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07 dezembro 2010

10 Homens e 1 Destino


... E, entrando numa certa aldeia, saíram-lhe ao encontro dez homens leprosos...”. Lc. 17: 12

Não escolhemos a forma do nosso destino, mas podemos dar-lhe conteúdo”. A frase de Dag Hammarkskjod me fez lembrar deste texto de Lucas citado acima.
Trata-se da história dos 10 leprosos que foram purificados por Jesus. Um texto curto, simples, que pode passar despercebido numa leitura rápida sem que se percebam os “tesouros” nele escondidos.

Nestes últimos dias tenho pensado muito sobre o destino... Teologicamente falando, nem sou calvinista nem arminiano. Sirvo-me de algumas idéias de ambos, mas acho-me totalmente livre para interpretar os textos conforme a leveza e a simplicidade do Espírito, pois não gosto de nada commoditizado. E é olhando desta forma que encontro neste texto de Lucas 2 lições preciosas para a vida, sobretudo para aqueles que estão a caminho, no caminho, caminhando. Por isso, gostaria de compartilhá-las com você.

E aconteceu que, indo ele a Jerusalém, passou pelo meio de Samaria e da Galiléia” v. 11. A primeira vista, parece uma citação de caráter geográfico, que tem como objetivo único situar o leitor no tempo e espaço. Minha percepção, todavia, é que a passagem oferece conteúdo fenomenológico, aquele abordado na teoria do filósofo Husserl. Na prática, a fenomenologia é uma investigação sobre a consciência geral, comum a todos os sujeitos cognitivos e que chega, através da redução fenomenológica, a essência de um determinado fenômeno.

Para mim, é característico que, no caminho do sagrado – “Jerusalém” – sempre se tenha que passar entre Samaria e a Galiléia. Historicamente e culturalmente, estas províncias têm significados que se projetam para além de suas realidades materiais, e, desta forma, acabam por representar arquétipos existenciais.

A Galiléia do tempo de Jesus era a terra da aflição, do paganismo, do esvaziamento do ser, da vida dessignificada, do povo que “jazia em trevas”, da existência que ainda não encontrara um propósito. Historicamente era menosprezada porque esteve durante aproximadamente 50 anos sob o governo da Fenícia. Com isso, acabou por desenvolver uma diversidade cultural e religiosa que apresentava costumes pagãos. Era a terra dos “gentios”, daqueles considerados estranhos e alheios as leis e preceitos dos judeus.

Samaria, por sua vez, tinha outra significação histórica. Sua população representava cerca de 15% dos habitantes da Palestina e eles eram descendentes diretos da nação que se estabeleceu no norte da região, após a deportação das dez tribos de Israel. Apesar desses gentios terem aceitado a religião judaica, na prática, criaram uma nova religião, inclusive com um templo próprio e, assim, sincretizaram elementos hebraicos com costumes pagãos. Por esse motivo, os judeus os consideravam um povo impuro.

Pois bem, eis aí a representação histórico-arquetípica para todo aquele que quer andar na dimensão do sagrado: harmonizar a convivência entre os que estão na região da sombra da morte, sem entendimento da vida, sem propósito ou significação existencial – tal qual os da Galiléia – e também com os que simbiotizaram uma religião e um deus feito para suas conveniências, misturando no mesmo “caldo sócio-religioso” elementos do zeitgeist (espírito do tempo) – assim como os samaritanos. Ser luz em meio a estas “trevas” é o desafio que nos cabe, acolhendo o diferente, amando o excluído, aceitando aquele que não pensa igual a nós, não tem o nosso “pedigree”, mas que precisa transcender, encontrar-se com o “totalmente outro”.

Nossa desgraça é a nossa alienação. É a falta de percepção destes dois pólos, destes dois “mundos”, destes dois “povos”. Nós vivemos como se o “outro” não existisse, pois nossa fé tornou-se religião de gueto, nossos credos e dogmas só afastam as pessoas, nossos encontros são para gente igual à gente, nunca para o diferente. Mas Jesus ensina que é preciso “trafegar” entre Samaria e a Galiléia, pois é lá aonde estão os famintos de Deus, os miseráveis de alma, os quebrantados de coração, os desejosos de justiça, os sedentos de esperança.

