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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.
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28 junho 2017

O Diabo Mora ao Lado



Judas foi “ordenado” por Jesus, ele andou no grupo dos 12 apóstolos, orou pelos enfermos, expulsou demônios, ajudou a distribuir pão para os pobres, fez missões nas aldeias miseráveis da galileia, participou de muitas vigílias de oração, visitou incontáveis sinagogas e foi ao templo de Jerusalém escutar a Palavra. Judas foi ministrado intimamente, ouviu revelações direto da boca do próprio Deus, viu milagres surpreendentes, cantou canções de louvor a Deus, quem sabe deu testemunho e participou da Santa Ceia, ele fez tudo o que um crente faz, mas era um diabo!

Ora, como pode? Ele não rosnava, não girava a cabeça ao contrário, não entronchava as mãos, nem se arrastava pelo chão, Judas não tinha nenhum estereótipo de quem está possesso, mas era um diabo! As pessoas que ouviam a Judas não sabiam, nem mesmo seus companheiros de ministério sabiam, mas Jesus sabia, ele era um diabo!

De fato, Judas tinha cara de crente, tinha voz de crente, tinha atitudes de crente, seguia o script dos crentes, pregava como um crente, orava como crente, mas era diabo! Sim, Judas estava possesso de ira, de inveja, de maledicência, ele conspirava contra o bem, seus olhos eram maus, seu coração era duro, sua consciência era leprosa, insensível.

A verdade é que ele andava com Jesus, mas Jesus não se fez um com ele, ele comia com Jesus, mas a Palavra que sacia a fome da alma não alimentava ele, ele cantava com Jesus, mas as canções na mudavam ele, ele orava com Jesus, mas a oração não penetrava nele! E quanto mais Judas ficava com Jesus, tanto mais diabo se tornava, pois “Ao que tem, tudo lhe será dado, e ao que não tem, até o que tem, lhe será tirado”.

Sufocado por seu desejo homicida, enredado com seus próprios planos, escravo de suas emoções, prisioneiro de sua mente perversa, Judas traiu o Senhor e, em seguida, enforcou-se, e fez tudo isso por que ele era um diabo!

Há muitos “diabos” na igreja, muita gente que ora, prega, jejua, adora, faz missões, expulsa demônios, mas é diabo, porque nunca se rendeu a Graça, nem jamais experimentou o perdão que pacifica o ser. Esses, dos quais falo, são os mesmos sobre os quais Jesus afirmou: “Em meu nome, muitos farão sinais, curas e expulsarão espíritos malignos. Mas eu lhes direi, explicitamente, jamais os conheci!”.

Você está preocupado com satanás, vive a caça de fantasmas, em batalhas espirituais, exumando cemitérios na alma dos homens, vasculhando o passado, especulando sobre o futuro? Não procure o diabo no terreiro, nem na encruzilhada, o diabo está mais perto de você do que você imagina, quem sabe, como aconteceu com Jesus, ele está no grupo íntimo, na liderança de algum “ministério”, cantando no louvor, ou pregando no púlpito, pois, “nem todo o que me diz: “Senhor, Senhor!”, entrará no Reino de Deus, mas aquele que faz a vontade do Pai”.

A pior encarnação do diabo é aquela que o traveste de ser de luz, que faz da piedade a maldade sofisticada, o diabo é mais inteligente do que você imagina, mais sutil do que você possa conceber. Saiba: homens não podem virar deuses, nem anjos, mas podem virar diabos! Eu não tenho medo de encontrar assombrações entre túmulos, nas esquinas sombrias da vida, ou no escuro do meu quarto. Mas sempre estou atento para não estar comendo com o diabo a mesa...



Carlos Moreira



27 junho 2017

Possessões e Possuídos



A igreja tem uma preocupação exacerbada com pessoas possuídas por demônios, mas dá pouca, ou quase nenhuma atenção, aos variados tipos de possessão.

