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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.

19 janeiro 2011

Determinismo ou Possibilismo?


Uma pergunta que todo mundo faz quando acontecem tragédias como a mais recente que provocou tanto desespero na região serrana do Rio de Janeiro é se esses acontecimentos não poderiam ser evitados. A essa pergunta são dadas poucas respostas plausíveis e convincentes.


É bem verdade que ninguém pode evitar que um grande terremoto aconteça, que um tsunami venha a varrer as cidades litorâneas de algum continente ou que a chuva torrencial provoque desmoronamentos. Mesmo o mais eficaz monitoramento de possíveis catástrofes naturais não evita inteiramente os desastres, embora possa atenuá-los.


Por outro lado, sabemos que um grande número de mortes resultantes desses acidentes da natureza poderia ser evitado caso a ambição política, o descaso para com a vida de milhares de pessoas e a obstinação dos homens não fosse tão grande. As tragédias, em geral, são ajudadas, paradoxalmente, pelos próprios homens que são as principais vítimas desses acontecimentos.


Se não fosse o crescimento desordenado das cidades, as propinas recebidas pelos fiscais das prefeituras municipais para fecharem os olhos à ilegalidade e os políticos doando terrenos em áreas de risco com fins eleitoreiros, provavelmente os números dessas hecatombes não seriam tão astronômicos; e os números não mentem jamais!


Voltando, porém, á pergunta do início do texto (se as tragédias poderiam ter sido evitadas ou não) percebo que por trás desta indagação subjaz um velho dilema humano; refiro-me ao embate entre determinismo e possibilismo. Há uma força maior desencadeando os acontecimentos trágicos diante da qual os homens são impotentes ou o próprio ser humano é responsável por aquilo que lhe acontece?

As opiniões deterministas e possibilistas permearam algumas das discussões mais antigas da humanidade. Determinismo e possibilismo travam uma luta feroz que começou no mundo antigo, passou pela Idade Média, avançou através da modernidade e continua acirrando os ânimos no mundo contemporâneo.



No mundo medieval Agostinho e Tomás de Aquino foram respectivamente representantes do determinismo e do possibilismo. No século XVI e XVII, por exemplo, homens como Calvino e Armínio opuseram as suas opiniões uns aos outros ao discutirem questões ligadas à salvação da alma dentro da perspectiva cristã.


João Calvino, enfatizando mais a soberania de Deus do que a liberdade humana, afirmava que a divindade havia escolhido os homens destinados á salvação e à danação eterna antes mesmo de terem nascido ou praticado qualquer tipo de pecado (predestinação). Já Armínio, inclinado mais ao livre arbítrio, dizia que o homem contribuía com a sua salvação ao responder positivamente ao chamado do evangelho.


Passando da teologia à geografia, no século XIX geógrafos alemães e franceses também se dividiram entre deterministas e possibilistas. Os primeiros advogavam que era o meio que determinava o homem, os segundos diziam que, ao contrário do que pensavam os primeiros, é o homem que determina o meio através das mudanças que nele produz.


Nos dias atuais o debate sobre doenças como o câncer, o diabetes e até discussões de gênero acerca do homossexualismo trouxeram de novo à tona os debates entre deterministas e possibilistas. Afinal de contas, somos livres ou escravos de um “destino”? A liberdade humana evita ou contribui para as catástrofes? Somos predestinados ou escrevemos com as nossas ações a nossa própria história?


Eu confesso que não tenho uma resposta definitiva para estas perguntas, mas desconfio que a resposta mais adequada a estes questionamentos se encontra no meio do caminho, em algum ponto intermediário entre o determinismo e o possibilismo. “A virtude está no meio”, disse sabiamente Aristóteles.


Acredito que naquilo que tange á liberdade humana, o homem se encontra, para usar uma linguagem jurídica criminal, sob uma “liberdade condicional”. Somos livres, mas só até certo ponto. Desse ponto em diante talvez sejamos guiados por alguma força cega e avassaladora que nos arrasta como fez a lama dos morros com as casas da região serrana ao descer encosta abaixo.

