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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.

13 outubro 2010

Morte: um Tema para os Vivos


Diz o livro de Eclesiastes: “melhor é ir a casa onde há luto do que ir a casa onde há banquete, pois naquela se vê o fim de todos os homens...”, ou seja, quando estamos expostos à ambientes de morte acabamos refletindo melhor sobre os aspectos que estão relacionados à vida. Por isso é melhor estar na casa onde há luto, neste lugar de aflição e dor, de perda e de pranto, porque nele nos depararemos com dimensões existenciais que não encontramos facilmente em outros lugares. É lá que vemos de forma visceral sentimentos como a solidariedade, o afeto, a compaixão, o quebrantamento e a misericórdia, sendo esboçados espontaneamente, irrompendo do íntimo das pessoas, jorrando das fontes do coração.

Diante deste tipo de situação é impossível não nos questionarmos sobre a vida, sobre quem somos, como temos vivido, com quem nos relacionamos, como gastamos o nosso tempo. Eu não sei, mas talvez você desejasse ler algo que lhe catapultasse para cima, uma “auto-ajuda evangélica”, mas eu acredito que morte é um tema mais do que oportuno para ser tratado com os vivos. E digo-lhe isto porque a morte está permanentemente presente em nosso cotidiano, pois vida e morte são coisas que não podem ser separadas.

Não obstante isto, segundo a psicóloga Maria Helena Bromberg, “cada vez mais as pessoas têm dificuldade em falar e vivenciar a morte; os rituais de luto estão sendo segregados aos CTIs de hospitais e às salas de velório, organizadas de forma a tornar o contato com o morto (e a morte) o mais indolor possível”. A sociedade de consumo tenta dar à morte – ampliando o tabu que a envolve – uma nova embalagem, mais ascética e aceitável, tentando com isto contornar o seu impacto, amenizar seu significado, reduzir os transtornos que ela possa acarretar. O avanço da ciência e o tecnicismo dos nossos dias fizeram com que crescesse no mundo contemporâneo uma cultura de negação da morte.

É justamente isto que expõe o pensador Ernest Becker, a idéia de que o homem, a qualquer custo, faz um movimento para evitar a morte, cujo medo é uma condição universal humana. Max Scheler, o filósofo dos valores, diz que no ocidente todos nós fomos educados pelas tradições científica, capitalista e filósofo-mecanicista a compreender a morte como morte dos outros, um fenômeno externo que nada tem a ver conosco. O escritor Philippe Ariés, numa análise mais histórico-antropológica, fala-nos da evolução do comportamento humano constatando que a partir do século XII, havia maior dramaticidade e individualidade na maneira de considerar a morte. No século das Luzes, a morte começou a ser “colorida” com matizes românticas. Mas só a partir da segunda metade do século XX foi que toda referência ao tema começou a ser camuflada. A morte precisava ser escondida, por isso foi banida do espaço familiar. Outro grande expoente no tema, a psiquiatra Elisabeth Kubler-Ross, trabalha a idéia de que uma das razões para fugir de encarar a morte, é que, hoje em dia, morrer é solitário, mecânico e desumano. As pessoas são removidas de suas casas para hospitais e a família acaba por afastar-se do enfermo, que fica cada vez mais desamparado e triste.

Meu olhar simplista sobre a existência tem me levado a constatar que o medo que temos da morte acaba por nos tornar irresponsáveis para com a vida. Nós vivemos como se este conjunto do qual somos compostos, corpo, alma e espírito, fosse eterno. Não pensamos na morte, não falamos da morte, sequer cogitamos morrer, a não ser em ironias e anedotas. Evitamos funerais, hospitais, doentes terminais, e tudo aquilo, ainda que de forma subliminar, nos remeta ao ocaso. Achamos que somos de aço, mas, na verdade, somos apenas constituídos de osso. Benjamin Franklin escreveu: “o homem fraco teme a morte; o desgraçado chama-a; o valente procura-a; só o sensato a espera”.

Há um homem na bíblia chamado Ezequias, rei de Judá, que viveu durante os anos do profeta Isaías, por volta de 716 a.C. Considerado como um dos reis mais piedosos era também reto e temente a Deus, íntegro, fiel e irrepreensível. Talvez, por conta disto, é que Deus, na sua infinita misericórdia, tenha lhe avisado, por intermédio do profeta, que sua morte era iminente O texto na sua íntegra descreve a situação da seguinte forma, “... põe em ordem a tua casa, porque morrerás e não viverás”. Is. 38:1.

Inevitável não pensar: se Deus me desse este aviso, se eu estivesse um dia deitado na minha cama, na minha casa, como faço todas as noites antes de dormir, orando ao Senhor, e Ele me dissesse para eu por as coisas em ordem porque eu iria morrer, como é que eu reagiria? O que é que eu faria? Metódico como sou, provavelmente elaboraria uma lista de coisas que precisariam ser providenciadas. No checklist estariam ações do tipo: comunicar aos parentes e amigos; analisar e organizar a situação financeira; preparar a empresa para minha súbita saída; despachar pendências urgentes; e, por fim, talvez como um regalo, realizar, quem sabe, algum último desejo.
               
E você, o que faria ? O que estaria na sua lista? Você tem pendências? A quem avisaria? E as contas, como estão? Tem algo para consertar? Alguém para pedir perdão? E o trabalho? O compositor e cantor Paulinho Mosca, há alguns anos atrás, fez uma música para uma minissérie da Globo chamada “O Fim do Mundo”, onde cantava: ”o que você faria se só te restaste um dia ?”.

