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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.

10 novembro 2010

Quando é Preciso uma Segunda Chance

Recentemente, lendo uma crônica de Luiz Fernando Veríssimo, onde ele descreve, com sua habilidade e ironia peculiar, as frustrações que experimentamos diante das inúmeras alternativas e possibilidades que temos na vida, senti uma imensa nostalgia me invadir o ser. É que Veríssimo escreve que freqüentemente as pessoas se perguntam, com uma forte dose de recalque: "por que não aceitei aquele convite? Por que não mudei para aquela cidade? Por que não fiz vestibular para medicina? Por que não casei com aquela pessoa?".


A boa leitura me fez pensar e considerar o quanto a vida é fragmentada, rompida, por causa de decepções e desilusões que sofremos. Ao lamentar as escolhas erradas, as oportunidades perdidas, as experiências que tivemos ou as que evitamos ter, criamos uma ruptura em nossa história e deixamos nascer um processo descontinuado em nossas narrativas pessoais que acaba, por fim, comprometendo nosso crescimento e amadurecimento.

Como pastor observo que a escuta “terapêutica”, por vezes, se torna um depósito de amarguras e frustrações. As traições, os abusos, os abandonos, as escolhas erradas, as mentiras, e muitos outros aspectos fazem adoecer a alma e criam em nós feridas expostas, profundas. Se fosse possível, eliminaríamos em definitivo do livro da nossa história tais episódios. Mas a trajetória de cada um é escrita com todos os matizes possíveis, pois eles estão presentes no caminhar da existência. Ignorá-los, ou tentar apagá-los, não fará deles uma realidade menos presente. O fato é que a vida é feita mais de derrotas do que de vitórias! Quem já não sofreu uma derrota? Quem já não se viu vencido por uma circunstância, por um problema, por uma crise, pelo pecado? O poeta diz que “quem na vida não sofreu, passou pela vida e não viveu”.

E você? Já sofreu perdas na vida? Já beijou a lona? Já “quebrou na emenda e estourou no pito”? Já foi visitado pelo fracasso? Gosto muito da frase de Thomas Watson “o caminho para o sucesso é dobrar a taxa de erros”. Eu acredito que todos nós precisamos, sempre, de uma outra oportunidade. Alguns precisarão até de mais; uma terceira, ou uma quarta... Às vezes isso é possível; às vezes, não... Mas aqui quero tratar da possibilidade de se refazer algo que foi construído de forma equivocada. Quantos não gostariam de uma nova chance na profissão, ou uma nova oportunidade no amor, ou a possibilidade de recuperar um determinado tempo perdido, ou concertar um erro grave, uma ofensa dita, uma desavença feita, uma palavra dura, sarcástica, que teve o poder de marcar a história de alguém. Quem não gostaria de ter uma segunda chance?

"Vocês são os chefes das famílias levitas; vocês e seus companheiros levitas deverão consagrar-se e levar a arca do Senhor, o Deus de Israel, para o local que preparei para ela. Pelo fato de vocês não terem carregado a arca na primeira vez, a ira do Senhor nosso Deus causou destruição entre nós. Nós não o tínhamos consultado sobre como proceder". 1ª. Cr. 15:13.

Este episódio, relatado no livro de 1a Crônicas, é suigeneris. Ele é o desdobramento do que aconteceu no capítulo 13, quando Davi, após a morte de Saul, assume o Reino de Israel. O texto do capítulo 13 nos mostra um Davi determinado, com uma visão clara daquilo que precisava ser feito. Seu primeiro ato como governante era “trazer a arca da aliança e colocá-la em Jerusalém, pois, nos dias de Saul, não nos valemos dela”. A decisão de Davi não era política, econômica, social, institucional, mas religiosa. Era a afirmação de que, sem a shekinah de Deus – sem a Sua presença – que era o arquétipo significativo daquele artefato, nada poderia ser feito, nada seria levado a bom termo. Em outras palavras, Davi estava dizendo a nação, ou nós entronizamos Deus em nosso meio, e damos a Ele o lugar de honra que Ele merece, ou morreremos como morreram Saul de Jônatas nas mãos dos Filisteus.

