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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.

25 março 2011

Deus Está na Próxima Esquina


Um dos temas com os quais os pastores mais se deparam em momentos de aconselhamento é sobre a vontade de Deus. Em tais situações, é muito comum ouvirmos expressões do tipo: “pastor, qual é então a vontade de Deus para a minha vida?”.

Independentemente do tema, a intrigante pergunta sempre surge para nos colocar em situação difícil. Nestas circunstâncias, sinto-me como se fosse um oráculo, um intermediário do sagrado, um profeta de ocasião, alguém que tem de dar uma resposta plausível, pois, do outro lado, há alguém angustiado e inquieto aguardando o meu “parecer”.

Sem querer teologizar muito, e botando logo os pontos nos “is”, a vontade de Deus é de Deus, não é nem minha, nem sua, nem de ninguém. Já li muita coisa a este respeito sem, contudo, jamais me sentir satisfeito. Filósofos e teólogos criam explicações mirabolantes e sistematizadas para tentar tratar de algo que, no meu entendimento, é “terreno de Deus”.

Os calvinistas vêem a vontade de Deus de uma forma, os arminianos de outra, os da teologia da prosperidade enxergam de um jeito, os da teologia relacional de outro. Há os que afirmam que Deus tem vontade descritiva – coisas pré-ordenadas, e vontade permissiva – coisas que ele tolera existir ou acontecer. Tem os que dizem que a vontade de Deus pode ser secreta ou revelada, dispositiva ou perceptiva, e por aí vai... É o homem tentando entrar nas profundezas do insondável.  

Em seu livro “A Soberania de Deus”, Arthur Pink nos dá uma pista de como o tema é denso e, talvez até, incompreensível: “A vontade de Deus é Seu eterno, imutável propósito concernente a todas as coisas que Ele fez, para produzir certos meios para seus fins apontados: disto Deus declara explicitamente: "Meu conselho subsistirá, e farei toda Minha vontade" Is. 46:10.

Mas, afinal de contas, “qual a vontade de Deus para minha vida?”, pois esta é a pergunta que não quer calar. E eu respondo: “sei lá!”. Atrevo-me apenas a exprimir o que diz Paulo aos Romanos, que ela é “boa, perfeita e agradável”. “Pastor, devo casar com fulano?”; “Pastor, devo fazer tal curso”; “Pastor, devo mudar de cidade?”; “Pastor, devo aceitar tal emprego?”; “Pastor...”. Meu amigo, minha amiga, eu, simplesmente, não sei!

O que certamente sei é que esta forma de viver a vida cristã não me parece muito adequada. Mas a verdade é que a grande maioria quer respostas exatas para tudo, acha que na Bíblia há direcionamento sobre todas as questões da existência, espera que seus líderes os aconselhem precisamente em todas as suas indecisões. Ora, isso simplesmente não existe! E é por isso que tanta gente quebra a cara por aí e depois fica culpando Deus, o Pastor, as Escrituras, a mulher, o marido, o amigo, e nunca a sua incapacidade de fazer escolhas próprias.

Para mim, a vontade de Deus está na próxima esquina. O que quero dizer com isto? Que o caminho com Deus se faz caminhando, e que uma coisa é saber sobre o Caminho e outra é caminhar por ele. Nós cristãos nos tornamos cada dia mais teóricos, mais retóricos, esquecemos que o convite de Jesus é para que andemos no “Caminho”, em verdade, pois, só assim, poderemos experimentar a verdadeira vida.

Quem caminha com Deus está construindo com ele uma história aqui na Terra. Enquanto estou, na estrada da existência, “seguindo” a Deus, no encalço de seus passos, estou na realidade permitindo que em mim vá sendo desenvolvida sua soberana vontade, e isto em cada acontecimento do cotidiano, em cada circunstância que vai se “desenhando” no meu caminhar.

