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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.
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31 dezembro 2014

Mensagem aos "Fracassados"





O ano está terminando. Em seus últimos suspiros, pensei em deixar uma mensagem para você. Sim, para você que, talvez, não tenha tido um ano extraordinário, cheio de conquistas, alegrias e realizações. 


Esta mensagem é para você que ficou desempregado, que mesmo tendo batalhado atrás de uma oportunidade, não conseguiu coisa alguma. Currículos enviados, entrevistas realizadas, mas, até agora, nada. Não tem coisa pior do que terminar o ano sem uma vaga no mercado, mas esse foi o seu ano, um ano fracassado.

Pensei também em dizer algo para você, que está solitário. Sim, muitos amigos e amigas seus acharam, enfim, alguém para partilhar a vida. Mas você, como já vem acontecendo, está sem ninguém. E é preciso dar aquelas velhas desculpas, disfarçar em festividades, se arrumar sem ter quem lhe elogie, rolar na cama de noite, sentindo apenas o volume do edredom. Solidão é coisa doída, mas, enfim, esse foi o seu ano, um ano fracassado.

Resolvi ainda escrever para aqueles que falharam na tentativa de vencer velhos hábitos, que sucumbiram diante de metas não alcançadas, de planos que se mostraram impossíveis. Sei que há muitos que se sentem vencidos pela falta de disciplina, pela falta de foco ou de vontade. É que a rotina come a gente por dentro e até aquilo que antes nos dava prazer, hoje é um suplício. Mas, sem dúvida alguma, esse foi mesmo o seu ano, um ano fracassado.

Lembrei, também, de tratar das questões dos enfermos. Muitas pessoas descobriram algo errado em seu corpo, foram vitimados por uma notícia apavorante, depararam-se com a finitude da matéria e os dias, agora, são estações de agonia. Você, quem sabe, perdeu o apetite, a alegria e a coragem. E é fato que a luta parece mesmo inglória, pois há doenças que podem ser tratadas com terapias ou medicamentos, mas, no seu caso, o mal veio para ficar, será companheiro do resto dos dias. É triste, mas é real, e esse foi o seu ano, um ano fracassado.

Estou certo que 2014 foi um ano de frustrações para muitos. Teve a casa própria, que não saiu do papel, a viagem, que foi cancelada, a promoção, que ficou na gaveta do chefe, o casamento, que mais uma vez foi adiado. Tantas questões nos fazem pensar que o ano foi mesmo uma merda. Bom foi o ano do fulano, da minha prima, do meu amigo, do meu cunhado, do meu irmão. O ano do outro é sempre melhor que o nosso. E como se sabe, esse foi um ano difícil, um ano fracassado.

Então, para você, “fracassado”, que não casou, que enfermou, que quebrou, que se deprimiu, que se separou, que se endividou, que chorou, que atolou, um feliz 2015! Decerto, acredito que você tem muito o que celebrar...

Você pode celebrar o fato de que, amanhã, o sol vai nascer para todos e a chuva cairá sobre os bons e os maus. Você pode celebrar o recomeço de uma nova jornada, pois o ano terá 365 dias para todos, inclusive, para você, e mesmo o calendário mudando, quem tem mesmo que mudar somos nós!

Eu lhe desejo um feliz 2015 pelo fato de você estar vivo, pois muitos não verão a chegada do novo ano. Celebro, então, a sua vida, seja você jovem, com muito o que aprender, ou velho, que já sofreu e poderá usar a experiência adquirida para fazer as coisas de uma forma melhor.

Eu lhe desejo um ano auspicioso, pois esse poderá ser, justamente, o ano da compra da casa, da viagem, do grande amor, da cura, da promoção, da alegria, das realizações que você tanto espera e, portanto, é bom preparar-se para elas. Por favor, não vá deixar que as oportunidades passem por causa de seu pessimismo, de sua melancolia recalcitrante, de seu mau humor costumeiro.

Assim, apronte-se, pois o ano está chegando com “ares de festas e luas de pratas”! Deus não mudou de endereço, Ele continua assentado no Seu Trono e todas as coisas estão sob Seu controle. No mais, tudo coopera para o bem daqueles que lhe amam e, ao contrário do que você pensa, a vida está é conspirando a seu favor. O que não deu certo, falhou porque não era para acontecer para você.

Portanto, um maravilhoso 2015 aos “fracassados”, a você que, exatamente como todos os outros, teve alegrias e tristezas, conquistas e derrotas, mas que, talvez, diferente de muitos, acha que foi um alvo do destino, perseguido de Deus, que o mundo conspira contra você!

Ora, por favor, deixe de tanta lenga-lenga, pegue o que você tem, faça um cabelo diferente, use uma roupa reciclada mesmo, junte-se com outros “fracassados” e agradeça por tudo o que a vida lhe trouxe, seja reverente com aquilo que a vida levou e prepare-se para as enormes surpresas que a vida ainda lhe trará. Feliz 2015!


Carlos  Moreira


15 janeiro 2014

Me Ensina esta Sina



Déjà vu, numa tradução literal do francês, “já visto”, é uma reação psicológica do cérebro que acusa que aquilo que vimos, ou sentimos, já aconteceu antes, sem, contudo, jamais ter ocorrido.

Nos trilhos do cotidiano, por entre os becos da vida, tenho encontrado os que sofrem com este mal. São amputados de afetos, solitários inveterados, irresolutos contumazes. Eles sofrem ao ar livre, mas ninguém os percebe. São Déjà vu, gente que geme em voz alta sem ser notada, como o jornal de ontem, levado pelo vento, elas vão e vem pelas calçadas. 

Quando a alma desembarca nesta estação, acredite, é porque a vida já esculpiu no mural dos dias muita dor. O tempo desfigura a face e o sofrimento enruga o ser. Existir assim, sem retoques, preto no branco, não é para qualquer um, só gente com duas dobras é capaz de suportar.  

“Eu já passei por isso”, eles me afirmam. Com semblante esmaecido, que denuncia ambientes internos vazios, falam páginas inteiras só com a expressão do olhar. “Sim, moço, eu já senti esta dor, eu já andei neste traço, já fui feito parte e pedaço, já me perdi até de mim”. 

Hoje eu sei que a amargura produzida pela dor da desesperança caleja o chão do ser e faz ferida no coração. Quem já sofreu com a navalha do destino, desde cedo, desde menino, sabe requentar lágrimas para servi-las no prato da ceia. O que não mata hoje, cala a esperança do amanhã que nunca chega. 

Na vida, ou você abre portas ou levanta paredes, ou se escancara para mundos, ou sucumbe asfixiado pelo sofrer. Nada há de novo debaixo do sol, tudo já foi feito, não há nada por se fazer, tudo é Déjà vu, na janela do trem, a paisagem é sempre a mesma, não importa o lado nem a direção, o trilho sempre leva ao mesmo lugar, sempre a mesma estação... 

Mas creia, há cura para esta chaga! E nem é preciso unguento ou cachaça, basta embeber o coração em alegria e untar a alma com gratidão. Sim, não há força maior na vida do que um vivente que insiste em sorrir sem motivo, em seguir sem aviso, arando a terra com as lágrimas do caminho, gotas de esperança semeadas no solo seco de cada amanhecer.

E assim, com portas e janelas abertas, a vida convida o sol para o café, faz sala e veste a mesa com toalha rendada de crochê, tecida fio a fio, que nem trabalho de aranha, que desenha na teia pintura tamanha, que artista nenhum consegue reproduzir. 

Aprende, portanto, a ser agradecido, bebe com singeleza o teu vinho e come graciosamente o teu pão, pois o sábio ensina que fazendo assim, agradarás a Deus. Vai, então, faze isto e viverás, pois querer mais do que isso é desejar o infinito, e basta a ti ser finito, sombra, silêncio e solidão. 

Carlos Moreira

31 dezembro 2013

Que me Importa...




O ano termina hoje. Muda o calendário, mas segue a vida. Os problemas de 2013, garanto, estarão presentes em 2014. O que pode dar a cada um deles nova significação serão suas atitudes. Não há nenhum tipo de magia na virada de um ano.

No dia 31 de dezembro, é praxe de algumas instituições e empresas fecharem para fazer balanço. Com muitas pessoas também é assim... Elas tentam fazer um encontro de contas com a vida, analisam a contabilidade dos dias, esmiúçam lucros e planos, perdas e danos, e chegam assim ao resultado da operação. Por vezes, ele é positivo, mas, não raro, acaba-se por perceber que o ano trouxe mais tristezas do que alegrias, deixando o saldo da conta no vermelho.

