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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.

16 novembro 2010

O Crente que Virou Suco

“O Homem que Virou Suco” é um dos melhores filmes brasileiros que eu já assisti. Lançado em 1981 e dirigido por João Batista de Andrade, traz em seu elenco atores fabulosos, destacando-se o extraordinário desempenho do ator José Dumont.


O roteiro da película, que ganhou vários prêmios, tem como pano de fundo a migração de nordestinos na direção da grande explosão industrial da região sudeste. No filme, Deraldo, um poeta popular recém-chegado do Nordeste a São Paulo, tenta a sobrevivência através da venda de suas poesias e folhetos. Confundido com um operário de uma multinacional que mata o patrão, passa a fugir da polícia e a envolver-se numa infinidade de acontecimentos que vão desnudando os dramas dos imigrantes que vivem numa metrópole. Ao final, Deraldo acaba lançando uma espécie de autobiografia – “O Homem que Virou Suco” – que trata da grande lição que ele aprendeu em sua resistência a sociedade opressora, que tenta esmagar o homem e eliminar suas raízes e convicções.

Pois bem, a ligação do filme com este texto tem a ver com um telefonema que recebi esta semana de um amigo que estudou comigo na Faculdade de Administração. Ele estava entusiasmado por ter, finalmente, se “convertido” a uma determinada “igreja”, mas sua fala era desconexa e bastante confusa, uma narrativa entrecortada o tempo todo por chavões religiosos. Lembro bem que, ao final de cada frase, repetia como um mantra as expressões: “Glória a Deus”, “Santo, Santo”, ou “Aleluia”.

A conversa durou cerca de 20 minutos. Nela ele me relatou a forma bizarra – maravilhosa para ele – como vinha vivendo os últimos 2 anos. A narrativa começou com a seguinte frase: “entrei para a lei de crente!”. Assustei-me profundamente! Eu lembrava bem do Flávio – vou usar este nome fictício para resguardá-lo. Era um cara bonachão, gozador, contador de piadas e tomador de cachaça, paquerador inveterado de mulheres. Como trabalhava numa grande multinacional e ganhava bem, era capaz de promover a qualquer um(a) que com ele saísse uma noitada de dar inveja a Giacomo Casanova, o grande sedutor Italiano.

Agora, entretanto, estava eu a falar com um sujeito que me parecia mais santo do que Jesus Cristo. Sua história, todavia, não é muito diferente da de outros tantos que tenho encontrado por aí: uns em gabinetes pastorais, alguns em consultórios psiquiátricos, e a grande maioria de volta a velha existência de onde um dia havia saído. Naqueles vinte minutos sufocantes, Flávio me contou um pouco de sua vida. Disse-me como havia passado em tão curto tempo por 9 denominações diferentes, indo da igreja histórica reformada ao neopentecostalismo. Mudou de ideologia religiosa como quem muda de bar. Em cada uma que ia, encontrava “problemas” que o levavam a ter de buscar uma outra.

E foi assim que começou a descrever sua triste peregrinação. “Mudei de uma “igreja” porque o louvor era fraco. Numa outra o problema era o pregador. Em uma, havia silêncio demais; já em outra, a gritaria era ensurdecedora. Numa falava-se língua estranha; na outra língua esquisita, pois eu não entendia nada sobre os conteúdos do sermão”. E assim, de “igreja” em “igreja” – ou de suplício em suplício – chegou, então, ao “paraíso”. Agora sim, um lugar perfeito. Nesta “igreja” a qual ele se “converteu”, uma vez que lhe ensinaram que até então ainda não havia se “convertido”, ele enfim encontrou-se. Mesmo achando curioso o fato de ter se convertido a “igreja” e não a Jesus, não quis interromper sua narrativa...

Pois bem, neste “santo lugar”, ou seria melhor dizer “santo dos santos”, havia de tudo o que ele sempre sonhara. “Seções de exorcismo”, “correntes de promessas”, “campanhas e batalhas”, “louvor gospel”, “profecias”, “revelações”, “visões”, um pacote completo do “sobrenatural” a serviço da comunidade. Agora sim, o “culto” dava-lhe plena satisfação. O “deus” que ali se “apresentava” era mais performático que Britney Spears. Por fim, disse-me algo estarrecedor: “amigo, tenho dado 35% de dízimo ao “pastor” e, na semana passada, para “glória de Deus”, doei o meu carro para uma grande campanha que estamos empreendendo”. Aí, para mim, foi o fim...

