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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.

10 janeiro 2014

Desgraçadamente Rico



Jesus nos fala sobre um homem infeliz no Evangelho de Lucas. Ele não era nem mendigo, nem enfermo, não padecia dos males comuns que matam os mortais. O problema do sujeito era excessos... Sim, ele sofria de um mal quase incurável: tornara-se insaciável.

A parábola nos relata a história deste amaldiçoado, um homem que tinha de um tudo, do bom e do melhor, mas sua alma não se saciava, era como pia que bebe água de torneira quebrada. De noite, ela sussurrava baixinho em seu ouvido: “é pouco, eu quero mais...”.  

Aquele tinha sido um ano especial por demais... Os celeiros estavam abastados, cheinhos até a boca, quase engasgados. E homem, em sua cadeira de balanço, olhava o resultado do seu penoso trabalho debaixo do sol. Era orgulho só! Dizia consigo mesmo: “Tudo isso fui eu que fiz”. Pitava o cigarro de palha, no entardecer do dia, e soprava a fumaça como chaminé de fábrica.

Mas havia em seu interior uma queimação, uma danação danada. Era comichão, dava tremelique e tudo o mais, suadez, cansaço e coriza. O homem olhava aquele amontoado de trigo no paiol e endoidecia: “É pouco!”, dizia, “Podia ter feito mais...”. Havia sobejos no campo, uma restinga de nada que se podia dar ao povo daquele lugar faminto, mas o peste não podia perder nem gota de suor.

Tenho observado a vida, apreciado um tipo de apetite que só se sacia com a terra da sepultura. Há homens que possuem tudo e são miseráveis de espírito, sim, são pobres, cegos e nus. Tristeza desgraçada é a alma não se fartar com nada, nem com ódio nem com amor, nem com pódios nem com dor. É como a garganta escancarada tentando beber a água do oceano inteiro, mas o mar todinho, para esse tal, não passa apenas de uma poça.

“Construirei celeiros ainda maiores e guardarei neles as minhas riquezas...”, afirmou o desenganado. E foi assim que desfez castelos, derrubou cercas, quebrou telhas, picotou o piso, botou tudo no chão, de riba até embaixo. Depois, sentou-se no alpendre, fez contas, planos, levantou paredes, alargou espaços, botou nova coberta e pintou tudo de encarnado, uma belezura que dava gosto de ver...

E foi assim que se foi o verão, cheio de canseiras e mesmices... Então descansou o desinfeliz! Com celeiros maiores, capazes de armazenar ainda mais trigo, ele agora dava-se por satisfeito. Mas até quando? "Não teria sido melhor fazer, pelo menos, um galpão a mais para eventualidades?", pensava. E se revolvia de um lado para o outro...

“Louco”, disse Jesus! Tens celeiros lotados e uma alma vazia. Possuis mais do que podes consumir e não tendo com quem repartir, de que te adianta tanta prosperidade? A riqueza só traz proveito se puder ser dividida. A produção de toda uma vida acaba apodrecendo nos celeiros do ser quando o fruto colhido se torna entulho de coisas no coração.

Carlos Moreira

09 janeiro 2014

Dublê Quase Perfeito



O “pecado” da Figueira era o disfarce. Era ter folhas e não ter frutos, estar decorada, mas não ter nada para oferecer, parecer apetitosa de longe, ainda que, de perto, estivesse pálida e seca.

Jesus não suportava esse tipo de estelionato. Ele sabia o quanto isso fazia mal ao ser. Aquela Figueira era uma arquetipia de Israel, uma representação daquela devoção que cumpria as etiquetas da religião enquanto, ao mesmo tempo, asfixiava as fontes da alegria de ser. Era o mal daquela geração: amargar existir apenas para fora. Sem frutos, a árvore secou. No correlato, sem amor, o que se pode aproveitar?