Quando isso acontece, nossas ambiências interiores são invadidas por aquele sentimento de fracasso, de vazio. Olhamos para trás e verificamos que não valeu a pena. Gastamos tempo, dinheiro, esforços, gastamos vida, e o retorno, simplesmente, não veio. Plantamos e não colhemos, amamos sem ser correspondidos, trabalhamos muito para pouco resultado, corremos e não conseguimos alcançar, choramos, mas não houve quem nos consolasse.

Contudo, estou decidido: não vou guardar nenhum tipo de sentimento ou alimentar qualquer tipo de pensamento que não seja argamassa para construir escadas e não muros. Em 2014, farei ainda melhor do que fiz em 2013! Trabalharei com mais paixão, servirei melhor as pessoas, gastarei mais tempo com meus amigos, aprenderei a sorrir mais e a reclamar menos, pois, que me importa se nem tudo saiu, exatamente, como eu queria?

Que me importa se eu amei e não fui correspondido? Amor é uma coisa que nunca se esgota, quanto mais agente dá, mas ele em nós se renova. Além do que, o amor não faz balanço, nem acerto de contas, se há desigualdades, ganha sempre quem deu mais de si ao outro. Se você amou sem ser amado, se se doou e não foi compensado, se deixou-se gastar por quem não lhe deu o devido valor, que importa?! Melhor foi amar do que represar as fontes do coração e tornar árida a alma. Quem dá o melhor de si, sempre receberá como paga da vida paz e bem para o ser.
    
Que me importa se o governo me frustrou e deixou aquela sensação de que fui roubado? Creia, não será sua incompetência que irá me fazer sonegar, ou deixar de agir com responsabilidade. Seu descaso não me levará a burlar as leis ou desrespeitar a constituição. Pelo contrário, minha revolta será a minha fome e sede de justiça, minha indignação se revelará pela minha honradez, ainda que todos façam errado, e torçam para que dê errado, eu permanecerei fiel aquilo em que acredito. Farei uma revolução primando pela verdade, começando por mim mesmo, darei o exemplo de que agir de forma correta não é diferencial, é obrigação!

Que me importa que eu não tenha ganhado com minha profissão aquilo que entendo ser justo? É triste, mas eu sei que muitos estão terminando o ano mais pobres e endividados. Num mundo em que as pessoas são julgadas pelo que possuem e não pelo que são, é de desanimar. Mas fazer o quê? Mudar de atividade? Tentar a ilicitude? Não. É certo que eu ganhei menos do que merecia, mas com minha atividade ajudei a tornar a sociedade um pouco melhor. Não fiz das circunstâncias um trampolim para o oportunismo, nem esmaguei aqueles que estavam sob minha gestão. Não maximizei lucros economizando com a justa remuneração de outros, nem fiz intrigas ou me submeti a jogos de poder. De uma coisa, todavia, estou absolutamente certo: busquei fazer o melhor que pude com os dons e habilidades que recebi. Nem sempre o resultado daquilo que fazemos é financeiro, por vezes, ele se traduz por um simples sentimento de dever cumprido.
 
Que me importa que eu não tenha sido o mais esperto, ou o que tirou mais vantagens das oportunidades? Ora, se para tal era preciso negar valores, barganhar princípios, lotear o coração por preço e tornar a consciência venal, melhor que tenha sido assim mesmo. Estou orgulhoso de ceder a posição para alguém mais velho, ou de dar oportunidade para o outro me passar no trânsito, ou ainda de não ter feito negócios que não reconheçam os direitos da propriedade e autoria. É provável que o mundo não tenha ficado melhor com minhas pequenas iniciativas, mas eu certamente fiquei! A esperteza, por vezes, é inimiga da destreza, e eu prefiro saber fazer, do que já levar feito.

Que me importa se eu me dei, se fui amigo, se agi com lisura, e não fui compensado ou mesmo compreendido? Eu sei que a ingratidão é coisa doída, que fere o ser com a aspereza do metal que rasga a carne, mas eu aprendi que é melhor dar do que receber. Como dizia a velha canção de Dominguinhos: “amigos a gente encontra...”. Eu sei que dá medo abrir a casa e o coração, e mais medo dá quando tornamos alguém íntimo do nosso ser e ele nos rouba a privacidade de existir entre cortinas de seda. Há os que te apunhalaram com o punhal da língua afiada, e os que te desprezaram em meio ao aguaceiro que caiu na escuridão da noite. Não te deixes abater pelo amor que te foi negado, segue resignado que o amanhã trará novamente o sol.
    
Que me importa se a minha fé parece utopia e as minhas crenças me levam a andar na contramão? Ora, não há prêmio sem lágrimas, nem vitória sem luta! Em meio a uma sociedade baseada na imagem, eu quero ser real, em meio a uma geração que deseja apenas ser feliz, eu quero ser perfeito, as voltas com um tempo onde consumir é a marca de existir, eu quero continuar repartindo. O Deus em quem acredito é diferente dos demais, ele chora, sorri e sangra. Abriu mão da sua glória para tornar-se homem comum. Não se parece com um super-herói, pois não sabe lutar, não tem uma armadura e sua única arma é o amor. O símbolo da minha fé não é uma espada, ou uma estrela, mas uma cruz. Eu sei: estou mesmo indo no contra-fluxo, mas a fé é mesmo absurdo...
 
E por tudo isso, e muito mais, que eu conto outro dia, feliz 2014 para você. Se 2013 não foi como você pensava, ou gostaria, na verdade, foi como deu para ser, foi como podia...  

Carlos Moreira

10 maio 2012

Sofro de Distâncias






Cresci sozinho. A solidão sempre foi boa com­panheira, nunca me deixou só. E solidão não é au­sência de companhia, é a falta de si mesmo, é quan­do você não é um rosto na multidão, mas a multidão sem um rosto.

Nasci no tempo errado, tenho certeza. Pertenço a um mundo de impessoalidades, de pessoas indo e vindo sem saber ao certo o porquê de estarem fa­zendo tal coisa... É a era da virtualidade, da imagem. Foi-se o tempo em que existia o toque, o cheiro, o gosto. Agora tudo é digital.

Não sei se você se deu conta, mas, em nossa so­ciedade, é melhor ser singular do que plural. Au­menta a cada dia o número dos que existem sozi­nhos, dissociados. São solteiros tardios, pais sem esposas, mães sem maridos, filhos sem pais. A pala­vra “nosso” praticamente perdeu suas implicações e significados. Hoje tudo é apenas “meu”: meus so­nhos, meus projetos, minha casa, meu carro, minha cama, meu dinheiro.

Olho para tudo isso e me acho desconforme. Sinto falta de gente. Apesar de sempre ter brin­cado sozinho, ansiava por um amigo, uma compa­nhia. Tive alguns na vida, mas foram poucos. Hoje, não enchem nem uma mão. Dias difíceis... Tanta correria que não dá tempo para realizar trocas, bater um bom papo, ou mesmo ficar calado, um do lado do outro.

Moro num edifício, mas quase não conheço meu vizinho. O de cima e o de baixo não sei quem são. Mesmo depois de algum tempo, encontro gente no elevador que nunca vi. Não sei o nome dos portei­ros, dos vigias, nem dos zeladores. Gosto de ir sem­pre aos mesmos lugares, vejo gente que lá está, mas não sei de quem se trata. Na farmácia todos são anônimos. O mesmo acontece no posto de gasolina, na padaria, no pet shop e na livraria. Os rostos são familiares, mas as pessoas parecem não ter alma, são como zumbis, interagem comigo quase sem me dirigir palavras.

Como observador da existência, percebo que o fenômeno chegou também na igreja. Tudo vem se tornando impessoal. É tanta gente que não se sabe quem é quem. Alguns poucos você conhece pelo nome, todos os outros são apenas “irmãos”, mas não parecem fazer parte da mesma família. Sim, não posso chamar isso de “Corpo”, mas de uma saco­la de membros esquartejados, pois não há conexão entre as “partes”, não há ligamentos nem ligadu­ras, apenas distâncias e silêncios, sorrisos pálidos e abraços gélidos.

