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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.

13 julho 2011

Arranquei Jesus da Cruz!


Na próxima quinta-feira estarei sendo ordenado presbítero da Igreja Episcopal Carismática do Brasil. O arcebispo Paulo Garcia, que oficiará a cerimônia, é como um Pai, tem me ajudado e servido de referência desde minha conversão.

Na verdade, atuo como pregador do Evangelho há pelo menos 25 anos. Mas, do ponto de vista da instituição formal, só fui ordenado diácono em 2004. Canonicamente, deveria ter sido consagrado presbítero logo em seguida, mas toda vez que o assunto surgia eu acabava me esquecendo, e, assim, passaram-se 7 anos...

De fato, sempre acreditei que é Deus quem levanta homens e os capacita para a obra do ministério. Por isso nunca me preocupei em “costurar” ou “viabilizar” de alguma forma minha ordenação, sequer, tratei deste assunto com quem quer que fosse. Se hoje sou pastor, posso dizer, é pela vontade de Deus e pela imposição de mãos dos homens.

Como faço parte de uma Igreja de linha reformada – litúrgica, sacramental e carismática – que guarda a herança do cristianismo anglicano, procurei observar com atenção os detalhes da cerimônia para não fazer feio no dia. Foi desta forma que vi que existe um momento simbólico onde o presbítero recebe 3 elementos bastante significativos: uma Bíblia, a Estola Sacerdotal e um Crucifixo.

Bem, a Bíblia eu já possuo. Ganhei a primeira quando tinha 10 anos, de minha mãe. Hoje existe uma dezena delas na minha biblioteca. Aprendi a amá-la e utilizá-la para comunicar as verdades do Evangelho. Como ministro já ordenado, também tenho Estolas Sacerdotais, com as cores litúrgicas. Elas apontam simbolicamente para o fato de que eu estou cingido com o jugo de Cristo, ou seja, preciso carregar na consciência e no coração o fato de que o ministério nunca deve deixar de ser algo leve e suave, apesar de todas as dificuldades que lhe são inerentes.

Quanto ao crucifixo, dependendo do ramo da Igreja, pode assumir vários significados, sobretudo porque a cruz é um símbolo muito antigo e, ao contrário do que alguns pensam, não é patente dos cristãos. Para mim, todavia, a cruz que irei receber terá o propósito de trazer sempre a minha memória que foi o sacrifício de Jesus, através de sua morte, que proporcionou aos homens a possibilidade de se reconciliarem com Deus. 

Pois bem, como eu não tenho um crucifixo, fui hoje comprar um. Depois de ir a várias joalharias, e não me agradar de nada, resolvi visitar uma loja da Igreja Católica Romana onde existe farto material litúrgico. Lá encontrei um crucifixo muito bonito, mas com uma questão incômoda: havia nele a figura de Cristo pregada na cruz.

Ora, eu sou hoje um dos maiores defensores do retorno dos símbolos à Igreja. Os protestantes, sobretudo no Brasil, baniram de suas paróquias e congregações toda a beleza litúrgica por não quererem qualquer semelhança com os Católicos Romanos. Pura tolice, em minha opinião. Jogar fora 2.000 anos de tradição e história da Igreja por causa de algo tão pequeno e mesquinho chega a ser insano. Mas, fazer o quê?

Comprei o crucifixo, pois o achei de uma beleza incomparável, mas o meu Jesus não está pregado na cruz, ressuscitou, e isto para mim tem implicações profundas e um poderoso significado. Desta forma, lancei-me a tarefa de “descolar” aquele outro “Jesus” da cruz.

Com um objeto pontiagudo, fiz uma ligeira pressão sobre a peça e, tomado de surpresa, tive de agarrar “Jesus” com uma das mãos, pois “ele” praticamente “saltou” da cruz, como se quisesse se desprender dali há tempos...

Foi uma cena cômica, e eu comecei a rir descontroladamente. Fiquei imaginando a “agonia” daquele “Jesus” pregado naquele crucifixo desde o dia em que ele foi feito pelo artífice. Acho que minha atitude pôs fim ao seu grande tormento. Nunca imaginei que, um dia, iria arrancar “Jesus” da cruz!

