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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.

23 agosto 2018

Podres Poderes: como agem os Feiticeiros do Sagrado - Parte-1

Desde sempre, as dimensões do sagrado e do sobrenatural habitam o inconsciente coletivo da humanidade. De fato, nos sentimos atraídos por aquilo que não explicamos, pelo transcendente, pela metafísica e pela fenomenologia das aparições e interações de entes espirituais com homens de carne e osso. Cícero, o famoso orador romano, afirma com propriedade: “Não há povo tão bárbaro, tão primitivo, que não admita a existência de Deus ou um deus ou vários deuses, ainda que se engane sobre sua natureza”. Sim, desde o Egito antigo, passando pela saga dos Hebreus na palestina, analisando o decurso da história de Babilônicos, Persas e Gregos, não há como negar a influência das divindades na modelagem de culturas e nações. Mas onde há religião, há também intermediação, pois a premissa inamovível de toda religião é patrocinar reconexões, intermediar o encontro entre o eterno e o passageiro, entre o absoluto e o relativo. Assim, laçam-se nesta tarefa sacerdotes, profetas, magos, feiticeiros, sensitivos, médiuns, paranormais, místicos, todos cônscios do papel de falar e agir em nome de uma determinada entidade ou deus. E no exercício deste chamado, há homens bons e maus, há gente séria e apóstatas, há os puros de coração e os possuídos de malícia. No Brasil, sobretudo nos últimos 20 anos, assistimos aterrorizados o crescente aumento de gente totalmente desqualificada para lidar com as coisas de Deus. Vemos, com imensa tristeza, pastores, padres, bispos, evangelistas e pseudo-apóstolos se extraviarem de maneira irrecuperável. Os problemas são incontáveis: alquimia da mensagem, manipulação, chantagem, charlatanismo, demonização da vida, extorsão financeira, estupro espiritual, esmagamento emocional, bruxaria, sincretismo, estelionato, a lista é infindável, assim como também são infindáveis as vítimas. Nestes meus 35 anos de caminhada, o que mais tenho encontrado é gente aviltada, iludida, machucada, joguetes nas mãos de lobos vorazes, pessoas simples e ingênuas sendo devoradas por abutres argutos, indivíduos cheios de ambição e maldade.

 

18 agosto 2018

Afinal, o que Desejava Jesus?




A LITURGIA de Jesus era o Caminho de cada manhã e os SACRAMENTOS todo encontro humano travado no chão dos dias. Em Jesus, CULTO é celebração da vida, em todo canto possível, a qualquer hora, e ADORAÇÃO a Deus é, antes de tudo, reverência solidária para com o próximo. 

O TEMPLO de Jesus foram os descampados da Galiléia e a PREGAÇÃO a encarnação da Palavra que só existia em forma de texto. Os OFICIAIS de Jesus eram homens simples, que sabiam que entre eles não havia hierarquias ou distinções, o maior lavava os pés de todos, não se chamavam por títulos, eram apenas amigos e irmãos. 

MISSÃO para Jesus era carregar a boa nova nas trilhas do cotidiano, e assim, indo pelas esquinas da vida, fazer o bem e buscar a justiça. DÍZIMO para Jesus era a oferta dadivosa espontânea, dada por aqueles que se sentiam abençoados para ajudar na implantação do Reino, sem apelos, sem constrangimentos, se manipulações. 

Portanto, IGREJA, para Jesus, tem a ver com estas perspectivas, foi isso que ele disse a Pedro que edificaria. Depois disso veio a necessidade de aditar a mensagem o método grego-aristotélico, para produzir a apologética do século II, em seguida a disposição organizacional de bispados com suas geografias mandatárias, e no século IV a invenção do cristianismo como ideologia político-religiosa para promover o novo desenho arquitetônico do poder de Constantino sob o Império Romano. 

Daí vieram catedrais e cátedras, projetos expansionistas e poder terreno, posse de latifúndios territoriais e influência política, normatizações doutrinárias, dogmas e confissões. Quem conhece a história sabe que não estou mentindo, a adulteração do que propôs o Galileu é grotesca. 

