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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.

30 junho 2011

Alterar a Agenda não Significa Transformar a Consciência


Quando alguém aceita a Cristo como seu Senhor e Salvador, não percebe, de imediato, o milagre que se realizou silenciosamente em seu ser, o desencadeamento de todo um processo interior e espiritual em proporções inimagináveis.

Através da iluminação do Espírito Santo, que produz a consciência de pecados, nascemos de novo, recebemos o próprio Espírito em nossas vidas, apropriamo-nos da remissão de pecados – mediante o sangue do Cordeiro – somos justificados pela fé, pois cremos com o coração e confessamos com a boca a Jesus, e, a partir de então, começamos a viver os prenúncios da eternidade, pois nossa consciência começa a ser reelaborada a partir da matriz de valores do Evangelho, o que nos leva a praticar atos de justiça.

O processo de santificação, que é este desafio de, no caminho encarnarmos “O Caminho”, é algo que vai sendo gestado de dentro para fora, das percepções para as ações, dos conteúdos para a prática, algo que permite com que carisma e caráter caminhem lado a lado, harmonizem-se com a finalidade de construção de um novo ser, pois, como disse Proudhon, “a revolução sucede à revelação”.

Isso fica bonito num texto religioso-filosófico, mas, na prática, a realidade é outra. O que tenho visto, nas últimas décadas, é que o “evangelho” não produz mais aquilo que deveria produzir, ou seja, ou ele perdeu a sua eficácia com os anos, ou o que estamos pregando é um outro “evangelho”!

Sinto uma alegria indescritível quando encontro alguém que me relata ter tido recentemente uma experiência com Deus através de Jesus Cristo. Por outro lado, minha alma é invadida por uma imensa tristeza, pois sei que há grandes chances desta pessoa se tornar uma vítima da engrenagem  das instituições religiosas, pois, como disse Nietzsche, “Deus está morto e o seu túmulo é a Igreja".

Quando o filósofo escreveu esta sentença, estava diante de uma religião perversa, a qual havia criado um “deus” caricaturado, um ser absoluto e indiferente. “Matar” Deus, significava extinguir o dogma, o conformismo, a superstição e o medo, era a proposta da não imposição de “regras”, as quais impediam a transcendência do ser, sua auto-afirmação, sua busca por elevação em sua saga existencializada.

O que vejo em nossos dias é que as pessoas “desembarcam” nas comunidades, às vezes oriundas de movimentos, outras após aceitarem o convite de amigos ou parentes, em algumas situações após terem levantado a mão num “apelo”, seja como for, e, a partir daí, iludidas pelo "sistema", começam a imaginar que a vida cristã significa apenas uma mudança na agenda, e não uma transformação na consciência!

O “novo convertido” inclui em sua programação semanal um culto dominical, uma reunião de oração, a participação em um pequeno grupo, ou mesmo num movimento, e pronto, toda a sua vida está rearrumada! Agenda refeita, lá vai o novo “crente” “mundo a fora”, ano após ano, e nada do que ele faz é capaz de produzir transformações significativas em seu ser – reestruturação emocional, ressiginficação conjugal, reelaboração familiar, renascimento espiritual, redirecionamento profissional.

É que o sujeito, não raro, apenas trocou o bar pelo pequeno grupo, o cinema pelo culto, a praia pelo movimento e a palestra pela reunião de oração. Ele mudou a agenda, mas não mudou o coração. Em alguns anos, irá sentir-se totalmente esvaziado de propósitos e significados, viverá uma fé epidérmica, uma espiritualidade não-sustentável, se decepcionará com a Igreja, ou, talvez, até com o próprio Deus, irá tornar-se um “esquentador de banco”, freqüentador de reuniões que possuem, como único objetivo, purgar de sua consciência um sentimento de culpa por ter se tornado um ser sem emoção, sem reverência, sem devoção. 

Termino com Karl Jaspers, filósofo e psiquiatra alemão: “a verdadeira existência é a possibilidade de transcender a situação na qual nos encontramos”. E eu, na minha insignificância, fico pensando: e se não for isso, então, o que será? 

Carlos Moreira

29 junho 2011

Afinal: Você Confia ou não Confia?


Ontem à noite eu me vi diante de uma cena inusitada... Minha filha Gabi colocou na orelha um brinco e ele entrou na pele, o que fez com que a região inflamasse e sua retirada se tornasse algo extremamente doloroso.