A idéia parecia ser divina! E Davi não perdeu tempo. Mandou que se adornasse um carro de boi novo, e que a arca fosse trazida da casa do sacerdote Abinadabe para ser posta em Jerusalém. O Rei vinha à frente do “comboio”, dançando e celebrando diante do Senhor, e o povo vinha em seguida, com alaúdes, tamborins e outros instrumentos musicais. Finalmente, como um andor de procissão, vinham “escoltando” a arca dois sacerdotes, Uzá e Aió. Tudo parecia estar sendo feito de maneira magnífica, da melhor forma possível, com o melhor do coração de cada um. Mas, diz o texto, que quando eles chegaram à eira de Quidom, os bois tropeçaram e Uzá pôs à mão a arca para sustentá-la, pois ela ameaçava cair. Imediatamente a ira de Deus se acendeu e ele foi fulminado ali mesmo, morrendo instantaneamente.

Davi ficou obviamente chocado com tudo aquilo... Imagino sua inquietação, suas indagações. “Ora, eu quero fazer algo bom, quero honrar a Deus, quero trazer a arca para Jerusalém, e me acontece uma desgraça dessa”. Sua aflição era legítima! Seu desconforto era genuíno! E ele encerra este episódio com uma colocação inquietante: “como trarei a mim a arca de Deus?”.

Hoje eu entendo melhor o que aconteceu com Davi... Nem sempre boas intenções, “um carro de boi novo”, “homens do sagrado” na condução de tarefas, o povo batendo palmas, dançando, celebrando, é a garantia de que Deus está aprovando aquilo. No caso em questão, Deus havia abominado. Nem sempre decisões “sensatas” são o “caminho de Deus”. Nem sempre escolhas “racionais” são o “caminho de Deus”. Nem sempre “boas motivações” representa o fato de Deus aprovar algo”. Já dizia o profeta Isaías “os meus caminhos não são os vossos caminhos, os meus pensamentos, não são os vossos pensamentos”.

Alguns anos se passaram... Davi teve tempo para meditar em tudo o que houvera. Ele viu, por exemplo, que a arca não podia ser levada num carro de boi, mas apenas nos ombros dos levitas. Percebeu que antes de qualquer empreitada daquele tipo era necessário haver consagração, santificação, pois não se tratava de um evento “midiático”, não precisava de show gospel, de trio elétrico, de pirotecnia, de catarse da multidão, de propaganda de televisão, mas apenas de corações contritos e quebrantados.

O texto que apontei acima trata da segunda tentativa de Davi de trazer a arca para Jerusalém. Me parece que o fracasso advindo da primeira empreitada e alguns anos de ponderações e reflexão ajudaram o mavioso salmista de Israel a fazer, desta feita, a coisa certa. Ele foi examinar o que dizia a “lei de Moisés”, mandou o povo consagrar-se, colocou a arca aos ombros dos levitas e, por fim, da maneira de Deus, e não da sua maneira, conseguiu conduzi-la até Jerusalém.

Nem sempre o que Deus abençoa, Ele aprova. Já vi diversas vezes coisas acontecerem em nome de Deus, pessoas serem curadas, cheias do Espírito Santo, renovadas, libertas e, ainda assim, sei que Deus não estava aprovando a maneira como aquilo estava sendo realizado, sobretudo por causa da forma como as pessoas estavam fazendo. Mas, saiba-se em toda a Terra: “a Palavra de Deus nunca volta vazia”. Se as pedras clamarem, e isto for um ato de Deus, pessoas certamente serão salvas!

Sei que todos nós precisamos de uma segunda chance. Davi teve a sua. Eu preciso da minha. Talvez você também. Nem sempre boas intenções revelam a vontade de Deus. Nunca “revelações”, “estratégias”, “planos mirabolantes”, ou qualquer outra coisa tornará Deus refém de algo que queiramos fazer sem que isto esteja em Seus propósitos. Nós gostamos de coisas espalhafatosas, mas Deus não é performático; Ele é simples, manso e humilde de coração.

Eu não sei quais são os seus dramas. Conheço bem os meus. Gostaria de, em muitas coisas na minha vida, ter tido uma segunda chance. Não sei se ela será possível, mas, se for, agarrarei a oportunidade com todas as minhas forças. Digo isto em função do que aprendi com Winston Churchill de que “um pessimista vê uma dificuldade em cada oportunidade; mas um otimista vê uma oportunidade em cada dificuldade”. Espero, de todo o meu coração, que você também possa ter a sua...