Fiz menção de que tinha de desligar, pois sabia que não havia qualquer condição de argumentar com ele absolutamente nada. Foi então que Flávio me disse: “irmão, estou passando por grande luta. Minha mulher acaba de me deixar, pois disse que eu fiquei maluco. Minha empresa me demitiu, porque eu andei faltando a umas visitas para ir fazer a “obra de Deus”, buscando assim o “reino” em primeiro lugar. Sei que tudo isto é obra de satanás – imagina?! – e quero que o irmão entre em batalha comigo”. Aí, então, eu disse a ele que seria bom nós conversarmos pessoalmente. É que a grande batalha que eu enfrento todos os dias é contra o trânsito da minha cidade.

Desliguei o telefone e pensei comigo: “eis aí mais um crente que virou suco”. Ele é o retrato de uma geração que está se desmaterializando psíquica, emocional e espiritualmente. Do desmantelo deste trinômio, outras desgraças acabam surgindo em seqüência. Para mim ficou claro que sua mente está totalmente cauterizada, pois ele parecia ter sofrido uma lavagem cerebral. O sincretismo de tantas “doutrinas” diferentes, criado a partir das várias denominações que freqüentou, construiu em sua consciência a configuração de um tipo de “evangelho” que nada tem a ver com Jesus Cristo. Sua matriz de valores é um aglomerado de conceitos tortuosos que mistura crendices, misticismo e “profetadas”.

Não tenho a intenção de ofender ninguém neste artigo. Se você pertence a uma “igreja” que tem essas características, caia fora de lá hoje, agora! E mais... Se alguém achar ruim, principalmente seu pastor, peça a ele para entrar em contato comigo! Terei prazer em conversar com ele... Meu querido(a), isso não é igreja, isso é macumba! É ambiente de mistura religiosa que sincretiza práticas medievais, doutrinas judaizantes, feitiçaria, religiões de mistérios e outras maluquices para espoliar gente inocente ou desesperada. Você não está lidando com profetas, mas com patifes! Não está tratando com homens do sagrado, mas com traficantes de ilusões, vendedores de barganhas com a “divindade”, intermediários de promessas ilusórias, feiticeiros da religião institucionalizada, gente perversa que age de forma pervertida.

Não acredite em nada do que estou falando. Eu posso ser um “agente de satanás” para afastá-lo do “verdadeiro caminho”. Contudo, eu lhe suplico: abra as Escrituras, releia os Evangelhos e as Epístolas, ore ao Espírito Santo para lhe esclarecer as verdades da fé e lhe dar discernimento espiritual e, em seguida, compare suas conclusões com as práticas que estão sendo executadas nestes terreiros religiosos. Tenho a certeza de que isso será suficiente para lhe revelar os contornos de quem serve a Deus, de quem serve a si mesmo e, não raro, de quem serve a satanás!

Flávio, meu amigo, ficou de encontrar-se comigo esta semana. Não sei se será possível fazer algo por ele. É que sua alma virou pasta e sua consciência suco. Ele perdeu as referências mais básicas da vida, o senso crítico e o poder de avaliar as coisas com isenção. Foi engolido pelo “sistema”. Talvez já tenha ido tão longe que terá por destino fazer parte das estatísticas. Irá, mais cedo ou mais tarde, parar num consultório psicanalítico, com vistas a tratar as profundas distorções geradas em sua psique, ou voltará ao tremedal de lama de onde um dia imaginou ter saído, tornando-se exposto, aí sim, a ser possuído por espíritos sete vezes piores que os que, eventualmente, o atormentavam.

A construção de uma espiritualidade sadia e sustentável não passa por mudanças exteriores, as quais são apenas capazes de criar uma “caricatura espiritual”, um “boneco da religião”, um ser com linguagem de gueto, crenças distorcidas e comportamentos bizarros. Ela também não está associada a sucessivas mudanças de igrejas, seja por que questão for. Ouça meu conselho: ache uma séria, e fique nela. Viva a fé com simplicidade, relacione-se com um pequeno grupo de discípulos, leia com regularidade as Escrituras, ore com freqüência, e você verá que estes “fantasmas” que, eventualmente lhe assombraram, desaparecerão.

Por fim, deixe que Deus opere em você as mudanças que se fazem necessárias. E lembre-se: Ele não descaracteriza ninguém, não muda sua beleza e singularidade, não avilta suas características básicas, não desconstrói sua alma, mas, em amor, pacientemente, ressignificará sua consciência para que você possa materializar uma espiritualidade conseqüente. Como bem disse Dom Helder Câmara “é preciso mudar mundo para ser sempre o mesmo”. Creia-me: as mudanças virão, mas não lhe tornarão alguém que você, de fato, não é.