Sei que Gabriela ama a mãe loucamente, confia nela cegamente, mas aquela situação a fez agir de forma inusitada. Ela corria de um canto para outro e não deixava a gente, sequer, se aproximar para ver o que precisava ser feito. Em certo momento, senti a angústia nos olhos de Fabiana, algo do tipo: “milha filha, ou você confia ou não confia!”.

É fácil manter a confiança quando o contexto é favorável, quanto o problema é contornável, quando os envolvidos são confiáveis, quando as medidas a serem tomadas são palpáveis. Mas, e quando não?...

Aqui surge uma questão: como confiar quando os fatos são contrários, quando Deus se torna “indisponível”, ou o céu mostra-se impermeável, quando o “telefone” do Altíssimo fica dando “caixa postal”? O que fazer no momento em que as coisas, aparentemente, não possuem sentido ou lógica, e o caos aproxima-se de nós com um apetite voraz? 

Como todos sabem, gosto muito do profeta Habacuque. Trata-se de um homem suigeneris, pois, ao invés de começar seu ministério confrontando aos homens, ele parte para questionar o próprio Deus. Por isso, de cara, me apaixonei por ele, pois em Habacuque não existem “salamaleques” para com o sagrado, ele é um ser perplexo em busca de respostas, assim como eu.

A questão central no livro de Habacuque é o afastamento de Israel da comunhão e intimidade com Deus. Profeta do período pré-exílico, ele constatou que o bem se afastara da vida dos seres humanos, assistiu ao desvirtuamento das relações, viu o poder sendo usado para esmagar o próximo, o estabelecimento da corrupção, da volúpia por sangue, da ganância, do desamor como praxis, ou seja, a inexistência de todos os matizes dos quais é constituída a matriz de valores do Evangelho.

Depois de insistentes questionamentos sobre o fato de Deus está, aparentemente, inerte a toda aquela situação, Habacuque recebe, então, a sua resposta. Foi impossível não lembrar de Guimarães Rosa “esperar é reconhecer-se incompleto”. Ah, coisa difícil é esperar... sobretudo, esperar por Deus... Ele parece sempre estar indisponível no dia da calamidade, da dor, da solidão, da tragédia.

Todavia, a resposta que Deus deu ao profeta não lhe agradou. Ele estava preparando, como “vara de juízo” sobre o Seu povo, uma nação ainda mais perversa, corrupta e dura: os Assírios. Aí o profeta foi à loucura! “Como assim Deus?! Você vai nos disciplinar usando gente mais corrompida do que nós mesmos?!”.

Sei que não está escrito no livro de Habacuque, mas, neste ponto, penso que Deus questionou o profeta: “afinal, você confia ou não confia?”. E é justamente aí, em meio à perplexidade, ao inexplicável, ao ilógico, ao contraditório, ao irracional, ao desconexo, que surge um homem resignado a obedecer e aceitar os desígnios do amor de Deus, pois, mesmo quem ama, tem de ser firme.

“Ouvi isso, e o meu íntimo estremeceu, meus lábios tremeram; os meus ossos desfaleceram; minhas pernas vacilavam. Tranqüilo esperarei o dia da desgraça que virá sobre o povo...”. 


A lição que tiramos da vida deste homem é que confiar não é uma ação que nasce na consciência, mas no coração. Confiar é lançar-se no absurdo, no insondável, é abrir mão de racionalizações, de conjecturas. Confiar é resignar-se, aquietar-se, render-se, sublimar-se, é ir na contra-mão, no contra-fluxo, esperar o inexplicável, aguardar o improvável, ter a certeza de que, ainda que contra todas as evidências, Deus nos fará bem e nos trará a paz.

Habacuque nos ensina que ainda que o fluxo natural da existência  – “mesmo não florescendo a figueira, não havendo uvas nas videiras; mesmo falhando a safra de azeitonas, não havendo produção de alimento nas lavouras, nem ovelhas no curral nem bois nos estábulos”, seja, por algum motivo, alterado, ainda assim ele confiará no Senhor, pois diz: “exultarei no Senhor e me alegrarei no Deus da minha salvação”.

O nome Habacuque significa “abraçado por Deus”. Não sei o que se passa em sua vida, mas eu, particularmente, tenho vivido dias muito difíceis... Algo, entretanto, me fala ao coração: “filho muito amado, foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei, recebe o abraço do teu Pai”. E eu lhe pergunto: “do que mais precisarei?”. 

Carlos Moreira

28 junho 2011

Não Escuto o que Você Fala, Porque Vejo o que Você Faz


Houve um tempo, na Grécia antiga, em que um grupo de professores viajantes obteve destaque e relevância. Eles eram chamados de sofistas, mestres que, por determinado preço, vendiam ensinamentos de filosofia. 