Mas, de repente, Deus vira a esquina! Eu olho para frente e não o vejo mais. A “cena” na qual Deus está continua acontecendo na “rua” por onde ele está seguindo agora, mas eu não consigo discerni-la, percebê-la, compreendê-la, pois sou incapaz de enxergá-lo neste momento. O que faço então? Sento e fico adorando a Deus até que ele se revele novamente? Jejuo até que seu caminho se desnude para mim? Oro para que ele me fale o que devo fazer? Consulto um profeta para saber o direcionamento correto? Sinceramente, isto não lhe parece absurdo? Mas é desta forma que muitos estão vivendo.

Ora, de fato, a uma única coisa a se fazer é ir até a esquina e, avistando o “caminhar de Deus”, retomar novamente o seguir os seus passos, ou seja, inserir-me outra vez como parte da “cena” que continuou se desenrolando independentemente da minha presença. Preciso querer estar com Deus, e não apenas saber de Deus.
   
De uma coisa estou certo: “Aquele que faz sempre o que quer, raramente faz o que deve”. Pierre Beauchêne. Ora, se você quer fazer a sua vontade, porque pergunta para mim qual a vontade de Deus? E mais: se você quer fazer a vontade de Deus, porque pergunta para mim o que deve fazer?

Deus está caminhando – “se alguém quer vir após mim...” – siga-o! Se ele virar a esquina, vire também. Se for reto, vá com ele. Se for rápido, corra. Se diminuir a marcha, vá mais devagar. Lembre-se apenas de algo: tente nunca o perder de vista, pois isso seria uma grande tragédia em sua vida. Agora, se isto acontecer, ainda há algo a ser feito: procure algum "representante do sagrado" pergunte para ele: "pastor, qual a vontade de Deus para a minha vida?”...

Carlos Moreira

24 março 2011

Sob Pressão


A semana passada estava em São Paulo a trabalho. Num dos compromissos que tive, visitei o diretor de uma grande multinacional da área de telecomunicações.

Depois de uma rápida espera, fui recebido. “Tenho pouco tempo”, disse-me logo na partida. Conversamos rapidamente. Falei sobre o que havia programado e, de súbito, minha abordagem foi interrompida – “esta semana demiti 14 pessoas. Disseram-me que não vai haver reposição, pois trata-se de redução de custos. Tenho de fazer mais com menos. Não estou dormindo bem nem me alimentando adequadamente...”. 

Após um silêncio desconfortável, voltamos à tratativa original... Terminei a abordagem. Ele agradeceu, disse que ia analisar e retornaria. Eu, contudo, saí daquele lugar com duas certezas: (1) aquele homem não vai comprar o que eu fui vender; (2) estive por alguns minutos diante de uma das pessoas mais angustiadas de toda a minha vida.

Sob pressão. As pessoas estão sob forte pressão. Lembrei da famosa música da banda inglesa Queen “Under Pressure”. Ela foi composta em 1981, no auge da guerra fria entre Estados Unidos e União Soviética. Naquela década, o “conflito camuflado” ganhou contornos mais fortes por causa do aumento da corrida armamentista, motivada, sobretudo, pelo projeto “guerra nas estrelas” do Presidente Reagan.

A tensão daqueles dias era enorme. Numa das frases da canção podia-se ouvir: “É o terror de saber a que ponto chegou o mundo. Observo alguns bons amigos que estão gritando: "deixe-me sair!”. Pensei comigo mesmo: era este o sentimento daquele homem com quem estive a pouco. Ele estava tentando me dizer: “deixe-me sair”.

Também tenho vivido dias difíceis... Às vezes acho que não vou suportar. É pressão de todos os lados. Em qualquer direção para onde me viro, há algo me “comprimindo”. O apóstolo João dizia em seu tempo: “os dias são maus”. Talvez, se vivesse hoje, diria: “os dias são insuportáveis”.   

Questão: o que fazer para lidar com isto? Pressão de todos os lados. Pressão de ter de ser o melhor, o mais rápido, o que vende mais, o que chega primeiro, o que tem as melhores idéias, o que bate primeiro as metas, o que consegue mais clientes, o que gera mais resultados, o que tem a melhor formação, o que é mais competente... Me diga, com sinceridade, dá para suportar?

