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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.

01 fevereiro 2014

Desculpem, Eu Me Enganei...



Me perdoem, eu me enganei quando quis defender o Evangelho e, por conta disto, me atritei com pessoas e, em alguns casos, até perdi a oportunidade de conquistá-las para o “nosso” lado.

Eu me enganei quando levei a sério o que diz o apóstolo Judas, que deveríamos lutar pela fé que foi entregue aos santos. Esse negócio de guerra é coisa da idade medieval. Hoje tudo tem de ser feito de tal forma a harmonizar relacionamentos. Tudo é network!


Sim, eu acho que me enganei quando quis defender a sã doutrina, o ensinamento dos apóstolos, pois tudo é questão de cultura, e nós, como cristãos, não devemos entrar em choque com a sociedade e com os costumes de nosso tempo. 


Na verdade, percebi que havia me equivocado quando comecei a perder amigos, quando foram aumentando os desafetos, quando a pecha de “radical” começou a se tatuar em meus escritos e mensagens. A saída, percebo, é falar sobre temas do senso comum, evitar polêmicas, agradar a todos e, nunca, nunca mesmo, discordar de pessoas influentes.


Estou equivocado, admito, porque percebi que ando na contramão, que todo mundo está indo na direção contrária e, sendo assim, eu é que devo estar errado! Minha fé está ultrapassada, precisa ser reciclada com novas técnicas do mundo gospel e com estratégias de gestão eclesiástica.


O que penso, é que a “ficha” só começou a cair quando me dei conta que ainda estava orando todo dia, lendo apuradamente a Escritura, querendo socorrer o meu semelhante nas suas dores e guardando o estranho hábito de adorar e contemplar o altíssimo. Percebi que essas coisas são muito embaraçosas nos dias atuais e aí me dei conta de que fiquei ultrapassado... 


Foi difícil, mas posso discernir que não devo julgar ninguém independe do que faça ou diga contra o Evangelho. Nestes dias, o “não julgar” é mais importante do que a denúncia honesta, afinal, como ir contra o sucesso inquestionável de muitos? Ora, se é bem sucedido, é porque Deus está com ele!


Estou mesmo constrangido, pois tenho a impressão de que tudo o que fiz foi em vão... Tantas madrugadas preparando mensagens, tantos anos lendo, estudando, me capacitando para produzir conteúdos relevantes. Perda de tempo... Muito mais fácil seria usar jargões populares, vídeos bombantes, pirotecnia circense e meia dúzia de canções de pula-pula. Teria alcançado muito mais gente!


É duro, mas tenho de reconhecer, publicamente, que me enganei... Mas, como eu sou do contra, e sou muito implicante, continuarei fazendo o que sempre fiz, nestes últimos 30 anos, do mesmo jeito, falando e escrevendo os mesmo conteúdos. Que importa que eu siga enganando a mim mesmo, se Cristo for pregado com toda a inteireza do Evangelho, no poder do Espírito Santo? 


E assim, mesmo que eu esteja totalmente errado, continuarei a pregar e amar a mensagem da Cruz e da Salvação, escândalo para os religiosos, loucura para os sábios deste tempo, mas, para os humildes de espírito, pacificação e graça.


Carlos Moreira


Sobre a Questão do "Não Julgueis".



O mundo religioso é curioso: por um lado, desenvolve nas pessoas comportamentos jactantes, ao mesmo tempo que é capaz de produzir, no mesmo indivíduo, uma pseudo-piedade. 


Tenho visto muito isto no quesito do julgamento. Há um excessivo pudor quanto ao tema. Qualquer opinião ou avaliação que se faça de fatos ou pessoas, já expõe aquele que emite o comentário ao famoso jargão: “não julgueis!”. 

Ora, a Escritura não pode ser interpreta para satisfazer os meus fins, e nunca, fora do contexto do texto, pois isso traz um enorme prejuízo à aplicação de seus conteúdos. Como pode uma passagem da bíblia afirmar: “não julgueis”, e outra vaticinar: “julgue”?

Você mesmo pode comprovar isso que estou afirmando usando uma chave bíblica, pesquisando a palavra: “julgar”. Esse processo também pode ser executado aqui na internet, em algum site de bíblia on-line. 