Em toda essa história, verídica, diga-se de passagem, há duas lições preciosas. A primeira, é que Jesus foi crucificado e, naquele madeiro, ficou preso até a morte, só sendo retirado de lá depois de ter sangrado e agonizado pelos pecados de todos os homens em todos os tempos. A segunda é que a morte não pôde retê-lo, pois ele ressuscitou ao terceiro dia, como havia dito, deixando tanto a cruz quanto o túmulo vazios.

Fui crucificado com Cristo. Assim, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim. A vida que agora vivo no corpo, vivo-a pela fé no filho de Deus, que me amou e se entregou por mim”. Gl. 2:20.

Eu, não raras vezes, esqueço que estou crucificado com Cristo, “desprego-me” da cruz, e começo a viver conforme a minha própria vontade. Ele, todavia, tomou sobre si a minha iniqüidade, incluiu-me na sua morte para que eu pudesse usufruir da sua vida, do poder da sua ressurreição, pois pela fé estou assentado com ele nos lugares celestiais e nada, nem ninguém, pode me remover de lá ou alterar o que ele fez por mim.

Carlos Moreira 

08 julho 2011

Só Leia se Desejar Aprender a Ser Feliz


Hoje é sexta-feira, dia em que tiro à tarde para aconselhar pessoas na igreja. Eu recebo também aqueles que precisam de ajuda no meu escritório, e estes se constituem a maioria. Acho que as pessoas não gostam de ir ao gabinete pastoral para não serem vistas, afinal, é bom sempre manter as aparências. Ou não...

O bom conselheiro é aquele que ouve muito e fala pouco. Não raras vezes, as pessoas falam por 30 ou 40 minutos e eu uso apenas 5 para me colocar. Acho curioso quando, ao final, depois de orarmos, ouço o seguinte: “pastor, foi maravilhoso vir hoje aqui, o Sr. me ajudou muito”. Dou um pequeno sorriso e despeço-me cordialmente. Na verdade, em nossa sociedade, as pessoas precisam apenas ser ouvidas...  

Curioso, mas todo mundo que vem para o aconselhamento trás uma questão em comum: deseja ser feliz. É legítimo, razoável, desejável, mas, quase nunca, alcançável, pelo menos não do jeito que eles imaginam. É que a felicidade, ao contrário do que se pensa, não é um estado perene na existência, mas uma estação sazonal. A vida é mais feita de dores e perdas do que de risos e conquistas. E isso, eu lhe garanto, se você ainda não aprendeu, aprenderá. 

Gosto muito do livro de Eclesiastes. Acho que, no velho testamento, é um dos meus preferidos. Construído em linguagem poético-sapiencial, escrito por um sábio com consciência epicurista, Eclesiastes nos chama a analisar a vida como ela é, sem disfarces, sem contornos religiosos, sem melodramas, tudo preto no branco.

É nesta perspectiva que, no capítulo 9, o filósofo-religioso nos dá alguns conselhos para alcançarmos a felicidade. Não sei se servirá para você, acostumado aos “10 passos para isto ou aquilo”, ou aos manuais de auto-ajuda, ou a teologias complexas, mas, para mim, pobre de espírito, quebrantado de coração, caiu como “uma luva”.

1º. Conselho – “Portanto, vá, coma com prazer a sua comida, e beba o seu vinho de coração alegre, pois Deus já se agradou do que você faz”. Em outras palavras, o melhor da vida está nas coisas simples. Comer é privilégio para poucos, pois nem mesmo os ricos o podem fazer. Estes estão sempre apressados, quase não tem tempo para se alimentar, comem no fast food, no Mcdonalds, pedem comida Chinesa, entregue numa caixa de papelão, e se alimentam na mesa de reunião do escritório.

Comer pão e vinho nos remete a simplicidade, e o simples, como sabemos, é o contrário do fácil. Além do mais, eles representam elementos cúlticos, ou seja, comer é dádiva de Deus, se alimentar é resultado do esforço do homem. O pão dos justos Deus o dá enquanto eles dormem, diz o salmista.