E é justamente aí, na hora do desfecho, no fim do trilho, no último lampejo de luz, que eu e você precisamos acordar e cair na realidade. É nesta hora, no momento de rever como se viveu a vida, porque a morte veio bater a porta que, não raro, um profundo vazio existencial toma conta de nós e um desespero sem precedentes nos invade.

Seria legítimo pensar: o que vou levar comigo quando o momento chegar? Separo roupa de inverno ou de verão? Levo dinheiro, cheque, cartão de crédito? Coloco na minha maleta escrituras de imóveis, contratos, algum carnê? Talvez o currículo atualizado, com os recortes de jornais e revistas onde apareci? Carrego algum pertence valioso ou algo de estimação? No dia da minha morte, levarei algo comigo?

Como seria bom que toda morte fosse como a morte de Ezequias, com conhecimento antecipado e tempo de preparação. O problema é que a morte normalmente não dá aviso, não manda recado e nem põe anúncio no jornal. Por isso lhe digo que há um grande equívoco quando pensamos que nós não vamos levar nada desta vida. Esta é uma frase que não reflete a verdade bíblica. Nós temos bagagem sim, e precisamos ter consciência disto, pois, quando Ele nos chamar, não teremos tempo para providenciar absolutamente nada.

Há três coisas que você levará consigo no dia da sua morte. Por isso, quero tentar lhe ajudar a prestar atenção na forma como você está arrumando a sua “mala”. Em primeiro lugar, segundo Mt. 16:27, VOCÊ LEVARÁ TODAS AS COISAS BOAS E RUINS QUE TIVER REALIZADO POR INTERMÉDIO DO CORPO. “Porque o Filho do homem há de vir na glória de seu Pai, com os seus anjos; e então retribuirá a cada um segundo as suas obras”. Nós que nos dizemos “reformados” temos a empáfia de afirmar que não fomos salvos pelas obras, mas pela fé. É verdade. Mas fomos, segundo Tiago, salvos para as obras, pois sem obras, do que vale a nossa fé? Temo por aqueles que se afadigam em muitos “trabalhos” eclesiásticos, pois esquecem-se que “o obedecer é melhor do que o sacrificar”. Senhor, em teu nome fizemos isto, aquilo, e aquilo outro, e mais ainda... E Ele vos dirá: “apartai-vos de mim vós que praticastes a iniqüidade”. O pensador nos afirma: “possuis apenas aquilo que não perderás com a morte; tudo o mais é ilusão”.

Em segundo lugar, conforme 1a. Co. 13:8, VOCÊ LEVARÁ O BEM E O MAL QUE TIVER VIVIDO EM TODOS OS SEUS RELACIONAMENTOS. “O amor jamais acaba; mas, havendo profecias, desaparecerão; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, passará”. Relacionamentos são eternos! Jesus deu a sua vida por pessoas, não por instituições ou por qualquer religião ou filosofia. É por isso que “o próximo”, na Bíblia – o outro – aquele que está ao meu lado, é tão precioso para Deus, seja ele mulher, esposo, filho, amigo, irmão, ou o mendigo agonizante, o cego na beira do caminho, a prostitua acuada no flagrante da multidão, o leproso excluído da sociedade. Não esqueça a segunda parte do grande mandamento: “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”!

Finalmente, em último lugar, conforme 1a, Co. 15:10, VOCÊ LEVARÁ CONSIGO TUDO AQUILO QUE VOCÊ SE TORNAR. Ricardo Gondim usa uma alegoria interessante para tratar deste tema. Ele afirma que no último dia, no último instante, tudo o que você é, tudo o que alcançou como construção no ser, tudo o que está impresso em seu caráter se cristalizará, como se uma foto fosse tirada de todas as suas dimensões existenciais, física, emocional, psíquica e espiritual e, naquele momento, cessasse o relógio de sua vida aqui na Terra, parassem todos os seus feitos. O filósofo diz: “quando morremos, deixamos atrás de nós tudo o que possuímos e levamos tudo o que somos”. Não é a toa que Paulo, aos Efésios, nos fala para caminharmos até chegarmos à dimensão da “Estatura de Cristo”, e em Romanos, nos oferece o alvo que temos que atingir uma vez que fomos predestinados para ser conforme a imagem do Filho. Você nasceu desconfigurado em relação aos propósitos de Deus, mas através do novo nascimento, depois de receber o Espírito, tem progressivamente sua consciência refeita para se tornar aquilo para o qual foi um dia sonhado pelo Pai, para produzir obras que dignifiquem o arrependimento.  

O livro de Eclesiastes nos ensina que a alma não cresce sem dor, e não se mantém sem alegria. Viver uma vida abundante é justamente isto: não se alienar nem fugir de dor alguma, mesmo que seja a dor da morte, mas, a partir de seus matizes, produzir significados que construam um ser melhor, com uma nova consciência e um coração pacificado na graça. Eu não sei o dia em que vou morrer. Aliás, não estou preocupado com isto. Me contento com o que diz Emil Cioran: “a morte é a coisa mais segura e firme que a vida inventou até agora“. Ademais, Jesus me ensinou que, no caminho, o importante não é como se morre, mas, sobretudo, como se vive.