Fui buscar as Escrituras. Bateu-me certo deses­pero! O padrão que está lá é outro... O Novo Tes­tamento nos indica o caminho: “Sujeitai-vos uns aos outros; consolai-vos uns aos outros; amai-vos uns aos outros; saudai-vos uns aos outros; sede benignos uns para com os outros; perdoai-vos uns aos outros; exortai-vos uns aos outros; edificai-vos uns aos outros; confessai-vos uns aos outros; orai uns pelos outros; recebei-vos uns aos outros; não mintais uns aos outros; lavai os pés uns dos ou­tros; suportai-vos uns aos outros; admoestai-vos uns aos outros”. Ler isso me deu certo alento...

No meu pensar, mesmo sabendo que será to­talmente inócuo, creio estarmos quase todos na contramão! Não há Evangelho se não há o outro, pois, sem o próximo, não há caminho a ser cami­nhado. Amarei a Deus, mas não terei como ma­terializar esse amor amando o meu semelhante. É por isso que o “Pai” é “nosso” e não meu, e a igreja é reunião de “dois ou três” e não fé existen­cializada individualmente.

E assim, diante da máquina, que não ouve, não vê e não fala, termino essa noite, ou melhor, esse dia, pois já são três horas da manhã. Pela janela vejo a cidade vazia, as ruas desertas, os apartamentos no escuro. Todos agora estão descansando, cada um no seu quarto, cada qual com seu sonho, pois até dormir é solitário.

“O médico perguntou: O que sentes?
E eu respondi: Sinto lonjuras, doutor. Sofro de distâncias”.
Denison Mendes



Carlos Moreira


24 agosto 2011

Por quê?


Por que as coisas mais incríveis da vida foram aquelas que passaram diante de nós e a gente quase não se apercebeu delas, foi como brisa de final de tarde num dia ensolarado de verão?

Por que a gente só dá valor a pai e mãe depois que a gente os perde na vida, depois que amargamos experimentar o fato de que os túmulos não falam, nem afagam, apenas calam?

Por que só aprendemos a reconhecer o valor da amizade quando perdemos nossos amigos, sofremos sozinhos, choramos escondidos, disfarçamos na mesa do bar as ausências reveladas pelas cadeiras vazias?

Por que a gente só se sente seguro depois que o corpo não corresponde mais aos nossos anseios, quando braços e pernas teimam em não mais nos obedecer?
  
Por que a gente só se sente maduro quando não dá mais para fazer coisas que só os garotos fariam, e por que a gente quando é garoto não consegue agir como gente grande?

Por que depois dos 40 a velhice se aproxima tão velozmente: a vista cansa, as costas doem, o sono é conturbado, a paciência diminui, tudo parece apenas mesmice?

Por que o amor com o tempo vai se apagando, como vela em fim de festa, e o seu brilho vai se ofuscando, como o orvalho da manhã que encobre o vidro da janela do quarto?  

Por que a vaidade nos deixa a certa idade, os sonhos se esfarelam, os planos se desfazem, as prioridades deixam de existir, tudo, absolutamente tudo, passa a ser algo dramaticamente real?

Por que os filhos crescem tão rápido e nós, pais, sem que façamos absolutamente nada, passamos de mocinhos a bandidos, de heróis a vilões; por que eles deixam de nos beijar, abraçar, de dizer que nos amam e precisam de nós?

Por que a certa altura da vida, o exercício de qualquer que seja a profissão trás consigo um grande enfado, pois quando este tempo chega, até ganhar dinheiro se torna coisa penosa?

Por que antes que venhamos a experimentar todas estas coisas, e os nossos dias tornem-se sem propósitos, não nos rendemos a Deus, que pode ressignificar hoje nossa existência, dar a ela outro destino, colorir o acinzentado que se acumulou em nossos olhos encharcados de tanto asfalto e concreto, por sabor em nossa comida, prazer em nossas relações, sonhos em nossa rotina, música em nossa alma, paz e bem em nossa vida?

Sim, por quê? Por quê? E por que não?

Carlos Moreira

 

13 agosto 2011

Pai Herói!



Pai, já faz 5 anos que você se foi... Mas a saudade não diminui, a lembrança permanece sempre em meu coração.

Pai, obrigado por você ter sido o melhor que pôde para mim, meu amigo, meu herói. Pai, amanhã é dia dos pais, vou pregar sobre ser pai, e me lembrarei em todo tempo de você. Com respeito, devoção, admiração e amor, seu filho, Carlinhos.


Faço púbica minha homenagem, obrigado por tudo pai, nos veremos muito, muito em breve! Saiba que eu tenho me esforçado para ser um homem de bem, como você me ensinou, para honrar o seu nome, e para ser um bom pai, marido, profissional e cristão. Deixo essa música para você, que sempre me falou muito ao coração e que eu sei que você também gostava. Um beijo pai!


01 julho 2011

Cotidiano em Branco e Preto




Não me venha com tua mesmice, tuas críticas cruas que rasgam meu ser. Por vezes sinto tuas unhas se cravarem em minha carne como garras de aves de rapina, arrancam minha pele sem derramar uma gota de sangue. Sim, tu és cirúrgico demais, mesmo para mim...

E eu te pergunto: o que estás esperando? Que eu seja o Super-Homem? Que me sinta com a obrigação de salvar a humanidade inteira, fazer tudo certo, todo o tempo? Achas que sou um Quixote enfrentando moinhos de vento?! Ora, tu bem sabes que desprezo olhares tortos e passo ao largo de quem tem imaginação retilínea.

Deveras, tens de compreender, tuas teorias me entediam e me dá cansaço essa complacência com o descaso. És daqueles que tudo realizam, mas sempre no mundo das ideias... platônico demais para o real. Portanto, deixe-me ser, e saias do caminho!

Queres que eu confesse? Sim, os pecados são to-dos meus, não estou disposto a dividi-los com ninguém. Desejo o teu desprezo e que nunca descubras o que escrevo. Evites escutar o que falo, pois sou ácido e ávido, corto que nem navalha! Como já sabes, adoro o preto, mas detesto o ócio.

Um dia, não queiras enganar-me, pensaste que já sabias tudo. Mas te vejo calado, quieto, inseguro. Espreitas por entre portas entreabertas, por onde a vida passa cálida. O que te peço? Que afastes de mim tua compaixão, pois jamais desejei obter a caridade de quem me detesta. Se perguntarem por mim? Diz que fui por aí... com um punhado de sonhos nas mãos e lágrimas requentadas por perdas ínfimas.

Queres me surpreender? Então conta segredos sobre coisas que eu ainda não saiba. Tira as velhas roupas dos cabides, esvazia o armário e faze uma faxina na alma. Revira tuas ideias ao avesso, deixa o hermético de lado, é démodé o traço perfeito. Não me traga mesmices, não me canse com tagarelices, pois tu sabes o quanto gosto de fotos coloridas, mas, o real, esse tem mesmo de ser branco e preto.

Eu tenho um problema e tu o conheces. Estou andando nessa estrada já faz algum tempo. Sei onde estão os atalhos, as curvas e ondulações. As paisagens, são sempre as mesmas, não importa de que lado do caminho você esteja, indo ou voltando, são todas iguais. Por isso, faço uma trilha só minha, onde não haja pegadas, corro riscos, sinto medo, vejo os contrastes, tiro os disfarces, piso no chão com pés descalços, deixo o ar entrar pelo corpo e arejar os cômodos do meu ser.

Ademais, no íntimo de cada um há moinhos abandonados, ruas desertas, velas apagadas e copos vazios. Pudesse teu olhar penetrar mais fundo, como luz que vaza a cortina de seda fina, roubando da penumbra teus disfarces, se te fosse possível ir ao âmago, adentrar lugares escondidos, verias que interiores são feitos de poesia e que, na melancolia do ser, há paixões recolhidas e pétalas em flor.

Se quiseres, dou-te um conselho: quando tiveres que cortar a carne, faça o serviço com faca amolada, pois há decisões na vida que são quais amputações, salvam o ser da desgraça, mas produzem um aleijão na alma. E mais... se tens de fazer, então não perca a hora! Faze logo hoje, depressa, agora! A gangrena da consciência é pior do que o enfarto do coração.

Eis que encontrei uma coisa terrível debaixo do sol: o cotidiano! Ele passa a existência sentado no muro das ponderações. Faz contas, analisa, constrói gráficos, faz cálculos, imprecisas ponderações. Mexe, remexe, vira, não chega a lugar algum.

Mas deixa estar... Feliz é quem já se estrepou numa estrada de barro batido, tomou prumo pra lida, rasgou a roupa que camuflava a imagem e o orgulho que vestia a hipocrisia. Isso sim, muda a gente!