O que sei é que eu já vivi o suficiente para saber o que a pressão gera nas pessoas. Além de gastrite, insônia, ansiedade, desconforto torácico, dores abdominais, boca seca, dor de cabeça, dentre outros sintomas, a pressão gera dois problemas perigosíssimos para a fé: a auto-suficiência e a alienação. O primeiro trata da ilusão de acharmos que nós é que fazemos tudo acontecer, que os resultados são fruto apenas de nosso esforço. O segundo nos leva a crer que a existência é uma corrida de cem metros, que o importante é como você começa, e não como você termina, que as coisas são como são, que tudo se restringe ao aqui, ao agora, a este mundo, as realidades tangíveis, mensuráveis e concretas. Tudo engano... Tudo falácia...  

Em sua carta aos Filipenses, Paulo nos apresenta dois remédios para estes males. “Não andem ansiosos por coisa alguma, mas em tudo, pela oração e súplicas, e com ação de graças, apresentem seus pedidos a Deus. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os seus corações e as suas mentes em Cristo Jesus”. Fp. 4:6-7.

Para destruir nossa auto-suficiência ele nos recomenda orar. Na verdade, fala de orar intensamente, suplicar. A oração é o reflexo de um coração que aprendeu a depender de Deus, que sabe que a vida não é ganha no “muck”, no braço, no talento ou na inteligência. Lembrei de Bill Hybel e o seu livro “Ocupado Demais para Deixar de Orar”. Sim, quem está no meio de uma grande luta, debaixo de intensa tribulação, como bem disse Rick Warren, não se dará ao luxo de ficar relaxado, despercebido, anestesiado. Não. Ele vai dobrar os joelhos e buscar a Deus com o mais íntimo de sua alma, ele vai derramar toda ansiedade e toda inquietação sobre aquele que pode apaziguar suas guerras e lhe dar quietude no ser.

A outra coisa que Paulo nos ensina é sobre viver em paz. Ele fala da paz que vence o entendimento. Trata-se, na verdade, do desafio de viver de forma diferente, baseado em princípios mais elevados. Veja o verso 8: “tudo o que for verdadeiro, tudo o que for nobre, tudo o que for correto, tudo o que for puro, tudo o que for amável, tudo o que for de boa fama...”. São estes valores que nos ajudam a suplantar as sistematizações e racionalizações as quais estamos expostos, pois eles nos alçam para além das circunstâncias, nos dão tranqüilidade mesmo em meio aos fatos mais negativos e perversos do cotidiano.

Quando saí daquela empresa e entrei no taxi para voltar ao escritório, fiquei pensando que certamente o que aquele homem precisava naquela tarde não era ouvir o discurso de um executivo de tecnologia, mas escutar uma palavra acalentadora de um discípulo de Jesus Cristo. E eu às vezes ainda penso que meu ministério não é de tempo integral...      

Carlos Moreira

18 março 2011

Bolas e Bolos


Eu sou do tipo que só lembra o próprio aniversário por intermédio dos outros. Nunca me preocupei demasiadamente em comemorá-lo.

Talvez isso aconteça porque eu considero a minha existência como um todo e não como uma seqüência de partes no melhor estilo cartesiano. Penso no relógio e não nos mecanismos que o compõem.

Olho sempre para o fim e nunca para o meio. Os meus olhos não se impressionam com o que eu sou e com o que vejo, mas fixam-se naquilo que eu ainda verei e virei à ser.

Contudo, este ano algo diferente aconteceu. Por um momento voltei-me para onde eu estou e não apenas para o lugar onde estou indo.

Costumo fitar as torres ao longe com os seus topos cortando o céu distante, hoje, entretanto, olhei-as de baixo, contemplei a dificuldade em escalá-las ao mesmo tempo em que constatava que agora eu já estou mais próximo do cume do que antes.

