterna. Vai nessa...

Quando olho para as Escrituras, vejo algo totalmente diferente, pois é imperioso que aquele que nasceu de novo desenvolva a nova vida na esperança da salvação. Ora, isso não acontece de forma espontânea, mas requer investimento, aperfeiçoamento, esforço, perseverança, disciplina. Talvez, e infelizmente, nossa herança “protestante e reformada” nos legou um equívoco teológico gravíssimo: a falta de entendimento sobre a afirmação de Paulo aos Efésios de que somos salvos apenas pela fé. Isso é um fato incontestável, como também o é o que diz Tiago em sua epístola sobre um tipo de fé que não tem desdobramentos e, por conta disso, é inoperante e inconseqüente.

Depositar todas as fichas neste tipo de fé nos coloca numa perigosa zona de conforto. Aí o sujeito diz: “o sangue de Jesus já me lavou dos meus pecados e eu tenho a certeza da salvação”. Neste contexto, esta afirmação revela duas coisas: a presunção de alguém que ainda não entendeu que foi salvo pela fé, mas chamado para as obras e a clássica acomodação que se instaurou no coração de muitos entre o Povo de Deus. A vida cristã não termina quando eu digo sim a Jesus, apenas começa! Da mesma forma, dogma não é ponto de chegada, mas de partida...

Só para clarear um pouquinho nossa consciência entorpecida e, não raro, cauterizada, de que é necessário investimento espiritual para podermos avançar na vida cristã, dá uma olhadela nos textos abaixo:

Segui o amor e procurai, com zelo, os dons espirituais. 1ª Co. 14:1
Respondeu-lhes Jesus: Errais, não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus. Mt. 22:29
Apresenta-te a Deus aprovado, como obreiro que... maneja bem a palavra.... 2ª Tm. 2:15
Sejam estes... experimentados; e, mostrando-se irrepreensíveis, exerçam o diaconato. 1ª Tm. 3:10
Todo atleta em tudo se domina... para alcançar uma coroa corruptível; nós... a incorruptível. 1ª Co. 9:25
Finalmente, irmãos, nós vos rogamos e exortamos... que continueis progredindo cada vez mais. 1ª Ts. 4:1
Até que todos cheguemos... à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo. Ef. 4:13
Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça... Mt. 6:33
Assim, pois, amados meus... desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor. Fp. 2:12
Tendo... tais promessas, purifiquemo-nos de toda impureza... aperfeiçoando a nossa santidade. 2ª Co. 7:1
Mesmo que o nosso homem exterior se corrompa... o homem interior se renova de dia em dia. 2ª Co. 4:16
Também vós, visto que desejais dons espirituais, procurai progredir... 1ª Co. 14:12
Desejai ardentemente... o genuíno leite espiritual... para crescimento da vossa salvação. 1ª. Pe. 2:2

Como pastor ouço todos os dias pessoas que reclamam de não conseguir progresso na vida; muitos vivem de fazer “barganhas com o sagrado”. Outros tantos, que estão conseguindo algum “sucesso”, afirmam estarem insatisfeitos, incompletos, ansiosos, inquietos. Tem ainda os que chegaram ao “topo da pirâmide”, os “bem sucedidos” mas, curiosamente, sentem-se vazios, dessignificados. Eu os olho e lhes digo com todo o amor, com respeito e reverência “o que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma”.

Quanto você tem investido em sua vida espiritual? Quanto tempo gasta com as Escrituras? Ainda ora? Está envolvido com alguma atividade que promova o Reino de Deus? Está sendo discipulado, pastoreado, aconselhado? Quantos livros leu no ano que passou que lhe acrescentou conhecimento bíblico/teológico?

Agora me responda, sinceramente, você acha que, sem fazer nada, absolutamente nada, irá aprofundar sua vida com Deus? Me desculpe a sinceridade, não sei nem se você cresceu para o “lado de fora”, mas cabe-me perguntar-lhe: você cresceu algum centímetro para o “lado de dentro”?

Carlos Moreira

21 janeiro 2011

"Todo Mundo Quer ir Para o Céu, Mas Ninguém Quer Morrer"



“O problema de vocês ocidentais cristãos é que vocês têm milhões de jovens querendo viver... Nós, ao contrário, temos milhões de jovens querendo morrer!”. Osama Bin Laden.

Inicialmente fiquei chocado com a frase, pois, a primeira vista, ela não me fez muito sentido. Ao depois, entretanto, quando minhas categorias político-filosóficas-religiosas entraram em ação, aí sim, compreendi o que o famoso terrorista da rede Al Qaeda quis dizer.

