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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.

04 janeiro 2011

Uma Vida que Cabia num Tanque


Toma-se banho por muitos motivos: por higiene, por questões religiosas, por prazer ou ainda com finalidades terapêuticas. Os hindus banhavam-se no sagrado Rio Ganges para se purificar. Os gregos adotaram o banho como possibilidade saudável e prazerosa. Os turcos, em suas saunas, introduziram na água ervas aromáticas e os Egípcios entregavam-se aos cuidados do deus Thot, devotado a medicina. 


Mas foi entre os antigos romanos que o banho notabilizou-se. Para eles o assunto era sério, tratava de higiene, uma questão de Estado. Onde estiveram os romanos, construíram termas, pois, ir a elas, era bem mais do que se banhar em águas, mas, sobretudo, estar num ambiente em que se apresentavam poetas, se ouvia boa música, se falava das últimas notícias, ou seja, desfrutava-se de prazeres imperiais. 


Há uma casa de banhos descrita na bíblia sagrada. Mas, diferentemente do ambiente prazeroso e inspirador das termas romanas, ela era um local de sofrimento, de dor, de solidão e de morte. Nesta casa não havia divertimentos, nem poesia, nem canções. Contudo, conforme a descrição de João, neste local de horrores um encontro improvável aconteceu. Nele, um homem enfermo, desenganado da vida, deparou-se com Jesus e, a partir de então, sua existência nunca mais foi à mesma. 

Pense comigo: o que faz alguém se arrastar durante trinta e oito anos, dezenas, centenas de vezes para mergulhar em um tanque, mesmo sabendo que seu intento será frustrado, pois outros irão correr a sua frente? Numa resposta simplória, você poderá dizer que ele queria ser curado. Este era o motivo, a razão de tamanha perseverança. Será mesmo?



O tanque de betesda era uma casa apinhada de gente, um lugar de sofrimento, de dor e de morte, um local para a escória, os doentes, os feridos e desesperançados. Tratava-se do último recurso, o paradeiro derradeiro da existência, a opção final. As pessoas ficavam ali por anos, agonizando, sem amparo, sem afeto, sem nenhum tipo de assistência e, por fim, morriam. 


Aprendi que existe um enorme perigo na agonia e na dor prolongadas porque este estado dissolve a alma, tritura as emoções, desconstrói a esperança e, por conta disto, leva-nos, mais cedo ou mais tarde, a desistir da vida. Nós não nos apercebemos, mas, não raro, inconscientemente, somos compelidos a acariciar o sofrimento, acolhermos as nossas mazelas de tal forma a, simplesmente, irmos levando a vida, “abraçarmos” a dor. “Viver é sofrer”. O acumular do sofrimento que se interpõe em nossa caminhada acaba nos arrastando, existencialmente, para um “tanque de betesda”. E o tempo passa, as dores se aprofundam, as tristezas se acumulam, e vamos ficando ali, amargurados, machucados, sofridos, solitários, aguardando que, um dia, quem sabe, algo sobrenatural nos alcance e nos resgate de volta para a vida. 


Tenho encontrado muitos assim, deitadas à beira de um “tanque de betesda”. Pessoas cuja enfermidade física, emocional ou espiritual já tatuou-se na alma, alojou-se no ser, amalgamou-se a consciência. Para tais pessoas, é impossível voltar a ver-se sem este “aleijão”, sem esta “deformidade”. Mas Jesus, a partir do texto, nos dá 3 motivos para pensarmos diferente.   


O primeiro é que Ele está identificado com o sofrimento humano. Se você prestar atenção no texto, verá que, inicialmente, Jesus estava em uma festa em Jerusalém. Sim, circulava entre risos, pessoas cheirosas, boas conversas, boa comida, alegria e prazer. Mas, de repente, sem qualquer explicação, largou tudo, andou cerca de 3 quilômetros e entrou em um outro tipo de ambiente, num lugar onde as expressões eram outras, o aroma era outro, as motivações eram outras. Era o tanque de betesda, uma casa de morte, de gemidos, de gente agonizando.


Quero lhe dizer algo: Jesus largou a festa para ir de encontro à aflição, abriu mão de sua divindade para encarnar como homem, esvaziou-se a si mesmo para ser reconhecido em figura humana – carne, sangue, suor e lágrimas – abandonou a eternidade para entrar na história, abdicou da vida para ir de encontro à morte, largou a glória para estar na cruz e, por conta disto, de tão identificado que está com nossas misérias, deixará qualquer coisa para abraçar aquele de coração quebrantado e espírito contrito. 