 Carlos Moreira

11 outubro 2010

Semeadores de Sonhos


Eu tenho um sonho. O sonho de ver meus filhos julgados por sua personalidade, não pela cor de sua pele.” A frase famosa foi proferida no dia 23 de agosto de 1963, à sombra do Memorial de Lincoln em Washington, pelo rev. Martin Luther King, para uma multidão de mais de 250 mil pessoas, que formavam a maior concentração até então vista no país a favor dos Direitos Civis.

Luther King, líder negro pacifista e pastor norte-americano, nasceu em Atlanta, na Georgia e formou-se em Teologia na Universidade de Boston. Foi o principal líder do boicote nos transportes contra a discriminação racial nos Estados Unidos que durou 381 dias.  Em 1960 ele conseguiu liberar aos negros acesso aos lugares públicos. Suas lutas resultaram na promulgação da Lei dos Direitos Civis, em 1964, e na Lei dos direitos de Voto, em 1965. Seu sonho de ver negros e brancos vivendo unidos levou-o a ganhar, em 1968, o Prêmio Nobel da Paz. Talvez, até como já se esperava, lamentavelmente, logo em seguida, foi assassinado a tiros em Memphis, no dia 4 de abril de 1968, por um branco racista revoltado com suas idéias, que havia saído da prisão.

Quais são os teus sonhos? O que é que te faz levantar todos os dias para enfrentar a maratona cansativa que é a vida? Qual é o combustível que te move e te faz existir? Do que é que você alimenta a tua alma nos dias sombrios da existência? Mário da Silva Brito escreveu em 1916 “sonho, logo existo”. O filósofo e pensador, escritor do livro de Eclesiastes, diz que Deus colocou a eternidade no coração do homem. Parafraseando-o, eu diria: “Deus nos deu o maior dos motivos para sonhar”.

Todos os progressos obtidos pela humanidade vieram através de homens e mulheres que se dispuseram a sonhar. Thomas Edson estava cansado das velas, sonhava com um tipo diferente de luz. Grahambell queria falar a distância, Gutemberg pensava em livros em série, Pasteur queria aliviar as dores das pessoas, e Santos Dumond achou que já havia andado muito sobre a terra, agora queria voar como os pássaros. Jack Kerouac, falando deste espírito impetuoso de algumas pessoas, afirmou: “Alguns os vêem como loucos, nós os vemos como geniais. Porque as pessoas loucas o bastante para acreditar que podem mudar o mundo, são as que o mudam.".

Viver sem sonhos é ser empurrado pela mesmice um dia após o outro. Tenho visto uma coisa estarrecedora neste tempo: uma Igreja que não possui sonhos! Onde estão os patriarcas dos nossos dias sonhando com a terra prometida? Onde estão os profetas dos nossos dias sonhando com o messias? Onde estão os apóstolos dos nossos dias sonhando com a construção da Igreja e a evangelização do mundo? Deixe-me fazer uma confissão: estou farto de tanta realidade, de tanto pragmatismo!  Deixe-me, portanto, sonhar, por favor!

Talvez alguém me responda: ah, pastor, os sonhos dos nossos dias são outros... São sonhos de consumo, do Audi A4, do apartamento na Barra, da viagem a Europa, do iate ancorado no píer da marina. São sonhos de sucesso, de uma carreira bem sucedida de executivo de multinacional, de faturar milhões num grande empreendimento, do emprego público bem remunerado. Pastor, os sonhos de hoje são outros: é o desejo de cuidar da estética, é o dinheiro para a lipoaspiração, que embeleza o corpo ou, quem sabe, para a plástica corretiva, que modela o rosto. A verdade, é que se sonha com tudo, menos com os sonhos de Deus! E Deus tem sonhos? Tem! Só não tem tido quem os semeie sobre a Terra.

Há um personagem no livro de Josué que me impressiona e me inspira: Calebe. Com 40 anos de idade foi enviado a espiar a terra que Deus prometera dar ao povo Hebreu, logo após a saída do Egito. Ele olhou para aquele lugar e sonhou em possuí-lo. Olhou para a cidade de Hebron, a cidade alta, uma cidade que ficava no cume de uma montanha e afirmou para si mesmo: “você será minha”. Mas a Terra prometida mais parecia com uma casa do BNH, tinha sido dada, mas era preciso tirar o “invasor” que estava lá dentro. Calebe, todavia, não se ateve aos obstáculos, não se amedrontou diante dos gigantes. Ao contrário, desprezou as impossibilidades, desconsiderou que ali havia homens de guerra, mas apenas creu que Deus poderia lhe dar aquela terra, como prometera, e guardou aquele desejo.

Numa primeira leitura do livro de Josué, você pode, equivocadamente, imaginar que a conquista daquela terra foi fácil, uma arrancada avassaladora do povo Hebreu baseada em ações militares prodigiosas e estratégicas. Entretanto, não foi assim. Na verdade, a conquista foi lenta, e nem tudo foi conquistado. Em várias situações, houve a necessidade de se fazer aliança com os povos que ali já estavam para que a sobrevivência pudesse ser garantida.

Mais eu gostaria de resgatar alguns trechos da conversa de Calebe com Josué, o homem que havia substituído Moisés no comando do povo, após eles haverem entrado na terra prometida. Tratava-se de dois amigos de longa data, companheiros de lutas e de batalhas. Alegorizando o texto, posso eleger alguns elementos que transformam homens e mulheres comuns em pessoas que semeiam sonhos no chão da vida.

