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11 janeiro 2011

"Um Dia Feliz às Vezes é Muito Raro"


O escritor Jorge Luís Borges nasceu em Buenos Aires e tornou-se um nome reconhecido mundialmente pelos seus escritos e poesias. Dentre seus textos maravilhosos, quero retirar fragmentos de um deles, talvez um dos mais conhecidos, que é “Instantes”. O texto ganha contornos mais fortes quando sabemos que foi escrito em 1986, na Suíça, quando o autor tinha 85 anos e já estava cego há 30.

Se eu pudesse viver novamente a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros. Não tentaria ser perfeito; relaxaria mais. Seria mais tolo do que tenho sido; na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.. Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria mais rios. Iria a lugares onde nunca fui, tomaria mais sorvetes... teria mais problemas reais e menos problemas imaginários. Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto de sua vida... Mas, se pudesse voltar a viver, trataria de ter somente bons momentos. Porque, se não sabes, disso é feita a vida, só de momentos, não percas o agora... Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera, e continuaria assim até o fim do outono. Daria mais voltas na minha rua... e brincaria com mais crianças.. Mas vejam, tenho 85 anos e sei que estou morrendo...”.

Agora desejo trazer-lhe uma pequena porção das Escrituras, Eclesiastes capítulo 12: “Sim, lembre-se dele, antes que se rompa o cordão de prata, ou se quebre a taça de ouro; antes que o cântaro se despedace junto à fonte, a roda se quebre junto ao poço”. Você deve conhecê-lo. Ele trata da velhice, de lembrar de Deus enquanto “ainda se pode achar” como bem disse Isaías, pois virão tempos em que diremos “não tenho neles prazer”. Sua beleza, para mim, está nas profundas e delicadas alegorias que o autor usa para falar da velhice e faz isso sem ser rude e sem, contudo, mascarar absolutamente nada.

Não sei sei você sabe, mas estamos vivendo num país que envelheceu. Segundo dados do IBGE, “O país caminha velozmente rumo a um perfil demográfico cada vez mais envelhecido. Em 2008, para cada grupo de 100 crianças de 0 a 14 anos existem 24,7 idosos de 65 anos ou mais. Em 2050, o quadro muda e para cada 100 crianças de 0 a 14 anos existirão 172, 7 idosos”. Entre nós, todavia, há uma sensível diferença em relação às outras nações: nossos velhos são vistos como um problema, tratados sem humanidade, sem respeito, sem dignidade. Isso é facilmente observado desde a prestação de serviços públicos, dos mais essenciais, aos cuidados e acolhida dos familiares. Para lidar com o “problema”, asilos foram criados, melhor seria dizer, depósitos humanos, casas de “misericórdia” para abrigar aqueles que chegaram a estação outonal da existência. Triste destino terá os quem forem, um dia, parar num deles...

O versículo que citei acima possui diversas interpretações exegéticas. A minha, todavia, é para o hoje, é mais poesia e filosofia do que teologia. Talvez lhe sirva... Há quatro elementos citados que representam as estações da existência. O cordão de prata retrata a idade da adolescência, é o presente de 15 anos, que serve não só para adornar o pescoço da criança, que está virando mulher, mas também para mostrar-nos que neste tempo da vida tudo é beleza, alegria e felicidade. A taça de ouro é a estação das comemorações e conquistas; é o casamento, a formatura, o primeiro emprego, o primeiro carro, a primeira casa, tempo de celebração, de festa, de champagne! O cântaro fala da vida adulta, da rotina de “ir à fonte”, ou seja, da necessidade de subsistência, do trabalho, das responsabilidades, das contas a pagar, das crises relacionais – com o cônjuge, os filhos. Finalmente, a roda de moinho, aquela que, envelhecida, se desfaz junto ao poço. É a mesmice final da existência, a roda que gira, mas não pode mais sair do lugar, que realiza o seu círculo em torno de seu próprio eixo, que cumpre a ingrata rotina, todos os dias, e que parece apenas esperar o fim chegar.

Tenho uma avó com 95 anos de idade. Vejo-a pouco, pois a vida que vivo, ou que não vivo, não me permite visitá-la com freqüência. Contudo, cada vez que a encontro, tenho a sensação de que seus dias estão se acabando, agora, mais rapidamente do que antes. Mas há uma sensação boa quanto estou com ela: é que eu percebo que aquele dia, um dia raro, mesmo que o tempo que permaneça lá seja pouco, transforma-se num dia feliz...

Eu sei que muito em breve estarei velho também. Sinto os sinais no corpo, que não reage mais como antes. Algumas enfermidades próprias da idade atual, 44 anos já chegaram. Preciso de óculos para ler, tomo remédio para pressão, durmo menos, vivo mais tenso, reflexivo, solitário. Por isso, estou aproveitando os anos que ainda me restam para fazer aquilo que Jorge Luís Borges recomendou... Não quero terminar meus dias nem com os seus “recalques”, nem com a melancolia do filósofo do Eclesiastes. Será que conseguirei?...

Carlos Moreira

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