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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.

14 fevereiro 2011

Longe dos "Templos"

Dois dos maiores ícones da filosofia e da psicanálise do século XIX foram grandes inimigos da religião: Sigmund Freud e Friedrich Nietzsche.

Freud via a religião como um sistema irracional, indemonstrável e de recusa à realidade. Nietzsche, por sua vez, repudiou os valores cristãos como “humanos, demasiadamente humanos” e chamou a moral cristã de “moral de escravos”.

Sigmund Freud afirmava que em todas as épocas, a imoralidade não encontrou menos apoio na religião do que na moralidade. Friedrich Nietzsche, bem mais enfático do que Freud, disse certa vez: “sempre tive a necessidade de lavar as mãos ao entrar em contato com as pessoas religiosas”.

A essa altura você deve está perguntando por que estes homens tão inteligentes nutriram tal repulsa pela religião e pela igreja? De onde vêm a indiferença de Freud e o ódio de Nietzsche?

Como pode um homem como Nietzsche, criado em lar protestante, filho de pastor, tornar-se um inimigo declarado da religião e da igreja? Que fatores teriam contribuído para essa aversão? Eu explico.

Para entender os motivos dessa indisposição de Freud e Nietzsche quanto à religião é preciso, logo de início, descartar certas explicações fantasiosas e infundadas como, por exemplo, dizer que satanás “cegou” a ambos para que não enxergassem a vontade de Deus. Deixe o diabo fora disso; desta vez ele não tem culpa nenhuma!

A aversão de Freud e Nietzsche pela religião é coisa deste mundo, obra de homens e não tem qualquer ligação com nenhum ser metafísico, habitante do inferno ou não. A atitude de ambos foi uma reação a uma religião castradora, hipócrita e mesquinha.

Nietzsche via no cristianismo uma negação da vontade para a vida e na igreja um ambiente propício ao florescimento das atitudes hipócritas e dissimuladas. “Se você quer respirar um pouco de ar puro não vá a um templo”, disse certa vez ao referir-se à igreja como coisa da gentalha.

Tanto Freud como Nietzsche perceberam que a igreja não resolvia os dilemas humanos, apenas ajudava a reprimir certos impulsos para o “pecado” que em pouco tempo voltavam a aflorar de forma mais avassaladora ainda. A igreja, neste caso, agia como uma empregada doméstica que ao invés de recolher a sujeira jogando-a no lixo, apenas empurrava-a para debaixo do tapete.

Reprimir impulsos não é o mesmo que controlá-los racionalmente. Um “cristão” produzido nestes termos não demora muito para “adornar a casa e receber mais sete demônios” com festa de boas vindas e de braços abertos.

Quem nunca se deparou com um “crente afastado dos caminhos do senhor” e que transgride dez vezes mais depois de descobrir que lhe ensinaram uma mentira e ter rompido totalmente com a igreja? O erro da igreja é querer ser certa demais quando não possui autoridade e nem moral para tanto!

O diabo não está fora das igrejas, pelo contrário, ele freqüenta os cultos e missas assiduamente e inspira certos bobalhões que não sabem o que estão dizendo quando proferem baboseiras sem fim dos seus púlpitos alienantes e desprezíveis!

Além disso, há também o problema da corrupção política dentro da igreja. Uma reunião de clérigos e uma de políticos sagazes e desonestos não tem muita diferença. A instituição eclesiástica e Brasília não destoam muito uma da outra. O templo e o plenário da câmara também não!

É a igreja que afasta as pessoas da igreja, e não o coitado do diabo, como dizem os clérigos muito “espirituais”. O cristianismo é como o mítico deus grego kronos que se alimentava dos seus próprios filhos matando-os quando deveria salvá-los!

No segundo século da era cristã, os pais apostólicos discutiam entre si sobre a possibilidade ou não de haver salvação dentro da igreja. Hoje a questão inverteu-se e talvez seja mais correto perguntar se há possibilidade de alguém salvar-se estando dentro da igreja. Nietzsche e Freud recomendariam: “por via das dúvidas, é melhor ficar longe dos templos”!

André Pessoa Via Século XXI

13 fevereiro 2011

Pior do que Envelhecer é Não se Tornar Adulto Nunca



Quando eu fiz 40 anos, um amigo me ligou e disse: “meus parabéns! Agora começarão os bons anos de sua vida!”. Eu fiquei animado, pois estava com aquela sensação de envelhecimento, começando a famosa "crise da meia idade". Aí, em seguida, ele arrematou “é meu amigo, aproveite os bons anos que virão, pois, os extraordinários, já se foram...”.



