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14 agosto 2009

Aquele Abraço!


Esta semana encontrei com um “irmão” que já há algum tempo não via... Conversamos rapidamente na rua. Perguntei sobre a família, o trabalho e a igreja... Aí, do meio do nada, ele me disse: “você soube o que aconteceu com o Pr. Fulano?”. E começou a fazer uma narrativa triste sobre o “desterro público” do dito cujo, totalmente desencontrada, presunçosa, preconceituosa, recoberta por julgamentos pré-concebidos, maldade, acidez, que, para mim, revelaram nada mais que uma enorme miséria interior e pobreza de espírito humano.

De fato, o citado fato é público e notório, mas o “desastre” iminente do “convalescente” é única e exclusivamente aparente, pois Deus não julga o homem por suas misérias exteriores, mas a partir das realidades existentes no seu coração e, sempre que ele deseja, o refaz em meio ao monturo de cinzas em que se encontra. Sim, basta um espírito contrito e um coração quebrantado para que se crie o “ambiente espiritual” capaz de gerar a centelha de consciência que produz o arrependimento que constrói o ser, desdobra-se numa fé conseqüente, cheia de gratidão reverente e boas obras.

Despedi-me do “amigo” apressadamente – a conversa me fazia mal – e saí pensativo pelo caminho... Cogitei: “é assim mesmo”, “a igreja mata os seus feridos”". Fiquei com medo! Imaginei que qualquer um, mais dias, menos dias, pode ser surpreendido na vida, experimentar uma tragédia existencial, e aí ser alvo de julgamentos precipitados, comentários maldosos, interpretações equivocadas... Pensei nas Escrituras: “ninguém aceite denúncia contra um presbítero, senão exclusivamente respaldada pelo depoimento de duas ou três testemunhas”.

Que inocência a minha... Admito tratar-se de uma tolice, pois a grande maioria dos “crentes” não conhece esse texto, os que pensam conhecer, não o seguem, e os que seguem, não percebem o “espírito” daquilo que ele propõe.

Se eu pudesse reescrever o capítulo 11 do livro de Hebreus, que fala dos Heróis da Fé, talvez produzisse um texto que certamente escandalizaria a muitos. É que, surpreendentemente, os “meus heróis” me ensinaram mais nos seus “fracassos”, do que nas suas “conquistas”. São homens e mulheres maravilhosos, que aprendi a amar e admirar no caminho da caminhada, pois eles impregnaram minha alma de ternura e me alimentaram o coração de ânimo para continuar a jornada. Alguns são muito conhecidos, mentores de longas datas, outros, todavia, são simples anônimos. Todos, entretanto, são marcantes!

Mas, para falar de herói, ou melhor, do que entendo ser um Herói da Fé, faz-se necessário estabelecer uma diferenciação imprescindível, pois, nos nossos dias, tal figura sofreu total dessignificação pela relativização de valores que são inegociáveis em se tratando da construção de um caminhar com Deus na Terra.

O termo herói, para a grande maioria dos “crentes”, e de muitos “colegas” “pastores”, está associado a uma caricatura estereotipada e medíocre de “ministro” “bem sucedido” na “igreja”, e isso designado a partir da análise simplista de elementos meramente aritméticos e cartesianos em seus míseros “ministérios”, e não por uma espiritualidade centrada, baseada em valores e conteúdos.

Gosto do Jorge Versilo, de sua música e poesia. Numas de suas canções, que fala do Homem Aranha, herói dos quadrinhos e do cinema, ele diz: “hoje o herói agüenta o peso das compras do mês. No telhado, ajeitando a antena da tevê. Acordado a noite inteira pra ninar bebê.”. A frase é intrigante porque desmantela aquele modelo de herói que, habitualmente, as pessoas estão acostumadas a ver, ou seja, um ser fantástico, que não sofre, não perde, não sente medo, dor nem contradições. Esse outro não! Esse é mais humano, palatável, real, comum, mais próximo de mim e de você.

