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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.

04 novembro 2010

Eu Já Acreditei...



Eu já acreditei na amizade como um bem inalienável, como o encontro de corações que se completam, como sentimento que permeia a vida, transpassa a alma, vai no âmago do ser.

Eu já acreditei na solidariedade como manifestação humana aos caídos da terra, na sensibilização do ser ante a miséria alheia, na dor que dói em mim porque dói também no outro.

Eu já acreditei na fidelidade como bem para a vida, como marca do caráter, como prova de amor, como dádiva de Deus.

Eu já acreditei na “Igreja” como instituição mediadora da fé, como meio de propagação do Evangelho, como local de acolhimento de perdidos e excluídos da sociedade.

Eu já acreditei no “Evangelho” como doutrina de ressignificação da consciência humana, como matriz de valores para a vida, como mensagem de reconciliação entre o Eterno e o finito.

Eu já acreditei no amor como encontro de corpo, de alma, de espírito, como encontro de olhares, de tatos, de afetos, de afagos, como síntese do que se pode viver de melhor na existência.

Eu já acreditei na verdade como princípio, como tônica máxima na expressão do ser, como valor a ser buscado e cultivado por aqueles que cansaram da mesmice e da mediocridade.

Eu já acreditei no espírito empreendedor humano, nas realizações, na criação, na execução de obras, na criação de produtos, no desenvolvimento de sistemas.

Eu já acreditei na razão, na lógica, na argumentação bem fundamentada, na conversa olho-no-olho, na ética.

Eu já acreditei na ciência, no empirismo, na capacidade humana de manipular a natureza, domá-la, transformá-la, convertê-la em “produto” a favor da vida e do bem.

Eu já acreditei em sonhos, em fazer mapas, em sair da vulgaridade, da rotina, da linha de produção em série, do pensamento commoditizado, da unanimidade burra.

Eu já acreditei que era importante acreditar, acreditei que acreditando seria capaz de acreditar ainda mais e que acreditar era algo indispensável a vivência do ser humano.

Mas como tenho dito, eu já acreditei... Hoje, não acredito mais. Acordei. Perdi o romantismo, perdi a sensibilidade, perdi a esperança, perdi as convicções, perdi o entusiasmo, perdi o sorriso, perdi o medo.

Resta-me, ainda, um resquício de fé. Resta-me, ainda, uma fagulha de Deus. Talvez, então, algum dia, ainda volte a acreditar...


Carlos Moreira

27 outubro 2010

Igreja Playmobil


“Como é terrível conhecer, quando o conhecimento não favorece quem o possui!”
Sófocles, dramaturgo grego.

Se você já assistiu ao filme “The Wall”, produzido em 1982, pelo diretor Alan Parker, o qual é baseado no álbum de mesmo título da banda Pink Floyd, talvez se lembre de uma de suas cenas mais marcantes. Nela, vemos a imagem dos alunos, com máscaras de bonecos presas ao rosto, sendo empurrados numa esteira rolante em direção a uma máquina de trituração que os transformava em linguiças.

Era a dura crítica de que os alunos haviam se tornado manequins serializados, e não seres pensantes. A própria música “Another Brick in The Wall” – Um tijolo a mais na parede – tem em sua letra comentários mordazes quanto ao sistema de ensino inglês e aos professores. Em uma das estrofes, afirma de forma categórica: “Professores, deixem os alunos em paz!”.

Durante muito tempo, as escolas estiveram sob o domínio da Igreja, mas acabaram sofrendo profundas mudanças desencadeadas pelas novas necessidades dos processos de produção advindos da Revolução Industrial. Elas abandonaram o modelo ideológico religioso e se transformaram num local de disciplinamento e ordenação do saber.

Segundo Maria da Glória Silva, mestre em psicologia, “a partir do século XVIII, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos, os ambientes escolares pareciam-se mais com quartéis, pois a instrução ficava em segundo plano, atrás da obsessão pela ordem e compostura”.

Ora, é justamente isso que acontece hoje com o nosso sistema de ensino na Igreja. Ele está profundamente equivocado! Reproduz muito do que se viveu nos séculos XVIII, XIX e XX no mundo fabril. Estamos serializando as pessoas, transformando-as em commodities religiosas.