Dor é coisa preciosa. Quando não mata o “cabra”, quebra o tédio de seguranças pasteurizadas. Feliz é quem sofre, quem acumula rugas no rosto e certezas no olhar. Sofrer é acalento de gente grande, faz a lágrima escorrer pelo canto do rosto e leva embora sonhos embebidos em esperanças póstumas.

Dá-me, então, minha porção de sofrimento, pois é calejando os pés nas pedras do caminho que poderei ir mais longe. Mas não me canse com melancolias nem me venhas com doçuras ou canduras.

Se quiseres me ajudar, traze um balde com a lama que escorreu pela calçada por onde a tristeza desfilou impoluta. Com ele, mais um pincel de pintor, colorirei a tela da vida, sem mazelas ou pieguices, tudo preto no branco, vívido e verdadeiro, tudo como tem que ser.

Houve um tempo em que eu era idealista... Depois, a realidade se enraizou até os ossos, entrou pelas veias, entranhou-se na alma. No meu mimetismo, sempre busquei camuflar as imperfeições, disfarçar antigas contradições.

Mas o tempo devora tudo, muda a essência, transforma a existência. Hoje, confesso, cansei de “caras e bocas”, da “estética”, da plástica social, dos traquejos, das políticas e dos manejos.

Na verdade, nunca fui bom nisso, e agora fiquei irreparável. Hoje só me interessa aquilo que é, o que vaza da alma em direção à vida, que borbulha do caldo das incongruências e medos e se espalha pela tapeçaria dos dias.

É que chega o tempo em que o belo é torto, penso e díspare. Farto de tanta perfeição, você para e suplica: dá-me um pouco de ilusão! Faze isso e te serei grato pelo resto de meus dias. Sim, dá-me essa tal ilusão, faze uma alquimia qualquer, ainda que no fundo, ela seja a mais pura realidade...

Carlos Moreira

29 junho 2011

Afinal: Você Confia ou não Confia?


Ontem à noite eu me vi diante de uma cena inusitada... Minha filha Gabi colocou na orelha um brinco e ele entrou na pele, o que fez com que a região inflamasse e sua retirada se tornasse algo extremamente doloroso.

Sei que Gabriela ama a mãe loucamente, confia nela cegamente, mas aquela situação a fez agir de forma inusitada. Ela corria de um canto para outro e não deixava a gente, sequer, se aproximar para ver o que precisava ser feito. Em certo momento, senti a angústia nos olhos de Fabiana, algo do tipo: “milha filha, ou você confia ou não confia!”.

É fácil manter a confiança quando o contexto é favorável, quanto o problema é contornável, quando os envolvidos são confiáveis, quando as medidas a serem tomadas são palpáveis. Mas, e quando não?...

Aqui surge uma questão: como confiar quando os fatos são contrários, quando Deus se torna “indisponível”, ou o céu mostra-se impermeável, quando o “telefone” do Altíssimo fica dando “caixa postal”? O que fazer no momento em que as coisas, aparentemente, não possuem sentido ou lógica, e o caos aproxima-se de nós com um apetite voraz? 

Como todos sabem, gosto muito do profeta Habacuque. Trata-se de um homem suigeneris, pois, ao invés de começar seu ministério confrontando aos homens, ele parte para questionar o próprio Deus. Por isso, de cara, me apaixonei por ele, pois em Habacuque não existem “salamaleques” para com o sagrado, ele é um ser perplexo em busca de respostas, assim como eu.

A questão central no livro de Habacuque é o afastamento de Israel da comunhão e intimidade com Deus. Profeta do período pré-exílico, ele constatou que o bem se afastara da vida dos seres humanos, assistiu ao desvirtuamento das relações, viu o poder sendo usado para esmagar o próximo, o estabelecimento da corrupção, da volúpia por sangue, da ganância, do desamor como praxis, ou seja, a inexistência de todos os matizes dos quais é constituída a matriz de valores do Evangelho.

Depois de insistentes questionamentos sobre o fato de Deus está, aparentemente, inerte a toda aquela situação, Habacuque recebe, então, a sua resposta. Foi impossível não lembrar de Guimarães Rosa “esperar é reconhecer-se incompleto”. Ah, coisa difícil é esperar... sobretudo, esperar por Deus... Ele parece sempre estar indisponível no dia da calamidade, da dor, da solidão, da tragédia.

Todavia, a resposta que Deus deu ao profeta não lhe agradou. Ele estava preparando, como “vara de juízo” sobre o Seu povo, uma nação ainda mais perversa, corrupta e dura: os Assírios. Aí o profeta foi à loucura! “Como assim Deus?! Você vai nos disciplinar usando gente mais corrompida do que nós mesmos?!”.

Sei que não está escrito no livro de Habacuque, mas, neste ponto, penso que Deus questionou o profeta: “afinal, você confia ou não confia?”. E é justamente aí, em meio à perplexidade, ao inexplicável, ao ilógico, ao contraditório, ao irracional, ao desconexo, que surge um homem resignado a obedecer e aceitar os desígnios do amor de Deus, pois, mesmo quem ama, tem de ser firme.

Ouvi isso, e o meu íntimo estremeceu, meus lábios tremeram; os meus ossos desfaleceram; minhas pernas vacilavam. Tranqüilo esperarei o dia da desgraça que virá sobre o povo...”. 


A lição que tiramos da vida deste homem é que confiar não é uma ação que nasce na consciência, mas no coração. Confiar é lançar-se no absurdo, no insondável, é abrir mão de racionalizações, de conjecturas. Confiar é resignar-se, aquietar-se, render-se, sublimar-se, é ir na contra-mão, no contra-fluxo, esperar o inexplicável, aguardar o improvável, ter a certeza de que, ainda que contra todas as evidências, Deus nos fará bem e nos trará a paz.

Habacuque nos ensina que ainda que o fluxo natural da existência  – “mesmo não florescendo a figueira, não havendo uvas nas videiras; mesmo falhando a safra de azeitonas, não havendo produção de alimento nas lavouras, nem ovelhas no curral nem bois nos estábulos”, seja, por algum motivo, alterado, ainda assim ele confiará no Senhor, pois diz: “exultarei no Senhor e me alegrarei no Deus da minha salvação”.

O nome Habacuque significa “abraçado por Deus”. Não sei o que se passa em sua vida, mas eu, particularmente, tenho vivido dias muito difíceis... Algo, entretanto, me fala ao coração: “filho muito amado, foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei, recebe o abraço do teu Pai”. E eu lhe pergunto: “do que mais precisarei?”. 

Carlos Moreira

25 junho 2011

O "Ciclo do Buraco"


Recife é uma cidade cortada por rios e cercada de manguezais. Como está abaixo do nível do mar, quando chove é uma tragédia, pois, com galerias entupidas e lixo nos canais a água não tem por onde escoar e, assim, tudo fica inundado.

Eu viajo por todo o Brasil, mas acho que minha cidade é a recordista em buracos no asfalto. Quando chove, isto se transforma numa verdadeira desgraça, pois, sem ver o dito cujo, que está coberto pela água, pessoas, motos e carros acabam acidentando-se.

É curioso, mas aqui existe uma coisa que eu chamo de “o ciclo do buraco”. Funciona da seguinte forma: em vez da prefeitura fazer o recapeamento das ruas antes do período de inverno, ela faz depois, e isto segue uma lógica...

No inverno, as ruas ficam todas esburacadas, não só por causa da chuva, mas porque o asfalto é de má qualidade. Esse evento faz com que toda uma “cadeia alimentar” funcione: lojas de autopeças, oficinas mecânicas, empresas de reboque, e até mesmo a “molecada”, que fica de plantão para desatolar os carros enguiçados e descolar “algum”. 

Depois que a época das chuvas termina, a prefeitura, então, faz uma licitação para concertar as ruas. A empresa ganhadora vai fazer um serviço de quinta categoria, e isto com vistas a que, no ano que vem, o ciclo recomece novamente. Prevenir, de forma séria, seria o correto, mas em nosso país, o correto quase nunca se torna concreto.

Pois bem, de tanto aconselhar pessoas, descobri que muitas delas vivem um certo tipo de “ciclo do buraco”. Grande parte de seus problemas são questões que, facilmente se revolveriam e a maioria sabe, inclusive, o que tem de ser feito para resolver. Contudo e contraditoriamente, elas preferem enfrentar as conseqüências de “cair no buraco” ao invés de trabalhar preventivamente – tomar decisões, afastar-se do mau e cindir com situações que esgotam a alma, machucam o coração e convulsionam a consciência.