O que é esta força? Talvez aquilo que chamamos todos os dias, por não ter uma palavra mais adequada, de DEUS.

André Pessoa via Século XXI

16 janeiro 2011

Celulites na Noiva de Cristo: os efeitos indesejáveis do modelo celular


Recebi recentemente um e-mail de alguém descontente com o modelo celular implantado em sua igreja. Por achar pertinentes as questões por ele levantadas, resolvi usá-lo em um artigo sobre o tema. Ei-lo abaixo:
Há algum tempo tenho andado triste com algumas coisas que têm acontecido em minha congregação. O trabalho lá é celular e, como tal, a meta é que sejam formados e enviados mais e mais líderes de células. Porém, o meu entendimento é de que alguém que lidera uma célula é, na prática, um pastor, pois tem que cuidar, de e discipular pessoas - e isso, no meu entendimento, é um dom do Espírito. Tenho a certeza absoluta de que não tenho chamado para a vocação pastoral, por isso nunca me prontifiquei e nem quero ocupar tal cargo na igreja, porque o que gosto de fazer é ensinar. Sendo assim, por não me prontificar a fazer o que a liderança considera aquilo que todos têm que fazer, fui posto de lado (acho que sou considerado algum tipo de rebelde, pois por muitas vezes contestei esse ponto de vista com a liderança, o que percebo deixar meu pastor aborrecido). Até aí tudo bem, pois não sou obrigado a fazer aquilo que não me sinto bem em realizar. A gota d'água ocorreu ontem, quando fui questionar meu pastor a respeito de uma decisão tomada pela liderança da igreja: a partir deste ano, não mais teremos os cultos matutinos, pois antes havia a escola bíblica seguida do culto. Esta escola bíblica (chamada de ESCOLA DE DISCÍPULOS) consiste na ministração de três apostilas durante todo o ano, as quais já estudei. Espera-se que, nos anos subsequentes, haja novos estudos que abordem novos pontos para nossa edificação espiritual. Mas, nos anos seguintes são ministradas as mesmas apostilas, com os mesmos estudos. Então comuniquei a ele que quero e preciso me alimentar mais da Palavra (nos cultos da manhã, pelo menos, eram pregadas mensagens de edificação para igreja; agora nem mais isso) e que vou passar a frequentar a EBD de alguma congregação de minha cidade, e a sua resposta foi que eu preciso entrar na "visão", porém sou livre para fazer o que eu quiser e para frequentar a EBD que eu bem entender. Hoje em dia, o argumento mais utilizado para desestimular aquele que deseja aprofundar-se no estudo da Palavra é o de que "a letra mata". Meu irmão, desculpe-me a expressão, mas estou de saco cheio disso, desestimulado até em continuar ali. Será que é algum crime o querer conhecer as Escrituras, o buscar o entendimento na Palavra daquilo que o Senhor Deus quer para a minha vida? Será que sou algum rebelde em não concordar com alguns pontos dessa "visão que Deus deu para o ministério"? Amado, desculpe o desabafo, mas preciso de uma palavra.

Acredito que a formação de pequenos grupos pode ser salutar para toda a congregação. Apesar da Bíblia referir-se a cada um de nós como membros do Corpo de Cristo, e não como células. E no caso, chama-se “célula” o pequeno grupo, e não o indivíduo em si. Ora, se o grupo é uma célula, o indivíduo é o que? Uma molécula? rs

Bricandeiras à parte, tenho visto o grande estrago que tem sido feito em muitas igrejas por conta de uma aplicação errônea dessa ‘visão’. Se o objetivo fosse tão somente de comunhão, ou mesmo, evangelístico, tudo bem. O problema é que se coloca sobre cada membro da célula a expectativa de tornar-se também líder de seu próprio grupo. E como você mesmo disse, nem todos são chamados para isso. Tal expectativa acaba se tornando numa opressão.