O problema já começa nos seminários teológicos, muitos dos quais lembram apenas uma “sociedade de profetas mortos”. Ali, jovens enviados sem qualquer critério de seleção pelas Igrejas, sem a mínima experiência com Deus e nenhum conhecimento das Escrituras, são expostos a conteúdos profundos de autores diversos que os fazem, não raro, entrar em crise e perder a fé. Dali muitos sairão como “profissionais da religião”, mas jamais como pastores de ovelhas. Há exceções, mas elas estão cada vez mais escassas. 

Lembro-me do profeta Oséias: “O meu povo está sendo destruído porque lhe falta conhecimento”. O mais trágico, contudo, ainda está por vir. Baseados em rotinas didáticas superadas – por vezes demasiadamente ortodoxas, em outros casos profundamente liberais –, numa hermenêutica descentrada de nosso tempo e de nossa cultura, que insiste em fazer exumação da letra morta em vez de ressignificar os conteúdos para expansão e construção de uma nova consciência, a Igreja acaba criando, seja do púlpito, na EBD (Escola Bíblica Dominical), no ensino dos pequenos grupos ou nas reuniões de doutrina, um modelo fabril. É o triunfo de uma práxis religiosa que apenas constrói gente robotizada, autômatos “espirituais”, bonecos com máscaras no rosto, vendas nos olhos e tampões na boca e nos ouvidos.

Não é sem motivos que grande parte da sociedade nos considera alienados! Isso se dá não porque temos os ideais e os princípios do Reino, mas porque nossas ações são bizarras, caducas e, por vezes, perversas. Tornamo-nos “discípulos” que decoramos meia dúzia de doutrinas, muitas das quais sincretizadas pelos vários tipos de denominações diferentes pelas quais passamos, e agora arrotamos um tipo de conhecimento bíblico que não tem nada a ver com o Espírito do Evangelho de Jesus. Como disse Charles Dickens, romancista inglês, temos “uma vaga noção de tudo, e um conhecimento de nada”.

Olho para a Igreja e sinto que ela se parece com um exército de Playmobil. Sabe, aqueles bonequinhos feitos na década de 1980, todos iguaizinhos, mas com roupinhas diferentes? Somos nós!

Crentes de mente cauterizada, falando e pensando as mesmas coisas, incapazes de nos conectarmos ao mundo que nos rodeia, com o coração petrificado e os nervos enferrujados. Somos a geração do “crente em série”, gente que engole o tiranossauro e colhe o mosquito, que se escandaliza com tudo, cheia de fricotes e de frescuras, de condicionamentos comportamentais, de julgamentos sociais, de restrições sacramentais, e por aí vamos.

Tornamo-nos bonequinhos forjados na Igreja-Fábrica, gente neurotizada, infeliz e incompleta, mas querendo mudar o mundo. Ah, quanta utopia!

E há solução pra isso? Sei lá! Talvez jogando uma bomba e destruindo este mar de hipocrisia e insensatez resolva... O que nos falta é paixão, é vida com Deus, é singularidade, é percepção do eu, das incompletudes do ser, das idiossincrasias, das falácias humanas, da trave nos olhos, de nos vermos do tamanho que somos.

Impossível não lembrar de Da Vinci: “Todo conhecimento se inicia com sentimento”.

É verdade: sem amor, o que poderá ser aproveitado?


Carlos Moreira

26 outubro 2010

Assim Caminha a Cristandade...

“Certa vez, tendo sido interrogado pelos fariseus sobre quando viria o Reino de Deus, Jesus respondeu: "O Reino de Deus não vem de modo visível, nem se dirá: ‘Aqui está ele’, ou ‘Lá está’; porque o Reino de Deus está dentro de vocês". Lc. 17:20-21.

O Sagrado em Israel se descaracterizara como experiência religiosa bem antes do tempo Jesus. Na verdade, a fé para os judeus havia se transformado num poderoso sistema que possuía dois grandes tentáculos: um político e o outro econômico. Assim como nos nossos dias, os que mercadejavam o espiritual perceberam que manipular com a fé das pessoas era um extraordinário e lucrativo negócio.