Carlos Moreira

09 novembro 2010

Quando Nordestinos se Transformam em Samaritanos

No dicionário Michaelis, xenofobia é: aversão às pessoas e coisas estrangeiras. Falar de xenofobia é falar de discriminação, de juízo temerário, de sentimentos como prepotência, orgulho e superioridade racial, política, religiosa, sexual, intelectual ou cultural. Me daria mais prazer, citando Rousseau, escrever sobre a minha preferência em ser “...um homem de paradoxos que um homem de preconceitos”. Mas, a esta altura do campeonato, eu já aprendi que a vida é bela, e o mundo é mau...  

Eu não sei quantos de vocês acompanhou o último “boom” do
 microblog Twitter que aconteceu no domingo dia 31 de outubro com mensagens ofensivas aos habitantes do Nordeste do Brasil. Os escárnios começaram por conta de se atribuir a vitória de Dilma Rousseff aos votos dos nordestinos. Ledo engano. Apesar de não ter votado nela, constato que a futura presidente ganharia mesmo não sendo computados os votos do Norte e do Nordeste. 


O caso mais extremo, entretanto, me pareceu ser o da estudante de direito Mayara Petruso, de São Paulo, que escreveu em seu
 blog: “Nordestino não é gente. Faça um favor a SP, mate um nordestino afogado!”. Como era de se esperar, imediatamente explodiu na net todo tipo de manifestação, tanto em defesa como contra o post. Ao final, o episódio apenas reacende o velho conflito regional que marca a cena sócio-histórica-cultural brasileira há décadas. Nada de novo...


Do ponto de vista do direito e da legalidade, e é bom que se diga, diversos segmentos estão fazendo protestos e entrando com representações no Ministério Público de Pernambuco e de outros Estados contra o triste episódio. Segundo o presidente da OAB-PE, Henrique Mariano, Mayara deve responder por crime de racismo (pena de dois a cinco anos de prisão, mais multa) e incitação pública de prática de crime (cuja pena é detenção de três a seis meses).
 No Brasil, a Lei nº 1.390, de 3 de julho de 1951 trata da questão do preconceito e da discriminação racial e a Lei nº 7.716, de 15 de janeiro de 1989, a qual foi modificada pela Lei nº 9.459, de 13 de maio de 1997, alarga significativamente as questões interpretativas, apontando expressamente a discriminação e acrescendo os crimes resultantes de preconceito ou discriminação de etnia, religião ou procedência nacional.



Mayara, que provavelmente acompanhava o que estava acontecendo e, sabedora de que na internet tudo ganha “volume” e “intensidade” de forma assombrosamente rápida, ainda na madrugada da segunda-feira apagou os posts que continham essas informações e, logo em seguida, tornou seu perfil “privado” para que ninguém mais pudesse ver absolutamente nada em seu blog. Impossível me foi não lembrar de Einstein: “triste época essa que vivemos! É mais fácil desintegrar um átomo do que quebrar um preconceito”.

Diante do exposto, trago algo semelhante nas Escrituras; "Um homem descia de Jerusalém para Jericó, quando caiu nas mãos de assaltantes. Estes lhe tiraram as roupas, espancaram-no e se foram, deixando-o quase morto. Aconteceu estar descendo pela mesma estrada um sacerdote. Quando viu o homem, passou pelo outro lado. E assim também um levita; quando chegou ao lugar e o viu, passou pelo outro lado. Mas um samaritano, estando de viagem, chegou onde se encontrava o homem e, quando o viu, teve piedade dele. Aproximou-se, enfaixou-lhe as feridas, derramando nelas vinho e óleo. Depois colocou-o sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e cuidou dele. No dia seguinte, deu dois denários ao hospedeiro e disse-lhe: ‘Cuide dele. Quando voltar lhe pagarei todas as despesas que você tiver’. "Qual destes três você acha que foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes? " "Aquele que teve misericórdia dele", respondeu o perito na lei. Jesus lhe disse: "Vá e faça o mesmo". Lc. 10:29-37.