Pois bem, é justamente assim que são para mim os Heróis da Fé do meu tempo. Gente comum, gente com história de vida, consciente, coerente e consequênte. Gente capaz de errar e concertar, “porque o cair é do homem, e o levantar é de Deus”. Cai-o-Paulo, cai-o-Saulo, Caio Fábio, caio-Eu, e quem não cai? Caímos todos nós! E quem não cair em si e de si mesmo não se levantará jamais para Deus, e nunca experimentará o significado que há no abraço do Pai que espera ansioso o retorno do filho arrependido, pois diz o texto que isto só se tornou possível quando ele, “caindo em si...”, teve a coragem de fazer o caminho de volta. Foi queda para dentro, para cima, mas nunca para baixo, para o nada, ou para o fim.

Herói para mim não é o cara que criou uma denominação com milhares de membros, e que têm milhares de processos em tribunais de todo País por causa de sua máquina de enganar pessoas e lavar dinheiro. Herói para mim não é o sujeito que tem um programa na TV, que passa mais tempo pedindo grana de “gente inocente”, e de outros que se deixam manipular, do que falando a verdade das Escrituras. Herói para mim não é o ministro que pendurou na parede seus diplomas universitários, seu mestrado ou doutorado em “divindade”, que qualquer menino bom de EBD pode tirar numa faculdade destas por aí.

Também não é aquele que se assentou no “pináculo do templo” de uma igreja de classe média, recebe um bom salário e ótimos benefícios, mas não tem a independência própria dos profetas para subir ao púlpito e dizer o que o povo precisa ouvir, e não o que ele quer, pois isto geraria reprimendas imediatas dos líderes da religião de sua denominação.

Herói para mim não são os que enchem os estádios e casas de espetáculos para fazer “shows gospel”, produzidos a partir do arquétipo dos espetáculos dos artistas seculares, fazendo malabarismos ridículos, onde o gelo seco, as luzes, os cenários, e todo tipo de artefato periférico e pirotécnico tenta produzir o que só a singeleza da fé que se associa a harmonia filha da música que procede do coração é capaz de realizar, ou seja, adoração. Catarse de uma meninada boba, estupefata pelo impacto visual da massa manipulada, qualquer “mané” pode realizar. Culto a Deus é outra coisa, não é “zoação”, para ter propósito e significados precisa ter comunhão, oração e partir do pão.

Quer saber o que é um Herói para mim? Herói é o pastor do interior, sem ajuda e sem apoio, sem modelos nem estratégias, que ainda insiste em todo domingo sair às ruas, mesmo que não seja da forma mais adequada ao nosso tempo e ao nosso mundo, para anunciar a salvação.

Heróis são os muitos pastores que sobrevivem com salários indignos, com suas famílias privadas de tudo, mas que ainda sonham em ver o Reino entre os homens.

Heróis são os que, de alguma forma “caíram”, e foram massacrados pela hipocrisia de uma “igreja” perversa e cega, e por líderes invejosos, que tratam gente como despojo, mas ainda continuam pregando o que sempre pregaram.

Heróis são os sobreviventes de “escândalos”, que foram expurgados de suas comunidades, humilhados em suas cidades, mas que ainda sonham em poder subir ao púlpito para expor aos perdidos o amor de Deus.

Heróis são os que vão aos seminários e institutos, e largam, às vezes, uma história inteira de vida, para poder dizer: “eis-me aqui, envia-me a mim”.