O texto citado acima nos dá a dimensão exata do que estava acontecendo naqueles dias... Mas nós não conseguimos discerni-lo com todos os seus matizes porque o “cenário” no qual os fatos se passam nos é totalmente estranho. No encontro inusitado entre Jesus e os Fariseus, a questão principal não é o que parece estar evidente, ou seja, o Reino de Deus, mas o que está subliminar – o reino dos homens.

Ora, isto pode ser visto claramente na pergunta, aparentemente “espiritual”, – “mostra-nos o teu Reino”. Ela não tinha nada a ver com os conteúdos, valores e princípios éticos do Evangelho de Jesus. A preocupação estava centrada apenas nos aspectos institucionais – nas estruturas físicas (templo, sinagogas), nos códigos regulamentares (a Lei e os Profetas), no centro de decisão (o Sinédrio), nos rituais “litúrgicos” (sacrifícios, oferendas), ou seja, o que estava em “jogo”, era entender quais os mecanismos que compunham a “engrenagem” que o Galileu estava anunciando. E isto era “bastante razoável”, uma vez que o “sistema” que eles possuíam já estava há anos sendo “tecido” pela aristocracia judaica, pelas castas sacerdotais e pelos grupos religiosos e, o melhor de tudo, “operava” perfeitamente.


A religião judaica criara uma opulência que entorpecia o ser. Era um conjunto de ritos e mitos que sacralizava o banal, petrificava o coração, cauterizava as percepções e roubava as emoções. Em torno de tudo aquilo girava uma “máquina” de fazer dinheiro, e era muita grana que circulava em torno do templo, o “centro espiritual” de toda a engrenagem, e de onde os recursos eram distribuídos para manter as benesses de muita gente e para bancar o “custo” da estrutura que era, sem dúvida, muito cara.

Aí vem Jesus que, em vez de propor manter a opulência do “negócio”, trás a mensagem de ressignificação da consciência! O Reino de Deus, anunciado através do Evangelho do Reino, não tinha “donos”, nem “trono”, nem ditames humanos, nem regras, nem lei, nem sacrifícios, nem intermediários sacerdotais, nem traficantes de influências espirituais, nem castas religiosas, nem comércio do sagrado, nem barganhas com a divindade, nem nada! Era a proposta de um Reino que crescia de dentro para fora, que instaurava valores no coração a partir de uma reconstrução da consciência. Por isso a discrepância tão grande entre um projeto e o outro. Agora dá para entender porque a proposta de Jesus era tão bizarra para aquela moçada, porque ela, simplesmente, desmantelava com o sistema inteiro!


O Evangelho do Reino é contra-cultura! É algo que se impõe para derrubar a cultura vigente. É subversão silenciosa, pacífica, de boca em boca, de casa em casa, de pequenos gestos, de serviço ao próximo, de amor ao necessitado, de acolhimento ao excluído. É uma lógica totalmente diferente! O sistema diz: ajunte, acumule, recolha. O Evangelho do Reino responde: espalhe, compartilhe, distribua. Onde um diz: seja servido; o outro preconiza: torne-se servo. Onde um diz: seja o primeiro; o outro afirma: seja o último. Onde um diz: busque reconhecimento; o outro adverte: faça tudo em secreto. Onde um diz: se exalte; o outro ensina: se humilhe. E ainda tem a segunda milha, a túnica junto com a capa, a face para o que o fere, o perdão setenta vezes sete... É metanóia!


Mudar a cultura é mudar a forma como as pessoas vivem. E isto varia de época para época, pois a cultura é um subproduto do social e do humano. É antropológica e temporal, segundo Vergílio Ferreira. Não foi diferente com Jesus. Em seus dias Ele lidava com vários tipos de culturas e filosofias distintas: os epicuristas, os estóicos, os cínicos, os céticos, além de toda a influência helênica – 600 anos de pensamento grego sincretizado com os cultos de mistérios egípcios, culto ao imperador, religiões pagãs e por aí vai... Mas o Evangelho do Reino, pregado pelo Nazareno, e depois pelos seus discípulos, propunha uma contra-cultura que desmantelava com tudo aquilo. E eles subverteram o mundo com a mensagem da paz, da esperança e do amor! E eu lhe afirmo: se já foi feito antes, pode ser feito novamente...


