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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.

05 janeiro 2012

Possessões e Possuídos




"Quando um espírito imundo sai de um homem, passa por lugares áridos procurando descanso e não encontra, diz: ‘Voltarei para a casa de onde saí’. Chegando, acha a casa desocupada, varrida e em ordem. Então vai e traz consigo outros sete espíritos piores do que ele, e entrando passam a viver ali. E o estado final daquele homem torna-se pior do que o primeiro. Assim acontecerá a esta geração perversa". Mt. 12:43-45.

Já não é de hoje que me apercebi que fenômenos individuais têm, não raras vezes, o poder de se transportar para o coletivo. Em se tratando de manifestações espirituais, isto é ainda mais comum, como podemos ver no texto acima. 

Desde o verso 38, Jesus vem discutindo com os fariseus sobre as marcas daquela geração perversa que, mesmo sendo testemunha de muitos milagres e prodígios, insistia em manter duro o coração e petrificada a consciência. Na verdade, eles nunca se davam por satisfeitos, e pediam mais e mais sinais. 

Em linguagem junguiana, quando um assunto vira o centro das atenções de uma determinada sociedade, como era o caso ali, ou seja, “toda vez que ocorre um fenômeno de massa, um tema do inconsciente coletivo é ativado para através da projeção coletiva poder ser elaborado, compreendido, para que a consciência coletiva possa evoluir através da compreensão daquele tema”.

Aquele fenômeno, na verdade, se transformara em arquétipo, passando a ser dramatizado através das projeções individuais das pessoas. Estas, por sua vez, assumiram papéis de protagonistas no drama existencial coletivo que estava sendo construído e que dizia respeito não só a individualidade de cada uma, mas a totalidade daqueles que compunham àquela “geração”.

No texto de Mateus, Jesus parte de um fenômeno individual, com seus desdobramentos próprios, e chega ao coletivo, afirmando que aquilo que se processava no micro-universo religioso, carregava em si mesmo todas as potencialidades de tornar-se fenomenologia coletiva. Se não, vejamos: “E o estado final daquele homem torna-se pior do que o primeiro. Assim acontecerá a esta geração perversa".

Mas o que estava sendo tratado ali? Quais as subliminaridades do texto que não estão evidentes a “olhos nus”? São duas as questões relativas ao possuído, as quais acabavam se transportando para uma possessão coletiva.

Em primeiro lugar, Jesus usa uma alegoria para tratar da questão individual e interior da vida humana que se torna desprovida de significados e conteúdos. Isto está posto quando ele afirma que o demônio, deixando aquele indivíduo, procura “lugares áridos” para repousar. Ora, aqui fica claro que aquele espírito havia saído de um “lugar árido” em busca de outro, ou seja, que aquela pessoa havia se tornado, pela via da dor, da amargura, do medo, do desespero, do ódio, e de outros matizes da existência, que por diversas formas se instalaram no seu ser, um deserto, uma terra devastada!

Como a “serpente se alimenta do pó da Terra”, usando a metáfora do Gênesis, os principados e potestades se alimentam de toda a produção humana que irradia dos indivíduos rancores, invejas, ciúmes, murmurações, e toda sorte de energia psíquica que, acumulada pelo sofrimento e pela dor, acaba emanado tudo o que é “veneno” e que por fim servirá de “banquete” aos demônios!

Em segundo lugar, Jesus trata do que se processa do lado de fora – “‘Voltarei para a casa de onde saí’. Chegando, acha a casa desocupada, varrida e em ordem...”. Aqui temos a existência na qual se fez uma “maquiagem”, aquela pintura que serve apenas para esconder a sujeira e as marcas profundas que a vida produziu.

De fato, Jesus estava fazendo uma analogia as práticas coletivas da religião de Israel, a qual, apesar de apresentar-se “varrida e ornamentada”, vivia da aplicação performática de ritos e mitos do sagrado, os quais produziam uma espiritualidade caricaturada, onde a “mobília” das liturgias e sacrifícios servia apenas para produzir uma fé de epiderme, um verniz ético, uma crença de fachada, pois os conteúdos não se enraizavam em direção ao coração, não se aninhavam nos escaninhos da alma, não podiam alcançar os meandros da consciência.  

E assim, conclui Jesus, o estado final daquele homem tornara-se pior que o primeiro, pois não há nada mais corrosivo ao ser do que viver no embuste, no estelionato, na falsificação, ser “figueira sem fruto”, amargando existir para fora, numa eterna estação outonal. E ele finaliza afirmando que aquela possessão individual tinha o “poder” de se transladar também para o coletivo “Assim acontecerá a esta geração perversa", como de fato estava ocorrendo.

Quando olho determinadas práticas da “igreja” em nossos dias, e o procedimento da grande maioria dos cristãos, consigo claramente discernir “possessões” individuais que se instalaram no ser pela projeção das “possessões” coletivas e vice-versa, ou seja, é um ciclo interminável que se retroalimenta. Como bem dizia um amigo: “é bronca! Se ficar o bicho pega, mas, se orar, o bicho foge!”. Valha-me Deus!