Js. 14:7 “Quarenta anos tinha eu quando Moisés, servo do Senhor, me enviou de Cades-Barnéia para espiar a terra, e eu lhe trouxe resposta, como sentia no meu coração”. OS SONHOS DE DEUS NASCEM NO CORAÇÃO. Deus não faz surgir sonhos em meio a metas pré-fixadas, a planejamentos elaborados, a estratégias e estatísticas mensuradas. Não. O sonho nasce primeiro no coração, não importando quão difícil seja para executá-lo. Aliás, normalmente, este tipo de sonho é sempre impossível de tornar-se algo concreto. Apenas a ação de Deus é que poderá trazê-lo a realidade, para que a glória seja sempre dEle, e de mais ninguém. Sonhos nascem no coração porque precisam, em primeiro lugar, de paixão para ser executados, não de estultícia ou sabedoria, eles precisam de um tipo de devoção que só se encontra no coração dos apaixonados, dos que se acham comprometidos com os propósitos de Deus.  

Js. 14:8 “Meus irmãos que subiram comigo fizeram derreter o coração o povo; mas eu perseverei em seguir ao Senhor meu Deus”. OS SONHOS DE DEUS SE ALCANÇAM PELA PERSEVERANÇA. Calebe tinha uma visão construída em sua mente. Ele sonhava com aquela montanha e iria possuí-la a qualquer custo. Ele não se impressionou com o que as pessoas falavam, não se deixou influenciar pelas notícias, pelas avaliações pessimistas, pelas análises catastróficas. Vejo as pessoas em nossos dias... Elas pedem algo a Deus e já desistem na semana seguinte porque não obtiveram o que desejavam. São incapazes de superar obstáculos, de não se ater as circunstâncias, apavoraram-se com os “gigantes”, no seu conforto, na sua letargia religiosa, jamais perseveram em prol de um objetivo maior. Não podem orar nem cinco minutos por dia, a Bíblia lhes dá coceira nas mãos. E assim, casamentos vão por água abaixo, filhos são perdidos para as drogas, empresas vão à falência, ministérios são interrompidos, igrejas são fechadas. Esquecem-se o que diz as Escrituras: “o que perseverar até a morte receberá a coroa da vida”. Sonhadores são pessoas perseverantes!

Js. 14:9 “Naquele dia Moisés jurou, dizendo: Certamente a terra em que pisou o teu pé te será por herança a ti e a teus filhos para sempre, porque perseveraste em seguir ao Senhor meu Deus”. OS SONHOS DE DEUS SÃO FIRMADOS POR PROMESSAS. Calebe sabia que aquela montanha seria sua porque Deus havia jurado em entregá-la a ele. Deus não é homem para mentir, nem filho do homem para se arrepender. Se Ele prometeu, irá cumprir. Quais são as palavras que influenciam a tua vida? As previsões da bolsa de valores? Os juros da economia? O preço do ouro? Uma promessa feita por um político, por um amigo, por seu patrão? Não acredito em cristãos que não conhecem as Escrituras, que não se debruçam sobre a Palavra de Deus para discernir aquilo que Ele nos prometeu. Os sonhos de Deus não se alcançam porque as circunstâncias são favoráveis, mas porque Ele disse que assim seria. Em todas as promessas de Deus há um “sim”, e o Seu justo viverá, sempre, pela fé, pois, se retroceder, o Espírito de Deus não estará nele. Gosto da frase de Fernando Teixeira: “nós somos do tamanho dos nossos sonhos”. Por isso encontramos tantos gigantes profissionais e, ao mesmo tempo, tantos pigmeus espirituais.

Js. 14:10,11 “E agora eis que o Senhor, como falou, me conservou em vida estes quarenta e cinco anos, desde o tempo em que o Senhor falou esta palavra a Moisés, andando Israel ainda no deserto; e eis que hoje tenho já oitenta e cinco anos; ainda hoje me acho tão forte como no dia em que Moisés me enviou; qual era a minha força então, tal é agora a minha força, tanto para a guerra como para sair e entrar”. OS SONHOS DE DEUS GERAM PROPÓSITOS PARA A EXISTÊNCIA. O que se pode esperar de um homem de 85 anos? Que ele queira subir uma montanha para desalojar uma cidade estabelecida? Você sabia que quando Calebe disse estas palavras os Anaquins – povo constituído por gigantes – habitavam a cidade de Hebron? Mas nada era obstáculo para ele, pois sua vida perseguia aquele objetivo, aquela meta, aquele alvo. Sim, aquele homem tinha um motivo para se levantar todos os dias. Ouso afirmar: quem não tem sonhos para sonhar, não tem motivos para viver. Vejo as pessoas sonhando com coisas fúteis e, quando as conseguem, ficam sem referencial na vida. São sonhos de coisas passageiras, coisa que a traça e a ferrugem consomem. De que vale ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma, disse Jesus. Por isso, Robert de Montesquiou afirmou: “da-me, Senhor, o sonho meu de cada dia”.
    