Geraldo D’Almeida Alves nos questiona de forma instigante: “para que servem cultura e filosofia? Na verdade, elas são imprescindíveis ao próprio existir humano. Um homem sem cultura não existe, e a filosofia existe justamente para que toda atividade humana possa ter significado”.

Quando a cultura muda, as pessoas mudam. Por isso Jesus queria estabelecer um novo Reino (uma nova consciência – cultura), baseado num Evangelho que tinha um “vinho novo” (valores e princípios). De lá para cá, vimos o mundo mergulhar em muitas crenças e culturas diferentes: a medieval, a renascentista, a moderna e agora, a contemporânea. Mas o que fez o cristianismo durante este período? Que propostas trouxe como contraponto, como contra-cultura para enfrentar os sofismas e as vãs filosofias? Eu lhes respondo: quase nada. E está ficando cada vez pior... Quem somos nós hoje? Como somos vistos? Como somos interpretados? Quem está disposto a ouvir nossa mensagem? E o principal: por que será que isto está acontecendo? Eu não tenho todas as respostas, mas tenho minhas “teses”. Você não precisa concordar com elas, mas pode a partir delas expandir sua consciência e buscar construir seus próprios “mapas”. Contudo, lembre-se: respostas que não produzem mudanças tornam-se apenas filosofia de botequim.

O problema é que nós nos conformamos à cultura vigente. Nos amoldamos, nos amalgamamos a tudo o que esta posto aí. Vivemos como todo mundo vive, corremos atrás das mesmas coisas, nossas famílias são pautadas pelos mesmos valores, nossos filhos são criados do mesmo jeito, nossos negócios são conduzidos da mesma forma, nossas “igrejas” viraram empresas! A proposta deveria ser exatamente outra: deveríamos nos rebelar pacificamente! Deveríamos denunciar de forma ordeira! Onde está a nossa voz profética? Ela se tornou “profétida” tantos são os escândalos nos quais estamos envolvidos. Não há mais diferença, como afirmava o profeta Malaquias, entre o que serve a Deus e o que não serve. Todos são iguais, participam das mesmas práticas, se envolvem nos mesmos conluios, vivem pelos mesmos princípios.

Alguém recentemente me perguntou: “mas pastor, eu vou ter um casamento diferente de todos os outros?”. E eu respondi: “para que então você quer servir a Deus se não está disposta a fazer diferente e fazer diferença!”. Os crentes hoje são execrados na sociedade e com toda a razão, na grande maioria dos casos. Os piores profissionais que trabalharam na minha casa e na minha empresa eram “evangélicos”. Gente de duas conversas, que nunca cumpria prazo, que empenhava a palavra e não a honrava. É o empresário “evangélico” usando caixa dois, meia nota, propina para fechar negociatas, sonegação fiscal, e por aí vai. Qual a diferença?! Onde está a contra-cultura do Reino? E alguém me diz: “mas se eu fizer tudo certinho vou quebrar meu negócio”. Ora, então mude de profissão! É melhor perder o negócio e preservar a salvação e a vida eterna, do que ir para o inferno com o negócio e tudo!

Está achando o discurso duro? Então faça uma pesquisa sobre o que a sociedade acha dos cultos de catarse que promovemos para espoliar as pessoas. Pergunte aos seus amigos e vizinhos o que eles acham dos “evangélicos”. Veja se não estamos associados à idéia de gente perversa, julgadora, presunçosa, arrogante, falsa... Pergunte a deputados e senadores sérios – ainda existem alguns – o que eles acham da bancada “evangélica” no Congresso Nacional? Eu que sou pastor que o diga. Não há ninguém que não me olhe e não ache que eu sou ladrão, manipulador ou aproveitador. E aí me vem, do nada, um fulano querendo saber da marca da besta do apocalipse! Ora meu mano, a marca da besta já está aí, presente em tudo o que se faz neste “sistema” no qual nós estamos imersos. Ela existe desde Caim, que ficou com sua fronte marcada para que todo homem soubesse que ali estava alguém que vivia em desacordo com a vontade de Deus. Não precisa de marca no pulso, na testa, de número 666, porque tudo já está “tatuado” no coração, enraizado em práticas perversas, assumido por uma consciência anestesiada, incapaz de discernir o que o Espírito está falando a Igreja.