Carlos Moreira

15 novembro 2010

Caçador de Mim

Sou um homem em busca de mim mesmo; ainda não me encontrei, mas continuo procurando. De uma coisa tenho, porém, certeza: não sou o que fui até agora. Pertenço à outra “pátria”.


Não sou o homem mesquinho, ciumento e às vezes violento que demonstro ser.



Não sou o homem apressado e agressivo que alguns dos meus gestos e as minhas palavras fazem perceber.


Também não sou a alma glacial que alguns julgam. O meu coração não é gelado, apenas sei que os sentimentalismos nos quais muitas pessoas estão envolvidas são artifícios usados para fugir de uma realidade que não as agrada.

Não sou nada disso, nem mau e nem bom. Não sou moral e nem imoral. As convenções me enojam. Sou apenas um ser transcendente, incompleto e que assume com todas as letras a própria incompletude.


Pensando bem o que de fato sou ainda está por nascer, sou apenas um feto existencial agora mais perto da concepção. Sou apenas uma criança que começou a sair do ventre da mãe. Só uma pequena parte de mim veio à luz até agora.


Só serei de fato o que nasci para ser quando o outro morrer; por enquanto ele luta desesperadamente para continuar entronizado no meu mundo interior, mas os seus dais estão contados. Só na morte há vida!

Sinto-me estranho em mim mesmo e nada que me é externo poderá me satisfazer. Alienígena em meu próprio corpo, eis o que sou. Preciso me emancipar, romper os grilhões da mediocridade, voar mais alto.

Ainda me preocupo demais comigo mesmo, ainda cobro demais dos outros. Devo deixar os outros em paz! Não fui constituído juiz das pessoas e das coisas, apenas nasci para percorrer o próprio caminho a mim destinado. Se os outros andarão pelas minhas veredas é um outro problema.

Não suporto mais viver desse jeito: “independência ou morte!”. Não suporto mais ser escravizado pelas demandas do cotidiano. Os cartões de crédito, os flanelinhas, o individualismo, a fome de dinheiro, a injustiça (inclusive a minha), tudo isso me oprime e me consome. Nada disso me pertence!


O meu ser está dilacerado, estou aos pedaços, todas as minhas ilusões foram destroçadas (graças a Deus!), inclusive as que dizem respeito a mim mesmo. O mundo que me aprisiona não irá mais me conter, começo a ficar livre. Sou uma ferida que anda.

Eu sou livre, nasci para ser livre. Não quero mais o “ouro de tolo” pelo qual os homens matam uns aos outros. Não receberei mais os presentes que me são dados com lisonja, mas que querem me destruir, me anular como ser existente.

Preciso arrumar as malas e ir embora desse mundo mesquinho que entrou em mim sem que eu percebesse, somos incompatíveis. Não posso continuar sendo escravo dos sentidos e morrer abraçado com a herança miserável que recebi desde o meu nascimento. Chega, não agüento mais!

Estou sendo tragado pelo infinito, sinto que estou me desmaterializando! Desde ontem que não sou mais o mesmo; percebi isto quando fui dormir ainda muito cedo. A minha morte já havia sido anunciada antes. É que o infinito vai nos tomando aos poucos, assim como se bebe um copo d’água.

André Pessoa via Século XXI

11 novembro 2010

MATRIX

Em biologia o crescimento está relacionado ao aumento do tamanho do organismo e o desenvolvimento à capacidade de executar funções. Portanto, pode haver crescimento do organismo sem que haja necessariamente desenvolvimento do mesmo.

Na teoria econômica, crescimento também é diferente de desenvolvimento. Crescer é acumular riqueza, produzir mais e multiplicar o PIB. Desenvolvimento, porém, tem a ver com melhoria dos índices de IDH, com diminuição dos desníveis regionais e com distribuição equitativa de renda.

No que diz respeito ao homem o mesmo acontece, ou seja, todos, de uma forma ou de outra, crescem, mas poucos chegam a se desenvolver. Crescimento no âmbito humano, assim como nos outros organismos vivos e na economia, relaciona-se com aumento de tamanho e com acúmulo de riqueza.

Por exemplo, quando alguém diz que deseja crescer é no aumento das dimensões físicas e no poder aquisitivo que está pensando. Neste sentido, é correto dizer que é exatamente o desejo de crescer, a ambição doentia e a ânsia para possuir status social e riqueza que impedem o desenvolvimento.

