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13 agosto 2010

Quando eu era Moço


Pedro, para mim, é sem dúvida alguma a figura mais emblemática no grupo dos discípulos de Jesus. Sempre ao lado do Mestre, desfrutando de uma intimidade concedida a poucos, ele protagonizou cenas das mais importantes nos Evangelhos.

Pedro é apaixonante porque é autêntico, original, não obstante suas ações revelarem um ser temperamental, impulsivo e, por vezes, descontrolado. Algo nele, todavia, sempre me chamou a atenção: “Senhor, tu sabes que eu te amo...”.

Eu Já preguei algumas vezes sobre o texto de João 21. Nele está presente, provavelmente, um dos encontros mais inusitados das Escrituras, o encontro final do Senhor com Pedro. Aquela altura, a ceia, o Getsêmani, o Palácio de Herodes, a conferência pública de Pilatos e o Gólgota já haviam ficado para trás. Pedro havia negado Jesus, três vezes até cantar o galo, como o Senhor lhe falara. Naquele derradeiro encontro, era necessário haver o “acerto de contas”.

Fico imaginando o que se passou, naquela manhã, no coração do pescador da Galiléia. Angustiado, devia estar sofrendo ao pensar nas reprimendas que iria receber. Ansioso, suava frio e cogitava a respeito das palavras duras que o Nazareno lhe jogaria na face. Era uma agonia sem fim, a alma se retorcia em cólicas de desespero e dor. “Pedro, quero conversar com você”. O momento havia chegado...

Ao contrário de toda expectativa, o diálogo de Jesus é meigo e manso. Uma única pergunta, repetida como um mantra, resumia tudo o que Ele desejava saber: “Pedro, tu me amas?”. Parece inimaginável. Com o tempo, entretanto, entendi os porquês... Só quem ama é capaz de curar feridas produzidas no coração.

É bem provável que Pedro tenha ficado sem saber o que fazer. Seus olhos encheram-se de lágrimas e sua alma derreteu-se como sorvete. Jesus, todavia, guardou algo surpreendente para o final: “Em verdade, em verdade te digo que, quando eras mais moço, tu te cingias a ti mesmo e andavas por onde querias; quando, porém, fores velho, estenderás as mãos, e outro te cingirá e te levará para onde não queres”. Jo. 21:18

A frase profética, que quase diluiu-se no texto pela grandeza do que foi anteriormente dito, tem contornos profundos e implicações ainda maiores. De forma reverente, mas incisiva, o Galileu alertou ao amigo sobre duas coisas que ele precisaria cuidar dali para frente.

A primeira era sobre sua independência – “tu te cingias a ti mesmo...”. Pedro parecia um “rebelde sem causa”. Demonstrou por vezes não ligar para nada. Era capaz de tomar atitudes extremas, de falar de forma precipitada, de agir pelo impulso regado pela emoção. Existia apenas de si para si mesmo. Nem precisava nem dependia de ninguém. Jesus, entretanto, lhe advertiu: “quando, porém, fores velho, estenderás as mãos, e outro te cingirá...”.

Não posso afirmar com certeza o que Ele quis dizer. Talvez tratasse do espírito voluntarioso de Pedro. O que me apercebo, todavia, é que mais cedo ou mais tarde teremos de admitir a relevância das pessoas em nossas vidas, seja para o bem, seja para o mau. Sim, as relações que construirmos, ou mesmo as que destruirmos, farão enorme diferença quando ficarmos velhos e frágeis. Tanto poderão nos “cingir” com óleo de alegria, quanto nos tornar o espírito angustiado.

A segunda coisa que o Galileu disse a Pedro foi: “...andavas por onde querias...”. Até aquele dia, o bordão de Pedro era o da música do Gilberto Gil: “o meu caminho pelo mundo eu mesmo faço”. Ele não se preocupava com a dimensão nem com os desdobramentos de suas escolhas e atitudes. Era circunstancial, como um pêndulo, oscilava entre um caminho e outro, sempre de acordo com suas conveniências.

Contudo, na fala de Jesus, suas decisões iriam levá-lo “para onde não queres”. Tudo, absolutamente tudo que fazemos tem repercussões em nossas vidas. Não é a toa que Paulo nos exorta “aquilo que o homem semear, isto também ceifará”. É o princípio da semeadura e da colheita materializando em todos os contornos da existência os desdobramentos das atitudes humanas.

Eu creio que aquele dia foi um dos mais importantes na vida de Pedro. As palavras do Nazareno ecoaram em sua consciência e coração até o último momento de sua vida. Mais tarde, o pescador rude dos mares da Palestina se tornaria um “pescador de homens”, um baluarte da Igreja neotestamentária, um Apóstolo de Jesus Cristo. Sua vida e testemunho foram decisivos para que o Evangelho se espalhasse sobre a Terra e alcançasse os quebrantados de coração.

Reza a tradição da Igreja que Pedro glorificou a Deus morrendo em Roma, no circo do imperador Nero, crucificado de cabeça para baixo, para não se assemelhar em sua morte com o seu Senhor. Foi vestido por outro e levado, conforme afirmava o texto, para o encontro com a morte. Mas sua morte foi apenas o começo de sua verdadeira vida.

Eu já fui como Pedro, quando era moço, independente e impulsivo... Mas os anos estão se passando... Eles têm trazido lições preciosas para vida, porções de graça em doses homeopáticas. As dores e perdas experimentadas na poeira do caminho estão construindo em mim um ser melhor. O tempo da colheita está chegando, pois a semente semeada pelos que andam e choram sempre produz frutos de paz e justiça.

A esta altura da caminhada, aprendi a não esperar mais nada de ninguém, nem mesmo de mim... Estou agradecido por poder apreciar o orvalho que cai sobre a terra a cada manhã para cobrir a vida de misericórdia e perdão.

Ainda desejo construir relacionamentos profundos, com gente boa de Deus, pois os dias difíceis em breve chegarão. Dê-me também o Senhor sabedoria para fazer as escolhas certas, pois elas me conduzirão aos pastos verdejantes, e não ao vale da sombra da morte.

S o l a G r a t i a !

Carlos Moreira

1 comentários:

Parabéns. Lindo texto.

Felipe M.

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