E assim vamos vivendo. Misturados ao todo e diluídos na massa, sequer aparecemos. Somos considerados gente de gueto, povo de segunda categoria, seres que não pensam, confraria de tolos. Não influenciamos, mas somos massacrados pelo marketing, pela mídia, pela cultura da aparência, do parecer ao invés do ser, dos valores pagãos, da fé commoditizada, mecanizada, robotizada, que produz uma massa de alienados que não consegue nem influenciar os que estão em suas próprias casas.

É amigos, parafraseando o Lulu Santos, assim caminha a cristandade, com passos de formiga e sem vontade. Até quando? Não sei. Mas parece que algo começa a acontecer, lentamente, silenciosamente. Há uma geração se levantando contra essas coisas, anunciando que Evangelho não é isto, que Jesus nunca propôs nada do que aí está. A revolução não começa nas estruturas, nas denominações, nos grupos se matando uns contra os outros, mas na consciência, numa nova hermenêutica, na ressignificação dos valores e das verdades do Evangelho do Reino, na restauração do ministério profético.

E quanto menos se esperar, surgirá de onde não se imagina, dos anônimos de bairro, dos discípulos que estão com a mão na massa, nas chagas das pessoas, socorrendo os desabrigados da Terra, os excluídos da sociedade, porque esta é a Igreja de Jesus. Ela está aí, como sal dissipada pelo mundo, ativa, falando nos blogs "subversivos", na cabeça de pensadores e escritores que fomentam novas idéias, no púlpito de algumas Igrejas, nos corredores dos hospitais, dos presídios, nos encontros de pequenos grupos.

Por isso, saiba: a “massa do bolo” está crescendo e o “caldo está engrossando”. Desta forma, preste atenção! O Evangelho do Reino está sendo pregado novamente e as profundas mudanças por ele trazidas estão a caminho e nada, absolutamente nada, poderá impedi-las de subverter novamente a sociedade e trazê-la para um encontro definitivo – restaurador e pacificador – com o Deus de toda a vida! E nem altura, nem profundidade, nem coisas do presente, nem do porvir, nem principados nem potestades, nada poderá deter o que já se iniciou por vontade única e exclusiva do Senhor de toda a Terra. Quem vai pagar para ver?

Carlos Moreira

21 outubro 2010

Sarando as Feridas


Os “marcos” são mais facilmente esquecidos que as “marcas”. Eu explico: os acontecimentos negativos da existência humana como perdas, medos, traumas, traições, tem infinitamente mais capacidade de “MARCAR” a vida das pessoas do que as vitórias, alegrias ou desejos realizados, os “MARCOS”. E estas “marcas” que aparecem, invariavelmente, em nossa história, em maior ou menor escala, por vezes se constituem em feridas tão profundas que impedem o agir transformador do Espírito Santo e, por conseguinte, bloqueiam o apaziguamento de nossa consciência e a pacificação de nosso ser.

Nem o poeta me deixa mentir quando diz: “tristeza não tem fim, felicidade sim”. A poeira da existência impregnada na alma humana desconstrói sonhos, desmonta a esperança, torna a nossa alma um calabouço sombrio, uma masmorra de solidão, uma terra devastada, árida, não obstante ávida de encontrar paz e bem. Neste estado de ser e sentir, nesta estação outonal, respirar dói e tudo se torna enfado e canseira. Laura Limeira me ajuda a dizer isto em forma de poesia: “Somando as perdas e ganhos da minha vida, descobri muitas marcas em mim... Marcas no meu olhar, pela tristeza que vi, quando, ingenuamente, acreditei em tudo, e vivi... No rosto, pelo esquecimento do sorriso, e por tanta lágrima derramar... Na dor da solidão por enfrentar, e calar sozinha, nem sei como, tanta emoção... Marcas na alma, hoje estraçalhada, diante de tantas insídias... Muitas são essas tais marcas da vida, que, iguais tatuagens, já não saem mais...”.

