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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.

21 abril 2011

A Ressurreição Transformou-se num Feriado!




As estradas de São Paulo estão intransitáveis. Pudera, com o feriadão pela frente todo mundo desceu para o litoral. No carnaval estive por lá. Fui para São Bento do Sapucaí, uma cidade serrana. Sete horas de viagem que poderiam ter sido feitas em duas e meia. Aí tinha o trânsito...

Mas o “fenômeno” não acontece só em Sampa não! Em todas as cidades do Brasil está todo mundo de malas prontas, seja para ir à praia, seja para ir ao campo, seja até para estar em clubes de veraneio próximos a cidade, pois a ordem é sair de casa, da rotina, buscar um pouco de descanso, afastar-se da asfixia provocada pelos grandes centros.  


Como pastor tenho testemunhado algo desalentador: o esvaziamento das igrejas no feriado da “semana santa”. Na celebração da data mais importante do cristianismo, as pessoas preferem estar se bronzeando no sol, andando de cavalo, tomando banho de piscina, fazendo rapel, subindo em dunas, relaxando no ofurô, ou visitando lugares pitorescos e históricos. Sim, com tristeza constato que a Ressurreição transformou-se num feriado!


Que o nosso povo não tem memória, isto já é fato consumado. Basta olhar para o Congresso Nacional e ver que ele se dá ao desplante de trazer de volta ao poder corruptos e estelionatários contumazes. Que os nossos heróis são esquecidos, e aqui cabe citar Tiradentes, que foi esquartejado em busca de ideais de liberdade, e que tem a sua morte lembrada no dia de hoje, 21 de abril, tudo bem, pois heróis precisam ser altruístas, eles não necessitam de reconhecimento. Mas o que falar da morte e Ressurreição do Filho de Deus? Era para passar incólume também?


Quando olho os cultos esvaziados das congregações em todo o país, chego à triste conclusão de que o coelhinho da páscoa possui mais admiradores e notoriedade do que o próprio Jesus. E o Rubinho Pirola, com seu humor peculiar, provoca no seu cartoon postado no Genizah: “coelhinho da páscoa o que fizestes por mim?”.


É triste ver que a vida que levamos não nos permite mais parar para refletir, orar, jejuar, agradecer, celebrar, dimensões vivenciais da fé que fazem do cristianismo uma religião de esperança, de conforto, de reconciliação, pois é fato que, naquela cruz, “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens os seus pecados”.


Mas que importa tudo isto? Qual a relevância disto para mim hoje? Agora? O que está feito, está feito? Valeu Jesus! Brigadooooo! Mas, aqui pra nós, deixa eu curtir meu feriadão que eu não sou santo e, se fosse, seria santo de barro, portanto, vai “devagar com o andor” que eu posso “quebrar”, sobretudo se não descansar...


No domingo, em nossa comunidade, teremos 4 cultos. O primeiro deles é às 6:00h. da manhã. Chamamos de Culto da Ressurreição! Em seguida, virão os cultos normais, pela manhã, tarde e noite. Mas quantos estarão por lá? Sinceramente, não sei.


O que sei é que quando a Ressurreição se transforma em feriado, a cruz vira artefato histórico, o sangue vertido torna-se bizarrice romana, a morte passa a ser mito, o plano de salvação constitui-se dogma, a fé descamba para o fanatismo, a ceia é “transubstanciada” em ovo de páscoa e, Jesus, creia-me, é substituído sem grandes constrangimentos pelo incomparável coelhinho.

Diante de tudo isto, eu me pergunto: fazer o quê? Feliz Páscoa para você...

Carlos Moreira

19 abril 2011

Destruir para Construir-se


“Alguns dos seus discípulos estavam comentando como o templo era adornado com lindas pedras e dádivas dedicadas a Deus. Mas Jesus disse: Disso que vocês estão vendo, dias virão em que não ficará pedra sobre pedra; serão todas derrubadas”.
Lc. 21:5-6.






É comum os homens se impressionarem com a“opulência” da religião. Não foi diferente com os discípulos de Jesus. Eles conviviam todos os dias com o “Templo” que se movia, pois o sagrado havia tomado forma humana e se revestido de sangue e suor.

O verbo havia encarnado, deixado de ser palavra para constituir-se em ação, transmutara-se do metafísico ao físico, do transcendente para o imanente. Não obstante tudo isso, eles ainda se extasiavam com o aparente...

Também pudera! Ali estava o Templo! Suas pedras chamavam a atenção pela grandiosidade! Contudo e, intrigantemente, mesmo possuindo milhares delas engenhosamente arrumadas, faltava uma única para poder dar-lhe significado e propósito: a “Pedra Angular”.