Hoje a Igreja é o Israel de Deus, a Kahal, a assembléia dos chamados à festa onde o perdão é servido como dádiva do amor no banquete da vida. Mas as dinâmicas da religião ainda continuam tão vívidas, privilegiam aparências, disfarces em plena luz do sol ao meio dia.

“Venha para cá!”, eles dizem. “Entre, sinta-se em casa. Aqui acolhemos a todos, sem distinção, sem prediletos”. Mas ao passar pela porta, você é orientado a pegar a sua máscara. Coloque-a sutilmente, ajuste-a levemente e sente-se confortavelmente. Aguarde um pouco e você logo ouvirá: “Não se incomode, aqui todo mundo está escondendo alguma coisa, aqui todo mundo é perfeito”.

Então, sorria! Seja o mais artificial que puder. Todos estão olhando e todo mundo sabe de todo mundo. No fundo, é como um grande baile onde a insensatez é senso comum. Você é fraudulento? Não se importe! Pareça honesto, fale de princípios, defenda a honradez! Nas próximas duas horas de “culto”, você pode ser quem quiser, só não seja você mesmo.

Você é gay? Não se atormente! Mas seja discreto, sente-se como macho, pareça um “pegador” e tudo estará bem. Se tiver um relacionamento, cuidado! Não cometa deslizes! Não vá esquecer de usar os artigos e pronomes sempre no feminino. Ademais, que importa que se saiba a verdade? Aqui, entre os “santos”, não pode haver “manchas” ou “máculas”. Deixe os incômodos para a dura realidade que está do lado de fora...

E assim, de disfarce em disfarce, os dias vão se arrastando... O mentiroso, como num passe de mágica, torna-se assertivo. E no picadeiro do mercado da fé, o fofoqueiro é confiável, o avarento, generoso e o hipócrita, autêntico. Até eu, que sou lixo, sinto-me são neste meio... Quisera, todavia, ser apenas pecador...


Mate-me, se preciso for, mas diga-me sempre a verdade na cara, crua e rara, verdade verdadeira! Não me deixe viver no engodo, não me deixe sucumbir no engano de mim mesmo. Livra-me da embriaguez de me imaginar protótipo de idealizações, projeto perfeito, quase rarefeito, de um Robocop espiritual que, na melhor das hipóteses, não passa de manequim de espantalho travestido de uma espiritualidade arrotada boca a fora, mas jamais encarnada como vida no chão do mundo.  

Carlos Moreira

31 dezembro 2013

Que me Importa...




O ano termina hoje. Muda o calendário, mas segue a vida. Os problemas de 2013, garanto, estarão presentes em 2014. O que pode dar a cada um deles nova significação serão suas atitudes. Não há nenhum tipo de magia na virada de um ano.

No dia 31 de dezembro, é praxe de algumas instituições e empresas fecharem para fazer balanço. Com muitas pessoas também é assim... Elas tentam fazer um encontro de contas com a vida, analisam a contabilidade dos dias, esmiúçam lucros e planos, perdas e danos, e chegam assim ao resultado da operação. Por vezes, ele é positivo, mas, não raro, acaba-se por perceber que o ano trouxe mais tristezas do que alegrias, deixando o saldo da conta no vermelho.

Quando isso acontece, nossas ambiências interiores são invadidas por aquele sentimento de fracasso, de vazio. Olhamos para trás e verificamos que não valeu a pena. Gastamos tempo, dinheiro, esforços, gastamos vida, e o retorno, simplesmente, não veio. Plantamos e não colhemos, amamos sem ser correspondidos, trabalhamos muito para pouco resultado, corremos e não conseguimos alcançar, choramos, mas não houve quem nos consolasse.

Contudo, estou decidido: não vou guardar nenhum tipo de sentimento ou alimentar qualquer tipo de pensamento que não seja argamassa para construir escadas e não muros. Em 2014, farei ainda melhor do que fiz em 2013! Trabalharei com mais paixão, servirei melhor as pessoas, gastarei mais tempo com meus amigos, aprenderei a sorrir mais e a reclamar menos, pois, que me importa se nem tudo saiu, exatamente, como eu queria?