Portanto, para os que não compreendem esta aparente contradição, afirmo que o texto tem de ser analisado em função de suas circunstâncias, tais como: o livro, o autor, a datação, a cultura, o contexto imediato, o capítulo anterior, ou posterior, o tema da perícope, e por aí vai... 

Assim, sugiro a quem não tem experiência com o tema, tomar cuidado ao postar sua opinião pessoal usando o texto sagrado, pois suas citações correm sério risco de afirmar uma grande bobagem e, pior do que isso, sua bobagem pode acabar ganhando “eco”... 

Para concluir, vou dar um exemplo prático sobre esta questão utilizando um texto de Paulo em 1ª. Co. capítulo 5. O contexto de Paulo nesta carta é exortar a igreja de Corinto que enfrentava diversos problemas de ordem ética, moral e espiritual. 

Neste capítulo, em particular, ele fala de desvios de conduta e analisa aqueles que estão “do lado de dentro”, ou seja, na igreja. 

Observe que fazer qualquer análise sem levar em consideração este contexto mínimo pode me levar a cometer um grave equívoco na exegese. Pois bem, analise o verso 12 desta passagem, onde está dito: “Pois, como haveria eu de julgar os de fora da igreja? Não devem vocês julgar os que estão dentro?”. 

O que quer dizer o apóstolo com esta afirmação? Que se pode, e mais, que se deve fazer juízo sempre que a conduta for imprópria, com vistas a que, não só aquele que está se desviando da verdade seja alertado, como também, aqueles que são participantes da comunhão estejam sendo exortados e ensinados. 

Contudo, é mister compreender que o princípio que me autoriza a fazer esse juízo está sempre associado a um desejo sincero, uma fé sem hipocrisia e, sobretudo, visando o bem maior, que é a coletividade, utilizando sempre o Evangelho como parâmetro. É isso que me ensina Jo. 7:24 “Não julguem apenas pela aparência, mas façam julgamentos justos". 


É função de todo aquele que ama a Jesus, guardar a fé que foi entregue aos santos, conforme explicita o livro de Judas e, para tal, utilizar sempre a exortação e o ensino. A profecia é, sobretudo, a denúncia dos desvios dos valores do Reino de Deus, seja em relação aos da própria igreja, seja com os que estão na sociedade como um todo.


Carlos Moreira

15 janeiro 2014

Me Ensina esta Sina



Déjà vu, numa tradução literal do francês, “já visto”, é uma reação psicológica do cérebro que acusa que aquilo que vimos, ou sentimos, já aconteceu antes, sem, contudo, jamais ter ocorrido.

Nos trilhos do cotidiano, por entre os becos da vida, tenho encontrado os que sofrem com este mal. São amputados de afetos, solitários inveterados, irresolutos contumazes. Eles sofrem ao ar livre, mas ninguém os percebe. São Déjà vu, gente que geme em voz alta sem ser notada, como o jornal de ontem, levado pelo vento, elas vão e vem pelas calçadas. 

Quando a alma desembarca nesta estação, acredite, é porque a vida já esculpiu no mural dos dias muita dor. O tempo desfigura a face e o sofrimento enruga o ser. Existir assim, sem retoques, preto no branco, não é para qualquer um, só gente com duas dobras é capaz de suportar.  

“Eu já passei por isso”, eles me afirmam. Com semblante esmaecido, que denuncia ambientes internos vazios, falam páginas inteiras só com a expressão do olhar. “Sim, moço, eu já senti esta dor, eu já andei neste traço, já fui feito parte e pedaço, já me perdi até de mim”. 

Hoje eu sei que a amargura produzida pela dor da desesperança caleja o chão do ser e faz ferida no coração. Quem já sofreu com a navalha do destino, desde cedo, desde menino, sabe requentar lágrimas para servi-las no prato da ceia. O que não mata hoje, cala a esperança do amanhã que nunca chega. 

Na vida, ou você abre portas ou levanta paredes, ou se escancara para mundos, ou sucumbe asfixiado pelo sofrer. Nada há de novo debaixo do sol, tudo já foi feito, não há nada por se fazer, tudo é Déjà vu, na janela do trem, a paisagem é sempre a mesma, não importa o lado nem a direção, o trilho sempre leva ao mesmo lugar, sempre a mesma estação... 