Na verdade, ninguém quer envelhecer. Por outro lado, na “sociedade da imagem”, desde que se tenham recursos financeiros, só envelhece quem quer. A medicina avançou tanto nesta área da estética que é difícil hoje você encontrar alguém que não tenha feito algum tipo de cirurgia. É implante de cabelo, lipoaspiração, restauração dentária, botox, silicone, depilação a laser, e um sem número de mimos disponíveis tanto para as mulheres quanto para os homens.  



De fato, é mesmo possível retardar o envelhecimento. Mas há um fenômeno que eu tenho observado na sociedade contemporânea: a desproporcionalidade entre o avanço da idade cronológica e o crescimento da maturidade existencial. A impressão que tenho é que quanto mais velhas as pessoas vão se tornando, mais imaturas vão ficando. E não é só isso... O problema parece ser bem mais freqüente em pessoas do sexo masculino do que nas do sexo feminino.   



Sinto-me confortável para afirmar isto, pois, como profissional de mercado, interajo com uma grande quantidade de pessoas, sobretudo em viagens. Fico abismado com o nível das conversas que travo em encontros dos mais diversos. Percebo nelas a existência de um profundo esvaziamento emocional, intelectual, cultural, social, político e religioso. É o que chamo de desidratação da alma. Praticamente todas as conversas giram em torno da seguinte "vala comum": dinheiro, status, mulher, balada, futebol e cachaça.

A prova dos nove, todavia, acontece no gabinete pastoral. Sistematicamente, por exemplo, ouço as mulheres se queixando da falta de conteúdos nos homens. Elas afirmam que eles estão sem perspectivas na vida, gravitam em torno de grandes futilidades, possuem uma vaidade exacerbada, além do total desconhecimento de questões elementares para se construir uma relação afetiva com um mínimo de propósito. Lembrei da Paula Toller, do Kid Abelha, quando em sua canção diz: “garotos perdem tempo pensando em brinquedos e proteção...”. Do lado das mulheres, o problema se repete, mas numa freqüência menor, eu diria.

“Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino... agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido.” 1ª Co. 13:11-12.

Observe o que Paulo está afirmando: ele está nos ensinando que o conhecimento de Deus e a maturidade existencial – holisticamente falando – são coisas que caminham de forma paralela. À medida que minha consciência vai sendo transformada pelos conteúdos do Reino de Deus, vou deixando para trás as “coisas de menino”, ou seja, as futilidades, vaidades e tolices próprias de quem ainda não chegou a tornar-se adulto, e passo a materializar outro tipo de comportamento. Preste atenção: pessoas que possuem um “centro de gravidade” mais adensado são justamente aquelas que, concomitantemente, desenvolveram uma espiritualidade sustentável.  

Num mundo feito apenas para os vencedores, nesta sociedade dos campeões, ter é a grande prioridade para o ser, pois é melhor vencer no mundo do que vencer o mundo! E assim, alienados pelo zeitgeist, presos a uma espiral umbigocêntrica que por fim nos leva a uma total incapacidade de nos enxergarmos, nos auto-discernirmos, vamos envelhecendo, mas, curiosamente, nunca chegamos a nos tornar adultos. Sobre isso, Hermann Hesse afirma: “Ninguém pode ver nem compreender nos outros o que ele próprio não tiver vivido”.

Tenho encontrado muito poucas pessoas que tem idade cronológica compatível com a maturidade existencial. Quando isto acontece, todavia, percebo que há algo em comum entre elas: o fato de estarem sendo capaz de evoluir no discernimento de Deus, de si mesmas e dos seus semelhantes.  

Carlos Moreira

10 fevereiro 2011

Bancos de Ferro


Procusto, personagem da mitologia grega, vivia perto da estrada de Elêusis. Costumava atrair para sua casa, de forma hospitaleira, viajantes solitários oferecendo-lhes abrigo para passar a noite. Ali ele possuía duas camas de ferro, uma menor e outra maior que, “caridosamente”, cedia ao visitante. Entretanto, depois que a vítima adormecia, Procusto a dominava para tentar adequá-la da forma exata ao tamanho do leito. Se o sujeito era alto, e passava das medidas, ele cortava os pés com um machado; se era baixo, esticava os seus membros com cordas e uma roldana. Ao final, mesmo mutilada, a pessoa acabava conformando-se adequadamente ao tamanho da cama, satisfazendo assim o mimetismo e o transtorno obsessivo compulsivo de Procusto.