Os Samaritanos eram um povo que, depois do cisma entre as 12 tribos, acabaram constituindo o Reino do Norte – Israel, cuja capital, por volta do século IX a.C. era Samaria. As disputas entre o Reino do Sul – Jerusalém e o Reino do Norte – Samaria – se estabeleceram por centenas de anos, chegando ao ponto dos hebreus mais ortodoxos não considerarem os Samaritanos judeus, nem mesmo filhos de Israel, mas sim descendentes de estrangeiros. Assim, nos tempos do Galileu, os Samaritanos eram um povo isolado, distanciado de Jerusalém, das práticas da religião judaica, que havia criado seu próprio código sagrado, seus preceitos e seu templo. 

Todas estas questões históricas, religiosas e culturais havia os tornado execráveis e, por conta disto, eles eram odiados pelos seus próprios compatriotas. Por isso, não raras vezes, vemos Jesus quebrando, como de costume, paradigmas existentes usando os Samaritanos como modelo de espiritualidade. O fato é que Jesus era contra todo preconceito, toda acepção de pessoa, todo julgamento presunçoso, toda discriminação, toda separação. E Ele sabia onde “pisava”, pois ali estava uma nação separada por “confrarias” religiosas, num mundo dividido em castas – ou seria melhor dizer carmas. Mas Sua mensagem sempre foi em favor das minorias, dos excluídos, dos caídos, dos esquecidos, dos sofridos, dos ardidos, dos deprimidos, dos expurgados, dos enxotados, dos que nada tinham.

Trouxe a passagem apenas para refrescar nossa mente cauterizada e viciada em interpretações de prateleira, em exegeses enlatadas. Sim, porque nela Jesus estabelece como modelo de espiritualidade um homem da escória em detrimento da elite espiritual, dos que possuíam pedigree, dos descendentes de Abraão, dos politicamente corretos, dos “teologicamente reformados”, dos “gospels”, dos “apóstolos”, “bispos” e “levitas da música”. Todos estes passaram ao largo e deixaram o moribundo entregue a própria sorte. Todos iam pelo mesmo caminho, mas apenas um deles caminhava de forma diferente. E sempre é assim, pois o caminho é um só, mas a maneira como se caminha é que faz toda a diferença. Uma coisa é conhecer o caminho, outra é caminhar por ele.  

Deus está atrás de gente, não de crente, está em busca de adoradores, não de cantores ou pregadores, está desejoso de encontrar corações quebrantados, não egos super-inflados. Quero lhe perguntar: Como se sentiria um travesti sentado no banco de sua “igreja”? Como se sentiria um casal de lésbicas assistindo a escola dominical em sua denominação? Como se sentiria uma garota de programa no culto da juventude de sua comunidade? Eles seriam aceitos? Eles seriam tratados com respeito? Eles teriam a oportunidade de ir e vir como os adúlteros, os sonegadores de impostos, os fofoqueiros e os avarentos?

Estamos mesmo prontos para receber os “perdidos” da Terra? Nossos encontros são acolhedores? Nossas “igrejas” estão com suas portas abertas para o diferente? Nossas casas podem receber gente que não se parece com a gente? O mundo quer respostas e nós dizemos que Jesus é a solução, mas nós não sabemos o que eles perguntam, por isso nossas respostas nada dizem, são retórica verborrágica sacralizada, e não amor encarnado no chão da vida. 

Foi vergonhoso este episódio!  Fiquei triste de ver os meus conterrâneos Nordestinos tratados de forma xenofóbica como também um dia foram tratados os Samaritanos. Foi deplorável a posição de Mayara, ainda que eu ache que ela, no caminhar da existência, deva merecer a chance de se reposicionar e se arrepender. É triste ver que existe dentro de nosso país tanta segregação, tanto preconceito, tanta acepção, tanta anestesia de alma, tanta indulgência com a injustiça, tanta cumplicidade com a inverdade, tanta flexibilidade com a contradição, tanta hipocrisia, tanto desamor. O preconceito, no Brasil, é silencioso, disfarçado, travestido, hipócrita, dissimulado. Não é escancarado como em outras partes do mundo. Aqui ele é sutil, quase intelectual, por vezes recoberto de pensamentos político-filosóficos. Mas ele existe e está aí. É o preconceito contra os Negros, contra os Deficientes, contra os Toxicômanos, contra os ex-Presidiários, contra os Homossexuais, contra os Nordestinos, contra as Garotas de Programa...