Js. 14:12-14 “Agora, pois, dá-me este monte de que o Senhor falou naquele dia; porque tu ouviste, naquele dia, que estavam ali os anaquins, bem como cidades grandes e fortificadas. Porventura o Senhor será comigo para os expulsar, como ele disse. Então Josué abençoou a Calebe, filho de Jefoné, e lhe deu Hebrom em herança. Portanto Hebrom ficou sendo herança de Calebe, filho de Jefoné o quenezeu, até o dia de hoje, porquanto perseverara em seguir ao Senhor Deus de Israel”. OS SONHOS DE DEUS TÊM A BENÇÃO DE DEUS. Quem poderia resistir a Calebe, um homem com um sonho de Deus no coração? Quem poderia parar aquele homem que aos 85 anos ia em busca do sonho de uma vida inteira? Ele não olhou para a montanha, para os gigantes, para as circunstâncias, para as impossibilidades. Apenas creu que poderia vencer e subiu a guerrear. Onde estão os Anaquins que lutam contra você? Quais são as cidade fortificadas que precisam ser destruídas? Quais adversários precisam ser subjugados. Eu profetizo, em nome de Jesus, hoje, comece a sonhar e conquiste a Hebron da tua vida!

Albert Schweitzer escreveu: “A tragédia do homem é o que morre dentro dele enquanto ele ainda está vivo”. Eu tenho vergonha de pertencer a uma geração tão apática, tão conformada, tão anestesiada, que se “enquartela” dentro de suas igrejolas e fica vendo o tempo passar. Uma igreja que não sai às ruas, que não tem causas, que tem carismas, mas não tem caráter, que tem sonhos mesquinhos, toscos, pálidos, pueris, fúteis. Vejo os jovens, eles estão perdidos, sem líderes, sem referencial, sem sonhos! Onde estão os Calebes dos nossos dias? É tempo de sonhar! Sonhemos antes que seja tarde demais...

Carlos Moreira

09 outubro 2010

Consumido pela Culpa

Sem pecado, não há transgressão. Sem transgressão, não há punição. Sem punição, não há culpa. Está comprovado, pela escuta psicoterapêutica e pela leitura de nossa história, que a culpa existe desde nossa origem, faz sofrer, e sua recordação nos acompanha em nossa trajetória existencial.


Para definirmos de forma clássica a culpa, podemos afirmar que ela é algo que se refere à responsabilidade atribuída à pessoa por um ato que provocou prejuízo material, moral ou espiritual a si mesma ou a outrem. Segundo Wikipédia, no sentido subjetivo, a culpa é um sentimento que se apresenta à consciência quando o sujeito avalia seus atos de forma negativa, sentindo-se responsável por falhas, erros e imperfeições. No sentido objetivo, ou intersubjetivo, a culpa é um atributo que um grupo aplica a um indivíduo, ao avaliar os seus atos, quando esses atos resultaram em prejuízo a outros ou a todos.

Provavelmente foi Freud quem mais fez análises sobre os mecanismos geradores de culpa. Para ele, a idéia de uma onipresença da culpa, que se manifesta de múltiplas formas e que é fundamentalmente inexpiável, é o mais importante problema no desenvolvimento das sociedades humanas. Freud analisa em obras como Totem e Tabu e Mal Estar da Civilização, as diversas etapas de constituição da culpa, indo desde a angústia social até os sentimentos inconscientes.

Você se sente culpado por algo que fez? Você se sente culpado pelo destino de outros? Já experimentou um vazio no ser por pensar que poderia ter feito algo de forma diferente, ou tomar outra decisão a respeito de determinado assunto, ou mesmo ter escolhido outro caminho ou propósito na vida? Eu não tenho dúvidas em afirmar que a culpa é uma das mais poderosas forças que existem. E mais, sei que a serpente se alimenta do pó da terra, ou seja, das produções emocionais e psíquicas dos seres humanos, em particular daquelas emanadas de seus desencontros e contradições. Na prática, isto cria um círculo vicioso tal que a pessoa passa a se “alimentar” da própria culpa que produz.

Há na Bíblia Sagrada um herói da fé que experimentou a culpa em todas as suas dimensões. Seu nome é Sansão. O desfecho de sua vida, deste juiz de Israel, homem dotado de uma força sobrenatural, parece inicialmente trágico e melancólico. Sua história começa durante um ciclo de apostasia e cativeiro do povo Hebreu. É em meio a estas circunstâncias que Deus o levanta para iniciar o processo de libertação.

Numa primeira olhadela, Sansão nos parece um homem com muito carisma e pouco caráter. Mesmo tendo sido consagrado desde o ventre materno por um voto de Nazireu, parece ter passado a vida se esquivando de suas responsabilidades. Solitário, tem dificuldades em estabelecer vínculos afetivos e, mesmo estando à frente de seu povo durante 20 anos como juiz, não lhe serve como exemplo nem referencial. Vive de forma questionável, quebra princípios e é exageradamente temperamental, o que acaba lhe custando à morte da esposa e do sogro em um conflito com os filisteus.

Se fizermos uma análise simplista, apenas olhando para os seus feitos, sem discernir o que por vezes acontece no coração, teremos a percepção de que Sansão é um fracassado, alguém que terminou seus dias na situação mais humilhante e degradante que um ser humano pode experimentar. A Bíblia Sagrada, todavia, o inclui na listas dos heróis da fé do livro de Hebreus, onde estão homens da envergadura de Davi, Moisés, Abraão e Elias. Assim, penso, Sansão é avaliado não por aquilo que ele fez, mas, sobretudo, por quem ele por fim se tornou. O sábio do Eclesiastes diz que “melhor é o fim das coisas do que o seu começo”. Gosto também da frase que diz que “numa maratona, não importa como você começa, mas sim como você termina”.