Será que Maria Madalena, que seguia de perto o Mestre, tornou-se líder de doze? Será que cada um dos apóstolos teve que formar seu próprio colégio apostólico com outros doze? Onde está escrito que Paulo liderava um grupo de doze?

Tenho percebido pelo menos dois efeitos colaterais em igrejas que adotaram tal estratégia de crescimento: a produção de células cancerígenas, e de celulites e estrias.

Deixe-me explicar cada um desses efeitos:

Células cangerígenas – Acredito que devemos abandonar a analogia celular e voltar à analogia bíblica dos membros do corpo. Por que digo isso? Simples. Porque as células são sempre uniformes. Se reproduzem uniformemente. E quando ocorre alguma anomalia, é porque produziram células cancerígenas.  O câncer é uma doença caracterizada pela produção de células que crescem e se dividem sem respeitar os limites normais, invadem e destroem tecidos adjacentes, e podem se espalhar para lugares distantes no corpo, através de um processo chamado metástase. Imagine o estrago que uma “célula cancerígena” pode produzir no corpo de Cristo! Paulo chama a atenção de Timóteo para o fato de que havia se introduzido na igreja pessoas cuja palavra “corrói como câncer” (2 Tm.2:17). O problema se agrava quando tais pessoas são elevadas ao posto de liderança. O modelo celular insiste em que cada discípulo deve aspirar à liderança, criando sua própria célula. Por conta disso, muitas divisões tem ocorrido em igrejas antes sadias. Se em vez de adotarmos a analogia de células, voltarmos à analogia bíblica de membros, perceberemos que nem todos são vocacionados para servirem como líderes. Basta conferir 1 Coríntios 12:12-31. Uns são chamados para serem ‘mãos’, outros ‘pés’, outros ‘boca’, e assim por diante. Porém, todos têm valor no contexto do corpo, e devem situar-se numa relação de interdependência. Imagine se todos fossem ‘olhos’, quem os socorreria na hora em que fossem invadidos por um cisco?

Células canceríginas são autofágicas, isto é, devoram-se umas as outras. Isso já acontecia entre os crentes primitivos. Como disse o escritor de Eclesiastes, não há nada novo debaixo do sol. Paulo repreende os gálatas por estaremos devorando-se uns aos outros (Gl.5:15). Um modelo que insiste com a ideia de que todos devem ser líderes, acaba por estimular a competitividade entre seus membros.

E o que é que causa o aparecimento de células cancerígenas? Entre vários fatores, quero destacar o consumo de comida enlatada. Alguns, no afã de alimentarem bem seus ‘discípulos’, saem em busca de novidades, e encontra nas prateleiras dos mercados religiosos todo tipo de teologia enlatada, ora ‘made in USA’, ora ‘made in Colombia’, ou ‘Coréia’, ou ‘Europa’, e assim por diante. Ovelhas preferem e precisam de capim fresco, tirado direto do solo, sem conservantes, nem qualquer outra química.

Celulite e estrias – Ora, o apóstolo Paulo diz que “Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela, para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra, a fim de apresentá-la a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível” (Ef.5:25b-27). Deixe-me aproveitar que Paulo usou a expressão “coisa semelhante”, para acrescentar aqui celulites eestrias.

Imagine a noiva de Cristo cheia de celulite e estrias! Pois o modelo celular, da maneira como tem sido implementado nas igrejas, tem produzido exatamente isso.

O fato é que a igreja, em vez de crescer, engordou, tornou-se obesa, e o pior é que, pelo jeito, trata-se de obesidade mórbida.

A celulite é caracterizada principalmente pelo aparecimento de ondulações da pele, dando a esta o aspecto de casca de laranja. Entre as causas da celulite, destacamos a alimentação e a vida sedentária. Troca-se a boa comida caseira pelos fastfoods. Abandona-se os cultos na igreja, limitando-se a frequentar as reuniões celulares. Os pequenos grupos começam a ser visto como um fim em si mesmos, produzindo um tipo de sedentarismo espiritual.

