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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.

14 maio 2013

Sem Noção!




Ouvir pessoas é algo, ao mesmo tempo, prazeroso e penoso. Dá prazer porque você pode ajudar a resolver questões, não raro, simples, que machucam e angustiam os indivíduos. Penoso porque você sofre com o sofrimento de quem se expõe e abre as feridas feitas pela vida.

É nesse processo de escuta terapêutica que compreendemos o que acontece entre os cristãos. A esmagadora maioria dos problemas tem a ver com questões onde o bom senso resolveria. Mas também são muitos os casos onde se percebe o total desconhecimento de princípios elementares do Evangelho os quais, uma vez aplicados a existência, tornariam a vida melhor e mais leve.

Em conversas pastorais, ao questionar sobre a leitura das Escrituras, identifico que quase a totalidade dos entrevistados nunca leu, sequer, o Novo Testamento. Pessoas com cinco ou dez anos na “fé” afirmam que nunca leram um livro inteiro da Bíblia, nem mesmo um dos Evangelhos!

O fenômeno que surge em decorrência desta atitude revela um pouco do substrato da igreja em nossos dias. Em primeiro lugar, temos uma massa de indivíduos facilmente manipulados, pois ela não possui qualquer argumento para confrontar ou refutar as ideias que lhes são transmitidas.

Em segundo lugar, surge a “hegemonia da tradição”, que torna verdade aquilo que foi construído a partir da cultura. Foi assim, por exemplo, que se estabeleceu que não se pode comer carne na semana santa. Em nenhum lugar das Escrituras encontramos isso, pelo contrário, Jesus afirmou que não é o que entra pela boca que contamina o homem, mas o que procede do coração.

Em terceiro lugar, temos o problema da interpretação. A Reforma Protestante prestou um enorme bem à cristandade quando colocou a Bíblia ao alcance das pessoas. Por outro lado, fez surgir um mal quase que incontornável: a questão de como os textos passaram a ser interpretados.

A Escritura Sagrada possui diversos tipos de linguagem, foi escrita dentro de uma cosmovisão específica, num contexto cultural, econômico, religioso, filosófico e político totalmente diferente do nosso. Além disso, aproximadamente 40 autores participaram deste processo, o que a torna ainda mais heterogênea e eclética. Portanto, interpretar este livro e trazer seus ensinamentos, ressignificado-os para o nosso tempo, não é tarefa fácil.  

Por outro lado, não conhecer os conteúdos e os princípios da fé leva as pessoas a sempre serem infantis em sua espiritualidade. A priori, ou elas são manipuladas por estelionatários ou fundamentalistas, ou passam a ser guiadas por tradições que nada dizem respeito a Jesus e ao Evangelho, ou caem no problema das interpretações, por vezes, bizarras.

A educação cristã é tão importante quanto à educação tradicional. Um povo analfabeto em termos de Bíblia refletirá um cristianismo distorcido e insipiente. O pior é que não há solução de curto prazo, pois cada vez mais as pessoas leem menos. Até nas igrejas as passagens são projetados em telões. Desta forma, nem mesmo na comunidade de fé o indivíduo lê o texto em sua própria Bíblia!

Abrir a Escritura foi uma das mais prazerosas experiências que tive na vida. Em minhas mãos, tenho mais do que um conjunto de livros, tenho um “ente relacional”, escritos que ganham vida, palavras que saltam das páginas e interagem comigo. Elas me confrontam, indagam, acalmam.

Em qualquer área do conhecimento humano é mister o aprofundamento teórico. Na vida cristã também é assim. O desconhecimento das verdades bíblicas tem consequências profundamente danosas à espiritualidade, sendo que a menos impactante delas é a formação de uma geração de fiéis totalmente “sem noção”. Seria, sem qualquer ofensa, a consagração das toupeiras!

Contudo, eu lhes pergunto: fazer o quê?

Carlos Moreira

13 maio 2013

Eu Porém vos Digo...



Quando Jesus começou a anunciar o Reino de Deus, sua proposta não se referia a mudanças na religião de Israel, mas tratava da transformação da consciência dos indivíduos. Estava claro que seu objetivo não era fazer remendos na debilitada lei judaica, mas instaurar um novo proceder que fosse para além das questões relativas à norma.

“Ouvistes o que foi dito...”, afirmava o Galileu. Sua fala referia-se aos velhos ditames da Torá. Ele estava confrontando àquilo que era discernido como espiritualidade, mas que, na verdade, envenenava a alma. Aquela geração vivia calcada em regras estéreis, baseadas na estética comportamental, que valorizavam a performance. Jesus, todavia, oferecia conteúdos éticos, que transformavam interiores e regeneravam o ser.