O texto do livro de Juízes que relata o desfecho da vida de Sansão, diz que “mais foram os que ele matou na sua morte do que os que matou em sua vida”, ou seja, é na morte de Sansão, e não na sua vida, que ele se notabiliza como herói da fé. É apenas na sua morte que ele, enfim, cumpre o propósito para o qual lhe foi dada a vida, ou seja, ser a vara do juízo de Deus contra os filisteus. Esta análise não é minha, ouvi-a numa extraordinária mensagem do Ricardo Gondim.

Eu creio que, no final dos seus dias, Sansão era um homem atormentado. O capítulo 16 de Juízes nos revela o estado derradeiro de Sansão: “Os filisteus o prenderam, furaram os seus olhos e o levaram para Gaza. Prenderam-no com algemas de bronze, e o puseram a girar um moinho na prisão”. Nestas circunstâncias, olhando para sua trajetória de vida, para as escolhas dramáticas que fez, para o desprezo com o sagrado, para a decepção que ele se tornara para seus pais, para seu fracasso diante do próprio povo, para a traição de sua mulher e, finalmente, para o seu destrato para com Deus, o grande Sansão sucumbiu em meio à culpa.

Eis agora Sansão, cego dos olhos, amarrado a grilhões de bronze, girando em torno de uma roda de moinho. Mas é justamente em meio à calamidade, quando ele perde o que lhe é caro, a sua liberdade, a sua honra, a sua fama, as pessoas a quem ama, que algo começa a se construir em seu coração. A Sansão não resta mais nada a não ser olhar para dentro de si mesmo e tentar, através do arrependimento que pacifica o ser, encontrar, ainda que tardiamente, um propósito para sua existência. E é justamente a partir daí que Deus age para, na sua morte, matar mais inimigos do que ele fizera em toda a sua vida.


Para não perder a riqueza da história, me ative apenas ao versículo 21 para fazer uma pequena análise sobre o nascedouro e os desdobramentos gerados por processos de culpa, utilizando como “pano de fundo” a tragédia de Sansão. Vou usar seu estado “terminal”, com algumas alegorias, para trazer as idéias para o “nosso mundo”, para o “nosso tempo”.A primeira coisa que observo é que Sansão, após ser preso pelos filisteus, teve os seus olhos vazados – ficou cego. A metáfora me remete ao fato de que A CULPA ELIMINA NOSSA CAPACIDADE DE ENXERGAR A VIDA. Sansão agora era apenas um “campeão” humilhado, um homem sem direção, sem “visão”, sem sonhos, sem horizontes. Muitas das escolhas que fazemos na vida irão desembocar em processos de culpa. Decisões equivocadas, um temperamento iracundo que inviabilizou relacionamentos afetivos, a devassidão existencial encarnada na vida, uma separação conjugal – por vezes concretizada de forma humilhante e penosa, a dissolução da família, que é um dos maiores traumas que alguém pode sofrer, ou os que se sentem culpados pelo destino dos filhos, desterrados na vida, para os quais nunca foram referencial. O fato é que a culpa cega, consome a alma como uma comichão de dia e de noite, corrói o ser como a ferrugem “come” o ferro, nos impede de ver que ainda existem outras possibilidades! Por isso Paulo afirma: “se alguém está em Cristo é uma nova criatura; as coisas que foram feitas já passaram, agora tudo pode ser construído de outra forma”. (tradução livre).

Outra coisa que aparece no verso 21 é o fato de Sansão ter sido prezo pelos filisteus com algemas de bronze. Eis aí, de forma alegórica, uma outra conseqüência: A CULPA NOS ENCLAUSURA NUMA MASMORRA DE ANSIEDADE E MEDO. Sansão era um guerreiro imbatível, impetuoso, livre para ir e vir, mas agora, tornara-se apenas um homem preso a grilhões, indefeso, inseguro. As amarras que o prendiam não eram de bronze, mais “cordas de solidão”, de desespero, laços de agonia, “algemas de medo”. A culpa, não raro, aprisiona as pessoas em si mesmas e as impede de crescer para fora e para dentro. É como se a vida ficasse “parada naquela estação”, parafraseando Marisa Monte. Estes grilhões se manifestam de várias formas: como distúrbios emocionais a partir de experiências que produziram culpa (estupro, violência física, abusos); pessoas que se tornaram inseguras e que não conseguem se posicionar na vida, pois foram alvo de críticas mordazes, comentário maldosos, humilhações; pessoas que foram exploradas com manipulações e chantagens; religiosos que foram ensinados a partir de uma espiritualidade neurotizada, calcada em dogmas, ritos e mitos do “sagrado”, gente que desenvolveu uma fé patológica, doentia, que tem em Deus a figura do juiz acusador.

Finalmente, a partir do texto de Sansão, ainda que metaforizado para uma aplicação que nos seja mais próxima, vejo A CULPA PRODUZINDO INSUMO EXISTENCIAL PARA A DEPRESSÃO. Diz o texto que o Juiz de Israel além de ter os olhos vazados, de ter sido algemado a grilhões de bronze, foi acorrentado para passar seus dias a girar uma roda de moinho. É a vida perdendo por completo toda sua significação e propósito. Imagine a mesmice sendo servida como prato a cada manhã. Sansão agora é vítima de uma rotina pavorosa, pois ele é constituído escárnio antes os seus inimigos, figura de deboche para o povo. Nestas circunstâncias, sem perspectivas existenciais, aprisionado num calabouço de medo e dor, vivendo a mesmice de dias onde todo o apetite pela vida se foi, o que resta é abraçar a dessignificação completa do ser. Os dias de Sansão já não possuem cor, sabor ou propósito. Tudo o que lhe resta é dar voltas em torno de si mesmo, girar a roda de moinho que se desloca em torno de um mesmo eixo e que nunca lhe leva a lugar algum.