Mas desmontar a engrenagem criada é quase impossível, porque junto com a queda de todo aparato vem também a destruição do poder de homens que se tornaram donos da marca “Jesus” e proprietários da holding “Igreja”. Se você, todavia, desejar voltar a simplicidade da fé e a pureza do Evangelho, é só viver na dimensão do que ele encarnou e ensinou, obviamente serás tachado de herege e desviante, de louco e blasfemo, mas, que importa, como bem disse Jiddu Krishnamurti, filósofo e educador indiano, “Não é sinal de saúde estar ajustado a uma sociedade doente”. 

Mas o chocante mesmo é perceber que o que nós chamamos de igreja não faria qualquer sentido para Jesus se ele estivesse vivendo encarnado entre nós... 

Carlos Moreira


30 julho 2018

Jesus Encenado por um “Traveco”? E por que não?





A polêmica da peça “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu”, chegou aqui em Pernambuco, mais especificamente, no “Festival de Inverno” da charmosa cidade de Garanhuns.

O imbróglio começou antes mesmo da apresentação, com ordem e contra-ordem da Justiça, ora proibindo, ora liberando o evento. O último ato da prosopopeia se deu na sexta-feira - 27/07, quando o desembargador Roberto da Silva Maia, a pedido da Ordem dos Pastores Evangélicos de Garanhuns, proibiu a exibição da peça. Na sequência, todavia, o presidente do Tribunal de Justiça de Pernambuco, desembargador Cândido Saraiva, manteve a decisão inicial de que ela poderia ser apresentada ao público.

O espetáculo, que originalmente versa sobre um monólogo escrito pela dramaturga transexual escocesa Jo Clifford, passou a ser executado no Brasil pela transexual Renata de Carvalho. Nele Jesus é um travesti e, logo na primeira cena, de salto alto e vestido, se apresenta afirmando: "Vocês não imaginavam me encontrar aqui, vocês imaginavam me encontrar na igreja, mas na igreja não posso entrar". Confesso: já me apaixonei!

O roteiro interpretativo, numa releitura contemporânea, segue visitando parábolas e ensinamentos de Jesus onde é possível, por exemplo, ouvir: “Nunca disse: cuidado com os homossexuais, transexuais e gays. Eu nunca disse isso, eu disse: cuidado com os autoindulgentes e os hipócritas, cuidado com aqueles que se imaginam virtuosos e proferem julgamento, aqueles que condenam os outros e se consideram bons. Seus lábios são cheios de bondade, mas seus corações estão plenos de ódio”. Vibrei! Na esmagadora maioria das igrejas cristãs deste país algo tão sólido, que aponta inexoravelmente para a perspectiva do Evangelho, é dito com tanta determinação e verdade.

Bem, diante de tudo o que aconteceu, a primeira questão que desejo pontuar, apenas para lembrar-nos, é que o Estado Brasileiro é laico, ou seja, não arbitra nada no âmbito religioso, dando liberdade às pessoas para expressarem suas crenças como bem entenderem. Assim, a censura, que ocorreu em várias cidades do país, jamais poderia ser uma questão da justiça, uma vez que houve clara tendenciosidade religiosa para que a sanção fosse estabelecida. Afirmar que a peça “expõe símbolos religiosos ao ridículo” é, no mínimo, uma forçação de barra sem precedentes.

A segunda questão que me chamou à atenção é que o problema real está no fato da atriz que interpreta o papel de Jesus ser transexual. Creia: permitir algo desta monta é blasfêmia contra “Deus” e contra o cristianismo. Ora, Jesus já foi interpretado por incontáveis atores, em peças, filmes, musicais e, salvo em casos raros, como no polêmico “A Última Tentação de Cristo”, de Nikos Kazantzakis, com interpretação irretocável de Wilem Dafoe, não se viu qualquer tipo de manifestação ou censura. Aliás, aqui mesmo em Pernambuco, numa jogada marqueteira sensacional, a “Paixão de Cristo”, maior espetáculo ao ar livre do mundo, realizado na Semana Santa em Nova Jerusalém, faz todo ano um rodízio de Jesus com atores globais que provocam o maior frisson entre a mulherada. Lembro, num desses anos, que o Fábio Assunção, que não carrega reputação que corresponda aos critérios éticos e morais da “Santa Igreja”, interpretou o papel com a desenvoltura que lhe é peculiar. Amigos que foram ao espetáculo, para ver esse Jesus de olhos azuis e cabelos loiros sedosos, relataram o constrangimento de assistir cenas dos Evangelhos tendo ao fundo assobios, histeria e gritos de “gostoso”. Não lembro, todavia, de nenhum movimento de religiosos ou do poder público para proibir nada. Também, pudera, ali rola muita, muita grana mesmo...