O nosso aniversário lembra-nos a nossa missão e o sentido da nossa existência. Sem sentido existencial não há aniversário, apenas festa vazia, bolas e bolos.

Eis aí a função das festas de aniversário: sinalizar em que ponto do caminho estamos. Os aniversários são como estações que nos lembram a proximidade ou distância que no encontramos do nosso destino final.

Cada comemoração de aniversário representa uma porta para um próximo estágio. Por isso mesmo as festas de aniversário são momentos de reflexão, porque representam uma intersecção entre dois mundos.

Eu nunca havia comido um bolo tão gostoso como aquele que os meus alunos me presentearam hoje, dia do meu aniversário. Sou professor, e como tal, existo para os meus alunos, aqueles a quem fui enviado para ensinar.

Penso, porém, que em breve ensinarei a um número bem maior de alunos. Certifiquei-me disso hoje mais uma vez, quando mordi aquele bolo. Ele tinha gosto de multidão.

André Pessoa

14 março 2011

Carnaval e Cristianismo


O carnaval é a antítese do cristianismo. O reinado de Momo inverte toda a lógica cristã e subverte a ordem das coisas proposta pela igreja.

Enquanto o cristianismo louva o comedimento, o carnaval brinda o excesso. A frugalidade é o ensino cristão, a extrapolação é a tônica do carnaval.

Durante o carnaval não existe pecado e nem pecador. No carnaval “o homem é Deus”, criador, onipotente e sem limites, brindando à vida enquanto tilintam as taças cheias de prazeres.

O cristianismo prega a vida eterna, o carnaval a eternidade da vida (ainda que ela só dure quatro dias). Aquele olha para o céu, este se volta para a terra.

O carnaval subverte toda a ordem, o cristianismo se esforça por mantê-la. O cristianismo é a norma, o carnaval a reviravolta, o mundo de ponta-cabeça!

O cristianismo, platônico que é, exalta o espírito e as idéias puras. O carnaval, por sua vez, nietzscheniano em sua essência, dá ênfase a carne, ao dionisíaco e não ao apolíneo.

O carnaval é a festa do mutável, da transformação, das múltiplas faces expressas nas inúmeras fantasias. O cristianismo cultua o dogma, o imutável, o estático, a permanência.

O cristianismo é recolhimento e solidão, é retiro espiritual, é quietude monástica. O carnaval é multidão, é contato, é fusão de corpos e almas.

O carnaval é a festa daquilo que é concreto e palpável, enquanto o cristianismo honra o abstrato. O cristianismo gosta do que não vê, o carnaval se entorpece com o que toca.

Confesso que nem me empolgo demasiadamente com o carnaval e nem reverencio o cristianismo. O que eu gostaria mesmo de ver era um carnaval mais cristão e um cristianismo menos carnavalesco. Seria isso possível?

André Pessoa

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É importante esclarecer que este BLOG, em plena vigência do Estado Democrático de Direito, exercita-se das prerrogativas constantes dos incisos IV e IX, do artigo 5º, da Constituição Federal. Relembrando os referidos textos constitucionais, verifica-se: “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato" (inciso IV) e "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença" (inciso IX). Além disso, cabe salientar que a proteção legal de nosso trabalho também se constata na análise mais acurada do inciso VI, do mesmo artigo em comento, quando sentencia que "é inviolável a liberdade de consciência e de crença". Tendo sido explicitada, faz-se necessário, ainda, esclarecer que as menções, aferições, ou até mesmo as aparentes críticas que, porventura, se façam a respeito de doutrinas das mais diversas crenças, situam-se e estão adstritas tão somente ao campo da "argumentação", ou seja, são abordagens que se limitam puramente às questões teológicas e doutrinárias. Assim sendo, não há que se falar em difamação, crime contra a honra de quem quer que seja, ressaltando-se, inclusive, que tais discussões não estão voltadas para a pessoa, mas para idéias e doutrinas.

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