Sim, possuídos tem notoriedade garantida no show bis evangélico e, mais recentemente, até no catolicismo romano. Endemoninhados aparecem em horário nobre na TV, possuem culto só para eles (Desencapetamento Total), tem liturgia própria (rituais de exorcismo), e papel de destaque entre o povo, que se lambuza garantindo mídia ao espetáculo bizarro.

Entretanto, para quem conhece a fenomenologia por trás destes eventos, não há com o que se preocupar, pois a esmagadora maioria dos casos de possessão demoníaca não passam de manipulação emocional, baixa autoestima, sugestionamento inconsciente, histeria e fraude comportamental.

Na verdade, demônio que faz entrevista, responde a perguntas e espera o comercial da TV, só engana crente assombrado, pois nem criancinhas se prestam a dar atenção a tais performances.

Ser possuído fisicamente pelo diabo é o estágio último de um processo longo, que começa na mente, passa pelas emoções e chega à dimensão do físico. E é daí que surge toda minha preocupação.

Ora, o que mais percebo na igreja é gente sendo possuída, mesmo que essa possessão não tenha, ainda, chegado ao estágio da perda do controle das faculdades mentais e do domínio do corpo físico.

Há pessoas possuídas pelo “espírito dos pais”, pela ambiência familiar perversa, por abusos, humilhações, violências, inclusive sexual.

Há pessoas possuídas pelo “espírito do cônjuge”, gente que se tornou vítima de relações persecutórias, esmagadoras, manipulativas. Há mulheres, por exemplo, que sofrem violência sexual mesmo estando casadas, são expostas a pornografia, obrigadas a prática de swing, ou chantageadas por não possuir autonomia financeira.

Há gente possuída “pelo espírito da religião”, crentes que estão possessos de seus pastores sedutores, temendo tocar no “ungido”, submetendo-se a determinações absurdas, aceitando revelações enfatuadas, profecias fatalistas, maldições encomendadas. Outros tantos ficaram possessos do “espírito da denominação”, são os que abriram mão de sua autonomia, de suas agendas, tornaram-se funcionários do templo, servidores do altar, deixaram para trás profissão, estudos, família e amigos para servir a “obra”.

Tem gente na igreja possessa da luxúria, viciada em pornografia digital, gente presa ao “espírito do consumo”, endividada, fazendo transfusão de dinheiro entre contas com o agiota, sendo esmagada pelo cartão de crédito. Imaginar que as manifestações visíveis do diabo são as únicas que estão ocorrendo é de um reducionismo e de uma ingenuidade sem precedentes.

Assim, o diabo agradece toda a atenção dispensada e toda a mídia dedicada para os pseudo-possuídos, enquanto ele se banqueteia distribuindo, no varejo, possessões das mais diversas sobre as pessoas. Como tenho dito, e aqui reitero, o pior diabo é aquele que está sendo gestado dentro de você sem você, sequer, perceber.



Carlos Moreira


05 janeiro 2012

Possessões e Possuídos




"Quando um espírito imundo sai de um homem, passa por lugares áridos procurando descanso e não encontra, diz: ‘Voltarei para a casa de onde saí’. Chegando, acha a casa desocupada, varrida e em ordem. Então vai e traz consigo outros sete espíritos piores do que ele, e entrando passam a viver ali. E o estado final daquele homem torna-se pior do que o primeiro. Assim acontecerá a esta geração perversa". Mt. 12:43-45.

Já não é de hoje que me apercebi que fenômenos individuais têm, não raras vezes, o poder de se transportar para o coletivo. Em se tratando de manifestações espirituais, isto é ainda mais comum, como podemos ver no texto acima. 

Desde o verso 38, Jesus vem discutindo com os fariseus sobre as marcas daquela geração perversa que, mesmo sendo testemunha de muitos milagres e prodígios, insistia em manter duro o coração e petrificada a consciência. Na verdade, eles nunca se davam por satisfeitos, e pediam mais e mais sinais. 