A pesquisadora norte-americana Judith Viorst, no seu livro Perdas Necessárias, ensina-nos que viver é aprender a perder. Sem este aprendizado, não se pode crescer. Perdas são uma das “marcas” geradas pela existência. “Elas envolvem não só a morte de pessoas queridas, mas incluem também a perda consciente ou inconsciente de nossos sonhos, expectativas impossíveis, ilusões de liberdade e poder, ilusões de segurança e a perda do nosso próprio "eu" jovem”, porque envelhecer é como perder-se de si mesmo.

E aqui surge uma indagação: haverá uma solução para isto? Pode Deus agir de tal forma que todo este embaraço e peso que carregamos faça apenas parte do passado sepultado e cravado na cruz? Será mesmo possível materializar as verdades do Evangelho em realidade para a vida? Ou são verdadeiras as palavras de Thomas Quincey: “não existe o esquecimento total: as pegadas impressas na alma são indestrutíveis”.

Em 1905, em Viena, uma paciente cega, paralítica e bulêmica sofria, sem saber as causas, e sem perspectiva de cura, desta “doença da alma”. Foi neste contexto que um médico neurologista, nascido na Checoslováquia, foi designado para acompanhá-la. Após 10 anos os sintomas da doença desaparecem. A paciente estava clinicamente curada. Nascia ali a psicanálise. A história verídica é de Ana O. – a paciente – e o médico era Sigmund Freud. Nossa história, não raro, foi marcada duramente por fatos que desencadearam transtornos profundos em nossa psique e acabaram por produzir imagens doloridas, traumas, medos e culpas que se acumularam no limo da nossa alma. Hoje, mesmo sem querer, eles são como fantasmas e, não raro, vêm nos assombrar.

Eu quero lhe trazer uma passagem bem conhecido das Escrituras para me ajudar a analisar, ainda que de maneira figurada, estes processos que geram feridas emocionais e os mecanismos que podem ser utilizados para curar almas adoecidas. O texto é Ezequiel capítulo 47 versos de 1 a 9. Trata da visão do profeta de águas que saem de dentro do Templo, descem pelo vale, onde a vegetação e toda a vida aquática e pantaneira estão destruídas, e deságuam no mar morto. Aquele cenário que ali estava era mais do que real, mas também era um “holograma” espiritual do que se passava com a nação de Israel. Ele metaforizava o estado emocional e espiritual daquele povo que havia sido desterrado de maneira violenta para a Babilônia cerca de 70 anos antes. Muitos dos anciões que voltaram para a reconstrução dos muros e do Templo, por conta do decreto de Ciro, Rei da Pérsia – livros de Esdras e Neemias – haviam sido vítimas da barbárie dos Assírios. Suas almas estavam impregnadas com as imagens de lares destruídos, mulheres e crianças assassinadas, das portas de Jerusalém queimadas, da destruição do Templo, da morte dos príncipes e do escárnio sofrido pelo Rei Zedequias, que teve seus olhos vazados e, amarrado a grilhões de bronze, foi levado escravo entre os peregrinos. Este desfecho trágico era a conseqüência das consecutivas advertências de Deus contra os desvios do podo e podem ser vistos também na profecia do livro de Jeremias capítulo 37.

Agora vamos imaginar este retorno. O caminho é espinhoso, regado por lágrimas de desilusão e desespero. Essa gente está com as entranhas incrustadas de dores e de perdas. Suas almas foram assoladas pela tragédia, suas mentes guardam imagens fortes, duras, seus corações estão petrificados pela dor, seus olhos estão encharcados de lágrimas, de miséria e cólera. Questão: de onde foi que aquele povo tirou forças para reconstruir aquela cidade? Sim, porque ali estava uma gente destroçada, humilhada, subjugada, sem destino, sem esteio, sem chão, e agora se viam diante do desafio de recomeçar, no mesmo local, diante das ruínas que haviam deixado para trás. Como conseguiram? De onde tiraram forças?

