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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.

18 outubro 2012

Casamento “Amarrotado”, mas de “Papel Passado”


O personagem de Alexandre Borges na novela “Avenida Brasil”, da Rede Globo é, sem dúvida, um dos papéis mais hilários do ator. “Cadinho”, um rico empresário, bon vivant, é casado com 3 mulheres ao mesmo tempo e possuí 3 filhos, um com cada uma delas.

Até aí, levando-se em consideração as idiossincrasias dos “tempos modernos”, dá para entender, pois, decerto, o cara é mesmo bom de enganação. O inusitado, todavia, é que em certo momento da trama, “Cadinho” passa a viver simultaneamente com as três mulheres, e isso de forma consensual, ou seja, ele torna-se uma espécie de marido on demand, tendo que cumprir uma agenda semanal na qual busca atender as necessidades de cada uma delas.

Não obstante tudo isso, mesmo não podendo ser “casado” com todas as “esposas”, tendo sobre si as implicações legais, os relacionamentos de “Cadinho” são legítimos, uma vez que ele mantém um convívio estável com cada uma delas. É que no Brasil não existe crime de “poligamia”, mas de “bigamia”, previsto no artigo 235 do código penal, o qual trata do fato de você tentar fazer o registro em cartório de um casamento já tendo outro registrado anteriormente.

Assim, do ponto de vista civil, pode-se ter quantas mulheres quiser, sem que isto incorra em crime, mas apenas um casamento registrado em cartório, não esquecendo que uniões estáveis possuem os mesmos direitos daquelas de “papel passado”. Quem consentir em viver nestas condições, que o faça, de livre e espontânea vontade.   

Na verdade, “Cadinho” tem, ao mesmo tempo, três mulheres e nenhuma. Sim, por que ter um casamento não significa ter filhos em comum, ou uma casa, bens, dormir no mesmo quarto, na mesma cama, ir junto a lugares, festas, fazer supermercado, pagar contas, e até ter relações sexuais! Nada disto define um casamento! Casamento não é uma existência a dois, mas, dois que, na existência, se fazem um em essência.

É triste, mas há muitas pessoas “casadas” que jamais se casaram. Elas se “deram” no papel, mas não se entregaram no coração, juntaram coisas, mas não partilharam sonhos, conviveram, mas não compreenderam o significado de conjugalidade, habitaram o mesmo ambiente, mas nunca os "cômodos" da alma um do outro, fizeram sexo e não amor, geraram filhos, mas não puderam criá-los tendo o casamento como referência de relacionamento.

Neste sentido, a bíblia nos dá uma dica sobre o que é casamento: “... Portanto, deixará o homem pai e mãe, e se unirá a sua mulher, e serão dois numa só carne”. MT. 19:5.

Há três implicações profundas para que algo desta natureza possa se estabelecer sobre o passadiço da vida: (1) “deixar pai e mãe”, que tem a ver com a quebra dos vínculos emocionais, ou seja, é a emancipação do sujeito como indivíduo capaz de dar rumo e significado a própria vida.

(2) “Unir-se a sua mulher”, que diz respeito ao ato público de assumir um estado existencial com as prerrogativas de poder mantê-lo e provê-lo de todas as suas necessidades sociais. Uniões só se estabelecem de forma duradoura quando partilham de valores e princípios, pois, como disse o profeta Amós: “como andarão dois juntos se não houver entre eles acordos?”.

(3) Finalmente, “ser uma só carne”, que trata das implicações espirituais daqueles que se unem fisicamente para o bem, pois sexo não é apenas coito, mas um ato que “mistura” a essência das pessoas. Sim, nele há a liberação do que de mais íntimo há em nós, e não apenas de fluídos, com desdobramentos para além dos sentimentos, pois depositamos um pouco de quem somos no outro e trazemos para nós um pouco daquilo que o outro é. Sexo é simbiose de alma e partilha de espírito, é troca para além da matéria, é coisa transcendental, muito antes de ser carnal.

Portanto, preste bem atenção no tipo de relacionamento que você está construindo! Não chame de casamento o que é apenas um contrato por cotas limitadas, com objetivos comuns, divisão de tarefas, participação nos resultados e geração de ativos.

Contudo, se quiser mesmo viver um casamento, dou-te um conselho: pense mais no outro do que em você, entregue-se sem receios ou reservas, ame com toda a intensidade, sabendo que amor é uma opção, não um sentimento, faça filhos por amor e sexo sem pudor. Não esqueça, todavia, o principal: peça para que Deus lhe ajude a construir uma família, não uma empresa.