O fundamentalismo religioso não é regalia dos Mulçumanos. Pelo contrário, quem conhece um pouco mais a fundo a Religião Islâmica sabe que a proposta é totalmente diferente do estigma criado, sobretudo depois do 11 de setembro de 2001, com os ataques as Torres do World Trade Center. 

Deixemos os idealismos de lado... Fundamentalismo existe em qualquer religião. Entre os evangélicos, então, o que dizer? Quer mais ortodoxia e aberrações do que temos em nossas “denominações”? Quer mais manipulação e catarse emocional do que em certos “cultos”. Quer mais espoliação e pressão psicológica na pregação de determinadas “doutrinas”? Ora, quem não conhece “o jogo” é que fica de tolo, mas a gente já está nisto há muito tempo para ser ludibriado...

A frase do Osama choca-nos não porque saibamos que há um exército de meninos e meninas sendo treinados para fins perversos, que não consegue discernir o tamanho da maldade da qual eles se tornaram vítimas, pois tiveram suas consciências cauterizadas pela “palavra” e pela subversão da “religião”. O que surpreende é o desejo dessa gente de sacrificar a própria vida em função de algo no qual eles crêem, de imaginar estar sendo usado para cumprir um propósito divino, agradar a “deus”, ser  a "vara de seu juízo" na Terra.

Nietzsche disse certa vez “no ocidente não há ninguém mais disposto a morrer, seja por um deus, pela pátria ou pela família”. De fato, ele estava mais do que certo. Nós somos a sociedade dos que querem apenas ganhar, jamais perder, muito menos a vida! A saudosa banda Blitz, sucesso da década de 1980, dizia em sua canção: “todo mundo quer ir pro céu mais ninguém quer morrer”.

“porque para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro... E já não sei o que escolher!... desejo partir e estar com Cristo, o que é muito melhor; contudo, é mais necessário, por causa de vocês, que eu permaneça no corpo... para o seu progresso e alegria na fé". Fp. 1:21-25

Na perspectiva do cristianismo, morrer é um prêmio, uma coroa, a consagração de uma vida, mas morrer está relacionado a nascer, não a extinguir-se, é a partida que nos leva a encontrar o propósito para o qual fomos criados. Quem morre deixa o não-ser para tornar-se ser de fato.

Mas Paulo, que desejava ardentemente morrer, pois queria estar com Jesus, entende que viver tem um propósito: edificar e ensinar a outros, abençoá-los, servi-los, amá-los, doar-se para que eles possam encontrar o significado de existir. Assim é o Evangelho. A vida do discípulo só ganha singularidade quando se desdobra na direção do outro, quando o próximo torna-se mais importante que sua própria vida, pois sacrificar sonhos e planos em prol de alguém é prazer e privilégio.

Bin Laden está recrutando jovens para morrer. É triste, mas fato. E nós? Quantos jovens temos dispostos a morrer pela causa do Reino de Deus? Não estou falando em se amarrar a toneladas de dinamites ou de detonar um carro em frente ao um mercado público. Estou falando em entender que a fé cristã deveria nos levar a buscar da vida mais do que sucesso profissional, dinheiro no bolso, alegria, festa, riso, namoros e curtição. Nossos jovens não têm referências. Bem disse Cazuza: “meus heróis morreram de overdose”.  

Tenho pena dos jovens de hoje... Rebeldes sem causa, mesmo... São, em sua grande maioria, alienados, fúteis, frívolos, superficiais, dessignificados, vazios, insensatos, desafeiçoados, insensíveis, desencontrados de si mesmos. Mas com tristeza, admito: eles tiveram a quem puxar; tiveram excelentes fontes de referência para ser o que são: nós. Eu e você...

Carlos Moreira

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É importante esclarecer que este BLOG, em plena vigência do Estado Democrático de Direito, exercita-se das prerrogativas constantes dos incisos IV e IX, do artigo 5º, da Constituição Federal. Relembrando os referidos textos constitucionais, verifica-se: “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato" (inciso IV) e "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença" (inciso IX). Além disso, cabe salientar que a proteção legal de nosso trabalho também se constata na análise mais acurada do inciso VI, do mesmo artigo em comento, quando sentencia que "é inviolável a liberdade de consciência e de crença". Tendo sido explicitada, faz-se necessário, ainda, esclarecer que as menções, aferições, ou até mesmo as aparentes críticas que, porventura, se façam a respeito de doutrinas das mais diversas crenças, situam-se e estão adstritas tão somente ao campo da "argumentação", ou seja, são abordagens que se limitam puramente às questões teológicas e doutrinárias. Assim sendo, não há que se falar em difamação, crime contra a honra de quem quer que seja, ressaltando-se, inclusive, que tais discussões não estão voltadas para a pessoa, mas para idéias e doutrinas.

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