Na verdade, ali não estava apenas uma imponente construção, mas o símbolo máximo de um sistema religioso cuidadosamente construído e que levara gerações para calcificar os mitos do sagrado de Israel.

Um coração quebrantado, todavia, era capaz de discernir que aquele lugar estava vazio, pois revestia-se de liturgias ocas, dessignificadas, constituía-se apenas obra de engenharia, mas não possuía qualquer possibilidade de produzir vida.   

Diferentemente de seus discípulos, Jesus não se impressionou com o Templo. Ele sabia que tudo o que ali era feito não passava de “sombras”, projeções vagas do que, de fato, possuía valor para Deus.

Se usássemos Platão, poderíamos dizer que o que ali se fazia era apenas a reprodução de imagens, hologramas do mundo das ideias, imitações do verdadeiro sagrado, o qual estava “no alto” e, por sua vez, era constituído de outra inteligência e vontade, com valores e princípios diferentes.

Nós, não raramente, achamos que as formas podem nos levar a experimentar os conteúdos. Equívoco! Eis o Templo, com seus artefatos de prata, de bronze, altar de incenso, local para sacrifícios, propiciações, turnos de oração, levitas entoando canções, gazofilácio para os dízimos, cultos diários, mas tudo não passava de moldura, era arquétipo de uma espiritualidade almejada, mas jamais vivenciada.

Aquelas práticas estavam enraizadas na tradição, mas suas raízes eram incapazes de chegar ao coração, pois a mente estava cauterizada, os sentido embotados, as ações mecanizadas, tudo havia se tornado vã repetição, sacrifício de tolos, devoção empírica, religião de exterioridades.

Naquela manhã, Jesus anteviu a destruição do Templo e a profetizou. Anos mais tarde, em 70 d.C, o general Tito entrou em Jerusalém e dele não restou pedra sobre pedra.

Mas a verdadeira destruição já havia se processado bem antes, pois apesar das pedras manterem a “casa” de pé, por dentro dela não se podia encontrar o Espírito, o qual, por meio da fé, mediante a graça, é o único capaz de produzir arrependimento e nos levar à salvação.

“Destruir para construir-se”. A frase não é minha, mas de Nietzsche. Está em Crepúsculo dos Ídolos, um de seus últimos escritos. Com uma “fúria” insuperável, ele ensina como se “filosofar com o marte-lo” e parte para a destruição de tudo o que tenha se constituído, de alguma forma, iconoclasta. Eis aí o grande problema da religião: a construção em série de ídolos!

“Quem perder a sua vida, por amor de mim, acha-la-á”.

Sem morte não pode haver vida! Sem desconstrução não existe ressignificação! Jesus morreu por volta do ano 30 e o Templo de Jerusalém foi arrasado 40 anos mais tarde. Enquanto um santuário, pela destruição, fechou as suas portas, o outro, pela mesma via, abriu-as por toda a eternidade.

A mensagem do Nazareno não pôde ser destruída, nem mesmo contida, espalhou-se por todo o mundo, de casa em casa, nas esquinas das ruas, nos becos, nas estradas da Palestina, em cada cidade ou vilarejo.

As portas do Reino dos céus foram escancaradas, pois Deus não estava confinado ao Templo, muito pelo contrário, havia resolvido andar com os homens, com aqueles que desejassem adorá-lo em Espírito e em Verdade. E Seu convite era irrecusável: “Vinde a Mim...”.

Creio firmemente que o cristianismo, na sua concepção atual, tornou-se um ídolo, precisa morrer, destruir-se para construir-se. Sim, precisa deixar as formas caducas e dogmáticas para que possa se encontrar novamente com os conteúdos da mensagem de Jesus de Nazaré.

Para tal, todavia, é preciso diluir-se, para que a verdadeira religião possa, mais uma vez, surgir. Sim, aquela da qual nos fala Isaías, que “solta as ligaduras da impiedade, desfaz as ataduras do jugo e deixa livre os oprimidos”.



Carlos Moreira

18 abril 2011

O que o coelhinho tem a ver com as calças?


Rubinho Pirola via Genizah

06 abril 2011

Envelheça Enquanto Ainda há Tempo


“Muitas pessoas não chegam aos oitenta porque perdem muito tempo tentando ficar nos quarenta”. Albert Camus.


A imortalidade e a eterna juventude são sonhos míticos da espécie humana. A procura da fonte da juventude é assunto desde os mais antigos escritos. Por outro lado, o fenômeno da velhice, estudado e constatado de forma sócio-histórica e psicológica, está presente em todas as épocas e lugares, fazendo parte da evolução das civilizações.