Carlos Moreira


04 janeiro 2012

Álbum de Retratos




Desde pequeno sempre gostei de fotografia. Lembro que ganhei minha primeira máquina quando viajei de férias para o Rio de Janeiro, em 1981. Era uma Kodak, pequena, e tinha muito menos recursos do que a que tenho agora no meu telefone celular.

Quem viveu essa época lembra-se que era muito comum a gente ter vários álbuns de retratos, quase todos confeccionados de forma temática, ou seja, as fotos de uma viagem, de uma festa de aniversário ou de um jogo de futebol. Hoje, com os avanços da tecnologia, o hábito de confeccionar álbuns de retratos vem diminuindo sucessivamente. As pessoas mantêm suas fotos no celular, no iPad, no computador, e até em porta-retratos eletrônicos que passam as imagens digitais como um letreiro em miniatura.

Recentemente estive olhando alguns álbuns de retratos antigos dos meus pais. Impressionante como eles têm o poder de eternizar momentos, cristalizar emoções e sentimentos que se projetam para muito além do papel. Foi inevitável que as lágrimas me banhassem a face e o coração se enchesse de saudades...

Não sei se você já se deu conta, mas em todo álbum de retratos só existem fotos que revelam alegria, felicidade, ternura, instantes mágicos! Nenhum álbum registra as dores da vida, as perdas, os fracassos e a solidão. É que os álbuns parecem ter sido feitos para guardar apenas coisas boas, jamais as ruins.

Enquanto fitava as fotos dos meus pais, em circunstâncias diferentes de suas vidas, fui lembrando de suas lutas e dificuldades. Quem olhar para aquele álbum sem conhecer a história, terá a impressão de que tudo na vida deles foi maravilhoso. Mas eu sei que não foi bem assim...

Na verdade, a mágica que há por trás de todo álbum de retratos é que, apesar de nele só estarem contidas as cenas mais belas de nossas vidas, entre uma foto e outra, entre um evento e outro, há muita estrada, não raro sofrimentos contidos, ainda que ali não esteja revelado. Sim, entre duas poses, dois sorrisos, dois beijos, dois olhares, existe muita tristeza e todos os matizes dos quais a vida é feita. São esses momentos que acabam por criar a “ponte” que permite que uma foto se una a outra.

Na vida cristã também é assim. Todas as semanas escuto pessoas me dizendo o quanto é difícil viver o Evangelho, na perspectiva do que Jesus propõe. Elas normalmente vêm de uma experiência de conversão daquelas que prometem o céu na terra, acabaram comprando ilusões, foram enganadas por falsas promessas de prosperidade, saúde e bem-estar. Elas queriam um Deus para servi-las, não um Deus para amá-las.

Se eu fosse publicar, com todas as “cores”, o meu álbum de retratos, como discípulo de Jesus, certamente apareceriam mais perdas do que ganhos, mais dores do que alegrias. É que sem sofrimento eu e você jamais nos tornaremos singulares, pois, como disse certa vez o escritor Goethe: “Quanto mais um homem se aproxima de suas metas, tanto mais crescem as dificuldades”.

É dentro dessa perspectiva que o autor do livro do Eclesiastes, no capítulo 3, nos traz uma afirmação difícil de interpretar: “Tempo de atirar pedras e tempo de ajuntá-las.”. Eu creio que isto tem a ver com o caminho que trilhamos em nossas vidas. Há um tempo na vida onde nós “espalhamos pedras” – agimos no impulso, de forma despudorada, sem medirmos as consequências de nossos atos.

Mas, quando chega a idade adulta, quando já estamos talhados pelo cutelo da vida, muitas daquelas “pedras” espalhadas precisam ser novamente recolhidas, uma a uma, pacientemente. Eu já estou vivendo esse tempo, pois, durante muitos anos, espalhei pedras pelas estradas que trilhei...

Hoje, todavia, entendo que essas pedras que diante de mim estão não são meros obstáculos, mas sim grandes oportunidades, ou, como diz o escritor Fernando Pessoa: “Pedras no caminho? Guardo-as to-das; um dia vou construir com elas um castelo...”.

Ah, e quando fizer isso, certamente não esquecerei de bater umas fotos. É para colocar no meu álbum de retratos da vida!

Carlos Moreira


*Na foto acima, Augusto Moreira, Eunice Moreira e Carlos Moreira em 1980

02 janeiro 2012

O Medo: o Maior Gigante da Alma




Para quem tem medo, e a nada se atreve, tudo é ousado e perigoso. É o medo que esteriliza nossos abraços e cancela nossos beijos; que proíbe e nos coloca sempre do lado de cá do muro. 


Esse medo que se enraíza no coração do homem impede-o de ver o mundo que se descortina para além do muro, como se o novo fosse sempre uma cilada, e o desconhecido tivesse sempre uma armadilha a ameaçar nossa ilusão de segurança e certeza.