O segundo motivo é que Jesus está compromissado com as pessoas de forma individual. Naquela casa havia milhares de pessoas, umas apertando-se contra as outras. Mas, naquele dia, Jesus tinha um encontro marcado com aquele homem. Não havia uma noite que ele não sonhasse em ser restaurado, mas a desesperança havia tomado trono no seu coração. Suas lágrimas já haviam secado. 


Aquele encontro, todavia, estava marcado desde a eternidade. Sim, Jesus quer encontrar-se com todo aquele que deseja levantar-se de seu “leito de enfermidade”, pois Ele quer salvar o caído, o perdido, o excluído, quer sarar feridas, apaziguar consciências, reconstruir interiores, dar prazer e significado aos nossos dias. Muitos estavam ali naquele local, mas apenas aquele homem sonhava em ser mais do que curado, ele queria ser salvo! Os outros esperavam o “sobrenatural”, o “anjo” que movia as águas, mas aquele homem aguardava a redenção de seus pecados e, por isso, foi contemplado. 


O último motivo que desejo lhe expor é que o sacrifício de Jesus é suficiente para todos, mas eficiente apenas para os que crêem. Ao encontrar aquele moribundo, naquele dia, o Galileu lhe fez uma pergunta absurda: “queres ser curado?”. Ora, havia trinta e oito anos que aquele homem sentia o coração agitado quando o vento ficava mais forte, e gritava por alguém que o levasse até a água. Durante trinta e oito anos ele se arrastou com sofreguidão até a beira do tanque, mas outros chegavam primeiro e tiravam a sua oportunidade. Em trinta e oito anos ele guardou apenas um sonho: andar com vigor pelas ruas de Jerusalém, voltar a sentir-se inteiro, integral, íntegro. 


Aí, de repente, o Deus-Homem o encara na inteireza de quem ele é, com seus desejos e fracassos, sonhos e frustrações. Sim, apenas um olhar foi suficiente para Jesus desvendar tudo o que se passava em sua alma, algo como um “scanner” sobrenatural o varreu de cima a baixo, discerniu toda sua vida, nada pôde ficar encoberto, escondido, tudo foi revelado; medos, dores e dramas. “Queres ser curado? Sim quero! Então levanta-te, toma o teu leito e anda!”. 


Eu creio que todos nós almejamos por encontrar um “tanque de betesda”, um lugar onde possamos nos chegar e nos lavar das nossas imundices, um ambiente que produza em nós paz, liberdade, saúde e bem. É bem provável que, “a esta altura do campeonato”, você já saiba que a vida não é uma terma romana, com águas relaxantes, nem tão pouco uma casa turca, com aromas e perfumes. Não. A vida está mais para “betesda” do que para qualquer outra coisa.


No fundo, parece que todo ser humano vive a beira deste “tanque”, em busca deste encontro. O mesmo Jesus, todavia, que buscou aquele homem no fundo do poço, deseja hoje encontrar você, estejas onde estiveres, mergulhado no mais profundo abismo, esquecida num quarto de apartamento, drogado numa esquina de uma metrópole, prostituída num quarto de motel, afundado em dívidas ou largada da família e dos filhos. Saiba, aquele mesmo olhar ainda anda por aí, apenas desejando encontrar um outro que lhe corresponda e uma voz que lhe diga: “Sim, Senhor, eu quero ser curado!”.

Carlos Moreira



Sobre Amizade e Solidão


Nunca fui um homem de muitos amigos, se é que um dia os tive. Conto nos dedos das mãos (os dos pés ficam de fora) as pessoas que me foram muito próximas e que num lapso de extremo otimismo e inocência eu chamei de amigos.


Para falar a verdade, não existe de fato aquilo que convencionamos chamar de amigo. A figura do companheiro infalível, sempre disponível, disposto a ajudar em qualquer situação e presente em todos os momentos da vida só existe nas canções apaixonadas e emotivas de Roberto Carlos.


Sabe aquele seu amigo que nunca falhou com você? Foi só uma questão de oportunidade. Nada melhor do que o tempo para revelar a superficialidade de certas relações que acreditamos sólidas, mas que são frouxas como gelatina. As pessoas falham e nos decepcionam com mais facilidade do que imaginamos!


A melhor fórmula para cultivar uma relação de camaradagem é nada esperar daqueles que se dizem nossos amigos e fazem juramentos de fidelidade eterna. Para quem não espera nada, tudo o que vier é lucro.


Aliás, bom seria que evitássemos obstinadamente as “amizades muito finas”, como dizia a minha mãe. Entenda-se por “muito fina” uma relação onde a proximidade entre duas pessoas é tão intensa que até mesmo a individualidade de cada uma é sufocada por uma convivência constante e doentia.


É preciso certa distância para que haja liberdade e os relacionamentos sejam duradouros. A proximidade em demasia, por incrível que isso possa parecer, acaba gerando um efeito contrário ao esperado e separando ao invés de unir.