Não há nada, nem mesmo nas ações mais altruístas do ser humano, que não revele a sua ânsia por dominar, abranger e acumular. A idéia de lucro e de domínio é tão forte e habita com tanta naturalidade o inconsciente coletivo que nada é considerado importante se estiver desvinculado da idéia de lucro. Êta capitalismo selvagem!

Duas semanas atrás ouvi um ambientalista desesperado em um programa no rádio querendo convencer as pessoas da necessidade imediata de proteger o meio-ambiente e em especial os corais que de acordo com o que ele disse é de suma importância para o bom funcionamento do ecossistema marinho.

Até aí tudo bem, não existe nada de mal, muito pelo contrário, em conclamar as pessoas urgentemente a preservarem o meio-ambiente. O problema é que a única maneira que o referido ambientalista encontrou para convencer as autoridades e a iniciativa privada a preservar a biosfera foi argumentando que espaço natural
preservado gera lucro e dá dinheiro.


Eis aí o grande problema de tudo o que existe no mundo contemporâneo capitalista, da economia à religião: até quando fazemos a coisa certa, fazemos pelo motivo errado. Mas por que será que as coisas são assim? Por que é preciso chamar à atenção para o lucro financeiro proveniente da preservação do meio-ambiente para despertar a consciência ecológica nas pessoas?

A resposta é: porque a nossa matriz cognitiva é defeituosa, o nosso molde de pensamento é imperfeito, a fôrma que multiplica as nossas idéias é mesquinha e equivocada.

O homem já nasce em um meio social cujo pensamento e as intenções estão totalmente corrompidos.
Somos revestidos desde criança com uma espécie de capa que nos envolve em pensamentos e projetos medíocres e impede a visão real das coisas. A sociedade molda-nos desde a mais tenra idade segundo os seus propósitos materialistas, egoístas e emocionalistas muito cedo.

Somos deformados desde a maternidade, passando pela família e terminando o processo de desnaturação no ensino formal. A concepção que nos ensinam quando criança sobre o homem e a finalidade da existência, a criação recebida nos lares e a educação nas escolas e universidades deformam-nos irreversivelmente, transformam-nos em “bebês chorões e egoístas”.

Marginais, estupradores, débeis mentais, psicopatas, anoréxicos, estelionatários, demagogos, líderes religiosos maquiavélicos e políticos corruptos são todos refugo e substrato de um processo constante de produção de seres alienados e perversos pela sociedade. “Somos quem podemos ser...” diz a letra de uma das músicas do grupo Engenheiros do Hawaí.

Tal e qual o fordismo, a sociedade contemporânea produz em série, mas não automóveis, e sim lixo humano. Basta observar os interesses e projetos das pessoas que nos rodeiam para constatar que na melhor das hipóteses elas são superficiais e limitadas pelos interesses banais do sistema instituído. Somos frutos da Matrix!

Há, porém, outro caminho que rompe com esse conjunto de coisas, que liberta o pensamento e as ações tornando-nos seres humanos na plena acepção da palavra. Esse caminho, entretanto, por não ser ordinário parece estranho a maior parte das pessoas.

Como começar a andar por ele? Respondo: não fazendo. Eis o primeiro passo para mudar: não fazer aquilo que todos fazem e que nós mesmos temos feito. Ou melhor, não é necessário apenas não fazer e sim não fazer pelos mesmos motivos que os outros fazem. A mudança começa em uma nova motivação.

O caminho verdadeiro é algo inabitual, é uma estrada ao lado da estrada, é um caminho dentro do caminho. Não é um atalho, é bom que se diga; é um caminho, mas um caminho escondido, oculto a maioria dos olhos exatamente porque é óbvio.

André Pessoa via Século XXI

10 novembro 2010

Quando é Preciso uma Segunda Chance

Recentemente, lendo uma crônica de Luiz Fernando Veríssimo, onde ele descreve, com sua habilidade e ironia peculiar, as frustrações que experimentamos diante das inúmeras alternativas e possibilidades que temos na vida, senti uma imensa nostalgia me invadir o ser. É que Veríssimo escreve que freqüentemente as pessoas se perguntam, com uma forte dose de recalque: "por que não aceitei aquele convite? Por que não mudei para aquela cidade? Por que não fiz vestibular para medicina? Por que não casei com aquela pessoa?".