O Medo, já dizia Mira Y Lopes, é o grande gigante da alma, é o mais forte e a mais atávica das nossas emoções. Somos educados para o medo, para o não-ousar e, no entanto, os grandes saltos que demos, no tempo e no espaço, na ciência e na arte, na vida e no amor, foram transgressões, e somente a coragem lúcida pode trazer o novo, e a paisagem vasta que se descortina além dos muros que erguemos dentro e fora de nós mesmos.


E se Cristo não tivesse ousado saber-se o Messias Prometido? E se Galileu Galilei tivesse se acovardado diante das evidências que hoje aceitamos naturalmente? E se Freud tivesse se acovardado diante das profundezas do inconsciente? E se Picasso não tivesse se atrevido a distorcer as formas e a olhar como quem tivesse mil olhos?


"A mente apavora o que não é mesmo velho", canta o poeta, expressando o choque do novo, o estranhamento do desconhecido.


Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.

Fernando Teixeira de Andrade.

31 dezembro 2011

Um Novo Ser para um Mesmo Ano




“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos”. Fernando Teixeira de Andrade.

Coisa extremamente perversa é a rotina, o tédio, a mesmice, a acomodação. Não há nada mais destrutivo ao espírito humano do que alguém que virou coadjuvante da história, e não seu ator principal, passou a seguir mapas, e não a fazer mapas, satisfez-se em atingir a média, tornar-se igual, massificado, não-singular, cópia da cópia, rosto na multidão, clone de outros, holograma de carne e sangue. Esquecemos as lições do filósofo Eurípedes, quando afirmou “tudo é mudança; tudo cede o seu lugar e desaparece”.

Todos me dizem que esperam um ano de 2012 melhor. Que haja menos dificuldades, menos inquietações, que as oportunidades perdidas, reapareçam, que os amores desfeitos, ressurjam, que os negócios não concretizados, possam novamente se realizar, que o dinheiro perdido, retorne, algo como se o tempo tivesse seu próprio “espírito”, sua própria vontade, seu próprio querer.

Ora, não é o tempo que vai mudar, não é o ano que vai ser diferente, mas, se desejarem, as pessoas é que poderão ser. As dinâmicas da vida permanecerão as mesmas. Cada estação se abrirá em flores e se recolherá em sombras. Por isso, diz o sábio: “o que foi tornará a ser, o que foi feito se fará novamente; não há nada novo debaixo do sol”. Ec. 1:9. A vida certamente nos brindará com dores, perdas, medos, dramas, todos os matizes dos quais a existência se compõe neste grande crochê que emoldura a saga humana sobre o chão empoeirado da Terra.

“Quando os ventos de mudança sopram, umas pessoas levantam barreiras, outras constroem moinhos de vento”. Érico Veríssimo. Fico impressionado com nossa resistência a mudança, ao novo, àquilo que é inusitado, desafiador! É que nós nos acostumamos com o conforto, com a palidez de dias acinzentados, com a existência que se resumiu entre a boca e o prato – comer para trabalhar e trabalhar para comer.

Em 2012 quero lhe desafiar a mudar, ser diferente, ser persistente, ser gente! “Se os fatos não se encaixam na teoria, modifique os fatos”. Albert Einstein. Aprenda a discernir o tempo, veja o que acontece em nossa sociedade. Desgraçadamente, estamos nos coisificando, tornando-nos lenta e sutilmente seres de coração de pedra e sentimentos de aço. Passamos a amar as coisas e usar as pessoas! É tempo de mudar!    

Com toda certeza, 2012 não será diferente de 2011. Como bem nos chama a atenção o livro do Apocalipse, “continue o injusto a praticar injustiça; continue o imundo na imundícia; continue o justo a praticar justiça; e continue o santo a santificar-se". Por isso, escute o que sabiamente afirmou Elliot Gould: “ninguém pode ser escravo de sua identidade: quando surge uma possibilidade de mudança, é preciso mudar!”.

Feliz 2012 para você! Que este seja o ano da sua virada, pois, a virada do ano, em si mesma, não vai representar qualquer tipo de mudança... Lembre-se do que disse Kant “toda reforma interior e toda mudança para melhor dependem exclusivamente da aplicação do nosso próprio esforço”.

Foi um grande prazer escrever para vocês durante este ano. Procurei ser o mais honesto possível com cada linha publicada. Espero que alguns possam ter sido abençoados. Obrigado ao Danilo pela imensa oportunidade de trabalhar no Genizah.

Termino com o salmo 40:1 e 2: “coloquei toda minha esperança no Senhor; ele se inclinou para mim e ouviu o meu grito de socorro. Ele me tirou de um poço de destruição, de um atoleiro de lama; pôs os meus pés sobre uma rocha e firmou-me num local seguro”. Beijo no coração!

Carlos Moreira

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