Outra coisa que eu observei é que “o ciclo do buraco” na vida das pessoas possui também sua própria “cadeia alimentar”. Ela é formada de psicoterapeutas, ansiolíticos, cd’s de “dor de cotovelo”, amigos de bar, livros de auto-ajuda, lenços de papel, garrafas de vinho e muita, muita autocomiseração. Como diria o Tom, “é o fundo do poço, é o fim do caminho, no rosto o desgosto, é um pouco sozinho...”.

Analisando tudo isto, lembrei de algo curioso. Nos últimos anos, a igreja tem convivido com uma prática chamada: “descansar no Espírito”. Trata-se do fato das pessoas caírem ao receber orações através da imposição de mãos. Eu não tenho nada contra isso. De fato, não vejo a prática nas Escrituras, mas não condeno quem faz. Acho, todavia, que é melhor “andar no Espírito”, conforme nos ensina o apóstolo Paulo e, de preferência, sem cair em “buracos”.

“Andar no Espírito” significa deixar-se guiar pelas Escrituras, fugindo assim de fábulas, modismos e ventos de doutrina, ter uma consciência sensível a “voz de Deus”, o que nos leva a desviar daquilo que não nos trará paz ou fará bem e, sobretudo, estar sempre em oração, pois eu e você somos tentados pelas nossas ambições e cobiças.   

Por isso, se você está vivendo num período de “inverno” em sua vida – solidão, depressão, ansiedade ou medo – preste atenção ao que vou lhe dizer agora: se você não está vendo o “buraco”, ande com cautela; se o está vendo, desvie; se caiu dentro dele, procure sair; se saiu, não volte mais; se voltar, não pense que é o fim do mundo, pois você já saiu uma vez. Faça isso, desta forma simples como estou lhe falando, e você verá que boa parte dos seus problemas irá desaparecer, e “a paz de Deus, que excede todo entendimento, guardará a vossa mente e o vosso coração em Jesus”.

Agora, se tudo isto não funcionar, ligue para mim, escreva-me ou marque um aconselhamento pastoral. Você, provavelmente, está entre os 10% que, de fato, necessitam de uma orientação espiritual. E lembre-se do que disse o "sábio": “tudo ao redor de um buraco é beira”. Portanto, não chegue muito perto, você pode cair!

Carlos Moreira

05 abril 2011

A Fila já Andou



Hoje à tarde fui ao shopping; coisa rara. Tinha que comprar um chip para o iPad e aproveitei para pagar uma conta telefônica na lotérica. O que deveria ser uma comodidade tornou-se, na verdade, um suplício. A fila era enorme, gente se apertando de todos os lados num pequeno corredor por trás das lojas.

Depois de meia hora sem sair do canto, eu já estava “viajando”. Minha cabeça, definitivamente, não se encontrava mais naquele lugar. Ouvia ao fundo um “zumbido”, mas ele não podia me tirar do meu “transe”. Foi aí que senti uma “cutucadela” nas costas. Virei-me e vi uma senhora dizendo: “meu filho, preste atenção! A fila já andou”. De fato, a fila andara e eu não havia me apercebido.

Mas não foi só a fila da lotérica que andou... Em quase 30 anos de caminhada, percebo claramente que uma outra “fila" também andou, aquela que me conduz para dentro de mim mesmo. Hoje, constato com alegria que, enquanto caminhava, desconstruí muita coisa que foi “erguida” erroneamente. A verdade é que pouco sobrou... Às vezes releio textos ou mensagens de alguns anos e não os reconheço. “Minha teologia” mudou significativamente nos últimos anos. Dores, perdas e alguns fracassos me tornaram mais humilde, mais quebrantando, talvez, mais simples.

Lembrei do Roberto Corrêa: “o simples é o contrário do fácil”. É muito comum confundirmos simplicidade com simplismo. Ser simples é ser singular; ser simplório é ser medíocre. Tenho pavor da banalidade, da unanimidade. Meu grande medo na vida sempre foi não me tornar alguém, não chegar nunca a ser eu mesmo, não me encontrar comigo.

É por isso que Jesus me fascina! Ele sabia quem era, conhecia o significado de sua existência, compreendia as implicações de sua vocação, seu propósito, discernia o que tinha de fazer, por onde devia andar, com quem precisava se ajuntar. O estilo de Jesus era singular, inconfundível.

Diferentemente de outros mestres, como Platão, que fundou uma academia, ou Aristóteles, que fundou um liceu, Jesus não fundou coisa alguma. Aliás, foi peça fundamental para afundar tradições, dogmas, ritos e mitos do “sagrado” de Israel.

Jesus era desalojado, era como o Pai, “claustrofóbico”, não podia ser “contido”, “aprisionado”. Ia às sinagogas, mas nunca quis ser membro delas, rejeitou a tentação de ser sacerdote, passou ao largo da possibilidade de tornar-se “refém” do Templo, deixou de lado a politicagem do Sinédrio e fez caso das seitas judaicas. Para Jesus, aquilo tudo tinha cheiro de morte, era a religião das aparências, da performance, do embuste, o estelionato do ser.

Por isso a escola de Jesus era na rua, nas esquinas, nos becos das cidades, nas casas, nos ajuntamentos a beira mar, ao pé das montanha ou nas colinas. Seus alunos não eram filósofos letrados, nem rabinos eruditos, muito pelo contrário, entre seus discípulos não havia pessoas com “pedigree”, apenas gente que queria aprender a ser gente.

Se não, observe! Veja se os encontros mais significativos de Jesus não foram com a rafaméia: a prostituta que ia ser apedrejada, os 10 leprosos, Zaqueu o publicano, a mulher do fluxo de sangue, o cego de Jericó, o aleijado do tanque de Betesda, a mulher Cananéia, a viúva de Naim, o endemoninhado gadareno, e outros tantos anônimos, excluídos, oprimidos, perseguidos.          

Lembro da parábola das bodas... Os convidados eram pessoas “distintas”, “nobres”, gente de “importância”, de “destaque”. Mas todos tinham seus afazeres e fizeram pouco caso do convite. Aí o Rei mandou chamar a gentalha, os estorvos, os miseráveis e os bêbados. Se fosse hoje estariam na festa viciados em crak, transexuais, lésbicas, gays, agiotas, traficantes, aidéticos, deprimidos, flanelinhas, e outros “diferentes”. Fico pensando se eu teria a dignidade necessária para me sentar à mesa com essa gente. Talvez não...

Fato mesmo é que Jesus ora estava aqui, ora ali, outra ora sabe-se lá onde. Até seus discípulos, por vezes, o perdiam de vista. Ele era ser errante, não tinha onde reclinar a cabeça, não criava “raiz”, nem amarras, sua casa era o mundo! Quando você pensava que Ele estava vindo, já tinha ido. Para Jesus a fila sempre estava andando, a vida sempre estava fluindo. Mas, desgraçadamente, aquela geração não soube reconhecer aquela “visitação”.

Olho as pessoas nos nossos dias... Elas estão sempre insatisfeitas, reclamando, querem mais e depois mais, buscam a fixidez, o concreto, a segurança, a estabilidade. Enquanto perdem tempo com suas questiúnculas, “a fila anda”, o sonho passa, a vida segue, o tempo voa. É gente insegura, gente ansiosa, gente ingrata, gente irresolvida, gente intemperante, gente que deixou de ser gente, gente que se dessignificou como gente, gente que desaprendeu a ser gente, tornou-se substrato de gente, gente partida, dividida, gente que já não é mais gente.  

Para quem chegou neste estágio, só tenho uma coisa a dizer: “a fila já andou”. Enquanto você se emaranhava com tantas questões fúteis, com tantos projetos inúteis, com tanta megalomania, “a fila estava andando...”. Havia nas esquinas da vida gente precisando de carinho, de afago, de uma mão estendida, de uma palavra de conforto, de uma ação de misericórdia, de uma atitude de solidariedade, de uma decisão corajosa, de uma posição assumida, de uma consciência renovada, de uma alma quebrantada, de um coração expandido. E você, onde estava? Onde eu estava?! Ah, nós estávamos nos templos, nas reuniões, nos encontros religiosos, nas vigílias, nos seminários, estávamos “fazendo a obra”! Mas que obra?! A obra de quem?!

Hoje à tarde eu quase adormeci naquela fila... Agora estou com medo de estar adormecido quanto à existência que me cerca, aos dramas que me rodeiam, as calamidades que acontecem a minha porta, na minha cara, na esquina da minha rua, na frente do meu trabalho, na ponte, na praça, pois nestes lugares é onde estão os bêbados, os mendigos, os gays, os travestis, os maconheiros, essa gente que eu tenho desprezo de olhar, aversão de ouvir, nojo de tocar, medo de sentir.