Já as estrias caracterizam-se por um rompimento das fibras elásticas que sustentam a camada intermediária da pele, formada por colágeno e elastina (responsáveis pela sua elasticidade e tonicidade). Podem surgir de diversas formas, dentre elas: o efeito sanfona e o crescimento rápido.

Talvez o que tem contribuído para que igrejas adotem este modelo seja justamente a promessa de crescimento rápido. Mas o que ele realmente produz é inchaço, e não crescimento (1 Co.4:19; 5:2). Ora, quando um membro incha, é sinal de que algo está errado no organismo. Um crescimento saudável demanda tempo, empenho, perseverança. Não há fórmulas mágicas. Basta um alimento saudável, extraído da boa e fiel Palavra de Deus, e um ritmo de vida antisendentário, em que os membros sejam incentivados a darem testemunho de sua transformação lá fora e a estenderem as mãos aos necessitados deste mundo. Daí, é só esperar. Um planta, outro rega, mas é o próprio Deus quem Se responsabiliza em promovero o crescimento (1 Co.3:6).

Hermes Fernandes via Hermes Fernandes

15 janeiro 2011

"Quando não se Tem Nada a Perder Deve-se Arriscar Tudo"





A tragédia que desabou sobre as cidades serranas do Rio de Janeiro durante as chuvas desta semana é sem precedentes, mas tem antecedentes. Segundo um dos depoimentos que assisti pela TV, cada vez que chove nesta região duas coisas são certas e estão previstas: deslizamentos e velórios.

Quando a desgraça acontece, todo mundo se sensibiliza. As emissoras de televisão transmitem o “show” ao vivo e a cores; os jornais vociferam o descaso das autoridades; as autoridades atuais culpam seus antecessores por não terem feito nada; as rádios fazem entrevistas com os sobreviventes que nos mostram histórias das mais dramáticas possíveis.

Contudo, creia-me, isso não é motivo de alarde. Não se preocupe tanto. Sei que, talvez, você tenha visto cenas muito fortes, mas, saiba, elas desaparecerão de sua memória em dois ou três dias. Sim, elas sumirão assim como sumiram as imagens inacreditáveis de Angra dos Reis, de Niterói, das cidades do nordeste, todas devastadas por enchentes, arrasadas, com   milhares de mortos, cidades varridas do mapa por sinais que a natureza nos dá, cada vez mais freqüentes, de que a Terra agoniza.  

É duro de admitir, mas nos tornamos confortavelmente insensíveis. A dor do outro não nos diz nada. Quando muito, citando Sartre, o outro é o inferno.  Em poucos dias as TV’s, as Rádios, os Jornais, a Internet, precisarão de novos escândalos, de novas tragédias, de novas revelações, de novas notícias. É assim que a “máquina” gira, é assim que as coisas funcionam, é “assim que caminha a humanidade”... Tudo, tudo mesmo será esquecido...

Você acha que algo será feito? Claro que não! Alguns órgãos farão visitas, a presidente vai sobrevoar as cidades, alguns políticos vão aproveitar a desgraça para se projetarem, os bombeiros, a polícia, as igrejas, outras entidades de auxílio, a cruz vermelha, e muitos, muitos anônimos, como sempre, vão ajudar, vão se doar, vão se arriscar. Mas, no próximo ano, tenha certeza, veremos tudo de novo. Só não temos ainda como prever em qual região e em quais cidades a desgraça acontecerá. Talvez, nos mesmos lugares novamente.

No vídeo postado acima, assisti a uma das cenas mais dramáticas de toda a minha vida. Ela me lembra a frase de Laya: “quando não se tem o que perder deve-se arriscar tudo”. A mulher está ilhada numa casa semi destruída. Ali dentro tem uma história, tem a luta de uma vida, os móveis, os eletrodomésticos, documentos, fotos, poucos bens comprados com sacrifício. Mas a casa está submersa, a maior parte destas coisas já foi levada pela correnteza. O volume de água e a sua força faz com que a mulher suba até chegar ao telhado. Agora já não há mais o que fazer,  não tem mais para onde ir.