Como pastor, tenho encontrado gente consumida pela culpa. A culpa que roubou a visão da vida, que tolheu os sonhos, que subtraiu os desejos. Encontro gente que parou no tempo, não consegue se livrar de cenas que, como tatuagens, ficaram gravadas na alma, se alojaram até no subconsciente, são demandadoras de medos infundados, de patologias das mais diversas. Encontro ainda os que sucumbiram as suas próprias escolhas e decisões, os deprimidos, os caídos, os que beijaram o chão na lona do ringue da vida. Sim, eu os encontro aos montões, gente moída, excluída, sofrida, gente que perdeu o sentido de ser gente.

Eu creio que as feridas feitas na alma não cicatrizam nem rápida nem facilmente. O perdão é parte do processo de cura, sobretudo quando ele deve ser liberado para aplacar a dor daqueles que nos feriram. Por outro lado, ser perdoado é uma dádiva que a vida reserva para poucos, pois poucas são as pessoas suficientemente generosas para conceder a alguém que lhe magoou o direito de nascer novamente em sua vida. Aos culpados, como eu, deixo as palavras do profeta Isaías. Espero que elas sejam capazes, como foram para mim, de iniciar a grande jornada para dentro de você mesmo, na busca da pacificação e do perdão. “Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados”. Isaías 53:5

Carlos Moreira


07 outubro 2010

Torre de Papel

Um túmulo basta agora àquele para quem não bastava o mundo inteiro”. Esta é a frase que está escrita no epitáfio de Alexandre III, Rei da Macedônia, dominador do  mundo, imortalizado pela história como “Alexandre o Grande”. 

O monarca, nascido em356 A.C., foi educado pelo filósofo Aristóteles, que lhe ensinou variadas disciplinas como retórica, política, ciências físicas e naturais, medicina, geografia, além de história grega. As conquistas de Alexandre são notáveis, pois ele era um homem profundamente obstinado, nada parecia lhe saciar o apetite. Dominou a Grécia, derrotou o império Persa e tomou o Egito.

Por fim, partiu para a conquista definitiva do oriente, tentando invadir a Índia. Todavia, com suas tropas cansadas de tantos anos de batalhas, decidiu regressar à Pérsia, numa viagem penosa na qual foi acometido de uma febre desconhecida que o levou a morte com apenas 33 anos de idade. O império que com tanto esforço edificou, começou a desmoronar, pois, só um homem com suas qualidades poderia governar território tão amplo e complexo, mesclado por povos e culturas tão diferentes.

Ambição é o desejo que o ser humano possui por algo grande e que planeja conquistar, muitas vezes não se importando, para atingir seu objetivo, em prejudicar a outros. O combustível da ambição é a ganancia, um desejo genérico de coisas grandiosas, como fortuna, glória, honrarias e poder. Segundo Edward Bach, “a ambição é uma negação da liberdade de toda alma. Ao invés de reconhecer que cada um de nós existe para desenvolver livremente suas próprias diretrizes, a personalidade ambiciosa deseja ditar, moldar e comandar, tentando, assim, usurpar o poder do Criador”.

Diante de prerrogativas tão poderosas, surge a questão: como sobreviver, no mundo em que vivemos, sem ter ambição? James Champy, autor do Livro “O Arco da Ambição”, afirma que “em nossa sociedade precisamos de pessoas ambiciosas, gente impelida por um poderoso desejo de mudar as coisas à sua volta e também o seu próprio destino”. Este mesmo paradigma está presente no mercado de trabalho. Empresas precisam encontrar pessoas capazes de gerar resultados, correr riscos, gente que coloque a carreira em primeiro lugar na vida e que, para atingir o sucesso profissional, esteja disposta a fazer qualquer sacrifício.

Vivemos dias muito difíceis no cristianismo. A infiltração da teologia da prosperidade no meio evangélico mudou o eixo de significação de vários pressupostos da fé e criou uma geração de pessoas dispostas a vencer no mundo, e não a vencer o mundo, como queria Jesus. Este novo contingente de crentes traduz-se numa repaginação das teses do sociólogo alemão Max Weber segundo a qual os calvinistas buscavam no sucesso econômico a evidência de sua eleição divina.

A Bíblia Sagrada, no episódio novelesco da Torre de Babel, mostra-nos, numa cultura tão distante e num mundo tão diferente do nosso, até onde pode ir à ambição humana. Ela conta-nos que em tempos remotos, num vale da Mesopotâmia, os clãs dos descendentes dos filhos de Noé – Sem, Cam e Jafé, em sua marcha para o Oriente, haviam, enfim, encontrado uma terra para se fixar. O lugar ao qual haviam chegado era a planície de Sinear, onde hoje é o Iraque. Noé e sua família traziam impregnada na memória a destruição causada pelo dilúvio, pois tinham sido testemunhas da grande destruição que sobreveio sobre os seres viventes em conseqüência do juízo de Deus. No mundo que havia sido destruído, o amor se afastara em definitivo do caminho dos humanos e a maldade, de todas as formas e meios, imperava absoluta.