Entretanto, o grande paradigma em tudo isto é que são justamente estes que Jesus quer que eu convide para a “festa”, pois são eles os mais receptivos a Graça e ao Reino. Agora, se eu não me “tocar” quanto a isto, corro o sério risco de, em algum momento, ouvir dEle: “desculpe filho; "a fila já andou"; tive de usar outro em seu lugar, pois você estava muito ocupado com a sua obra”. Pense nisso...     

Carlos Moreira

28 fevereiro 2011

Faz Parte do Meu "Show"


O “espírito” do hebreu é um “espírito” errante, desalojado, sem solidez, desarraigado, livre. Ele não permite que se cavem estacas profundas ou que se construam armações de concreto. O hebreu é viajante, é caminhante da terra, é ser sem destino, homem de tendas, construtor de altares. Tal como a brisa que passa, ou a pegada que se apaga na areia enquanto se caminha, assim é o hebreu, um caminhante da existência.

Eu não sou filho de Abraão, não pertenço a nenhuma das 12 Tribos, não possuo o “DNA” dos israelitas, não estou incluído nas Promessas, contudo, fui enxertado na “Videira” e convidado ao “banquete”, pois me tornei filho e herdeiro de todas as coisas mediante a fé em Jesus de Nazaré. Desta forma, passei a fazer parte da Família, recebi do mesmo Espírito, bebi do mesmo “cálice”, fui crucificado na mesma cruz e batizado na mesma morte, ressuscitei mediante o mesmo Poder e, tendo nascido de novo, recebi o desafio de andar como caído redimido.

Quando eu achava que tudo já havia se acomodado dentro em mim, que as “pedras” do caminho, todas elas, já haviam sido recolhidas ao abrigo, chegou à hora de levantar novamente a minha tenda e me lançar ao sabor do vento. Depois de tantos anos, pensei que havia encontrado um porto seguro. Mas aquele que veio morar dentro de mim me chamou a novas paragens e a novos desafios.

Foram 14 anos desde a última “mudança”. Tempo de crescimento, tempo de dores. Aliás, sem dores não se cresce, não se amadurece, não se expande nem a mente nem o coração. Foi um tempo de conhecimento, de preparação, talvez, para algo maior. Sou grato por estes anos, por tudo o que eles produziram em mim, cicatrizes de amor, marcas de esperança, tatuagens de sonhos acalentados.

Decepções? Tive muitas... A maior de todas, comigo mesmo. Conheço-me melhor agora, bem mais do que me conhecia antes, sei do que sou capaz, percebo minhas inconcretudes, ansiedades e contradições. O tempo me fez mais fraco, mais manso, mais quebrantado. Um dia destes pensava ser de aço. Hoje, sei que sou apenas de osso. Do pó vim e ao pó voltarei.

Meu amigo André Pessoa me ensinou que crente é feito gato, apega-se a lugares, não a pessoas. De fato, sempre que parti e deixei algo para trás, jamais consegui manter o que dantes havia construído. As amizades se esvaem, os projetos se desfazem, os sonhos se esfarelam como estátuas feitas com areia do mar. Tudo passa, se perde, se esquece, se apaga...

Fiz um balanço dos últimos anos... Para minha tranqüilidade, errei muito mais do que acertei, perdi muito mais do que ganhei, encontrei-me em contradição muito mais do que calcado em certezas. É bem provável que tenha produzido mais lágrimas do que sorrisos, ferido amigos, frustrado ouvintes, decepcionado até os que jamais me conheceram. Servi menos do que deveria, ouvi menos do que poderia, amei menos do que pretendia. Não raro meu discurso produziu apenas eco, pois as palavras não se materializaram no chão da vida. Ergui castelos e vi-os cair diante de meus olhos. 

Mas não é a vida assim?! O que esperava eu? A perfeição? O aplauso? O elogio? O reconhecimento? A unanimidade? Ora, quem sou eu a não ser homem feito de barro, suor e sangue. Quem sou eu a não ser alguém que caminha para dentro em busca de si mesmo. Quem sou eu a não ser um miserável resgatado pela graça, um perdido encontrado pela misericórdia, um desviado perseguido pelo amor, um errante salvo pela fé?

Sou tudo e não sou nada, sou ser por fazer-se, o agora e o ainda não, parte de mim é divina, outra parte é humana, pois, mesmo tendo sido resgatado, ainda existo como condenado, estou preso ao meu próprio corpo, aos seus desejos e paixões, apenas sou livre em minha consciência. No fundo, sou andarilho em busca da eternidade, existente caído almejando encontrar a perfeição, humanidade partida, dividida, viajante em busca de reencontrar a árvore da vida.   

Mas agora virá um novo tempo... Parte de mim vai, outra parte fica. São tantas as partes nas quais me decompus que não tenho mais como juntá-las novamente. Hoje sou metade, estou ao meio, sou fragmento de mim mesmo, fui dissolvido como o sal, dissipei-me, misturei-me ao todo, tornei-me parte da vida, cidadão do mundo, luz que brilha nas trevas, clarão que rasga a escuridão para atormentar o tormento.

Agora deixe-me partir... Chegou a minha hora. Não me diga adeus, não soe clarins, não me mande recados, não me escreva, nem telefone... Não deixe que a banda toque canções de despedida, não solte fogos, não bata palmas, não acene... Deixe-me ir incólume, despercebido, deixe-me ir da mesma forma como cheguei, sem ser notado, percebido, destacado.

É assim que sou e, provavelmente, é assim que serei. As mudanças, creia-me, produzem-se lentamente, levam toda uma vida. Há tanto em mim que precisa mudar que seriam necessárias dezenas de vidas para que fosse eu alguém melhor do que sou. Mas, como só tenho esta vida para viver, aquilo que sou está se projetando para o dia em que as minhas incertezas e medos serão confrontados com o “Totalmente Outro”. Aí, então, verei não mais por espelhos, com os olhos embaçados, mas conhecerei como sou conhecido, pois o verei face a face, Ele será o meu Deus, eu serei o Seu filho. 

Desculpe por tudo e por nada. Aceite-me como sou, errante, as vezes perto, as vezes distante, semeador de sonhos, adorador do sagrado, construtor de altares, profeta do cotidiano. Sim, aceite-me assim, pois tudo isto “faz parte do meu “show””, é a forma que tenho de te mostrar que sou humano, que sou o que sou.

Carlos Moreira 

24 janeiro 2011

Uma Janela para a Vida



A porta abriu-se e eu dei de cara com aquela quitinete toda pintada de amarelo ovo. Achei estranho, mas a casa tinha vida própria: braços, pernas, olhos e ouvidos. Nela mora “a menina das palavras”, uma escritora e poetisa que fez de São Paulo o seu mundo, o seu lugar. 

Ela me mostrou seu cantinho com especial deferência, mas deu destaque àquela janela, uma que dá para a rua onde mora. Debruçada sobre ela, vê a cidade de um ângulo privilegiado, observa sem ser observada, espreita a vida que se arrasta preguiçosa bem abaixo do seu nariz. Incólume, assisti a tudo o que se passa: pessoas correndo, carros buzinando, motos barulhentas, ônibus fumacentos, o fluxo da vida que vem e vai. Às vezes chove, às vezes faz calor. Há dias de “trevas”, mas ela me disse que o sol sempre dá as caras...

Enquanto conversávamos, percebi que daquela janela não se vê apenas a rua, a cidade, mas o mundo. Sim, tudo pode ser observado dali, a grande passarela por onde a vida desfila, a vida como ela é – dramas e dores, medos e temores –, tudo do que gente é feito. 

Diante daquele cenário, ocorreu-me: no que pensam essas pessoas que, tão apressadamente, correm de um lado para outro? Quem são elas? Onde moram? Como vivem? Quais são seus sonhos, inquietações? Difícil decifrar... O tempo nos permite apenas um relance de olhar.

Lembrei, então, de uma citação de Jesus: “Os olhos são a candeia do corpo. Quando os seus olhos forem bons, igualmente todo o seu corpo estará cheio de luz. Mas quando forem maus, igualmente o seu corpo estará cheio de trevas”. Lc. 11:34.

O texto solto pode não nos dizer grandes coisas. Dentro de seu contexto imediato, todavia, ganha novos significados. Jesus acabara de dizer aos seus ouvintes, que lhe pediam insistentemente um “sinal”, que eles precisavam atentar para o que acontecera ao profeta Jonas.