“Eu porém vos digo...”, insistia Ele. Era uma proposição que visava ressignificar práticas existenciais. A lei havia caducado, transformara-se num conjunto de doutrinas perversas e tradições histórico-culturais. Chegara a um ponto em que era melhor deixar alguém sofrendo com um aleijão do que curá-lo em dia de sábado. Instaurara-se no coração dos homens a condescendência com a hipocrisia.

Estou certo de que um dos maiores perigos da religião é quando ela vira ideologia. Se perguntarmos a alguém em uma comunidade se ele já aceitou a Cristo, ouviremos: “sim, eu tomei essa decisão. Certo dia levantei minha mão e dei um passo à frente”. Esse ato, todavia, raramente é seguido de qualquer mudança interior, pois o que o sujeito fez foi dizer que concorda com as regras seguidas pela coletividade.

É um tipo de “decisão” que não possuiu qualquer desdobramento para dentro, restringiu-se ao que se pode perceber do lado de fora. Ela fez com que o sujeito incorporasse trejeitos, mudasse o tom da fala, alterasse a agenda. Tudo isso, contudo, jamais se projetou para o ser. Conversão, de fato, diz respeito a mudar a consciência, com vistas a que se possa materializar no caminho “frutos dignos do arrependimento”.

Quando isso acontece, a pessoa é capaz de perceber o outro, solidarizar-se com os caídos, tornar-se reverente com a dor do que sofre, aceitar o diferente, buscar a justiça, falar a verdade, amar sem ser amado. Não existe fé que não se desdobre! Uma espiritualidade voltada para si mesmo adoece todo aquele que dela se torne refém.

“Se a justiça de vocês não for muito superior à dos fariseus e mestres da lei, de modo nenhum entrarão no Reino dos céus”. Essa é a difícil constatação de Jesus. Tenho percebido que há mais gente de bem fora das igrejas do que dentro delas. Vejo cristãos se esforçando para tentar chegar à média comportamental da sociedade. Triste ver que somos um povo cheio de carismas, mas totalmente esvaziados de caráter.      

Em tempos de prosperidade, falsificação doutrinária, barganhas com o sagrado, querer viver o bom e simples Evangelho coloca a pessoa na contra-mão do fluxo. Fazer o quê? Talvez, lembrar de Isaías: “Senhor, quem deu ouvidos a nossa pregação?”.

Carlos Moreira

11 fevereiro 2013

Tem Gente que Vem, Tem Gente que Vai



“Todos os dias é um vai-e-vem , a vida se repete na estação. Tem gente que chega pra ficar, tem gente que vai pra nunca mais, tem gente que vem e quer voltar, tem gente que vai e quer ficar, tem gente que veio só olhar, tem gente a sorrir e a chorar. E assim, chegar e partir”  
Milton Nascimento e Fernando Brant 

O trecho acima é parte da canção “Encontros e Despedidas”, de Milton Nascimento e Fernando Brant. Confesso que, para mim, já se tornou hábito analisar a vida através das lentes dos poetas, pois eles, não raro, revelam-nos a realidade através do que, a princípio, parecia só abstração. 

Eis, então, algo que vi na vida: nada é capaz de marcar tão profundamente a alma humana quanto a passagem de uma pessoa. Sim, seres humanos deixam rastros por onde pisam, sobretudo se o terreno é o ser da gente. Há pegadas que se projetam do chão da existência para o sagrado do coração, deixam tatuadas impressões, sentidos e sentimentos.  

Por isso, tenha muito cuidado com quem entra e sai de sua vida, pois você pode acabar acolhendo quem só lhe fará mal ou despedir quem só lhe fez bem.

“Tem gente que chega pra ficar...”. Estes, de preferência, devem ser os que nos trazem paz e alegria. Semeá-los em nós revelará sábia decisão, pois, quem acha um amigo, encontrou na lida da vida um abrigo. Deixe que entrem, que sentem, que façam morada duradoura, que nos dias difíceis nos sejam alívio e nas noites sombrias, alento.

“Tem gente que vai pra nunca mais...”. Em alguns casos, inclusive, já foi tarde! É sinal de maturidade acatar a voz da consciência e abandonar os sussurros do coração. Há certo tipo de gente que precisa ser arrancada de dentro de nós, pela raiz, de tal forma que jamais brote novamente. Dessas, as piores são aquelas que nos fazem bem nos fazendo mal. Esse vício vicia! Trate-as como erva daninha, deixe a piedade para outra ocasião, corte a própria carne, se preciso for, mas ampute esse mal antes que ele lhe faça “bem”.

“Tem gente que vem e quer voltar...”. Mas seja cauteloso, veja se vale a pena. Alguns relacionamentos têm prazo de validade, não devem ser consumidos após o tempo determinado. Partidas saudosas marcam mais do que chegadas indesejáveis. É melhor a lembrança boa do que o convívio entediante. Há certos encontros humanos que nos trazem coisas boas por um determinado tempo, passado o qual, tendem a afetar o sono e o apetite.