Que me importa se eu amei e não fui correspondido? Amor é uma coisa que nunca se esgota, quanto mais agente dá, mas ele em nós se renova. Além do que, o amor não faz balanço, nem acerto de contas, se há desigualdades, ganha sempre quem deu mais de si ao outro. Se você amou sem ser amado, se se doou e não foi compensado, se deixou-se gastar por quem não lhe deu o devido valor, que importa?! Melhor foi amar do que represar as fontes do coração e tornar árida a alma. Quem dá o melhor de si, sempre receberá como paga da vida paz e bem para o ser.
    
Que me importa se o governo me frustrou e deixou aquela sensação de que fui roubado? Creia, não será sua incompetência que irá me fazer sonegar, ou deixar de agir com responsabilidade. Seu descaso não me levará a burlar as leis ou desrespeitar a constituição. Pelo contrário, minha revolta será a minha fome e sede de justiça, minha indignação se revelará pela minha honradez, ainda que todos façam errado, e torçam para que dê errado, eu permanecerei fiel aquilo em que acredito. Farei uma revolução primando pela verdade, começando por mim mesmo, darei o exemplo de que agir de forma correta não é diferencial, é obrigação!

Que me importa que eu não tenha ganhado com minha profissão aquilo que entendo ser justo? É triste, mas eu sei que muitos estão terminando o ano mais pobres e endividados. Num mundo em que as pessoas são julgadas pelo que possuem e não pelo que são, é de desanimar. Mas fazer o quê? Mudar de atividade? Tentar a ilicitude? Não. É certo que eu ganhei menos do que merecia, mas com minha atividade ajudei a tornar a sociedade um pouco melhor. Não fiz das circunstâncias um trampolim para o oportunismo, nem esmaguei aqueles que estavam sob minha gestão. Não maximizei lucros economizando com a justa remuneração de outros, nem fiz intrigas ou me submeti a jogos de poder. De uma coisa, todavia, estou absolutamente certo: busquei fazer o melhor que pude com os dons e habilidades que recebi. Nem sempre o resultado daquilo que fazemos é financeiro, por vezes, ele se traduz por um simples sentimento de dever cumprido.
 
Que me importa que eu não tenha sido o mais esperto, ou o que tirou mais vantagens das oportunidades? Ora, se para tal era preciso negar valores, barganhar princípios, lotear o coração por preço e tornar a consciência venal, melhor que tenha sido assim mesmo. Estou orgulhoso de ceder a posição para alguém mais velho, ou de dar oportunidade para o outro me passar no trânsito, ou ainda de não ter feito negócios que não reconheçam os direitos da propriedade e autoria. É provável que o mundo não tenha ficado melhor com minhas pequenas iniciativas, mas eu certamente fiquei! A esperteza, por vezes, é inimiga da destreza, e eu prefiro saber fazer, do que já levar feito.

Que me importa se eu me dei, se fui amigo, se agi com lisura, e não fui compensado ou mesmo compreendido? Eu sei que a ingratidão é coisa doída, que fere o ser com a aspereza do metal que rasga a carne, mas eu aprendi que é melhor dar do que receber. Como dizia a velha canção de Dominguinhos: “amigos a gente encontra...”. Eu sei que dá medo abrir a casa e o coração, e mais medo dá quando tornamos alguém íntimo do nosso ser e ele nos rouba a privacidade de existir entre cortinas de seda. Há os que te apunhalaram com o punhal da língua afiada, e os que te desprezaram em meio ao aguaceiro que caiu na escuridão da noite. Não te deixes abater pelo amor que te foi negado, segue resignado que o amanhã trará novamente o sol.
    