Mas creia, há cura para esta chaga! E nem é preciso unguento ou cachaça, basta embeber o coração em alegria e untar a alma com gratidão. Sim, não há força maior na vida do que um vivente que insiste em sorrir sem motivo, em seguir sem aviso, arando a terra com as lágrimas do caminho, gotas de esperança semeadas no solo seco de cada amanhecer.

E assim, com portas e janelas abertas, a vida convida o sol para o café, faz sala e veste a mesa com toalha rendada de crochê, tecida fio a fio, que nem trabalho de aranha, que desenha na teia pintura tamanha, que artista nenhum consegue reproduzir. 

Aprende, portanto, a ser agradecido, bebe com singeleza o teu vinho e come graciosamente o teu pão, pois o sábio ensina que fazendo assim, agradarás a Deus. Vai, então, faze isto e viverás, pois querer mais do que isso é desejar o infinito, e basta a ti ser finito, sombra, silêncio e solidão. 

Carlos Moreira

10 janeiro 2014

Desgraçadamente Rico



Jesus nos fala sobre um homem infeliz no Evangelho de Lucas. Ele não era nem mendigo, nem enfermo, não padecia dos males comuns que matam os mortais. O problema do sujeito era excessos... Sim, ele sofria de um mal quase incurável: tornara-se insaciável.

A parábola nos relata a história deste amaldiçoado, um homem que tinha de um tudo, do bom e do melhor, mas sua alma não se saciava, era como pia que bebe água de torneira quebrada. De noite, ela sussurrava baixinho em seu ouvido: “é pouco, eu quero mais...”.  

Aquele tinha sido um ano especial por demais... Os celeiros estavam abastados, cheinhos até a boca, quase engasgados. E homem, em sua cadeira de balanço, olhava o resultado do seu penoso trabalho debaixo do sol. Era orgulho só! Dizia consigo mesmo: “Tudo isso fui eu que fiz”. Pitava o cigarro de palha, no entardecer do dia, e soprava a fumaça como chaminé de fábrica.

Mas havia em seu interior uma queimação, uma danação danada. Era comichão, dava tremelique e tudo o mais, suadez, cansaço e coriza. O homem olhava aquele amontoado de trigo no paiol e endoidecia: “É pouco!”, dizia, “Podia ter feito mais...”. Havia sobejos no campo, uma restinga de nada que se podia dar ao povo daquele lugar faminto, mas o peste não podia perder nem gota de suor.

Tenho observado a vida, apreciado um tipo de apetite que só se sacia com a terra da sepultura. Há homens que possuem tudo e são miseráveis de espírito, sim, são pobres, cegos e nus. Tristeza desgraçada é a alma não se fartar com nada, nem com ódio nem com amor, nem com pódios nem com dor. É como a garganta escancarada tentando beber a água do oceano inteiro, mas o mar todinho, para esse tal, não passa apenas de uma poça.

“Construirei celeiros ainda maiores e guardarei neles as minhas riquezas...”, afirmou o desenganado. E foi assim que desfez castelos, derrubou cercas, quebrou telhas, picotou o piso, botou tudo no chão, de riba até embaixo. Depois, sentou-se no alpendre, fez contas, planos, levantou paredes, alargou espaços, botou nova coberta e pintou tudo de encarnado, uma belezura que dava gosto de ver...

E foi assim que se foi o verão, cheio de canseiras e mesmices... Então descansou o desinfeliz! Com celeiros maiores, capazes de armazenar ainda mais trigo, ele agora dava-se por satisfeito. Mas até quando? "Não teria sido melhor fazer, pelo menos, um galpão a mais para eventualidades?", pensava. E se revolvia de um lado para o outro...

“Louco”, disse Jesus! Tens celeiros lotados e uma alma vazia. Possuis mais do que podes consumir e não tendo com quem repartir, de que te adianta tanta prosperidade? A riqueza só traz proveito se puder ser dividida. A produção de toda uma vida acaba apodrecendo nos celeiros do ser quando o fruto colhido se torna entulho de coisas no coração.

Carlos Moreira

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