Bem, eu creio que esta visão de Ezequiel simbolizava o prenúncio profético do que mais tarde iria acontecer. A visão de águas saindo de dentro do santuário prefigurava a maneira de Deus agir para curar o interior das pessoas. Olhe para este texto para além das realidades aparentes, pois a visão bem pode ser tratada como uma metáfora ou uma alegoria do autor, sem que isto represente perda para a aplicação espiritual do texto. Estudando filosofia, e entrando pelos caminhos da psicologia, você vai se deparar com estruturas chamadas de arquétipos. Quem melhor estudou sobre isto foi Carl Jung, quando tratou do inconsciente coletivo. O cenário metafórico da visão de Ezequiel é o arquétipo do que estava impregnado no inconsciente coletivo daquela geração de moribundos sobreviventes. Ali havia uma imensa carga de energia psíquica reprimida, pois aquela gente havia sido desterrada da vida. Por outro lado, também existia ali a premente necessidade de algo que pudesse materializar a fé necessária para curar as suas almas e levantá-los para a empreitada da reconstrução. É aí que entra a visão do profeta.

Eu não sei como está a sua vida. Não sei se você foi ou é vitima de abusos, de perdas, de dramas que marcaram profundamente sua alma e que te impedem de levar uma vida normal, equilibrada, que se manifesta numa espiritualidade sustentável, numa fé sadia. Não sei se o que lhe aconteceu lhe impede de exercer alguma atividade profissional, de constituir família, ou outra coisa que se torna limitante em sua existência. Mas quero lhe deixar algumas sugestões para sarar as feridas que, por vezes, a vida acaba por produzir.

Em primeiro lugar, utilizando-me alegoricamente do texto, quero lhe dizer que TODA CURA SÓ SE VIABILIZA NA VIDA QUANDO OCORRE DE DENTRO PARA FORA DO SER. Veja o verso 1 do capítulo 47: “Depois disso me fez voltar ao templo; e eis que saíam umas águas por debaixo do limiar do templo, e desciam pelo lado meridional do templo ao sul do altar”. Nós sabemos pela doutrina Neotestamentária que hoje somos o templo do Espírito Santo. O que o texto está explicitando, e também apontando de forma profética, pois mais tarde o próprio Jesus diria no Evangelho de João que aquele que nele cresse do seu interior fluiriam rios de água viva, é que a cura vem de dentro para fora, ou seja, não é um processo de reconstrução, mas de regeneração. Restabelecer este “santuário” tem implicações em ressignificar à fé, reimplantar uma nova consciência e transformar o coração de pedra em coração de carne. Este processo é algo que só pode ser feito e discernido espiritualmente. Sei que a escuta terapêutica e, por vezes, o tratamento medicamentoso é necessários para sarar dores e feridas na alma das pessoas. Mas nada pode ir tão fundo quanto estas ações, pois elas são demandadas pelo próprio Deus.     

Em segundo lugar, conforme os versos 3,4 e 5 do mesmo capítulo, O PROCESSO DE CURA DEMANDA UM MERGULHO EM NOSSAS “CAMADAS EXISTENCIAIS”. Vejamos: “Saiu aquele homem para o oriente, tendo na mão um cordel de medir; mediu mil côvados e me fez passar pelas águas, águas que me davam pelos tornozelos. Mediu mais mil e me fez passar pelas águas, águas que me davam pelos joelhos; mediu mais mil e me fez passar pelas águas, águas que me davam pelos lombos.Mediu ainda outros mil, e era já um rio que eu não podia atravessar, porque as águas tinham crescido, águas que se deviam passar a nado, rio pelo qual não se podia passar”. Aqui temos uma soma de elementos metafóricos. O rio representa a nossa própria vida, cheio de percalços e surpresas, de águas tranqüilas e corredeiras. E o “anjo” faz um convite ao profeta para que ele “mergulhe” neste rio, ou seja, para que entre nas águas, paulatinamente, consecutivamente. Um mergulho existencial, que passa pelos “caminhos” da vida, pelas escolhas, pelas decisões, pelas cenas doloridas, pelos momentos de tristeza, de solidão, de agonia, de desespero. E quanto mais o rio vai se aprofundando, menos o profeta tem controle de si mesmo. A cada passo, a cura vai chegando aos ambientes interiores, pois o Espírito vai revelando aquilo que produziu a doença e vai aplicando o bálsamo que produz a saúde. Há um momento, contudo, que todo o controle é perdido, pois o “anjo” leva o profeta aonde ele quer. Este anjo é uma figura do próprio Jesus, uma teofania, uma alegoria que aponta que Deus deseja que entreguemos a partir de agora o nosso caminho em suas mãos e deixemos que Ele a partir de então passe a nos conduzir.