A câmera mostra a dura realidade. O que lhe sobrou foram apenas duas coisas: a roupa do corpo e o cachorro que ela segura como um filho. Naquele momento, o melhor amigo do cão era o “homem”. Ela o segura como quem segura o único e último bem que lhe restou. Parece determinada a salvá-lo a qualquer custo.

Num ato extremado, num último recurso para livrá-la da morte, vizinhos jogam uma corda para tentar puxá-la para o prédio ao lado. É uma tarefa arriscada. As chances do resgate dar certo são poucas, pois a correnteza é muito forte, o prédio é alto, apenas dois homens estão lá em cima e uma mulher de idade não tem tanta resistência para suportar isto.

A corda é lançada e ela a segura. Ao fundo ouvem-se gritos de desespero. A mulher se joga na correnteza agarrada ao cachorro e tenta salvar-se e salvar o seu bichinho. Mas a força da água impõe-lhe a dura tarefa de escolher entre a sua vida e a vida do animal. Ela agarra a corda com as duas mãos e solta o cachorro que é levado pelo turbilhão descontrolado.

Puxada de forma milagrosa até o teto do prédio, amparada heroicamente por gente que estava no lugar certo na hora certa, ela olha pra trás e não vê mais nada. O “amigo” que tentou salvar a todo custo desaparecera para sempre. Eu tenho um cachorrinho, posso imaginar a sua dor pela sua perda. O que não poderei jamais imaginar é a dor gerada pelas outras tantas perdas deste dia que, para ela, será inesquecível: o dia em que sua vida esteve presa apenas por uma corda.

Eu não sei o nome daquela mulher. Não sei o nome dos homens que a puxaram. Não sei o nome do pequeno cachorrinho. Mas minha alma se entristeceu profundamente pela sua dor e meu coração se compungiu pelo seu sofrimento. Sua coragem em se lançar nas águas para tentar salvar-se me marcarão pelo resto da vida. Daqui de onde estou, posso apenas orar para que ela encontre forças para continuar a viver e reconstruir o que sobrou de sua existência.

A esta mulher, símbolo do desrespeito pela vida, símbolo do descaso das autoridades deste país pelo povo que vive a margem de tudo, símbolo da resistência e da vontade inexplicável de sobreviver, símbolo de dignidade, de humanidade, meus sentimentos, meu respeito e minha reverência pela sua vida, pela sua alma e pela sua dor.

Carlos Moreira 

12 janeiro 2011

É Melhor ser Cauda de Tubarão do que Cabeça de Bagre




Augusto Comte foi o filósofo a quem se atribui a criação do Positivismo, corrente filosófica do século XIX que surgiu com o desenvolvimento do iluminismo e das mudanças produzidas pelo fim da Idade Média. O Positivismo propõe uma existência construí-da sobre valores absolutamente humanos, o que o afasta tanto da metafísica quanto da teologia.

Mas foi através de seu livro “Sistema de Política Positiva” que Comte, para mim, deu seu “salto” mais ousado: a proposição de uma nova religião – a Religião da Humanidade. Para ele, as religiões do passado eram apenas formas primitivas, uma vez que se baseavam em mitos, dogmas e na metafísica. Na Religião Positiva, os “deuses” e o sobrenatural eram dispensáveis, pois a verdadeira busca por sentindo se dá na unidade moral humana, no ideal de sua regeneração social.

Sendo assim, o Positivismo se tornou uma refutação ao pensamento cristão, pois ele retirou Deus da cena humana e colocou a ciência em seu lugar. Pois bem, em nosso tempo, vimos algo semelhante acontecer com a chamada Confissão Positiva, um movimento que nasceu no seio das Igrejas pentecostais e neopentecostais e que, pasmem, acabou por retirar Deus da existência, e colocou no lugar dele o homem. A partir de então, o que temos assistido é o Criador tentando servir a criatura, e não o contrário.