Fiz questão de escrever todos estes grupos humanos com letra maiúscula porque é justamente assim que os vejo. Como gente maiúscula! Alguns fizeram escolhas e devem ser respeitados em suas opções. Eu, por outro lado, devo pregar sobre o amor, a graça, a misericórdia e o desejo de Deus de que, em Cristo, todo ser humano encontre o padrão para ser e existir. Mas isto tem de ser feito com amor, pois, sem ele, o que sobraria da mensagem do Evangelho? Por isso, por vezes penso se não é verdade a afirmação de William Haslitt quando diz: “Quase toda a seita do cristianismo representa uma perversão da sua essência, com a finalidade de adaptá-lo aos preconceitos do mundo”. Você tem coragem de refletir sobre isto?...

Carlos Moreira

08 novembro 2010

A Igreja de Cabeça Branca

No último domingo passei em frente a uma das maiores igrejas evangélicas da cidade do Recife. A referida igreja pertence à denominação batista e localiza-se em um bairro próximo ao centro da cidade.

A rua em frente à igreja estava totalmente tomada por uma grande quantidade de veículos estacionados próximo a calçada fazendo supor que oculto no interior do templo estava lotado.

Esta cena poderia fazer os mais desavisados crerem que apesar dos muitos escândalos protagonizados pela igreja evangélica brasileira, as denominações continuam crescendo. Engano, sofisma, ilusão!

Interrompendo um pouco o meu trajeto e desviando-me temporariamente da minha rota, fui até a porta do templo e verifiquei, para o meu espanto, que a igreja estava quase vazia, ocupada escassamente por um público idoso e sonolento bastante rarefeito como ar dos andes.

Do púlpito, um entusiasmado pregador usando um paletó bem passado e, tal e qual João Batista, “clamava no deserto” jogando palavras ao vento, falando com ímpeto o que ninguém parecia interessado em escutar. O presenteísmo tomou conta da igreja!

Dessa experiência nefasta deduzi duas coisas: Os crentes agora possuem automóveis e a igreja está com a cabeça branca. Aquele velho pensamento preconceituoso que definia os crentes como pessoas feias, que moravam longe e andavam de ônibus não se aplica mais a igreja; os evangélicos agora também têm carro.

Agora, além da alienação das pessoas, existem também os veículos alienados. Alienação, essa palavra marxista tão cara à religião, significa “separação” (uma pessoa alienada é uma pessoa separada da realidade); um carro alienado (ou financiado) é um objeto que parece ser nosso, mas não é.

Da mesma forma como alguns cristãos estão longe, separados, alienados da realidade, os seus carros financiados em infinitas parcelas acrescidas de juros exorbitantes também estão longe de lhes pertencer, ou seja, separados dos fictícios proprietários. A ilusão capitalista da facilidade, essa nova modalidade de possessão demoníaca, também alcançou a igreja.

Contudo, os financiamentos de automóveis nada são quando comparados ao envelhecimento inevitável da igreja. Olhando de cima, a nave interior do templo em questão se parecia com um longo campo embranquecido e coberto de neve. Constatei estupefato que a igreja envelheceu!     

As cabeças brancas prevaleciam e reluziam enquanto a calma sepulcral do culto só era interrompida pelo eco da voz metálica do pastor nos cantos vazios da igreja. Onde estão os jovens? Foram embora. O evangelho não interessa à nova geração mais preocupada com as baladas e o sexo fácil!

Qual o futuro da igreja? A igreja, como a conhecemos, agonizará lentamente como um paciente moribundo na UTI de algum hospital até morrer debilitada. Quando essa geração de cabeça branca partir não existirá novos membros para contribuir com o dízimo e cantar os louvores dos hinários porque a religião estará muito desvalorizada para valer o esforço.

A fé nunca morrerá, mas a instituição chamada igreja está degenerando e se extinguindo. Dentro em breve assistiremos perplexos ao funeral do último dizimista da igreja que foi destruída por duas forças demoníacas: a política perversa que se propagou nos seus átrios e o espírito do tempo, o zeitgeist.

