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28 julho 2009

O Avesso do Avesso


A música SAMPA, uma espécie de hino oficial da cidade de São Paulo, foi composta por Caetano Velozo em 1978. A canção fala da beleza e do caos ordenado da metrópole, onde as pessoas, de forma alucinadamente controlada, existem em meio ao asfalto acinzentado, ao céu esfumaçado e aos arranha-céus. Em certo ponto de sua poesia, Caetano cita a expressão “porque és o avesso, do avesso do avesso, do avesso”, ou seja, ele exprime que, mesmo amando de paixão a cidade, não pode deixar de perceber que ela é pura contradição, é a materialização dos desencontros humanos, de suas incongruências, inquietações e interjeições a respeito de si mesmos e da vida.

Pois bem, analisando os versos de SAMPA, me veio aquela “irreverente inspiração”... Imaginei como seria inverter a parábola do “Filho Pródigo”, girá-la pelo avesso, torná-la o avesso do avesso. O que teríamos, então? Qual seria sua nova perspectiva? Você já pensou nisso? É claro que não! Isso é coisa para gente doida feito eu. Permita-me, por favor, lhe contar como ficaria a história...

Certo dia o Pai reuniu os seus dois filhos e lhes disse: vocês não podem compreender o quanto eu os amo. Vocês trazem ares de festa ao meu coração e intensa alegria a minha alma. Quando olho para vocês ouço o som de todas as músicas, sinto o cheiro das manhãs e o aconchego gostoso do orvalho quando repousa sobre a relva. Mas eu tenho visto que vocês não sentem o mesmo por mim. Sim, eu vejo que nossa relação é formal, superficial e até artificial. Vocês entram aqui na minha casa e mal falam comigo. Estão sempre atarefados, cumprindo obrigações, seguindo regras, realizando coisas, e por isso não conseguem perceber que o que eu gostaria mesmo era algo totalmente diferente. Queria apenas estar com vocês, lhes ensinar a respeito da vida, de como vivê-la com propósitos e significados para que vocês pudessem crescer para dentro e, depois, se expandir para fora...

Mas vocês são irrequietos demais. Você, meu pequeno príncipe, meu filhote mais novo, só pensa em ir embora, atrás daquilo que imagina ser vida, mas que é apenas morte. Sonha em encontrar um significado para a existência, sem compreender que só a minha presença no ser é o que pode significar os dias sobre a Terra. Ah, meu filinho, você quer correr atrás do vento, achando que a felicidade está nas coisas, em possuí-las e delas tirar proveito. Ledo engano... Você certamente as possuirá, mas elas acabarão lhe roubando toda a alegria em existir...

E você meu lindão, você que é o mais velho, que pensa que sabe tudo, que já é maduro o suficiente, homem feito, com todas as percepções do mundo e dos fatos, ah, você ainda não entendeu coisa alguma... Você me serve por obrigação e, por isso, o seu serviço para mim de nada aproveita. Ele é apenas fruto de sua razão infantil, que imagina que eu faço barganhas, pois você acha que conseguirá de mim coisas se fizer àquilo que julga que eu necessito. Eu não preciso de nada! Tudo já é meu! Eu queria apenas o seu amor e a sua devoção, e que isso fosse fruto do bem e da paz que procede do coração, não de sua cabeça adoecida com tantas neuroses e racionalizações.

Vocês não imaginam o quanto eu sofro! Como eu gostaria de tê-los junto a mim. Eu poderia pacificar todas as suas inquietações, e ensinar-lhes o valor que há num sono tranqüilo. Eu poderia fazê-los compreender sobre a dádiva de saber esperar, e de nunca deixar de crer naquilo que é belo, pois isto produz harmonia interior e cura para o ser. Poderia ensiná-los sobre o valor que há nas coisas simples, e sobre a beleza única que existe na singularidade de cada dia. Mas vocês não querem nada disto. Um está ansioso para ir embora, o outro inconformado por imaginar ter que ficar.

Por tudo isto, por perceber que vocês não me amam pelo que sou, mas apenas pelo que tenho e pelo que posso lhes oferecer, decidi, então, ir embora. Sim, eu vou embora! Fiquem com tudo: a casa, os móveis, os bens e todo o dinheiro. Façam dele bom proveito. Repartam a herança como melhor lhes parecer. Eu, com pouco posso fazer muito, mas vocês, sem mim, mesmo com tudo, ainda não terão nada. Vou embora! Estou cansado de tudo isto. Estou cansado destas palavras que me são lançadas como resmungos, destes queixumes eternos, desta amizade banal, desprovida de verdade e valores. Estou farto! Vou embora. Não me peçam mais nada, pois o que vocês desejavam eu já lhes dei e, desgraçadamente, vocês perceberão que, sem mim, nada disto lhes aproveitará.

Gente, esta é a história do “cristianismo” de nossos dias, a representação patética da fé professada por nossa geração. É a simbolização do avesso do avesso, ou seja, da profunda contradição e hipocrisia que vivemos e que temos a petulância de chamar de vida cristã. Eu penso que Deus, não raras vezes, tem se retirado de nosso meio, de nossos cultos e de nossos templos. É que para Ele é a oferta que significa o altar, e o rito só ganha sentido quando procede da vida, não das formas. A igreja de nossos dias parece ter todas as coisas que pensa precisar, menos a presença de Deus. É como a Igreja de Laodicéia, que era pobre, cega e estava nua. Minha angústia não é que Deus deixe as nossas catedrais, mas que Ele, de tão cansado de tudo isto, resolva deixar também o nosso coração. Se isto acontecer amigo, ainda que venhamos a conquistar o mundo inteiro, seremos os mais miseráveis de todos os homens.

Sola Gratia!

Carlos Moreira

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