Carlos Moreira

18 setembro 2012

Homens que Marcam o Chão em que Pisam




Há homens que nascem para marcar o chão em que pisam. Eles são singulares, irrepetitíveis. Gente desta envergadura não se satisfaz em passar pela vida como turista. Eles desejam imprimir algo na história da humanidade, saciar o apetite de ir além do trivial.

Pensando nisso, lembrei que a indústria do entretenimento, motivada em reverenciar e imortalizar seus ídolos criou a famosa Calçada da Fama, em Hollywood. O seu longo passeio, de forma inusitada, está “eternizado” com as marcas das mãos e pés de centenas de celebridades do showbiz.
   
Mas para entrar nesse seleto hall é preciso atingir o “sucesso”, tornar-se midiático, e, não raro, extravagante. As marcas daquela calçada mais parecem “pegadas” que descortinam a história de cada um, todas escritas num chão comum. Mas foi a “poeira da existência”, acumulada pelos anos, o que acabou por esculpir na lousa da vida o que veio a se constituir narrativa pessoal.

O que tenho observado na “sociedade da imagem” é que só aqueles que escreveram seus nomes nas “Calçadas da Fama” se notabilizaram. Ninguém se atém às “pegadas” comuns daqueles que se levantam às cinco da manhã para realizar coisas corriqueiras. Gente que tem de caminhar pelo solo pedregoso da favela para apanhar a condução lotada e ir para o serviço. Eles entram nas fábricas, cumprem suas jornadas e recebem pelo que fazem. Mas, sem perceber, acabaram se tornando apenas peças da grande engrenagem que engole pessoas e devora o ser.

Pelas “calçadas da vida” há pegadas de muita gente boa, quase todas sobrepostas, o que nos mostra que, independentemente da direção, o caminho de todos os homens é sempre o mesmo. As marcas que produziram ficam apenas “impressas” no diário daquele dia, na rotina anônima de cada um. E assim, ao final da empreitada, todas desaparecem, sobra apenas a fadiga da alma e o cansaço do corpo.

Analisando tudo isso, ocorreu-me a figura de Moisés, o hebreu que conduziu o povo de Israel do Egito até a Terra Prometida. Sempre acreditei que o fato dele não entrar no lugar que fora prometido aos Patriarcas produziu uma imensa frustração, pois diz o Texto Sagrado que ele apenas viu a terra de longe e faleceu em seguida.

Como sabemos, Moisés caminhou 40 anos pelo deserto. Certamente neste tempo produziu muitas pegadas, mas todas foram apagadas pelo tempo e pela areia do solo da Palestina. Elas não ficaram esculpidas senão na sua alma, pois caminhar no deserto faz as pessoas enrijecerem a pele e abrandarem o coração. O “deserto” não é local para empreender uma carreira de sucesso, é lugar para forjar homens de valor.

A história de Moisés, de certa forma, é semelhante à minha, quem sabe, à sua. Eu já andei muito pelo chão da Terra, mas todas as minhas pegadas foram apagadas pelo tempo, delas nada restou a não ser a lembrança dos caminhos que fiz, tanto os que me conduziram à paz e ao bem quantos os que se constituíram veredas de sombra da morte.

Por isso, ao lançar o seu olhar sobre alguém, não busque apenas discernir se ele conseguiu ou não escrever seu nome no hall de galerias célebres, como a Calçada da Fama. Pois, como disse certa vez Clarice Lispector: “Antes de julgar a minha vida ou o meu caráter... calce os meus sapatos e percorra o caminho que eu percorri, viva as minhas tristezas, as minhas dúvidas e as minhas alegrias. Percorra os anos que eu percorri, tropece onde eu tropecei e levante-se assim como eu fiz. E então, só aí poderás julgar...”.

Às vezes, os grandes passos que damos não serão sequer percebidos, passarão incólumes da “plateia”. Eles não serão transmitidos em cadeia nacional de televisão, como foram os de Neil Amstrong, que pisou no solo lunar. Contudo, tais pegadas, feitas sob a poeira que se esvai, ao final de um dia comum, no solo sagrado da vida, revelam o caminho que um homem escolheu fazer, qual direção desejou seguir e que tipo de “frutos” colherá enquanto caminha.

Carlos Moreira

10 setembro 2012

Meu Vício é Viver




Fazer o quê? Não tenho como negar que há em mim essa disposição incansável de continuar, de persistir e resistir até ao improvável. Desenvolvi uma atração irresistível para tentar fazer o que outros não puderam, ir por onde muitos fracassaram, perseguir o que poucos conseguiram.