Pois bem, eis aqui, diante dos olhos, estava a chance de um novo começo! Eis a possibilidade de escrever novos mapas, novas trilhas, de fazer projetos diferentes, de eleger outras prioridades para a vida, de semear valores e verdades no ser, de alimentar o coração de sonhos e de esperança. Quem não gostaria de uma oportunidade como essa? Diga-me com sinceridade, quem desprezaria isto?

O que passou, passou. Os erros cometidos podem ser concertados. As mágoas podem ser perdoadas. Os medos podem ser superados. As dores podem ser amenizadas. Agora, tudo pode ser feito de forma diferente! Mas não foi assim que aconteceu... Montesquieu diz: “Um homem não é infeliz porque tem ambições, mas porque elas o devoram”. Não era suficiente reconstruir a vida de forma simples e boa. Não era suficiente rever a existência, os valores, as escolhas, as prioridades e dar aos dias uma nova significação. Não bastava o coração pacificado e agradecido por tão grande salvação. Não, eles queriam mais. Eles queriam mais...

Foram em busca de saciar um tipo de apetite que só pode ser saciado pela morte, pois a boca dos ambiciosos só fica cheia com a terra da sepultura. Não bastava construir uma aldeia, com casas singelas, eles queriam uma cidade. Mas não bastava uma cidade, com sua agitação e efervescência própria, eles queriam nela uma torre. Sim, uma torre que os elevasse acima das nuvens. Mas não uma torre qualquer, mesmo que ela subisse além de toda altura possível ou imaginável, eles queriam uma torre que fosse até o céu, quem sabe, para sentarem-se junto ao Todo-Poderoso, ser como Deus.

Construíram uma torre, Babel, mas era apenas uma torre de papel. Diz o pensador que nada tem quem nada lhe basta. Eles queriam mais... Queriam escrever seus nomes na história, queriam notabilizar-se como empreendedores de uma obra única, inovadora, queriam empreender, ir aonde ninguém ainda havia ido. Os homens e seus sonhos de grandeza e poder... 

E você meu amigo(a)? O que você quer? O que tem buscado? Como ocupa os seus dias? No que está firmado teu coração? Qual é o teu maior compromisso na terra? O que você persegue? Quem sabe, talvez, você também esteja construindo “torres”. Quem sabe você está em busca de ter o nome reconhecido, ser capa da revista da empresa, ser entrevistado num jornal de grande circulação. Quem sabe você quer marcar a história com feitos notáveis, quer chegar ao topo da pirâmide, quer ir aonde ninguém ainda foi, ganhar dinheiro com alguma invenção, ser o criador de um novo negócio, um novo produto, escrever seu nome na história. Quem sabe??...

Sim, talvez você esteja nesta empreitada da vida, afadigado, atarefado, planejando, empreendendo, construindo. Sua “Babel” está em plena execução e, para torná-la real, nada mais lhe importa: família, amigos, nem mesmo Deus encontra tempo em sua agenda ocupadíssima. Tenho apenas uma coisa a lhe dizer, e digo-lhe porque já estive no “pináculo do templo”, transformando “pedras em pães. Sim, eu já fui workaholick – viciado em trabalho – profissional e de igreja – e o resultado foi desastroso. Perdi quase tudo o que tinha; perdi dinheiro, minha alma e minha fé. Apenas minha mulher me fez uma concessão de ficar comigo, caso as coisas mudassem. Não fosse isso, teria perdido também a família. Cuidado, amigo(a), para sua torre de “Babel” não se transformar numa torre de papel!

Cuidado, eu lhe digo, pois o desejo de construir uma vida boa e confortável é muitas vezes separado por uma tênue linha que nos revela, do outro lado da moeda, a escravidão que pode ser produzida pela compulsão desenfreada por conquistas megalomaníacas. Os filhos de Noé e seus descendentes não estavam satisfeitos com suas vidas. Queriam mais... E Deus percebeu tudo isso... Viu que os humanos não querem ser, mas ter, estavam alimentando o coração de ambições, não de verdades, queriam chegar até a “porta de deus”, que é a tradução do nome Babel.

De fato, eles queriam penetrar na morada do Todo-Poderoso, quebrar o limite entre o humano e o divino, o profano e o sagrado, a Terra e o Céu. Já não era a divindade que descera a Terra, agora, o próprio ser humano invadiria o Céu, e tudo graças à obra de suas mãos. Eu penso que é legítimo que nós possamos encontrar uma “planície” e nela nos estabelecer. Todos precisam achar esse platô na existência, esse chão, e Deus se agrada disso. Mas daí a construir “torres” há um abismo enorme.

Finalizo com o pensamento de Nietzche quando ele afirma que “um homem que aspira a coisas grandes considera todo aquele que encontra no seu caminho, ou como meio, ou como impedimento”. O Deus a quem sirvo nasceu numa manjedoura, não tinha onde reclinar a cabeça, morreu pobre e não deixou herança. No seu currículo de realizações apenas semeou o bem, amou pessoas, serviu transeuntes, acolheu desgraçados, deu-se em prol de muitos, entregou-se a si mesmo para que, na morte do “grão”, pudesse germinar vida, paz, reconciliação e esperança. Eis aí uma grande ambição...

Carlos Moreira

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