Finalmente, nesta simples reflexão, lhe faço uma pergunta provocativa: “Você acha mesmo que Jesus está preocupado com o fato de uma transexual realizar uma peça teatral com uma releitura de suas falas, ainda que possamos enquadrar, aqui e ali, imprecisões quanto ao que está dito nos Evangelhos?”. Ora, meu amigo, Jesus entrou na casa de Simão, o fariseu, homem dito de Deus, dado aos ascetismos de Israel, ao cerimonialismo religioso vazio, as liturgias de purgação de pecados ineficazes, a reverência a forma e o culto a mecanicidade de um tipo de fé que nada pode produzir ao coração e a consciência, e ali teve seus pés lavados por uma mulher da vida, puta mesmo, que não se conteve e em uma explosão de amor, com suas próprias lágrimas, ungiu-lhe diante de todos. O religioso, escandalizado por saber que tipo de pecado ela carregava, fez sua censura pública e com gestos expunha sua reprovação. Jesus, todavia, repreendeu-lhe, e asseverando sobre a verdadeira espiritualidade, aplicou-lhe uma lição que serve, também, para mim e para você. Você acha que esse Jesus, que não é nutella, mas raiz, ia ficar chocadinho e ruborizado porque uma atriz trans está fazendo uma encenação dele numa apresentação cultural? Jesus não é travesti, ele sabe de si, ele é Deus, mas você tem que defender ele porque, quem sabe, o seu "Jesus" acabe entrando em crise com tudo isso. Ah meu Pai! Sabe de nada, inocente...

Concluo, portanto, pedindo que o estado, a justiça, e os religiosos deixem a Peça em cartaz, pois o próprio Jesus afirmou “Quem não é contra mim, é por mim”. Jesus "Traveco"? Gente do céu, é apenas uma peça, vocês não conseguem abstrair nada, tudo tem que ser a ferro e fogo. Num tempo onde os profetas estão mortos, Deus pode levantar transexuais para nos jogar na cara valores que temos negligenciado, como a tolerância, o respeito e o amor. Se a igreja pensa que tem o “copyright” de Jesus, que é dona da “marca”, que só ela pode falar em nome dele, é bom repensar seus conceitos, pois, tempos atrás, houve uma moçada lá em Israel que pensava a mesma coisa, e o final deles, como sabemos, foi trágico...

Carlos Moreira




24 julho 2018

Brasil: Mostra teu "Bumbum"!



Como bem disse o Tom, “O Brasil não é para principiantes”. O caso trágico da morte da bancária Lilian Calixto revela, com exatidão, como se organiza e vive a nossa sociedade, sobretudo, no que diz respeito às regulamentações, às leis, à forma como os serviços são prestados aos cidadãos. 

Não vou explicar os detalhes, porque o caso é público e com grande repercussão, mas apenas a “anatomia” da tragédia. Dr. Denis Furtado – carinhosamente apelidado de "Dr. Bumbum”, por aí você já começa a perceber a credibilidade do profissional, exercia a medicina de forma curiosa, realizava cirurgias estéticas sem cumprir o que legisla o Conselho de Medicina, ou seja, que procedimentos estéticos devem ser feitos por um cirurgião plástico, o que implica residência médica com dois anos de cirurgia geral e mais três anos de cirurgia plástica. Passou batido... 