A boa leitura me fez pensar e considerar o quanto a vida é fragmentada, rompida, por causa de decepções e desilusões que sofremos. Ao lamentar as escolhas erradas, as oportunidades perdidas, as experiências que tivemos ou as que evitamos ter, criamos uma ruptura em nossa história e deixamos nascer um processo descontinuado em nossas narrativas pessoais que acaba, por fim, comprometendo nosso crescimento e amadurecimento.

Como pastor observo que a escuta “terapêutica”, por vezes, se torna um depósito de amarguras e frustrações. As traições, os abusos, os abandonos, as escolhas erradas, as mentiras, e muitos outros aspectos fazem adoecer a alma e criam em nós feridas expostas, profundas. Se fosse possível, eliminaríamos em definitivo do livro da nossa história tais episódios. Mas a trajetória de cada um é escrita com todos os matizes possíveis, pois eles estão presentes no caminhar da existência. Ignorá-los, ou tentar apagá-los, não fará deles uma realidade menos presente. O fato é que a vida é feita mais de derrotas do que de vitórias! Quem já não sofreu uma derrota? Quem já não se viu vencido por uma circunstância, por um problema, por uma crise, pelo pecado? O poeta diz que “quem na vida não sofreu, passou pela vida e não viveu”.

E você? Já sofreu perdas na vida? Já beijou a lona? Já “quebrou na emenda e estourou no pito”? Já foi visitado pelo fracasso? Gosto muito da frase de Thomas Watson “o caminho para o sucesso é dobrar a taxa de erros”. Eu acredito que todos nós precisamos, sempre, de uma outra oportunidade. Alguns precisarão até de mais; uma terceira, ou uma quarta... Às vezes isso é possível; às vezes, não... Mas aqui quero tratar da possibilidade de se refazer algo que foi construído de forma equivocada. Quantos não gostariam de uma nova chance na profissão, ou uma nova oportunidade no amor, ou a possibilidade de recuperar um determinado tempo perdido, ou concertar um erro grave, uma ofensa dita, uma desavença feita, uma palavra dura, sarcástica, que teve o poder de marcar a história de alguém. Quem não gostaria de ter uma segunda chance?

"Vocês são os chefes das famílias levitas; vocês e seus companheiros levitas deverão consagrar-se e levar a arca do Senhor, o Deus de Israel, para o local que preparei para ela. Pelo fato de vocês não terem carregado a arca na primeira vez, a ira do Senhor nosso Deus causou destruição entre nós. Nós não o tínhamos consultado sobre como proceder". 1ª. Cr. 15:13.

Este episódio, relatado no livro de 1a Crônicas, é suigeneris. Ele é o desdobramento do que aconteceu no capítulo 13, quando Davi, após a morte de Saul, assume o Reino de Israel. O texto do capítulo 13 nos mostra um Davi determinado, com uma visão clara daquilo que precisava ser feito. Seu primeiro ato como governante era “trazer a arca da aliança e colocá-la em Jerusalém, pois, nos dias de Saul, não nos valemos dela”. A decisão de Davi não era política, econômica, social, institucional, mas religiosa. Era a afirmação de que, sem a shekinah de Deus – sem a Sua presença – que era o arquétipo significativo daquele artefato, nada poderia ser feito, nada seria levado a bom termo. Em outras palavras, Davi estava dizendo a nação, ou nós entronizamos Deus em nosso meio, e damos a Ele o lugar de honra que Ele merece, ou morreremos como morreram Saul de Jônatas nas mãos dos Filisteus.

A idéia parecia ser divina! E Davi não perdeu tempo. Mandou que se adornasse um carro de boi novo, e que a arca fosse trazida da casa do sacerdote Abinadabe para ser posta em Jerusalém. O Rei vinha à frente do “comboio”, dançando e celebrando diante do Senhor, e o povo vinha em seguida, com alaúdes, tamborins e outros instrumentos musicais. Finalmente, como um andor de procissão, vinham “escoltando” a arca dois sacerdotes, Uzá e Aió. Tudo parecia estar sendo feito de maneira magnífica, da melhor forma possível, com o melhor do coração de cada um. Mas, diz o texto, que quando eles chegaram à eira de Quidom, os bois tropeçaram e Uzá pôs à mão a arca para sustentá-la, pois ela ameaçava cair. Imediatamente a ira de Deus se acendeu e ele foi fulminado ali mesmo, morrendo instantaneamente.