Fazer o quê? Eu gosto de frio, de chuva, de dias cinzentos, de engarrafamentos, de observar gente que vai e vem. Gosto da cidade grande, de cafeterias, livrarias, de boas conversas e mentes abertas. Gosto da solidão, da ocasião, de manteiga no pão e de por os pés na aspereza do chão.

Fazer o quê? Eu gosto de correr riscos, me expor e, por vezes, até de me contrapor. Mudo de faixa, mudo de lado, mudo de opinião, mudo às vezes fico, emudeço e deixo a mente vagar, transporto-me para outro lugar, fecho-me em copas, desapareço, saio de mim mesmo, deixo a casa e o ser vazios.

Fazer o quê? Tenho uma atração curiosa por coisas velhas. Admiro o retrô e possuo uma estranha saudade do passado. Não é nostalgia, mas gosto pelo antigo. Já senti muitas vezes que não faço parte deste tempo, deste mundo, desta geração. É pura contradição trabalhar com tecnologia e apreciar o rudimentar, o artesanal, o personalizado.

Fazer o quê? Já conheci muita gente, participei de muitas “rodas”, mas ainda não consegui fazer um amigo. Amizade é coisa difícil de conceituar, difícil de manter e mais difícil ainda de achar. Possuo, sim, muitos conhecidos, mas amigo, amigo mesmo, ainda não; quem sabe, um dia...

Fazer o quê? Eu sou exagerado, passional e ansioso. Tudo o que faço é extremado, é 8 ou 80. Não existe em mim meios-termos, nunca fui comedido, equilibrado, contido ou centrado. Sou excesso e paixão, sou intenso e emoção. A vida, essa sim, me pôs rédeas, o fracasso me impôs a razão e as quedas a ponderação. Mas não se engane, no fundo, ainda sou “bicho solto”.

Fazer o quê? Eu me enfado com a mesmice, não gosto de serializações, de rotinas, de agendas, de programas, de coisas ensaiadas, organizadas. Gosto do inusitado, da aventura, do improviso, do momento. Tenho ânsia em criar, sou movido por espasmos, impulsos violentos, saio do asfalto, ando por atalhos, crio meus próprios mapas, faço rotas onde não há estradas.

Fazer o quê? Apesar de toda a timidez, impensável para quem me aprecia, fato para quem me conhece, gosto de me expressar, sou ser polêmico, de opiniões firmes, convicções quais estacas fincadas no ser, por vezes, inamovíveis. Dificilmente ando de forma cartesiana, estou sempre na contra-mão, no contra-fluxo, do lado “errado” da rua, do lado de fora, onde há pouca ou nenhuma companhia.

Fazer o quê? Tornei-me alguém sem grandes ambições ou muitas pretensões. Como imaginava, na meia idade já conquistei tudo o que desejava meu coração. Um dia, é fato, eu quis dominar o mundo inteiro, mas isso quase me custou perder a minha alma. Ainda tenho uns poucos sonhos, que valem a pena ser sonhados, mas é coisa “rala”, simples e até fácil de se alcançar. 

Fazer o quê? Se ainda há tanto por fazer, e muito mais ainda para ser, não me venha falar em aposentadoria, ócio, feriado ou dia de Santo. Dá licença que eu vou passar, abra espaço que preciso seguir, estou grávido de esperanças e devo em breve parir singularidades. Sim, não espere por mim para o jantar, pois vou por esta estrada imprecisa, nesta ânsia de transcender, de ir além do que sou, tornar-me algo que ainda está por se fazer. E fazer o quê, se meu vício é viver?

Carlos Moreira

 

30 agosto 2012

Na mesa da reconciliação, o cardápio é sempre o Perdão



Davi, o grande rei de Israel, era um homem de batalhas, que na vida colecionou muitos inimigos. Conhecido por sua personalidade forte, por vezes, dura como o aço, em outras ocasiões, todavia, doce como o mel, ele foi responsável pela escrita de quase metade dos salmos da Bíblia.

É dura tarefa realizar a interpretação de textos, sobretudo quando não somente ele, mas o próprio autor está distante de nós. Instiga-me, contudo, esse desafio de decifrar o que habita o coração de alguém em certos momentos de sua vida, como, por exemplo, no caso de Davi, quando ele escreveu: “Prepara-me uma mesa na presença dos meus adversários”, que é uma frase inquietante do extraordinário Salmo 23.

Nesse caso em particular, fiz diversos movimentos exegéticos: busquei compreender a frase por múltiplos ângulos: utilizei traduções diferentes, visitei o original hebraico e analisei a crítica dos especialistas. Mas, para ser honesto, o que lhes trago aqui é a minha maneira de percebê-la, o desejo que tenho de encarná-la como prática existencial, a necessidade de transformar letra em carne.