A verdade é que nós complexificamos muito a vida. Tornamos o essencial relativo, e o supérfluo essencial. Tenha certeza de uma coisa: se você conseguir se livrar da metade das contas que paga por serviços e produtos que não lhe farão falta, viverá muito melhor do que vive hoje. Bertrand Russell escreveu: “Não possuir alguma das coisas que desejamos é parte indispensável da felicidade”. Sim, se vivermos assim, Deus se agradará das nossas obras.

2º. Conselho – “Esteja sempre vestido com roupas de festa, e unja sempre a sua cabeça com óleo”. Traduzindo: viver deve ser algo prazeroso, mas, tome cuidado, a falta de equilíbrio pode fazer da existência uma experiência doentia e patológica.

Deus gosta da alegria, da festa, da música, da dança, do prazer, do riso e da satisfação. Quem disser o contrário, não o conhece, tem por referência um holograma caricaturado da sua própria projeção psicológica do sagrado, talvez associada a uma figura de autoridade próxima, não raro, um pai dominador, severo e inafetivo.

Ora, a vida nos foi dada para que a experimentássemos em todos os seus matizes, para que pudéssemos nos realizar e ter prazer e alegria. O cristianismo, infelizmente, mudou esta perspectiva que, notadamente vemos em Jesus, transformando-se numa religião asceta, que busca a ataraxia, a mortificação do eu, a sublimação do ser. Mas o que sei é que a Verdade liberta, torna-nos seres em expansão, não só do pensamento mas das sensações, pois “tudo é puro para os puros”.

O problema não está em viver com “vestes de louvor”, cingido de alegria, envolto com “ares de festas e luas de prata”. Não. O problema está no exagero, no excesso, na extravagância, no prazer pelo prazer, na tentativa de fazer a alma se saciar com aquilo que não gera a paz nem produz o bem. Por isso nossa cabeça precisa estar untada com óleo, pois óleo, neste texto, significa aquele elemento que produz cura, que sara feridas, que protege nossa consciência e nos traz de volta a razão. É o óleo do Espírito, derramado em nossos corações, que sara as seqüelas produzidas pelas experiências dolorosas da existência humana. Por isso, no que depender de você, nuca permita que ele deixe de cair sobre sua fronte.

3º. Conselho – “Desfrute a vida com a mulher a quem você ama, todos os dias desta vida sem sentido... Pois essa é a sua recompensa na vida pelo seu árduo trabalho debaixo do sol”. Aqui a intenção do autor é nos alertar que a coisa mais preciosa que temos são as relações de amor que construímos. Relacionamentos são eternos, perpassam da vida para a eternidade, tudo o mais fica aqui, pois diz o sábio, “ao morreres levarás tudo o que és e deixarás tudo o que tens”.

Apaixonar-se por alguém é o que há de melhor na vida. As pessoas mais felizes que conheço são aquelas que construíram relações duradouras, que conseguiram unir o amigo e o amante na mesma cama. Por isso o sábio diz que nem mesmo aquilo que o dinheiro pode comprar é capaz de sobrepujar-se a satisfação de se ter alguém a quem amar, alguém a quem se possa entregar a alma, o copo e a vida.

4º. Conselho – “O que as suas mãos tiverem que fazer, que o façam com toda a sua força, pois na sepultura, para onde você vai, não há atividade nem planejamento, não há conhecimento nem sabedoria”. Aqui o sábio nos chama a um encontro com o inevitável, a um encontro com o Deus Eterno!

A vida é feita de escolhas. Devemos e podemos realizar tudo aquilo que nos for possível, mas sem perder a referência de que tudo isto um dia passará e, portanto, nosso coração não deve estar naquilo que produzimos, mas em quem estamos nos tornando. Se esta perspectiva não for assumida na vida, se nossa existência se resumir a vivermos para trabalhar, e não a trabalharmos para viver, o que nos espera será apenas o nada, o não-ser, pois existir fora de Deus é tornar-se absurdo.