Etimologicamente, o termo sofista significa sábio, mas, historicamente, eles ficaram marcados, sobretudo pelas críticas de Platão, como impostores. Para um sofista, não importava se um conhecimento era verdadeiro ou falso, mas apenas a capacidade de argumentação. O discurso de um sofista, apesar de primoroso, era esvaziado de conteúdos e significados, suas vidas restringiam-se a transmissão do conhecimento, jamais a sua encarnação.    

Conta-se que, de certa feita, Sócrates, argumentando sobre o embuste dos sofistas, afirmou: “os Sofistas buscam o sucesso e ensinam as pessoas como conseguí-lo; Sócrates busca a verdade e incita seus discípulos a descobri-la”.

Você consegue ver semelhanças entre o discurso dos sofistas e a pregação dos pós-pentecostais? Estou usando o termo pós-pentecostais para acabar, definitivamente, com o uso do termo, ao meu ver equivocado, neopentecostais.

O pentecostalismo é um ramo sério da Igreja, que prega as verdades das Escrituras, os dons do Espírito Santo, a vida simples e a propagação do Evangelho através de ações de misericórdia. Isto não tem nada a ver com os pós-pentecostais, que enganam pessoas, falsificam doutrinas, extorquem dinheiro do povo, vivem em busca do sucesso, da prosperidade e da “benção”.

Pensando bem, o nome que melhor se aplicaria a este grupo seria o de “sofistas modernos”. Para eles, não importa se o que pregam é verdade ou não, mas apenas o fato de conseguirem, com argumentações supostamente lógicas, ancorados numa hermenêutica fraudulenta, convencer o povo a obedecer doutrinas de demônios. E a “massa”, muito mais interessada nas “promessas” de Deus do que no caráter de Deus, naquilo que Ele pode fazer, e não em quem Ele é, vai sendo espoliada, “depenada” como ave que vai para o abatedouro.

Quando Paulo escreve sua carta aos Romanos, faz uma citação de Isaías no capítulo 10 verso 14 “...como são belos os pés dos que anunciam boas novas”. Ora, eu sempre pensei, em se tratando da proclamação do Evangelho, que o apóstolo deveria afirmar “como é belo o discurso dos que anunciam a salvação”. Mas ele é que estava certo...

A questão é que o discurso vazio, desprovido de sentido, desacompanhado de boas obras, de nada aproveita para a vida. É por isso que a fala precisa ser seguida de ações, ou seja, de pés que se movam na direção do outro, pés que abandonem a zona de conforto, pés que representem este estado de movimento, de não-fixidez, que simbolizem o “espírito” do hebreu, na melhor acepção da palavra, um ser errante, desenraizado, habitante de tendas, peregrino em terra estrangeira.

A pregação do Evangelho, em nossos dias, precisa ser ressignificada. Ao invés de usarmos a boca, para a divulgação das verdades do Reino – o discurso, os recursos homiléticos, a oratória – vamos passar a usar os pés, membros do corpo que não possuem tanta beleza, que talvez não recebam de nós tanto decoro, mas que podem nos levar pelo caminho da justiça e da verdade revelando que, em nós, Cristo se constitui ação, e não meras palavras, que os que nos vêem podem seguir-nos, pois fazemos o que falamos, a nossa fé tem se materializado através de atos de bondade e amor.

Desta forma, nunca se esqueça: a Palavra só se tornou verbo porque, um dia, o Verbo se fez carne, e habitou entre nós.    

Carlos Moreira

25 junho 2011

O "Ciclo do Buraco"


Recife é uma cidade cortada por rios e cercada de manguezais. Como está abaixo do nível do mar, quando chove é uma tragédia, pois, com galerias entupidas e lixo nos canais a água não tem por onde escoar e, assim, tudo fica inundado.

Eu viajo por todo o Brasil, mas acho que minha cidade é a recordista em buracos no asfalto. Quando chove, isto se transforma numa verdadeira desgraça, pois, sem ver o dito cujo, que está coberto pela água, pessoas, motos e carros acabam acidentando-se.

É curioso, mas aqui existe uma coisa que eu chamo de “o ciclo do buraco”. Funciona da seguinte forma: em vez da prefeitura fazer o recapeamento das ruas antes do período de inverno, ela faz depois, e isto segue uma lógica...