A Confissão Positiva, surgida na década de 1980, teve como precursor o pastor Essek William Kenyon. Influenciado na universidade pelo pensamento de Fineias Parkhust Quimby, um curandeiro e hipnotizador, Kenyon construiu a base para a sua “nova teologia” usando técnicas do poder do pensamento positivo, doutrinas das seitas da Ciência da Mente e a metafísica do Novo Pensamento.


É fato que todo vento de doutrina se espalha com excepcional velocidade no meio evangélico. Com a Confissão Positiva não foi diferente, sobretudo quando ela ganhou adeptos de “peso” internacional como Kenneth Hagin, Morris Cerullo e Benny Hinn.

Foi esse “esquadrão” que, inicialmente, se encarregou de espalhar a “nova doutrina” mundo afora. Dessa forma, ela assumiu diferentes nuances, passando a ser reconhecida também como Teologia da Prosperidade, Evangelho da Saúde, Palavra da Fé ou Movimento da Fé.

No Brasil, sua aparição se deu no final do século XX. A Confissão Positiva, ou como a chamamos no Brasil, a Teologia da Prosperidade, baseia-se numa hermenêutica fraudulenta amparada por sofríveis artifícios manipulatórios. Ela fomentou na consciência de toda uma geração o sofisma de que o crente deve reivindicar seus supostos direitos para adquirir tudo o que desejar, pois Deus está obrigado a cumprir aquilo que, inexoravelmente, tenha prometido em Sua Palavra. O resultado de tudo isso não poderia ser outro: o surgimento de um sem-número de aberrações doutrinárias, além de perversas práticas eclesiásticas.

As bases do movimento passam por um sincretismo capaz de misturar o cristianismo ao espiritismo, judaísmo, às religiões de mistérios, cultos afros e até ao gnosticismo. Seus líderes rapidamente transformaram pastores em verdadeiros feiticeiros do sagrado, intermediários exclusivos do trânsito entre o céu e a terra, profetas do apocalipse, mestres de revelações inusitadas para os últimos dias.

Infelizmente, a Teologia da Prosperidade alcançou em pouco espaço de tempo milhões de adeptos, quase sempre gente desesperada em busca de solução para seus problemas. Além do mais, as ofertas das igrejas que abraçaram o movimento tornaram-se irrecusáveis. No “cardápio” tem cura de enfermidades e saúde abundante, prosperidade financeira, restauração de casamentos destruídos, libertação de encostos, dentre outras benesses que, por fim, arrastaram nesse tsunami de heresias incautos e despreparados, os quais, espoliados de todas as formas, passam a engrossar cada vez mais as fileiras das denominações supracitadas.

A Confissão Positiva, como aconteceu com o Positivismo de Comte, criou uma espécie de nova religião, onde Deus tornou-se um ser escravizado a cumprir liturgias performáticas preestabelecidas. Fiéis de outras denominações passaram a ser considerados crentes de segunda categoria, gente que estava fora da “bênção”, do “mover”.

Nesse novo cenário, as mais variadas práticas foram surgindo, todas supostamente respaldadas nas Escrituras. Vieram os cultos de catarse emocional, os seminários de cura interior, as correntes para libertação de maldições hereditárias, os processos de mapeamento de “potestades espirituais”, coisas tão bizarras e absurdas que sou capaz de apostar que até o diabo tem dificuldade em acreditar.

Lembro bem de uma das frases usadas pelo movimento que bem simboliza o nível de consciência e fé dessas pessoas: “Deus te pôs como cabeça e não como cauda”. Era uma espécie de mantra positivista, ufanista, usado para fazer a cabeça dos discípulos e criar neles um embuste mental capaz de aliená-los e afastá-los de toda a verdade do Evangelho.