Para mim, isso é inferno. Inferno não é um lugar, mas um sentir. Todo texto sobre o tema é metafórico, recortado por alegorias. Quem imagina o inferno como um caldeirão com óleo fervendo e um “capeta” lhe espetando com um tridente não tem qualquer entendimento sobre a bondade e misericórdia de Deus.

Sabe o que é inferno? É toda existência que ignora a graça, é viver para si mesmo, é nunca perceber-se necessitado de perdão, é endurecer-se a tal ponto que a centelha que produz o arrependimento nunca possa ser acesa. Há tanta gente que “ama” a Deus com medo do inferno que, se chegar ao céu e descobrir que ele não existe, pelo menos do jeito que imaginam, irão reclamar de Jesus por não terem vivido a vida, mas apenas amordaçado o ser.

5º. Conselho - Já me disseram que se conselho fosse coisa boa não era dado e sim vendido. De fato, depois de 30 anos de caminhada, isso me faz todo sentido. Mas como eu recebi de graça, de graça também quero repartir. Gandhi afirmou: “Não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho.” Por isso, se o que disse lhe servir para alguma coisa, aplique a vida, faça o caminho, e o Caminho se fará em você. Se não te aproveitou em nada, sigas em paz.

Carlos Moreira

01 julho 2011

Cotidiano em Branco e Preto




Não me venha com tua mesmice, tuas críticas cruas que rasgam meu ser. Por vezes sinto tuas unhas se cravarem em minha carne como garras de aves de rapina, arrancam minha pele sem derramar uma gota de sangue. Sim, tu és cirúrgico demais, mesmo para mim...

E eu te pergunto: o que estás esperando? Que eu seja o Super-Homem? Que me sinta com a obrigação de salvar a humanidade inteira, fazer tudo certo, todo o tempo? Achas que sou um Quixote enfrentando moinhos de vento?! Ora, tu bem sabes que desprezo olhares tortos e passo ao largo de quem tem imaginação retilínea.

Deveras, tens de compreender, tuas teorias me entediam e me dá cansaço essa complacência com o descaso. És daqueles que tudo realizam, mas sempre no mundo das ideias... platônico demais para o real. Portanto, deixe-me ser, e saias do caminho!

Queres que eu confesse? Sim, os pecados são to-dos meus, não estou disposto a dividi-los com ninguém. Desejo o teu desprezo e que nunca descubras o que escrevo. Evites escutar o que falo, pois sou ácido e ávido, corto que nem navalha! Como já sabes, adoro o preto, mas detesto o ócio.

Um dia, não queiras enganar-me, pensaste que já sabias tudo. Mas te vejo calado, quieto, inseguro. Espreitas por entre portas entreabertas, por onde a vida passa cálida. O que te peço? Que afastes de mim tua compaixão, pois jamais desejei obter a caridade de quem me detesta. Se perguntarem por mim? Diz que fui por aí... com um punhado de sonhos nas mãos e lágrimas requentadas por perdas ínfimas.

Queres me surpreender? Então conta segredos sobre coisas que eu ainda não saiba. Tira as velhas roupas dos cabides, esvazia o armário e faze uma faxina na alma. Revira tuas ideias ao avesso, deixa o hermético de lado, é démodé o traço perfeito. Não me traga mesmices, não me canse com tagarelices, pois tu sabes o quanto gosto de fotos coloridas, mas, o real, esse tem mesmo de ser branco e preto.

Eu tenho um problema e tu o conheces. Estou andando nessa estrada já faz algum tempo. Sei onde estão os atalhos, as curvas e ondulações. As paisagens, são sempre as mesmas, não importa de que lado do caminho você esteja, indo ou voltando, são todas iguais. Por isso, faço uma trilha só minha, onde não haja pegadas, corro riscos, sinto medo, vejo os contrastes, tiro os disfarces, piso no chão com pés descalços, deixo o ar entrar pelo corpo e arejar os cômodos do meu ser.