E Jesus, vendo-os, disse-lhes: Ide, e mostrai-vos aos sacerdotes. E aconteceu que, indo eles, ficaram limpos. E um deles, vendo que estava são, voltou glorificando a Deus em alta voz; E caiu aos seus pés, com o rosto em terra, dando-lhe graças; e este era samaritano”.

De fato, “o caminho se faz caminhando”. Lembro de Isaías: “então, romperá a tua luz como a alva, a tua cura brotará sem detença, a tua justiça irá adiante de ti...”. Ele fala da espiritualidade que agrada a Deus. 10 homens leprosos receberam uma ordem de Jesus: “vão se apresentar ao sacerdote”. Era o que mandava a Lei de Moisés. Mas Jesus era maior do que a Lei, do que Moisés e de que o sacerdote, pois seu sacerdócio era segundo a ordem de Melquisedeque – sem princípio e sem fim. E assim, de repente, no meio da jornada, a cura se estabelece e a lepra, simplesmente, desaparece.

Quero lhe dizer algo: a “cura” sempre se materializa no caminho, pois é no pó da estrada que a existência ganha significado. Por isso o salmista diz que os que semeiam em meio a lágrimas colheram com alegria, pois a dor, a perda, o medo, a angústia, estes matizes que se manifestam nas estações próprias de cada existência é que fazem em nós aquilo que pode nos tornar pessoas melhores. A dor é o adubo por excelência para a alma, pois ela é capaz de tornar triste o rosto, mas fazer melhor o coração.

10 homens caminhavam no caminho. Todos iam na direção do sacerdote, da Lei. Ao se apresentarem tinham de ser examinados, perscrutados, interrogados. Depois vinham as “prescrições legais”; o afastamento e o isolamento por uma semana para que pudessem retornar e ser reavaliados. Era a segregação, a discriminação, o banimento, a acepção, coisas da velha religião. Só cumprido os “requerimentos litúrgicos”, era que a pessoa poderia ser decretada “limpa”. Mas a cura de Jesus se deu no caminho, sem prescrições, sem liturgias, sem intermediações, sem leis ou ditames, tudo de forma simples, como simples é o caminhar daqueles que, com coração pacificado pela graça, andam em paz com Deus e com seus semelhantes.

9 homens seguiram para os enquadramentos da Lei, para as bulas sacerdotais, para as fórmulas do sagrado. Mas apenas 1 homem notou que sua cura não dependia de nada mais daquilo, apenas do fato dele crer que aquEle que lhe dera a Palavra era poderoso para garantir-lhe a salvação. Voltou sem detença. Abandonou os ditames, as convenções, as crendices, correu de volta ao lugar onde encontrara o Nazareno e, vendo-o novamente, lançou-se aos seus pés. Curioso, entre tudo, é que este homem era o expurgado, o rejeitado, o discriminado, aquele de quem nada se espera, pois além de leproso, era samaritano. E Jesus o abraçou e o recebeu com reverência pela sua vida e com respeito pela sua alma:  “Apenas este estrangeiro voltou para dar glória a Deus”. 

10 homens e 1 destino. 9 seguiram no curso da religião, das prescrições, das “correntes”, das “mandingas” do sagrado, das doutrinas humanas, dos preceitos caducos da letra morta, da intermediação dos “feiticeiros sacerdotais”. Mas um homem mudou o seu destino porque entendeu que o justo vive pela sua fé. E foi isso que Jesus lhe disse: “vai, a tua fé te salvou”. Vai, anda pela vida, livre, leve, solto, semeando o bem, colhendo a paz, amando o teu semelhante, acolhendo ao necessitado, adorando a Deus.

E você, o que deseja? Quer também mudar o seu destino? 


Carlos Moreira

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