Em terceiro e último lugar, conforme o verso 9 e consecutivos, A CURA SÓ SE MATERIALIZA QUANDO O QUE ESTAVA MORTO GANHA VIDA NOVAMENTE. “por onde quer que entrar o rio viverá todo ser vivente que vive em enxames, e haverá muitíssimo peixe; porque lá chegarão estas águas, para que as águas do mar se tornem doces, e viverá tudo por onde quer que entrar este rio. Junto ao rio, às ribanceiras, de um e de outro lado, nascerá toda sorte de árvore que dá fruto para se comer; não fenecerá a sua folha, nem faltará o seu fruto; nos seus meses, produzirá novos frutos, porque as suas águas saem do santuário; o seu fruto servirá de alimento, e a sua folha, de remédio”. Estas águas que saem do santuário são o lavar restaurador e regenerador do Espírito Santo em nossas vidas. Elas se materializam simbolicamente através do batismo e, a partir de então, Deus nos concede o poder de sermos feitos Seus filhos, membros de Sua família. Tudo o que estava morto ao nosso redor começa a ser chamado a vida novamente. Por isso Paulo nos afirma: “se alguém está em Cristo é uma nova criação. As coisas velhas já passaram, tudo se fez novo”. Quando as torrentes de águas do Espírito de Deus chegam ao “mar morto” de nossas vidas toda sequidão, toda podridão, tudo o que estava destruído e sem vida tornará a existência, será revigorado, será renovado na força do Seu poder. E a árvore que o texto aponta prefigura a nossa própria vida, gerando frutos em abundância, sendo utilizada para trazer cura às nações da Terra.     

Talvez você já tenha corrido atrás de muitas coisas em busca de cura. Não sei se já freqüentou templos de “igrejas”, ou fez parte de religiões e filosofias, tudo em busca de salvação. Mesmo assim, talvez, suas chagas ainda estejam expostas, doloridas, inflamadas, e você continua desejando ardentemente encontrar uma “folha” que produza um “ungüento” capaz de lhe trazer alívio, cura e paz. Pois eu quero lhe afirmar que o que você procura é Jesus! Ele, por vezes, não está nos “templos” das “igrejas”, nem presente no compêndio das muitas religiões criadas pelos homens, mas é incapaz de desprezar um coração contrito ou abandonar um espírito quebrantado. Se você realmente deseja ser curado, chegue-se a Ele, diga-lhe sem cerimônias: “preciso de ti”, e receba a cura. É apenas isto... Sim. Simples assim. Pois aquele que ama a Deus viverá apenas pela sua fé.

Carlos Moreira

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É importante esclarecer que este BLOG, em plena vigência do Estado Democrático de Direito, exercita-se das prerrogativas constantes dos incisos IV e IX, do artigo 5º, da Constituição Federal. Relembrando os referidos textos constitucionais, verifica-se: “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato" (inciso IV) e "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença" (inciso IX). Além disso, cabe salientar que a proteção legal de nosso trabalho também se constata na análise mais acurada do inciso VI, do mesmo artigo em comento, quando sentencia que "é inviolável a liberdade de consciência e de crença". Tendo sido explicitada, faz-se necessário, ainda, esclarecer que as menções, aferições, ou até mesmo as aparentes críticas que, porventura, se façam a respeito de doutrinas das mais diversas crenças, situam-se e estão adstritas tão somente ao campo da "argumentação", ou seja, são abordagens que se limitam puramente às questões teológicas e doutrinárias. Assim sendo, não há que se falar em difamação, crime contra a honra de quem quer que seja, ressaltando-se, inclusive, que tais discussões não estão voltadas para a pessoa, mas para idéias e doutrinas.

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