“Tem gente que vai e quer ficar...”. Aprendi que sonhos não devem ser construídos sobre nuvens, mas sobre pedras! Não há coisa mais danosa ao ser do que a convivência passiva com a indecisão, pessoas que estão sempre entre o agora e o ainda-não. Na vida, há mais proveito no fim precoce do que na longevidade tardia. Portanto, ou fica, ou sai, ou entra, ou vai, pois o tempo urge, devora o sentir e o ser.

“Tem gente que veio só olhar...”. Pois é melhor assistir ao circo pegar fogo do que meter a mão no lamaçal para levantar paredes. De que lhe servem milhares de amigos nas redes sociais que assistem, placidamente, a tua dor, num torpor calcificante, de dar nó e dó, de dá medo? A vida não é palco do imaginário, mas crueza do real, não demanda plateia, mas atores que se envolvam na trama do drama, façam parte do enredo, seja ele qual for, co-média ou tragédia.

“Tem gente a sorrir e a chorar...”. Elas vão e vêm, daqui para ali, e você precisará escolher com quem vai sorrir, após ter chorado, e com quem vai chorar, depois de ter sorrido. Lembre-se, todavia: a vida é feita de nuances e contradições, tempos bons e maus, dias pálidos e noites ardentes. Por isso, se possível, nunca deixe a mesa ficar vazia, mas acolha sempre a solidão com reverência, se preciso for.

No mais, “é melhor serem dois do que um”, e melhor ainda quando, de dois, se faz um, pois, lembrando Nietzsche: “Na solidão, o solitário devora a si mesmo; na multidão, devoram-no muitos”. Contudo, é mister aprender, tem gente que vem e gente que vai, é preciso acolher quem chega, com ares de primavera, e despedir agradecido quem parte, no ocaso da estação outonal.

Carlos Moreira

18 janeiro 2013

Eu, Dublê de Deus?



“Chegando Jesus à região de Cesaréia de Filipe, perguntou aos seus discípulos: “Quem os outros dizem que o Filho do homem é?”. MT. 16:13


Curioso Jesus fazer esta pergunta? Não parece coisa de gente insegura, que está preocupada com a opinião pública? Para mim, todavia, Jesus estava interessado em saber o que os discípulos pensavam, e não a multidão, pois, logo em seguida, questionou: “e vocês? Quem vocês dizem que Eu sou?”. Pedro, impetuoso como sempre, foi quem declarou: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!”. 

Entretanto, o mesmo Pedro, que fez a “confissão bombástica”, não muito depois, foi duramente repreendido pelo Senhor: “arreda daqui satanás, pois és para mim uma pedra de tropeço”. Como pode, num momento alguém ser usado por Deus e, no outro, pelo diabo? Por que isto acontece? 

A questão gira em torno de dois eixos importantes para a nossa espiritualidade: a confissão e o testemunho. Confessar é algo fundamental, pois, conforme as Escrituras, se cremos com o coração precisamos declarar com a boca aquilo que foi introjetado na consciência por meio da fé. Mas o processo não para por aí... Quem confessa algo, deve materializar na prática aquilo que exprime crer como reflexo do ser. A confissão em si mesma é como uma lata vazia, que apenas ressoa os sons que dentro dela são produzidos. 

Para nossa tristeza, assim tem sido o cristianismo, muito parecido com a confissão de Pedro, retórica pura. Muita falação, mas pouco testemunho. É uma religião de garganta, verborrágica, contudo sem respaldo da vida, sem ações e desdobramentos que transformem os conteúdos em prática existencial. A pergunta de Jesus, todavia, não vai calar: “E vocês? Quem vocês dizem que eu sou?”. Quem é Jesus para você? Melhor ainda: como você transmite isto às pessoas?

Perceba, se sua resposta é apenas um discurso teológico, sem respaldo das ações práticas, você pode ter se tornado um teórico da religião, que confessa algo com a boca, mas que não materializa com a vida. A melhor forma que há para se dizer as pessoas quem é Jesus é a partir de sua própria encarnação dEle – “já não sou eu que vivo, mas Cristo vive em mim” – como se você fosse um dublê, alguém que assumiu o papel do outro. Isso, de forma alguma lhe descaracterizará, pelo contrário, você será mais você tanto mais a vida dEle esteja simbiotizada com a sua, pois o propósito eterno de Deus é ser o Pai de uma grande família de muitos filhos semelhantes a Jesus! 

Finalizo com as palavras sábias de São Francisco de Assis: “viva o Evangelho. Se necessário, fale sobre ele”. 

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