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17 novembro 2010

Errar é Humano. Permanecer no Erro Também é.

Carlos Moreira



É bem provável que você já tenha ouvido falar da Torre de Pisa. Aliás, talvez muitos já, inclusive, tenham visitado-a. Trata-se de um campanário da Catedral da cidade, que fica por trás da igreja, e compõe juntamente como o batistério o Campo dei Miracoli.

O fato que a torna extraordinária, além de sua beleza magnífica – uma obra em mármore branco projetada pelo arquiteto Guglielmo e Bonanno Pisano em 1173 – é a controvérsia que há sobre o seu “defeito”. A questão é que a torre enfrentou problemas em sua fundação desde o início das obras e, por conta disso, ficou destinada a permanecer ligeiramente inclinada na vertical. Não obstante, permanece incólume na belíssima paisagem de Pisa e constitui-se, sem dúvida, num dos mais importantes pontos turísticos do mundo.

Em 1964 o governo da Itália solicitou ajuda mundial para evitar que a torre viesse abaixo, uma vez que a inclinação estava se acentuando gradativamente. Foi montada uma força-tarefa para trabalhar na estratégia de reparação e, entre 1990 e 2001, reforços ainda mais consistentes foram feitos com o objetivo de evitar a queda. Depreendi, então, destes fatos que “torre que nasce torta, morre torta”. A verdade é que, mesmo com as correções realizadas, colocar a torre em equilíbrio absoluto sempre foi algo impensável e, talvez, até impossível.

A inclinação da Torre de Pisa, com suas sucessivas tentativas de “concerto”, acabou me fazendo lembrar das “inclinações” da natureza humana. Mesmo aqueles que já tiveram suas vidas regeneradas pela “água” e pelo Espírito, intrigantemente, ainda continuam se “inclinando” para aquilo que já não lhes diz mais respeito. Paulo me ajuda a explicar isto com o texto de Romanos a seguir: “Pois o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer, esse eu continuo fazendo.” Essa famosa afirmação é uma das mais estudadas e comentadas das Escrituras. Autores notáveis da teologia já nos brindaram com exegeses extraordinárias sobre ela. Mas o que eu gostaria mesmo era sair dos aspectos teológicos, que me apaixonam, e entrar nos desdobramentos existenciais, que tratam das questões práticas e cotidianas da vida.


Você certamente já ouviu a famosa frase de Cícero: “Qualquer pessoa pode errar; mas ninguém que não seja tolo persiste no erro”. Pois bem, na minha insignificância, ouso discordar dela, ao menos de um determinado ponto de vista. E qual é ele? O fato de tratarmos a existência apenas como “coisa” lógica, matemática, científica, exata. Errar duas vezes a soma de (2 + 2) parece algo impensável e despropositado. Mas achar-se em contradições, perceber-se em ambigüidades, flagrar-se cometendo o mesmo pecado ou surpreender-se amedrontado, são eventos que não podem ser tratados desta forma, pois não fazem parte da mesma “categoria” de coisas. Nestes casos, não estamos lidando com a existência cartesiana, mais com vivências existenciais que nos projetam para o inexato, para o terreno pantanoso da alma, das idiossincrasias de cada ser, para as dimensões psicológicas, intrasubjetivas e até inconscientes dos humanos.

Digo isto porque tenho observado, nas conversas com pessoas religiosas, que elas estão se tornando “seres” neurotizados, gente apavorada, ansiosa, que está tentando “domesticar” os impulsos do corpo, as fragilidades da mente, as pulsões da alma e isto utilizando como recurso único as famosas “bulas” do jejum e da oração. Que tragédia! E vou explicar... Não estou afirmando que a santificação seja algo superado para se enfrentar os dramas do mundo contemporâneo. Sei que estas práticas são armas poderosas para destruir sofismas e fortalezas. Mas olhar para certas questões restringindo-as apenas a esfera “espiritual” é produzir um reducionismo na vida que, inexoravelmente, gerará o esvaziamento da fé, a falta de compreensão sobre a graça e a desilusão quanto à misericórdia de Deus.

Minha constatação é que essa bizarrice, filha de uma hermenêutica adoecida, pregada nos púlpitos de muitas igrejas como sã doutrina, apenas nos remete aos ditames e modelos da idade média. Olho para certos comportamentos e me surpreendo ao ver pessoas vivendo práticas monásticas – a “fé” que busca “mortificar” o ser – o que as leva a experimentar um “gnosticismo repaginado”, um “estoicismo reformado”, um sincretismo de doutrinas desviantes de um cristianismo, cada vez mais, agonizante.