André Pessoa via Século XXI

Let It Be...

Se não deu certo, seja por que razão for, deixe pra lá...


Se você passou dos quarenta, não conseguiu o que queria, lamenta-se pelo que não viveu, sofre pelo que ainda há por vir, deixe pra lá...

Se você faliu, perdeu dinheiro num negócio, ficou desempregado ou construiu algo que não deu certo, deixe pra lá...

Se você se apaixonou por alguém, entregou-se de coração, se sonhou, fez planos, alimentou expectativas, e nada se concretizou, deixe pra lá...

Se você foi desprezado, ou desacreditado, se foi humilhado ou mesmo substituído sem  explicação ou justificativas, deixe pra lá...

Se te julgaram medíocre, ou se você foi taxado abaixo da média, se as portas se fecharam ou se foi vítima de preconceitos, deixe pra lá...

Se você sentiu-se traído, se foi enganado, se já teve a experiência de ser passado para trás ou se os que se sentavam a sua mesa te abandonaram, deixe pra lá...

Se você sonhou com coisas impossíveis, se fez planos irrealizáveis, se constatou que é só um rosto na multidão, que apenas habita a vala dos comuns, deixe pra lá...

Se você empreendeu algo, se gastou sangue, suor, lágrimas, se foi parte essencial para colocar uma coisa de pé e, depois de tudo, foi esquecido, desprezado, posto ao lado, deixe pra lá...

Se você se esforçou, se estudou, se trabalhou duro ou mesmo foi ao extremo de suas forças e, ainda assim, não conseguiu o que queria, deixe pra lá...

Se num determinado momento lhe faltarem amigos, lhe faltarem motivos, lhe sobrarem perigos, fique tranqüilo, respire fundo e deixe pra lá...

Se seu chão desapareceu, suas convicções se dissolveram, suas certezas ruíram, seu racionalismo falhou e seu pragmatismo lhe abandonou na hora “H”, deixe está, deixe pra lá...

Se você se deu, mas não foi desejado, se amou, mas não foi amado, se serviu, mas não foi lembrado, se caiu, e não foi ajudado, se gemeu, mas não foi consolado, deixe pra lá...


Se o que você é te incomoda, se o que foi te apavora e se o que poderá vir a ser te frustra, deixe pra lá...

Se a fé te faltou, se o milagre falhou, se a igreja decepcionou ou o sacerdote se equivocou, não te admires, isto é muito normal, deixe pra lá...

Não se torne cético e também não seja cínico, não se encha de confiança, mas nunca perca a esperança, não abandone aquilo que persegue – insista, e nem se dê por vencido ao cair – não desista, creia duvidando, ame desconfiando, vá aos extremos, contradiga-se, decepcione-se, deprima-se, seja gente, siga em frente, assuma seus erros, seja grande, aborreça-se de vez em quando, chore um pouco, ria do absurdo, aprenda com seus erros, dê significado a suas derrotas, mas, quando tudo isto te for impossível de fazer, dou-te um excelente conselho,

Deixe pra lá...

Carlos Moreira

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É importante esclarecer que este BLOG, em plena vigência do Estado Democrático de Direito, exercita-se das prerrogativas constantes dos incisos IV e IX, do artigo 5º, da Constituição Federal. Relembrando os referidos textos constitucionais, verifica-se: “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato" (inciso IV) e "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença" (inciso IX). Além disso, cabe salientar que a proteção legal de nosso trabalho também se constata na análise mais acurada do inciso VI, do mesmo artigo em comento, quando sentencia que "é inviolável a liberdade de consciência e de crença". Tendo sido explicitada, faz-se necessário, ainda, esclarecer que as menções, aferições, ou até mesmo as aparentes críticas que, porventura, se façam a respeito de doutrinas das mais diversas crenças, situam-se e estão adstritas tão somente ao campo da "argumentação", ou seja, são abordagens que se limitam puramente às questões teológicas e doutrinárias. Assim sendo, não há que se falar em difamação, crime contra a honra de quem quer que seja, ressaltando-se, inclusive, que tais discussões não estão voltadas para a pessoa, mas para idéias e doutrinas.

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