Ademais, no íntimo de cada um há moinhos abandonados, ruas desertas, velas apagadas e copos vazios. Pudesse teu olhar penetrar mais fundo, como luz que vaza a cortina de seda fina, roubando da penumbra teus disfarces, se te fosse possível ir ao âmago, adentrar lugares escondidos, verias que interiores são feitos de poesia e que, na melancolia do ser, há paixões recolhidas e pétalas em flor.

Se quiseres, dou-te um conselho: quando tiveres que cortar a carne, faça o serviço com faca amolada, pois há decisões na vida que são quais amputações, salvam o ser da desgraça, mas produzem um aleijão na alma. E mais... se tens de fazer, então não perca a hora! Faze logo hoje, depressa, agora! A gangrena da consciência é pior do que o enfarto do coração.

Eis que encontrei uma coisa terrível debaixo do sol: o cotidiano! Ele passa a existência sentado no muro das ponderações. Faz contas, analisa, constrói gráficos, faz cálculos, imprecisas ponderações. Mexe, remexe, vira, não chega a lugar algum.

Mas deixa estar... Feliz é quem já se estrepou numa estrada de barro batido, tomou prumo pra lida, rasgou a roupa que camuflava a imagem e o orgulho que vestia a hipocrisia. Isso sim, muda a gente!

Dor é coisa preciosa. Quando não mata o “cabra”, quebra o tédio de seguranças pasteurizadas. Feliz é quem sofre, quem acumula rugas no rosto e certezas no olhar. Sofrer é acalento de gente grande, faz a lágrima escorrer pelo canto do rosto e leva embora sonhos embebidos em esperanças póstumas.

Dá-me, então, minha porção de sofrimento, pois é calejando os pés nas pedras do caminho que poderei ir mais longe. Mas não me canse com melancolias nem me venhas com doçuras ou canduras.

Se quiseres me ajudar, traze um balde com a lama que escorreu pela calçada por onde a tristeza desfilou impoluta. Com ele, mais um pincel de pintor, colorirei a tela da vida, sem mazelas ou pieguices, tudo preto no branco, vívido e verdadeiro, tudo como tem que ser.

Houve um tempo em que eu era idealista... Depois, a realidade se enraizou até os ossos, entrou pelas veias, entranhou-se na alma. No meu mimetismo, sempre busquei camuflar as imperfeições, disfarçar antigas contradições.

Mas o tempo devora tudo, muda a essência, transforma a existência. Hoje, confesso, cansei de “caras e bocas”, da “estética”, da plástica social, dos traquejos, das políticas e dos manejos.

Na verdade, nunca fui bom nisso, e agora fiquei irreparável. Hoje só me interessa aquilo que é, o que vaza da alma em direção à vida, que borbulha do caldo das incongruências e medos e se espalha pela tapeçaria dos dias.

É que chega o tempo em que o belo é torto, penso e díspare. Farto de tanta perfeição, você para e suplica: dá-me um pouco de ilusão! Faze isso e te serei grato pelo resto de meus dias. Sim, dá-me essa tal ilusão, faze uma alquimia qualquer, ainda que no fundo, ela seja a mais pura realidade...

Carlos Moreira

30 junho 2011

Alterar a Agenda não Significa Transformar a Consciência


Quando alguém aceita a Cristo como seu Senhor e Salvador, não percebe, de imediato, o milagre que se realizou silenciosamente em seu ser, o desencadeamento de todo um processo interior e espiritual em proporções inimagináveis.

Através da iluminação do Espírito Santo, que produz a consciência de pecados, nascemos de novo, recebemos o próprio Espírito em nossas vidas, apropriamo-nos da remissão de pecados – mediante o sangue do Cordeiro – somos justificados pela fé, pois cremos com o coração e confessamos com a boca a Jesus, e, a partir de então, começamos a viver os prenúncios da eternidade, pois nossa consciência começa a ser reelaborada a partir da matriz de valores do Evangelho, o que nos leva a praticar atos de justiça.

O processo de santificação, que é este desafio de, no caminho encarnarmos “O Caminho”, é algo que vai sendo gestado de dentro para fora, das percepções para as ações, dos conteúdos para a prática, algo que permite com que carisma e caráter caminhem lado a lado, harmonizem-se com a finalidade de construção de um novo ser, pois, como disse Proudhon, “a revolução sucede à revelação.