A história de Jonas nos revela um homem acometido de uma terrível enfermidade, uma doença que lhe atacara os olhos, pois sua visão havia se tornado embotada, seu aparelho visual estava daltônico, incapaz de ver as cores, a beleza, o brilho da luz.

Jonas olhava, mas não enxergava. Sua consciência havia se cauterizado pela dureza e perversidade da sociedade na qual vivia. Era assim que ele percebia a grande metrópole de Nínive, 100 mil pessoas indo e vindo, desencontradas de si mesmas, de um propósito maior para existir..

Na “janela” de Jonas, a vida perdera a sensibilidade, a magia, a singularidade. Sobrara-lhe apenas a realidade. Ele já não possuía mais a capacidade de sonhar, de acreditar, de alçar voos e adentrar mares.

Mas algo inusitado o esperava... Ao tentar fugir de Deus e de seu destino, foi parar num dos “antros da terra”, no lugar mais improvável da existência: o interior de um grande peixe. Espero que entenda a alegoria...

Sozinho, amedrontado, desprovido de tudo, sem controle de nada, rendeu-se a si mesmo e à soberania de Deus. “Os olhos do espírito só começam a ser penetrantes quando os do corpo principiam a enfraquecer”. Platão, filósofo grego.

Ao sair dali, rumou de volta para Nínive. Seus olhos, entretanto, já não eram mais os mesmos... A escuridão na qual havia ficado lhe abrira novamente as percepções e sentidos. Agora, mesmo vendado, seria capaz de enxergar. Num relance, discerniu toda aquela miséria que o cercava, a futilidade das almas que naquela sociedade viviam, a banalidade de suas vidas, a inutilidade de seus dias.

Mas Jonas agora podia ver aquilo que antes lhe era impossível. Onde havia trevas ele viu luz; onde havia morte ele viu vida; onde havia desesperança ele viu oportunidades; onde havia dor ele viu alegria; onde havia enfermidade ele viu a cura. Sua mensagem de amor e graça deu à cidade a chance de reescrever uma nova história.


Quero lhe dizer algo: a vida nem é boa nem é má – ela é como é. São os teus olhos que lhe dão sentido e significação. A maneira como você percebe as situações, os acontecimentos, é o que dará a cada fato a sua “tonalidade” própria – cinza chumbo ou azul-turquesa.


Se os teus olhos forem bons, capazes de olhar para o outro com reverência, para a dor com solidariedade, para a perda com gratidão, para o lamento com alegria, para a amargura com contentamento, para a injustiça com esperança, todo o teu corpo usufruirá disso, e você terá saúde física, emocional e espiritual, será como uma candeia em meio à escuridão.


Do contrário, tudo o que se poderá perceber através de teu olhar será um grande amontoado de fatos desconexos, uma realidade caótica, um mundo perverso, um Deus bizarro, sadista, que trata seres humanos como marionetes circenses.


Sim, você enxergará as pessoas como uma multidão de gente louca, indo do nada para lugar algum, pois, certamente, se os seus olhos forem maus, que grandes trevas habitarão o interior do seu ser. Por isso, nunca se esqueça do que disse o escritor Saint-Exupéry: “Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível para os olhos”.


Deixei o apartamento naquela tarde carregando em mim lições preciosas que a vida, por vezes, nos traz de forma simples... Aquela janela, compreendi, não dá para a rua... Na verdade, abre-se para mundos.



Carlos Moreira

21 janeiro 2011

"Todo Mundo Quer ir Para o Céu, Mas Ninguém Quer Morrer"



O problema de vocês ocidentais cristãos é que vocês têm milhões de jovens querendo viver... Nós, ao contrário, temos milhões de jovens querendo morrer!”. Osama Bin Laden.

Inicialmente fiquei chocado com a frase, pois, a primeira vista, ela não me fez muito sentido. Ao depois, entretanto, quando minhas categorias político-filosóficas-religiosas entraram em ação, aí sim, compreendi o que o famoso terrorista da rede Al Qaeda quis dizer.

O fundamentalismo religioso não é regalia dos Mulçumanos. Pelo contrário, quem conhece um pouco mais a fundo a Religião Islâmica sabe que a proposta é totalmente diferente do estigma criado, sobretudo depois do 11 de setembro de 2001, com os ataques as Torres do World Trade Center. 

Deixemos os idealismos de lado... Fundamentalismo existe em qualquer religião. Entre os evangélicos, então, o que dizer? Quer mais ortodoxia e aberrações do que temos em nossas “denominações”? Quer mais manipulação e catarse emocional do que em certos “cultos”. Quer mais espoliação e pressão psicológica na pregação de determinadas “doutrinas”? Ora, quem não conhece “o jogo” é que fica de tolo, mas a gente já está nisto há muito tempo para ser ludibriado...

A frase do Osama choca-nos não porque saibamos que há um exército de meninos e meninas sendo treinados para fins perversos, que não consegue discernir o tamanho da maldade da qual eles se tornaram vítimas, pois tiveram suas consciências cauterizadas pela “palavra” e pela subversão da “religião”. O que surpreende é o desejo dessa gente de sacrificar a própria vida em função de algo no qual eles crêem, de imaginar estar sendo usado para cumprir um propósito divino, agradar a “deus”, ser  a "vara de seu juízo" na Terra.

Nietzsche disse certa vez “no ocidente não há ninguém mais disposto a morrer, seja por um deus, pela pátria ou pela família”. De fato, ele estava mais do que certo. Nós somos a sociedade dos que querem apenas ganhar, jamais perder, muito menos a vida! A saudosa banda Blitz, sucesso da década de 1980, dizia em sua canção: “todo mundo quer ir pro céu mais ninguém quer morrer”.

porque para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro... E já não sei o que escolher!... desejo partir e estar com Cristo, o que é muito melhor; contudo, é mais necessário, por causa de vocês, que eu permaneça no corpo... para o seu progresso e alegria na fé". Fp. 1:21-25

Na perspectiva do cristianismo, morrer é um prêmio, uma coroa, a consagração de uma vida, mas morrer está relacionado a nascer, não a extinguir-se, é a partida que nos leva a encontrar o propósito para o qual fomos criados. Quem morre deixa o não-ser para tornar-se ser de fato.

Mas Paulo, que desejava ardentemente morrer, pois queria estar com Jesus, entende que viver tem um propósito: edificar e ensinar a outros, abençoá-los, servi-los, amá-los, doar-se para que eles possam encontrar o significado de existir. Assim é o Evangelho. A vida do discípulo só ganha singularidade quando se desdobra na direção do outro, quando o próximo torna-se mais importante que sua própria vida, pois sacrificar sonhos e planos em prol de alguém é prazer e privilégio.

Bin Laden está recrutando jovens para morrer. É triste, mas fato. E nós? Quantos jovens temos dispostos a morrer pela causa do Reino de Deus? Não estou falando em se amarrar a toneladas de dinamites ou de detonar um carro em frente ao um mercado público. Estou falando em entender que a fé cristã deveria nos levar a buscar da vida mais do que sucesso profissional, dinheiro no bolso, alegria, festa, riso, namoros e curtição. Nossos jovens não têm referências. Bem disse Cazuza: “meus heróis morreram de overdose”.  

Tenho pena dos jovens de hoje... Rebeldes sem causa, mesmo... São, em sua grande maioria, alienados, fúteis, frívolos, superficiais, dessignificados, vazios, insensatos, desafeiçoados, insensíveis, desencontrados de si mesmos. Mas com tristeza, admito: eles tiveram a quem puxar; tiveram excelentes fontes de referência para ser o que são: nós. Eu e você...

Carlos Moreira

11 janeiro 2011

"Um Dia Feliz às Vezes é Muito Raro"


O escritor Jorge Luís Borges nasceu em Buenos Aires e tornou-se um nome reconhecido mundialmente pelos seus escritos e poesias. Dentre seus textos maravilhosos, quero retirar fragmentos de um deles, talvez um dos mais conhecidos, que é “Instantes”. O texto ganha contornos mais fortes quando sabemos que foi escrito em 1986, na Suíça, quando o autor tinha 85 anos e já estava cego há 30.

