Pesquisar Neste blog

25 julho 2017

O Suicida vai para o Inferno?



Se eu acredito que Deus condenará um suicida ao inferno de fogo? Jamais. Quem sai da vida porque viver é pior do que morrer deliberou um ato extremo para tentar encontra paz e pacificação. Certamente, o Pai o acolherá e lhe enxugará dos olhos toda lágrima.

A maior parte dos que sustentam a condenação do suicida o fazem baseados numa afirmação de Paulo na carta de 1ª Coríntios capítulo 3 versos 16 e 17. Ora, para mim, o simples fato de Jesus nunca ter tocado no tema já abre um precedente insuperável para que nós não tentemos legislar nada, onde ele calou. Mas vamos ao texto:

1ª Co. 3:16-17 (Versões de Almeida no Brasil)
Não sabeis vós que sois santuário de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá; porque sagrado é o santuário de Deus, que sois vós.

Agora, o mesmo texto na versão King James, considerada uma das melhores versões da bíblia, fora o original grego.

1ª Co. 3:16-17 (Versão King James)
Não conheceis que sois templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém contaminar o templo de Deus, Deus o destruirá; Porque o templo de Deus, que sois vós, é santo.

A palavra “destruir”, que aparece nas citações acima, do grego φθείρω (phtheiró), pode ter em sua tradução a aplicação de mais de um sentido. Contudo, no texto em questão, ela é melhor traduzida quando usamos a palavra “corromper”. Para perceber o que digo, esse mesmo verbo – φθείρω – é utilizado em passagens como 1ª Co. 15:33, 2 Pe. 2:12, Ap. 19:2 e Ef. 4:22.

Quando Paulo faz a analogia asseverando que nós somos o templo de Deus, ele fala a uma plateia de gentios recém convertidos, que era a maioria da composição dos membros da igreja de corinto. Ora, essa gente estava acostumada a conviver com templos pagãos, pois na cidade havia, ao menos, 12 deles.

Mas a ilustração não servia apenas aos gentios, mas também aos Judeus, pois a ideia de “corromper” era a mesma de “contaminar”, e o Judeu bem sabia o que significava a contaminação do templo, pois em sua história isso já havia sido feito por Epifânio Antíoco, rei da Síria, que profanou o segundo templo.

Então, quando Paulo fala sobre “corromper/contaminar” o templo, que agora não é mais uma obra humana, um empreendimento de pedras, mas o nosso próprio corpo, tornado santuário, ele está tratando de questões éticas e morais, da entrega do corpo a depravação, a diluição do ser, o extravio da alma, a profanação da consciência, o que se compatibiliza com todos os outros textos onde o verbo citado aparece.

Assim também, o mesmo verbo – φθείρω – que aparece na parte (b) do versículo “Deus o destruirá; Porque o templo de Deus, que é você, é santo”, precisa ser adequado quanto a sua tradução, pois, em nossa língua, destruir não o compatibiliza nem com o Espírito do Evangelho, nem com o total da citação. Assim, depois de consultar alguns exegetas, percebi que minha ponderação estava coerente, pois eles aplicam a parte (b) do versículo o sentido de “ruína”, ou seja, se nós nos corrompermos ao ponto de profanarmos nosso próprio corpo, alma e espírito, Deus nos entregará a nós mesmos e nos deixará entrarmos num processo de falência que nos levará a ruína.

De fato, não precisa ser um especialista para perceber que esta posição tem muito mais a ver com Jesus e com o Evangelho do que a tese de que Deus vai matar alguém, seja por que motivo for, até mesmo porque o texto não trata de suicídio, mas de devassidão e diluição do ser.

Portanto, quanto mais estudo, mais vejo que é preciso estudar e que analisar textos de forma simplista, sem um cuidado hermenêutico adensado, olhando para as várias traduções, para a mesma palavra aplicada a mais de um contexto, em livros distintos, etc, é algo perigoso. 

Por isso, mantenho firme minhas convicções e dou aqui alguns poucos, mais bons argumentos, para tal.


Carlos Moreira



0 comentários:

Mais Lidos

Barra de Vídeos

Loading...

Músicas

O Que Estamos Cantando

Liberdade de Expressão

Este Site Opera Desde Junho de 2010

É importante esclarecer que este BLOG, em plena vigência do Estado Democrático de Direito, exercita-se das prerrogativas constantes dos incisos IV e IX, do artigo 5º, da Constituição Federal. Relembrando os referidos textos constitucionais, verifica-se: “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato" (inciso IV) e "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença" (inciso IX). Além disso, cabe salientar que a proteção legal de nosso trabalho também se constata na análise mais acurada do inciso VI, do mesmo artigo em comento, quando sentencia que "é inviolável a liberdade de consciência e de crença". Tendo sido explicitada, faz-se necessário, ainda, esclarecer que as menções, aferições, ou até mesmo as aparentes críticas que, porventura, se façam a respeito de doutrinas das mais diversas crenças, situam-se e estão adstritas tão somente ao campo da "argumentação", ou seja, são abordagens que se limitam puramente às questões teológicas e doutrinárias. Assim sendo, não há que se falar em difamação, crime contra a honra de quem quer que seja, ressaltando-se, inclusive, que tais discussões não estão voltadas para a pessoa, mas para idéias e doutrinas.

Visualizações de Páginas

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More