Deixe-me lhe dizer algo: há problemas que são espirituais e lutas que são de dimensões metafísicas e, contra estas coisas, não digo que você se dê ao desplante de resolvê-las com “manuais de auto-ajuda evangeliquês” tipo: “10 passos para a vitória em Cristo”. Este vento de doutrina gospel produzirá apenas frustrações, pois estas “teses” não possuem qualquer eficácia contra tais situações. Considerar isto já revela uma espiritualidade infantilizada, crianças brincando de “batalha espiritual”. Em circunstâncias desta natureza, sugiro colocar seus joelhos no chão e, com coração contrito, buscar a face de Deus, conforme Vauvenargues nos ensina, pois “a fé é a consolação dos miseráveis e o terror dos felizes”.

Mas há dimensões da existência que estão no plano horizontal, na instância da normalidade, das circunstanciais triviais, ainda que alguns queiram transformar tudo em “ataques demoníacos”. Ora, existem questões que fazem parte do caminhar do caminho e se elas nos levam, por vezes, a experimentar a “queda”, é apenas para que retomemos o fôlego e voltemos à “batalha”. Há pecados que você vencerá em definitivo em sua história. Contra outros, todavia, você lutará indefinidamente sem, contudo, conseguir livrar-se totalmente deles. O pecado só será extirpado em definitivo de sua vida na Redenção do seu ser, quando não só sua consciência, mas suas próprias entranhas serão reconstruídas pelo poder da Ressurreição de Cristo. Aí, sim, você será como Ele é, com um corpo incorruptível! Até lá, é levantar, cair, e levantar de novo.

Quem assim entender a vida cristã, caminhará com o coração pacificado, pois estará sempre a ouvir “a Minha graça te basta, pois o poder se aperfeiçoa na fraqueza”. Quem quiser teologizar e criar doutrinas baseadas em exegeses de homens será, na melhor das hipóteses, carregador de fardos de fariseus e escribas e, tristemente, verá sua fé minguar e suas forças se esvaírem. Quem viver verá...

Todos nós estamos sendo transformados pelo Espírito Santo – de dentro para fora. Mas Deus é inimigo da pressa! Ele não esmagará a nossa alma nem aniquilará nossos sentimentos no intuito de que possamos atingir rapidamente uma espiritualidade biônica. Não. O que nos certifica as Escrituras é que, “aquele que começou a boa obra em sua vida irá completá-la até o dia de Cristo”. Paulo nos ensina que, mesmo desejando ardentemente experimentar outras dimensões da fé, ainda continua a fazer coisas que abomina. Discerne, todavia, que aquilo já não é mais ele quem faz, e sim o pecado que nele habita. Assim, crê que, um dia, o corruptível se revestirá de incorruptibilidade, e o mortal de imortalidade.

A Torre de Pisa continuará inclinada, mesmo que esforços tenham sido feitos para corrigir o problema. Alguns dizem que é por causa do turismo, do mito, do inusitado. Outros dizem que é por questões de engenharia, de estrutura, e que é impossível resolver a questão sem destruí-la. Mas que importa? Relevante é o fato que ela dignifica o espírito humano, brinda-nos com sua beleza, desafia as leis da física e, o mais importante, continua de pé!

Antônio Vieira afirma: “Todos atiram ao alvo e poucos acertam, porque o acertar é de uma só vez, e o errar é de muitas”. Você tem um alvo: Jesus. Ele é a plenitude de todas as coisas e para onde tudo converge. Ele é a estatura do homem perfeito, o “arquétipo” do humano preenchido pela excelência do Divino. Por isso saiba: aqui, ali, você errará o alvo; e não serão raras as vezes que se desviará do “caminho”, pois “o cair é do homem, e o levantar é de Deus”. Mas lembre-se: para cada erro seu, existe 70x7 perdões de Deus! E essa medida é apenas para um único dia. No outro, o saldo zera, e a misericórdia renova-se como a aurora. Para os que não sabem o nome disso é Graça.

Carlos Moreira é culpado pelo que escreve. Já está julgado e é réu confesso do Genizah. Outos textos seus podem ser lidos em A Nova Cristandade.



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