Isso fica bonito num texto religioso-filosófico, mas, na prática, a realidade é outra. O que tenho visto, nas últimas décadas, é que o “evangelho” não produz mais aquilo que deveria produzir, ou seja, ou ele perdeu a sua eficácia com os anos, ou o que estamos pregando é um outro “evangelho”!

Sinto uma alegria indescritível quando encontro alguém que me relata ter tido recentemente uma experiência com Deus através de Jesus Cristo. Por outro lado, minha alma é invadida por uma imensa tristeza, pois sei que há grandes chances desta pessoa se tornar uma vítima da engrenagem  das instituições religiosas, pois, como disse Nietzsche, “Deus está morto e o seu túmulo é a Igreja".

Quando o filósofo escreveu esta sentença, estava diante de uma religião perversa, a qual havia criado um “deus” caricaturado, um ser absoluto e indiferente. “Matar” Deus, significava extinguir o dogma, o conformismo, a superstição e o medo, era a proposta da não imposição de “regras”, as quais impediam a transcendência do ser, sua auto-afirmação, sua busca por elevação em sua saga existencializada.

O que vejo em nossos dias é que as pessoas “desembarcam” nas comunidades, às vezes oriundas de movimentos, outras após aceitarem o convite de amigos ou parentes, em algumas situações após terem levantado a mão num “apelo”, seja como for, e, a partir daí, iludidas pelo "sistema", começam a imaginar que a vida cristã significa apenas uma mudança na agenda, e não uma transformação na consciência!

O “novo convertido” inclui em sua programação semanal um culto dominical, uma reunião de oração, a participação em um pequeno grupo, ou mesmo num movimento, e pronto, toda a sua vida está rearrumada! Agenda refeita, lá vai o novo “crente” “mundo a fora”, ano após ano, e nada do que ele faz é capaz de produzir transformações significativas em seu ser – reestruturação emocional, ressiginficação conjugal, reelaboração familiar, renascimento espiritual, redirecionamento profissional.

É que o sujeito, não raro, apenas trocou o bar pelo pequeno grupo, o cinema pelo culto, a praia pelo movimento e a palestra pela reunião de oração. Ele mudou a agenda, mas não mudou o coração. Em alguns anos, irá sentir-se totalmente esvaziado de propósitos e significados, viverá uma fé epidérmica, uma espiritualidade não-sustentável, se decepcionará com a Igreja, ou, talvez, até com o próprio Deus, irá tornar-se um “esquentador de banco”, freqüentador de reuniões que possuem, como único objetivo, purgar de sua consciência um sentimento de culpa por ter se tornado um ser sem emoção, sem reverência, sem devoção. 

Termino com Karl Jaspers, filósofo e psiquiatra alemão: “a verdadeira existência é a possibilidade de transcender a situação na qual nos encontramos”. E eu, na minha insignificância, fico pensando: e se não for isso, então, o que será? 

Carlos Moreira

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É importante esclarecer que este BLOG, em plena vigência do Estado Democrático de Direito, exercita-se das prerrogativas constantes dos incisos IV e IX, do artigo 5º, da Constituição Federal. Relembrando os referidos textos constitucionais, verifica-se: “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato" (inciso IV) e "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença" (inciso IX). Além disso, cabe salientar que a proteção legal de nosso trabalho também se constata na análise mais acurada do inciso VI, do mesmo artigo em comento, quando sentencia que "é inviolável a liberdade de consciência e de crença". Tendo sido explicitada, faz-se necessário, ainda, esclarecer que as menções, aferições, ou até mesmo as aparentes críticas que, porventura, se façam a respeito de doutrinas das mais diversas crenças, situam-se e estão adstritas tão somente ao campo da "argumentação", ou seja, são abordagens que se limitam puramente às questões teológicas e doutrinárias. Assim sendo, não há que se falar em difamação, crime contra a honra de quem quer que seja, ressaltando-se, inclusive, que tais discussões não estão voltadas para a pessoa, mas para idéias e doutrinas.

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