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09 janeiro 2014

Dublê Quase Perfeito



O “pecado” da Figueira era o disfarce. Era ter folhas e não ter frutos, estar decorada, mas não ter nada para oferecer, parecer apetitosa de longe, ainda que, de perto, estivesse pálida e seca.

Jesus não suportava esse tipo de estelionato. Ele sabia o quanto isso fazia mal ao ser. Aquela Figueira era uma arquetipia de Israel, uma representação daquela devoção que cumpria as etiquetas da religião enquanto, ao mesmo tempo, asfixiava as fontes da alegria de ser. Era o mal daquela geração: amargar existir apenas para fora. Sem frutos, a árvore secou. No correlato, sem amor, o que se pode aproveitar?

Hoje a Igreja é o Israel de Deus, a Kahal, a assembléia dos chamados à festa onde o perdão é servido como dádiva do amor no banquete da vida. Mas as dinâmicas da religião ainda continuam tão vívidas, privilegiam aparências, disfarces em plena luz do sol ao meio dia.

“Venha para cá!”, eles dizem. “Entre, sinta-se em casa. Aqui acolhemos a todos, sem distinção, sem prediletos”. Mas ao passar pela porta, você é orientado a pegar a sua máscara. Coloque-a sutilmente, ajuste-a levemente e sente-se confortavelmente. Aguarde um pouco e você logo ouvirá: “Não se incomode, aqui todo mundo está escondendo alguma coisa, aqui todo mundo é perfeito”.

Então, sorria! Seja o mais artificial que puder. Todos estão olhando e todo mundo sabe de todo mundo. No fundo, é como um grande baile onde a insensatez é senso comum. Você é fraudulento? Não se importe! Pareça honesto, fale de princípios, defenda a honradez! Nas próximas duas horas de “culto”, você pode ser quem quiser, só não seja você mesmo.

Você é gay? Não se atormente! Mas seja discreto, sente-se como macho, pareça um “pegador” e tudo estará bem. Se tiver um relacionamento, cuidado! Não cometa deslizes! Não vá esquecer de usar os artigos e pronomes sempre no feminino. Ademais, que importa que se saiba a verdade? Aqui, entre os “santos”, não pode haver “manchas” ou “máculas”. Deixe os incômodos para a dura realidade que está do lado de fora...

E assim, de disfarce em disfarce, os dias vão se arrastando... O mentiroso, como num passe de mágica, torna-se assertivo. E no picadeiro do mercado da fé, o fofoqueiro é confiável, o avarento, generoso e o hipócrita, autêntico. Até eu, que sou lixo, sinto-me são neste meio... Quisera, todavia, ser apenas pecador...


Mate-me, se preciso for, mas diga-me sempre a verdade na cara, crua e rara, verdade verdadeira! Não me deixe viver no engodo, não me deixe sucumbir no engano de mim mesmo. Livra-me da embriaguez de me imaginar protótipo de idealizações, projeto perfeito, quase rarefeito, de um Robocop espiritual que, na melhor das hipóteses, não passa de manequim de espantalho travestido de uma espiritualidade arrotada boca a fora, mas jamais encarnada como vida no chão do mundo.  

Carlos Moreira

2 comentários:

Uau..... Que mensagem maravilhosa....
Agradeço a Deus por sua vida....

Uau..... Que mensagem maravilhosa....
Agradeço a Deus por sua vida....

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É importante esclarecer que este BLOG, em plena vigência do Estado Democrático de Direito, exercita-se das prerrogativas constantes dos incisos IV e IX, do artigo 5º, da Constituição Federal. Relembrando os referidos textos constitucionais, verifica-se: “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato" (inciso IV) e "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença" (inciso IX). Além disso, cabe salientar que a proteção legal de nosso trabalho também se constata na análise mais acurada do inciso VI, do mesmo artigo em comento, quando sentencia que "é inviolável a liberdade de consciência e de crença". Tendo sido explicitada, faz-se necessário, ainda, esclarecer que as menções, aferições, ou até mesmo as aparentes críticas que, porventura, se façam a respeito de doutrinas das mais diversas crenças, situam-se e estão adstritas tão somente ao campo da "argumentação", ou seja, são abordagens que se limitam puramente às questões teológicas e doutrinárias. Assim sendo, não há que se falar em difamação, crime contra a honra de quem quer que seja, ressaltando-se, inclusive, que tais discussões não estão voltadas para a pessoa, mas para idéias e doutrinas.

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