Em linguagem junguiana, quando um assunto vira o centro das atenções de uma determinada sociedade, como era o caso ali, ou seja, “toda vez que ocorre um fenômeno de massa, um tema do inconsciente coletivo é ativado para através da projeção coletiva poder ser elaborado, compreendido, para que a consciência coletiva possa evoluir através da compreensão daquele tema”.

Aquele fenômeno, na verdade, se transformara em arquétipo, passando a ser dramatizado através das projeções individuais das pessoas. Estas, por sua vez, assumiram papéis de protagonistas no drama existencial coletivo que estava sendo construído e que dizia respeito não só a individualidade de cada uma, mas a totalidade daqueles que compunham àquela “geração”.

No texto de Mateus, Jesus parte de um fenômeno individual, com seus desdobramentos próprios, e chega ao coletivo, afirmando que aquilo que se processava no micro-universo religioso, carregava em si mesmo todas as potencialidades de tornar-se fenomenologia coletiva. Se não, vejamos: “E o estado final daquele homem torna-se pior do que o primeiro. Assim acontecerá a esta geração perversa".

Mas o que estava sendo tratado ali? Quais as subliminaridades do texto que não estão evidentes a “olhos nus”? São duas as questões relativas ao possuído, as quais acabavam se transportando para uma possessão coletiva.

Em primeiro lugar, Jesus usa uma alegoria para tratar da questão individual e interior da vida humana que se torna desprovida de significados e conteúdos. Isto está posto quando ele afirma que o demônio, deixando aquele indivíduo, procura “lugares áridos” para repousar. Ora, aqui fica claro que aquele espírito havia saído de um “lugar árido” em busca de outro, ou seja, que aquela pessoa havia se tornado, pela via da dor, da amargura, do medo, do desespero, do ódio, e de outros matizes da existência, que por diversas formas se instalaram no seu ser, um deserto, uma terra devastada!

Como a “serpente se alimenta do pó da Terra”, usando a metáfora do Gênesis, os principados e potestades se alimentam de toda a produção humana que irradia dos indivíduos rancores, invejas, ciúmes, murmurações, e toda sorte de energia psíquica que, acumulada pelo sofrimento e pela dor, acaba emanado tudo o que é “veneno” e que por fim servirá de “banquete” aos demônios!

Em segundo lugar, Jesus trata do que se processa do lado de fora – “‘Voltarei para a casa de onde saí’. Chegando, acha a casa desocupada, varrida e em ordem...”. Aqui temos a existência na qual se fez uma “maquiagem”, aquela pintura que serve apenas para esconder a sujeira e as marcas profundas que a vida produziu.

De fato, Jesus estava fazendo uma analogia as práticas coletivas da religião de Israel, a qual, apesar de apresentar-se “varrida e ornamentada”, vivia da aplicação performática de ritos e mitos do sagrado, os quais produziam uma espiritualidade caricaturada, onde a “mobília” das liturgias e sacrifícios servia apenas para produzir uma fé de epiderme, um verniz ético, uma crença de fachada, pois os conteúdos não se enraizavam em direção ao coração, não se aninhavam nos escaninhos da alma, não podiam alcançar os meandros da consciência.  

E assim, conclui Jesus, o estado final daquele homem tornara-se pior que o primeiro, pois não há nada mais corrosivo ao ser do que viver no embuste, no estelionato, na falsificação, ser “figueira sem fruto”, amargando existir para fora, numa eterna estação outonal. E ele finaliza afirmando que aquela possessão individual tinha o “poder” de se transladar também para o coletivo “Assim acontecerá a esta geração perversa", como de fato estava ocorrendo.

Quando olho determinadas práticas da “igreja” em nossos dias, e o procedimento da grande maioria dos cristãos, consigo claramente discernir “possessões” individuais que se instalaram no ser pela projeção das “possessões” coletivas e vice-versa, ou seja, é um ciclo interminável que se retroalimenta. Como bem dizia um amigo: “é bronca! Se ficar o bicho pega, mas, se orar, o bicho foge!”. Valha-me Deus!

Carlos Moreira


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