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06 abril 2011

Envelheça Enquanto Ainda há Tempo


Muitas pessoas não chegam aos oitenta porque perdem muito tempo tentando ficar nos quarenta”. Albert Camus.


A imortalidade e a eterna juventude são sonhos míticos da espécie humana. A procura da fonte da juventude é assunto desde os mais antigos escritos. Por outro lado, o fenômeno da velhice, estudado e constatado de forma sócio-histórica e psicológica, está presente em todas as épocas e lugares, fazendo parte da evolução das civilizações.


A velhice, já está mais do que provado, possui associada a si o componente preconceituoso e estereotipado de uma fase do desenvolvimento humano marcada por acontecimentos negativos e fatos indesejados. A verdade é que ninguém quer envelhecer. Mas, felizmente, ou infelizmente, envelhecer não é uma opção, mas um destino. Como escreveu Goethe: "A idade apodera-se de nós de surpresa".


Tenho ficado impressiona ao ver o que muitos tem feito para evitar a velhice. Algumas destas coisas, inclusive, beiram o absurdo. Estamos na era da imagem. Ela está na TV, no computador, no celular, no cartaz, na revista, no letreiro... Em todo canto, para onde nos viramos, tem uma imagem. Você já ouviu a expressão “sair bem na foto”? É a tônica dos nossos dias. Não importa quem você é, o que você faz ou como você vive, o importante mesmo é “aparecer bem na foto”. O resto disfarça-se, pois é melhor parecer ser, do que ser de verdade.


Mas o tempo é inexorável, ou como disse Ovídeo, é o “devorador das coisas”. De que então ele nos serve? Qual o seu propósito na existência? Terá ele apenas esse mórbido prazer de nos mostrar que já não somos mais o que um dia fomos? Talvez... O tempo faz destas coisas, pois “o que o ele trás de experiências não vale o que leva de ilusões”. Jules Petit-Sen.


Pois bem, tratando desta questão, acabo me lembrando de dois textos das Escrituras que me servem muito bem como exemplo. O primeiro é Atos 7:58, que diz: “E, lançando-o fora da cidade, o apedrejaram. As testemunhas deixaram suas vestes aos pés de um jovem chamado Saulo”; e o segundo é Filemom 1:9: “prefiro, todavia, solicitar em nome do amor, sendo o que sou, Paulo, o velho e, agora, até prisioneiro de Cristo Jesus”. Entre o “jovem Saulo” e o “velho Paulo”, uma história de vida surpreendente e, em cada pedacinho dela, a força irresistível e inexorável do tempo.


Paulo sempre me fascinou. O “jovem Saulo” me assusta, mas o “velho Paulo” me inspira. Entre um e outro a maravilhosa obra que o Espírito Santo realiza na existência daqueles que desejam se parecer com Jesus, cumprindo assim o propósito de Deus em suas vidas.  


Saulo de Tarso era um jovem judeu, fariseu, zeloso e guardador dos mandamentos. Homem letrado, culto e poliglota, foi aluno de um dos maiores filósofos do seu tempo, o extraordinário Gamaliel, doutor da Lei e membro Sinédrio. Por ter nascido em Tarso, ganhou o direito de ser um cidadão Romano, o que no mundo antigo era algo importantíssimo.


Saulo era notável! Sem dúvida alguma, foi o homem mais influente do primeiro século depois de Jesus Cristo. Inteligente, impetuoso e estrategista, via no Evangelho uma grande ameaça a religião judaica e, por conta disso, encampou como desafio pessoal perseguir os cristãos com o objetivo de encarcerá-los. Ao depois, quando do julgamento, retornava para dar o seu parecer. Foi desta forma que se tornou peça fundamental na morte do diácono Estevão, o primeiro mártir do cristianismo.


Mas Deus tinha outros planos para este homem... E assim, numa viagem a cidade de Damasco, ele vê uma luz brilhante vinda do céu e ouve uma voz que lhe diz: “Saulo, por que me persegues?”. Cego, desnorteado, sem compreender o que lhe acontecera, foi orientado a ir até a casa de um discípulo chamado Ananias, onde foi batizado e recuperou a visão. Daí em diante, Saulo sai de cena e dá lugar a Paulo, o homem que “transtornou o mundo” de seu tempo com a pregação do Evangelho e a abertura de Igrejas. O apóstolo dos gentios, como era chamado, escreveu mais da metade do Novo Testamento e tornou-se o grande sistematizador das doutrinas de Cristo nos primeiros anos da era cristã.


Ser Saulo era uma coisa; ser Paulo era outra. Mas o apóstolo só descobriu isto caminhando no Caminho. Apesar de sua conversão, ele não era um homem fácil, pois possuía como grande adversário seu próprio temperamento. Essa característica pessoal lhe custou diversos desentendimentos e a perda de muitos companheiros e amigos, além, é claro, da conquista de poderosos inimigos.


Na ficha corrida de Paulo estão acontecimentos dos mais diversos. Ele se desentendeu com Barnabé por causa de João Marcos, discutiu com Pedro e Tiago, amaldiçoou Alexandre o latoeiro e lançou sobre Elimas, o mágico, uma cegueira temporária. Ao final da vida, parece que apenas Lucas o suportava, pois afirmou certa vez: “todos me abandonaram”.  Na Igreja de Corinto, por causa da impureza, sugeriu que se entregasse a alma dos que tais coisas praticavam a Satanás e enfrentou em toda a Ásia a fúria dos judaizantes. Esteve em perigo de morte várias vezes; foi 2 vezes açoitado, fustigado com vara, apedrejado, 3 vezes vítima de naufrágios, além de ter andado em fome, nudez e solidão. Tantas foram as suas agruras que na carta aos Gálatas disse “ninguém mais me moleste, pois já trago no meu próprio corpo as marcas de Cristo”.