Olhe para as igrejas dos nossos dias! Veja se os bancos não se parecem com “camas de ferro”? Veja se a mensagem que atrai as pessoas não parece com o “maravilhoso” convite de Procusto aos incautos? Triste, mas o cristianismo de hoje está apenas produzindo bonecos autômatos, ou seja, seres caricaturados, estereotipados, gente de uma rigidez e frieza cadavérica inigualáveis.

Com tristeza percebo que a mensagem, ao invés de fomentar a vida, semeia a morte, ao invés de produzir quebrantamento e pacificação interior, gera presunção e julgamento, ao invés de construir o ser, desconfigura a alma, ao invés de atrair as pessoas, produz nelas repugnância...


Ser crente, nesta geração, é ser engessado, alguém que foi customizado pela igreja como um

produto em série, alguns até vêm com chip! É gente sem consciência, sem senso crítico, apenas um membro de uma confraria de escolhidos que pensa que o sagrado pode ser cartelizado e o Evangelho, normatizado como se fosse uma franquia do divino. Ah moçada, quão distante tudo isso está da mensagem de salvação de Jesus!

Que seja utopia, mas eu desejo um cristianismo que produza gente de barro e não bonecos mecânicos, pois o barro nas mãos do oleiro ganha forma e pode ser moldado novamente, caso o objeto quebre ou perca o seu valor.

Gente de barro é entretecida nas mãos do arte-são, daquEle que cria o “vaso” com vistas a dar-lhe um propósito e um significado. É obra da manufatura diária da vida, que pacientemente constrói coisas boas e belas. Chega de esticar e cortar as pessoas para torná-las iguais, um fiel padrão! Isso pode até fazer sentido na nossa cabeça, adoecida pela religião, mas jamais passou, nem de longe, pelo coração do Pai que está nos céus.

Carlos Moreira

07 fevereiro 2011

Íntimo, Pessoal e Intransferível



A lenda do Rei Artur está presente nas histórias medievais e romances britânicos. Seu reino teria se estabelecido através da resistência contra os invasores saxões no início do século VI. Reza a história que Artur teria sido o criador de uma cidade ideal, Camelot, onde a justiça e a paz imperavam.

Mas para manter a ordem, o Rei dispunha dos 12 Cavaleiros da Távola Redonda e contava ainda com a ajuda adicional de Taliesin, mas conhecido como Merlim. Na verdade, Merlim era um título dado ao sacerdote mais graduado da religião antiga, ele era um mago, um conselheiro que ajudava Artur a tomar decisões.

Estou usando a figura de Merlim não só pela sua imensa popularidade literária, mas, sobretudo, pela função que ele realizava – a de ser um “intermediário” entre o natural e o sobrenatural. Nos dias de hoje, a expressão que melhor qualificaria esta prática seria o xamanismo, pois faz uso e sincretiza experiências etnomédicas, mágicas, metafísicas, religiosas, filosóficas, transe e metamorfose. No mundo contemporâneo ele desponta como o único caminho para o desenvolvimento de uma espiritualidade universal. De forma simplista, expande a mente para perceber mistérios, busca o autoconhecimento, a religação com o sagrado, a natureza e as energias puras, além do aprendizado da sabedoria dos antigos.   


“Vendo-se o povo diante dos trovões e dos relâmpagos, e do som da trombeta e do monte fumegando, todos tremeram assustados. Ficaram à distância e disseram a Moisés: "Fala tu mesmo conosco, e ouviremos. Mas que Deus não fale conosco, para que não morramos". Ex. 20:18-19


Intermediar o sagrado não é coisa nova, nem muito menos surgiu com as práticas perversas do neopentecostalismo. “Traficar influência religiosa” é algo que está presente na origem dos povos. Mudam os nomes dos representantes, de acordo com o culto ou a relgião, mas suas funções são basicamente as mesmas. Eles são xamãs, pajés, oráculos, chefes de terreiro, babalorixás, magos, profetas, feiticeiros, sacerdotes, aiatolás, dentre muitos outros. Citei os mais conhecidos para resumir a lista.
    