Que me importa se a minha fé parece utopia e as minhas crenças me levam a andar na contramão? Ora, não há prêmio sem lágrimas, nem vitória sem luta! Em meio a uma sociedade baseada na imagem, eu quero ser real, em meio a uma geração que deseja apenas ser feliz, eu quero ser perfeito, as voltas com um tempo onde consumir é a marca de existir, eu quero continuar repartindo. O Deus em quem acredito é diferente dos demais, ele chora, sorri e sangra. Abriu mão da sua glória para tornar-se homem comum. Não se parece com um super-herói, pois não sabe lutar, não tem uma armadura e sua única arma é o amor. O símbolo da minha fé não é uma espada, ou uma estrela, mas uma cruz. Eu sei: estou mesmo indo no contra-fluxo, mas a fé é mesmo absurdo...
 
E por tudo isso, e muito mais, que eu conto outro dia, feliz 2014 para você. Se 2013 não foi como você pensava, ou gostaria, na verdade, foi como deu para ser, foi como podia...  

Carlos Moreira

30 dezembro 2013

Feliz 2014!



Com esta adaptação de "Águas de Março", de Tom Jobim, me despeço de 2013. Em 2014, vamos trabalhar para reverter tudo isso!

É voto, oferta, é o fim do caminho
É um bando de loucos, é um crente tolinho
É pastor que é bandido, é mentira sem dó
Distorção da Escritura, é o laço sem nó

Oração que é encanto, é unção financeira
É o mergulho no manto, culto da sexta-feira
É unção do pulinho, é joelho no chão
É o mistério profundo, é uma revelação

É o líder caindo, é promessa em ladeira
É fofoca, é inveja, é um queira ou não queira
É a chuva chovendo, é conversa fiada
É profeta que mente, é oração enguiçada

É na fé, é na unção, evangelismo na feira
Livramento na rua, é a marcha estradeira
É um anjo no céu, uma arca no chão
Um shofar, uma bíblia, e óleo pra unção

Isso é o fundo do poço, isso é o fim do caminho
É o vinho sem mosto, é um povo fraquinho
Vai tu hoje, eu que prego, é exegese sem ponto
Púlpito amordaçado, a mensagem é um conto

É o povo, constrangido, é a prata brilhando
É o dízimo com medo, devorador chegando
Lenga-lenga, euforia, mente cauterizada
É catarse, é doidice, é o fim da picada

É o projeto do templo, é campanha, é um drama
Pra sair do atoleiro, é a lama, é a lama
É a rosa, é o lenço, a chave do amanhã
É demônio caindo, tá amarrado satã

Com o Evangelho é possível mudar tal situação
Pois tem promessas de vida pro teu coração

Me contaram de um tal, crente que é mané
Deu de oferta a casa, quase perdeu a mulher

Com o Evangelho é possível mudar tal situação
Pois tem promessas de vida pro teu coração

Mau, queda, fim, caminho
Rezo, pouco, mas não tô sozinho
Creio, faço, vida, sol, noite, morte, luz, suor  

Com o Evangelho é possível mudar tal situação
Pois tem promessas de vida pro teu coração


Carlos Moreira

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É importante esclarecer que este BLOG, em plena vigência do Estado Democrático de Direito, exercita-se das prerrogativas constantes dos incisos IV e IX, do artigo 5º, da Constituição Federal. Relembrando os referidos textos constitucionais, verifica-se: “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato" (inciso IV) e "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença" (inciso IX). Além disso, cabe salientar que a proteção legal de nosso trabalho também se constata na análise mais acurada do inciso VI, do mesmo artigo em comento, quando sentencia que "é inviolável a liberdade de consciência e de crença". Tendo sido explicitada, faz-se necessário, ainda, esclarecer que as menções, aferições, ou até mesmo as aparentes críticas que, porventura, se façam a respeito de doutrinas das mais diversas crenças, situam-se e estão adstritas tão somente ao campo da "argumentação", ou seja, são abordagens que se limitam puramente às questões teológicas e doutrinárias. Assim sendo, não há que se falar em difamação, crime contra a honra de quem quer que seja, ressaltando-se, inclusive, que tais discussões não estão voltadas para a pessoa, mas para idéias e doutrinas.

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