Davi ficou obviamente chocado com tudo aquilo... Imagino sua inquietação, suas indagações. “Ora, eu quero fazer algo bom, quero honrar a Deus, quero trazer a arca para Jerusalém, e me acontece uma desgraça dessa”. Sua aflição era legítima! Seu desconforto era genuíno! E ele encerra este episódio com uma colocação inquietante: “como trarei a mim a arca de Deus?”.

Hoje eu entendo melhor o que aconteceu com Davi... Nem sempre boas intenções, “um carro de boi novo”, “homens do sagrado” na condução de tarefas, o povo batendo palmas, dançando, celebrando, é a garantia de que Deus está aprovando aquilo. No caso em questão, Deus havia abominado. Nem sempre decisões “sensatas” são o “caminho de Deus”. Nem sempre escolhas “racionais” são o “caminho de Deus”. Nem sempre “boas motivações” representa o fato de Deus aprovar algo”. Já dizia o profeta Isaías “os meus caminhos não são os vossos caminhos, os meus pensamentos, não são os vossos pensamentos”.

Alguns anos se passaram... Davi teve tempo para meditar em tudo o que houvera. Ele viu, por exemplo, que a arca não podia ser levada num carro de boi, mas apenas nos ombros dos levitas. Percebeu que antes de qualquer empreitada daquele tipo era necessário haver consagração, santificação, pois não se tratava de um evento “midiático”, não precisava de show gospel, de trio elétrico, de pirotecnia, de catarse da multidão, de propaganda de televisão, mas apenas de corações contritos e quebrantados.

O texto que apontei acima trata da segunda tentativa de Davi de trazer a arca para Jerusalém. Me parece que o fracasso advindo da primeira empreitada e alguns anos de ponderações e reflexão ajudaram o mavioso salmista de Israel a fazer, desta feita, a coisa certa. Ele foi examinar o que dizia a “lei de Moisés”, mandou o povo consagrar-se, colocou a arca aos ombros dos levitas e, por fim, da maneira de Deus, e não da sua maneira, conseguiu conduzi-la até Jerusalém.

Nem sempre o que Deus abençoa, Ele aprova. Já vi diversas vezes coisas acontecerem em nome de Deus, pessoas serem curadas, cheias do Espírito Santo, renovadas, libertas e, ainda assim, sei que Deus não estava aprovando a maneira como aquilo estava sendo realizado, sobretudo por causa da forma como as pessoas estavam fazendo. Mas, saiba-se em toda a Terra: “a Palavra de Deus nunca volta vazia”. Se as pedras clamarem, e isto for um ato de Deus, pessoas certamente serão salvas!

Sei que todos nós precisamos de uma segunda chance. Davi teve a sua. Eu preciso da minha. Talvez você também. Nem sempre boas intenções revelam a vontade de Deus. Nunca “revelações”, “estratégias”, “planos mirabolantes”, ou qualquer outra coisa tornará Deus refém de algo que queiramos fazer sem que isto esteja em Seus propósitos. Nós gostamos de coisas espalhafatosas, mas Deus não é performático; Ele é simples, manso e humilde de coração.

Eu não sei quais são os seus dramas. Conheço bem os meus. Gostaria de, em muitas coisas na minha vida, ter tido uma segunda chance. Não sei se ela será possível, mas, se for, agarrarei a oportunidade com todas as minhas forças. Digo isto em função do que aprendi com Winston Churchill de que “um pessimista vê uma dificuldade em cada oportunidade; mas um otimista vê uma oportunidade em cada dificuldade”. Espero, de todo o meu coração, que você também possa ter a sua...



Carlos Moreira

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É importante esclarecer que este BLOG, em plena vigência do Estado Democrático de Direito, exercita-se das prerrogativas constantes dos incisos IV e IX, do artigo 5º, da Constituição Federal. Relembrando os referidos textos constitucionais, verifica-se: “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato" (inciso IV) e "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença" (inciso IX). Além disso, cabe salientar que a proteção legal de nosso trabalho também se constata na análise mais acurada do inciso VI, do mesmo artigo em comento, quando sentencia que "é inviolável a liberdade de consciência e de crença". Tendo sido explicitada, faz-se necessário, ainda, esclarecer que as menções, aferições, ou até mesmo as aparentes críticas que, porventura, se façam a respeito de doutrinas das mais diversas crenças, situam-se e estão adstritas tão somente ao campo da "argumentação", ou seja, são abordagens que se limitam puramente às questões teológicas e doutrinárias. Assim sendo, não há que se falar em difamação, crime contra a honra de quem quer que seja, ressaltando-se, inclusive, que tais discussões não estão voltadas para a pessoa, mas para idéias e doutrinas.

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