Pois bem, entre os Hebreus, tenho desconfiança, a prática começou no texto descrito acima. Lê-lo sem se aperceber de seu contexto sócio-histórico-cultural rouba-lhe suas implicações mais profundas. A Perícope do Sinai – pós-acontecimentos da saída do Egito – revela a manifestação sobrenatural e espantosa do Deus dos Patriarcas através de proezas e milagres realizados por intermédio de Moisés. Deus estava chamando, novamente, para junto de Si o Seu povo, para com ele estabelecer uma aliança eterna, um relacionamento. 


Ora, aquela geração havia se esquecido quase que completamente quem era Eloim. Os especialistas afirmam que durante um período de aproximadamente 400 anos os Hebreus estiveram não só sob a escravidão, mas também sobre a influência do Egito, uma cultura extremamente politeísta. Eles não possuíam esperança, nem sonhos, nem alegria, existiam, não viviam, eram subvencionados por uma “ração”, como se fossem animais, pois trabalhavam em troca de comida. 


Aí de repente, “do nada”, surge Moisés dizendo que vem em nome do Deus “Eu Sou”. Ele promete aquela gente a libertação do poderio incalculável do Faraó. Mas a verdade é que, em sã consciência, ninguém o levou a sério. Só depois de tudo o que “ele realizou” pela “mão” do Todo Poderoso, é que os fatos começaram a mudar de figura. A história vocês conhecem... Voltemos ao Sinai... Deus está ali, presente, Eloim os quer para Si, Ele se revela não a um, ou a outro, mas a todos! É o momento da redenção, da restauração, da libertação! E o que o povo faz diante de tal apelo, desta demonstração de amor? Empurram para Moisés a possiblidade de se restabelecer o relacionamento que, certamente, mudaria para sempre suas vidas sofridas, desgastadas, mortas. 


Olho para os nossos dias... Como tudo isso é atual! Como nós delegamos a outros aquilo que deveríamos fazer. Como imaginamos que só os “escolhidos”, os “ungidos”, os “separados”, devem “subir a montanha” e ir ao encontro de Deus. Não queremos pagar o preço do relacionamento íntimo, não queremos os “40 dias” de comunhão intensa, de revelação, de conforto e de confronto, de tudo o que faz o “rosto resplandecer e a glória do Senhor se manifestar em nós e através de nós!”. Não! Quermeos a “comida pronta”, a palavra “mastigada”, é a religião dos atravessadores. Por isso boa parte do Povo de Deus vive de comer “ração”, na miséria material e espritual, continua sendo escravizado pelo “Egito” – mundo – e debaixo da opressão de “Faraó” – satanás.     

Na verdade, o que temos aqui é algo de natureza fenomenológica, ou seja, parece haver no inconsciente coletivo da humanidade uma herança comportamental que os leva a transferir a outros toda e qualquer possibilidade de interação com o sagrado. É a terceirização da espiritualidade! É como se o cara dissesse: vá lá você! Faça por mim, ore por mim, pregue por mim, seja de Deus por mim, testemunhe por mim, viva por mim, creia por mim! O problema é que Deus não nos trata no atacado, Deus nos chama a um relacionamento íntimo, pessoal e intransferível. Este serviço não dá para ser prestado, precisa ser experienciado na vida!  


Olho com tristeza a “igreja” de nossos dias. A grande maioria dos “figurões” que estão na mídia, ainda que adorados por muitos – “apóstolos”, “evangelistas”, “missionários”, “bispos” – nada mais são do que embusteiros, espertalhões, aproveitadores, valem-se da ignorância do povo e de sua boa fé para ludibriá-los. E aí vem esse negócio de "cobertura espiritual". Ai meu Deus, quanta maluquice! Eu lhe desafio a, numa exegese séria, me mostrar isso nas Escrituras. No fim, o que temos é mais um mecanismos de manipulação – do lado dos líderes, e de transferência de responsabilidades  –  do lado do povo. Mas há quem goste...  


Finalizo lhe dizendo que não foi a toa que Jesus, o Deus Encarnado, quando se manifestou no deserto da palestina, ainda carregava em Si o mesmo apelo do Sinai: “vinde a mim”... Chega de tanta enganação! Lembrem-se de Lutero, usando o apóstolo Pedro “Vocês, porém, são geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo exclusivo de Deus...”. 1ª Pe. 2:9. A Cruz foi erigida, o Sangue foi aspergido, o véu foi rasgado e o Espírito derramado, Deus te fez Sacerdote, Deus te chama a entrar em Sua intimidade e chamá-lo de Pai. Não permita que atravessadores entrem neste caminho, não tercerize este privilégio, só seu, nem com homens, nem com anjos, nem com ninguém!   

Carlos Moreira

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