Outro pequeno detalhe é que o Dr. Bumbum estava, desde março de 2016, sob a mira da justiça, uma vez que foi alvo de uma interdição cautelar para o exercício da profissão pelo fato de realizar atendimentos em local inadequado, com procedimentos e aparelhagem inapropriados. Mas a justiça, você sabe bem como é... Depois de três meses de suspensão, houve um recurso jurídico que liberou o médico para fazer o que não se pode fazer, da mesma forma de antes, até que o processo inicial seja julgado. E lá se foram 2 anos... 

Ocorrida a tragédia, que se deu no Rio de Janeiro, o Conselho de Medicina do DF, onde o doutor tem registro, cassou sua licença para exercício da profissão. Mas para ter validade, o Conselho Federal tem que ratificar, ou seja, como o Dr. Bumbum deve ser liberado em breve, mesmo com o registro cassado, poderá exercer sua atividade de cirurgião até que o processo seja definitivamente julgado, o que vai ocorrer em... Bem, você sabe como a banda toca... 

Outro detalhe inconveniente é que o Dr. Bumbum não podia exercer atividade médica no Rio de Janeiro, onde ocorreu a tragédia, uma vez que sua licença só é válida em Brasília e em Goiás. Mais um descuido, coisa pequena... 

Para abrilhantar ainda mais a história, é sabido que o Dr. Bumbum realiza propaganda de seus serviços em mídias sociais, onde é seguido por mais de meio milhão de pessoas, anunciando os benefícios de sua “arte”, o que é proibido por lei, uma vez que os anúncios não cumprem os rigores médicos que determinam a comprovação dos resultados através de métodos e técnicas aprovados pela comunidade científica. Não sei porque tanta picuinha... 

Finalmente, chegamos a Lilian, uma mulher de classe média, bonita, culta, com profissão reconhecida, que é vítima, sim, mas que também não tem como se evadir de ter culpa no cartório. E aqui eu nem vou entrar na questão da tirania da beleza escultural, ou na busca da plasticidade estética que ignora a ética, mas apenas no fato de que uma pessoa contrata um procedimento cirúrgico – qualquer médico pode lhe informar que procedimentos invasivos, por menores que sejam, apresentam riscos a vida – de um profissional que faz anúncios marqueteiros na internet, que não atende num hospital, mas em sua casa, que não tem registro no CRM regional para exercício da profissão, que não tem especialização para realizar o procedimento e que vai introduzir no seu corpo um material para modelar membros que não é aprovado pela comunidade científica para tal uso. Triste... 

Tenho reverência pela dor da família, mas escrevo o texto em protesto ao acúmulo dos desmandos, da insensatez, do descaso com a vida, da prática profissional mercenária, da justiça morosa, da falta de fiscalização de órgãos reguladores, e por aí vai... Dr. Bumbum não é apenas um médico escroto brincando de esculpir glúteos perfeitos, ele é o retrato do Brasil e do brasileiro, expõe as vísceras de quem somos, como vivemos e porque estamos do jeito que estamos. 

Termino constatando que, mais uma vez, a "esperteza" venceu a ética, pois a grande lição que nos deixa o Dr. Denis, parafraseado a sabedoria popular, é que “Plástico, no bumbum dos outros, é dinheiro”... 


Carlos Moreira



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É importante esclarecer que este BLOG, em plena vigência do Estado Democrático de Direito, exercita-se das prerrogativas constantes dos incisos IV e IX, do artigo 5º, da Constituição Federal. Relembrando os referidos textos constitucionais, verifica-se: “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato" (inciso IV) e "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença" (inciso IX). Além disso, cabe salientar que a proteção legal de nosso trabalho também se constata na análise mais acurada do inciso VI, do mesmo artigo em comento, quando sentencia que "é inviolável a liberdade de consciência e de crença". Tendo sido explicitada, faz-se necessário, ainda, esclarecer que as menções, aferições, ou até mesmo as aparentes críticas que, porventura, se façam a respeito de doutrinas das mais diversas crenças, situam-se e estão adstritas tão somente ao campo da "argumentação", ou seja, são abordagens que se limitam puramente às questões teológicas e doutrinárias. Assim sendo, não há que se falar em difamação, crime contra a honra de quem quer que seja, ressaltando-se, inclusive, que tais discussões não estão voltadas para a pessoa, mas para idéias e doutrinas.

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