Amizade, se é que existe tal coisa, certamente não é diretamente proporcional a proximidade e ao tempo de convívio. Judas andava o tempo todo ao lado de Jesus e não hesitou em traí-lo, pois nunca foi de fato seu amigo.
Aliás, assim como aconteceu com o Cristo também acontece conosco. Somos sempre traídos com um “beijo na testa”. Traição e amizade em muitos casos moram em casas conjugadas!


Quanto a mim, os meus melhores amigos são os que já morreram e não tiveram tempo e nem foram próximos o bastante para me fazerem mal. No que diz respeito aos vivos, é mais prudente esperar um pouco mais para elogiá-los ou mesmo deixar que morram primeiro. KKKKK.


Embora Aristóteles tenha dito que o homem é um ser social, ou seja, que ele só se realiza plenamente na relação com outros homens, é também igualmente verdade que somos sós por natureza. O nosso ser é um mundo escuro e sombrio por onde vagamos sós e aflitos a procura de um caminho.


Estamos sozinhos porque os recônditos mais escuros das nossas almas e dos nossos corações são inacessíveis até mesmo àqueles que julgamos serem os nossos melhores amigos. Nesses espaços vazios do nosso ser só uma única pessoa pode penetrar e às vezes eu temo que ela esteja muito longe ou muito ocupada para ouvir-nos a voz suplicante.

André Pessoa via Século XXI

03 janeiro 2011

A Dança da Vida


A principal lição que aprendi no que ano que passou foi que, gostemos ou não, todas as coisas estão em movimento, tudo na vida “dança” e passa como fazem os componentes de um grande e expressivo balé. A dança da vida, porém, deixa desnorteado e tonto o homem que procura algo firme em que se segurar.


O que era ontem não é mais hoje, o que é hoje não será amanhã. Tudo é efêmero na existência humana, das riquezas aos prazeres, dos amores aos ódios. A vida é enxurrada descendo ladeira abaixo: destrói tudo que encontra pelo caminho e segue inexorável o seu trajeto!


Vida e morte, construção e destruição, começo e fim, marcam o passo e o ritmo desse imenso e cruel balé existencial. No palco, desprotegidos e vulneráveis, estamos nós, frágeis e românticos seres humanos. É melhor aprender logo o movimento das coisas.


Os amores “perfeitos” de hoje não existirão amanhã, o desejo ardente e as paixões loucas e oníricas também sumirão. Em nada devemos pôr a totalidade do nosso eu, pois tudo se move distanciando-se tristemente de nós. Só há segurança na insegurança; só há certeza na dúvida!


Devemos ter as coisas como se não a possuíssemos, usufruí-las sem julgá-las perpetuamente nossas. Só os tolos e insensatos julgam ser donos de qualquer coisa, por ínfima que seja.


“Nu saí do ventre de minha mãe, nu voltarei”, disse o lendário e bíblico Jó, depois de ser massacrado pelas circunstâncias desfavoráveis e despojado da riqueza que julgava lhe pertencer. As plantas murcham, o verde perde a cor, a moeda o seu valor, o galã a sua beleza, a vida o fôlego que a mantém.


Tudo e todos estão de passagem, a caminho. Nada na paisagem da estrada nos pertence, a não ser no exato momento em que se deixa contemplar pelos viajantes. O cenário é fugidio, por isso “é infinito apenas enquanto dura!”.


Ontem as comidas, os fogos, a música, a festa. Hoje a desolação, a sujeira nas ruas, as garrafas vazias e o bêbado no chão, esse triste monumento ao transitório e ao efêmero.


Dance, cante, beije, ame, mas nunca esqueça: tudo está em movimento, se distanciando paulatinamente de uns e se aproximando vagarosamente de outros. Assim é a vida, fugidia, escorrendo por entre os dedos como a água que mata a sede, mas que também afoga!


“Tudo na terra está em fluxo contínuo: nada mantém uma forma constante e fixa. Não existe nada sólido a que o coração possa se apegar”, disse Rousseau depois de provar todos os prazeres e vaidades que a vida lhe pôde oferecer.

André Pessoa via Século XXI

O "Show" não Pode Parar!


Um dos filmes que mais marcou a minha adolescência foi “All That Jazz”. Interpretado pelo ator Roy Scheider, foi exibido no Brasil com o título “O Show não Pode Parar”. Na verdade, trata-se de um relato semiautobiográfico da vida de Bob Fosse, escritor, diretor e coreógrafo, vencedor, dentre outros prêmios, do Oscar.

