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23 julho 2009

Igreja Autofágica


Em seu livro “A Segunda Reforma”, Willian A. Beckhan conta a história de Larry, um pastor exaurido pelo ministério, que afirma, com um profundo sentimento de decepção, durante um congresso de pastores, que “se não encontrar algumas respostas, vai sair dali e pescar”.

O personagem Larry, do escritor Willian Beckhan, é na verdade um tipo que representa um grupo maior de ministros do evangelho comumente encontrados nas igrejas e para os quais o ministério não fará mais sentido se continuar do jeito que está. Ele representa os pastores que estão a ponto de largar o ministério, a fé e a igreja para se tornarem corretores de seguro, criadores de galinha ou pescadores (de peixes e não de homens), contanto que isso faça algum sentido.

Mas afinal de contas, por que isso acontece? O que faz um dedicado ministro de Deus se sentir exaurido e oprimido depois de seis meses de pastorado? Por que os sonhos se despedaçam à medida que nos envolvemos de forma mais efetiva no ministério? Será que Deus tem prazer em aniquilar os seus profetas em pleno exercício ministerial?

Durante muito tempo não entendi porque tantos pastores afirmavam que no dia-à-dia do ministério, a teologia não servia para nada. Hoje, no entanto, mesmo não concordando com essa afirmação bizarra, responsável pelo analfabetismo bíblico e teológico do qual congregações e pastores são vítimas, compreendo perfeitamente o que está na sua base.

As tensões políticas, a luta pelo poder, o espírito faccioso e a perversidade disfarçada de boas maneiras, tomaram uma proporção tal dentro das igrejas que para muitos pastores talvez fosse melhor ler “O príncipe”, de Maquiavel, do que estudar teologia e ler a Bíblia. A teologia e o conhecimento da Bíblia serão sempre dispensáveis numa igreja regida pela perversão, motivo pelo qual os melhores teólogos e biblicistas do país são geralmente preletores e conferencistas e não pastores de igrejas locais.

Na base de todo o desgaste ministerial está o triste fato de que a igreja tornou-se autofágica, ou seja, ela alimenta-se de si mesma. Ela devora suas próprias partes, come sua própria carne e o seu prato predileto são os ministros evangélicos, sobretudo os recém-formados. O canibalismo insano da igreja reflete-se no fato de que é ela mesma que cria os problemas que destruirão os seus líderes.

É o sistema famigerado e perverso criado pela instituição religiosa que está produzindo em série remessas quilométricas de ministros fracassados e igrejas improdutivas. A deglutição de líderes, como o bem intencionado Larry, não passa de um subproduto e um resíduo de uma estrutura que precisa ser revista.

Agindo dessa forma, a igreja, tal e qual o deus Kronos da mitologia grega, vai se alimentando dos seus próprios filhos, abandonando seus próprios soldados, comendo suas próprias carnes, atentando contra sua própria vida e se tornando protagonista de sua própria destruição. Pastores fracassados são, na maioria das vezes, meros reflexos de um sistema igualmente fracassado, não obstante a responsabilidade individual de cada um.

Por todos esses motivos, gostaria de dar uma sugestão: Cada vez que um ministro falhar, ao invés de perguntarmos por que ele falhou, devemos indagar: Por que nós falhamos? Por que a igreja falhou?

Chega de bodes expiatórios para os quais transferimos irresponsavelmente nossa culpa coletiva, caso contrário crescerá até o infinito o número de ministros que, como o Larry de Beckhan, abandonarão o ministério da palavra de Deus para se dedicar a uma pescaria que, no mínimo, deverá ser considerada um claro sinal de apostasia.

André Pessoa

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