A velhice, já está mais do que provado, possui associada a si o componente preconceituoso e estereotipado de uma fase do desenvolvimento humano marcada por acontecimentos negativos e fatos indesejados. A verdade é que ninguém quer envelhecer. Mas, felizmente, ou infelizmente, envelhecer não é uma opção, mas um destino. Como escreveu Goethe: "A idade apodera-se de nós de surpresa".


Tenho ficado impressiona ao ver o que muitos tem feito para evitar a velhice. Algumas destas coisas, inclusive, beiram o absurdo. Estamos na era da imagem. Ela está na TV, no computador, no celular, no cartaz, na revista, no letreiro... Em todo canto, para onde nos viramos, tem uma imagem. Você já ouviu a expressão “sair bem na foto”? É a tônica dos nossos dias. Não importa quem você é, o que você faz ou como você vive, o importante mesmo é “aparecer bem na foto”. O resto disfarça-se, pois é melhor parecer ser, do que ser de verdade.


Mas o tempo é inexorável, ou como disse Ovídeo, é o “devorador das coisas”. De que então ele nos serve? Qual o seu propósito na existência? Terá ele apenas esse mórbido prazer de nos mostrar que já não somos mais o que um dia fomos? Talvez... O tempo faz destas coisas, pois “o que o ele trás de experiências não vale o que leva de ilusões”. Jules Petit-Sen.


Pois bem, tratando desta questão, acabo me lembrando de dois textos das Escrituras que me servem muito bem como exemplo. O primeiro é Atos 7:58, que diz: “E, lançando-o fora da cidade, o apedrejaram. As testemunhas deixaram suas vestes aos pés de um jovem chamado Saulo”; e o segundo é Filemom 1:9: “prefiro, todavia, solicitar em nome do amor, sendo o que sou, Paulo, o velho e, agora, até prisioneiro de Cristo Jesus”. Entre o “jovem Saulo” e o “velho Paulo”, uma história de vida surpreendente e, em cada pedacinho dela, a força irresistível e inexorável do tempo.


Paulo sempre me fascinou. O “jovem Saulo” me assusta, mas o “velho Paulo” me inspira. Entre um e outro a maravilhosa obra que o Espírito Santo realiza na existência daqueles que desejam se parecer com Jesus, cumprindo assim o propósito de Deus em suas vidas.  


Saulo de Tarso era um jovem judeu, fariseu, zeloso e guardador dos mandamentos. Homem letrado, culto e poliglota, foi aluno de um dos maiores filósofos do seu tempo, o extraordinário Gamaliel, doutor da Lei e membro Sinédrio. Por ter nascido em Tarso, ganhou o direito de ser um cidadão Romano, o que no mundo antigo era algo importantíssimo.


Saulo era notável! Sem dúvida alguma, foi o homem mais influente do primeiro século depois de Jesus Cristo. Inteligente, impetuoso e estrategista, via no Evangelho uma grande ameaça a religião judaica e, por conta disso, encampou como desafio pessoal perseguir os cristãos com o objetivo de encarcerá-los. Ao depois, quando do julgamento, retornava para dar o seu parecer. Foi desta forma que se tornou peça fundamental na morte do diácono Estevão, o primeiro mártir do cristianismo.


Mas Deus tinha outros planos para este homem... E assim, numa viagem a cidade de Damasco, ele vê uma luz brilhante vinda do céu e ouve uma voz que lhe diz: “Saulo, por que me persegues?”. Cego, desnorteado, sem compreender o que lhe acontecera, foi orientado a ir até a casa de um discípulo chamado Ananias, onde foi batizado e recuperou a visão. Daí em diante, Saulo sai de cena e dá lugar a Paulo, o homem que “transtornou o mundo” de seu tempo com a pregação do Evangelho e a abertura de Igrejas. O apóstolo dos gentios, como era chamado, escreveu mais da metade do Novo Testamento e tornou-se o grande sistematizador das doutrinas de Cristo nos primeiros anos da era cristã.


Ser Saulo era uma coisa; ser Paulo era outra. Mas o apóstolo só descobriu isto caminhando no Caminho. Apesar de sua conversão, ele não era um homem fácil, pois possuía como grande adversário seu próprio temperamento. Essa característica pessoal lhe custou diversos desentendimentos e a perda de muitos companheiros e amigos, além, é claro, da conquista de poderosos inimigos.