Diante de “gente” sórdida, que tem prazer em compartilhar a céu aberto a miséria de seus líderes, que quebra a cana esmagada e apaga a torcida que fumega, lembro o que escreveu o apóstolo Paulo: “Porque me parece que Deus nos colocou a nós, os apóstolos, em último lugar, como condenados à morte. Viemos a ser um espetáculo para o mundo, tanto diante de anjos como de homens. Nós somos loucos por causa de Cristo, mas vocês são sensatos em Cristo! Nós somos fracos, mas vocês são fortes! Vocês são respeitados, mas nós somos desprezados! Até agora estamos passando fome, sede e necessidade de roupas, estamos sendo tratados brutalmente, não temos residência certa e trabalhamos arduamente com nossas próprias mãos. Quando somos amaldiçoados, abençoamos; quando perseguidos, suportamos; quando caluniados, respondemos amavelmente. Até agora nos tornamos a escória da terra, o lixo do mundo”.

Mas para vocês, benditos do Senhor, Heróis da Fé, eu “tiro o meu chapéu”! Sim, eu os bendigo pelas noites ao pé da cama, orando sem cessar por gente como eu, que não sou digno de lhes desatar os laços do sapato. Obrigado pelas incontáveis horas debruçados sobre as Escrituras para trazer-nos palavras do coração do Pai. Obrigado pelos tantos momentos gastos em aconselhamentos, ouvindo as “dores do mundo”, sempre com olhar solidário e espírito generoso.

Obrigado pelos sacrifícios que fizeram em termos de família, por terem deixado muitas vezes filhos, mulher ou marido, para atender, não raro anônimos, que precisavam desesperadamente de um ombro para chorar.

Obrigado pelas viagens que fizeram, cansados, hospedados em hotéis, em casa de desconhecidos, longe de suas camas e do aconchego de seus cônjuges, para falar para gente que precisava de direção na vida. Obrigado por tudo!

Agradeço por que sei que quase ninguém os agradecerá! Agradeço porque sei que quando você for alvo de fofocas e destratos, tudo isto será relevado e considerado como coisa alguma, pois você será apenas um ser sem história, um alvo para as flechas dos famintos pela "justiça".

Finalmente, quero aqui desejar o meu abraço a todos vocês, meus Heróis, gente que me fez aprender a ser gente, que é muito mais e muito melhor do que ser “crente”.

Para você, Caio Fábio, amigo que nunca conheci, aquele abraço! A você Ricardo Gondim, aquele abraço! Ariovaldo Ramos, aquele abraço! A vocês, sacerdotes da música, Gerson Ortega, João Alexandre, Asaph Borba e Adhemar de Campos, aquele abraço! Aos meus bispos e amigos, Leonides Menezes e William Mikler, aquele abraço! Ao Paulo Garcia, aquele abraço! Karla Patriota, aquele abraço! Ao “paizão” Pedro Paulo Albuquerque e ao Mário Fagundes, aquele abraço! Ao amigo de todas as horas, Dinamérico Wanderley, aquele abraço! Carlos Alberto (Betão) – in memoriam – aquele abraço! Ao querido Aloísio Figueiredo, aquele abraço! Martorelli Dantas, precioso aos olhos do Senhor, aquele abraço!

E a você que eu não conheço, nunca vi, não sei quem é, nem onde está, mas que é um destes Heróis anônimos da fé, homem ou mulher, na capital ou no interior, seja em qual denominação for, que ama a Jesus e quer pregar o Evangelho, aquele abraço, pois, por sua causa, o “Reino de Deus continua lindo...”.

Querido amigo e companheiro da jornada, quero que você saiba que os seus acertos e erros, dramas e dores, o que aprendi e percebi em você, seja pelo conforto, seja pelo confronto, tem me proporcionado ser um ser humano melhor, um discípulo mais fiel, um pregador mais consciente e um pastor mais amoroso.

Obrigado por você existir, ser quem é, por sua família e ministério, pelo que já fez em prol da Igreja, e por tudo aquilo que ainda fará, pois, certamente, aquEle que é fiel em tudo, não esquecerá de retribuir-lhe em amor e graça toda a devoção com a qual você O tem servido todos estes anos.

A você, Herói da Fé do mundo moderno, Herói da Igreja do século XXI, minha gratidão por sua vida e minha reverência por sua alma!

Sola Gratia !

Carlos Moreira

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