Mas como diz o ditado, “numa maratona o importante não é como você começa, e sim como você termina”. Paulo, o velho, termina os seus dias de forma bem diferente de Saulo, o jovem. Lembrei de Eclesiastes: “melhor é o fim das coisas do que o seu princípio”. No fim de sua vida, Paulo era um homem manso, humilde, quebrantado, totalmente transformado pelo Espírito de Deus. Dizia “tanto sei ser humilhado como também ser honrado... tenho experiência de fartura e de fome, de abundância e de escassez. Sua morte trágica – decapitado pelo imperador Nero em Roma – não determina o fim de seus dias, mas apenas o extraordinário início de sua verdadeira vida, de sua existência na eternidade, o encontro com o propósito eterno para o qual ele foi criado. 


Saulo, o jovem, Paulo o velho. Entre estas duas personagens, vividas pelo mesmo homem, o tempo. Os anos se passaram e acabaram por produzir nele uma transformação maravilhosa. Paulo aproveitou a dádiva de envelhecer permitindo que Deus esculpisse nele um caráter inquebrantável, pois sua vida foi moldada como o oleiro molda o vaso.


Que bom seria se a velhice de todos os homens pudesse produzir o que produziu em Paulo: sabedoria, quietude, generosidade, pacificação interior, graça, poder de Deus, unção do alto. Como tudo na vida tem seu tempo próprio, há também o tempo de envelhecer. Por isso, digo sem temor: “estou envelhecendo enquanto ainda há tempo!”. É que nos nossos dias a grande maioria das pessoas fica velha e não amadurece, tornam-se idosos infantis.


Affonso Romano diz que a “gente tem a leviandade de achar que os velhos nasceram velhos, que estão ali apenas para assistir ao nosso crescimento”. Simone de Beauvoir, em seu livro clássico sobre a velhice, mostra, entre outras coisas, que “o inconsciente não tem idade e que temos forte tendência a nos comportar, na velhice, como se jamais fôssemos velhos”. E finalmente Cícero, no seu famoso tratado falando da velhice, diz: "Torna-te velho cedo, se quiseres ser velho por muito tempo". 

Já me disseram, talvez como consolo, que a vida começa aos 40. Mas eu discordo! A vida começa a partir do momento em que Jesus 
Cristo, o Senhor, entra na nossa “estrada de Damasco”. Ela começa quando vemos resplandecer em nós a Sua luz e ouvimos a Sua voz em nossos corações! A vida começa quando estamos dispostos a ser discípulos, quando estamos disponíveis para fazer a Sua vontade e andar nos Seus caminhos. 

É um grande engodo achar que a vida começa aos 40. Que nada! Nem aos 40, nem aos 50, ou 60, mas apenas quando Ele, que é o caminho, a verdade e a vida, passa a ser o motivo pelo qual andamos, respiramos, sorrimos, choramos e nos movemos. É certo que caímos, erramos e sofremos, mas, nEle, sabemos, que somos mais do que vencedores!  

Diz Albert Camus, “Os jovens andam em grupo, os adultos em pares e os velhos andam sós”. É a dura realidade de existir. Mas com você não tem que ser assim. Se és jovem, anda em grupos, mas saiba que o tempo de envelhecer já começou. Se és adulto, anda em pares, mas saiba que a velhice está a porta. Se és velho, saiba, este é o melhor tempo da tua existência. Este é o tempo onde Deus pode ser experimentado em “profundidade”, pois o melhor ainda está por vir. Ele começa neste dia, o dia chamado hoje, o dia que o Senhor fez. Por isso você não precisa andar só, pois Jesus disse que estaria conosco todos os dias até o fim dos séculos.


Desta forma, aproveite o que ainda pode ser experienciado, e deixe de chorar por aquilo que você não fez. Este é um dos maiores desperdícios da existência humana: sofrer pelo que não se foi e ansiar pelo que não se pode ser. Viva este dia! Carpie Diem! Deus tem o melhor para você e este melhor começa justamente hoje, agora!

Carlos Moreira

2 comentários:

Nossa encantada com o seu blog, li um texto seu no blog das meninas do reino e amei o texto e vim aqui conferir, feliz por tê-lo encontrado, os posts são riquíssimos..esse em especial..excelente reflexão já que estou às portas de mais um aniversário e sempre me angustio coma idéia de estar envelhecendo..rs!

Se quiser e gostar visite meu blog, será uma alegria...

http://nairmorbeck.blogspot.com/

Shalom no vínculo daquele que nos chama para amar

Obrigado pelo comentário.
Vou visitar seu blog.

Abraços,

Carlos Moreira

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É importante esclarecer que este BLOG, em plena vigência do Estado Democrático de Direito, exercita-se das prerrogativas constantes dos incisos IV e IX, do artigo 5º, da Constituição Federal. Relembrando os referidos textos constitucionais, verifica-se: “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato" (inciso IV) e "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença" (inciso IX). Além disso, cabe salientar que a proteção legal de nosso trabalho também se constata na análise mais acurada do inciso VI, do mesmo artigo em comento, quando sentencia que "é inviolável a liberdade de consciência e de crença". Tendo sido explicitada, faz-se necessário, ainda, esclarecer que as menções, aferições, ou até mesmo as aparentes críticas que, porventura, se façam a respeito de doutrinas das mais diversas crenças, situam-se e estão adstritas tão somente ao campo da "argumentação", ou seja, são abordagens que se limitam puramente às questões teológicas e doutrinárias. Assim sendo, não há que se falar em difamação, crime contra a honra de quem quer que seja, ressaltando-se, inclusive, que tais discussões não estão voltadas para a pessoa, mas para idéias e doutrinas.

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