Na ficha corrida de Paulo estão acontecimentos dos mais diversos. Ele se desentendeu com Barnabé por causa de João Marcos, discutiu com Pedro e Tiago, amaldiçoou Alexandre o latoeiro e lançou sobre Elimas, o mágico, uma cegueira temporária. Ao final da vida, parece que apenas Lucas o suportava, pois afirmou certa vez: “todos me abandonaram”.  Na Igreja de Corinto, por causa da impureza, sugeriu que se entregasse a alma dos que tais coisas praticavam a Satanás e enfrentou em toda a Ásia a fúria dos judaizantes. Esteve em perigo de morte várias vezes; foi 2 vezes açoitado, fustigado com vara, apedrejado, 3 vezes vítima de naufrágios, além de ter andado em fome, nudez e solidão. Tantas foram as suas agruras que na carta aos Gálatas disse “ninguém mais me moleste, pois já trago no meu próprio corpo as marcas de Cristo”.


Mas como diz o ditado, “numa maratona o importante não é como você começa, e sim como você termina”. Paulo, o velho, termina os seus dias de forma bem diferente de Saulo, o jovem. Lembrei de Eclesiastes: “melhor é o fim das coisas do que o seu princípio”. No fim de sua vida, Paulo era um homem manso, humilde, quebrantado, totalmente transformado pelo Espírito de Deus. Dizia “tanto sei ser humilhado como também ser honrado... tenho experiência de fartura e de fome, de abundância e de escassez. Sua morte trágica – decapitado pelo imperador Nero em Roma – não determina o fim de seus dias, mas apenas o extraordinário início de sua verdadeira vida, de sua existência na eternidade, o encontro com o propósito eterno para o qual ele foi criado. 


Saulo, o jovem, Paulo o velho. Entre estas duas personagens, vividas pelo mesmo homem, o tempo. Os anos se passaram e acabaram por produzir nele uma transformação maravilhosa. Paulo aproveitou a dádiva de envelhecer permitindo que Deus esculpisse nele um caráter inquebrantável, pois sua vida foi moldada como o oleiro molda o vaso.


Que bom seria se a velhice de todos os homens pudesse produzir o que produziu em Paulo: sabedoria, quietude, generosidade, pacificação interior, graça, poder de Deus, unção do alto. Como tudo na vida tem seu tempo próprio, há também o tempo de envelhecer. Por isso, digo sem temor: “estou envelhecendo enquanto ainda há tempo!”. É que nos nossos dias a grande maioria das pessoas fica velha e não amadurece, tornam-se idosos infantis.


Affonso Romano diz que a “gente tem a leviandade de achar que os velhos nasceram velhos, que estão ali apenas para assistir ao nosso crescimento”. Simone de Beauvoir, em seu livro clássico sobre a velhice, mostra, entre outras coisas, que “o inconsciente não tem idade e que temos forte tendência a nos comportar, na velhice, como se jamais fôssemos velhos”. E finalmente Cícero, no seu famoso tratado falando da velhice, diz: "Torna-te velho cedo, se quiseres ser velho por muito tempo". 

Já me disseram, talvez como consolo, que a vida começa aos 40. Mas eu discordo! A vida começa a partir do momento em que Jesus 
Cristo, o Senhor, entra na nossa “estrada de Damasco”. Ela começa quando vemos resplandecer em nós a Sua luz e ouvimos a Sua voz em nossos corações! A vida começa quando estamos dispostos a ser discípulos, quando estamos disponíveis para fazer a Sua vontade e andar nos Seus caminhos. 

É um grande engodo achar que a vida começa aos 40. Que nada! Nem aos 40, nem aos 50, ou 60, mas apenas quando Ele, que é o caminho, a verdade e a vida, passa a ser o motivo pelo qual andamos, respiramos, sorrimos, choramos e nos movemos. É certo que caímos, erramos e sofremos, mas, nEle, sabemos, que somos mais do que vencedores!  

Diz Albert Camus, “Os jovens andam em grupo, os adultos em pares e os velhos andam sós”. É a dura realidade de existir. Mas com você não tem que ser assim. Se és jovem, anda em grupos, mas saiba que o tempo de envelhecer já começou. Se és adulto, anda em pares, mas saiba que a velhice está a porta. Se és velho, saiba, este é o melhor tempo da tua existência. Este é o tempo onde Deus pode ser experimentado em “profundidade”, pois o melhor ainda está por vir. Ele começa neste dia, o dia chamado hoje, o dia que o Senhor fez. Por isso você não precisa andar só, pois Jesus disse que estaria conosco todos os dias até o fim dos séculos.


Desta forma, aproveite o que ainda pode ser experienciado, e deixe de chorar por aquilo que você não fez. Este é um dos maiores desperdícios da existência humana: sofrer pelo que não se foi e ansiar pelo que não se pode ser. Viva este dia! Carpie Diem! Deus tem o melhor para você e este melhor começa justamente hoje, agora!

Carlos Moreira

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