Em “All That Jazz”, Joe Gideon é um produtor que está montando uma peça para a Broadway. Em sua cansativa rotina, ele sempre começa seus dias ligando o toca-fitas – tempo bom – pingando colírio nos olhos e tomando comprimidos de dexedrina. Em seguida, entra no banho, olha-se no espelho e repete a famosa frase: “It’s show time folks!” – “É hora do show pessoal!”.

Como acontece em outros musicais de Fosse, o bom e atento espectador perceberá que a ideia central do filme é mostrar que, na sociedade contemporânea, todos nós vivemos de certa forma no “mundo do espetáculo”, baseado na fantasia, na encenação.

Fico pensando se não foi esse o sentimento de Jesus quando ele observou as dinâmicas produzidas pela religião de Israel, em particular, ao analisar os contornos e entornos do que se passava no interior do templo de Salomão.

Vejamos o texto: “Jesus entrou no templo e expulsou todos os que ali estavam comprando e vendendo. Derrubou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas, e lhes disse: Está escrito. "A minha casa será chamada casa de oração mas vocês estão fazendo dela um covil de ladrões.”, Mt. 21:12-13.

Talvez você esteja se perguntando: mais o que esta passagem de Mateus tem a ver com o filme “All That Jazz”? Eu lhe respondo: tudo!

Nessa passagem, Jesus entra em Jerusalém e se depara com o “show” montado no lugar onde era feito o sacrifício e realizadas as orações. Era o shopping da religião, onde tudo podia ser comprado, desde souvenirs e quinquilharias sagradas, até animais, comidas e plantas para se fazer ofertas.
Isso sem falar no câmbio do dinheiro estrangeiro, feito com pesado ágio. Sem dúvida, ali funcionava um grande centro de negócios, operado em pequenas barracas, que promovia um comércio farto e rentável.

Mas Jesus ao ver a perda da significação de propósito daquele lugar, ao constatar a cauterização a qual chegara a consciência da nação de Israel, ao perceber o endurecimento do coração daquela gente, partiu para cima da “moçada” com azorrague nas mãos distribuindo tabefe para todo lado e repetindo: “a minha casa será chamada casa de oração”. O barraco foi grande, não ficou nada de pé.

Eu acredito que a grande tristeza do Galileu foi ver que aquele tipo de religião era calcada em exterioridades, em ritos ocos e dessignificados. Era uma liturgia esvaziada de propósitos, com a oferta sendo banalizada, o desrespeito para com o altar, que significava a oferta, a entrega do que sobejava, a dádiva sem esforço, o arrependimento epidérmico, sem consequências ou desdobramentos, a contrição de ocasião, o sacrifício do ideal no altar da conveniência. Tudo tão semelhante com o nosso tempo...

Mas, no dia seguinte, o que você acha que aconteceu? Que os “traficantes do sagrado” estavam de joelhos no Templo? Que os “mercadores da religião, aos prantos, atiravam-se no átrio? Que os “feiticeiros da fé”, com pano de saco e cinza sobre a cabeça, faziam oblações? Nada! No dia seguinte, tudo já estava de pé novamente, refeito, e o comércio já havia voltado a operar normalmente, do mesmo jeito de antes, afinal de contas, o “circo” tinha de continuar operando!

O que sei é que, quando a vida vira rotina, precisamos escolher entre começar um novo ano, uma nova etapa, rever escolhas, valores, princípios, prioridades, ou voltar a repetir tudo de novo, as mesmas práticas e, como no filme, declarar: “É Hora do Show Pessoal!”.

Sim, não se iluda, a religião entorpece o ser, deixa dormente os sentidos, embebeda a consciência, engana o discernimento. Creia-me, até o sagrado pode se tornar enfadonho, algo mecânico, que come o ser por dentro e só deixa trevas e morte.

Entra ano, sai ano, e a vida da grande maioria das pessoas continua a mesma. Pactos são feitos, promessas, correntes, campanhas, “salamaleques” dos mais diversos, mandingas evangélicas, “boacumba”, e nada muda! Não muda o caráter, não mudam os valores, não mudam o “olhar”, a consciência, o coração, as atitudes.

Muito pelo contrário, a vida segue da mesma forma, pois tudo é parte de um grande circo, de uma encenação. É um embuste, um estelionato, a fé arrotada pela boca, à letra morta, contudo contradita pelas ações, pois não houve arrependimento – metanoia!

Por isso, vamos lá! Comecemos tudo de novo! Levantemos a lona do circo para entrarmos no “picadeiro” da existência! Acendam-se os holofotes, liberem os “palhaços da vida”, as “marionetes da religião”, os “saltimbancos anarquistas”. Deixem que comece o espetáculo, abram as cortinas para que entre em cena o disfarce nosso de cada dia. E não nos esqueçamos do principal:

“o Show não Pode Parar!”.

Carlos Moreira


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