Uma das curiosidades mais intrigantes da “nova religião” é o fato de suas mensagens retornarem sempre aos heróis da fé do Velho Testamento, pois eles servem de modelo para demonstrar a bênção, a prosperidade, a vitória e a saúde. Em suas homilias, pregadores exaltam personagens como Moisés, Davi, Abraão e Salomão, todos bem-sucedidos e divinamente abençoados, como referencial daquilo que Deus deseja de Seus filhos.

O que eu gostaria, todavia, era de vê-los pregar sobre a simplicidade de Jesus, que não tinha onde reclinar a cabeça, que foi humilhado, difamado, perseguido e, por fim, morto.

Gostaria de vê-los pregar sobre as profundas dores e perdas da vida de Paulo, que dizia ter aprendido a viver na escassez e estar feliz por ter o que comer e com o que se vestir. Quem sabe, ainda, sobre o apóstolo João, já velho e calejado, preso na Ilha de Patmos, privado de tudo e de todos, agonizando sozinho e aguardando a esperança da salvação.

No primeiro século da era cristã, os líderes eram entregues à morte para que os discípulos pudessem experimentar a vida. Hoje a liderança mudou um pouco... “Apóstolos”, “Bispos”, “Patriarcas” e outras “entidades” andam em jatinhos, vestem ternos italianos, possuem um Mercedes na garagem e moram em mansões de 3 pavimentos.

É um contrassenso quando comparado com a afirmação de Paulo de que os apóstolos eram postos em último lugar, como escória do mundo. É triste, mas essa gente virou divindade, seres metafísicos, nem pisam no chão de tão santos que são, astros do mundo gospel, membros desta confraria de hipócritas, dessa panacéia religiosa, dessa pantomima de mambembes do sagrado.

Mas é bom saber que os dias desses pústulas es-tão contados. É fato que, cada vez mais, uma enorme legião de incautos e inocentes acorda para a verdadeira intenção do movimento da Confissão Positiva e de seus “líderes”.

O que creio, como bem disse o pastor Ricardo Gondim, é que “o século XX assistiu ao alvorecer, à consolidação, ao apogeu e ao desgaste do movi-mento evangélico, um ciclo histórico que está prestes a se encerrar. O que virá depois é uma incógnita – contudo, é possível vislumbrar que, passada a crise de pragmatismo que assola a Igreja deste início do terceiro milênio, a espiritualidade será experimentada de maneira mais viva e relacional com Deus”.

Os adeptos da Teologia da Prosperidade afirmam que Deus os colocou por cabeça e não por cauda. Pois é, há quem creia nisso... Para mim, contudo, que sou um cara que anda na contramão, prefiro ficar com outra máxima: “É melhor ser cauda de tubarão do que cabeça de bagre!”.

Carlos Moreira


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É importante esclarecer que este BLOG, em plena vigência do Estado Democrático de Direito, exercita-se das prerrogativas constantes dos incisos IV e IX, do artigo 5º, da Constituição Federal. Relembrando os referidos textos constitucionais, verifica-se: “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato" (inciso IV) e "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença" (inciso IX). Além disso, cabe salientar que a proteção legal de nosso trabalho também se constata na análise mais acurada do inciso VI, do mesmo artigo em comento, quando sentencia que "é inviolável a liberdade de consciência e de crença". Tendo sido explicitada, faz-se necessário, ainda, esclarecer que as menções, aferições, ou até mesmo as aparentes críticas que, porventura, se façam a respeito de doutrinas das mais diversas crenças, situam-se e estão adstritas tão somente ao campo da "argumentação", ou seja, são abordagens que se limitam puramente às questões teológicas e doutrinárias. Assim sendo, não há que se falar em difamação, crime contra a honra de quem quer que seja, ressaltando-se, inclusive, que tais discussões não estão voltadas para a pessoa, mas para idéias e doutrinas.

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