Essa percepção tão intimista foi construída a partir de um sem-número de observações enquanto ouvia pessoas, anos seguidos, tendo acesso aos seus medos, dores e dramas. Foi assim que compus, a partir do mosaico de suas vidas, essa imagem alegórica que agora passo a lhes apresentar.

Há certo tipo de gente que mais se parece com postes por cujos cabos condutores passam imagens, sons, palavras, ações e sentimentos. Suas almas são como emaranhados de fios desencapados, em flagrante perigo de curto-circuito! Creia-me, há indivíduos que se especializaram em construir “gambiarras” no ser, complexificaram tanto a existência que, depois, nem sabem mais quem são, nem o porquê do que estão fazendo.

Na verdade, essa alegoria da interseção de “fios” nada mais é do que os relacionamentos que travamos na vida, sejam eles afetivos, familiares, profissionais ou de amizade, os quais, por vezes, entram em colapso por motivos os mais diversos.

É triste, mas me parece que à medida que o tempo avança e “devora” a vida, tanto mais as pessoas vão se tornando solitárias, com muitos dos seus relacionamentos, literalmente, se “incendiando”, deixando no caminho percorrido um rastro de cinzas e silêncios.

Por isso, tendo como arquetipia essa interpretação do Salmo 23, peço a Deus para pôr na minha presença uma mesa onde estejam todos os meus desafetos. Sim, digo isso porque a gente não se senta com inimigos à mesa, nós os enfrentamos no campo de batalha! Pedir uma mesa na presença de adversários é algo, simplesmente, impensável, eu sei, e talvez seja por isso que eu tanto o deseje.

O motivo, por outro lado, é bem simples: essa mesa pode ser a única possibilidade de reatar laços partidos, resgatar amigos perdidos, reaver momentos que seriam bons, mas que foram desperdiçados para sempre.

Nessa mesa eu poderia usufruir de gargalhadas que nunca foram dadas, alegrias não experimentadas, recobrar abraços perdidos e partilhar choros contidos. Sim, nesse lugar de encontro seria possível desfrutar da solidariedade que tem tanta serventia quando somos visitados pelos dias cinzentos da existência.

Na minha interpretação da frase lapidar de Davi, a mesa se põe na presença dos inimigos para que eles possam novamente sentar-se ao meu lado, pois assim é possível haver perdão, cura e libertação. O óleo que desce sobre a cabeça tem por finalidade sarar a consciência e produzir saúde para pacificar a alma, e o cálice, aqui também alegorizado, deve sempre transbordar o vinho da alegria, deixando vazar o regozijo que há quando na vida se torna possível o reencontro e a reconciliação.

Quão bom seria poder sentar numa mesa como essa, fosse eu convidado de outrem, fosse o anfitrião da festa do amor! Pena que a realidade nos revele um cenário tão diferente, pois nele é a intolerância e o rancor que são servidos como prato principal, nunca a paz e o perdão.

Por isso, se te for possível, reconcilia-te ainda hoje com o teu semelhante, pondo perante ti e ele uma mesa, conclamando Deus como tua testemunha desse ato de grandeza. Sim, faça isso enquanto ainda há tempo, pois talvez chegue o dia em que a tua mesa seja apenas feita de distâncias e nela tu estejas, absolutamente, só...

Carlos Moreira

 

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É importante esclarecer que este BLOG, em plena vigência do Estado Democrático de Direito, exercita-se das prerrogativas constantes dos incisos IV e IX, do artigo 5º, da Constituição Federal. Relembrando os referidos textos constitucionais, verifica-se: “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato" (inciso IV) e "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença" (inciso IX). Além disso, cabe salientar que a proteção legal de nosso trabalho também se constata na análise mais acurada do inciso VI, do mesmo artigo em comento, quando sentencia que "é inviolável a liberdade de consciência e de crença". Tendo sido explicitada, faz-se necessário, ainda, esclarecer que as menções, aferições, ou até mesmo as aparentes críticas que, porventura, se façam a respeito de doutrinas das mais diversas crenças, situam-se e estão adstritas tão somente ao campo da "argumentação", ou seja, são abordagens que se limitam puramente às questões teológicas e doutrinárias. Assim sendo, não há que se falar em difamação, crime contra a honra de quem quer que seja, ressaltando-se, inclusive, que tais discussões não estão voltadas para a pessoa, mas para idéias e doutrinas.

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