No inverno, as ruas ficam todas esburacadas, não só por causa da chuva, mas porque o asfalto é de má qualidade. Esse evento faz com que toda uma “cadeia alimentar” funcione: lojas de autopeças, oficinas mecânicas, empresas de reboque, e até mesmo a “molecada”, que fica de plantão para desatolar os carros enguiçados e descolar “algum”. 

Depois que a época das chuvas termina, a prefeitura, então, faz uma licitação para concertar as ruas. A empresa ganhadora vai fazer um serviço de quinta categoria, e isto com vistas a que, no ano que vem, o ciclo recomece novamente. Prevenir, de forma séria, seria o correto, mas em nosso país, o correto quase nunca se torna concreto.

Pois bem, de tanto aconselhar pessoas, descobri que muitas delas vivem um certo tipo de “ciclo do buraco”. Grande parte de seus problemas são questões que, facilmente se revolveriam e a maioria sabe, inclusive, o que tem de ser feito para resolver. Contudo e contraditoriamente, elas preferem enfrentar as conseqüências de “cair no buraco” ao invés de trabalhar preventivamente – tomar decisões, afastar-se do mau e cindir com situações que esgotam a alma, machucam o coração e convulsionam a consciência.

Outra coisa que eu observei é que “o ciclo do buraco” na vida das pessoas possui também sua própria “cadeia alimentar”. Ela é formada de psicoterapeutas, ansiolíticos, cd’s de “dor de cotovelo”, amigos de bar, livros de auto-ajuda, lenços de papel, garrafas de vinho e muita, muita autocomiseração. Como diria o Tom, “é o fundo do poço, é o fim do caminho, no rosto o desgosto, é um pouco sozinho...”.

Analisando tudo isto, lembrei de algo curioso. Nos últimos anos, a igreja tem convivido com uma prática chamada: “descansar no Espírito”. Trata-se do fato das pessoas caírem ao receber orações através da imposição de mãos. Eu não tenho nada contra isso. De fato, não vejo a prática nas Escrituras, mas não condeno quem faz. Acho, todavia, que é melhor “andar no Espírito”, conforme nos ensina o apóstolo Paulo e, de preferência, sem cair em “buracos”.

“Andar no Espírito” significa deixar-se guiar pelas Escrituras, fugindo assim de fábulas, modismos e ventos de doutrina, ter uma consciência sensível a “voz de Deus”, o que nos leva a desviar daquilo que não nos trará paz ou fará bem e, sobretudo, estar sempre em oração, pois eu e você somos tentados pelas nossas ambições e cobiças.   

Por isso, se você está vivendo num período de “inverno” em sua vida – solidão, depressão, ansiedade ou medo – preste atenção ao que vou lhe dizer agora: se você não está vendo o “buraco”, ande com cautela; se o está vendo, desvie; se caiu dentro dele, procure sair; se saiu, não volte mais; se voltar, não pense que é o fim do mundo, pois você já saiu uma vez. Faça isso, desta forma simples como estou lhe falando, e você verá que boa parte dos seus problemas irá desaparecer, e “a paz de Deus, que excede todo entendimento, guardará a vossa mente e o vosso coração em Jesus”.

Agora, se tudo isto não funcionar, ligue para mim, escreva-me ou marque um aconselhamento pastoral. Você, provavelmente, está entre os 10% que, de fato, necessitam de uma orientação espiritual. E lembre-se do que disse o "sábio": “tudo ao redor de um buraco é beira”. Portanto, não chegue muito perto, você pode cair!

Carlos Moreira

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É importante esclarecer que este BLOG, em plena vigência do Estado Democrático de Direito, exercita-se das prerrogativas constantes dos incisos IV e IX, do artigo 5º, da Constituição Federal. Relembrando os referidos textos constitucionais, verifica-se: “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato" (inciso IV) e "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença" (inciso IX). Além disso, cabe salientar que a proteção legal de nosso trabalho também se constata na análise mais acurada do inciso VI, do mesmo artigo em comento, quando sentencia que "é inviolável a liberdade de consciência e de crença". Tendo sido explicitada, faz-se necessário, ainda, esclarecer que as menções, aferições, ou até mesmo as aparentes críticas que, porventura, se façam a respeito de doutrinas das mais diversas crenças, situam-se e estão adstritas tão somente ao campo da "argumentação", ou seja, são abordagens que se limitam puramente às questões teológicas e doutrinárias. Assim sendo, não há que se falar em difamação, crime contra a honra de quem quer que seja, ressaltando-se, inclusive, que tais discussões não estão voltadas para a pessoa, mas para idéias e doutrinas.

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