Se eu pudesse viver novamente a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros. Não tentaria ser perfeito; relaxaria mais. Seria mais tolo do que tenho sido; na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.. Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria mais rios. Iria a lugares onde nunca fui, tomaria mais sorvetes... teria mais problemas reais e menos problemas imaginários. Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto de sua vida... Mas, se pudesse voltar a viver, trataria de ter somente bons momentos. Porque, se não sabes, disso é feita a vida, só de momentos, não percas o agora... Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera, e continuaria assim até o fim do outono. Daria mais voltas na minha rua... e brincaria com mais crianças.. Mas vejam, tenho 85 anos e sei que estou morrendo...”.

Agora desejo trazer-lhe uma pequena porção das Escrituras, Eclesiastes capítulo 12: “Sim, lembre-se dele, antes que se rompa o cordão de prata, ou se quebre a taça de ouro; antes que o cântaro se despedace junto à fonte, a roda se quebre junto ao poço”. Você deve conhecê-lo. Ele trata da velhice, de lembrar de Deus enquanto “ainda se pode achar” como bem disse Isaías, pois virão tempos em que diremos “não tenho neles prazer”. Sua beleza, para mim, está nas profundas e delicadas alegorias que o autor usa para falar da velhice e faz isso sem ser rude e sem, contudo, mascarar absolutamente nada.

Não sei sei você sabe, mas estamos vivendo num país que envelheceu. Segundo dados do IBGE, “O país caminha velozmente rumo a um perfil demográfico cada vez mais envelhecido. Em 2008, para cada grupo de 100 crianças de 0 a 14 anos existem 24,7 idosos de 65 anos ou mais. Em 2050, o quadro muda e para cada 100 crianças de 0 a 14 anos existirão 172, 7 idosos”. Entre nós, todavia, há uma sensível diferença em relação às outras nações: nossos velhos são vistos como um problema, tratados sem humanidade, sem respeito, sem dignidade. Isso é facilmente observado desde a prestação de serviços públicos, dos mais essenciais, aos cuidados e acolhida dos familiares. Para lidar com o “problema”, asilos foram criados, melhor seria dizer, depósitos humanos, casas de “misericórdia” para abrigar aqueles que chegaram a estação outonal da existência. Triste destino terá os quem forem, um dia, parar num deles...

O versículo que citei acima possui diversas interpretações exegéticas. A minha, todavia, é para o hoje, é mais poesia e filosofia do que teologia. Talvez lhe sirva... Há quatro elementos citados que representam as estações da existência. O cordão de prata retrata a idade da adolescência, é o presente de 15 anos, que serve não só para adornar o pescoço da criança, que está virando mulher, mas também para mostrar-nos que neste tempo da vida tudo é beleza, alegria e felicidade. A taça de ouro é a estação das comemorações e conquistas; é o casamento, a formatura, o primeiro emprego, o primeiro carro, a primeira casa, tempo de celebração, de festa, de champagne! O cântaro fala da vida adulta, da rotina de “ir à fonte”, ou seja, da necessidade de subsistência, do trabalho, das responsabilidades, das contas a pagar, das crises relacionais – com o cônjuge, os filhos. Finalmente, a roda de moinho, aquela que, envelhecida, se desfaz junto ao poço. É a mesmice final da existência, a roda que gira, mas não pode mais sair do lugar, que realiza o seu círculo em torno de seu próprio eixo, que cumpre a ingrata rotina, todos os dias, e que parece apenas esperar o fim chegar.

Tenho uma avó com 95 anos de idade. Vejo-a pouco, pois a vida que vivo, ou que não vivo, não me permite visitá-la com freqüência. Contudo, cada vez que a encontro, tenho a sensação de que seus dias estão se acabando, agora, mais rapidamente do que antes. Mas há uma sensação boa quanto estou com ela: é que eu percebo que aquele dia, um dia raro, mesmo que o tempo que permaneça lá seja pouco, transforma-se num dia feliz...

Eu sei que muito em breve estarei velho também. Sinto os sinais no corpo, que não reage mais como antes. Algumas enfermidades próprias da idade atual, 44 anos já chegaram. Preciso de óculos para ler, tomo remédio para pressão, durmo menos, vivo mais tenso, reflexivo, solitário. Por isso, estou aproveitando os anos que ainda me restam para fazer aquilo que Jorge Luís Borges recomendou... Não quero terminar meus dias nem com os seus “recalques”, nem com a melancolia do filósofo do Eclesiastes. Será que conseguirei?...

Carlos Moreira

09 janeiro 2011

Viver não é "Preciso"

“Navegar é preciso, viver não é preciso”. Fernando Pessoa.

A primeira vez que ouvi esta frase foi na música de Caetano Veloso “Os Argonautas”. Segundo a mitologia grega, Argonautas eram tripulantes da nau “Argo”, uma embarcação que partiu numa expedição em busca do vale do ouro que se encontrava na cidade de Cólquida, localizada na fronteira entre a Europa e a Ásia.


Por conta dos riscos inerentes a viagem, um arauto foi enviado por toda a Grécia com o intuito de atrair heróis para a dificílima empreitada. Em alguns meses, 50 deles se apresentaram no porto para embarcar, homens de grande renome e valor.


Se eu fosse interpretar a frase de Pessoa, a partir do mito, poderia afirmar que a coisa mais importante da vida é navegar, desatracar do porto, deixar o cais, lançar-se ao mar, ao sabor do vento, da dança das velas, ser levado pelas marés e correntes. Viver sem navegar não seria viver, mas apenas existir.


Contudo, para interpretar a frase – “viver não é preciso” – que está na poesia, é mister entender que a palavra “preciso” não foi usada no sentido de algo necessário, mas relacionada à “precisão”, ou seja, Pessoa nos ensina que navegar é algo seguro, regido por cartas náuticas, pelas estrelas, pelo aviso dos faróis, e que viver, ao contrário, é algo imprevisível, impreciso, pois a vida não se sujeita a cálculos, nem a rotas, nem a mapas.


Os anos me ensinaram, como um velho “marujo”, que existem duas formas de se viver a vida cristã. A primeira é achando que somos “heróis gregos” arregimentados pelo “capitão da nau” para empreender uma expedição pelos mares revoltos da existência em busca de receber, ao final, a “coroa de ouro”.


Tenho encontrado pessoas que acham que seguir a Cristo é algo como fazer parte de um exército, com regras rígidas, disciplina apurada, rigores acéticos, estéticos, restrições e proibições de toda sorte. Este tipo de cristianismo acaba desenvolvendo uma espiritualidade doentia, pois coloca sobre os ombros um fardo que não se pode carregar, estabelece um padrão de comportamento inalcançável, leva-nos a tentar existencializar as filosofias dos epicureus e dos estóicos que buscavam a ataraxia – a morte do “eu”. Ora, isto não é o Evangelho, mas uma distorção profunda do que ensinou Jesus! Surpreso?! Não me diga...


Por outro lado, a uma outra alternativa de espiritualidade que produz um viver mais livre, solto, pois leva-me a abraçar o “fardo” de Cristo, que é leve e suave. Quando reconheço a imprecisão da vida, que as circunstâncias não são encadeamentos lógicos, sistêmicos, leis e regras imutáveis, que Deus não tem como objetivo último me adestrar, ou domesticar, robotizando-me, serializando-me, mas que a Sua graça me basta, pois Seu poder se aperfeiçoa, justamente, nas minhas falhas, fraquezas e inconcretudes, passo, então, a viver livre do fardo da religião, que asfixia e produz simulacros existenciais.


“Quando sou fraco então é que sou forte”, pois na minha fraqueza reconheço a ação de Deus e constato que o que há em mim de bom não é obra de um programa de desenvolvimento espiritual, meritório, baseado em obras, mas fruto do Espírito Santo gerado em meu ser unicamente pela fé. E assim tomo consciência de que meu “homem interior” está sendo renovado pela Palavra de Cristo, a qual produz uma nova consciência, um “olhar” diferente sobre os matizes da vida e as idiossincrasias do mundo. É esta nova forma de pensar e agir que me permitirá discernir o que é bom e o que faz o bem, daquilo que entorpece o ser, destrói a alma, petrifica o coração, insensibiliza-me ao outro, torna-me um ser egocêntrico.


Eu não sei por quais “oceanos” você tem navegado. Nem sei como é o “timoneiro” do seu barco. Mas reconheço que em nosso meio temos estas duas opções de experimentação religiosa. Que cada um, segundo sua liberdade e consciência, faça suas escolhas. O que a vida de “marujo” tem me ensinado, nestes 30 anos navegando pelos “oceanos” da vida, como dizia a velha canção, é que “com Cristo no barco tudo vai muito bem, e passa o temporal”.

Carlos Moreira

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